Capítulo 4
Bom, é isso. Então... vamos lá!
Levantei-me desesperada do sofá sem saber o que fazer. As vozes de Draco me perguntando quem era que estava na porta e a de Harry gritando da varanda se misturavam, deixando-me mais perdida. Harry, além de gritar, começou a tocar a campainha mais insistente. Olhando em volta procurando uma solução, encarei Draco. Ele era o meu problema naquele momento. Harry não poderia vê-lo de maneira alguma ali e eu tinha que escondê-lo. Num estalo, agarrei a mão dele.
- Venha comigo. – Eu disse e o puxei em direção ao porão.
Peguei minha varinha e, abrindo a entrada do porão, obriguei-o a entrar lá e permanecer em silêncio. Ele perguntava o que estava acontecendo e eu apenas dizia que explicaria depois. Naquele momento eu só queria esconder aquele loiro desmemoriado. Draco, contrariado, entrou no porão resmungando. Lembrou-me o velho Malfoy da época de Hogwarts. Sempre reclamando quando recebia ordens. Eu suspirei aliviada ao fechar a portinha do porão já com ele dentro e colocar a cadeira por cima. Corri até a porta. Respirei fundo para que Harry não percebesse minha agitação e abri a porta com o sorriso mais falso de está tudo bem que eu poderia ter feito. Infelizmente ele não fora suficiente porque a primeira coisa que Harry perguntara foi se tinha alguma coisa errada. Respondi balançando a cabeça negativamente e sorrindo ainda. Harry mal esperou que eu dissesse algo e entrou, olhando para cada canto da casa que estava ao seu alcance visual, muito desconfiado.
- Tem certeza que está tudo bem? – Ele perguntou ao dar mais uma olhada pela sala e se sentar no sofá. – Você demorou tanto para abrir a porta.
- Claro que sim, Harry! – Não disfarcei a impaciência. Ele não poderia ter aparecido numa hora mais inconveniente. – Eu estava no meu quarto pronta para dormir, o que você quer?
- Ah... eu acho que esqueci minha varinha aqui. – respondeu olhando em volta.
De repente, para minha surpresa, ele se levantou do sofá e se direcionou para a cadeira sobre o porão. Eu o olhava apreensiva. "Que beleza!", pensei com ironia, sentindo gotículas de suor se formarem em minha testa.
- Ei, Gina, já percebeu isso aqui? – indagou ele, apontando sem muita atenção para o alçapão. Fiquei sem ação. Simplesmente o encarei de boca aberta. Quando ele ameaçou se agachar para ver melhor percebi o perigo que corria e tive que agir rápido.
- Ahm, Harry! Acho que eu vi sua varinha lá em cima. Vamos lá?
O moreno deu um sorriso concordante e veio até mim, enquanto eu suspirava aliviada, puxando-o escadas acima. Ao entrarmos no quarto, lembrei-me de ter visto a tal varinha na cozinha. Respirei fundo mais uma vez para que o pouco de paciência que ainda me restava não acabasse e me voltei a Harry.
- Bem, acho melhor você procurar aqui em cima e eu lá embaixo, tá? – disse em tom de ordem e saí pela porta ignorando qualquer contestação vinda dele.
Corri até o porão. Levantei a portinha, mas não vi meu acobertado. Chamei-o com a voz extremamente baixa e ele apareceu. Mantinha uma feição muito aborrecida.
- Posso sair? – perguntou com os braços cruzados, olhando para cima.
- Você só sai daqui quando eu vir te chamar. – disse com a voz ainda baixa, olhando para trás verificando se Harry aparecera.
- Por que?! – indagava com irritação. Ele voltava a assumir sua personalidade de Malfoy irritante. – Quem é aquele cara?
- Harry Potter. Vocês não podem se ver. Eu te falei dele, vocês se odeiam. Harry NUNCA poderia descobrir que eu escondi você aqui.
- Ah... – Pareceu convencido, mas não muito satisfeito. – Mas o que tem ele com sua vida?
Eu havia contado para ele que Harry era seu inimigo no colégio e que os dois tiveram muitos problemas. Eu só não havia dito que era envolvendo Voldemort e a guerra. Haveria um tempo certo para ele saber as coisas mais sérias. E também não achei necessário ele saber que Harry era meu namorado. Sem saber o que dizer, fingi não ter ouvido sua pergunta e me levantei do chão.
- Eu já vou. Fique quietinho.
Ele ia dizer algo, mas abaixei a tampa da entrada do porão na cara dele. Fui até a cozinha e peguei a varinha que meu querido namorado deixara ali e voltei para sala. Ia subir as escadas quando o vi descendo.
- Não está lá em cima, Gina. – disse ao vir em minha direção e encarou minhas mãos. – Ah, está aí com você. – Sorriu e eu fiz o mesmo entregando sua varinha.
- Bem, acho que agora você pode ir. – falei tentando não parecer indelicada, com um sorriso amarelo nos lábios.
- Está me expulsando? – Ele indagou, voltando com o olhar desconfiado, me abraçando carinhosamente.
Arrependi-me pela forma que o estava tratando. Estava nervosa com toda a situação, mas não queria ser estúpida com ele. Sorri e ele levou as mãos sobre meus cabelos, acarinhando-me. Eu adorava quando ele fazia aquilo. Harry sempre era daquela maneira comigo. Meigo e carinhoso. Eu só desejava gostar mais daquilo, como no início de nosso namoro. Ele era tudo que eu queria antes. Não entendia porque agora não sentia o mesmo amor, a mesma paixão. Ele apertou o abraço e me beijou o ombro.
- Não, Harry... Está tarde e eu preciso ir dormir. Amanhã tenho treino.
- Eu poderia dormir aqui... com você. Amanhã te levo pro treino.
- Nem pense nisso. Preciso descansar. – interrompi-o, percebendo suas intenções num pequeno sorriso malicioso que abrira em sua face. – Você vai embora. – Afastei-me do abraço e o empurrei até a porta. – Tchauzinho, Harry.
Dei-lhe um beijo rápido e abri a porta. Ele, decepcionado, me beijou com vontade e foi embora. Quando vi-o passar pelo jardim, fechei a porta e me apoiei nela, respirando aliviada. O perigo passara e por sorte nada havia acontecido. Sem querer, olhei para o porão e vi a portinha ligeiramente levantada. Quando me aproximei ela se fechou. Eu estava sendo vigiada.
- O que pensa que está fazendo, seu fofoqueiro? – perguntei irritada ao abrir o porão. Ele saiu de lá com uma sobrancelha erguida e ar superior como se eu fosse insignificante demais para ele me dar atenção.
- Fiquei curioso de ver esse tal Potter. – afirmou sem me encarar. – Por que você não disse que ele é seu namoradinho?
- Ele não é! Digo, ele é... Mas o que você tem a ver com isso? – Comecei a me irritar de verdade. Odiava que ficassem me questionando. Ele não tinha direito de se meter na minha vida.
- Eu?! – Ele indagou como se estivesse ouvindo algo absurdo. – Claro que nada!
Bufei zangada e fui pisando duro até a cozinha pegar um copo de água. Ele veio atrás de mim. Aproximou-se como quem não queria nada. Era esperto demais.
- Você está com ele há muito tempo?
- Achei que você não tivesse nada a ver com minha vida. – Encarei-o, com um sorriso debochado.
- É só curiosidade. Eu vou ficar aqui com você, queria saber mais sobre sua vida. – afirmou sem me encarar e eu dei de ombros. Realmente não havia nada de mais nele querer saber se Harry era meu namorado.
- Mais de dois anos. – eu disse, dando uma golada no copo.
- Parece uma vida. Pena que você não goste dele. – afirmou seguro de si como se tivesse certeza daquilo e pegou um copo d'água pra ele também.
- O QUE?! – indaguei, cuspindo toda a água que estava na boca e acabei me engasgando. Tossia sem parar enquanto ele dava leves tapinhas nas minhas costas. Assim que recuperei-me da crise de tosse, desvencilhei-me do loiro que me segurava e o encarei muito séria, sem acreditar nas coisas que ele estava falando. – Por que você diz isso?
- Quando você estava com ele não parecia nada feliz. E agora que está falando dele parece bem desanimada.
- Pare de falar besteiras ou eu te expulso da minha casa! – gritei mais irritada do que deveria e voltei para o meu quarto.
Draco veio atrás de mim, mas quando eu entrei no meu quarto fechei a porta na cara dele. Ele bateu na porta, mas eu não respondi. Apenas fui pra minha cama e me deitei, tentando dormir o mais rápido possível. Havia tido um dia bem difícil. Como se não bastasse achar Draco morando no meu porão sem memória, ele ainda ousava se meter na minha vida e adivinhar meus pensamentos. Era o primeiro dia em minha casa e ele já estava me irritando profundamente. Mas uma pergunta me deixou com os olhos abertos por um bom tempo: Que diabos Draco estava fazendo no meu porão? Por mais que eu pensasse, não encontrava uma resposta clara e coerente.
●O●
Acordei naquela manhã com o maldito despertador tocando irritantemente. Com aquele invento dos gêmeos realmente não havia como se manter ao menos sonolenta. Aquela voz irritante era pior que um berrador enviado por minha mãe quando fazíamos alguma travessura em Hogwarts. Dei um soco nele para que parasse de fazer barulho e levantei da cama. Naquele dia em especial eu havia acordado com um péssimo humor sem saber ao certo porque. Havia tido muitos sonhos estranhos. Caminhava lentamente até o banheiro com minhas pantufas de coruja que eu ganhara de Harry quando percebi que havia dormido com o robe. Estranhei. Eu nunca me esquecia de tirar o robe. Minha mente ainda estava muito lenta e não recordava-me muito bem da noite anterior, mas não me importei. Fui me arrumar para o treino. Enquanto tomava uma ducha, fechei por alguns segundos os meus olhos. Sempre que estava com muito sono fazia isso. Por pouco não dormia em pé. Recordei-me do meu sonho. Malfoy... Draco Malfoy?! Por que sonhara com ele? Foi então que tudo veio em minha mente como um flash. Draco, meu porão, Harry, meu robe. Não havia sido um sonho! Tudo havia acontecido. Terminei meu banho e me arrumei o mais rápido possível. Corri até o quarto de visitas. Bati na porta uma vez e ninguém respondeu. Bati outra vez. Novamente ninguém respondeu. Irritei-me logo e abri a porta, entrando sem pedir licença. Ele ainda estava dormindo. "Um tremendo folgado!", pensei com meu mau-humor fora do comum. Aproximei-me da cama. Parei ao vê-lo. Tentei dar meia volta e sair dali, mas não consegui. Estática, encarava-o dormindo. Era um tremendo folgado lindo! Parecia ter se mexido a noite toda porque não estava mais coberto e sua cabeça totalmente fora do travesseiro. Só usava a cueca samba-canção azul de Harry que eu havia emprestado. Mais nele, não pude negar, ficava realmente muito melhor do que em Harry. Quando percebi o que estava fazendo girei nos calcanhares com muito sacrifício e voltei para a porta. Com a cara mais cínica possível, bati na porta com força para que ele acordasse. Ele levantou-se assustado, ficando de joelhos na cama, olhando em volta.
- Bom dia. – falei sorrindo, com apenas a cabeça para dentro do quarto. Ele virou-se para trás, me olhando. Sorriu ao me ver. – Posso entrar?
- Lógico que sim. – Saiu da cama e veio até mim.
- Dormiu bem? – perguntei usando de toda minha força para não olhar muito para ele.
Agora que estava em pé vi perfeitamente seu corpo. Seu físico perfeito, seus braços, seu abdômen... Reprovei-me imediatamente. O que estava havendo comigo?
- Sim. Acho que é mais fácil dormir quando não se tem nada na mente, muito menos lembranças. – Ele falou num tom desanimado, mas rimos. Como ele conseguia fazer piada com aquilo? Eu, no lugar dele, estaria desesperada.
- Só vim te falar que eu vou trabalhar agora. Pode ficar a vontade aqui. Tem comida na geladeira e no armário. Só não saia da casa de jeito nenhum. Não abra a porta para ninguém e caso alguém apareça, seja quem for, se esconda.
- Sim, senhora! – Ele brincou, curvando o corpo, e eu ri.
- Quando eu chegar vamos sair pra comprar umas roupas pra você. Não pode ficar pra sempre com essas. – Apontei distraidamente para ele. Ah sim, poderia ficar para sempre com aquela roupa, eu não me importaria.
- Mas eu não tenho dinheiro...
- Não tem problema. – Eu o interrompi já sabendo que ele diria isso. – Depois resolvemos isso. Eu tirei sua memória e não tem como eu pagar isso.
- É verdade. Você está me devendo. – Ele afirmou ao se sentar na cama novamente com um sorriso de espertalhão.
- Não exagere. Até mais tarde. – Acenei e dei-lhe as costas, saindo pela porta, escutando apenas um "até". Tudo aquilo parecia tão surreal. Eu me despedindo do Malfoy na minha casa para ir trabalhar.
●O●
O treino havia sido um dos mais exaustivos da temporada, mas eu não me importava. Dava o melhor de mim. Era o que eu adorava fazer. Por ter sido um treino muito duro, acabou terminando mais cedo. Daria tempo de levar Draco para comprar algumas roupas. Eu havia acabado de comprar a casa e alguns móveis e sabia que ao comprar as roupas para Draco acabaria com todo o dinheiro que havia guardado. Mas não havia outra solução. Eu tinha que ajudá-lo.
Ao chegar em casa, fitei o jardim que estava ainda mais lindo. Jorge realmente havia feito um ótimo trabalho. Abri a porta e me deparei com uma sala vazia, quente e extremamente agradável. A lareira estava acesa e o ambiente estava perfeito para descansar. Encarei meu sofá que parecia uma opção tentadora. Fui até a cozinha e não vi ninguém. Onde o Malfoy estaria? Subi e fui até o quarto de visitas. Abri a porta vagarosamente e o vi, sentado na cama, de costas para a porta. Sua cabeça apoiada pelas mãos. Resmungava algo incompreensível até que eu me aproximei.
- Por que eu não me lembro de quem eu sou?... – Ele perguntava a si mesmo angustiado. Senti um aperto em meu peito. Se ainda pudesse estar com dúvidas da veracidade de sua amnésia, elas haviam desaparecido nesse momento. Ele estava sofrendo com aquilo e aquela situação também me fazia mal. Sentei-me ao lado dele e apenas espalmei minha mão em suas costas largas, com um pequeno carinho. Ele surpreendeu-se, mas depois pouco pareceu se importar com minha presença. – Ginevra, eu preciso me lembrar. Eu preciso...
- Draco, você vai se lembrar. Se tivesse sido por causa de algum feitiço seria mais fácil. Queria te ajudar, queria mesmo, mas não há nada que eu possa fazer. Só podemos esperar.
- Eu sei, mas essa sensação de vazio é horrível. Eu só espero que minha memória volte logo.
- Eu também. – disse sem olhá-lo. Assim como ele, eu desejava que ele se recordasse de quem era e do que fazia em meu porão. Eu precisava saber. – Mas agora vamos esquecer isso. Faremos umas compras pra você.
Ele sorriu e se levantou da cama. Parecia mais confortado, mas ainda aborrecido. Fui até meu quarto e peguei uma capa negra e suficientemente grande para que ele pudesse se cobrir por completo. Entreguei a ele. Não poderíamos sair assim, sem disfarce e nos arriscar a tal ponto de alguém reconhecê-lo.
N.A.: Mais um capítulo antes do carnaval! Agora só depois pq eu não sou de ferro, haha. Espero que gostem. Ana, muito obrigada pela review! não sabe como é importante ^^ espero que goste desse capítulo também. besous :*
