De um lado da mesa estava Saga, olhando atentamente a pessoa a sua frente. Tinha algo entranho, e tinha certeza disso.

- Por que June saiu correndo de seu quarto? – não recebeu nenhuma resposta, então insistiu – Os cabelos dela estavam desalinhados... Você tentou forçá-la?

- Não. – respondeu amuado, sem olhar para Saga.

- Então por que ela não ficou pro jantar? E por que estava quase chorando quando saiu daqui praticamente desesperada?

- Não creio que as coisas da minha relação com a minha noiva sejam da sua conta, Saga. – disse olhando seriamente para o irmão.

- Não seria da minha conta se eu não tivesse a certeza de que este noivado está fadado ao fracasso.

- Você se julga muito esperto, não é Saga? Só porque o Grande Mestre está sempre te chamando ao templo principal não quer dizer que sabe tudo sobre a vida. Principalmente sobre a vida dos outros.

- Conheço você tão bem que sei quando está nervoso. – viu Kanon expelir o suco pela narina e depois tossir convulsivamente, mas continuou assim mesmo – Você fica tentando desviar do assunto, como está fazendo agora. E muitas das vezes usa um tom agressivo, tal como usou para dizer que não entendo o que se passa ao meu redor.

Recuperando a compostura, Kanon utilizou o tom mais calmo possível:

- De onde tirou essa idéia que estou nervoso, Saga? Não tenho nenhum motivo para ficar nervoso.

- Não tem mesmo?

Kanon sentiu uma ponta de sarcasmo na pergunta do irmão. Isso só podia ser uma coisa. Ele sabia de alguma coisa que ele não estava sabendo. Tentou pensar em tudo que poderia estar dando essa vantagem a Saga. Aquele sorriso triunfante que ele exibia deixou Kanon preocupado.

- Devo ter me enganado quanto a você estar nervoso. – Saga deu uma longa pausa assumindo uma feição encabulada. Então ele se vira de costas, e até seu tom de voz parecia ter mudado também – Acho que June não deve ter tido tempo para dizer-lhe que estava querendo desistir do casamento.

Kanon levantou-se da mesa bruscamente, derrubando a jarra de suco que estava na ponta da mesa. Saga olhou para ele, depois para os cacos da jarra. Os olhares dos dois se cruzaram, como se estivessem medindo para saber quem estaria mentindo. "Não quero nem saber se ele sabe que só estamos noivos por causa daquele incidente com June." Pensou Kanon pegando o colarinho da camisa de Saga erguendo-o do chão:

- O que você está querendo dizer com isso? – estreitou o olhar e falou entre os dentes – Por que está fomentando intrigas, Saga? Você pode ser meu irmão gêmeo, mas não o perdoarei se você me afastar de June.

Saga afastou mão que o erguia do chão, fitando profundamente dentro dos olhos do irmão e disse:

- Se duvida de mim porque não pergunta a June?

Tempos depois...

A vila das amazonas sempre foi um lugar calmo, onde a única movimentação começava pela manhã com a saída das amazonas para a arena, e no inicio da noite quando retornavam de um dia estafante de treino. Quando chegavam à casa só tinham tempo para tomar banho, jantar e dormir para recomeçar toda a rotina no dia seguinte. Nenhum homem tinha permissão para entrar nos domínios das amazonas. Bem, quase nenhum.

A porta da casa de uma das amazonas foi escancarada sem a menor cerimônia, pegando a dona da casa desprevenida, gritando de susto. Quando ela viu quem era que estava a sua frente, teve vontade de agredi-lo, mas ao se lembrar de como estava vestida, ou melhor, de como não estava vestida, ficou paralisada. Segurou firmemente na ponta da toalha para que não caísse se tivesse que fazer um movimento brusco. A pessoa que invadiu sua casa devorava com o olhar sob seu corpo de cima a baixo. Viu quando ele deu um passo a frente, então recuou um passo pra trás, encostando-se à porta do banheiro:

- Precisamos conversar.

- Não temos nada pra conversar. – Kanon tentou se aproximar, e ela correu para trás da mesa, ele foi atrás dela que corria dando a volta na mesa sempre segurando a toalha – Você me expulsou da sua cama, lembra-se?

- E como eu poderia esquecer? – perguntou em tom sombrio - Então na primeira briguinha você correu para o meu irmão e disse que queria terminar o noivado.

- Eu não falei com Saga quando sai de seu quarto. Eu... eu... apenas disse...

- Desembucha de uma vez, June. – Kanon parou de tentar alcançá-la, fitando-a nos olhos enquanto perguntava rudemente – O que você falou pra Saga?

- Eu... eu pensei que era você na minha frente, e por isso disse que achava melhor terminar o noivado.

- Você fez o quê? – Kanon caiu pesadamente na cadeira que rangeu em protesto a aquele peso extra sobre ela. Baixando o olhar, murmurou – Deuses, o que aguarda para piorar meu dia? Se tiver mais alguma coisa, jogue logo encima da minha cabeça, e me poupe de mais decepções.

June conseguiu escutar o que ele havia dito, e ficou observando-o de uma distancia segura. Seria impressão sua ou Kanon parecia mesmo triste com o que a idéia do término do noivado? Ele deveria se sentir feliz por ficar livre desse compromisso para ter a liberdade de correr atrás daquela mulher. Kanon sempre a espezinhava, sempre era rude com ela quando Saga estava por perto, e seus beijos sempre foram como uma ameaça caso não agisse conforme seu desejo. Mas a simples idéia de terminar aquele noivado deixara abatida. Sobretudo depois do que houve no quarto de Kanon. A repulsa dele quando estavam tão próximos... Aproximou-se dele interrompendo seus pensamentos querendo ver de perto se poderia descobrir o motivo daquele ar infeliz que o envolvia. Com cuidado para não revelar seu corpo mais do que a toalha revelava, segurou-a firmemente e desceu até ficar de joelhos em frente ao ex-marina. Passaram-se alguns segundo até que seus olhos se encontrassem. Foi um erro, pensou June. Estava se sentindo atraída pelos lábios dele, como uma mariposa fica atraída pela beleza do fogo. Sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo. O que estava sentindo por ele não podia se resumir em outro nome: atração pelo fogo. Tal como a mariposa e o fogo. Mas isso a fez lembrar que o fogo era perigoso, assim como Kanon era um perigo para sua sanidade. Fez menção em afastar-se, mas ele foi mais rápido, segurando sua mão. Seus rostos estavam bem próximos, e ele tocou-lhe os cabelos molhados. June sentiu o rosto queimando com aquele simples gesto. Não conseguiu impedir o impulso que a fez tocar o rosto dele, assim como não conseguiu afastar-se quando Kanon tomou seus lábios com ternura. Aquele beijo estava sendo diferente de todos os outros que já havia provado dele. Era como se aquela pessoa a sua frente não fosse o mesmo que tanto lhe irritava. June fechou os olhos e se deixou levar pelo prazer daquele beijo. Nem soube dizer para si mesma quanto tenho estivera com os lábios colados ao dele, nem quando ou como foi parar encima do colo dele. Quando abriu os olhos, pôde ver o reflexo de seu desejo estampado nos olhos de Kanon.

- É melhor você se vestir. – Kanon disse com um fio de voz rouca, fazendo-a levantar-se de seu colo.

- Está me repudiando... outra vez? – perguntou quase sem voz, sentindo o calor que tinha se instalado em seu rosto percorrer outras partes do seu corpo.

- Não! – negou prontamente, como se tivesse receio que June se afastasse de vez – Na verdade o que eu mais queria fazer agora era tirar essa toalha do seu corpo... queria vê-la nua, tocar sua pele macia, e deixar as coisas acontecerem... mas...

June tocou-lhe o rosto suavemente. Podia sentir a duvida corroer-lhe a alma. Nunca poderia imaginar Kanon inseguro daquele jeito. Abraçou-o, puxando para junto de si, e a cabeça dele ficou encostando-se a seus seios. Kanon estava com a respiração ofegante, como se sua alma estivesse travando uma batalha. Acaricio-lhe a nuca, e sentiu o arfar dele contra a pele sensível do colo. Ele a abraçou, beijando-lhe aquela área, subindo lentamente até encontrar-se com seus lábios. June entreabriu os lábios para que ele lhe penetrasse a boca com a língua sequiosa. O beijo parecia durar uma eternidade, e só se afastaram um pouco quando seus corpos protestavam a procura de ar. Fitando profundamente os olhos dela, perguntou com a voz rouca:

- Ainda vamos nos casar, Tétis?

Kanon estranhou o ato brusco dela, afastando-se de seu corpo, e aquele olhar raivoso.

- Como ousa perguntar se quero me casar com você me chamando pelo nome de outra?

- Outra? Do que você está falando? – perguntou confuso.

Kanon estava perplexo, sem entender tudo aquilo. Ela estava realmente com muita raiva. Segurou-lhe a mão para impedir que corresse para se trancar no banheiro.

- Não se faça de desentendido, Kanon. – ela se debatia tentando se livrar dele, e sua toalha quase caiu. Kanon ajudou-a manter a toalha no lugar mesmo sob os protestos de June, abraçando-a por trás. Sua voz soou com desgosto quando perguntou sentindo-se imóvel com aquele abraço de urso – O nome daquela lá é Tétis, não é?

- O que a Tétis tem haver conosco, June? Estávamos nos entendendo tão bem...

- Até me perguntar se eu ainda queria me casar com você. – completou com desgosto.

- E qual é o problema nisso? Pelo amor de Deus, June, não consigo te entender. Ficou me atiçando e agora faz tempestade em copo d'água sem motivo algum.

- Sem motivo algum? – June começou a rir com sarcasmo – Acha mesmo que gostei de ter sido chamada pelo nome de outra? Eu não sou sua preciosa Tétis... Agora me lembro. Era por essa mulher que você estava amando e que era impossível tê-la por causa do nosso noivado.

Kanon solto-a abismado com o que havia escutado, e ela saiu correndo, trancando-se no banheiro. Não fez nada para impedi-la, e agora estava arrependido por isso. Aproximou-se da porta, batendo e chamando por seu nome.

- Vá embora, Kanon. Não quero olhar pra você. Nunca mais.

- JUNE!! ABRA ESSA MALDITA PORTA AGORA!

Enquanto isso, na oitava casa...

Milo acabara de entrar em sua casa. Estava tudo escuro. Já fazia tantas horas que tinha saído de sua casa. Acendeu as luzes para encontrar o caminho, e seguiu em frente até chegar à entrada do quarto, detendo-se por alguns segundos. Não deveria se preocupar com o mau humor da jovem sereia, afinal de contas se ela não acendeu nenhuma luz na casa inteira só podia significar que devia estar dormindo. Dormindo ou passando mal? Rapidamente Milo entrou no quarto ascendendo à luz, esperando encontrá-la febril ou algo do tipo por causa do veneno dos escorpiões que ainda podiam estar correndo por seu corpo. A cama estava vazia. Então correu para o banheiro, encontrando-o também vazio.

- Onde será que ela foi naquele estado tão frágil? – se perguntava voltando pra o quarto, e só então viu um papel sob a cama. Desdobrou-o e começou a ler, dando um sorriso – "Obrigada por tudo." É só isso que tem a dizer, sereia ingrata? Quem se importa? Agora terei minha cama só pra mim.

Milo deitou-se na cama, e ficou olhando o tento. A cama ainda exalava o cheiro dela. Talvez a idéia de ter aquela cama só pra ele agora não fosse tão bem vinda quanto no momento em que disse essas palavras.

Vila das amazonas, casa de June

- NÃO! Vá embora. Saia da minha casa... e da minha vida. – murmurou com tristeza.

- June, se não abrir essa porta eu juro que vou arrombar.

- ME DEIXA EM PAZ. – gritou em desespero, temendo que ele fizesse mesmo o que havia dito.

Kanon ficou na duvida se deveria ou não tentar entrar. Talvez fosse melhor deixá-la se acalmar antes de ter um dialogo com ela. Já estava se afastando quando escutou o soluço alto vindo do outro lado da porta. No instante seguinte um estrondo se é ouvido, e a porta jazia no chão, aos pedaços. June não acreditava que ele tinha mesmo feito aquilo. Havia ficado em silencio, sem fazer nenhuma ameaça por isso se deixou levar pelas emoções. Encolheu-se um pouco, estava assustada com a atitude dele. Sabia que Kanon estava com raiva, e que dessa vez não teria escapatória. Certamente ele aplicaria uma de suas punições. Já chegou a admitir para si mesma que às vezes chegava a gostar, mas nas ocasiões em que acontecia ele não estava com uma raiva fora do controle. Escutou os passos lentos em sua direção, encolhendo-se um pouco mais, tentando conter o choro e o soluço. Quando Kanon abaixou-se para ficar cara a cara com ela, virou o rosto para não deixá-lo ver as lagrimas. Sentiu seu queixo ser segurado com gentileza, e logo os pares de olhos estavam fitando seu rosto. Não esperava ver aquela expressão triste nos olhos dele. Não conseguia entender porque ele estava assim.

- Você estava mesmo chorando... – sua voz soou atônita. Com a mão tremula, passou o polegar em sua face para limpar as lagrimas que voltava a descer – Não gosto de fazê-la chorar.

- Então por que me trata tão mal?

- E por que você tinha que ter esse rosto inocente? Sempre que está sem mascara me faz pensar em te proteger.

Kanon envolveu-a nos braços, beijando-a com ternura. June não deveria achar aquela cena bonita. Kanon havia arrombado a porta do banheiro, a feito chorar, e para deixar tudo mais estranho ainda, estava apenas com uma toalha cobrindo seu corpo. Deus, onde ela estava sentada? Na privada, e tudo o que ele fazia era beijar com suavidade como se fosse à coisa mais natural do mundo. Sentiu seu corpo ser envolvido por aqueles braços, e logo estava aninhada de encontro ao peito dele. Um certo temor apossou de seu ser quando percebeu para onde ele estava indo. Kanon a depositou na cama, saindo a seguir, e June conseguiu suspirar depois de tantos segundos com a respiração suspensa. Sentiu um alivio e ao mesmo tempo que estava decepcionada. Não entendia o que se passava com si mesma. O alivio que sentiu a pouco desapareceu completamente quando viu que Kanon havia retornado. Talvez tivesse pensado melhor, e agora faria com ela o que pensou em fazer quando estavam no quarto dele.

- Nem pense nisso, Kanon. Eu não vou...

Kanon mostrou o que trazia nas mãos, e nem esperou que voltasse a protestar. Subiu na cama, e ficou atrás dela, passando a toalha ao longo dos cabelos molhados. O toque era tão suave que June pendeu a cabeça para trás, relaxando aos poucos. Depois de secar o excesso de água dos cabelos dela, pegou a escova de cabelos encima do criado-mudo, e passou, desembaraçando lentamente cada fio.

- Não sou tão mal assim... – protestou ao lembrar-se das palavras dela – Em algum momento a machuquei quando treinamos juntos?

- Não! – negou com tanta convicção que se assustou consigo mesma – Não é disso o que estou falando... Naquele momento em seu quarto...

- Não quero falar sobre isso. – interrompeu-a enquanto tentava se concentrar naqueles movimentos repetitivos.

- Você não quer falar, mas eu quero. – retrucou amuada – Você me expulsou de seu quarto por causa daquela lá, e há pouco me chamou pelo nome dela. O que você acha...

- Olha quem fala! – interrompeu bruscamente ao mesmo tempo em que parava de passar a escova por seus cabelos – Você me chamou pelo nome do meu irmão! Não tem nenhum direito de ficar irritada comigo.

- Ah! Então você quis se vingar, não é? Pois bem, saiba que odiei ser chamada pelo nome daquela lá.

- Eu não quis vingança nenhuma, June. Apenas... nem sei o que aconteceu.

Então voltou a escovar os cabelos dela para tentar desviar sua mente daquele assunto. Sentia-se magoado com tudo o que havia acontecido mais cedo. Aquele dia estava sendo longo e desgastante.

- Você ainda a ama? – June perguntou baixinho, como se não quisesse que ele escutasse a pergunta. Talvez por medo de escutar a resposta.

- Eu... talvez. Não sei mais, June. Há muito tempo queria voltar a vê-la. E quando a vi na minha frente hoje, tudo ficou confuso. – Kanon soltou a escova, e abraçou June, afundando o rosto naqueles cabelos sedosos e perfumado – Tudo o que tenho certeza é logo estaremos casados.

Ela tentou se afastar, mas Kanon a segurava com firmeza.

- Você teria coragem de sacrificar sua felicidade e a minha só por causa de uma decisão que tomou e que não quer voltar atrás por causa do seu orgulho? Eu poderia deixar de ser amazona, e partir do santuário. Assim você não seria obrigado a casar comigo.

- Não seremos infelizes, June. Seu corpo responde ao contato do meu com muita facilidade. Tudo o que tenho que fazer é dar um jeito de fazê-la esquecer meu irmão.

- Não dará certo, Kanon. Eu não quero apenas sexo. Quero amor, cumplicidade, amizade...

- Confie em mim, June. Teremos tudo isso e muitos mais. Apenas precisamos de mais tempo sozinhos para nos conhecer melhor. – Kanon deitou-se na cama, puxando a mão dela e fazendo-a se acomodar em seu ombro – Agora venha, estou exausto e não quero percorrer todo esse caminho para o templo quando posso dormir abraçado com minha noiva.

- Mas...

- Fique tranqüila, gatinha. Eu só quero dormir ao seu lado. Tem a minha palavra que não farei nada, além disso. – deu um beijo na testa dela, pegou um lençol e a cobriu. – Boa noite, June.

- Boa noite, Kanon.

O silencio reinou naquele quarto. Mas isso não durou muito. Primeiro Kanon remexia-se, tentando afastar um pouco, depois era June que se aproximava dele. Kanon tentou se afastar mais um pouco, percebendo logo a seguir que já estava na beirada da cama. Soltou um longo suspiro ao sentir que ela havia se aproximado novamente:

- Por favor, June. Eu to com sono. Se não parar com isso não sei o que farei.

- Eu não fiz nada. Apenas estou com um pouco de frio e me aproximei mais.

Acontece que não era apenas isso. June nem se dava conta que seus lábios roçavam suavemente no ombro de Kanon, ou quando o hálito morno da respiração soprava próximo ao seu pescoço, deixando o ex-marina em completo desespero. E aquela mania de ficar fazendo círculos em seu abdômen já estava demais. Só mais um pouco e...

- June, saia da cama agora.

Templo de gêmeos

Saga andava de um lado para outro. O que estaria acontecendo na casa da June para Kanon demorar tanto a voltar? Depois do que disse para seu irmão era certeza que ele havia ido até a casa dela para perguntar. Não acreditava que fossem demorar tanto para decidirem se deviam continuar o noivado ou não. Sabia que havia algo muito errado naquela historia toda, e a confirmação daquela idéia tinha sido o que June havia lhe dito mais cedo sobre romper o noivado. Chegou a duvidar desse tipo de pensamento depois que ela disse com todas as palavras que estava apenas tentando atormentar Kanon com a idéia de desmanchar o noivado. Ela ficou muito tempo no quarto com ele. Chegou até a sentir uma pontada de inveja quanto ao que poderiam estar fazendo entre quatro paredes. Talvez tenha sido por inveja que tentou interromper os dois chamando-os para jantar cinco minutos adiantados. Tudo em sua mente mudou drasticamente quando a viu sair do quarto correndo, tentando conter as lagrimas. Alguns minutos depois, Kanon aparece para jantar, com os cabelos ainda úmidos. Aquilo o deixou irritado mais que o normal. Kanon estava meio aéreo, sem prestar muita atenção ao que dizia a ele. Só prestou atenção quando mencionou o nome de June.

Um baque surdo chamou a atenção do cavaleiro de gêmeos. Caminhou até a parte de trás da casa, de onde parecia ter vindo aquele som. Logo na sua frente havia alguém caído no ultimo degrau. Pela cor do cabelo já sabia de quem se tratava. Mas o que ainda estaria fazendo ali, no santuário? Principalmente estar caída ali no degrau. Chegou perto, tocando-lhe para ver se estava bem. Ela levantou o rosto, e Saga pôde ver seu rosto banhado em lagrimas.

- Com tantas casas no santuário, tinha que tropeçar no degrau dessa casa? Os deuses devem estar querendo zombar de mim.

- Machucou-se? Se tiver quebrado alguma costela será melhor não fazer movimentos bruscos para não perfurar algum órgão.

Ela apenas meneou a cabeça, negando. Saga deduziu que suas lagrimas não se deviam a um ferimento comum, e sim uma ferida em sua alma. A mulher que estava na sua frente amava realmente o homem que se casaria com outra dentro de poucos dias. Mesmo sob o protesto dela, ajudou-a a levantar-se. A mão dela estava tremula, a pele estava meio quente, como se ela estivesse com febre. Seus olhos se encontraram, e Saga se assustou quando ela se jogou em seus braços. Teve o ímpeto de tentar afastá-la, pois imaginava o que estava se passando em sua mente:

- Ainda bem que foi você que me encontrou nesse estado lastimável, Saga.

Saga arregalou os olhos, surpreso. Nunca poderia imaginar que uma pessoa que havia conhecido há tão pouco tempo pudesse distinguir ele de seu irmão gêmeo.

Continua...