A primeira coisa que Neteyam fez foi encontrar um lugar mais seguro e confortável no meio do nada em que se encontravam. O único abrigo que tinham era uma gruta, e foi para lá que ele levou Lay'ti, a carregando com cuidado, mas com certa pressa. O que o deixou mais apavorado foi ela gritar novamente no meio do caminho.

Ele se certificou que ela tinha pelo menos um apoio para a cabeça, dobrando a bolsa dela como um travesseiro.

-Muito bem, está perto agora... - Lay'ti arfou, dobrando as pernas, deixando um espaço entre elas - Neteyam...

-Eu estou aqui, está tudo bem - ele se prontificou assim que ela o chamou, segurando a mão dela.

-Escuta, você tem que ficar atrás de mim - ela instruiu - quando eu disser, você vai empurrar pra baixo, mas não coloque toda força, tem que ser preciso, se não você pode me machucar.

-Acho que entendi - ele assentiu, se preparando para fazer o que ela disse.

Deixou que a esposa se recostasse sobre seu peito, Neteyam sentiu a aflição dela, além do seu corpo trêmulo e tenso. Ela gritou mais uma vez, o que doeu no coração dele, mas como um guerreiro destemido, ele se concentrou no seu posto.

-Muito bem, agora, no ponto mais alto - Lay'ti disse arfando, direcionando a mão dele para o alto da sua barriga - com as duas mãos, agora...

Neteyam fez o que ela pediu, com força, mas com cuidado. A seguir, Lay'ti deu o maior grito até agora, sentindo as entranhas se rasgarem. Seu marido ficou preocupado, mas não se moveu, estava onde ela tinha instruído.

-Preciso que você olhe como está - ela pediu entre a dor que estava sentindo - se já consegue ver a cabeça dele, é um bom sinal, quer dizer que preciso de mais alguns empurrões e você vai ter que puxar pra fora...

-Entendi - Neteyam concordou, mesmo sentindo o receio de imaginar tudo aquilo acontecendo tão depressa.

Ele deixou de apoiar as costas dela e se pôs a frente, observando como ela tinha pedido.

-Eu estou vendo - anunciou ele - está perto.

Lay'ti apenas respirou profundamente e fez força mais uma vez. Neteyam entendeu por instinto o que teria que fazer a seguir. Encontrou os braços do filho e o puxou com delicadeza para fora, o observando chorar e espernear em seus braços, Lay'ti tinha conseguido, os dois tinham conseguido o impossível, sua ajuda e companheirismo tinham trazido seu filho ao mundo.

Ao saber que o filho tinha nascido, Lay'ti acabou chorando, ali estava o resultado de seus últimos esforços e seu presente de Eywa, tamanho era o alívio que ela estava sentindo. Apesar do apuro, mesmo estando ela e Neteyam sozinhos no meio do nada, a Grande Mãe estava ali para ajudá-los.

-O cordão... - ela suspirou - Neteyam, precisa cortar o cordão...

Seu marido, por sua vez, admirava o filho, apenas rindo, abrindo um enorme sorriso que se transformava em gargalhadas, seu peito tinha sido invadido pela felicidade de ter seu filho ali com ele.

-Certo, certo - ele se despertou de seu pequeno transe, entendendo o pedido.

Segurou o menino em um braço, e cortou o cordão umbilical com a própria faca, com a habilidade de caçador sendo o suficiente para isso. Apesar de toda sua emoção, ficou pensando no estado de Lay'ti, como ela se recuperaria e como voltariam para casa. Recompensando-a por tudo, ele entregou o filho no colo dela.

-Deu certo, ma'Layti, ele está bem - ele sorriu de alívio.

-Sim, sim... - ela respirou fundo, ainda abalada, mas se sentindo melhor, observando a criança em seus braços, agora até o bebê se sentia mais calmo, não chorando mais - que susto você nos deu, meu filho, mas graças à Grande Mãe que você está bem e está aqui agora, com sua mãe e seu pai.

Era estranha a sensação pacífica que Lay'ti sentia naquele momento, como se a simples presença do filho lhe trouxesse calma.

-Nimwey vai ser seu nome, minha calma... - ela beijou a testa de Nimwey, o ouvindo murmurar como um típico recém nascido faria, era mais um bom sinal.

-Nimwey, significa sossego... - Neteyam disse, admirado - como pode sentir isso depois de tudo?

-É só olhar pra ele, ma'Neteyam, o nascimento dele trouxe nossa paz... - Lay'ti sorriu para o marido.

A única coisa que passou em sua mente era o quanto ela era uma mulher forte e única, poucas pessoas seriam capazes de passar por algo assim.

-É um belo nome, Nimwey te Suli Neteyam'itan - o pai do menino recitou orgulhoso.

-Concordo - ela assentiu, fechando os olhos em seguida, vencida pelo cansaço outra vez.

-Você precisa descansar, em casa de preferência - seu marido afirmou.

=Me dê alguns minutos = Lay'ti pediu, se esforçando para manter os olhos abertos - também concordo que precisamos ir logo, mas preciso me recuperar.

Neteyam assentiu, deixando que ela recuperasse as energias, a ajudando a se limpar logo em seguida. A família ficou reunida por um tempo em silêncio, como se meditando no que acabaram de passar, no que o futuro, agora tendo uma criança, reservaria a eles.

Era uma vida nova, novamente, com responsabilidades um pouco diferentes, mas ao mesmo tempo familiares. Lay'ti estava habituada a cuidar dos doentes, e Neteyam, sempre foi o protetor dos irmãos. Lay'ti sempre esteve presente para cuidar deles também, mas o laço não era o mesmo que os mantinha ligados como o que tinham com Neteyam. Cuidar de alguém agora se estenderia a Nimwey também.

Pensar na família só os fez querer apresentar Nimwey o mais rápido possível a eles. Certamente Lay'ti ouviria muitas perguntas de todos, mas ao menos estaria no meio da família.

-Acho que consigo ir pra casa agora, me sinto um pouco mais forte - afirmou Lay'ti depois de analisar seu próprio estado.

-Então vamos - Neteyam concordou, beijou a testa dela e fez como ela pediu.

Lentamente, eles montaram nos ikrans, voltando para a casa levando o mais novo membro da família.

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