Notas iniciais: olá, mundo!

Como prometo, mais uma capítulo de IdS saindo do forno quentinho!

Meus eternos agradecimentos à May Prince e Mickky! Vocês não fazem ideia o quanto seus comentários me impulsionam!

Mickky, sobre a falta de memória de Snape, saiba que essa questão será muito bem detalhada a partir do capítulo a seguir.

Quanto ao seu comentário sobre os pensamentos de Mione, eu levei muito a sério a necessidade de aprofundar os "como?" e "por quê?" de um possível amor nascer entre eles em IdS.

Inicialmente, essa história sequer era para ser um romance, mas o plot se escreveu sozinho e, ainda que eu não tenha absolutamente nada contra outros modos de se desenvolver o shipper, algo que amo muito é uma boa história de amor — quanto mais detalhe, melhor!

Shacklebolt aparece bastante nesse capítulo. Estou curiosa para saber o que vai achar! E sobre os funerais... Não me mate, mas vai ter que esperar pelo próximo capítulo. Que inclusive se chama "Conversa difícil". Mas não posso falar mais nada senão estraga a experiência!

Bom, é isso. Espero que apreciem a leitura!


The cycle of suffering goes on

But the memories of you stay strong

Beyond the suffering you've known

I hope you find your way

(Alter Bridge — Blackbird)

Antes que Hermione pudesse responder Shacklebolt, McGonagall, ainda de costas para a sala, falou enquanto fechava a porta atrás de si:

— Eu sabia que estaria aqui, senhorita Granger. Quando não te vi junto com os mais jovens no memorial, não tive dúvidas… — No meio da frase, a Diretora se virou para encará-la e sua expressão, apesar de séria, passava também uma preocupação genuína — Concluo que esteja mais calma?

Sem saber ao certo qual seria a resposta mais apropriada para essa pergunta, Hermione rapidamente olhou para Snape e, satisfeita ao vê-lo dormir profundamente, apenas acenou afirmativamente e se levantou da cadeira, andando na direção dos dois bruxos que permaneciam parados na entrada da sala.

— Eu precisava ver com meus próprios olhos, professora. — Olhando na direção de Shacklebolt, ela ofereceu um rápido aceno em cumprimento, antes de voltar sua atenção à bruxa, decidida a descobrir o motivo daquele discurso no Salão Principal — Por que ele também estava na lista dos mortos? — Seu tom e sua postura deixavam claros que uma resposta genérica simplesmente não seria aceita.

O bruxo olhou para baixo, consultando McGonagall sobre o quê deveria oferecer como resposta. Mas Hermione estava farta daqueles protocolos ridículos. Impaciente, sussurrou no seu tom mais baixo e controlado possível:

— Há menos de doze horas atrás, eu fui parar em uma casa que nunca tinha visto antes, a mando do quadro do Diretor Dumbledore, e fiz o que estava no meu alcance para manter o Professor Snape vivo, então é bom se lembrar que não sou mais aquela menina de dezesseis anos que você conheceu em Grimmauld Place, senhor Shacklebolt. — Sua demanda foi terminada com um tenso cruzar de braços, mas seus olhos não perderam o sorrisinho orgulhoso que brotou nos lábios finos da Professora McGonagall.

Shacklebolt arregalou os olhos diante de sua postura, e refletiu em silêncio antes de começar a falar, cautelosamente:

— Muito bem, senhorita Granger. Diante do cenário atual, eu estou responsável pelo Ministério da Magia e Minerva, instruída por Albus, concluiu que alguém do Ministério deveria estar a par da verdadeira situação de Severus Snape. Ninguém melhor do que um membro da Ordem da Fênix, se formos realmente pensar sobre isso… — Ele usava um tom controlado, olhando intensamente a grifinória nos olhos — Albus afirma que, assim que Snape acordar, poderá contar toda a verdade e provar que esteve do lado da Ordem todos esses anos, mesmo depois do episódio na Torre de Astronomia... — Shacklebolt fez uma pausa forçada, como se a simples menção do ocorrido fosse demais para ele.

Limpando a garganta e retomando o controle de suas emoções, o bruxo finalizou seu discurso:

— Até que isso seja devidamente esclarecido, Severus Snape ainda é um Comensal da Morte conhecido, e concordamos que o melhor, nas atuais circunstâncias, é declará-lo como morto, ao menos até segunda ordem.

Hermione não tinha percebido que havia prendido a respiração enquanto Shacklebolt falava.

Agora, com os três presos em um silêncio desagradável, a jovem bruxa soltou um longo suspiro e mordeu o lábio inferior, sentindo-se verdadeiramente uma intrusa naquela situação. Mas não havia qualquer outra outra alternativa senão responder:

— Talvez tenhamos que esperar para saber toda a verdade, senhor Shacklebolt.

Decidindo que não seria correto continuar desviando seus olhos para os próprios sapatos, Hermione muniu-se de coragem com uma profunda inspiração e declarou:

— O Professor Snape acordou enquanto eu estava aqui e… pode ser apenas devido ao trauma, Madame Pomfrey com certeza saberá explicar melhor do que eu, mas aparentemente o Professor Snape não se lembra de nada.

Shacklebolt ergueu uma sobrancelha, claramente tendo dificuldade para compreender suas palavras. McGonagall, por outro lado, encarava seriamente o homem convalescente, deitado a poucos passos de distância — as linhas de expressão em seu rosto esguio estavam impassíveis, e o silêncio da sala pareceu se aprofundar ainda mais. Nenhum dos três minimamente inclinado à quebrá-lo.

Quem pôs fim ao desconforto foi a pintura Dumbledore, que em algum momento da conversa havia retornado à sua moldura sobre a cama de Snape:

— Shacklebolt, muito sábio de sua parte em assumir o controle do Ministério nesse momento. Precisamos de membros da Ordem posicionados em todos os lugares, mesmo Voldemort tendo realmente caído. — Hermione voltou os olhos para o quadro, sentindo um arrepio involuntário na espinha com a austeridade que Dumbledore falava — Senhorita Granger, tem certeza que Severus não se lembra de nada?

Sem titubear, ela concordou veementemente, considerando o quanto daquela interação que tivera com Snape poderia ser dita na frente de todas aquelas pessoas. Sua avaliação não durou mais do que alguns segundos, pois os três fitavam-na intensamente, esperando que falasse alguma coisa.

Engolindo em seco, Hermione respondeu:

— Ele parecia estar muito confuso, Diretor. Não se lembrava de mim, Harry ou mesmo do senhor. Sequer se lembrava do próprio nome...

— E Harry ainda tem as memórias que Severus lhe deu? — A réplica da pintura foi dita sem pestanejar.

Hermione então realizou a seriedade daquele momento, e por um instante cogitou omitir a verdade. Harry tinha sido claro ao dizer que Snape e apenas Snape tinha o direito de compartilhar aquelas memórias, suas verdades. Inconscientemente, levou uma mão para a bolsinha de contas pendurada em seu pescoço, mas antes que decidisse o quê responder, a porta da sala voltou a se abrir e Madame Pomfrey entrou esbaforida.

— Minerva! Vim o mais rápido que pude! Precisei ver os outros enfermos antes e… Senhorita Granger, o que está fazendo aqui?

Hermione não sabia se revirava os olhos ou agradecia genuinamente pela interrupção. McGonagall veio em sua salvação, respondendo no lugar dela:

— Poppy, ainda bem que chegou! Parece que Severus acordou, mas não se lembra de nada que aconteceu. Poderia dar uma olhada nele? — Em seguida, virou-se para Shacklebolt, emendando uma solicitação na outra — King, tenho certeza que o Ministério precisa de você agora. Assim que tivermos mais informações sobre a situação de Severus, entro em contato. — E, não tão delicadamente assim, apoiou uma mão no ombro do bruxo, direcionando-o para a saída.

Shacklebolt cumprimentou Hermione e Pomfrey com um aceno rápido em despedida, caminhando na direção da saída e desaparecendo de suas vistas. A medibruxa sequer esperou a porta se fechar por completo, andando a passos largos até o leito improvisado, deixando para trás uma Hermione completamente aturdida.

— E o que acontece agora, professora? — Ela perguntou baixinho, sentindo-se novamente como uma aluna sobre o escrutínio da diretora de sua casa.

Com um suspiro cansado, McGonagall respondeu:

— Agora, esperamos para saber qual será o prognóstico de Poppy. — A atenção dela se dividia entre a ex-aluna e os complexos movimentos de varinha que a medibruxa fazia sobre o corpo do enfermo adormecido — Severus sempre foi um grande… colega meu, senhorita Granger. Se existe a possibilidade de estarmos enganadas sobre a verdadeira residência de sua lealdade, então aguardaremos para ouvir o seu lado da história.

Hermione concordou silenciosamente, voltando a encarar de longe o seu antigo professor. A lembrança do medo naqueles olhos negros foi o que fez a falar, sem realmente perceber o quê pedia, até que fosse tarde demais e as palavras já tivessem deixado seus lábios:

— Professora, se não se importar, eu gostaria de ficar e… e ajudar da melhor forma que puder.

Não recebendo nenhuma resposta imediata, a jovem bruxa levantou os olhos, recebendo da mais nova Diretora de Hogwarts um olhar penetrante que dizia muito pouco, mas dizia o suficiente. McGonagall claramente não entendia a razão por trás do pedido de Hermione, mas se nem mesmo ela sabia o por quê era tão importante que ficasse ao lado dele, como poderia explicar em palavras o motivo daquela instintiva necessidade?

— Potter e Weasley estavam muito preocupados com seu sumiço, senhorita Granger… — McGonagall disse lentamente, sem nunca afastar os olhos dos de Hermione.

E, nos poucos instantes em que o escrutínio durou, algo pareceu fazer sentido para a bruxa mais velha, que seguiu falando, porém agora em um tom muito mais prático:

— Fique à vontade para ir ou ficar, Hermione. Sei que não preciso reiterar que a sobrevivência de Snape é, até segunda ordem, um assunto estritamente proibido, inclusive para os seus melhores amigos. Enquanto não tivermos noção da extensão dos fatos, a comunidade bruxa precisa acreditar que Severus Snape morreu — ou Azkaban terá uma cela pronta para recebê-lo, tendo ele perdido suas memórias ou não.

Hermione ouviu atentamente cada uma das palavras que McGonagall disse, agradecendo mentalmente que, assim como ela havia feito depois da breve conversa que teve com seu antigo professor, a Diretora também parecesse estar apta a oferecer o benefício da dúvida à Snape. E, mesmo quando ouviu que teria que esconder de seus amigos a verdade, Hermione não protestou. Aquela não seria a primeira vez em que guardaria um segredo somente para si, e fazia sentido que poucos tivessem acesso àquela informação. A liberdade de um homem estava em risco e, lembrando-se de como a história tinha uma tendência perigosa de se repetir, Hermione concluiu que se existisse uma possibilidade, ainda que ínfima, de Snape ser inocente, então ele merecia ser ouvido. Sirius Black poderia ainda estar vivo se a comunidade bruxa tivesse se esforçado um pouco mais para apurar os fatos em seu julgamento, duas décadas atrás, antes de condená-lo à prisão perpétua em Azkaban.

Aguardaram o restante da avaliação de Madame Pomfrey em silêncio, ambas em comum acordo com as condições pré-estabelecidas para a permanência da jovem na sala.

Menos de dez minutos depois, a medibruxa se afastou da cama, falando apenas quando estava bem próxima de Hermione e McGonagall, com um tom de voz sério, alarmado:

— Os feitiços indicam que seu corpo está, lentamente, se recuperando do ataque que viveu.

A medibruxa então parou de falar, seus lábios crispados em reprovação, encarando Hermione com uma sobrancelha arqueada, como se questionasse silenciosamente o quê ela ainda estava fazendo ali.

— Está tudo bem, Poppy. Eu permiti que a senhorita Granger ficasse, então pode continuar o seu relatório.

McGonagall veio em defesa de Hermione, que novamente sentiu-se deslocada, uma intrusa no meio de assuntos que não eram de sua responsabilidade. Foi a lembrança de suas unhas sujas com o sangue de Snape que a manteve ereta, com cabeça erguida, fervorosamente ignorando a vontade instintiva de se virar e correr para longe daquela sala.

Madame Pomfrey parecia muito disposta a contrariar McGonagall, mas antes que isso acontecesse, a Diretora asseverou:

— Poppy, por favor, deixe seus protestos para outro momento. Qual seu o prognóstico para a situação de Severus?

Com um som indignado, Madame Pomfrey deu uma última olhada em Hermione e voltou sua atenção à McGonagall, respondendo em seu característico tom profissional:

— Não há nada de preocupante na maior parte dos resultados dos feitiços-diagnósticos, Minerva. Entretanto, parece que sua magia foi afetada. Como, em qual extensão e se é permanente, eu não saberia responder de imediato.

A medibruxa ficou quieta por alguns segundos, performando um maneio rápido com a varinha e produzindo uma espécie de quadro mágico flutuante, com números que lembravam Hermione de suas aulas de Aritmancia.

— Snape vai precisar repousar por muito tempo, até que seu corpo consiga alcançar de novo esses números aqui. — Madame Pomfrey apontou para uma das linhas do quadro — Com esses níveis atuais, eu posso apenas inferir que parte do que o feitiço-diagnóstico mostrou sobre a sequela em sua magia, seja devido ao trauma que viveu. É admirável que ele sequer esteja vivo, se é que me permite adicionar.

Hermione não entendia muito bem o quê aqueles números queriam dizer, e isso a deixava deveras frustrada. McGonagall, por outro lado, apenas concordava com a cabeça, e parecia estar conseguindo acompanhar tranquilamente o prognóstico de Madame Pomfrey.

— Quanto à amnésia que a senhorita Granger relatou, só teremos mais respostas quando ele acordar, o que não deve acontecer pelas próximas horas. Administrei mais uma dose de Poção do Sono-Sem-Sonhos, já que seus níveis de melatonina estão perigosamente baixos. Para saber mais, preciso que ele esteja consciente. Somente assim serei capaz de performar mais feitiços-diagnósticos e fazer uma anamnese completa. — E, como um novo floreio de varinha, a medibruxa fez com que o quadro negro desaparecesse.

— Obrigada, Poppy. Você saberia dizer quando será seguro movê-lo?

Hermione arregalou os olhos ao ouvir as palavras de McGonagall, e protestou antes mesmo que tivesse tempo de pensar duas vezes:

— Movê-lo? Como assim, "movê-lo" ?

McGonagall parecia ter se esquecido momentaneamente de sua presença na sala. E, como se explicasse algo óbvio, respondeu:

— Hogwarts não é o lugar mais seguro para Severus nesse momento, senhorita Granger. A escola receberá reforços para ajudar em sua reconstrução, e você ouviu Poppy: Severus precisará repousar por algum tempo, então vamos levá-lo até uma casa dentro dos terrenos de Hogwarts, na Floresta Proibida, próximo o bastante para que Poppy possa continuar cuidando dele, mas afastado o suficiente para que sua presença não seja descoberta.

Hermione queria protestar novamente, mas McGonagall já tinha voltado sua atenção para Madame Pomfrey, não deixando espaço aberto para discussão.

— E então?

— Eu diria que não há perigo algum em movê-lo imediatamente, Minerva.

— Ótimo. Vou preparar a lareira para irmos via Flu.

Hermione percebeu que estava sendo deixada de lado e, ainda que ligeiramente temerosa em voltar a falar depois das últimas palavras direcionadas a si por McGonagall, disse em voz alta:

— Eu gostaria de acompanhá-lo, professora.

McGonagall parou de andar, mirando-a por sobre o ombro com uma expressão questionadora, ao que imediatamente levou-a à acrescentar:

— Quero dizer, alguém vai precisar ficar ao lado dele quando Madame Pomfrey tiver que voltar ao Castelo, e a senhora mesmo disse que Hogwarts vai receber muitas pessoas, então suponho que também ficará muito ocupada e-e ... Bem, eu posso ajudar!

Hermione percebeu que tinha falado a maior parte em um único fôlego, e precisou parar um instante para respirar, sentindo-se extremamente tola assim que percebeu para o quê havia acabado de se voluntariar. Era óbvio que, dessa vez, havia ultrapassado todos os limites implícitos: pelo modo como McGonagall e Madame Pomfrey se encaravam, além do desagradável silêncio que se seguiu ao fim daquele seu discurso atropelado, Hermione sabia que a reprimenda seria desastrosa e imediata.

— A garota tem um ponto, Minerva. — Para a completa surpresa das outras duas bruxas, a medibruxa declarou ponderadamente — Se ele realmente não se lembra de nada, vai precisar ter alguém por perto para ajudá-lo, e eu poderia usar da inteligência da senhorita Granger para administrar as poções necessárias, nas horas corretas. Você sabe que ele não é o único paciente que eu tenho no momento…

McGonagall, que ao longo da fala da colega refez seu caminho de volta até elas, parecia pesar mentalmente as observações da medibruxa. Mas, antes que chegasse ao seu veredicto, a pintura de Dumbledore voltou a se pronunciar:

— Muito honroso de sua parte, senhorita Granger. Tenho certeza que será de grande ajuda, não acha Minerva?

Se McGonagall tinha a intenção de negar a oferta, isso foi descartado pela interrupção de Dumbledore. Dando uma demorada encarada na direção do quadro, a Diretora respondeu lentamente:

Suponho que sim, Albus.

Voltando o olhar severo para Hermione, a bruxa completou:

— Senhorita Granger, com amnésia ou não, ele continua sendo Severus Snape, e quero que tenha total consciência disso.

Com o coração acelerado, Hermione acenou afirmativamente, sequer acreditando que sua ajuda havia sido implicitamente aceita.

— Muito bem, então. Poppy, prepare-o para a viagem. Senhorita Granger, ajude Poppy com o que for necessário, enquanto isso vou habilitar a lareira e espero vocês na casa. Poppy, o nome que você deve usar é "Cabana do Gigante", não se esqueça disso.

E, com um aceno de cabeça, McGonagall voltou a andar na direção da lareira, deixando Pomfrey e Hermione para cuidar dos preparativos da transferência de Snape para a Cabana do Gigante.


Notas finais: E aí, o que acharam? Quem está ansioso para conhecer a cabana? Volto logo com o próximo capítulo! Obrigada aos que continuam por aqui comigo!