Capítulo 6
Visita à Toca
Acordei com o despertador e, ainda morrendo de sono, dei um soco para que ele parasse com aquele barulho infernal de todas as manhãs. Mal tinha dormido a noite de tanto peso na consciência. Estava cometendo muitos erros. Aquela história de acolher um Malfoy na minha casa e ainda ficar de conversas com ele todas as noites me pareceu um absurdo. Uma onda de sensatez parecia me invadir bem a tempo. Definitivamente estava na hora de acabar com toda aquela história. No entanto, eu simplesmente não podia expulsar aquele loiro desmemoriado da minha casa. Mas também não podia deixar que ele continuasse ali, correndo o risco de que Harry o visse quando resolvesse fazer uma de suas visitas surpresas que eu adorava. E se ele nunca recuperasse a memória e eu tivesse que morar com ele pra sempre? De certa forma não seria totalmente ruim... mas não, não seria possível. Estava tudo muito confuso em minha mente. Não sabia ao certo o que fazer e nem o que eu queria. Imaginei como todos ficariam se descobrissem o que eu estava fazendo. Provavelmente eu morreria.
Decidi, então, que a única coisa que me restava fazer era tentar descobrir o que ele fazia no meu porão para então pensar no que fazer com ele. E o faria sozinha, já que o cérebro do Malfoy não parecia querer colaborar. Mas por onde começar? Não sabia ao certo. Lembrei de meus irmãos ou até mesmo meu pai. Eles poderiam saber de algo a mais que eu não sabia sobre o Malfoy e a família dele. Tinha que conversar com eles. E se eu achasse os pais de Draco, ele já teria um lugar para ir e não precisaria ficar comigo, a causadora de seu problema. Pensar nisso me deu um aperto no estômago. Se descobrissem que eu deixei o filho deles sem memória me matariam. Eu não podia tirar aquele peso de minhas costas enquanto ele não se recuperasse, se isso fosse acontecer. Outra coisa que eu deveria fazer então era tentar fazer algo para que a memória dele voltasse. Mas tinha que ser uma coisa de cada vez.
Naquele momento mesmo arrumei-me rapidamente e fui pôr em prática minha ideia. Indo em direção às escadas, passei pelo quarto onde Draco deveria estar. Tinha que avisá-lo que iria sair. Abri a porta e o vi sentado na cama, vendo o bairro pela janela. Ele virou-se rapidamente em minha direção ao perceber que eu estava ali.
- Eu vou sair. Volto antes do almoço. – disse parada, perto da porta. Evitei olhá-lo diretamente. Ainda me sentia constrangida pela noite anterior e não só por isso. Para mim era difícil gesticular muitas palavras coerentes com ele daquela forma. Por que ele tinha que dormir sem blusa e exibir aquele corpo?
- Está bem. – Ele concordou dando de ombros e voltou-se para a janela. Estava frio como eu queria estar. Imaginei se seria pelo dia anterior. Provavelmente sim.
Eu queria ficar ali, mas não havia motivo. Sai, fechando a porta logo atrás de mim. Respirei fundo. Tinha que aprender a controlar meus sentimentos. Peguei minha bolsa e por Pó de Flu fui para a Toca. Envolvida por aquelas chamas verdes que mal pareciam me tocar, apareci na sala de minha antiga casa. Desci da lareira com cuidado e sacudiu minhas roupas para que a fuligem saísse. Observei o meu redor sorrindo, sentindo saudades da vida ali. Sempre pareceria meu lar. Senti um cheiro maravilhoso de bolo que vinha da cozinha. O cheiro da minha casa. Corri até lá e vi minha mãe e Hermione cozinhando.
- Cheguei em uma hora boa? – perguntei rindo e as duas sorriram ao me ver.
Minha mãe, em seus passos rápidos e curtos, veio até mim e me abraçou forte. Aquele abraço tão bom do qual eu sentia tanta falta, por mais que muitas vezes me deixasse sem ar. Como eu sentia falta dos cuidados dela.
- Gina... – Hermione abraçou-me logo depois. – Acabamos de assar um bolo de abóbora com amêndoas. Vai adorar.
- Com certeza. – concordei e olhei em volta. A casa estava muito silenciosa. Parecia vazia. – Onde estão os outros?
- Saíram. Foram jogar alguma coisa, acho que um jogo trouxa. Um tal de besquate, besquete...
- Basquete, Molly. – disse Hermione rindo e depois provou uma calda de cereja que estava no fogo.
- É, isso mesmo. Esses nomes trouxas são engraçados. – dizia sem parar de andar pela cozinha, pegando uma coisa aqui, deixando outra ali. – Somente Rony está lá em cima.
- Ótimo, vou subir pra conversar com ele. Depois venho falar com vocês.
Subi as escadas correndo até chegar no quarto de Rony, que agora era maior e tinha uma cama de casal. A porta estava entreaberta, então entrei sem pedir licença. Ele estava empilhando uns livros velhos no chão. Sorriu ao me ver.
- O que você quer aqui, garota? – indagou ao vir até mim e me abraçar. Fazia cara de mal, entre risos. Como eu o adorava. Era o irmão com quem eu mais brigava, mas eu o amava e o admirava imensamente.
- Vim ver meu irmãozinho lindo e saber como está. – Sorri ao me jogar na cama macia, mas ao lembrar que aquela não era só a cama de meu irmão como era também a cama onde ele e a esposa dormiam me levantei e sentei na ponta. Era mais fácil imaginá-lo como meu irmão do que como homem.
- Te conheço Gina. Fale logo. – Parou de braços cruzados, me encarando.
- Poxa Rony, não posso sentir saudades? – Fiz cara de ofendida, parecendo chateada. Ele se aproximou e bagunçou meus cabelos.
- Claro que pode. Como não sentir saudades desse seu irmão lindão aqui? – Abriu um sorriso convencido e eu joguei uma almofada em sua cara. Rimos e ele se jogou na cama como eu.
- Rony, ando tendo uns sonhos estranhos. – Deitei com a cabeça sobre seu abdômen e encarei o teto. – Sempre lembro da guerra... – disse sincera. Desde que Draco passara a morar comigo, eu sonhava quase sempre com as lembranças das últimas batalhas que vira.
- Não é fácil, mas temos que tentar esquecer. Hoje vivemos em paz, isso que importa. – Também encarava o teto, pensativo, enquanto mexia em meus cabelos. Para ele também não era fácil lembrar daquela época. Sempre que falávamos de Fred ele se emocionava profundamente. Acho que após todas as perdas, ele havia ganhado uma sensibilidade que antes não possuía.
- Você lembra dos Malfoy? – perguntei tentando parecer o mais desinteressada possível.
- Claro, como esquecê-los. Eu acho que deviam estar em Azkaban. Fizeram tanto mal e agora... nem sei onde estão.
- Então eles não foram para Azkaban, não foram condenados? – Virei-me para ele rapidamente, surpresa pelo que ouvira, quase implorando por mais informações. Via minha investigação chegar a algum lugar.
- Não. Pelo que fiquei sabendo Narcisa não podia ser condenada como comensal e como ela ajudou Harry... – Rony dizia parecendo insatisfeito. Deixava claro que por ele todos os comensais morreriam em Azkaban.
- É verdade... – disse para mim mesma, voltando a atenção para meus próprios pensamentos. Como eu havia esquecido daquilo? Narcisa Malfoy havia ajudado Harry dizendo que ele estava morto para Voldemort. – E Lúcio?
- Perdoado por abandonar Voldemort no final, assim como aquele maldito Draco Malfoy, covarde.
- Onde será que eles estão agora? – A última coisa que eu necessitava saber. As coisas poderiam ser mais fáceis dali pra frente.
- Não faço ideia, nunca quis saber. Perderam muito de seu status e o nome Malfoy não é mais tão poderoso como era antes, eu acredito. – falou com um pequeno sorriso abrindo em seu rosto. – Mas ainda devem ter muito dinheiro. A Mansão Malfoy não existe mais, mas devem ter outra propriedade.
- A guerra não mudou tanto a vida de todos, não é mesmo? – terminei encarando meu irmão com um sorriso. Ele apenas deu um risinho e se levantou num salto. Disse que estava com fome e que ia pegar um pedaço de bolo para nós.
Eu fiquei ali, deitava, ainda encarando o teto e pensando sobre o que eu descobrira. Refletindo, achei-me ligeiramente estúpida. Parecia que eu tinha esquecido as últimas coisas que havia acontecido antes da última batalha. Era óbvio que os Malfoy haviam sido perdoados. Agora já sabia de quem realmente me importava, mas aquilo me deixou um pouco desanimada. Se por acaso eu tivesse descoberto que Draco tinha sido condenado, eu poderia dizer que ele estava fugindo do Ministério e por isso se escondera em minha casa quando abandonada. Mas não. Ele havia sido perdoado. Então porque raios ele estava lá? Sabia de mais coisas, mas estava mais intrigada que antes. Resolvi descer e procurar meu pai.
Ao chegar na sala, vi-o sentado em sua habitual poltrona, com seu habitual jornal em sua habitual pose. E eu adorava vê-lo daquela forma. Sempre tão tranqüilo e concentrado em suas atividades, fossem elas quais fossem. Aproximei-me por trás e lhe dei um beijo carinhoso no alto da cabeça careca. Ele pareceu já saber que era eu, pois largou seu jornal e puxou-me pela mão até se colo. Ele ainda gostava de me tratar como uma pequena menina em alguns pequenos detalhes e carinhos e ele era o único do qual eu gostava de receber tal atenção. Abracei-o com carinho.
- Como está a nova casa? – Ele perguntou tirando os óculos e colocando na pequena mesa ao lado.
- Estou adorando, pai. É do jeito que sempre quis. – Ao falar aquilo, tentei disfarçar um sorriso que insistiu em surgir em lembrar de Draco. De fato era bom, mas não da forma que eu havia sonhado antes. Poderia atrever-me a dizer que era melhor, mesmo tendo que assumir qualquer conseqüência que aquilo me traria. – Aliás, espero uma visita sua. Vou cozinhar seu prato preferido, o que acha?
- Um convite tentador. E não se sente solitária lá? Convivia com tantos irmãos e agora está sozinha.
- Sinceramente, não me sinto sozinha. – Acabei por deixar escapar um sorriso perdido que meu pai não deixou passar desapercebido, mas nada comentou.
- Pois então vamos sua mãe e eu em um domingo, está bem?
- Está ótimo! – Sorri, dei-lhe um beijo no rosto.
Logo Rony apareceu atrás de nós com um grande prato em uma mão e um pedaço de bolo na outra. Meu pai e eu nos servimos e, enquanto saboreávamos o bolo, conversávamos sobre como andava o ministério.
●O●
Passei uma agradável tarde com minha família e com Harry, que chegara depois para se juntar aos meus irmãos. Todos estavam ali, menos Guilherme que estava com Fleur na França visitando a família da esposa. Passei um longo tempo conversando com Carlinhos, que passava férias n'A Toca e o qual não via há um longo tempo. Percy também estava tão diferente, e era muito agradável estar em sua companhia. Estava tão carinhoso, atencioso com todos nós e ligeiramente descuidado do trabalho, o que lhe dava um ar mais descontraído que o fazia muito bem. Comemos com vontade a variedade de comida preparada por mamãe. Sentia falta daquele sabor tão característico que seria impossível imitar.
Após a refeição, fomos para o pomar jogar quadribol e nos divertimos muito. Como eu adorava passar o tempo com meus irmãos. A única presença que me incomodou um pouco foi a de Harry e lutei muito para que meu sentimento não transparecesse. Quando ele vinha com carinhos, eu procurava esquivar-me e, se não tinha como, me limitava a lhe dar rápidos beijos e voltava ao jogo, com extremo cuidado para que ele não notasse minha frieza, resultada de minha consciência pesada. Eu sabia que não estava sendo correta com Harry. Ele era meu namorado, quase meu noivo, e enquanto ele vislumbrava um futuro para nós, eu acolhia um homem em minha casa, Draco Malfoy, e sabia que a presença dele e nossa proximidade não era apenas de alguém que apenas estava ajudando.
N.A.: Eu acho que em nenhuma de minhas antigas fics eu fazia atualizações tão rápidas, rs. E está aí, mais um capítulo. Queria falar mais de Rony, adoro esse ruivinho, mas eu posso me empolgar e perder o foco, haha. Espero que apreciem o capítulo e, por favor, deixem comentários, mesmo que sejam pequenininhos rs. Ana Coelho e Big Banana, obrigada pela review e por estarem acompanhando a fic. Podem ter certeza que me motivam muito. Besous :*
