A alegria de Nimwey, apesar de mais contida, continuou evidente, o que aqueceu o coração de seus pais quando se reuniram de novo.

-Me conta como foi seu dia, meu jovem - Neteyam perguntou de um jeito descontraído, que o fez rir de maneira adorável.

-Eu nadei com tio Lo'ak e tia Reya, o que foi muito legal, e depois vovô me contou histórias da floresta, e eu pensei uma coisa depois disso, duas coisas na verdade - disse Nimwey, pensativo.

-Que coisas foram essas? - Lay'ti perguntou, oferecendo mais comida ao filho.

-Eu... - ele achou melhor começar pela ideia que causaria menos estranhamento - ouvi histórias do vovô Jake e os costumes dos Omaticaya que ele aprendeu, ele contou de quando te ensinou a pescar papai, fiquei pensando em como seria estar nesse rio.

-Ah eu lembro do que tá falando, eu era um pouco mais velho que você, na verdade, tem uma maneira de te mostrar como era o rio - Neteyam propôs, o que aguçou a curiosidade do filho.

-Como? - indagou Nimwey, intrigado.

-Tem uma coisa que o povo do céu criou que se chama câmera, ela cria pinturas do que é apontado para ela - seu pai explicou.

-Ah sei, tia Tuk me mostrou uma vez - ele compreendeu.

-Nós temos pinturas, fotos, de vários momentos em família, inclusive uma desse rio - Neteyam se levantou do lugar e foi buscar algumas das fotos que estavam guardadas ali.

Ele fez questão de mostrar a Nimwey, que ficou encantado ao ver sua família um tanto mais nova do que eram agora, inclusive ele.

-Esse bebê sou eu? - ele perguntou, tirando qualquer dúvida.

-É você sim, fazia alguns dias que tinha nascido - sua mãe confirmou - meu menininho... tão grande agora.

-E esse é o rio que fica na floresta - Nimwey continuou olhando outras fotos, observando o lugar que não lhe era familiar, sua curiosidade sobre a floresta aumentou ainda mais.

Floresta fazia Nimwey se lembrar de sua mãe, o que o fazia lembrar da segunda coisa que tinha pensado durante sua lição submersa.

-Pois é, eu e sua mãe costumávamos ir até lá - Neteyam contou, o que fez o filho se sobressaltar levemente, era como se o pai tivesse lido seus pensamentos.

-Você costumava nadar lá, mãe? - Nimwey criou coragem para perguntar.

-Eu brincava na água de vez em quando - Lay'ti admitiu - por que pergunta?

-Porque eu pensei em ter vocês nadando comigo no mar, seria legal - ele pediu de forma singela, esperando que principalmente sua mãe atendesse seu pedido.

-Ah meu bebê... - Lay'ti suspirou - eu entendo, meu amor, entendo mesmo, parece que eu não sou adepta aos costumes daqui, mas é que eu sinto saudade da floresta, não é que eu não goste da água, é só difícil pra mim, às vezes, mas a natureza de Eywa é uma só, eu faço parte das duas culturas, assim como você.

Neteyam olhou para ela, com orgulho e admiração. Lay'ti se sentiu grata mais uma vez por ter o apoio dele em sua vida.

-Vai ser muito bom irmos mergulhar juntos - ele anunciou a Nimwey, sabendo que a esposa aprovaria a ideia - o que acha disso, filho?

-É muito bom, obrigado pai - Nimwey se animou outra vez, mais uma naquele dia que estava sendo muito bom para o menino - e obrigado, mamãe.

-Não tem de que, meu menino - Lay'ti o puxou para mais perto de si e beijou o topo de sua cabeça, também grata pelo filho.

Aquele precioso garotinho a estava ajudando a deixar as velhas inseguranças para trás. Acabou que Nimwey perguntou mais sobre os Omaticaya e que diferenças a floresta tinha em relação ao recife. Neteyam ficou contente em contar, enquanto Lay'ti e Nimwey ouviam, a imaginação de sua esposa se enchendo das antigas lembranças, de tudo que viveu ali, de como gostaria de um dia voltar. Mas ao mesmo tempo, lembrou-se do que o filho tinha acabado de pedir, simplesmente aproveitar o ambiente em que estavam juntos, como uma família. Era isso que Lay'ti faria.

No dia seguinte, Neteyam foi o primeiro a acordar, sentindo Lay'ti relaxada ao lado dele, Nimwey estava logo ali do outro lado, na sua própria rede. Ela acabou acordando com o movimento do esposo, o que a fez abrir os olhos, e deixar Neteyam se sentindo um pouco culpado.

-Não queria te acordar, sinto muito por isso - ele se desculpou num sussurro muito baixo - volte a dormir, por favor.

-Eu vou, pode deixar - ela respondeu, fechando os olhos novamente - bom treinamento pra você e pra todo mundo...

Neteyam apenas beijou a testa dela, rindo baixinho e a deixando descansar, olhou para Nimwey mais uma vez, o que o fez se lembrar das conversar que tiveram na noite anterior e compartilhar do mesmo sentimento de saudade da esposa.

A floresta seria sempre o lar deles, onde nasceram, mas agora, naquele exato momento, ele sentia que estava no lugar certo, estando ocupado com um posto importante, fazendo a diferença na comunidade em que viviam, sentindo-se satisfeito com o que estavam fazendo.

Quando encarou os jovens recrutas naquela manhã, eram todos Metkayina, mas nenhum deles duvidava de sua capacidade ou ferocidade como um guerreiro, ao contrário, o respeitavam muito.

Neteyam começou suas lições com a lança, sobre o equilíbrio que tinha que manter nos pés e como empregar a força ao arremessá-la e fincá-la, e os movimentos precisos para derrubar um adversário ainda segurando a arma. Nos seus ensinamentos, havia algumas poucas coisas que seu pai havia ensinado há tanto tempo atrás, mas que não deixavam de ser útil. Mais uma vez, concluiu que a mistura do que tinham aprendido ao longo dos anos, não importava de onde vinha, formava exatamente quem eles eram.

Eventualmente, foi a vez de Lay'ti e Nimwey se levantarem e cumprirem as tarefas do dia. Hoje ele tinha continuado suas lições do mar na companhia de tio Lo'ak e tia Tsireya outra vez.

Lay'ti o observou por um tempo, vendo o quanto ele estava feliz com o que estava fazendo, então se voltou para seus afazeres. Kiri logo veio lhe fazer companhia, visitando alguns doentes e ajudando no que podia. Cada pequena ação do dia era o que dava mais sentido a Lay'ti estar ali onde estava.