O JOGO
Harry abriu os olhos e por alguns instantes achou que estivesse cego. Mas passados alguns segundos, pôde distinguir os contornos de um ambiente com paredes e teto no formato de meia-elipse. A muitos metros de distância um pequeno feixe de luz entrava por uma abertura. Sentado com as costas contra uma parede fria e rochosa, Harry tentou levantar-se apesar das dores que sentia no corpo, em parte por causa do tempo que passara naquela posição, em parte por causa do frio que entrava como uma navalha nos seus ossos. Não pôde andar mais de um metro e meio, pois fechadas em torno de seus braços e pernas estavam quatro pesadas correntes presas à parede da caverna.
"Lumus", sibilou uma voz a alguns metros de distância dele. A luz que emanava da ponta de uma varinha exibiu os contornos de um corpo esguio que vinha se aproximando. Quando a silhueta estava a poucos centímetros da área máxima de mobilidade de Harry é que este reconheceu Draco Malfoy.
- Dormiu bem, Potter?
Um sorriso alucinado cortou o rosto de Draco.
- Malfoy, que tipo de brincadeira é essa?
- A brincadeira mais deliciosa que eu já fiz na minha vida – disse Draco, com um olhar vidrado no do outro.
Por alguns instantes Draco apenas fitou Harry, deleitando-se com a antecipação do domínio que detinha sobre ele. Deu alguns passos para trás e com um aceno de sua varinha acendeu uma fogueira.
- Viu, Potter? Não é tão ruim assim. Pelo menos frio você não vai passar. Pode ficar tranqüilo, isso vai ser de igual para igual – disse Malfoy, guardando sua varinha. – Sem varinhas.
Draco lançou sua mão contra o rosto de Harry, fazendo-o cambalear e bater contra a parede.
- Se vai ser de igual pra igual – perguntou Harry descrente, reerguendo-se com um esforço doloroso que tentava disfarçar - por que eu estou acorrentado?
- Se você não percebeu, Potter, eu também estou acorrentado.
- Você está louco, isso sim! Cadê os amiguinhos do seu pai? Te deixaram sozinho aqui comigo?
- Isso é entre mim e você – disse Draco casualmente.
- Pfff, – desdenhou Harry – não há nada entre mim e você, então "isso" não pode ser só entre nós.
Harry pensou ter visto, por um milésimo de segundo, algo que lembrava desapontamento ter perpassado a fisionomia de Draco e se transformado rapidamente em uma expressão de ódio mortal.
- Se não tem nada entre nós, vou te dar algo de mim para você não esquecer – ele respondeu, fechando seu punho e cravando-o com toda a força no estômago de Harry. Uma borbulha de sangue brotou na boca deste e escorreu em forma de filete por seu queixo e camisa. Harry tentou responder ao soco de Draco dando outro em troca, mas este havia saído da sua área de alcance.
Ambos ficaram parados por alguns segundos. Então, bruscamente inclinando seu corpo para frente, Harry conseguiu abocanhar a maçã direita do rosto de Draco, enterrando seus dentes com vontade o bastante para fazê-lo soltar um urro agoniado de dor. Draco, agarrando os cabelos de Harry, bateu sua cabeça contra um trecho particularmente áspero da parede, o que o fez afrouxar sua mordida.
Draco recuou alguns passos, levando a mão à bochecha ensangüentada e admirando, vitorioso, a ira que havia impulsionado no outro. Uniu as duas mãos vagarosamente, numa salva de palmas solitária que ecoou pela caverna.
- Isso, Potter, bom menino! Era isso que eu queria ver! Vamos ver como eu me saio.
Harry viu suas mãos sendo levadas à parede, suas pernas comprimidas entres as de Draco. Mesmo debatendo-se com todas as suas energias, não conseguia livrar-se da força brutal que o menino exercia sobre ele. Antes que pudesse evitá-lo, os dentes de Draco enterraram-se no seu pescoço, parecendo estarem prestes a romper suas veias. Quando achava que estava prestes a desmaiar de dor, Draco afastou os dentes da sua pele, ainda segurando-o firme contra a parede.
- Calminho, calminho... Eu te diria que não mordo, mas bem... isso seria mentira.
Draco soprou leve e vagarosamente a mordida que ele mesmo havia aberto no pescoço de sua vítima. Harry, em meio ao furor, ódio e ferocidade sentiu algo como um arrepio correr pelo seu corpo doído. Pensou ter mantido seu frisson para si mesmo, mas descobriu que não quando Draco perguntou:
- Tremendo de medo, Potter?
Harry desejou não conhecer Draco tão bem, porque conseguiu notar que a palavra "medo" saíra com pouca convicção dos lábios deste. Não era nisto que ele acreditava.
Aproveitando-se do momento de relapso de Draco, Harry dobrou a perna para dar uma joelhada em seu estômago. Draco, porém, foi mais ágil e segurou a perna de Harry e virou-a no ar, o que fez Harry tropeçar, chocar-se contra a parede rugosa e cair ralando as costas sofregamente. Levantando-se, Harry saiu em disparada em direção a Draco, mas, ao atingir seu metro e meio de mobilidade, perdeu o equilíbrio e caiu, seus braços esticados e erguidos no ar pelas correntes. .
- Aaaaaaarrrr!
Harry não levantou, contorcendo-se de dor, estatelado de barriga para baixo no chão.
- Por favor, Potter. Não vai chorar com um tombinho de nada, vai?
Mas Harry continuava imóvel, sufocando gemidos de dor.
- Potter, seu idiota, se você mesmo se matar, eu não tenho mais como brincar!
Vendo que aquilo estava demorando demais, Draco resolveu levantá-lo. Ao erguê-lo, percebeu uma mancha escura em sua camisa. Olhou para o chão e viu uma pedra de cume afiado. Harry provavelmente havia caído em cima dela. Draco, sem pensar, tirou a camisa deste e, vendo o estrago feito, em seguida tirou sua própria e comprimiu-a contra a ferida no canto do tronco de Harry. Percebendo que não havia motivo claro para tanta compaixão quando Harry lançou-lhe um olhar indagador, Draco justificou-se:
- Merda! Ótima hora para morrer! Você imagina o problema que isso vai dar pra mim?
Olhando mais de perto, Draco percebeu que a ferida tinha mais superfície do que profundidade. Não deteve um suspiro aliviado. Harry, percebendo-o, disse:
- Covarde.
Furioso, Draco soltou as correntes de Harry e lançou-se sobre ele fechando suas mãos em torno do seu pescoço, prendendo-o ao chão antes que o moreno percebesse o que estava acontecendo.
Numa tentativa desesperada de fazer o louro sair de cima de si, Harry encravou suas unhas nas costas despidas de Draco. Conseguindo livrar-se de suas mãos, desarmou-o com um soco que o fez desabar. Subiu em cima de Draco, puxando seus braços para cima e segurando-os contra o chão. Notou que tanto ele quanto Draco encontravam-se marcados por feridas e arranhões da cabeça aos pés, suas respirações falhas e ofegantes. Sentiu o mesmo arrepio que lhe havia assombrado alguns minutos antes, mas desta vez não podia perder tempo. Abocanhou um pedaço firme do peito de Draco com mais força do que as duas mordidas anteriores somadas. Ele não queria apenas livrar-se de Draco: queria que ele urrasse, gemesse, sentisse mais dor do que pudesse suportar. Por um momento ele teve maior compreensão das palavras de Draco: Quero ser sua dor...
O suor escorria pelo corpo de Draco. A dor parecia leva-lo aos limites da insanidade. Mas, por que então, algo nele queria continuar a senti-la? O que aquela poção havia feito com ele? Teria ela causado algum efeito colateral inesperado? Seguindo as instruções que a Ojesed Liberatio parecia dar a ele, Draco deu uma joelhada entre as pernas de Harry, fazendo-o perder a força e colocou-se novamente sobre ele.
Harry sentiu então outra mordida, dessa vez em sua boca. Se por um lado a dor era cruciante, por outro lado um calor o inundava – e ele queria mais. Segurando a cabeça de Draco pelos cabelos de sua nuca, Harry livrou-se da mordida, olhou fundo em seus olhos, e, correndo os olhos em volta do seu rosto, viu que sangue seco e fresco de ambos misturava-se em sua boca. Harry inclinou a cabeça pra cima lambendo o sangue do canto da boca de Draco. Prosseguiu, contornando os lábios finos de Draco com sua língua. Draco, por sua vez, deixou que seus lábios se abrissem levemente, como que convidando-o a continuar.
Harry, então, quebrando a distância entre eles, invadiu a boca de Draco, preenchendo-a com a sua, explorando todo o espaço que conseguiu alcançar. As unhas de Harry corriam pela pele de Draco enquanto os dois fundiam-se em uma explosão faminta. Draco, puxando Harry pelos cabelos cada vez para mais junto de si, contorcia-se de prazer e vontade. Harry desceu suas mãos pela pele de Draco, sentindo seu suor quente compensar a frieza que a fogueira não tirara completamente da caverna.
Draco, possuído pelo desejo, afastou sua boca da do outro, esquadrinhando o corpo deste com sua língua úmida, sentindo as tremulações que causava na pele de Harry. Quando chegou ao seu baixo-ventre, levou a mão ao zíper de sua calça. Nesse momento, sentiu um par de mãos repeli-lo, fazendo-o rolar pelo chão áspero da caverna. Levantando-se, Draco viu apenas uma silhueta escura correndo, já quase à altura da saída da caverna. No chão, jogada, estava uma camisa branca, ensopada de suor e sangue.
