Capítulo 20

Pratos limpos

Fiquei a encará-lo por um minuto, me sentindo perdida e confusa. Não podia acreditar que ele estava em minha frente, imóvel, ao meu alcance. E como se fosse possível, senti meu coração disparar acelerado e me faltar o ar. Ficamos sem reação durante um momento, mas seu pequeno sorriso no canto da boca, um tanto sem jeito, fez com que, por impulso, eu esquecesse de tudo e o abraçasse com força, acabando com a ânsia de meu peito. Meus braços apertaram Draco com tanta força que talvez pudesse machucá-lo, mas eu não podia controlar. Não queria que ele se afastasse por nenhum momento sequer. Precisava sentir seu corpo junto ao meu novamente. Ao sentir seus braços me envolverem, correspondendo ao meu abraço, uma paz sem tamanho me invadiu. Meu coração se acalmou e era como se estivéssemos sobre uma nuvem, sozinhos. Fechei os olhos, com a cabeça pousada em seu peito, e suspirei. A sensação de tê-lo comigo era a mais incrível que eu poderia sentir. Era como estar protegida de tudo em meio ao perigo. Ele levou suas mãos aos meus cabelos, acariciando-os com ternura, e minhas mãos apertavam suas costas, como se meu corpo não fosse permitir que ele se afastasse nunca mais.

Somente nos demos conta do mundo em volta quando Narcisa puxou Draco pelo braço.

- Draco, respeite minha presença! – dizia, encarando-nos com certa aversão. Parou o olhar censurador sobre o filho. – Por que está aqui?

- O elfo me contou! – Ele se afastou de mim, parando de frente para sua mãe. Sua voz voltou a se elevar e não estava nada amigável.

- Aquele maldito elfo... – sibilou ríspida, desviando os olhos, como se já planejasse um castigo para a criatura.

- Aquele maldito elfo é leal a mim pelo menos! Já conversamos sobre isso!

- Meu filho, você tem que pensar melhor nas suas decisões. – Percebi que ela tomava todo o cuidado para que não fosse preciso ser mencionado o que realmente estava acontecendo na minha presença. Seu rosto estava apreensivo e conforme Draco aumentava o volume de sua voz, ela diminuía a sua, para que ele fizesse o mesmo, sem em nenhum momento deixar de verificar se eu estava suficientemente longe deles.

- O que está acontecendo, Draco? – perguntei, sabendo que se falasse com ela não obteria resposta.

- Nada! – A mulher deu um passo em minha direção, apressada. – Vamos, meu filho, conversamos em casa. – Envolveu seu braço no dele e o acariciou, lançando um sorriso calmo para ele e fazendo-o virar-se de costas para mim. Não me contive e o puxei de volta.

- Draco, o que está acontecendo? – perguntei novamente, o encarando fixamente, implorando por respostas.

- Eu vou te explicar. – respondeu-me calmo, completamente diferente do Draco que falava com a mãe.

- Você vai embora comigo. – A loira arregalou os olhos e tentou puxá-lo desesperada para longe de mim, mas ele se manteve firme sem ao menos se mover.

- Eu vou ficar aqui e depois vou para casa. – Estava sério, seguro de si, mas sem desrespeitá-la. E eu respeitei-o mais naquele momento. Jamais poderia imaginá-lo com tanta paciência. Eu mesma já estava prestes a voar em seu pescoço e arrancar-lhe um bocado de cabelos.

A mulher arregalou ainda mais os olhos, olhando-o como se não acreditasse no que ouvia, como se não o reconhecesse. Aos poucos sua expressão incrédula foi tomando uma forma raivosa. No final, ela encarou-o dura entre os olhos cerrados e aparatou, soltando um grito enfurecido.

Assim que ela sumiu, ele virou-se para mim altivo, cruzando os braços e meneou a cabeça.

- Como você consegue me arranjar tantos problemas, Weasley? – indagou com sua expressão soberba e um sorriso preso na boca.

- Você aparece desmemoriado em minha casa, bagunça tudo e eu te arranjo problemas? – retruquei, imitando sua postura, e ele riu. – Senti saudades... – continuei. As palavras saíram naturalmente de minha boca.

- Eu também senti saudades...

Fiquei a fitar seus olhos presos aos meus, sem conseguir ao menos piscar. Mal podia acreditar que era ele que estava ali na minha frente. Queria tocá-lo, beijá-lo, abraçá-lo novamente. Mas ao lembrar da discussão ocorrida há pouco ali, respirei fundo, tentando ser um pouco racional.

- Mas você ainda me deve explicações. – disse mais séria.

Ele me segurou pela mão e nos sentamos no sofá, nos fitando por um momento. Apenas ver sua face me dava alegria.

- Pensei que tivesse sido enviado para Azkaban. – Só de falar naquela hipótese meu coração apertava de medo.

- Eu pensei que iria, mas convenci o ministro de que era inocente na morte de Dumbledore e de que nas tentativas de matá-lo eu havia sido persuadido. E o depoimento de seu noivo me ajudou.

- Harry?! – indaguei sem conseguir acreditar e só recebi um aceno afirmativo com a cabeça. Draco abaixou a cabeça, resmungando algo incompreensível. Novamente ele teria um motivo para ser grato a Harry e isso devia matá-lo, ainda mais na situação na qual nos encontrávamos. – Eu não sabia disso. Rony comentou há alguns dias que você tinha se apresentado ao ministério, mas nada me disse sobre o que havia acontecido depois.

- Eu não poderia viver me escondendo. Quero viver uma vida normal, se for possível. – Soltou um riso amargurado que me deixou lastimosa. – Resolvi me arriscar e deu certo. – Apesar de seu sorriso final, ele não parecia feliz como deveria estar.

- E estava escondido aqui porque essa casa é de seu pai. – acrescentei.

- Não é de meu pai.

- Mas aquele homem disse que a casa era do senhor Malfoy.

- E é... – terminou com um sorriso travesso.

Lembrei das palavras exatas da discussão e então as coisas fizeram sentido para mim. O que o homem falara, Draco estar lá, o desespero de Narcisa.

- Essa casa é sua... – balbuciei sem me direcionar para ninguém especificamente. Ele concordou com a cabeça. Eu não conseguia acreditar. Minha casa era de Draco.

- Não se preocupe, Ginevra. Minha mãe apressou-se em falar com você porque ela não quer que eu perca a propriedade para uma Weasley, ainda mais sabendo o que ocorreu. Mas já está decidido. Eu não a quero. Ela é sua e pode ficar descansada. Jamais vou permitir que tirem ela de você.

- Mas e você? – indaguei com a boca aberta, mal conseguia respirar.

- Não vou permitir que minha mãe pegue esta casa e a mude. – Ele olhou em volta e fiz o mesmo, encontrando seu olhar ao final, onde meus olhos se prenderam. – Ela é perfeita como é e aqui passei momentos maravilhosos. Mas eu também não quero ela pra mim, não faz sentido.

- Como não faz sentido? – Eu estava confusa demais. Era muita informação inacreditável em tão pouco tempo. – É sua casa, você poderia morar aqui ou vendê-la. É seu dinheiro. – Também não conseguia entender e aceitar o descaso dele. Seria por ter dinheiro o suficiente para não fazer questão de um pequeno imóvel?

- Morar aqui? – indagou rindo, debochado, como se fosse um absurdo. – Por que eu iria querer isso?

- Você mesmo disse, gosta daqui, tem boas lembranças. – Eu já não conseguia disfarçar minha inquietude. Nem ao menos conseguia ficar com o corpo parado. Deixava-me espantada como ele era contraditório em suas palavras.

Ele apenas me encarou, pegando minha mão com carinho e envolvendo-a entre as dele. Meu corpo se arrepiou.

- Ginevra, eu aqui sozinho seria um martírio. Você não estaria comigo.

Suas palavras me apertaram o peito e lágrimas discretas começaram a oscilar em meus olhos. Inclinei minha cabeça para trás, tentando segurá-las, mas sentindo meu coração disparar cada vez mais rápido. Minha mão queimava entre as dele.

- Além do mais você me ajudou tanto! – Soltou minha mão e desviou o olhar. – Eu não quero que nada te aconteça.

- Eu te ajudei porque foi minha culpa. Era minha obrigação. – também desviei o olhar.

- Eu sei disso. – Deu um sorriso triste e se levantou. Pegou sua varinha e começou a brincar com ela entre seus dedos.

Eu observei-o distraído, enquanto analisava minhas palavras e juntado-as com as palavras da carta que eu recebi e que estavam gravadas perfeitamente em minha cabeça. Havia perdido as contas de quantas vezes li aquela carta. Levantei-me também e fui até perto dele.

- Acha mesmo que eu só o ajudei porque me sentia culpada? – perguntei com a voz baixa. – E que no momento em que você não precisasse mais de mim eu iria mandá-lo embora?

- Você mesma falou agora. E no final não foi isso que aconteceu? – Ele parou sua varinha no ar, mas não me olhou.

- Eu estava com raiva porque você mentiu para mim! – disse indignada, com os olhos úmidos. Sabia que estava começando uma discussão que poderia não terminar bem e que eu acabaria chorando na frente dele, mas não me importava mais. Eu só queria que as coisas ficassem claras entre a gente. – Se tivesse dito logo no primeiro momento as coisas teriam sido diferentes, jamais teriam terminado como terminaram.

- Como eu poderia ter certeza, Weasley? – Ele ainda mantinha os olhos na varinha que flutuava na direção dos seus olhos. – Você nem ao menos sabia com quem você queria ficar. Eu ou seu noivinho.

- Queria você e você sabia disso! – gritei, sem conseguir me controlar.

- Até quando? – Ele virou-se para mim com o olhar duro e sua varinha caiu no chão. – Como das outras vezes em que no momento que você se dava conta do que estava fazendo se afastava de mim. Eu sabia que o que estava fazendo era errado, mas eu não queria me afastar da vida que estava tendo aqui. Eu tinha alguém para cuidar de mim pela primeira vez na minha vida. Eu fui um idiota sim, um mentiroso sim, mas eu tinha minhas razões.

- Acha que é fácil manter uma mentira?!

- Por você estaríamos mantendo uma mentira. – disse raivoso entre dentes, com o rosto mais próximo do meu. – Eu aqui dentro com você e lá fora você e seu noivinho.

- Isso não é verdade... – Suas acusações me feriam terrivelmente e eu mal conseguia gritar em resposta.

- Não?! Quem está tentando enganar? Você pode se enganar, mas não a mim. E quer saber? Foi uma idéia idiota mesmo. Eu não poderia viver aqui escondido para sempre, mesmo gostando de você.

- É verdade? Posso acreditar? Você e suas mentiras... – Dei as costas para ele, jogando uma mão para o ar.

- Escute aqui, – Rapidamente ele me puxou de volta para perto dele. Sua mão segurava com força meu braço e nos encarávamos com ira. – você pode falar qualquer coisa de mim, mas nunca que eu não gostei de você. Foram mentiras? Foram! Mas não aja como se fosse grande coisa! Pior são as mentiras que você manteve com seu noivinho e com sua familia. Mantendo um inimigo da familia em sua casa e tendo um caso com ele quando seu noivo estava esperando você lá fora com um anel e um sonho de familia!

- E você acha que eu não me sentia mal com isso? – disse com a voz trêmula, sentindo meus olhos queimarem e meu braço apertado na mão dele.

- E você acha que eu não me sentia mal fingindo não lembrar de minha vida também? Mas dane-se, porque era necessário pra eu conseguir o que eu queria. E o que eu queria era ficar aqui com você! – Ele falava muito rápido, quase se atropelando nas palavras. – E você me acusa até de aproveitador! Como se eu tivesse mantido minha mentira para me aproveitar de você, para você me sustentar ou alguma coisa parecida, – Sua expressão era de que aquela idéia era repugnante demais para aceitar que havia passado em minha mente. – quando eu só não contei que minha memória havia voltado para poder ficar ao seu lado! Não tente colocar em mim um peso que não mereço. Pode me chamar de mentiroso sim, e não me arrependo. Mas não insinue que eu tive más intenções com isso tudo e muito menos de que foi mentira meus sentimentos por você!

Quando ele terminou seu olhos estavam vermelhos de raiva, assim como toda a sua face. Seu rosto estava úmido, seu cabelo grudava em sua testa e sua mão estava trêmula. Enquanto me encarava com sua respiração pesada, abaixou o dedo que estava apontado para o meu rosto. Eu apenas fiquei paralisada, com lágrimas nos olhos, sem saber o que dizer, ainda processando o que havia escutado.

- Quer saber? Esquece! – Ele continuou, irritado, ao me soltar bruscamente. – Você e sua maldita moral torta que só funciona com os outros. Uma hipócrita, é isso que você é! – Deu passos para trás para se afastar de mim, como se estivesse enojado, e me fitou. – Não se preocupe, eu não vou aparecer mais e nem vou contar para o Potter o que você fez. Como eu poderia ferrar com ele? Ele me ajudou duas vezes! Devo ser duplamente grato a ele! – Enfatizava o nojo por ter que confessar aquilo, com uma risada sarcástica. – E você terá sua casa para sempre. Case-se, tenhas muitos filhos, crie-os aqui mesmo e seja muito feliz.

Ao terminar, em meio sua exaustão, ele mal deixou tempo para que eu falasse algo e desapareceu. Eu fiquei olhando em volta, esperando que ele ainda estivesse ali, mas me deparei apenas com o vazio.

Ele havia me deixado ali sozinha, completamente desorientada, com o corpo caído pelo sofá. Sentia a verdade cuspida em meu rosto queimar com minha vergonha.

N.A.: Ah! Adoro escrever as revoltas de Draco e suas explosões, sempre. E também gosto de colocar a mulher como culpada dos problemas, confesso. Acho que se um analista lesse minhas fics ia ter um prato feito sobre mim, haha! Então, é isso. Um capítulo maior do que os outros últimos. Tá acabando ;// Espero que curtam esse capítulo. Lizaaa, muito obrigada pela review! Comente sempre que puder ;) Gih Malfoy, esse loirinho sedutor né? Sua volta causa sempre muitas alegrias. E concordo com você, bem feito pra ela para ela aprender! Homens assim a gente não deixa escapar! E será que eles vão ficar juntos? Rs veremos. E obrigada mesmo pela review! Ah Ana, muito obrigada! Você tá acompanhando desce o iníciozinho. Ai, que legal cara! Ana, segue confiante e estude muito que você vai passar. Quero muito poder te dar os parabéns quando você me der essa notícia boa! Bom, realmente medicina sempre é mais dureza. Mas vai pelo que você realmente quer. Se for algo que você quer muito mesmo, então corre atrás, mas farmácia bioquimica é muito legal também! E imagino ser uma área ainda com não muitos profissionais. Seja o que for você vai conseguir se se esforçar e, acima de tudo, ficar confiante na sua capacidade e no seu trabalho. Ah, eu faço filosofia ;x adoro. E tenho que escrever muito também né. E não! Não vai piorar na faculdade. Você vai adora, estudar coisas que você gosta e que você realmente vai precisar... e fora o clima de faculdade, que é ótimo. Não deixa ninguém te desanimar! Até o próximo capítulo, e obrigada pela review! Helena Malfoy, uma apaixonada pelo draquinho também, imagino. Obrigada pela review, lindona! Espero que goste do capítulo. Quando vi seu comentário resolvi atualizar logo hoje. Continue acompanhando. Bom, é isso, até a próxima. Besous a todos :*