Capítulo 14: O Jardim dos Unicórnios
Continuaram andando, porém estavam exaustos, não só fisicamente, já estavam andando quase à noite toda, mas também, psicologicamente, os testes mexeram com suas mentes. Não era nada fácil lidar com seus medos mais íntimos e vencê-los. Há quase meia hora andavam calados, quase sem pensar em nada. Andavam quase no "automático". Então, Rony desmoronou, caindo sentado próximo a uma raiz de uma enorme árvore.
- Eu preciso descansar um pouco, por favor!
- Malfoy, você tem certeza que estamos no caminho certo? - perguntou Harry, olhando em volta e com a sensação de já ter passado por ali antes.
- Olha, Potter, já tô de saco cheio, é a décima vez que você pergunta isso!
- Gente, calma! Não vamos voltar a estaca zero! Rony está certo, precisamos descansar um pouco.
Todos se acomodaram da melhor forma possível (o que não significou muita coisa, já que eles estavam no meio de uma floresta). Logo, pegaram no sono. Depois de algum tempo (Harry não soube precisar quanto), Harry despertou ao ouvir uma canção. Era a voz mais doce que Harry já ouvira na vida, como se um anjo cantasse. Curioso, levantou-se e olhou indeciso para os amigos, sabia que devia acordá-los e que não devia andar sozinho pela floresta, mas..."eles estão tão cansados", pensou. Resolveu seguir o som da voz, sozinho. Ela parecia vir de mais adiante, logo depois das árvores que circundavam o local onde eles pararam para descansar. Sem pensar no perigo que poderia estar correndo, Harry passou pelas árvores e viu que mais a frente havia um córrego. A voz parecia vir dali. Ao se aproximar viu que estava próximo a uma nascente, havia muitas pedras e ao fundo, uma gruta. Uma moça belíssima estava sentada em uma das pedras e enquanto cantava penteava os longos cabelos prateados. Harry ficou abismado com a beleza da moça. Ela, sem notar a presença do bruxinho, simplesmente cantava. Harry tentou se aproximar mais um pouquinho, e, como que ouvindo ou sentindo essa aproximação, a moça imediatamente parou de cantar. Olhou exatamente para onde Harry se encontrava e o viu ali. Sem graça, Harry murmurou:
- Desculpe!
- Harry Potter! - disse a moça com sua voz melodiosa - você deve tomar muito cuidado! Sua vida pode transformar-se ou deixar de existir, nesta noite!
E sem avisar, mergulhou nas águas escuras do córrego. Harry ainda surpreso com a reação da moça, ficou observando a água, esperando que a moça retornasse à superfície. Acontece que a moça não retornava, e Harry começou a se preocupar. Olhava para a água, mas não conseguia enxergar a moça. Sem pensar duas vezes, jogou-se nas águas geladas. Para sua surpresa, o córrego era extremamente raso e sem entender, Harry ficou se perguntando o que teria acontecido à moça ou se não havia sonhado com tudo aquilo. Resolveu voltar à companhia dos amigos o mais rápido possível. Quando chegou lá, despertou Rony:
- Hum...o que foi? - perguntou Rony sonolento e depois vendo Hermione e Draco dormindo muito próximos um do outro, disse num tom alto: - Mione, acorda!!!
Ao se acomodar, Hermione sentou-se perto de Draco e quando a garota dormiu, sem querer, sua cabeça encostou no ombro do rapaz. Draco, por sua vez, tinha passado o braço pelo ombro de Hermione e ambos dormiram, assim, abraçadinhos, feito um casalzinho de namorados. Ao ouvir Rony praticamente gritar, Hermione e Draco acordaram num salto e ficaram bastante constrangidos com a situação em que se encontravam. Draco retirou o braço do ombro de Hermione e a garota passou a ajeitar o cabelo, extremamente corada.
- O que aconteceu com você, Potter? - perguntou Draco vendo Harry ensopado e tentando mudar de assunto.
- Ah, eu caí, quer dizer, entrei no riozinho ali na frente para ajudar uma moça...
- O que? Ajudar uma moça? - perguntou Rony
- É, peraí, deixa eu contar direito. - Harry contou como acordou ouvindo uma música e seu encontro com a moça misteriosa. - aí, ela simplesmente sumiu na água...
- Ela deve ser uma Náiade . - disse Hermione como se isso resolvesse todas as dúvidas dos rapazes.
- Uma o quê? - perguntaram os três.
- Uma Náiade - Hermione respirou fundo - é uma ninfa que protege os rios. Algumas têm o dom da profecia e o de proferir oráculos. - disse Hermione na sua voz de sabe-tudo - Ela te disse alguma coisa, Harry?
- Aham. - disse Harry balançando cabeça afirmativamente
- O quê?
- Ela disse para eu tomar cuidado que...hum - Harry pensou um pouco - que minha vida podia se transformar ou deixar de existir nesta noite.
- Transformar como? - perguntou Rony
A pergunta ficou no ar. Eles sabiam que a Náiade estava se referindo a um possível ataque de Voldemort, mas não queriam antecipar o medo.
- Potter, onde fica esse lugar?
- Porque, Malfoy?
- Bom, a entrada do Jardim fica numa gruta, perto de um riozinho. Eu nunca vi nenhuma Náiade, ou sei lá que nome tem essas coisas - Hermione revirou os olhos - , mas pode ser a entrada do Jardim.
- Fica ali, depois daquelas árvores. - disse Harry apontando o caminho.
Os quatro foram andando até lá, um pouco mais animados, estavam próximos agora. Chegaram na nascente em que até agora pouco se encontrava uma linda Náiade cantando e, avistando a gruta, Draco disse:
- É, é aqui mesmo. Temos que entrar na gruta e mover a décima pedra que está no fundo da gruta. Ela tampa a passagem para o Jardim.
A gruta era escura e o chão coberto por um musgo que os fazia escorregar em todo momento. Rony olhou apreensivo para a gruta.
- Será que tem aranhas? Eu não suporto aranhas.
- Que que é, Weasley? Não vai me dizer que você tem medo de aranhas? - perguntou Draco divertido.
- Você fala assim, porque não viu o tamanho das aranhas que têm por aqui!!! - disse Rony sentindo calafrios ao se lembrar de Aragogue e seus "filhinhos".
Entraram e com muito cuidado foram caminhando, desviando-se de estalagmites e outras coisas que eles preferiram não saber o que eram. Quanto mais fundo entravam, mais escura e assustadora a gruta ficava, gruta que se revelou mais profunda do que aparentava à primeira vista. Draco, então, ficou um pouco para trás, colocou-se estrategicamente atrás de Rony, puxou a varinha e disse:
- Aspectum Aracnio!
Da varinha, então começou a sair uma longa e viscosa pata de aranha que Draco aproximou da nuca de Rony. Ao sentir o contato da pata da aranha, Rony começou a suar frio. Não tinha coragem de olhar para trás, mas sentia, sem dúvida alguma, que se tratava de uma aranha. Sem conter o pânico, saiu gritando:
- AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!
Passou por Harry e Hermione, quase os derrubando, acabou tropeçando numa pedra solta e caiu de rosto no chão. Draco se revirava no chão de tanto rir. Quando Rony percebeu o que o rapaz tinha feito, ficou com as orelhas muito vermelhas e partiu para cima de Draco.
- Seu idiota miserável!!
Harry e Hermione tiveram que entrar na frente de Rony para evitar uma briga. Numa fúria incontida, Rony empurrou Hermione tentando se aproximar de Draco. Mas, ao fazer isso, Hermione acabou perdendo o equilíbrio e caiu sobre Draco. Os dois rolaram até pararem algumas pedras abaixo. Então, numa atitude cavalheiresca (?) de Draco (??), o rapaz estendeu a mão para a garota e a ajudou a ficar em pé. Hermione havia torcido o pé e não conseguia se levantar, o rapaz a tomou nos braços e a carregou até um lugar plano onde poderiam ver melhor o ferimento.
- Solta ela, Malfoy!! - falou Rony enciumado.
- Ela não consegue ficar em pé, seu imbecil! - disse Draco
- É, e foi por sua causa!
- Pelo que me lembro foi você que empurrou ela!!!
- Será que vocês dois podem parar com isso? - disse Hermione irritada. - E pára de encher, Rony, foi muito legal da parte do Malfoy me carr... - e sua voz começou a sumir e ela ficar extremamente corada. - egar até aqui! Obrigada, Malfoy.
Draco apenas deu de ombros, nem tinha pensado no que tinha feito, apenas fez. Ficou olhando para Hermione, nunca tinha reparado, mas ela era até bonitinha, - pensou Draco -para uma sangue-ruim, é claro. Harry abaixou-se, mas ficou envergonhado de tocar na perna da amiga. Draco, revirando os olhos, disse:
- É só uma torção, Potter. Sai da frente. - Puxou a varinha e apontando para a perna da garota, disse: - Asclépio. O tornozelo da menina foi desinchando até voltar ao aspecto normal. Ela colocou-se de pé e sorriu para Draco:
- Obrigada de novo, Malfoy.
- Se eu não ajudasse, a gente não saia daqui, não é? - disse Draco irritado, mas estava irritado com ele mesmo. - Vamos logo!
Voltaram a andar e logo encontraram a parede no fim da gruta. Tatearam a parede e localizaram a décima pedra. Era enorme. Harry e Rony se entreolharam, como iriam afastá-la dali. Tudo bem que eles eram jovens e possuíam um excelente vigor físico, mas a pedra parecia bastante pesada, até mesmo para dez deles.
- Como vamos tirá-la daí? - perguntou Harry. Draco disse:
- Vocês são bem tapados, hein? - e empurrando-os para fora do caminho, disse apontando a varinha para a pedra: - Mobililapis .
A enorme pedra começou lentamente a se mover até abrir uma pequena passagem, passagem que dava exatamente para uma pessoa passar de cada vez. Logo a gruta foi iluminada pelo luar. Draco foi o primeiro a passar, seguido por Harry, Rony e Hermione. Eles se depararam com um belo jardim florido. O lugar era realmente encantador, e por alguns instantes eles se esqueceram que estavam na Floresta Proibida. Olharam ao redor e viram que estavam cercados por diversos unicórnios de vários tamanhos, mas todos extremamente brancos. Um unicórnio se aproximou, até chegar bem próximo de Draco. Era o menor de todos
- Como vai. - O pequeno unicórnio relinchou em resposta a Draco. Hermione tentou se aproximar - Pode vir, ele ainda não tem medo de nós. Quando eles crescem não confiam muito. Mas este ainda é um filhotinho.
- Eu não vejo nenhum unicórnio negro por aqui. - disse Harry olhando em volta.
- Mas deve existir um, né? Quer dizer, o Firenze disse que o unicórnio negro tinha que confiar na gente...
- E agora, o que vamos fazer?
Os quatro começaram a olhar ao redor. Era um imenso jardim. Deveria ter uma porção de unicórnios por ali. Tudo bem que localizar um unicórnio negro no meio de tantos brancos seria fácil, mas... por onde começar? Foram andando, até encontrarem uma rocha negra que brilhava contra o luar. Aproximaram-se do local e entreolharam-se. Havia uma inscrição no chão, bem em frente à rocha. Harry olhou para os amigos.
- E se o tal unicórnio negro for uma forma de expressão. - disse voltando a olhar a rocha a sua frente.
