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Special Chapter
Dean entrou na igreja, ouvindo a porta de carvalho bater com força atrás de si e chacoalhou um pouco a água que havia acumulado em suas vestes por causa da forte chuva lá fora. Viu o padre local conversando com uma mulher que ele não se preocupou em reconhecer. Sua atenção estava voltada para o homem de terno em frente à lareira acesa, então se aproximou.
- Dean Winchester – o homem moreno se virou e sorriu ao reconhecê-lo. – Eu nunca pensei que você voltaria a pisar num lugar sagrado.
- Como se eu tivesse algum motivo pra isso, Gabriel – o loiro resmungou. – O que você quer?
- Foi você quem me chamou – o anjo disse, sentando-se numa das poltronas vazias e macias. – É curioso o seu empenho desde que... – Gabriel sorriu maliciosamente. – O pequeno Sammy disse "sim".
- Você não é mais um anjo, Gabriel, mas eu quero saber onde os outros estão – Dean puxou um maço do bolso e acendeu um cigarro, sem se importar. Aqueles últimos cinco anos haviam mudado totalmente seus hábitos. Desde que Sam dissera "sim" à Lúcifer. Desde que o Apocalipse realmente começara a acontecer, e o Winchester mais velho não estava realmente preocupado com a sua saúde.
- Dean Winchester fumando – Gabriel ironizou. – Isso é uma das coisas que eu jamais pensaria em ver. Você pode ter todos os vícios do mundo, mas cigarro?
- Não enche – o loiro se ocupou em tragar o cigarro calmamente, em silêncio, enquanto pensava. Quando acabou, jogou o resto na lareira e se virou para o anjo, que se levantou e caminhou até perto do Winchester. – Vocês realmente não vão ajudar.
- Eu já disse, Dean, o que você chamam de "Apocalipse" eu chamo de "jantar de domingo" – Gabriel comentou. – Mas você não está preocupado com isso. Com o inferno, provavelmente.
- Eu não vou sobreviver pra ver o final dessa merda toda mesmo – o loiro balançou os ombros. – É claro que eu estou preocupado pra onde eu vou. O inferno não é um lugar bom pra passar o fim de semana, se você me entende.
- Não muito – Gabriel comentou. – Mas, infelizmente, garotão, é pra lá que você vai.
- Animador.
- Mas, também, Dean – o anjo se aproximou, com um sorriso malicioso nos lábios finos enquanto observava o Winchester. – Eu sei no que você anda pensando. Desde aquela noite depois que Zachariah te mandou pro futuro. Naquele sonho. – Dean prendeu a respiração por alguns momentos, parecendo tenso e desconfortável. – Ah, você se lembra, não é?
- Quem mais sabe? – o loiro perguntou.
- Eu, você e o maninho Lúcifer – Gabriel comentou, distraído. – Eu acho que isso já garante sua passagem só de ida lá pra baixo.
- E as coisas que eu já fiz? – Dean perguntou, se aproximando da grossa Bíblia, a folheando. – Não valem nada? Tudo o que eu já abri mão por causa de vocês e do seu deus canalha... regras infindáveis, regulamentos sem sentido, quem sobe, quem desce – com raiva, fechou a Bíblia. – E por que. – e a soltou no chão, fazendo um barulho alto e surdo que ecoou pelo lugar. – O que aconteceu entre mim e Lúcifer não é da sua conta e nem da de ninguém. Só nossa.
- Belas palavras, Winchester – Gabriel comentou. – Mas, mesmo tendo um caso com Lúcifer, você ainda vai pro inferno. Você está ferrado, amigo.
- Obrigado pelo apoio, Gabriel – Dean ironizou. – Eu te vejo lá então.
- Eu espero que não – o anjo sorriu marotamente e enfiou um pirulito na boca. – Mas aproveite o resto de sua vida. Se é que você vai conseguir.
- Eu vou, pode ter certeza – o loiro deu um sorriso malicioso.
- Ah, Winchester, e ainda não quer ir para o inferno – Gabriel meneou a cabeça. – Com esses pensamentos...
- Eu já tenho a minha passagem garantida mesmo. Bye, bye.
~DxL~
Dean suspirou enquanto engatilhava a arma. Era exatamente a mesma paisagem que havia visto cinco anos atrás, quando Zachariah lhe mostrara o futuro. Lúcifer tinha razão. Era exatamente ali que acabava. De tudo que havia feito ou tentado impedir o Apocalipse, não tinha mudado nada.
Mas, pelo menos se esforçara o suficiente para não se tornar aquele Dean que conhecera em 2014. Pelo menos uma pequena parcela de seu íntimo humano havia se salvado de toda aquela confusão. Fora humano o suficiente para deixar o que restara de seus amigos a salvo.
E estava ali, de novo, cara-a-cara com Lúcifer, agora no corpo de Sam.
Sam. Não havia ironia pior. Dean tinha certeza aonde tudo aquilo iria acabar, e esse pensamento fez uma corrente elétrica percorrer sua espinha incomodamente. Mesmo com a velha Colt nas mãos, sabia que aquilo não iria funcionar. Por isso a largou automaticamente quando seus olhos se encontraram com os de quem ele sabia não ser mais o seu querido irmãozinho há muito tempo.
- Oh. Olá, Dean.
- Lúcifer.
- Sem formalidades hoje? – o anjo sorriu marotamente. – Ou aquela conversa antiga de "vou matar você"?
- Como se adiantasse alguma coisa – Dean comentou, puxando um cigarro e o acendendo. – Eu acho que você não se importa.
- Bem, a saúde é sua mesmo, então eu não devo – Lúcifer balançou os ombros. – Você parece pensativo. Algum problema?
- Eu só estava pensando se você quer que eu traga chá e bolinhos pra essa conversa melosa – o loiro sorriu ironicamente.
- Não é uma má idéia – Dean rolou os olhos, impaciente, e apagou o cigarro, o jogando em qualquer canto, distraído. – No que mais está pensando?
- Na ironia de como essa merda toda vai acabar – o Winchester mais velho observou o irmão brincar com uma rosa vermelha e milagrosamente intacta no ambiente semi-destruído em que estavam. – Mas você já sabia disso, não é mesmo? E está se divertindo.
- Bem, é como dizem: mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo, não é mesmo? – ele sorriu levemente e deixou a rosa de lado, se virando para fitar o Winchester daquela maneira profunda.
Dean suspirou. Por mais que quisesse, não conseguia desviar o olhar.
- Pelo menos alguém tem que se divertir por aqui – comentou.
- Conhece a fábula do escorpião e do ganso, Dean?
- Por favor, você não vai me contar histórias para dormir agora, vai? – ele tentou parecer irônico, sem sucesso. Lúcifer sorriu e, distraidamente, se aproximou do loiro, pousando a mão em seu ombro. O peso da mão tinha um quê de algo incomodo, funcionava como se atasse uma corrente entre ele e Dean. Então deslizava a ponta dos dedos pela porção de pele quase na altura do pescoço, exposta pela gola da camisa do rapaz.
- Certa vez, após uma enchente, um escorpião queria atravessar o rio – disse ele, ouvindo o loiro suspirar, mas não se importou. – Mas, como não sabia nadar, pediu auxílio a um ganso que ali perto estava. O ganso disse "Pois ora qual, meu colega escorpião. Poderás me picar no meio do caminho e sou muito jovem para morrer." – ele voltou a caminhar em volta do Winchester mais velho, que estava atento a todos os seus movimentos, mas logo Lúcifer parou e o fitou profundamente. – O escorpião lhe disse "Mas, caro amigo ganso, não vês que, se lhe picar, também morro afogado?" Então o ganso, convencido, aceitou levar o escorpião em seu dorso.
Dean umedeceu os lábios quando Lúcifer lançou aquele olhar que mais detestava, que era parecido com o de um lobo feroz prestes a devorar sua presa, antes de voltar a andar ao redor dele, parando em suas costas novamente e se aproximando.
- Mas, no meio do caminho, o escorpião cravou seu ferrão no ganso. E, enquanto morria, atingido pelo veneno, a ave perguntou "mas por que fizeste isso se vais morrer também?"
Dean sentiu um arrepio calamitoso percorrer sua espinha quando sentiu Lúcifer voltar a apertar seu ombro de um modo quase dolorido, mas não se virou para fitá-lo. Era bem mais fácil fitar o vazio enquanto ouvia a voz de Sam, mesmo que soubesse que não era ele.
- Sabe o que o escorpião disse ao ganso, Dean?
- "É a minha natureza" – disseram juntos, quase num sussurro, enquanto o loiro fechava os olhos e sentia os braços de Sam envolverem sua cintura num abraço íntimo, mas não fez menção de se afastar.
- Exatamente... é a minha natureza – sussurrou enquanto distribuía leves beijos pela nuca do Winchester mais velho – Por isso... perdoe-me.
- Por quê? – Dean sussurrou, fechando os olhos novamente ao sentir os dedos de Sam entrelaçarem os seus.
- Porque é a minha natureza... mas eu posso fazer algo por você, Dean – ele trouxe o corpo do loiro para mais perto. – Posso tornar aquele sonho real... como eu sei que você deseja...
- Esperei cinco anos por isso... – Dean respondeu vagamente.
- Mesmo sendo o Sam?
- Não importa – Dean sussurrou e se virou, fitando aqueles olhos tão parecidos com os seus, e tão diferente ao mesmo tempo. Era terrível que fossem as feições de Sam guardando o olhar em chamas de Lúcifer. Seria lógico negar, afinal estava agindo sem o consentimento do irmão. Porém, não se importou quando Lúcifer utilizara um desconhecido. Recusar seria agir como um hipócrita e lutar contra todos seus instintos primários. Aquele homem diante dele, ainda que parecesse seu irmão, ainda que fosse o corpo de Sam, era outro que estava ali e que desejava absolutamente. Escolheu a resposta óbvia. – Não foi o corpo que me atraiu aquele dia. Não vai ser hoje que ele vai me atrair.
- My boy – Lúcifer sorriu e afagou o rosto do loiro com certa delicadeza. – Sempre ligeiro...
- Se vai me envenenar, escorpião, espere o ganso tolo chegar à terra firme.
Logo estavam se beijando como se suas vidas dependessem daquilo. Mais que beijar, as bocas unidas trocavam ar vital, os dois homens respirando juntos como se formassem um único sistema. Não importava se alguém pudesse vê-los. O que realmente importava para Dean naquele momento eram as mãos de Sam procurando seu corpo por debaixo do tecido fino das roupas enquanto era empurrado contra a parede do prédio semi-destruído.
O anjo quebrou o enlace, sorrindo levemente, e se ocupou sugar pontos do pescoço do Winchester mais velho até que surgisse uma gama de rastros avermelhados. Dean pendeu a cabeça para trás levemente, dando mais espaço para os lábios atrevidos do moreno.
- Achei que tivesse se arrependido – sussurrou Lúcifer, dando uma leve mordida no lóbulo da orelha de Dean, que gemeu baixinho e entrelaçou os dedos nos cabelos castanhos do outro.
- Nem um maldito dia.
- Isso é bom – sussurrou Lúcifer, sorrindo levemente.
Arrependimento. Isso talvez atingisse Dean com toda força quando o encantamento de Lúcifer desaparecesse e ele compreendesse que o corpo que o prensava com força e o impedia de fugir era seu irmão mais novo. Aquilo era uma brincadeira cruel de Lúcifer e Dean sentia-se estúpido porque a familiaridade com o cheiro e o calor de Sam despertava um segundo sentimento, de que tudo ficaria bem porque estava em casa. Era repulsivo. Porém, o plano de Lúcifer havia funcionado perfeitamente: mesmo que pudesse, não fugiria dali. Era tudo o que tinha e o demônio sabia disso.
Nunca pronunciaria a tal palavra, era mais fácil deixá-la escorrer e se perder no jogo das mãos, nas línguas, nas pernas enroscadas e a ereção roçando sobre a ereção do outro. Era mais fácil, necessário e irresistível firmar um pacto desse modo. Ao invés de explicar porque o requinte do re-encontro, ou admitir que mais do que nunca ter-se arrependido, apenas a ilusão de um sonho criara algo maior que mero jogo de sedução. Não podia. Lúcifer era a anti-tese da impronunciável palavra, ainda que por ela definido. E Dean jamais acreditaria e se acreditasse, jamais admitiria. Era mais fácil sexo que procurar entender como isso tinha a ver com uma forma estranha, particular, de amor, um amor puro e estranho ao mesmo tempo, que esteve presente todo aquele tempo.
A aspereza da parede cortou levemente o rosto de Dean quando Lúcifer o fez rodar sobre o próprio eixo e apertou todo o corpo contra o do loiro. Ofertas de sangue faziam parte de sua missa. Lambeu o corte e então, os próprios lábios. Muito hábil, soltou primeiro o cinto, depois o zíper do jeans de Dean. Sem se importar com o fato de estarem em um beco de uma região decadente da cidade, fez carícias muitos íntimas em Dean.
- Gosta disso, irmãozinho?
Ele quis responder com algum insulto, mas tudo que conseguiu foi produzir um som entre um suspiro e um lamento. Aquele era Sam? Aquele era Lúcifer? Não estava conseguindo ser muito lógico, mas era como se fosse ambos e isso era desnorteante.
- Eu quero você – respondeu.
- Quem? – o outro perguntou, a voz conhecida em um tom irritantemente divertido.
Dean respondeu com um murmúrio inaudível, à mercê do escorpião.
- Não consigo te ouvir.
- Lúcifer, me deixa olhar nos teus olhos.
Foi estranho. Por um momento ele parou de prensar o homem contra o cimento áspero. Então o abraçou novamente e beijou várias vezes a nuca e as têmporas de Dean. Finalmente, deixou que ele vira-se o corpo para encará-lo. Nenhum disse qualquer coisa por alguns momentos, apenas mantiveram uma forma de diálogo mudo e incompreensível para qualquer outro ser.
- Você já é meu – Lúcifer quebrou o silêncio, sussurrando as palavras como se significassem algo tenro e doce.
Dean respirou fundo, como se o fizesse pela primeira vez e moveu a cabeça afirmativamente, entregue ao abraço do outro, que tinha adquirido por completo uma presença própria, como se nem mesmo o corpo de Sam estivesse ali.
Logo, mais toques e mordidas e chamas contidas na palma da mão se sucederam entre murmúrios e palavras inteligíveis trocadas por amantes. Dean estava a pouco de ficar totalmente nu, enquanto que o outro havia liberado o próprio membro e o insinuava por entre as coxas e nádegas do loiro.
Um pouco de saliva e Lúcifer o penetrou por completo, ferindo, mas o fazendo sentir prazer indescritível. Dean aproximou-se o máximo que pôde do corpo quente do outro, tentando agarrar-se a ele como podia, ou simplesmente deixar os braços apoiados na parede se cobrirem de arranhões. Pertencia ao outro e tudo que queria era senti-lo ao máximo. Quando um movimento mais forte o compelia a afastar-se, logo voltava porque Lúcifer manipulava o membro de Dean com vigor e experiência.
Não demorou muito para chegarem ao ápice quase ao mesmo tempo. Primeiro Dean, que sorriu, satisfeito, ao ver aquelas belíssimas asas brancas os envolverem quando Lúcifer derramou seu sêmen dentro do amante. Estavam protegidos dentro de um círculo branco-prateado, apenas os dois e o silêncio quente que precedia a paixão. Por instinto, Dean o abraçou, escondendo o rosto na curva do pescoço suado do moreno, tentando se recuperar.
Ficaram vários minutos sem trocar alguma palavra, esperando as respirações se acalmarem. Dean tentou se recompor da melhor maneira possível, mas não afastou-se do anjo, mesmo enquanto ele se arrumava, apressado, como se nada tivesse acontecido. Ele estava particularmente bonito, por um pouco Dean achou que Sam estivesse ali e que as asas lhe caiam muito bem. Repousou a cabeça no ombro que pertencia a Sam e suspirou, fechando os olhos. Não conseguiu deixar de sorrir levemente ao sentir-se envolvido por aquelas asas brancas e puras novamente, como em um abraço forte e protetor.
- E, no final, você vence... – sussurrou, logo seu olhar se encontrando com o de Lúcifer. Por um momento, franziu o cenho. Havia aflição e certo arrependimento no olhar do moreno que abraçava.
- Perdão, my boy.
Dean sorriu e permitiu que o anjo segurasse seu rosto e o beijasse carinhosamente. Por algum motivo, não estava preocupado em ter compreendido o desfecho de tudo aquilo.
- É a sua natureza – o beijou novamente. – Só faça...
- Por que você não disse? – Lúcifer afagou o rosto de Dean, que ficara visivelmente confuso. – Por que não disse "sim" a Michael quando teve chance?
- Se eu dissesse... – o loiro suspirou. – Aquele sonho seria a única vez. E... – ele sorriu de um modo estranho. – Eu quero que a humanidade se foda. Não tenho mais ninguém importante por aqui.
- Oh, my boy... – o anjo sorriu docemente e tornou a beijar o Winchester mais velho. – Espero que me perdoe.
- Por me matar ou por acabar com a humanidade? – Dean perguntou, em seguida notando o peso das próprias palavras sarcásticas. Logo seu sorriso sumiu e ele fechou os olhos. – Faça logo.
O terno imaculadamente branco ficou sujo de sangue quando uma faca prateada atravessou o peito de Dean, cruelmente um pouco abaixo do coração. Ele urrou de dor e sentiu o sangue invadir sua garganta, o fazendo tossir o excesso enquanto tentava firmar a vista no rosto de Sam, sem sucesso. O irmão e todo o resto haviam se tornado somente um borrão. Porém, sentiu claramente quando Lúcifer segurou seu rosto e o beijou de forma urgente, no qual correspondeu o melhor possível, sentindo as asas puras roçarem levemente sua bochecha.
- Vá em paz, meu querido.
FIM
