Quando Nimwey se cansou de toda aquela brincadeira e a fome falou mais alto, ele voltou com os pais para casa. Lay'ti fez um dos ensopados preferidos do filho e enquanto o observava ser confortado pela comida, se preparava para contar a notícia que com certeza teria um grande impacto para o garotinho.
Ela deixou que Neteyam tomasse a frente da situação, depois que Nimwey terminou de comer.
-Você teve um dia divertido hoje, não? - o pai dele puxou assunto afetuosamente.
-Tive, foi muito bom, eu também ajudei a mamãe com algumas coisas - ele disse alegremente.
-Fico feliz por isso, filho - seu pai prosseguiu - tem uma coisa que eu gostaria de falar com você.
-Tudo bem, pai - o menino entendeu e redobrou sua atenção.
-Eu e sua mãe pretendemos fazer uma viagem longa até a floresta, e é claro que você iria conosco - Neteyam contou - eu só gostaria de saber o que você acha disso tudo.
-Vocês querem ir pra floresta? Agora? - a proposta deixou o menino no mínimo curioso - mas por que agora? Por que não foram antes de eu nascer?
-Bom, era perigoso fazer isso até um tempo atrás - Neteyam explicou com toda paciência - agora esse risco diminuiu, você não gostaria de ir, é isso?
-Não, eu até poderia ir - ponderou Nimwey - o problema é que eu preciso saber se nós vamos voltar pra cá, aqui é nossa casa, não é? Eu não quero morar na floresta.
-Ah não, Nimwey, nós não pensamos nisso - Lay'ti se preocupou com o que ele tinha dito.
-É que eu sei o quanto vocês amam a floresta, mas eu nunca fui até lá, eu cresci aqui, eu só conheço o recife, eu ficaria com muito medo e preocupado em morar em um lugar que eu não conheço - Nimwey explicou como podia todos os seus pensamentos e sentimentos sobre a questão.
Ao ouvir tudo isso, seus pais ficaram em silêncio, em um breve e certo estado de choque. O que o filho de Lay'ti e Neteyam estava expressando era o exato sentimento que os dois sentiram ao ter que deixar seu lar na floresta. Não queriam implicar essa mesma dor ao filho, de maneira alguma.
Assim, depois de trocarem um olhar de compreensão, os pais de Nimwey decidiram deixar bem claro a ele sobre o que se tratava essa viagem.
-Meu filho, nós vamos até a floresta apenas para uma visita, não é nossa intenção ficar lá e morar lá, vamos apenas rever alguns conhecidos - o pai dele esclareceu.
-Ma'Nimwey, fui eu quem tive a ideia de voltar até lá - a mãe dele confessou - eu pensei que você tem o direito de conhecer seus avós maternos, os meus pais, e eles também adorariam te conhecer.
-Ah mamãe, é isso que você pensou? - ver tamanha sinceridade da parte de sua mãe comoveu Nimwey - então, é por isso, podemos ir sim.
-Nós vamos, mas voltamos, é uma promessa - Lay'ti tocou a testa do filho com a dela, mostrando que estava falando completamente sério.
-Está bem - Nimwey concordou, ganhando um sorriso reconfortante de Neteyam.
Lay'ti notou isso e sorriu também, esperava que tudo que planejavam para os próximos dias corresse bem.
Avisando o restante do clã dos Sullys, a família de Neteyam se preparou para a grande viagem. Apesar de muito corajoso e seguro em seguir os pais naquela empreitada, Nimwey estava um pouco nervoso, enquanto se ajeitava no ikran.
-Não se preocupe, meu amor, você vai gostar de lá - sua mãe tentou confortá-lo, o puxando para mais perto com um braço ao redor dos ombros dele.
-Não se preocupem, nós vamos voltar - Neteyam garantiu ao resto da família, acenando para eles, se despedindo.
Os ikrans então atingiram os céus dentro de poucos instantes, levando Lay'ti, Neteyam e Nimwey pelos ares, rumo à floresta.
No início da viagem, Nimwey começou a trocar o medo e ansiedade pelo encanto e curiosidade com a jornada, do que estava por vir. Apesar de amar o seu lar no recife, tinha que admitir a si mesmo que era fantástico ver pela primeira vez outros lugares que ele não conhecia, que ele jamais tinha visto. Pensar que isso poderia acontecer na floresta, já que também era um lugar novo, era no mínimo reconfortante, dava a sensação de que as coisas correriam bem.
Era estranho e ao mesmo tempo famíliar a Neteyam fazer toda aquela viagem de volta. Era só um garoto quando tinha cruzado os mares pela primeira vez e agora ele era de fato um guerreiro, com sua própria família para cuidar.
Ele apenas esperava seguir o curso da viagem em paz, sem surpresas desagradáveis pelo caminho, o que era incerto. Acontecesse o que for, ele garantiria a segurança de sua família. Isso era o que se passava em sua mente, mas seu coração focava em dois sentimentos conflitantes, alegria e culpa.
Alegria porque era verdade que desde que tinha e mudado com os pais e os irmãos, um desejo secreto seu era voltar para casa, sem sombra de dúvidas. Conseguia compreender o motivo da mudança, mas não mudava o fato de que seu lar tinha sido a floresta desde então e tinha guardado sua opinião para si por não querer desapontar o pai. Mas agora, pensar que estava mesmo à caminho de voltar para a vila dos Omaticaya era simplesmente reconfortante, maravilhoso, poder se sentir completamente em casa outra vez. Agora era apenas uma questão de tempo até chegarem lá.
Mas ao mesmo tempo, ele se sentia culpado por se sentir tão bem enquanto seu filho tinha uma opinião clara de onde gostaria de ficar morando. No momento, Neteyam decidiu, encararia aquela viagem como uma visita, veriam de novo seus entes queridos, dariam a chance a Nimwey de conhecer a cultura dos pais, que também fazia parte de sua herança.
Lay'ti estava radiante de forma contida, feliz por poder rever o lar que tanto sentia falta, mas assim como o marido, também pensava em Nimwey. Esperava que o filho se sentisse tão bem na floresta como seus pais se sentiam.
