Capítulo 15
Oh, não...
Estávamos na cozinha preparando algo para comermos. Era sexta-feira, eu não tinha preocupação de acordar cedo no dia seguinte; era o começo do que seria mais uma noite perfeita de nossas vidas. Era para ter sido, mas não foi.
Enquanto ele bagunçava minhas panelas com a varinha propositalmente, fazendo-as voar sobre minha cabeça, eu estava sentada sobre a bancada jogando maçãs nele. Parecíamos duas crianças felizes e vê-lo sorrir era sempre uma forma de aquecer meu coração. Ainda mais naquele dia em que ele havia acordado um pouco mais sério do que os outros. Passara grande parte do dia se distraindo com qualquer coisa e parecia não prender a atenção em nada, nem mesmo em nossas conversas. Mal havia me provocado, a não ser naquele momento na cozinha. De repente, peguei minha varinha, fiquei de pé sobre a bancada e mirei nele.
- Você quer guerra, não é? – Coloquei uma cara de má no rosto, mas sem segurar o riso solto. Fiz uma panela pousar sobre sua cabeça e pulei em seu colo. Ele me segurou e me beijou carinhosamente a fronte do rosto, com seu novo chapéu.
- Guerra de novo é a última coisa que eu gostaria de ter na minha vida. – disse com um sorriso de lado meio melancólico e me beijo docemente a boca. – Especialmente com você.
Eu permanecei a fitá-lo no fundo dos olhos, com um sorriso que foi se fechando conforme eu tentava ler sua mente. A forma como ele dissera aquilo fora tão diferente quanto seu olhar. Como se estivesse lembrando de tudo. Fiz com que ele me pusesse no chão e percebeu meu estranhamento.
- O que houve? – perguntou, ao tirar a panela da cabeça e colocá-la sobre a bancada.
- Como você falou... parece que se lembra da guerra. Lembra de alguma coisa, Draco? – perguntei sem disfarçar minha desconfiança. Ele apenas revirou os olhos e foi para a sala. Corri atrás dele. Sabia que ele não suportava aquela pergunta, mas seus olhos estavam muito diferentes e eu precisava saber.
- Não vamos começar com isso, Weasley, por favor! – Ele falou logo, sentando-se no sofá. Sentei ao seu lado.
- Draco, – Peguei sua mão e novamente olhei em seus olhos profundos. – você se lembra de algo? Seja sincero comigo.
- As vezes lembro de algumas cenas, mas não consigo entender bem o que é. Você sabe que isso me perturba, está bem? – respondeu impaciente e levantou-se do sofá, voltando para a cozinha. – Agora vamos comer.
Vi-o ir para a cozinha e minutos depois voltar com duas bandejas flutuando atrás dele, que repousaram no chão, sobre o tapete grosso, no qual passávamos muitas horas de nossa pequena vida a dois. Ele se sentou no chão e pegou logo sua tijela de sopa. Ao enfiar uma colher cheia na boca, me encarou, como se perguntasse se eu não iria comer. Soltei um sorriso quase inexpressivo e sentei ao seu lado, fazendo o mesmo que ele. Ele começou a falar sobre a sopa e depois perguntou sobre meus treinos. Logo percebi que ele queria manter uma conversa para não dar brecha para que eu perguntasse novamente sobre sua memória. Resolvi entrar em seu jogo e mantive a conversa, distraidamente, entre pequenos risos, mas sem em nenhum momento deixar minha desconfiança diminuir enquanto ele parecia aliviado. Algo estava estranho. Não sabia se ele não queria tocar naquele assunto por ter sido o motivo de nossa última briga séria ou se porque era algo que o incomodava muito.
Torcia para que eu não falasse nenhuma besteira, já que meus pensamentos não permitiam que eu mantivesse atenção nem ao menos no que eu falava. Eu só conseguia pensar no olhar dele na cozinha e como ele parecia ter se lembrado da guerra. Tentei lembrar dos últimos dias e de algo que pudesse comprovar que sua memória tinha voltado ou não. Como um flash, os momentos em que estivemos juntos nos últimos dias passaram por minha mente rapidamente. Eu já havia notado a mudança do jeito dele, o contínuo uso de feitiços que nem eu conhecia e sua total despreocupação com sua memória. A idéia de que ele a havia recuperado e não me contara não saiu de minha cabeça. Era como seu eu já tivesse desconfiado disso antes, até mesmo já sabia. Só não queria acreditar que fosse possível e que ele estivesse mentindo para mim. Eu tinha que descobrir, mas pelo jeito ele não me contaria.
Percebendo que havíamos acabado de comer e beber nossa taça de vinho, peguei as bandejas e levei para a cozinha. Quando voltei, ele estava deitado sobre o tapete, os braços cruzados sob a cabeça. Cada vez que eu fitava seu rosto, me convencia mais de que estava apaixonada por aquele homem terrivelmente bonito. Se ele houvesse recuperado a memória, não sabia o que faria. Sentei-me perto de sua cabeça e fiz com que ele a apoiasse sobre minhas pernas. Dei-lhe um longo beijo e depois fiquei a massagear seus cabelos, enquanto ele mantinha os olhos fechados e um sorriso bobo no rosto.
- Você é feliz aqui comigo, Malfoy? – perguntei num impulso, sem parar de brincar com suas mechas loiras.
- Jamais pensei que pudesse ser tão feliz. – falou, abrindo os olhos azuis que brilharam em meio ao cômodo escuro em minha direção.
- Mesmo com uma Weasley? – perguntei rindo, agora massageando o lóbulo de sua orelha.
- Mesmo com uma Weasley. – respondeu som um sorriso e voltou a fechar os olhos, pousando as mãos sobre o próprio peito.
- Nossos pais ficariam orgulhosos, não acha? – perguntei novamente, tentando parecer o mais natural possível, massageando sua nuca de forma que ele ficasse ainda mais relaxado.
- Principalmente os meus. – falou distraido, enquanto eu via seu peito subir e descer suavemente, numa respiração normal.
Draco não viu lágrimas se formarem em meus olhos. Ergui o rosto, dei um longo suspiro e pisquei várias vezes, de forma que as lágrimas sumissem.
- Draco, estou com muito frio. Pegue, por favor, um lençol lá em cima para mim. – Ergui sua cabeça com minhas mãos e ele me olhou surpreso. Abracei-me, acariciando meus próprios braços, fingindo estar me aquecendo. – Rápido, por favor.
- Está bem. – Ele concordou, mesmo sem parecer entender e, como eu imaginava que ele iria fazer, sumiu repentinamente e segundos depois aparatou de volta com um lençol em mãos.
Draco deitou-se novamente sobre meu colo e esperou que eu voltasse com o carinho de antes. Percebendo que eu nada fiz, sentou-se de frente para mim e me encarou, confuso. Eu coloquei o lençol de lado, disfarçando a tristeza que tomava conta de mim, e lhe encarei, também séria.
- Eu jamais imaginei que pudéssemos ficar juntos, Draco. Jamais. – afirmei e passei a mão por seu rosto com carinho, observando cada detalhe de sua face, como se fosse a última vez que a veria. – Gosto tanto de você.
- Eu também, Ginevra, sabe disso. – Ele se aproximou ainda mais de mim e segurou minhas mãos, com o olhar fixo no meu. – Como eu jamais pensei que fosse gostar de alguém.
- Posso confiar em você, para sempre? – perguntei, numa última esperança de que ele fosse me contar o que eu queria ouvir de sua boca. E eu o queria por ser a verdade, porque no fundo aquilo era a última coisa que eu desejava que acontecesse. Ele ficou quieto por um segundo e depois abriu um sorriso pra mim.
- Jamais magoaria você. Pode confiar em mim.
Sentindo que já não podia controlar minhas lágrimas, levantei rapidamente e fui até a cozinha. Parei apoiada na bancada, respirando fundo, já sentindo soluços. Quando o vi entrar atrás de mim, cruzei os braços, como um sinal de proteção. Abaixei a cabeça, não querendo que ele me visse. Ele se aproximou lentamente e tocou meus cabelos. Eu desviei rápida, sentindo-me quase enojada. Não conseguia acreditar na capacidade dele de me olhar nos olhos e mentir daquela forma.
- O que está acontecendo, Ginevra? – Ele perguntou com sua voz confusa, franzindo as sobrancelhas.
Eu levantei os olhos lacrimejados e o encarei. Não conseguia acreditar nem em sua aparência preocupada e perplexa. Ao cerrar os olhos novamente, as lágrimas caíram por meu rosto. Apertei os lábios um contra o outro, sem saber o que fazer ou falar. Minhas mãos fechadas com tanta força que eu sentia minhas unhas machucarem as palmas. Não tinha sombra de dúvida em meu coração sobre ele. Tinha certeza de que sua memória havia voltado e que ele era um mentiroso.
- Por que mente para mim, Draco? – perguntei, tentando não demonstrar minha angústia, mesmo sabendo que era impossível. – Eu não entendo, por que mente para mim?
- Do que você está falando, Ginevra? – elevou o tom de voz, ficando ainda mais nervoso. Tentava dar um passo para mais perto de mim, mas como se visse que não era uma boa idéia se aproximar, voltava para trás, aflito.
- Você recuperou sua memória e acha que sou estúpida?
Eu o encarei dura e ele, parecendo vencido, soltou um longo suspiro e se apoiou na bancada ao meu lado, com os braços cruzados também. Virou-se para mim e ameaçou falar algo, mas voltou seu olhar para baixo. Não havia mais como continuar sua mentira.
- E ainda diz que posso confiar em você. – Ri sádica, com os olhos úmidos, e dei um soco irado na bancada, encarando-o com ódio. – Por que?!
- O que quer que eu diga? – disse calmo, sem me olhar, mas com a respiração mais pesada.
- A verdade, pelo menos uma vez! – gritei com o rosto colado em seu ouvido.
- Sim, Weasley! Recuperei minha memória! Está feliz agora? – Ele gritou irritado ao voltar o olhar para mim, seus olhos exalando raiva. Deu-me as costas e foi em direção a sala. Fui atrás dele e o parei próximo a escada.
- O que pretendia com isso, Malfoy? Até quando pretendia continuar essa farsa? Me acha estúpida demais, não é mesmo? – Eu dizia rápido, sem controlar as palavras, sentindo uma nova onda de ira percorrer meu corpo. Ele apenas me fitava com seus olhos inquietos e sua respiração pesada.
- Eu só... – Ele balbuciava hesitante, com as mãos trêmulas. – Eu pensei que se você soubesse... Eu não queria que...
Comecei a me irritar de verdade, vendo como ele parecia um criminoso ao acabar de ser pego e tentar inventar uma desculpa para se safar. Senti qualquer vestígio de lágrima sumir dos meus olhos e meu sangue ferver em minhas veias.
- Eu nunca tive uma vida como a que eu tive aqui. – falou sem conseguir me olhar. – Eu só não queria que as coisas mudassem.
- Às minhas custas? À base de uma mentira? Como eu pude confiar num maldito Malfoy?! – gritei e desci os degraus que havia subido para alcançá-lo. Ele ficou parado exatamente onde estava antes, me encarado, seus olhos arregalados como eu jamais vira. – Você não é a pessoa que eu pensei que poderia ser. Talvez só tenha sido quando estava sem memória, quando não era você. – terminei triste e dei-lhe as costas, levando meu corpo arrastado para o sofá. Ouvi com dor seus passos rápidos subindo os degraus, vendo meu belo sonho se desmanchar.
Muito tempo depois ele desceu e parou ao lado do sofá, onde eu estava sentada. Ficamos em silêncio por um tempo, sem conseguir nos encarar-mos. Ele cortou o silêncio.
- Eu vou embora. – Deu mais uns passos curtos para frente, de modo a ficar ao alcance do meu olhar.
Eu virei muito pouco meu rosto e, com o canto do olho, vi-o com a capa e as roupas que vestia no dia em que o encontrei. Sua varinha pendia para fora do bolso da calça e eu podia notar seu peito arfar sob a camisa grossa que vestia. Eu queria pelo menos dizer a ele que ficasse até o dia seguinte. Já era tarde demais para ele ir embora. No entanto, minha boca não conseguia se mover. Estava magoada demais. Ele não poderia ter mentido para mim daquela forma. Eu havia terminado com meu noivo para ficar com ele, o abrigara em minha casa, entregara meu coração, e ele me enganara friamente, como um Malfoy. Não sabia se sentia mais raiva dele ou de mim por ter sido tão estúpida.
- Eu agradeço por ter me ajudado, Weasley. Agradeço sinceramente. – Seu corpo estava imóvel e apenas seus olhos piscavam impacientes.
- Sinceramente? – indaguei soltando um riso sarcástico e me levantei. – Claro! – Fui até a porta em passos velozes, a abri e dei passagem para que ele passasse, com a mão na maçaneta.
Ele veio lento até a porta e parou de frente para mim, sem conseguir me olhar. A única coisa que eu pensei foi o quanto ele era covarde.
- Adeus, Weasley. – Sua voz não passou de um sussurro rouco.
- Adeus, Malfoy. – Também não pude fitá-lo.
Com o coração pulsante parecendo sair por minha garganta, vi-o passar por mim. Quando vi que ele já estava do lado de fora, bati a porta abruptamente atrás dele e caí no chão, perdendo completamente as forças de minhas pernas. Estava desolada e a única coisa que eu queria fazer era ficar ali e chorar.
N.A.: aaaaah que tristeza, que complicação! Mas é isso ;/ uma hora vinha a tona e a boa vida ia acabar. Eu gosto especialmente de escrever capítulos mais tristes. Quem sabe a minha próxima fic é um drama beem pesado? Hahahaha. É isso, espero que gostem do capítulo e espero aqueles comentários bonitos que me fazem tão feliz. Besous :*
