Já estava escuro. A casa inteira, toda A Toca, estava em completo breu, mesmo que ainda não passasse das dez da noite.

Era natal, dia 25 de dezembro. Caia de forma singela pequenos flocos de neve no jardim da casa meio desmantelada, formando um grande e fofo tapete branco sobre a grama verde, e tornava o vidro das janelas embaçado por conta da diferença de temperaturas entre o ambiente externo e o interno ― Molly não se importava. Estava sentada numa poltrona perto a janela, com um cobertor cobrindo as pernas pálidas e desnudas. Um livro grosso permanecia repousado sobre as coxas, apenas reforçando a imagem de boa garota que tinha, mesmo que o toque de recolher que sua avó impusera tivesse sido às exatas dez horas ― não era como se alguém fosse reclamar com ela, afinal. Ninguém nunca o fazia. Levou a mão esquerda à boca, o dedo indicador e o polegar beliscando levemente o lábio inferior enquanto olhava, meio nervosa e ansiosa, pela janela, franzindo o cenho em esforço de tentar enxergar alguma coisa pelo vidro embaçado; mas foi graças aos ouvidos atentos que ela conseguiu, finalmente, identificar o momento em que ele aparatara nos jardins e seguia meio cambaleante rumo à porta d'A Toca. Conseguia ouvi-lo mexer no molho de chaves a procura da que se encaixava no buraco da fechadura e, prontamente, Molly levantou-se de um pulo da poltrona, afastando o livro o e cobertor muito silenciosamente, revelando o vestido vermelho vivo que usara na festa da qual partira alguns minutos antes. As pernas torneadas e longas hesitaram em dar um passo a frente e, quando o fizeram, realmente lembravam um canivete ou as patas finas e compridas de aranhas, se movendo lenta e elegantemente em direção à porta da frente. E, ainda no escuro, assistiu a poucos passos de distancia um James cambaleante e atrapalhado tirar a chave da fechadura com algum esforço e voltar a fechar a porta.

Podia sentir o cheiro de álcool impregnado nele. O cheiro de tabaco preenchendo aquele pequeno cômodo à medida que ele respirava mais e mais pela boca. Recostou-se à parede, apoiando a cabeça nela e assistindo com um misero sorriso de lado o moreno voltar a enfiar a chave no bolso e permanecer parado alguns segundos de costas para ela, como se estivesse buscando a estabilidade. Ele estava bêbado. Ele estava muito bêbado e, com um sorriso no rosto, Molly reconheceu o motivo; a desculpa da festa de Natal era o pretexto perfeito para o moreno, que poderia alegar que acabara por perder o controle sobre a ingestão de álcool que bebeu naquela noite. Um simples descuido; um ato mal calculado; um segundo inconsequente. A ruiva já conseguia vê-lo passando a mão pelos cabelos revoltos na manhã seguinte, explicando em voz alta na cozinha, mais para convencer a si mesmo do que a sua avó ― afinal, ela já conhecia o neto muito bem para saber o que costuma fazer, mas ele não. Ele quer tirar a culpa e esse sentimento que o corroí por dentro, ele quer negar aquilo, quer de volta toda aquela condição, todo aquele estado de leveza, sem preocupações. Ele quer admitir para si mesmo que aquilo não está acontecendo, que ele não tem aquela responsabilidade, que ele não tem nada para fazer depois de amanhã e que, por conta disso, estará livre. Mas ele não está. Ele se virou de forma muito vaga e lenta na sua direção, demorando algum tempo para os olhos se ajustarem ao breu e dar os primeiros passos, de cabeça baixa. Inicialmente, não percebeu a presença de Molly ali, praticamente ao seu lado, e talvez não o fizesse se ela não tivesse trocado o peso de uma perna para a outra, desencostando da parede e esbarrando o cotovelo fino e pálido em um dos porta-retratos presos à parede, com uma imagem de todos os netos de Sra. Vovó Weasley. A imagem de Roxanne soltou um palavrão alto e a amaldiçoou por acordá-la de um cochilo.

James franziu o cenho, piscando os olhos com força e varias vezes, voltado na sua direção e com o pescoço levemente inclinado para frente. "M-Molly?", um sussurro baixo, sabendo que seus avós e alguns dos primos que estavam na casa poderiam estar dormindo. Ainda havia a incerteza de não ter reconhecido bem quem quer que fosse ali. "Molly, é você?".

Ouviu um riso de escárnio em resposta e, piscando os olhos com força, endireitou sua posição, ouvindo os saltos finos da prima estalar contra o chão e o seu halito quente e doce bater contra seu rosto. Não sabia o quão perto ela estava, já que tudo o que via era uma visão embaçada e muito escura, e pontinhos vermelhos e coloridos insistiam em brincar com sua visão. Mas Molly estava bem a sua frente; as mãos pequenas e macias encostadas ao quadril do moreno enquanto a cabeça inclinava sobre o ombro esquerdo e os fios vermelhos deslizavam pelas costas, expondo o ombro direito pálido e descoberto pelo vestido sem alças. A boca pintada de vermelho vivo estava entreaberta, como se hesitasse em falar, soprando pequenas baforadas de ar no garoto. James retrocedeu um passo ao conseguir perceber as mãos da garota no seu quadril. Ela riu, como se fosse uma piada particular dos dois. "Sou eu, Jamie", também se afastou, os cabelos ruivos voltando a cobrir os ombros e passando por ele sem olhá-lo, caminhando direto para a sala e sabendo que ele a seguiria. Não tardou em ouvir os passos do primo atrás de si.

Pegou o cobertor que usara poucos segundos antes e ligou um abajur em cima de uma mesa ao lado do sofá, recolhendo o livro caído no chão e o colocando junto ao cobertor sobre a mesinha de centro. Voltou-se para ele, encontrando-o com um semblante confuso, coçando com uma das mãos os fios morenos perto da nuca. "Você estava esse tempo todo me esperando?". Molly podia sentir a inocência e a confusão do moreno de forma tão intensa que soltou outro riso de escárnio. James às vezes era patético. Voltou-se para ele completamente, a coluna ereta e o peso do corpo apoiado completamente em apenas uma das pernas. Colocou uma das mãos na cintura e olhou para o primo de cima a baixo, muito lentamente, enquanto passava a língua por cima dos dentes brancos de boca fechada. Gostava do que via; gostava de como James era. Da sua altura, de como toda a massa muscular era perfeitamente dividida igualmente entre todos os membros do corpo, num desenho glorioso. Os cabelos revoltosos ― que, assim como a maioria da família, tinha uma tonalidade ruiva e castanha escura ― formavam o início de pequenos cachos e, mesmo que os olhos azuis do tio Harry tivessem sido incorporados por Albus, Molly acreditava intensamente que não havia olhos mais bonitos que os de James; castanhos claros, que dependendo da incidência de luz, conseguiam adquirir uma tonalidade verde escura e, às vezes, meio avermelhada. Alto, braços fortes, mas não da forma excessiva como a do tio Charles, mãos grandes e dedos grossos, além de costas torneadas pelos músculos. Por algum motivo, a parte masculina que Molly mais gostava eram as costas musculosas e os braços em que se podia ver as veias nitidamente.

Deu um estalo com a língua, voltando a olhá-lo nos olhos, um sorriso irônico tomando seus lábios. "Não, Jamie. Você tem que aprender que o mundo não gira ao seu redor", disse em deboche, balançando a cabeça negativamente de forma lenta, os olhos maliciosos tentando o garoto. Sem usar as mãos, tirou os sapatos de salto alto, diminuindo consideravelmente de tamanho, sem deixar de encarar o primo, notando sem esforço sua confusão. Molly sabia de cor todos os efeitos que a bebida produzia em James e, com um sorriso no rosto, observou a situação seguir o rumo que ela planejara.

Na verdade, Molly conhecia James por inteiro. Talvez por serem dois, dos quatro os Weasleys nascidos em 2003, que se esperasse algo mais, seja por pressão do pai da ruiva para que a família deles pudesse interagir mais na família, ou seja por simples acaso do destino. Molly passara sua infância junto a James e tão agarrada a ele quanto qualquer outro. Desde pequena, dividindo brinquedos, brincando no jardim d'A Toca e compartilhando seus segredos mais íntimos; ela, James, Dominique e Fred. Sempre fora assim, até nos tempos de Hogwarts, andando os quatro enfileirados no corredor. E, assim como Fred e Dominique eram mais próximos, Molly e James também eram ― ao menos, até o quarto ano, quando, de alguma forma, o tal quarteto tão unido e inseparável, ironicamente, se fragmentou aos poucos. Sem aviso prévio e acordo mutuo sobre; apenas um dia, algum dos quatro acordou e simplesmente não se sentou junto aos demais na hora do café da manhã e no resto do dia. E no dia seguinte, outro se foi, engolfado pelo time de quadribol, restando aos outros dois apenas um olhar neutro, sem ressentimento, magoa ou confusão para ser a confirmação de que era o fim. Cada um seguiu seu caminho, separados e agindo de forma como se nunca tivessem sido amigos.

Molly lembrava perfeitamente de quando voltaram do feriado de Natal depois daquilo, quando atravessava o corredor e James, sozinho, segurava um livro de Trato de Criaturas Mágicas com as mãos cobertas por luvas. Lembrava-se de cada mínimo detalhe da cena, até porque ela mesma ficara parada, o cenho levemente franzido encarando com toda atenção aquilo, até mesmo criando um pouco de expectativa em relação a alguma coisa, que ele fizesse alguma coisa. Os cabelos rebeldes balançavam quase imperceptivelmente com uma brisa gélida que entrava pelas janelas do corredor e a pele parecia mais pálida, de uma forma quase angelical; as bochechas estavam coradas e os lábios mais rosados. Estava de cabeça baixa, entretido folheando algumas paginas do livro e caminhando na direção dela, mesmo que ainda não a tivesse visto. Lembrava-se que estava frio naquele dia, tanto quanto estava agora, mas apenas a imagem do primo lhe era suficiente para aquecê-la por completo. Sentiu uma brisa mais forte varrer seus cabelos dos ombros e jogá-los para trás, mas mesmo assim não parou de encará-lo, até mesmo quando ele passou ao seu lado, levantando o olhar apenas quando ela podia tocá-lo se erguesse a mão, apenas para dar um sorriso sem graça que dava a todos que não conhecia direito e se esquivar dela porque, obviamente, ela estava no meio do caminho.

Soltou um riso baixo, caminhando graciosa e elegantemente até o primo que, talvez por conta da bebida, parecia ainda confuso, e repousou suas mãos no quadril dele, puxando-o de forma que colassem seus corpos. "Lembra daquela noite, Jamie?", perguntou com a voz manhosa, inclinando a coluna levemente para trás, um sorriso provocante nos lábios e sentindo um imenso furacão de sentimentos dentro de si. Riu quando viu que o primo apenas ficou mais confuso. Ele respirou pela boca e Molly podia sentir o quanto ele estava bêbado. "Claro que lembra." Passou a ponta do dedo indicador pelo peito do garoto, coberto pelos tecidos da roupa, deslizando lentamente, olhando o próprio dedo fazer o movimento. "Eu tinha dezesseis anos, você lembra?", disse encarando-o nos olhos, agora parando o dedo e mantendo a mão espalmada no peito do primo, deslizando ora para cima, ora para baixo. "E você tinha acabado de roubar uma garrafa de firewhisky do prof. Woodford. Estava tão animado com a ideia de beber aquilo pela primeira vez que nem percebeu que dois monitores estavam se aproximando. O time de quadribol correu. Você não." Agora já não falava de forma provocativa, contando da forma que se lembrava que aquela noite tinha acontecido, o movimento da mão parando aos poucos. Ergueu o olhar para o primo, soltando um suspiro. A expressão estava neutra, talvez até calma e pensativa. "Já tinha bebido quase metade da garrafa e nem percebido. Os monitores estavam próximos e você continuava animado com aquela perspectiva.", relembrou, o tom de voz diminuindo e se transformando cada vez mais, os olhos se arregalando muito levemente. Ergueu o olhar novamente, a mão parando definitivamente. "Foi quando eu cheguei. Você lembra, não lembra?", perguntou baixinho, sussurrando, os olhos quase suplicantes. James balbuciou alguma coisa, concordando com a cabeça enquanto relembrava a cena de forma muito vaga. Molly abaixou a cabeça, concordando e dando um sorriso zombeteiro enquanto voltava a fazer os movimentos com a mão, agora descendo cada vez mais e subindo cada vez menos. "Eu que tirei você dali. Arrastei você para uma sala de aula vazia e assim que não consegui mais ouvir os passos deles, eu explodi com você. Mas o quê você fez? Você riu. Você riu!", disse em um tom indignado, mas mesmo assim risonho, enquanto sentia o corpo ter pequenas convulsões e uma pequena risada escapar dos seus lábios. "E depois me ofereceu um gole. Eu neguei na hora, mas você insistiu e me abraçou. Continuou insistindo e de alguma forma, nós começamos a rir porque você era muito engraçado bêbado, e então...", ela parou de falar, franzindo o cenho e deixando a frase no ar, levantando o olhar lentamente, mostrando a expressão confusa para James.

Ele se lembrava daquela noite. Ao menos, lembrava até o momento em que ela o arrastava, e dali em diante era muito borrado e corrido, conseguindo salvar apenas lembranças de peles nuas, suadas, movendo-se de forma muito rápida, de forma que se tornavam borrões. E do dia seguinte, quando acordara nu numa sala de aula e via uma Molly vestindo muito lentamente as roupas. De inicio, não entendera, principalmente porque sua cabeça estava em ponto de explodir e porque alguma coisa começava a se formar na boca do estomago, deixando um gosto horrível na boca. Vomitara o resto do dia, o corpo parecendo que não via água há anos. Franziu o cenho, forçando-se a lembrar de mais, de algum detalhe ou momento, apenas para ter uma ideia mais completa. Olhou diretamente para a ruiva, a boca hesitando em o que falar e ficando seca de repente. "Você...?" Não sabia nem o que perguntar, só achou que deveria o fazer pela forma como Molly agia.

A ruiva abaixou o olhar e deu um sorriso cúmplice, concordando com a cabeça. "Foi minha primeira vez.", disse e logo em seguida deslizou a mão até onde podia, olhando para o primo de forma provocante. "E a melhor noite da minha vida." Ficou na ponta dos pés, conseguindo com alguma dificuldade ficar na altura do queixo do primo, aproximando o rosto do pescoço dele, a boca plantando um beijo demorado na clavícula de James, e subindo, criando uma trilha lenta e tortuosa que seguia pelo pescoço e parando perto da orelha. Até aquele momento, James já havia colocado as mãos em sua cintura por reflexo, a cabeça não processando direito tudo que acontecia e sentindo beijos e mordida no pescoço. Olhou para baixo, esperando ver o rosto de Molly e tentar decifrar o que diabos ela estava fazendo, mas encontrando os cabelos ruivos vivos espalhados pelas costas pálidas. A garota continuara seguindo seu trajeto, os beijos tornando-se mais demorados. Os lábios pintados de vermelho encostavam na pele, pressionando a carne e mordiscando levemente, numa tortura lenta. O garoto arfou e, relaxando o corpo, percebeu que, se fechasse os olhos por um segundo, podia ver sua garota ali, fazendo aquilo consigo. As peles pálidas eram quase da mesma tonalidade e o ruivo vivo dos cabelos eram idênticos, mudando apenas o corte e o tamanho. A imagem de Rose tornava-se cada vez mais nítida beijando seu pescoço. Podia sentir seu cheiro, sua respiração. "Jamie", ouviu a Molly chamá-lo baixinho, a voz embargada de luxuria. "Jamie", ela chamou novamente, soprando fraco no pescoço dele, que soltou um suspiro. "Eu quero você, Jamie". Agarrou as mãos na cintura de Molly mais forte, deixando-se levar pela sua Rose que lhe aparecia. A Rose que se esgueirava até seu quarto durante as noites n'A Toca e até mesmo em Hogwarts; a Rose que dormira os últimos dois meses no seu apartamento no Beco Diagonal; a mesma Rose que tinha lhe chutado, lhe xingado e terminado, mesmo depois de tanta coisa juntos. Tudo porque ela não queria falar sobre eles, não queria assumir o que tinham, não queria anunciar em frente a toda família e responder a maldita pergunta que ele tinha feito. Ela não o queria. E por causa dela, ele passara as duas ultimas semanas bêbado e vagando pela ruas, tavernas e mais avulsas lareiras, ao menos na tentativa de esquecê-la, de entendê-la, de arranjar uma forma de ela querê-lo novamente. Mas se Rose não o queria, Molly o queria. "Eu quero você.", ela repetiu pausadamente, as mãos que estavam na cintura dele o guiando até as escadas e os beijos no pescoço tornando-se mais famintos e ameaçando tirar-lhe a camisa para explorar o peito do garoto. James se deixou levar, se deixou ser guiado e, quando já estavam perto das escadas, prensou-a contra a mais próxima. Uma mão na cintura da garota, a outra no seu pescoço alvo, ambas apertando a carne com força. A testa apoiada na parede, a poucos centímetros acima do pescoço dela, sua respiração deixando a pele de Molly arrepiada. Demorou alguns segundos naquela posição, até ela segurar-se em seu pescoço e, num movimento rápido, enlaçar as pernas em volta do seu quadril e morder-lhe o pescoço. James gemeu baixou, segurando-a firmemente contra o corpo e a mão que a segurava no pescoço puxá-la para perto do seu rosto, apertando o maxilar da garota com um pouco de força demais. Permaneceu encarando seu rosto por longos segundos, ainda pressionando-a contra a parede, até finalmente beijá-la de forma forte e um pouco bruta, e subir lentamente cada degrau da escada, a mão livre apalpando cada parte do corpo grudado ao seu da forma que conseguia, descendo os beijos pelo pescoço e colo, mordendo, chupando. Molly apenas se deixava levar, adorando a força excessiva que ele usava naquilo, um sorriso vitorioso e cínico se formando nos lábios. Silenciosamente, ela se deixou ser tomada pela força e brutalidade dele, sem se importar com nada, apenas sentindo-se vitoriosa por aquilo estar acontecendo, apenas fechando os olhos e permitindo o corpo se tomar pelo prazer daquela situação.


Hey hey hey! Eu sei que demorei demais para atualizar (3 meses!), mas eu tive alguns problemas com a escola e etc. etc. seguido de um pouquinho de vergonha de aparecer depois de tanto tempo. Mas, yaay!, aqui está o segundo capitulo. Eu realmente não tinha a intenção de fazer um capítulo centrado na Molly, mas a ideia veio e eu tive que fazer isso. Espero que não se importem, haha.

Espero que gostem e me desculpem pela demora \o/