Capítulo 5
Uma vida à dois
Em poucos minutos estávamos no Beco Diagonal. Por mais que as fuligens me incomodassem, Pó de Flu era um dos meus meios de transporte preferidos. Draco resmungou um pouco, mas preferi ignorá-lo. Mal humor de Malfoy viajando de Pó de Flu, sem novidades para mim. Pensei em ir a Madame Malkin, mas não era uma boa idéia. Ela poderia reconhecê-lo e lá sempre tinha alguém conhecido. Fomos então a uma outra loja nova de roupas. Ela parecia boa, não muito cara e, principalmente, sem conhecidos, que era o melhor.
Após tirar algumas medidas, o simpático senhor alto e magro, dono de óculos pequeninos que em nada pareciam ajudá-lo, subiu as escadas e foi para o que parecia seu local de trabalho. Enquanto o esperávamos fui olhar alguns vestidos belíssimos. Belíssimos e, infelizmente, caros de mais para mim. Já estava gastando dinheiro demais com as roupas do Malfoy e não só isso, agora gastaria com a despesa de duas pessoas. Vestidos novos iriam ter que esperar. Com um muxoxo, voltei para onde Draco estava. Sorri ao surpreendê-lo a me fitar.
- O que foi? – indaguei curiosa.
- Não é nada. – Ele disse rapidamente e voltou o olhar para o topo das escadas, de onde o velho senhor descia, deixando-me ligeiramente confusa.
- Aqui estão. – Ele me entregou parte dos grandes pacotes e deu o resto para Draco. – Se por acaso algo não estiver lhe caindo bem, venha que eu consertarei.
Correspondi ao seu sorriso enquanto equilibrava os pacotes com uma mão e pegava o dinheiro com a outra. Ao entregar os devidos galeões, que não foram poucos, saímos dali e fomos tomar algo n'O Caldeirão Furado. Eu não gostava muito daquele bar, mas sabia que ali eu não encontraria ninguém conhecido que pudesse reconhecer Draco. Sentamo-nos em uma mesa mais ao canto, por via das dúvidas, e pensei em pedir cervejas amanteigadas, mas mudei de idéia. Doses de hidromel cairiam bem para relaxar depois do meu dia duro de treino. Draco aprovou a idéia. Disse que cerveja amanteigada era coisa de adolescente. Enquanto tomávamos nossa bebida, falei para ele do meu trabalho e da Harpias de Holyhead, que ele jurou achar o nome conhecido. Depois fui tentando fazer com que ele recordasse de algo, falando algumas coisas que ele não parecia lembrar. Ele apenas balançava a cabeça em sinal de negativo, me deixando angustiada. Eu sabia que não poderia deixá-lo para sempre na minha casa, no entanto, enquanto ele estivesse assim, eu não poderia deixá-lo só. Eu estava numa enrascada na qual eu mesma havia me metido e na qual não estava muito preocupada em sair naquele momento.
- Eu só consigo lembrar de uma luz vindo em minha direção. E também de...
Ele parou pensativo. Parecia esforçar-se mais do que podia. Virou o rosto e me encarou com um olhar indecifrável. Pedi para que ele me dissesse, mas continuou calado. Aquilo me afligiu de tal forma que não pude me conter.
- Conte logo, Malfoy, não faça isso comigo!
Levantei-me um pouco da cadeira e me inclinei para frente no intuito de me aproximar dele.
- Eu me lembro de mortes. E de fogo, caos...
Ele apertou a testa com os olhos cerrados. Parecia sentir dor.
- Pare, pare. É melhor se acalmar um pouco. Na hora certa você vai se lembrar.
Sorri para ele como um modo de incentivá-lo. Ele precisava muito daquilo. Parecia estar muito abatido e confuso. Jamais imaginaria Draco Malfoy naquela situação.
Conversamos um pouco mais e voltamos para a casa. Corremos para o quarto arrumar as roupas dele na pequena cômoda de seu quarto. Seu quarto? Não, quarto de visitas. Ele abria os pacotes e examinava cada peça de roupa. Eram basicamente todas roupas simples somente para ficar em casa e algumas outras para caso ele precisasse sair. Eu abri o último pacote e fiquei um tanto sem-graça ao ver cuecas de cores diferentes. Disfarcei um riso e ele rapidamente tirou-as da minha mão e as colocou de novo dentro de um pacote.
- Obrigado, Ginevra. Não sei o que eu faria se não fosse por você. – Ele falava num tom quase doce que me encantou. Um tom tão diferente de um Malfoy.
- Tudo bem. É o meu dever te ajudar. E me chame de Gina, só Gina.
Sorrimos um para o outro e ficamos em silêncio durante alguns minutos, enquanto dobrávamos cada peça. Nossos olhares se encontravam as vezes me deixando, confesso, muito sem jeito. Ao terminar, me levantei da cama e o chamei para jantarmos.
Após a refeição, ficamos sentados no sofá em frente a lareira conversando. Eu contava algumas situações engraçadas de minha infância e ele apenas ria. Não tinha o que dizer. Não tinha recordações para dividir. Senti um vento frio entrar pela janela aberta. Tremi e me abracei distraidamente, pensando em nossa conversa. Draco apenas me encarou e correu até a janela, fechando-a. Quando pensei que ele voltaria para se sentar escutei passos apressados na escada. Segundos depois escutei os mesmos passos se aproximando. Vi-o com uma coberta nas mãos. Entregou-me. Como ele poderia ser tão gentil e atencioso? Sorri em agradecimento e me cobri. Ele brincou dizendo que era natural de um cavalheiro como ele. Rimos e vi que ele também estava com frio. A lareira parecia não adiantar muito. Peguei a outra ponta da coberta e joguei em cima dele. Inconscientemente me aproximei mais. Não entendia como tinha coragem de agir daquela forma com ele. Mal o havia conhecido e já estávamos dividindo uma coberta no meu sofá. Mas, de alguma estranha forma, eu sentia uma grande confiança nele. Sabia que ele não me faria mal. Talvez por saber que ele estava muito dependente de mim. Ao nos acomodarmos novamente, ele, surpreendendo-me, pediu para que eu continuasse a contar sobre minha infância. Disse que se não pudesse se lembrar da própria, gostaria de conhecer a minha. Falei de meus irmãos e o quanto eles o odiavam. Ele apenas ria.
- Parece ser divertido ter uma família tão grande. Lógico, é complicado. Muitas pessoas para dividirem pouco dinheiro, todo mundo acaba tendo menos do que poderia ter, mas ainda assim deve ser divertido. Ter família... – Ele comentou fitando o fogo.
- Nem sempre. Eu me sentia sempre muita vigiada em todos os sentidos. Na escola, com os meus namoros. Sempre se metiam na minha vida e isso sempre me incomodou. Por isso me senti tão realizada ao comprar essa casa. É como meu grito de independência. Posso, definitivamente, dizer que sou dona do meu próprio nariz!
Terminei rindo e ele apenas me encarou. Da mesma forma que havia me encarado na loja de roupas. Não entendi.
- O que é? – Não resisti em perguntar.
- Nada. – Ele apressou-se em responder e desviar o olhar do meu. Ri confusa, mas não podia dizer que não gostava de perceber que ele me olhava. Era, de certa forma, interessante...
- Acho que está na hora de dormir, não é? Amanhã acordarei cedo.
- Sim sim. Vamos.
Levantamo-nos e fomos até o andar de cima. Acompanhei-o até o quarto, onde, perto da porta, nos despedimos com um sorriso de boa noite. Depois fui para o meu quarto. Deitada em minha cama, lutava com meus pensamentos para que eles parassem de colocar apenas a imagem de Draco em minha mente. Aquilo não podia dar em boa coisa. Não mesmo.
●O●
E os dias foram se passando muito rapidamente. Quando nos demos conta já havia passado mais de um mês que Draco morava na minha casa. Nos dávamos muito bem. Às vezes discutíamos com pequenas coisas. Eu com meu gênio Weasley e ele com fortes traços de sua personalidade Malfoy. O orgulho, o sarcasmo e o deboche transbordavam naturalmente dele. Aquilo me irritava tanto, mas valia a pena. Toda a noite ficávamos no sofá perto da lareira com a coberta, conversando sobre tudo que podíamos conversar. Nunca faltava assunto para nós. Quando não havia assunto para conversarmos sobre, sempre havia um para discutirmos. E mesmo com as discussões que me tiravam do sério, nunca imaginei que pudesse passar noites tão divertidas. Mesmo no sofá apenas conversando, me divertia como há tempos não fazia. Por sorte também não havia recebido visitas surpresas de Harry e de ninguém mais. Só via meu namorado algumas vezes quando ele me visitava nos treinos ou quando eu passava para visitar meus pais e ele estava lá. Assim, eu e o Malfoy ficávamos mais a vontade em casa.
●O●
Era tarde da noite de sábado e não nos preocupávamos com a hora de dormir já que no outro dia eu não precisaria acordar cedo. Draco me contava que não lembrava de nada mais a não ser a cena de pessoas correndo, gritando e outras desmaiadas. Perguntou-me se eu saberia o motivo e eu preferi dizer apenas que ele provavelmente havia estado na guerra. Tive que explicá-lo que a guerra havia acontecido por causa de Voldemort. Contei-lhe como aquele maldito bruxo havia feito tantas maldades e porque queria tanto matar Harry. Evidentemente não contei sobre ele e sua família estar no meio dos seguidores de Voldemort. Perguntou-me então sobre sua família e, surpresa, não soube o que dizer.
- Bem, eles também participaram da guerra, mas sinceramente não sei onde eles estão. – contei realmente a verdade que eu conhecia. Nunca quis saber se os Malfoy estavam em Azkaban, se haviam morrido ou sido perdoados.
Ele pareceu desanimado. Eu passei a mão em seus cabelos e apoiei minha cabeça em seu ombro. Só então me dei conta do quanto estávamos próximos um do outro. Nossos corpos se encostavam. Calafrios me subiram pela espinha. Não estava agindo corretamente. Acima de tudo eu era comprometida e não estava agindo como tal. Afastei-me o máximo possível e ele percebeu.
- O que houve? – Ele perguntou, me fitando sem entender a atitude repentina.
- Não é nada... – Dei um sorriso amarelo e olhei para minhas próprias mãos.
- É por causa do Potter, não é?
Encarei-o com os olhos arregalados. Sua face me dizia que ele já sabia a resposta. Ameacei me levantar, mas ele me segurou pelo braço. Fitei-o. Ele ia dizer algo, mas calou-se e me soltou. Desejou-me apenas boa noite e voltou a olhar para a lareira. Desejei-lhe o mesmo e fui para o quarto. Como eu estava permitindo que as coisas tomassem aquele rumo? Tinha que dar um basta naquilo antes que as coisas piorassem ainda mais.
N.A.: Capítulo pós-carnaval. Espero que gostem ^^ Ana Coelho e Big Banana, obrigada pelas reviews! E obrigada as pessoas que adicionaram a história em seus favoritos, quais eu não estou conseguindo ver os nomes nesse momento rs. besous :*
