Capítulo 16

A carta inesperada

Passei o final de semana inteiro deitada no sofá, imersa nas lembranças que aquela sala me remetia, ou vagando pelo resto da casa. Cada canto daquele lugar me lembrava algo com Draco. Uma provocação, um sorriso, um beijo. Tudo ali tinha algo dele. Imaginar que eu não mais o teria ali me deixava ainda mais deprimida. Eu não podia imaginar que em tão pouco tempo eu fosse me apaixonar daquela forma. Eu sabia que ficaria triste, mas o vazio que ele havia deixado em mim era ainda maior do que eu poderia esperar. Não sabia o que me abatia mais: se a sensação de ter sido enganada ou imaginar a vida sem ele.

E para piorar, ele havia ido embora me deixando sem saber o que ele estava fazendo em meu porão. A razão de minha vida estar como estava. Se eu nunca o tivesse encontrado em meu porão ainda estaria com Harry e tudo estaria normal, como sempre estivera e como deveria estar. Ao pensar naquilo me indagava se realmente eu estaria feliz. Eu não conseguia mentir para mim mesma. Sabia que havia passado momentos maravilhosos com Draco e que qualquer vislumbramento de poder passar um dia a mais ao lado dele me deixava mais feliz e entusiasmada do que imaginar uma vida inteira ao lado de Harry. Por alguns momentos chegava a me perguntar se deveria procurar Harry e retomar nosso relacionamento, numa tentativa de retomar minha antiga vida e esquecer Draco, mas sempre me convencia que não. A única coisa que a presença de Harry poderia fazer era acentuar a ausência de Draco. E isso definitivamente não me faria bem. O que eu precisava mesmo era de um tempo para mim e esperar e torcer para que aquela dor ao menos diminuísse.

Voltar do treino na segunda-feira e encontrar aquela casa vazia era como vê-la morta e tal sensação fazia meu peito doer imensamente. O silêncio me agoniava de uma forma que eu não podia suportar. Evitei ficar dentro daquela casa sozinha. Procurava ficar o maior tempo possível na minha varanda, como se estivesse me escondendo da solidão insistente que parecia correr atrás de mim, como um fantasma.

Nem visitar meus pais n'A Toca fez-me alegrar por um tempo razoável. A cada sorriso que eu conseguia esboçar, a imagem de Draco me vinha em mente e novamente eu mergulhava em meus pensamentos. Todos pensaram que fosse uma conseqüência tardia do término do noivado com Harry. Era melhor que pensassem assim.

O●

Quase dez dias após a partida de Draco eu começava a sentir que a qualquer momento seria levada por um súbito desejo e o procuraria incansavelmente. A idéia de que ele havia me enganado já não me feria tanto quanto a saudade. Mas como o acharia? Teria realmente coragem de fazer aquilo?

Entre meus pensamentos, estava deitada em minha cama e escutei um estranho barulho vindo da janela. Ergui-me depressa, assustada, e a abri, procurando a causa do barulho. Rapidamente uma coruja voou quarto a dentro, deixando um envelope cair sobre a cama, e saiu voando em direção a lua. Meu coração pulsou acelerado não tendo reconhecido aquela coruja. Não era uma carta de nenhum amigo ou parente. A possibilidade de que era notícias de Draco era a única que tinha em mente. Aproximei-me quase receosa, como se fosse uma bomba prestes a explodir. Peguei o envelope com cuidado e me sentei. Fiquei alguns minutos encarando o envelope cinza, sem coragem para abri-lo, mas ao mesmo tempo tentando adivinhar o que estaria escrito ali. Dando-me conta do quão idiota eu deveria estar parecendo, soltei um longo suspiro e abri o envelope, pegando a carta que havia dentro. Tentando me convencer logo de início que seriam boas notícias, comecei a ler.

"Ginevra,

gostaria de ter enviado essa carta antes, mas os últimos dias foram um pouco conturbados. Na verdade, eu só gostaria de agradecer-lhe novamente pelo que fez por mim. Sei que você não deveria tê-lo feito, mas o fez, e sou grato; por ter se mostrado sempre disposta a me ajudar e, principalmente, por ter me concedido dias incríveis que jamais poderiam ser comparados com minha estadia em seu porão deserto ou o resto de minha vida.

Infelizmente, naquele dia não pude, e talvez não tenha tentado mesmo, explicar-lhe como recobrei minha memória e o motivo pelo qual estava no porão de sua casa, e sei que você tem o direito de saber. Deve recordar-se do dia em que chegou do treino e encontrou-me no porão, procurando por minha varinha. Naquele dia caí da escada e, após sair do tempo em que estive inconsciente, notei que minha memória havia voltado, mesmo que remotamente. Conforme os dias foram passando, meus pensamentos e minhas lembranças foram ficando mais claras. Se não contei, foi por temer justamente o momento de ter que deixar sua casa e você. Sabia que quando esse momento chegasse, você não mais sentiria-se responsável por meu estado e por mim e me deixaria. E eu jamais havia tido a vida que tive a seu lado. Pensar que não seria mais assim me amedrontava. Não espero que veja isso como uma justificativa para me perdoar; só desejo mesmo que você tome conhecimento do que de fato ocorreu.

No entanto, acredito que o seu maior interesse é saber o motivo pelo qual eu estava em seu porão. Parece que mesmo depois da guerra e das acusações contra comensais terem sido retiradas, o ministério abriu um inquérito pela morte de Alvo Dumbledore; segundo minha mãe numa tentativa de colocar alguns antigos comensais em Azkaban. Você sabe de meu envolvimento com o fato e não preciso explicar. Meus pais persuadiram-me a me esconder até que o inquérito fosse arquivado. Mesmo tendo sido mal-sucedido na tentativa de matar Dumbledore, coisa pela qual hoje em dia fico aliviado, houveram antes tentativas das quais o ministério tomou conhecimento. Como eles realmente queriam aprisionar comensais, eu seria pego e fugi. Não me orgulho de minha decisão, mas sinceramente não me arrependo.

Agora não precisa mais se preocupar. Não terá nenhum fugitivo em sua casa. Lamento que as coisas entre nós tenham terminado da forma como foi, mas deve ser melhor para você. O herói sempre será melhor que o fugitivo, e agora eu não atrapalharei. Desejo que você seja feliz, Ginevra Weasley.

Saudosamente,

Draco Malfoy"

Tive que reler a carta mais algumas vezes até que tudo fosse absorvido por meu cérebro. Não sabia o que pensar sobre aquilo. Era estranho saber de tudo daquela forma. De que ele estava fugindo do ministério por causa de um inquérito do qual eu nada sabia sobre a morte de Dumbledore eu jamais poderia desconfiar. Temi por ele com a possibilidade dele ir para Azkaban. Ele não merecia aquilo e eu esperava, com o mais profundo de minha alma, que tudo se resolvesse bem.

De repente, uma grande tristeza começou a se apoderar de mim, sem eu entender o porquê. Não era só por temer que ele fosse para Azkaban. Era algo mais, mas eu não poderia explicar. Eu só desejava vê-lo ao meu lado para ouvir dos lábios dele aquela história. Mas havia ainda uma pequena sensação de alívio em saber que ele estava em segurança com sua família. Provavelmente ele continuaria fugindo até que qualquer hipótese de acusação fosse retirada, mas estava em segurança. Sem dúvida nenhuma ele estava mais seguro ao meu lado, mas aquilo já não era uma opção para nós. Vendo aquele pedaço de papel como uma triste e insuficiente despedida, dobrei-o com toda cautela, coloquei sob meu travesseiro e me deitei, tentando me convencer de que aqueles dias vividos ali em pouco tempo se tornariam apenas lembranças, mas tendo certeza de que era mentira.

N.A.: Acho que nunca postei tão rápido, mas acredito que isso não incomode muito. Então, tá aí, mais um capítulo. E só tenho que dizer: AI DRAQUINHO LINDO! Hahahaha! Ju-PiAzZaLuNgA, obrigada pela review. Pois é, coração de adultos! Muitas vezes é tempestade mesmo x) Até o próximo capítulo. Espero que curtam e espero comentários =) Besous :*