A/N: Hey, galere! Como estão? Não que vocês acompanhem essa tristeza (salvo Max e Carol), mas acabei doente e nem tive como escrever. Sim, estou escrevendo a outra também e irei postá-la em breve.
Temos nesse capítulo o sofrimento de Caleb e Spencer ao lidar com Hanna e Aria em uma viagem longa, temos Brittana e Emily estreitando laços e mais dois gleeks surpresa no final. A música título é 'That's what friends are for' e é cantada pelo Caleb e pela Spence como válvula de escape da loucura das duas outras. A outra música trocada por mensagens entre a Spence e a Emily é 'Gravity' (que vocês também devem conhecer). Ah sim, o * dessa vez é uma marca de que a SantanAngel está falando do Primo It da Família Addams, pra quem não conhece, é o descabelado. Bem, para o próximo teremos o resto da tarde do trio sapatanesco das Brittana e da Em e o almoço com as 'Piroliro' e Caleb, com muitas paranóias da nerd, comentários imprescindíveis da loira, viagens da Aria e o pobre rapaz jogado no meio.
Obrigada por comentarem, Carol (acho que vou ficar mal acostumada assim, hehe) e Max, podem deixar que enquanto vocês lerem, estarei escrevendo. Obrigada aos que leem e não comentam (se vocês existirem, obviamente) também e bom feriado pra nós todos, gente bonita! Xoxo, minha moçada!
Tenho as séries não, ou seria tudo um carnaval e um biscatice elevada ao extremo. Infelizmente, e só pra mim.
"Eu quero dormir!" Depois de discutir o futuro e a salvação do planeta com a Aria (e, sobre isso, eu só digo que elas precisam de mais aulas extracurriculares pra se focarem em algo realmente importante para seus futuros, porque isso tá ficando muito perigoso. A teoria de árvores assassinas dominando o mundo e se autodestruindo pra causar uma grande onda de insolação que vai fazer as calotas polares se derreterem para acabar com a humanidade foi tão surreal que elas mereciam ganhar o Nobel pela criatividade. E isso me leva a crer que a partir de hoje eu terei que proibi-las de assistir aos programas E!, pelo bem do que me resta de sanidade), Hanna decidiu que atrasar nossa já desgastante viagem para que ela pudesse esticar seu corpo era completamente cabível, mais até que cabível, era um direito seu. E, obviamente, meus ouvidos também mereciam ouvir seus lamentos e lamúrios infinitos. Falando neles, eu não sei que crime eu cometi nas vidas passadas, mas estou certa de que não foi coisa boa. Será que eu sou a reencarnação do Hitler? Porque só o fato de ter exterminado mais de quarenta milhões de pessoas pode explicar meu revés para merecer essas duas, porque vou ser sincera, elas são dose mortal. De repente, eu até entendo a fuga da Em e me arrependo por não ter pensado nisso antes. Claro, eu acabaria levando nossa amiga fugitiva, e só. Porque eu ultrapassei a dose de loucura pra uma vida inteira nessas últimas horas encarcerada com elas. "Vamos, Spence! Eu tô cansada, são três da manhã! Eu preciso do meu sono de beleza ou vou ficar irritada." Sua voz, assim como a justificativa do seu comentário, adquiriu uns ares de criança birrenta e por isso revirei os olhos, era tudo que eu merecia às, como ela fez o favor de citar, três da manhã.
"Feche os olhos e durma, Han, ninguém está te impedindo." Respondi num tom mais sério e, pelo retrovisor, pude vê-la cruzando os braços e bufando, depois de se jogar com raiva no meu banco.
"Tudo bem, você que escolheu! Depois não reclame caso eu fique mal humorada e falante pelo resto do dia." E lá vamos nós de novo...
"Você sabe que essa é uma chantagem pesada, Han." Ao ouvir isso, senti seu sorrisinho de vitória e tratei de emendar em minha posição de contra ataque antes que ela surgisse com mais alguma história mirabolante sobre monstros que atacam sonâmbulos ou como o sono pode diminuir as taxas de serotonina no cérebro de uma pessoa e torná-la uma assassina em potencial. E o pior é que eu ainda estou perdendo tempo pensando nessas coisas. Pra vocês verem como essa alucinação toda está se apossando até de mim. "E, além do mais, o único momento em que você não está falante é quando dorme, então isso não faz muito sentido."
"Mas eu não consigo raciocinar bem sem dormir!" Já até imaginava o bico que ela estava fazendo e mordi a língua antes de tecer algum comentário que desse munição para outra batalha incompreensível ser travada nesse carro.
"Ai, caramba!" Passei a mão em braço e me virei rapidamente a tempo de vê-la me olhando com fúria e ainda de braços cruzados. "Que foi isso? Eu tô dirigindo, sabia? É perigoso para todos nós que você me bata." Ela, obviamente, revirou os olhos e voltou a se encostar (menos agressivamente dessa vez) no banco. Aproveitei para encará-la com força e massagear o meu braço, essa tapa enfurecido realmente doeu.
"Eu sei que você pensou 'ah, mas ela não raciocina bem nunca, hihi' e inseriu alguma piada sobre atividade anormal ali no meio. Eu te conheço!" Não sei o que tinha de errado com ela, mas até aspas imaginárias foram usadas pra fomentar sua explicação. Sendo que eu era inocente! Certo, não exatamente ou no sentido completo da palavra, mas eu não falei nada, no mínimo eu mereço algum crédito por isso, oras!
"Você quis dizer 'paranormal', Han" Aria, que até então estava calada e por isso eu agradeci mentalmente, resolveu dar-nos o ar da graça novamente e corrigir nossa amiga antes que eu apanhasse mais uma vez.
"É anormal sim, nada é normal se tratando da Spence e isso de 'paranormal' é para pessoas normais, como o nome já diz e isso é a única coisa que ela não é." Ai, Deus! Por que eu? Por que hoje?
"Eu sei, Han, mas a palavra 'paranormal' quer dizer sobrenatural, e eu aposto que era o assunto que você queria tratar." E lá foram mais aspas usadas. O que será que elas queriam dizer com isso de ficar usando aspas o tempo todo?
"Ah, eu nem me lembro do que eu estava falando, Mufa, como vou saber que era sobrenatural?" Agora mais calma, e a isso eu agradeço mais uma vez, Hanna continuou se explicando pra Aria – e me deixou de lado, ponto para a minha sorte – que prestava atenção singular.
"Sim, Han, por isso que eu estou tentando te falar o que estava acontecendo." Não sei como Aria consegue ser assim tão calma e paciente, mas isso nos serve sempre e, nesses momentos, nos vem bem a calhar.
"E você está do lado da Spencer, aposto! Vocês duas estavam pensando em piadas comigo. 'Ah, vamos fazer piadas com a loira, por que não?'" O que diabos estava acontecendo com essa menina hoje? Tão surpresa quanto eu, Aria me olhou nos olhos e deu de ombros, sem saber o que dizer ou se deveria falar algo, pra começo de conversa. "Vamos lá, eu estou mentindo?"
"Claro que está, Hanna, por que você sempre pensa o pior da gente?" Subitamente enfurecida, Aria se virou pra ela e as duas voltaram a duelar como se suas vidas dependessem daquilo.
"Porque vocês todas costumam fazer isso. Menos a Em que sempre fica do meu lado." Revirei os olhos em silêncio. Ora, a Em não ficava do lado dela, ela só não se metia nas discussões. E eu bem que deveria pegar isso como exemplo e abstrair essas pessoas, essa viagem e imaginar um mundo ideal em minha cabeça. Talvez até com direito a música do Aladdin. É, é isso que vou fazer.
"Mas é claro que não fazemos, Hanna! Até pouco tempo atrás eu estava te defendendo em nossa teoria para salvar o mundo, aposto que a Em não faria isso!" Aria esbravejou pra cima da Han e eu me pergunto desde quando será que elas estavam discutindo o valor e a importância que a Em dava a cada uma? Será que era coisa nova?
"Ai, meu Deus, de novo não..." Caleb suspirou ao fundo e me compadeci de sua tristeza, mesmo estando pensando no meu mundo ideal – talvez se eu tivesse fugido com a Em e se estivéssemos em qualquer lugar, aposto que o 'ideal' começaria bem assim – me fazendo voltar ao espetáculo que estava a essa guerra fria no meu carro. E me doeu fugir desse mundo porque foi uma viagem tão boa e...
"Ora essas, mas isso não quer dizer que você concorda com o que eu estava falando há pouco também, Aria, ou concorda?" Pisquei algumas vezes ao ouvir mais uma vez a voz raivosa da Hanna e deixei minhas imagens e meu lugar feliz evanescerem no ar fino enquanto eu tirava o carro da estrada e seguia uma das placas indicando uma pensão ou o que fosse no caminho.
"Mas você nem sabe do que estava falando, Hanna!" Valha-me Cristo! O que será que eu fiz na vida passada? Será que eu fui o Jack, estripador? Mas eu não tenho nada contra prostitutas e menos ainda contra mulh...
"Isso não justifica!" Hanna decidiu bater no banco e pisei ainda mais pra chegar ao nosso destino antes que não chegássemos nunca mais. E para não dar tempo (porque, pelo andar da carruagem, não precisa ser vidente para saber que esse será o fim da noite a menos que eu pise o acelerador) de ela transformar meu carro em algo parecido com o possante dos Flintstones.
"Calma, só faltam quatro horas, só faltam quatro horas..." Esse sussurro baixo só pode ser do Caleb... E era. Tive certeza depois de olhar pelo retrovisor e vê-lo murmurando para o relógio como se isso fosse algum mantra budista e quase senti pena da situação em que estávamos.
"Claro que justifica, Han! Como você quer que eu concorde com algo que nem você sabe o que é? Isso não faz o menor sentido!" Ainda a mesma briga, ainda as mesmas vozes, ainda na mesma rota, ainda com as mesmas pessoas, ainda no mesmo carro... Deus! Isso é um ciclo vicioso, um confinamento pior que solitária – pelo menos lá eu teria paz.
"Mas você é minha amiga e tem que concordar comigo, ué! É pra isso que servem os amigos!" Maldita pensão no raio que a parta! Onde será que ela está que não aparece? Não é possível que eu tenha entrado na rota errada... É só o que me falta hoje, nos perder no meio do nada. Droga, Em! Por que você tinha que fazer isso comigo? Me deixar aqui, no meio do nada, com uma guerra rolando e um pensão fantasma que some do nada? Deus! O que será que eu fiz?
"That's what friends are for! For good times, and bad times..." Antes que eu pudesse praguejar (ainda mais) meu GPS, a voz de Caleb me tirou o foco e olhei mais uma vez pro retrovisor, só pra me certificar mesmo. É, era ele cantando.
"Amigos servem pra mais coisas também, sabia, Han?" Isso foi Aria, aparentemente magoada com algo que nem Freud explicaria. E resolvi deixar de lado a discussão e me focar na música e na voz do Caleb para tentar acalmar os meus nervos.
"I'll be on your side forevermore! That's what friends are for!" E lá estava ele, cantando cada vez mais alto, mas mesmo assim, a discussão ainda estava insanamente mais acalorada.
"Isso foi algum tipo de indireta, Aria?"
"Não sei, foi, Hanna?" Nesse momento, eu já tinha esticado o braço discretamente para impedir a Aria de pular na Hanna, caso ela estivesse com isso em mente. Uma mulher prevenida vale por duas. E um quebra pau entre as duas a essa hora da madrugada e perdidas em uma estrada não é uma boa opção em script nenhum, definitivamente.
"Keep smiling, keep shining. Knowing you can always count on me." Ainda imerso em sua cantoria aleatória, Caleb estava ignorando tudo que acontecia ali e resolve testar o seu método também, nunca se sabe, né?
"Eu não tenho nada para te dizer sobre isso, Aria! Não sei que porra de pergunta é essa!"
"Mas é claro que sabe! Você quem começou com essa discussão e agora está jogando a culpa em mim."
"For sure! That's what friends are for!" Resolvi acompanhá-lo mesmo enquanto essa pensão desgraçada não aparecia e para tentar me livrar da discussão que agora estava aos berros, provavelmente mais alta que a minha buzina. E só ele pareceu perceber que seu solo tinha virado um dueto e ficou estranhamente contente e empolgado com isso.
"Ora, se você quiser me contar ou me culpar de algo, Aria, jogue na minha cara porque eu bem conheço a sua capacidade de fazer isso!"
"Ah sim! Agora você está falando que eu sou uma amiga falsa, Hanna, é isso?"
"NÃO COLOQUE PALAVRAS NA MINHA BOCA, ARIA!" Santo Cristo! Eu vou morrer nesse carro por causa dessas duas. O grito de Hanna foi tão alto que as janelas do carro só não explodiram por serem blindadas e eu me arrepiei de medo do fim dessa viagem. Cruzes! Percebendo o meu temor, Caleb colocou a mão no meu ombro, num mudo incentivo para continuarmos cantando. Resolvi olhá-lo pelo retrovisor para me certificar e, respirando fundo, continuei com ele.
"For good times, and bad times, I'll be on your side forevermore. That's what friends are for." Continuamos cantando juntos e subindo o tom de nossas vozes para ver se alguma noção entrava magicamente naquele lugar e aquelas duas saíam do modo combate e voltavam a sua forma normal e diária. Cantamos abstraindo nossa situação até que percebi uma casa se aproximando e sorri para o retrovisor em agradecimento ao Caleb por ter preservado minha sanidade até aqui. Só então as duas malucas calaram a boca e nos olharam cantarolantes e balançantes, ignorando completamente seus planos maléficos da vez.
"Que porra é essa?" Hanna e questionável linguajar resolveram deixar Aria de lado e nos fuzilar com os olhos.
"Keep smiling!" Dessa vez, eu que voltei a puxar a música e esperei meu parceiro completá-la.
"Keep shining!" E foi exatamente o que ele fez! De canto de olho, pude ver Aria e Hanna com suas bocas abertas, se entreolhando e nos encarando como se tivéssemos acabado de matar o presidente. Ignorei-as mais uma vez e segui com nossa música.
"Knowing you can always count on me, for sure! That's what friends are for." Segui com minha parte em nosso dueto (que era qualquer uma, na verdade) enquanto elas estavam testando os limites da elasticidade do pescoço humano, olhando para nós dois.
"Han, qual é o problema deles dois?" Lá estava ela novamente, a doce, meiga e lerda Aria que conhecemos, perdida na maré.
"Só pode ser drogas..." Revirei os olhos para sua teoria, que tipo de absurdo era esse? Pensar isso logo de mim? Só que a dita loira estava lá, com a mão no queixo e parecendo estar realmente levando aquela questão a sério. "Mas nunca imaginei isso da Spence e nem do meu namorado, para ser sincera, Mufa. Será que estamos devaneando e entramos em uma realidade paralela?"
"Meu Deus, Han, nós devemos estar com mais sono do que imaginávamos pra estarmos tendo esse tipo de alucinação..."
"Nossa, Mufa! Você está certa! Nós precisamos é de uma cama e de boas e longas horas de sono para descansar a cabeça e paramos de inventar coisas." Como se aquilo fosse normal, Aria só balançou a cabeça várias vezes em concordância e nos olhou com um quê de pena, como se nem estivéssemos ali.
"For good times, and bad times, I'll be on your side forevermore. That's what friends are for!" Caleb continuou cantando e pegou a minha mão esquerda, ao mesmo tempo em que segurou a mão direita da Hanna e balançou nossos braços no alto enquanto cantávamos os dois.
"Ooh, that's what friends are for!" Entrei na segunda voz de nossa canção e ele voltou ao refrão. E foi nesse exato momento que a tal da pensão se materializou em nossas frentes e dei um suspiro em sinal de vitória.
"Olha, Han! Uma pensão! Agora nós vamos poder descansar e fugir dessa realidade paralela que nossa privação de sono nos fez imaginar." Revirei os olhos ainda tentando me concentrar na música. Claro que o normal da realidade empírica era o que elas passaram as últimas seis horas fazendo, cantar é atestado de loucura. Gente mais esquisita. E não parou por aí, como se nada tivesse acontecido, Hanna segurou a mão da Aria e apertou-a como uma espécie de suporte emocional. Balancei a cabeça em desacordo, acho que sou eu quem precisa de uma boa noite de sono porque tem algo errado aqui. Olhei para Caleb pelo retrovisor e ele me abriu um sorriso tão gigantesco que por um momento eu achei que a teoria que elas bolaram para o uso de drogas não estava assim tão surreal, mas isso foi só até me lembrar de nossas últimas seis horas de tortura e correspondi seu sorriso com um tão grande quanto (quiçá maior) e engatei a ré para estacionar o carro e fugirmos.
"Keep smiling, keep shining. Knowing you can always count on me." Agora ainda mais feliz, Caleb continuou cantando depois de soltar a minha mão para que eu pudesse manobrar o carro sem mais dificuldades e, ainda segurando e balançando a mão da Hanna, resolveu se virar fazer sua serenata pra ela.
"For sure! That's what friends are for." Acompanhei ainda a nossa canção e terminei meu verso assim que estacionei o carro na porta da pensão para descermos. Olhei sorrindo pelo retrovisor e Caleb me devolveu o sorriso para aumentar ainda mais a surpresa das outras duas apavoradas no carro. Aria tinha sua boca grande arreganhada em sinal de uma de suas muitas perdas momentâneas de vocabulário e Hanna estava nos olhando com força e franzindo a testa como é de seu costume enquanto pensa em alguma teoria do arco da velha para explicar a nossa cantoria surpresa. Sem conseguir pensar em nada, ela só bufou e apertou novamente a mão da Aria, que soltou um suspiro de medo. O que há de errado com esse mundo hoje, hein? E as duas voltaram a nos olhar como se estivessem vendo uma assombração maligna pairando sobre nossas cabeças. Isso me faz lembrar de que, além do E!, elas não podem mais assistir CSI, Crepúsculo, True Blood, Buffy e nem filmes de terror porque essas duas vendo esses roteiros é a combinação perfeita para a insanidade. Pra mim, obviamente, e também pro Caleb, aparentemente.
"Queridas, chegamos!" Ainda sorrindo, Caleb olhou pela janela e desprendeu o seu cinto de segurança, para assombro das meninas que ouviram seu tom de brincadeira. Logo depois, endereçou-se a mim. "Obrigado, Spence!" Ignorando a instantânea falta de circulação sanguínea no rosto das minhas amigas, o que as deixou pálidas como um dia nublado, sorri em agradecimento a ele e resolvi desligar o carro para nos apressarmos.
"Quem vai me explicar o que está acontecendo aqui?" Hanna perguntou em seu usual tom de mau humor e Caleb beijou-a rapidamente e saltou do carro, pegando sua mochila e dando a volta para abrir a porta para ela. "O que vocês dois vão fazer agora? Cantar e dançar na chuva? O que está havendo aqui?" Aria resolveu segui-la e saí por último do carro, pegando minha bolsa e trancando tudo.
"Tá tudo bem com vocês?" Aria ainda emendou depois de saltar da caminhonete e parou ao lado de nossa amiga loira que soltava dardos e tiros pelos olhos, esperando uma resposta que lhes fizesse sentido (coisa que só conseguiríamos caso inventássemos que tínhamos sido abduzidos por extraterrestres) para sua pergunta de mau grado.
"Vamos dormir, nós merecemos." Foi só o eu que disse para finalizar aquele assunto porque não tinha a menor cabeça e a mínima paciência. De relance, pude ver meu parceiro de duetos concordar timidamente e, como um cavalheiro, Caleb deu o braço para a Hanna segurar e esticou a mão em uma mesura para que eu passasse na frente.
"Lidere o caminho, Spence!" Sorri agradecida e fiz como ele tinha solicitado.
"Qual é o problema de vocês dois?" Claro que a loira não se daria por vencida assim, tão facilmente. E continuou seu questionário enquanto trotava ao nosso lado.
"É melhor a gente dormir, Han." Ouvi Aria comentar ao fundo e peguei meu celular enquanto seguia rumo à recepção. Nenhuma mensagem da Em. Se bem que, a essa hora, ela deve estar dormindo... Sorri comigo e me pus a digitar algo. É, em breve nós estaríamos juntas e eu mal podia esperar por isso.
...
"Argh!" Reclamei e me virei na cama. Pois é, eu estava tendo um sono até que muito bom para ser verdade se contarmos com tudo que tinha acontecido nos últimos meses além do fator de estar dormindo pela segunda em menos de um ano em uma casa que não fosse a minha. Mas quem em sã consciência liga para outra pessoa em plenas três e meia da manhã? Será que era a minha mãe? Será que a Ashley e a as meninas comentaram com ela que eu fugi e agora ela está movendo a Terra para me achar? Droga! Eu deveria ter pensado em um plano para lidar com isso... "Ótimo!" Resmunguei sozinha, agora eu teria que ir para o Texas e esse era o único lugar no planeta onde eu não gostaria de pisar. Depois de Rosewood, obviamente. Não que fosse algum problema com meus pais, porque eu realmente sinto tanta falta quanto posso deles, ou até mais, só que eu preciso crescer e não conseguiria lidar com tudo que me enchia a mente perto dos olhos de águia da Sra. Fields. Suspirei e resolvi pegar logo o celular. Mas e se fosse a –A? Um calafrio mau me percorreu a espinha só de pensar nesse nome. Que maravilha! Agora eu estou sendo ridícula e paranóica! A Mona estava presa num sanatório e lá não teria como ela me mandar mensagens, ou me aterrorizar ainda mais, então isso era simplesmente impossível. Droga! Deve ser a minha mãe mesmo. O que eu ia dizer? Merda, merda, merda! Por que eu num pensei nisso? Eu deveria ter previsto... Ah, claro, só quem pensaria nisso seria a Spence, a única pessoa que consegue prever e se programar pra tudo... Sorri comigo, ela realmente faz falta... Todas elas, na verdade. Enfim, mas ela não está aqui agora e eu não posso ficar chorando pelo leite derramado assim. Além do mais, se existe uma coisa que a nova Emily Fields está aqui para ser é corajosa, então quem quer que tenha mandado mensagem, não irá me assustar!
"Something always brings me back to you, it never takes too long". Saudades. Xoxo –Spence
Mesmo sabendo que a Chris não estava em lugar algum para ser vista, ainda mais a essa e no 'meu' quarto, ainda assim olhei para os lados enquanto sorria como uma imbecil e relia a mensagem, pensando em algo para responder.
No matter what I say or do, I'll still feel you here 'til the moment I'm gone. Xoxo – Em
Sim, era ridículo continuar com as nossas brincadeiras de completar as mensagens uma da outra como costumávamos fazer com as conversas e pensamentos que tínhamos. Não sei por que, mas nós sempre ganhávamos. Talvez se dê pelo fato de a Han sempre pensar em algo relacionado a sexo ou a moda, ou a alguma pessoa desconhecida vestindo alguma atrocidade. Já a Aria pensava em versos. Não duvido nada que ela ainda rimasse frases em sua cabeça, nada vindo daquela ali me assustava. Mas não sei, a Spence e eu sempre combinávamos. Certo, exceto quando ela entrava em modo FBI e se imaginava solucionando casos e possíveis suspeitos. Tirando isso, é, a gente sempre ganhava nesse jogo – o que rendia discussões infinitas entre a Aria e Hanna já que, de acordo com a loira, era extremamente fácil adivinhar o que se passava em sua mente, não para a Aria que obviamente se defendia como podia e bem... Isso rendia noites – e não sei o motivo ainda. Talvez seja melhor não saber. Suspirei e voltei a me deitar. Talvez seja melhor não esperar por sua resposta, ou não ter resposta alguma. Eu me prometi que não ia mais me assustar e nem me desesperar...
Cinco minutos. Que seja! Ela não vai responder, deve estar ocupada com o Toby. Melhor dormir, acho que ganho mais assim.
...
"Mas que porcaria, Spence! Você faz o que com esse celular?" Lá estávamos de volta na estrada porque a nova dupla 'Batmá e Roubim' não calou a desgraça da boca e nos espantou da cama para chegarmos logo naquele fim de mundo que até o GPS do camburão da Jane Bond desconhecia.
"Vamos logo, Hanna! Precisamos ir entes que fique tarde!" A nerd já estava me torturando com seu falatório matinal. Resolvi abrir os olhos rapidamente e olhar o relógio. Em plenas OITO DA MADRUGADA essa maluca já estava paranóica! Sério. Eu vou leiloar essa menina pra ver se alguém a compra como brinquedo erótico e se o sexo faz melhor pra mim (e pra ela também, obviamente), porque puta que pariu!
"Só mais cinco minutinhos..." Quem nunca barganhou por sono que atire a primeira flecha. E barganhar ainda é melhor que desafiá-la em uma discussão sobre a falta de limites do seu bom senso. Deus me livre disso!
"Você disse isso há dez minutos, Hanna, anda logo porque estamos perdendo tempo." Não me atrevi a abrir os olhos novamente, mas tenho certeza de que se eu fosse ousada o suficiente para isso, estaria prestes a entrar em combustão com o poder de raio laser de seus olhares assassinos. Bufei de raiva e coloquei o travesseiro sobre a minha cabeça para fugir de seus olhos malignos e de sua leitura sobre horários e blá blá blá. Quando me relaxei e encontrei um pouco de paz, algum duende traquina de pouca carne, pouca cor e muito dinheiro (obviamente era o ser reclamante a minha frente) roubou meu travesseiro e meu edredom.
"Bom dia, meu amor! Hoje é um ótimo dia para continuarmos a viajar, que tal?" Antes que pudesse xingar, brigar, bater naquela magricela ou me esconder para dormir, eis que abro meus olhos sonolentos e me deparo com a entidade que se apossou do corpo do meu namorado me beijando a testa e me sorrindo com a prova de seu crime (contra o meu sono) em mãos. Que porra que esses dois estão fazendo, hein? "Que ótimo, você já está de pé! Podemos todos ir!" Ele achou que passou despercebido, mas eu bem que notei o sorrisinho miserável que ele trocou com sua cúmplice. Será que esses dois estavam tendo um caso? Num é possível!
"Argh!" Eu não tinha nem forças para reclamar e tão logo fui puxada por ele que me jogou em seu ombro como um saco de ração de cachorro. O romantismo é lindo, não é mesmo? "Cadê a Aria?" Perguntei para a Spence que fechava tudo, enquanto eu era carregada (o que não é amizade? Nem pra me ajudar ela se dispôs...). Sem nem se dar ao trabalho de me responder, ela simplesmente passou andando na frente e pareceu conversar com alguém e devolver as chaves.
"Ai, meu Deus! Lá se vai a minha coluna..." A nerd comentou sozinha e foi aí que o Caleb parou e pude ver o motivo da reclamação da Jane Bond.
"MEU DEUS, ARIA! Fala comigo! Você está bem?" Sim, lá estava Mufa sendo carregada como uma noiva no colo da bandida da Spence. Assim como eu, ela também estava de pijama e ainda se enrolava em um lençol. Ao ouvir minha voz, ela resmungou algo e abraçou nossa líder, a prancha de surf, ainda mais apertado. Acho eu que imaginando o Sr. Fitz. Ou ela só estava rendendo pra Spence mesmo... Essa bagaceira! Eu já não sabia quem estava se aproveitando de quem naquele circo, só sabia que estava tudo errado, muito errado! E se a Em visse isso, eu que não ia desejar ter ouvidos. Por essas e outras, preparei meu discurso, porque todos ali precisavam saber o quanto aquilo tudo estava torto e eu é que iria falar isso, ou eu não me chamava Hanna Marin!
"Ai, cacete!" Provavelmente prevendo a importância do meu sermão, a dupla maligna só se dignou a comprar meu silêncio me jogando naquele banco (eu já disse o quanto ele era macio?). Ou melhor, meu namorado fez isso e deu a volta para se sentar enquanto a Spence ajeitava sua vítima no banco da frente e reclamava baixo (o que num é nenhuma novidade). "Ei, o que está havendo aqui?" Perguntei quando o homem das cavernas se sentou ao meu lado e o noivo pegou o volante e tratou de jogar o carro na ré para voltarmos para a estrada.
"Nada, meu amor. Durma no meu colo, que tal?" Tá, ele não era tão mal assim e, em situações normais, eu não cairia nessa, mas como eu precisava de mais alguns minutinhos do meu sono de beleza, resolvi obedecê-lo. "Ei, Spence, que tal ligar o rádio?" Foi a última coisa que ouvi ser dita antes de apagar.
"Eu costumo usá-lo para ligar e receber ligações, Hanna, acho que essa é a real utilidade dos celulares, não?" Nossa! Eu estava morrendo de rir por dentro e para expressar toda a minha felicidade, revirei os olhos em minha marca registrada. A dita pilota de fuga só me olhou pelo retrovisor e deu um sorriso cínico, assim como ela.
"Eu quis dizer além disso, espertalhona! É claro que os celulares servem pra isso, mas eles só evoluem para aparelhos úteis caso eles tenham Angry birds. Então nem sei para que serve essa porcaria cara se não tem um jogo decente pra mim aqui." Sério! Essa nerd era o único ser humano (se é que podemos considerá-la um) desse mundo que tinha esse celular caro e inútil. Puro dinheiro jogado fora.
"Pra que eu ia querer ter esse jogo no celular?" Sua resposta acompanhou uma careta de quem comeu e não gostou, nenhuma novidade até aí.
"Pra jogar." O que era óbvio, não é? Olhei para o meu namorado, mas ele só se deu ao trabalho de jogar as mãos para o alto. Pf! Grande porcaria namorar um gênio da tecnologia se ele nem usa isso a meu favor. Mufa era uma opção impossível já que ela ainda estava dormindo (será que foi envenenada?) jogada no colo da Spence. Uma cena pra lá de romântica, se me cabe dizer. Só que, é, ela não podia me dar o telefone pra eu poder procurar por algum joguinho interessante. Suspirei fundo, essa viagem longa não termina nunca! Quando estava quase tão triste quanto a Avril Lavigne no início da sua carreira e prestes a encostar a cabeça na janela e chorar, eis que o celular da Spence começa a vibrar e a tocar na minha mão. "Spence, seu telefone..." Comentei já esticando o braço para devolvê-la até me lembrar de ver o ID e foi assim que o segurei com força e resolvi atendê-lo. "Alô?"
"Ei, Hanna, pode me dar meu telefone, por genti..."
"Que porra você pensa que tá fazendo, Em? Pelo caralho, hein! Nós estamos seguindo suas pistas, mas essa buceta de lugar é no meio da puta que pariu e você sabe que a Spence está decorando o exato número de árvores para caso a gente num se perca e ela é paranóica e louca desse naipe..." Falei vociferando e xingando (porque talvez eu perca meu filtro e minhas boas maneiras quando estou com raiva, mas isso é o normal, não é?) para aquela sapatão desavergonhada que tinha nos feito passar por toda essa via-crúcis e fui interrompida em meu sermão pela nerd que, ao ouvir o nome da Em, só faltou capotar o carro em uma ribanceira e foi obrigada a rodar o volante tão rápido e com uma destreza só vista por uma prostituta rodando bolsinha, o que fez Caleb cair em cima de mim e Mufa acordar de sua hibernação. Resumindo, barraco armado.
"Hanna, pare de roubar as coisas dos outros!" A general do exército disse pisando ainda mais no acelerador e voltando para pista, ainda bambeando o carro (rá! Me chupa, suspensão!) depois de quase nos matar sem o menor glamour. Cadê a minha mãe para ver que minha habilidade na direção é melhor que a dela aqui?
"O que a Hanna roubou agora? Nós vamos ser presas?" Mufa saltou e acordou dando com sua cabeça alienada no vidro do passageiro, o que a fez entrar em uma de suas muitas viagens na maionese. Revirei os olhos.
"Calma aí, você já roubou algo, Han? E por que nunca me contou?" Meu namorado disse se levantando de cima de mim e tentando se aprumar no banco enquanto eu ainda segurava o telefone com raiva.
"Pelo menos coloque no viva-voz, Hanna, já que esse é o meu telefone." Revirei os olhos, mas obedeci as ordens de nossa cacique e afastei um pouco o aparelho da orelha.
"Spencer?" Claro que a sapata bico largo só ia querer saber da nossa líder Napoleão, isso aí! Vamos ignorar a amiga que deu casa e comida, por que não? Vou contar que essa gente é mais do que mal agradecida. Antes que eu pudesse esculhambá-la por nos ignorar, a voz no telefone continuou. "Desculpa, mas esse número é da Spencer?" Quem diabos era essa pessoa ligando do telefone da Em? A essa hora, a nerd já tinha jogado o carro no estacionamento e se virado para nos olhar com sua nada comum cara de interrogação.
"Sim, sou eu." Jane Bond respondeu quase que com medo. "E quem fala?"
"Eu sou Christine, a tia da Em, e peguei seu número no telefone dela. Espero que não tenha problema." Ao ouvir aquilo, como se ainda fosse possível, a Spence ficou ainda mais pálida e nem os vampiros de Crepúsculo ultrapassariam sua brancura. E eu posso dizer que eu a entendo, todos nós acabamos ficando assustados e esperamos pelo pior.
"Não tem problema nenhum, aconteceu algo com a Em?"
"Ah não, A Emmie está ótima e no banho a essa hora. Eu liguei para saber se vocês conseguiram entender a minha mensagem sobre onde ela está e se ficaram menos preocupadas, principalmente você." Espera aí, o que essa mulher quis dizer com isso? Que nós não nos importamos tanto com a Em quanto a Cérebro? Isso é um absurdo!
"Ah sim, muito obrigada mesmo pela informação e nós estamos a umas duas horas de Lima, ou até menos." Já sorrindo, a nerd comentou e todos nós suspiramos aliviados.
"Então, é exatamente esse o motivo da minha ligação, a Emmie não sabe que vocês estão vindo e eu gostaria de manter as coisas assim, pelo menos por uma semana. Pra que ela possa se acostumar com a rotina daqui e talvez até comentar algo sobre o que a fez fugir de..."
"Peraí, o que você tá sugerindo?" Perguntei antes de a Jane Bond ensaiar sua pergunta, porque aquela mulher só podia estar fumada e cheirada se achava que nós iríamos pra lá de sacanagem e ficaríamos piranhando naquele buraco do inferno por sete-fodidos-dias e não veríamos nossa amiga! No cu do palhaço!
"Que nós mantenhamos a vinda de vocês em segredo por alguns dias, pelo menos até ela resolver falar algo sobre qualquer uma de vocês e da amizade que tinham. Ela ainda está cansada e não parece confiar nas pessoas." Mas é claro que não confia! Com você fazendo as tramóias pelas costas dela, quem em sã consciência acreditaria em mais alguém?
"Olha só, minha senhora, eu não conheço a senhora e a Em é a nossa melhor amiga, então nada que você diga vai nos manter longe dela, tá okay?" Resolvi deixar logo tudo em panos claros e esclarecer os mal entendidos.
"Spencer?" Revirei os olhos, ainda tinha que me apresentar praquela desconhecida, ô dia maravilhoso!
"Não, é a Hanna que está falando."
"Hum, bem, Hanna, eu entendo a preocupação de vocês, mas quero que me entendam e saibam que fui eu que disquei para vocês e deixei que soubessem onde a Emmie está e pode apostar que ela tá bem e segura aqui. Então, pelo bem de todos envolvidos, não só o dela como o de vocês, eu sugiro para que se instalem aqui em Lima e mantenham contato pouco a pouco para não assustá-la. Porque se ela resolver fugir de novo, eu não sei para onde ela pode ir e nem posso afirmar se alguém se preocuparia em informá-las, certo? O que me dizem?" Seu longo e tedioso discurso nos fez nos entreolharmos e medirmos o que ela quis dizer com aquilo tudo e bem, a resposta só podia ser uma.
"Combinado." Nós três rosnamos de mau humor juntas e meu namorado assentiu com a cabeça. Mas peraí, isso quer dizer que nós íamos ter que ficar ainda mais tempo lá, num é? Eu ouvi certo? Acho que sim, porque estávamos nós quatro nos encarando depois de chegarmos a essa conclusão. O que iríamos fazer?
"Ótimo, então eu irei anotar esse número no meu telefone e apagar esse registro de ligação antes que a Emmie saia do banho e desconfie. Façam boa viagem e podem esperar que em duas horas eu ligarei de novo e podemos nos encontrar para que eu as ajude a arrumar um lugar para ficar. Até mais!" Sem nem esperar por nossa resposta, a sem educação desligou e suspirei fundo. Que coisa delirante...
"Bem, vocês entenderam o mesmo que eu?" Agora já acordada e respirando e, pelo visto, pensando também, Mufa nos olhou e todos nós assentimos com a cabeça. "E o que nós vamos fazer?" Essa pergunta foi direcionada ao nosso líder espiritual que só respirou fundo. Ué, eu pensei que já tivéssemos cruzado essa ponte, não?
"Como assim, Mufa? Não está claro o que nós vamos fazer?" Perguntei com um quê de impaciência, porque não é possível que ela esteja pensando em dar meia volta e fugir pras colinas, isso era absurdo!
"Ora, Han, nós temos que conversar e saber se nós todos estamos de acordo em ficar aqui, né? Não podemos assumir as coisas assim e nem sabemos quanto tempo precisaremos ficar e temos nossos pais também..." Sua usual boca falastrona fez o que sabe de melhor, falar sem pausas. Revirei os olhos, nós estávamos ali em uma missão, ora essas!
"Eu concordo com a Aria nessa, Han. Nós sabemos que a Ashley não tem problemas com isso e meus pais provavelmente nem notarão que não moro mais lá, mas ainda temos que pensar no senhor e na senhora Montgomery e no Caleb. No que depender de mim, estou dentro e fico, mas também precisamos resolver esses outros impasses..." Certo, a nerd continuou falando, mas confesso que só ouvi seu discurso até o nome do meu namorado ser dito e senti um calafrio me percorrer. Deus! Como eu posso ser uma namorada assim tão ruim? Eu nem tinha perguntado o que ele queria e o que ele podia, ainda mais agora que ele está criando laços com a família biológica...
"Ei! Eu tô dentro, gente, não se preocupem com isso." Caleb disse sorrindo e resolvi olhá-lo seriamente para saber se ele estava sendo sincero ou apenas sendo um fofo. "É verdade, Han, eu estou nessa!" Talvez percebendo a minha intenção, ele apertou minha mão em sinal de cumplicidade, mas eu não seria comprada assim tão fácil.
"Mas e a sua família biológica, Caleb? Você acabou de encontrá-los e está indo para ainda mais longe deles, eu não posso te pedir isso..."
"Você não está me pedindo nada, Han, eu que estou dizendo que vou ficar por aqui." Era engraçado o contraste entre o sorriso dele e a minha expressão de descrença.
"Sim, mas você ouviu que nós talvez precisemos ficar aqui ainda mais tempo? E se nós tivermos que terminar o colegial aqui? Nós vamos precisar nos mudar e você vai estar ainda mais longe deles novamente e vai estar em outra cidade de novo..." Eu precisava ser sincera, até porque, ele não pode ser arrastado em mais uma de nossas loucuras e queria deixar bem claro que ele ainda podia sair desse redemoinho se quisesse. Sim, seria triste, mas eu precisava fazer isso por ele e queria que soubesse. Mas é claro, como o cabeça dura (e a má influência da Spence ainda está estragando ainda mais o meu namorado) que é, ele só colocou um dedo na minha boca e me calou.
"O meu lugar é com você, o meu lar é você, não importa pra onde a gente vá, você é a minha família e eu não abandono a minha família assim. Então, não se preocupe, eu já morei em muitos lugares e moraria em todos os outros, eu não me importo, contando que eu esteja contigo, tudo vai dar certo." Assim que ele terminou seu discurso romântico, eu pulei em seu pescoço e abracei-o por tudo em agradecimento e por amá-lo tanto e por me sentir amada pela primeira vez. "E eu sei o quanto a Em é importante pra você e isso faz com que ela seja importante pra mim também. Além disso, eu sou um cavalheiro e não vou deixar as damas sozinhas nessa busca, vai contra os meus princípios." Lá estava o meu sorridente, bobo e apaixonante namorado de sempre.
"Obrigada. De verdade, obrigada mesmo..." Falei baixo para ele porque conheço aquelas duas que ouvem até pensamentos e só recebi um sorriso em troca. É por essas e outras que eu sou a garota de mais sorte no mundo todo. Beijei-o apaixonadamente e suspirei em seu abraço, apoiando minha cabeça em seu ombro e rindo que nem uma idiota.
"Vai ser bom contar contigo, Caleb." A nerd falou sorrindo para o meu namorado e aposto que ele sorriu de volta (sim, ele era fofo desse tipo), mas eu estava mais concentrada em seu cafuné nos meus cabelos. "Bem, o que você me diz, Aria?" Ao ouvir a pergunta, deixei de suspirar e abri os olhos, é claro que Mufa fica! Ela não tem nem outra opção, cacete! Por isso fixei meus olhos nela, para que soubesse disso. "Como que serão as coisas pra você?"
"Bem, isso eu ainda não sei..." Revirei os olhos e me preparei para falar poucas e boas, não fosse pelo meu namorado que só balançou a cabeça levemente e em desacordo me fazendo suspirar fundo. Essas pessoas compreensivas são chatíssimas, vejam vocês. Comigo as coisas se resolvem na ação e não fico perdendo tento tempo assim pensando como eles, coisa de gente sem pulso firme. "Eu até acho que meus pais não vão se incomodar tanto e seria um bom recomeço, mas..."
"O Ezra." A cartomante Spencer leu a mente de Mufa que só assentiu com a cabeça. Agora sim eu entendi o real significado disso.
"Pois é..." Foi sua única resposta.
"Mufa, ele foi despedido de Hollis, isso quer dizer que ele está desempregado e poderia muito bem se mudar para qualquer lugar no país para lecionar..." Exatamente! A minha idéia era assim, sensacional e até a nerd me sorriu aberto. Mas bem, eu estava falando com a Aria, o que quer dizer... "Eu tô dizendo que ele podia vir pra cá, lerda!" É, eu disse que esse samba em volta do assunto não é o meu forte, as coisas são resolvidas com mais facilidade assim, diretamente. Assim que sua ficha caiu (contem algum tempo aí porque ela é lesada assim mesmo), seus olhos brilharam e seu sorriso se arreganhou tanto que até o gato da Alice se sentiria deprimido se fosse comparado com ela.
"Han, essa é uma idéia maravilhosa!" Ela falou e pulou no banco de trás para me abraçar em agradecimento. Pois é, eu sou incrível assim mesmo.
"É, eu sei..." Não, eu nem sei jogar essa carta de falsa modéstia e nem preciso. Sua única resposta foi rir para mim e suspirar. Isso até pular do colo como se estivesse abraçando o Pikachu e se virar pra nerd com um quê de terror no rosto. Ai, lá vem...
"Spence, e o Toby?" Sua pergunta fazia sentido e foi por isso que me assustei (não é muito comum esperar isso da Mufa). Tá, talvez também pelo fato de ter esquecido que a nerd tinha um namorado, o que também não é culpa minha, já que ela só faltou montar em sua vassoura elétrica e chique pra caçar a Em pelo mundo. Mas enfim, minha surpresa estava escrita no rosto de todos e até no da pálida menina endereçada.
"O que tem ele?" A Joana sem braço disse tentando comprar ainda mais tempo para pensar em uma explicação pedante e longa, que nos faria dormir antes do final para comprar nosso silêncio. Revirei os olhos, ela nunca foi boa em discrição, nunca vi.
"Bem, ele é o seu namorado..." Mufa resolveu refrescar a memória da nossa líder.
"Não exatamente." Isso nos pegou de surpresa, claro e a reação da Aria foi a mais previsível de todas.
"C-como? O quê? Quando?" Sim, eu já nem me assustava mais com isso. Mas a Spence pareceu entender e suspirou fundo, se preparando para explicar tudo tintim por tintim.
"Nós não estamos namorando. E sim, Aria, ele me beijou na fatídica noite da Mona, mas não voltamos a namorar." Ah sim, agora as coisas fazem sentido...
"Mas por quê?" Eu perguntei porque achava meio que óbvio ela estar com ele, mas me enganei pelo visto.
"Nós estávamos na fase de repensar ainda e ele queria que eu explicasse tudo que aconteceu, mas eu não o fiz. Então entramos em algumas discussões e é nesse pé que estamos. Do mesmo modo que ele mudou de cidade para trabalhar, eu estou fazendo o mesmo." Assim que ouvimos sua explicação, nos entreolhamos (Mufa e eu, já que meu namorado prefere não se meter nessas coisas, o que é muito sábio e saudável da parte dele) e depois voltamos a olhá-la. "O que foi?"
"Ué, ele tinha se mudado? Eu não sabia..." Resolvi perguntar antes que a Aria se engasgasse com tantos pensamentos e palavras e a Spence só suspirou fundo.
"Na verdade, ele não se mudou, mas ele está trabalhando em outra cidade. E bom, isso mudou muita coisa. De todo modo, não seria por ele, mesmo se estivéssemos nos nossos tempos áureos, que eu deixaria de ir ficar com a Em, okay?" Mufa engoliu sua língua e eu sorri cheia de dentes pra ela, que revirou os olhos. "Que foi, Han?"
"Own, que bonitinha, nerd! Não sabia que você podia ser assim tão romântica." Para provar meu ponto, apertei suas bochechas e eis que o impossível aconteceu, a nossa líder ficou vermelha e encabulada pela primeira vez em não sei quantos anos. Foi um choque tão grande que eu até perdi as estribeiras e me senti a Mufa, sem palavras para expressar o meu transtorno. E ela, como a rata que é, tratou logo de se afastar e me sorrir amarelo.
"Bom, a estrada nos espera e prefiro que cheguemos antes do almoço porque ainda tenho que passar no corretor e pegar as chaves. Além do mais, a Christine quer nos ver hoje ainda, então é melhor deixarmos tudo preparado logo." Ela disse agarrando o volante e ligando o carro, mas obviamente eu tinha prestado atenção naquele seu deslize de ficar constrangida e iria usar futuramente ao meu favor. Olhei para meus amigos e cúmplices na nova missão de assombrar a Spence e fui recebida com uma sobrancelha arqueada do meu namorado (talvez eu estivesse rindo como uma maníaca, mas só Deus pode me julgar) e revirei olhos, me voltando para Mufa, que estava rindo para os passarinhos e árvores que passavam enquanto se imaginava em campo florido declamando poemas e músicas com o Sr. Fitz. Bufei e encostei no banco. Que seja, se eles não irão me ajudar, eu faço isso sozinha! "Hanna, o que foi?" Claro que a dita fofoqueira estava olhando com medo para mim pelo retrovisor. Resolvi me aproveitar desse presente do destino e jogar alguns dos muitos verdes (e ela que me aguarde) só para deixá-la sabendo da situação.
"Nada, Spence, só acho que essa viagem vai mudar mais a nossa vida do que imaginávamos, né? Talvez nos mude mais até do que a própria Em..." Os dois pobres coitados concordaram sem pensar duas vezes e minha nerd preferida engoliu em seco. Assim que eu gosto, Jane Bond! A Em que não se surpreenda quando nos vir e reparar na nova postura da nossa líder. Ou, na pior das hipóteses, só para rir conosco das próximas zoações com a Spence.
...
"Você tá pronta, Britt?" Perguntei a minha namorada porque eu sabia que ela sempre ficava nervosa com esses almoços na Chris aos domingos e preciso assegurá-la que esse sapato velho não irá machucá-la de modo algum (a menos que queira perder os pés). Não que isso seja algo comum, mas essa é a segunda vez que ela vem aqui no cortiço da Christine e não quero correr riscos. Ao ver seus olhos meigos e doces, assenti com a cabeça e soube que ela estava preparada para mais essa missão, por isso sorri e beijei sua testa antes de apertar a campainha.
"Qual filme nós vamos ver hoje, San?" Em toda a minha inocência, eu dei de ombros e logo olhei para o seu rosto se iluminando como um dia de verão e... Caralha. "Nós podemos ver aquele desenho da Rapunzel de novo? Eu ainda não decorei as falas..." Em sua expressão mais alegre e inocente, minha namorada conseguiu comprimir todos os meus medos em uma única frase. Não, eu não agüentava mais ver essa tristeza e das últimas três vezes até consegui disfarçar o fato de estar dormindo porque aprendi a conseguir dominar a arte milenar de cair no sono nas aulas em qualquer posição. Primeiro porque não existe nada mais tedioso do que passar o dia com o rabo pregado em uma cadeira e ouvir monólogos tão grandes e fora da realidade quanto os da Berry ditos por um sem noção, que provavelmente já tentou de tudo na vida e escolheu dar aulas por não ter habilidade para dar o cu na esquina. Exatamente, a vida não está fácil pra ninguém. E segundo por eu ser a rainha do sexo e conhecer mais posições do que o próprio kama sutra, o me torna uma pessoa atlética, elástica, sensual, vistosa, criativa e surpreendente. E sim, essas são qualidades muito necessárias na hora de conseguir tirar o cochilo perfeito. Mas claro que não diria isso para minha garota e acabei optando por:
"Isso vai ser ótimo, bebê." Daqui a pouco, eu estarei cantando músicas na chuva e me comportando como o Finnsípido e seu vibrador cantante. É, o amor é um tiro no pé mesmo. Ignorando esse futuro tenebroso, afinal de contas, eu nunca conseguirei ser nada além de maravilhosa e nem me compararei ao Finntruso e, além do mais, por ter essa namorada linda que eu fui arrumar, duas horas de tortura valem a pena. E ainda terá uma ótima canção de ninar. É, a vida é quase perfeita. Beijei a testa da minha loira mais linda e toquei a campainha mais uma vez e apressadamente (o que essa velha sem vergonha estava fazendo a essa hora? Aposto que estava vendo vídeo pornô, essa bagaceira), me afastando um pouco da porta. Ouvi passos e fiquei mais tranqüila, olhando para minha loira sorridente. Pronto, até que enfim aquela descansada abriu a porta. "Mas que demora do diabo foi essa, Chris? Tá querendo me plantar nessa sua varanda, cacete? E eu sei que sou perfeita, inclusive sei bem disso, mas tenho mais o que fazer do que passar o resto da vida te esperando abrir essa porra, né?" Soltei logo o verbo e me aproveitei para puxar minha namorada porta adentro porque a sem educação nem da frente saiu.
"Hum?" Foi o som que ouvi e senti minha mão ser puxada pela Britt. Será que ela ainda estava com medo da cozinha da Chris? Porque eu já expliquei várias vezes que, apesar de grande, aquela pia não engolia pessoas e nem podia tomar banho nela, pelo menos não enquanto aquela sapata atrevida estivesse no mesmo cômodo que a gente, ou eu dou um braço que ela ficaria nos...
"San?" Britt me chamou e me virei para olhá-la.
"Sim, meu amor?"
"Não, não você, a outra?" Oi? O que é que estava acontecendo ali? Eu até juraria que minha namorada acabou tomando um dos remédios do Lord Tubbington para prová-lo que eles não fazem mal, mas ao ver o espanto estampado em seu rosto, me virei para a porta e preparei meu discurso para a saliente da Christine que cisma em vestir essas fantasias sexuais de fundo de lata de lixo só pra sair assustando as pessoas assim, mas o dois de paus na porta não era ela.
"Er, oi..." Ali estava a miss Gaga do dia anterior mais amassada que papel ruminado e descabelada como um leão no furacão, portando um sorriso amarelo ovo e olhando para todos os lados como uma roda gigante. Que menina esquisita, misericórdia, meu Deus! De onde surgem essas pessoas tão desequilibradas? Tenho certeza de que isso é uma armação do destino para me fazer seguir a psiquiatria, essa porra de acaso tem um senso de humor avesso do caralho, te contar. Ignorando minhas epifanias e minha discussão com quem quer que seja que está jogando os dados tão aleatoriamente como se estivesse jogando granadas em uma guerra (porque só isso explica a missão impossível que era a minha vida), Britt resolveu se aproximar da estátua de sal e soltou a minha mão para encará-la.
"Ela é de verdade, San!" Minha loira disse ao tocar o nariz da menina que só fez uma careta. Ao ver a cara de quem foi comida e não gostou, minha namorada só se pôs a rir. "E você é mais alta também..." É, pode até ser, mas eu ainda sou mais bonita, ora essas! Cruzei os braços e deixei minha namorada brincar com seu novo projeto de ciências quase humano. "Você fala, ou tem que puxar cordinha?" Confesso que a cara de espanto da menina foi tão impagável que eu tive cair na gargalhada enquanto ela só arreganhava a boca como um buraco negro. Até que ela percebeu que estava sendo o motivo do meu riso incontrolável (como podem ver, sou inocente nisso, todos teriam feito a mesma coisa), a guarda da realeza britânica mordeu sua boca grande e me olhou com raiva e eu, claro, correspondi. Quem ela estava pensando que era, afinal de contas?
"Olha lá o que vai responder, miss Gaga." Falei baixo, mas usei o meu melhor tom ameaçador para ver se a noção conseguia a dura missão de entrar naquela cabeça despenteada. E bem, acho que funcionou porque no segundo seguinte, acho que sua alma voltou do passeio no sanatório e ela ficou piscando como um farol quebrado. Aí sim ela se virou pra minha Britt e deu um sorriso pequeno (ela que não ouse ficar de muita risada cheia de dentes pra minha garota, ou vai acordar com seu bocão cheio de formigas).
"Bem, eu sou Emily, prazer. Você é?" Não sei o que se passa na cabeça viajante dessa menina, mas ela ainda levantou a mão em um sinal de que era pra ser apertada (ou quebrada, caso essa mão boba resolva brincar com fogo e se aproveitar da minha loira meiga), o que era completamente do arco da velha, já que a Britt ainda estava com a mão no nariz dela, mas bem, eu deixei essa passar, ela estava sendo educada pelo menos.
"Eu sou Britt e você é clone da San." Não sei nem se o espantalho chegou a ouvir aquilo antes de ter sido imersa em um dos abraços apertados da minha menina. E não é como se eu ligasse pra isso também. Obviamente ela ficou estática como os moradores do necrotério, por que isso não me surpreende?
"Prazer, Britt." Passado seu choque, ela decidiu abraçar minha loira de volta e respondeu com um sorriso. Aí eu já num tô gostando, ficar arreganhando muito esses dentes pra minha mulher num vai acabar em coisa boa pra ela e tô avisando só pelo respeito que tenho com a chefe sapata da casa, caso contrário, a única coisa que ela conheceria de mim seria a força do meu gancho de direita.
"É, bem, já que nos conhecemos todas, podemos entrar agora, ou você pretende se enraizar nessa porta?" Cortei o barato delas logo e me dirigi a tal menina que engoliu em seco e assentiu com a cabeça, nos dando espaço para passar. Não sei qual é a dessa esquisita, mas peguei a mão da minha namorada e entrelacei nossos dedos antes que ela se metesse em confusão, o que foi estranho, já que ela agiu normalmente. Talvez a Chris já tenha ensinado o suicídio que é me desafiar. De todo modo, nada foi dito e esperamos por ela que, depois de fechar a porta, nos guiou até a cozinha e simplesmente a seguimos, ainda de mãos dadas.
"Bom, eu posso oferecer alguma coisa para vocês?" Ainda tímida e flertando com a mobília, paquerando a louça a ser lavada, inspecionando as paredes que precisavam de mais uma mãozinha de tinta e fixando os olhos na toalha de mesa para ver se ela precisava ser costurada, a menina nos perguntou e neguei com a cabeça.
"Você também canta?" Ignorando completamente a pergunta e a falta de jeito da pilastra viva parada em nossa frente, Britt perguntou para a esquisita.
"Hum?" Mas que porra de gente lerda do capeta, hein? Sua resposta genial foi acompanhada por um leve balanço de cabeça, provavelmente testando seus neurônios e vendo se eles funcionam no tranco. Respirei fundo, mas que sorte a minha!
"Cantar músicas, ela quer saber se você consegue cantar." Juro que essa era a minha última alternativa antes de começar a separar sílabas ou desenhar um microfone para ver se a doida responde a estímulos visuais. É cada coisa que me aparece nessa vida que só Deus é mais.
"Ah..." Como o ser humano pouco verbal que é (e por isso agradeço infinitamente, já me basta uma Berry falando por sua vida, como se precisasse pagar a com a boca – porque além de prostitutas e cantores, a brinquedo de lego também ganhava a vida com a boca, aparentemente – a cirurgia de mudança de sexo de sua noiva que parcelou em seu cartão de crédito para ontem. Mais uma dessas é muita safadeza comigo), essa foi nossa única resposta e suspirei mais uma vez. Esse povo que não sabe dialogar sempre me assusta. Percebendo o nível de sua estranheza, miss Gaga agora passou a analisar minuciosamente os azulejos da pra saber se eles precisavam de um pouco mais de rejunte. Depois de calcular toda a área da cozinha e dividi-la pelo tamanho exato de cada um dos ladrilhos, ela voltou a nos olhar e tentou amaciar sua juba revoltada com um das mãos, ainda sorrindo.
"Não, na verdade, ela é nadadora." Christine valsou pela cozinha surgindo do mundo dos mortos e com um pente na mão, que a menina logo agarrou porque bem deve ter visto por sua sombra no chão (enquanto planejava remodelar o piso da cozinha) que estava mais parecendo um viveiro de pássaros e poderia facilmente ser confundida com uma amendoeira, dada a obediência de seus fios capilares. "Desculpa, Em, eu acabei trancando o banheiro e você nem pôde pegá-lo." Ah sim, isso explica a obra silvestre comumente feita em arbustos que estava adornando sua cabeça. "Bom, eu vejo que vocês já se conheceram..." Não sei como ela ainda consegue ser jornalista depois de tanta sabedoria de banco de praça, pensamento rápido e frases motivadoras, mas tenho certeza de que ela está na área errada.
"Vocês são parentes?" Minha Britt que nunca se importa com a esquisitice alheia me poupou de tecer comentários delicados sobre aquele encontro no inferno.
"Somos sim, Britt, a Emmie é minha sobrinha." Bem, isso explica a presença repentina de miss Gaga por aqui, mas será que ela estava só visitando? E por que essa menina nunca apareceu antes? "Nós estávamos muito tempo sem nos ver porque ela mora em Rosewood, mas agora estou contente por ela vir para cá e morar comigo. Não é ótimo?" Como que lendo a minha mente, Chris respondeu tudo o que pensei em uma mesma frase. E é por essas e outras que gosto de tê-la por perto (na maioria das vezes), ela consegue ser sucinta e objetiva como eu.
"Yaaay! Isso é maravilhoso! Você vai estudar no McKinley, Em?" Caso vocês estejam se perguntando, sim, a Britt estava realmente feliz pela menina e não foi falsa, mas não me perguntem o motivo, eu aprendi a amá-la assim e prefiro nem ouvir explicações. Achando que aquilo foi um convite a, agora já penteada, Rapunzel decidiu sentar-se a mesa conosco e conversar, assim como a Chris.
"Pois é, é lá mesmo que vou me matricular, Britt." Sua voz, agora menos apavorada, era baixa e meiga e percebi que ela não estava simplesmente sendo educada com a minha loira, ela realmente gostou dela e por isso até dei alguns créditos. Falando na minha namorada, ela se virou sorrindo para mim e pegou a minha mão enquanto segurava a outra mão da foragida.
"Isso não é ótimo, San? Nossa trindade tem duas loiras e uma morena, agora podemos igualar o time." Aquilo conseguiu me fazer sorrir e beijei a mão da minha garota, olhando de relance para a outra menina que sorria parecendo estar contente, mesmo não sabendo se por 'trindade' a minha namorada estava falando de um grupo de dançarinas devassas de cabaré tipo o TLC ou se estava falando de um trio pra ménage, mas deixei ser. Vamos ver onde isso vai dar.
"Vai ser ótimo sim, Britt!" Ouvindo minha resposta, a 'Ra-rapunzel' abriu ainda mais o seu sorriso e parecia agradecida, por isso, com minha mão vaga, apenas fiz um gesto para que ela deixasse isso pra lá. Abruptamente, Chris se levantou da mesa e foi até o fogão para ver se tinha esquecido seu filho no forno ou talvez indo pegar alguma gororoba para enfiar goela abaixo em sua mãe que estava cuidadosamente presa na masmorra. Quando se deu por satisfeita com a consistência de suas feitiçarias, se virou para nós.
"Bem, crianças, o almoço está pronto e vamos nos servir!" Antes do fim de sua frase, ela já tinha levado os venenos para a mesa e nos motivou a nos servirmos. "Então, as aulas voltam agora essa semana, né?" Adoro essas conversas de almoço e de elevador, sempre são tão significativas...
"Começam sim, Chris. Em, você já se matriculou no McKinley?" Nunca julgando a capacidade de travar diálogos alheia, minha Britt resolveu dar trela pro sapatão mais velho e depois se dirigiu a miss Gaga que, sempre por dentro de tudo que acontecia, só se virou para a dita 'cacura' antiquada, recebendo um sorriso em resposta.
"Já está sim, falando nisso, meninas, eu vou precisar me encontrar com o diretor da escola de vocês mais tarde para levar o que falta dos documentos da Emmie, tudo bem?" Era óbvio que ela estava se arrumando para catar alguma vítima na rua e nem teve a decência de pensar em uma desculpa menos esfarrapada do que essa. Esse povo que num sabe mentir me assusta demais.
"Alguém te avisou que hoje é sábado, Chris?" Falei para ver a reação dela e pra que soubesse que, se sua sobrinha é uma múmia e se minha namorada acredita no melhor das pessoas, eu não caio nessa, não assim tão fácil.
"Sei sim, Santana, mas como eu preciso que a Emmie comece na segunda, pedi urgência pro nosso encontro." Arqueei uma sobrancelha pra ela, tá bom que ela me comprava assim. "E isso custou algo..." Ela completou falando baixo e ignorando sua sobrinha lesada e já penteada, a 'prima It'* (aposto que se vocês vissem o emaranhado de cabelos com vida própria como eu vi, estariam todos balançando a cabeça em concordância). Agora sim estamos falando a mesma língua e, por isso e pelo fato de eu conhecer aquele judeu megalomaníaco, passei a acreditar em seu encontro. Claro, acreditei desacreditando porque essa sou eu, mas lhe dei o benefício da dúvida. "Bem, vamos todas almoçar porque não posso me atrasar muito. O que vocês farão à tarde, crianças?"
"Nós vamos ver Enrolados, Chris! O que é uma pena por você ter que sair porque eu queria mesmo que você ficasse e visse com a gente..." Como podem imaginar, essa frase foi dita pela minha Britt, porque um: eu não poderia ligar menos se a Chris ficasse ou fosse ter seu encontro às cegas num bordel fracassado e dois: a lerda que comia conosco estava fazendo economia de palavras e de fala e só ria baixo, nos olhava e comia (alguém pensou em stalker ou fui só eu?). Duvido nada de essa garota ser esquizofrênica e estar vivendo outra realidade, as coisas na minha vida eram cruéis assim.
"Bem, sempre há uma próxima vez, né, Britt?" Filha de uma puta arreganhada na esquina à meia noite! Sim, ela disse aquilo para a minha loira meiga e se virou piscando pra mim, essa sem vergonha cretina! Mas nem dei o braço a torcer e só respirei fundo, subitamente optando por comer para ocupar a boca antes que eu falasse alguma besteira.
"Yaaaay! Isso vai ser ótimo, não é, San?" Aproveitei sua pergunta para encher a boca de mais uma colherada dessa comida insossa e só balancei a cabeça positivamente, evitando fazer caretas. Não sei com qual dos seus bichos imaginários ela estava conversando, mas miss Gaga resolveu começar a gargalhar na mesa porque deve ter se esquecido de tomar o seu remédio pra cabeça. Dane-se! Qualquer que fosse o motivo, eu fuzilei-a com os olhos para deixar claro o meu desgosto por sua loucura.
"Nossa! Eu adoro esse filme, Britt!" Sim, a medusa depois da insolação respondeu e eu me engasguei com a comida e entrei em crises de tosses imensas. Mas é claro que ninguém se importou com o fato de eu poder ter morrido na mesa e caído com a cara naquela lavagem, óbvio que não, muito pelo contrário, Chris sorriu porque é um sapatão sádico e filha de uma dadeira, o suicida coqueiro ambulante arreganhou seus dentes (e ela que reze para não perdê-los) e minha Britt sorriu porque ela realmente adora esse filme. Êta final de semana surpreendente!
"Que ótimo, Em! Eu e a San aqui também adoramos esse filme!" De repente, morrer engasgada não era uma opção assim tão ruim, não é mesmo? Mesmo flertando com o perigo de uma morte lenta e dolorosa, sorri para minha namorada porque bem, ela não tinha culpa de nada disso. Não, a culpa era dessa nova inquilina da Chris e sua falta de amor pelo próximo. Ah, que venha esse resto de tarde.
"Fico feliz sabendo que vocês três estão se dando tão bem." Como sempre muito misericordiosa, a sem vergonha comentou e sorriu para meu triste fim de tarde. Assim como minha loira e a outra bandida (que tinha que ter o sangue da Chris correndo nas veias, as duas só poderiam ser da mesma laia) e eu sorri pequeno. É, por sorte estávamos nos dando muito bem...
...
"É esse o lugar, nerd?" Hanna me perguntou assim que estacionei o carro e descemos, parando na frente da casa.
"Bem, de acordo com o endereço que está aqui, é esse sim." Comentei lendo mais uma vez as informações contidas no papel que acompanhava o molho de chaves.
"Ótimo! Essa casa é maravilhosa! Mal posso esperar pra gente tentar abrir todas as portas como num daquele programa que dá várias possibilidades de acharmos prêmios escondidos ou sairmos com as mãos abanando." Ao ouvir sua frase e ver sua excitação, me virei para Caleb, que deu de ombros e sorriu amarelo, e para Aria que gesticulou com a mão como quem faz pouco caso. É, vou seguir o exemplo deles e ignorar isso mesmo que é o melhor que eu faço. "Anda, me dá logo isso aqui e para de alisar essa merda, ou vamos ficar o dia todo aqui!" Hanna disse já pegando as chaves da minha mão e saiu em corrida na direção da porta.
"Pode fazer as honras, Han, eu não importo." Falei baixo e mais para mim do que qualquer outra coisa, já que ela já tinha saído do campo de audição, aparentemente.
"Bem, eu sempre posso chamar o jovem senhor Maguire pra abrir a porta da sua vida pra você, Spence..." Ou ela ainda estava me escutando e tinha uns ouvidos de tuberculoso. Com seu tom mais sugestivo, ela fez questão de citar aquele cara esquisitíssimo que fez questão de transformar minha manhã num inferno.
"Argh! Abre logo essa desgraça, Hanna." Disse marchando em sua direção e sendo seguida por nossos dois outros amigos. Ela, claro, só revirou os olhos e me sorriu.
"Ora, Spence, aposto que as cantadas ótimas dele massagearam seu ego, nem adianta negar." Cruzes! Só de me lembrar daquele estranho tentando ser sensual e galanteador, meu estômago se revirava em revolta. O destino deve me detestar mesmo, só pode. "Além do mais, ele não era feio..." Ainda com seu sorriso macabro, ela continuou e tentei pegar minhas chaves da mão dela, mas não tive sorte.
"Anda, Han, abre logo isso." Cruzei os braços e fiquei olhando-a com minha expressão mais séria. Depois de dirigir por mais de dez horas (já que ela e Aria tiveram que parar várias vezes pela estrada para ir banheiro, roubar plantas – sim, elas pretendiam fazer um jardim secreto aqui –, pedir informações ou só para desfilarem seus maravilhosos pijamas pela cidade), ser cantada por aquele garoto estranho, dormir só por duas horas, já que Aria insistia em se jogar em cima de mim, eu ainda tinha que lidar com seu questionário. Eu devia merecer mesmo, só pode.
"Hum, dona Spencer Hastings destruidora de corações." Revirei os olhos e optei por ignorá-la mais uma vez (quem sabe assim ela não para?), afinal de contas, ela estava começando a testar as chaves na fechadura e não podia tirar o foco dela nesse momento – só Deus sabe quando teríamos uma outra oportunidade como essa novamente –, por isso, resolvi me calar. "Mas aposto que você já está acostumada, né, nerd?" E contra todas as minhas preces, ela afastou a chave da fechadura (por que, Deus? Por que?) mais uma vez e ficou me olhando. Fechei os olhos em uma prece. Pelo amor de Jesus! O que eu fiz pra merecer isso?
"Deixa eu tentar!" Aria, ainda de pijama e enrolada em um lençol como uma muçulmana, se utilizou de seu elemento surpresa e roubou a chave da Hanna (que fez uma careta de raiva e nojo para ela, até voltar a me encarar. E lá vamos nós de novo) que se aproximou de mim e resolveu sensualizar e passear com seu indicador pelo meu braço, me olhando de cima a baixo. Cristo, como o Caleb conseguia conviver com ela?
"Eu não sabia que você era tão boa assim, Spence..." Eu controlei minha vontade de gargalhar ao ouvir sua voz insinuante e optei por me focar na Aria levando uma surra da porta. Mas que dupla essas duas não faziam? "Bom, espero que não seja tarde demais pra..."
"Eu não sou boa, Hanna, se você não percebeu, o pai daquele garoto era o nosso corretor e tinha mandado ele dar em cima de mim por causa do dinheiro da minha família." Optei por abrir e expor logo a situação para tentar me poupar de (mais essa e qualquer) outra situação constrangedora. Assim que ela entendeu o que eu quis dizer, sua expressão mudou completamente e estava contorcida em raiva, também vista por seus pés batendo no chão e seus braços cruzados.
"Ora, mas que filho da puta! Ele ainda queria que aquele babaca desse em cima de você? Que raio de corretor é esse?" Ali estava a Han que eu conhecia e amava e por isso sorri em agradecimento. Secretamente, eu posso dizer que adoro a capacidade que ela tinha de sempre entrar em seu modo de guerra quando estávamos em algum tipo de situação desagradável. Mas isso é um segredo. Mais um segredo.
"Esse é o raio do ex-corretor, já que eu o demiti hoje e vou mandar uma carta autenticada pro cartório mais tarde informando isso." Claro que ouvindo isso, seu sorriso se abriu ainda mais, porque ela adora um malfeito.
"Grande nerd! Sabia que você tinha algo dentro dessa sua cabeça além de paranóias!" É, estava bom demais para ser verdade mesmo. "Porra, Mufa! Você não aprendeu a abrir porta com chave até hoje? Caramba!" Para a minha sorte, Hanna se virou para Aria e pegou o chaveiro de sua mão, abrindo a porta da frente de primeira. "É assim que se faz!" Aria revirou os olhos, Caleb deu um beijo na testa de sua namorada e todos foram entrando em casa, menos eu que me virei e fiquei a contemplar a nossa nova vizinhança por tempo indeterminado. Tudo bem, não era um bairro feio e a cidade parecia bem bonita até, um céu sem nuvens e casas ainda no estilo vitoriano com jardins e cores vivas. É seria uma boa mudança da sempre sombria Rosewood, mas ainda não tinha o ar meio comum e familiar de lá. Não que eu tenha algo contra isso, já que minha família não era exatamente unida e... Certo, eu só estou tentando me enganar. Minha família era mentirosa, manipuladora, criminosa e maquiavélica e essa mudança de ares era um dos passaportes para analisar a minha vida e o meu futuro longe das imposições e da falta de escrúpulos deles. Suspirei e sorri comigo, então eu usaria essa temporada para rever meus valores e começar de novo, e a melhor parte seria não estar sozinha nessa nova busca. Exceto pela situação, pela falta que me fazia a Em e pela minha preocupação com ela. Mas era uma oportunidade, por bem ou mal e eu não iria sair desse lugar sem ela, para lugar nenhum e em hipótese alguma. Como diria a Han, essa é a nova missão de Spencer Hastings e o inferno pode engolir a Terra que eu não a abandonarei (acho que essa determinação cósmica foi a única coisa boa que ganhei com meus genes). Só pelo fato de me lembrar dela, senti a sua falta. Falta de tudo, sem exceções. Por que a vida tem que ser tão difícil? Abanei todo o pessimismo que me engoliu e me fez pensar na possibilidade de essa Chris não ser uma pessoa confiável e apenas estar nos usando (maldita Mona que me aterrorizou para o resto da vida) e peguei meu celular para ver as horas. É, se ela presta ou não, descobriremos em pouco tempo... Suspirei de novo e abri minha caixa de mensagens, sorrindo como uma boba ao reler todas que já trocamos, mas acabei parando na última delas que escrevi noite passada (certo, minha noite em claro se deu menos pela Aria e sua epilepsia do sono e mais pela minha indecisão e covardia, proporcionadas pela Hanna e suas teorias macabras e piadas de mau gosto que colocavam minhocas em minha cabeça) e fiquei olhando meu celular e relendo-a.
"You hold me without touch, you keep me without chains." E eu ainda sinto a sua falta mais do que gostaria de admitir. Espero que esteja bem. Xoxo – Spence
Respirei fundo. Quer dizer, eu só estava completando uma música, né? O fato de eu ter largado o Toby para vir até aqui não significa nada de mais, certo? Argh! Se eu continuar pensando nisso, vou enlouquecer de vez! Por isso chutei logo o pau da barraca e enviei logo a mensagem. Não tinha nada, é claro! A Han só estava pegando no meu pé porque ela é assim e adora juntar as pessoas, mesmo quando elas são só amigas, como nós duas. Enfim, eu é que não vou ficar remoendo a nossa amizade e nem vou procurar cifres na cabeça de cavalo, as coisas continuam do mesmo modo que sempre foram, simples assim. Tudo bem, tirando o fato de nós termos mudado toda a nossa vida, mas bem...
"Spence, essa casa é maravilhosa, venha ver!" Hanna berrou lá de dentro e sorri. Certo que as mudanças tinham sido enormes, eu confesso, mas também preciso dizer que estou feliz por elas e pela nova vida que estávamos para levar. Conviver com a Aria e com a Han pode até ser difícil e aposto que irá ser, mas é melhor contar com duas amigas falastronas, ameaçadoras, fuxiqueiras, linguarudas e desbocadas do que com uma família que ainda nem tinha percebido que eu me mudei. Mesmo sendo impossível, era bom contar com pessoas que se importavam pra variar um pouco, isso é um fato.
Senti meu coração acelerar ao sentir meu celular vibrar indicando uma mensagem e me lembrem de quebrar o pescoço da Hanna por colocar tantas loucuras na minha cabeça. Suspirei e ignorei tudo (inclusive a taquicardia repentina), bem vamos ver quem é.
Spencer, sou eu, a Chris. Onde vocês estão? Eu posso vê-las?
Viram só? Nada de mais. Apenas uma mensagem inocente de uma pessoa quando eu preferiria que fosse da sobrinha dela. Tudo está bem. Resolvi responder a mensagem logo e dei meu endereço, ela deve conhecer, espero. Pronto, serviço feito, fui desbravar a casa antes que o júri (Hanna, obviamente, porque a Aria só me olharia com compaixão e sua expressão de quem entende tudo e todos) viesse me interrogar e me levar amarrada. Por isso subi os degraus da porta para ver como estava o estado da casa, mas qual não foi minha surpresa ao sentir algo voando em minha direção? Quando dei por mim, acabei sendo atingida por alguma coisa e bambeei em meus pés me segurando no corrimão e na soleira para evitar uma queda. Ufa, essa passou perto. Assim que recuperei o ar e o balanço, me abaixei para pegar o objeto voador não identificado e o reconheci como sendo uma das almofadas persas da minha mãe. Mas o que essa almofada estava fazendo no degrau da entrada da minha casa? Melhor dizendo, como ela estaria voando misteriosamente pelo salão? Quando a noção e a realidade me bateram, subi marchando os degraus (mais uma vez e com mais cuidado) e quase tive um infarto fulminante com a cena de horror que se desenrolava diante dos meus olhos. Jesus, Maria e José! O que é isso?
"O que..." Antes de terminar a minha pergunta, eis que me deparo com Aria e Hanna pulando no sofá e atirando almofadas pela casa. Almofadas essas que custavam mais do que muitas casas que vimos pelo caminho e passavam perigosamente perto do lustre italiano e da porcelana caríssima da minha avó. Sim, eu estava em choque e por isso permaneci boquiaberta observando aquele holocausto em absoluto pavor.
"Desculpa, Spence, eu tentei segurá-las, mas..." Caleb correu em minha direção se agachando como um soldado em guerra para se explicar, só que assim que ele parou na minha frente e se levantou para me olhar nos olhos, outra almofada (e essa era ainda maior e mais pesada) voadora dessa vez acertou a sua nuca e o arremessou em minha direção, cortando o seu discurso, nos fazendo tropeçar em nossas pernas e rolar a escada até chegarmos à grama do jardim. Abri os olhos e dei por mim, mais uma vez observando o céu e agora na horizontal, ele realmente estava lindo, quiçá poético. Ainda nesse intere, me recordei da situação e pisquei os olhos, me acordando um pouco do transe. Olhei para o lado e lá estava a pintura da tarde de sábado: eu estava caída na grama da minha nova casa e o Caleb do meu lado, por ter tentado não me esmagar e segurava a almofada criminosa. Suspirei fundo, belo começo de dia. "Elas estão possuídas. Santa Maria mãe de Deus, o que é aquilo?" Caleb conseguiu dizer assim que se sentou e me ajudou a fazer o mesmo, espanando os cabelos para tirar a grama. Acompanhei-o na limpeza e senti uma leve dor na mão. Ah, claro! Ela tinha que estar cortada... Só a minha sorte. Balancei minha cabeça em negativa e olhei-o novamente, ainda tentando me recuperar do susto.
"Aquilo é o motivo pelo qual o meu quarto já sofreu tantas redecorações, Caleb. Elas são o motivo!" Tudo bem, talvez eu tenha aumentado o tom de voz e ele era inocente, mas pelo amor de Deus! O que era aquilo? Não é possível... De um modo condescendente, ele apenas assentiu e abaixou a cabeça porque não, não era culpa dele e nem choque elétrico mudaria aquelas duas.
"Você ficaria chateada se eu dissesse que gosto de ver a Hanna com vocês?" Interrompendo meus pensamentos homicidas, ele comentou quase tão surpreso quanto eu. "Não, não por isso que ela está arrumando com a Aria, essa parte não é nada legal. Definitivamente." Concordei com a cabeça, aquilo estava longe de ser legal, normal ou aceitável para duas pessoas com as idades delas. "Enfim, eu gosto de como ela fica mais leve quando todas vocês estão juntas. Tirando aqueles tempos de paranóia por causa da filha da puta da Mona, porque todas vocês pareciam estar fazendo ponta no CSI, eu admiro essa amizade e esse é um dos motivos por eu ter ficado, sabe? É bom quando temos alguém pela gente e sabemos que podemos contar com essa pessoa. A Han é isso tudo pra mim e vocês três são isso pra ela. E, cara, eu também quero ser isso pra ela, entende? Eu quero ser o cara que vai acompanhá-la em todas as loucuras e vou estar com vocês três também, porque eu sei que ela não imagina um futuro em que vocês não estejam e eu não imagino um futuro sem ela. Nem quero imaginar." Não sei de onde tinha surgido essa declaração de amor do Caleb, mas estava grata por ele estar compartilhando-a comigo, mais grata ainda pela Han ter achado alguém como ele. Quando percebeu que não, aquela grama macia não era um divã e eu não era uma psiquiatra freudiana, o namorado da minha amiga sorriu amarelo e passou a mão nos cabelos, embaraçados assim como ele. "Bom, eu só queria dizer que eu me compadeço da sua dor por ter que lidar com as duas, mas fico feliz pela ligação estranha que elas tem, faz sentido?" Caleb finalizou e eu assenti com a cabeça mais uma vez. Tudo fazia muito sentido. Ou nenhum, mas aquela insanidade era como sempre fomos, então não podia mentir e dizer que não estava familiarizada e até me sentia em casa com isso. Exatamente, podem me chamar de louca!
"Eu sei sim e sinto falta disso." Comentei sem compromisso e só me dei conta do que tinha dito quando eu o vi arqueando a sobrancelha. "Não! Não estou falando disso!" Só me dei ao trabalho de apontar para o parque de diversão das crianças que tinha virado a minha casa e a mobília, porque ele só poderia estar brincando se achava que eu estava falando daquele sanatório. "Eu quero dizer sobre nós juntas, nos divertindo como se não houvesse amanhã, sem desaparecimentos, sem assassinatos, sem cunhados assassinos, sem... Sem a vida que acabamos levando no último ano." Respirei fundo para controlar minhas emoções e voltei a olhar pra ele. "E é bom contar contigo. A Em não está aqui para sofrer conosco..."
"Por enquanto." Eu tive que sorri para ele ao ouvir isso e balancei a cabeça em concordância.
"É, por enquanto! Mas você está aqui e podemos fazer a nossa aliança pela sanidade, que tal?" Comentei e sua única resposta foi gargalhar e acompanhei-o.
"Definitivamente nós precisaremos dela." E como precisaríamos! Não verbalizei esse pensamento, mas abri meu sorriso para ele que pegou minha mão e apertou-a em sinal de acordo, mas acabei rangendo os dentes (com a minha sorte, obviamente que tendo duas mãos ele apertaria a machucada...). "Nossa! Você se machucou, me deixa ver isso!" Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele se levantou e pegou a mochila, que não estava assim tão longe, já que ela tinha sido expulsa junto conosco, sentando-se novamente do meu lado. "Certo, primeiro água, depois água oxigenada, okay?" Minha resposta foi... Bem, foi observá-lo em pura surpresa, com direito a boca aberta e tudo. Quando será que a Han arrumou um namorado enfermeiro? "Bem, isso pode arder um pouquinho, mas você vai sobreviver..." Ele me disse, ainda sorrindo. Não muito, mas o suficiente para me fazer acordar do transe.
"Como você sabe disso?" Perguntei alarmada e menos pela ardência incômoda e mais pela estranheza da situação.
"Bem, eu sempre tive que cuidar dos meus machucados e por isso aprendi a andar com essas coisas na mochila então é bom que elas até vieram a calhar." Caleb me respondeu com um sorriso amarelo e provavelmente confundiu o meu espanto com outra coisa porque tão logo completou. "Não exatamente bom para você, enfim..."
"Eu sinto muito por isso." Interrompi sua explicação e acabei assustando ambos, eu e ele. "Sinto muito mesmo, por você ter passado por todas essas coisas..." É, eu sei que minha família valia menos que a menor das propriedades que tinha, mas nunca me deixaram vivenciar esse tipo de coisa e deve ter sido algo pesado e ruim para uma criança ter que aprender...
"Ei, relaxa! Como você mesma disse, Spence, eu passei por isso e ficou no passado. Acho que me tornei um cara mais legal por essas coisas, entende?" Tirando uma gaze de sua cartola (ou de sua mochila que mais parecia um kit de primeiros socorros), ele terminou enfaixando a minha mão. "Prontinho." Assim que terminou, me devolveu a minha mão e sorriu. "Pode dizer, eu sou um cara legal, certo?" Arqueei uma sobrancelha em sua direção e revirei os olhos.
"Talvez." Olhei para a minha mão analisando o trabalho e... wow! O Wren que se cuide porque o Sr. Rivers sabia muito bem fazer um curativo. Nossa, só de pensar nele eu me lembro de todas as péssimas situações nas quais eu tive que envolvê-lo e dos milhares de dramas que armamos um para o outro por causa disso. Nada bom, nada. "Melhor do que todos que conheci, serve?"
"Até que o Toby?" Não percebi quando comecei a abrir o coração e nem quando ele se interessou tanto pela minha vida amorosa, mas posso dizer que estava em uma encruzilhada e sem saber que caminho tomar. "Não, não melhor que o Toby." Com um sorriso, ele completou antes mesmo de eu ter que falar qualquer coisa e acabar acordando fantasmas antigos.
"Não melhor que o Toby." Repeti e suspirei. Talvez ninguém seja melhor que ele mesmo e talvez eu esteja imensamente errada e perdendo o melhor cara que eu posso encontrar em todo o mundo. Talvez... "Ele só..."
"Não é melhor que a Emily." A objetividade da frase e a simplicidade da sua expressão contrastavam com o turbilhão de emoções e sentimentos que estavam tomando conta de mim e me vi perdida e muda naquela situação. Eu estava pálida e ele estava só curioso e me arqueando uma sobrancelha. Quando foi que ele virou meu guru amoroso? Aposto que isso era má influência da Han! Humpft.
"Não melhor que a Em." Respondi sincera e olhei-o com força e de braços cruzados, mas aparentemente aquilo tudo estava muito engraçado pra ele, que continuou rindo.
"Porque ninguém consegue ser melhor que ela." Pronto! Agora eu realmente estava sendo questionada pelo namorado de uma das minhas melhores amigas e ele ainda estava sorrindo em vitória. Óbvio que eu não deixaria que ele ganhasse esse jogo (independente de que jogo seja esse e de qual seja a verdade, ele não vai ganhar) e resolvi ser sarcástica.
"Acho que a Han não vai gostar de ouvir isso, Caleb..." Ele apenas me revirou os olhos e apoiou seus braços na grama e jogou seu corpo para trás, se apoiando em suas mãos e olhando para cima enquanto eu continuei sentada e sem saber em que pensar.
"Não é pra mim que você tem que admitir algo, Spence, é pra você..." Maldita filosofia barata! Ah, esse casal! Eles são piores que Chuck e sua noiva assassina, sempre com novos planos de manipulação baixíssimos! Se sentindo o Simba da Savana africana, ele deixou de olhar o céu e voltou a me sorrir e cerrei meus olhos para ele em resposta. Ah, mas ele ia ter guerra!
"Está tudo acabado! Saia agora daqui!" Antes que pudesse rebater com uma de minhas respostas malcriadas, um grito do outro lado da rua chamou minha atenção e acabei me virando para ver o que estava acontecendo.
"Mas, meu amor, eu te amo e nós vamos nos..." Na outra calçada, estava um casal discutindo e em fase de separação (isso era fato, pela conversa e pelas posturas de cada um deles) e eu e Caleb acabamos nos entreolhando e prestando atenção lá.
"Nós não vamos mais! Pegue essa desgraça de aliança e faça o que bem entender com ela!" Como prometido, a aliança foi atirada no peito do rapaz.
"Você só pode estar brincando se quer acabar assim com o nosso amor..." O mais estranho é que, além do casal –ou ex-casal, aparentemente – dois homens estavam escondidos ao lado da casa e olhavam a briga, se entreolhando e apontando para os dois e sei disso não por ter uma boa visão (por Deus, eu ainda uso óculos! Quero dizer, não no momento, já que optei por lentes, mas enfim, eu tenho problemas na vista), mas por estarmos sentados exatamente de frente para o muro que os escondia. Mas o que era isso?
"Está acabado e eu não quero mais vê-lo na minha frente. Acabou! Para sempre, só acabou!" Eu já não sabia se me entreolhava com o Caleb, se acompanhava a briga dos dois ou se vigiava os movimentos dos dois estranhos fazendo uma festa muda ao saber que a menina não queria mais ver o rapaz nem pintado de ouro... Que gente mais esquisita...
"Você vai se arrepender! Pode ter certeza disso! Você vai se arrepender!" Seu tom ameaçador e o fato de ele ter saído chutando a caixa de correio e saído cantando pneu assustou a todos nós que víamos a cena: a sua ex-namorada, obviamente; a mim e ao Caleb que fez uma careta e aos dois homens fofoqueiros que fizeram sinais nada bonitos e correram para dentro do terreno. Que diabo estava acontecendo ali. O que será que esses homens queriam e com qual dos dois? Estava tudo muito, muito estranho ali... Certo, isso não é da minha conta e eu não preciso de mais problemas para lidas por agora e peraí!
"Por que ela está acenando pra gente?" Me virei a tempo de ver o dito rapaz do meu lado acenando e sorrindo de volta para a solteira que secava as lágrimas e nos dava um sorriso pequeno e... "Por que você está acenando pra ela?" Resolvi dar-lhe uma cotovelada, já que não conseguia arrancar uma informação que prestasse.
"Ai! Ela acabou de terminar o namoro e é nossa vizinha, que mal há?" Sua resposta foi me olhar torto e voltar a acenar e a sorrir pra menina.
"Quem diria que você é tão mole por dentro..." Eu esperava o rosnado que recebi e nem me surpreendi com isso. Não, minha surpresa ficou por conta de a menina terminar de arrumar suas correspondências, levantar e vir andando em nossa direção e de os dois homens que estavam observando a cena abrirem a porta da casa que, suponho eu, seja dela. E... Deles?
"Boa tarde, meus caros! Eu sinto muito que tenham presenciado essa briga entre o meu noivo... Quero dizer, meu ex-noivo e eu e quero afirmar-lhes que isso não vai se repetir e vocês podem ficar sossegados que não haverá alarde algum daqui pra frente." A única coisa que consegui fazer foi piscar ao ouvir tanta coisa junta e dita tão rápido. Que gente mais estranha é a dessa cidade, o ex-noivo dessa menina chuta coisas pela rua, nossos vizinhos da frente, e possivelmente parentes dela, são dois stalkers e ela fala como se estivesse narrando um jogo. É, eu ainda reclamava de Rosewood...
"Não tem problema, você está bem?" Caleb resolveu ser cavalheiro e perguntá-la, enquanto os dois homens agora estavam na porta da casa, do lado de fora.
"Quem são eles?" Antes que ela entrasse em mais uma corrida com palavras (pode ser nervosismo, a coitada acabou de perder o noivo e ainda teve platéia para isso. É, isso não deve fazer coisas boas com nosso cérebro), resolvi tirar minha dúvida pelo bem de todos nós, sabe Deus quem ou o quê são esses homens. E, melhor ainda! O que será que eles querem? A garota, ouvindo minha pergunta, se virou e olhou para trás, acenando para os dois que acenaram de volta. Ah, Cristo, será que eles trabalham em equipe? Onde nós fomos nos enfiar...
"Aqueles dois?" Ela me perguntou e assenti com a cabeça engolindo em seco. "Ah, eles são meus pais. Nós moramos logo ali." Muito discretamente, Caleb me deu uma cotovelada que quase quebrou minhas costelas, o que me fez tossir e revirar os olhos. Cavalheirismo, sei.
"Mas eles são dois homens, não?" Com muito tato, ele perguntou quase que num sussurro e a tal da garota passou a fuzilá-lo com os olhos e cruzou os braços batendo o pé. Ah não, se for como a Hanna, nós estamos em maus lençóis...
"Sim, eles são dois homens e são gays, algum problema com isso? Ah, eu também sou adotada por eles e um é judeu e o outro é negro, satisfeitos? Porque se vocês tiverem algum problema com isso, eu posso ligar pra ACLU e comentar sobre todos os preconceitos que vocês estão tendo agora, só porque são ricos e namoram pessoas de sexos diferentes, mas isso não os torna melhores. Porque eu conheço pessoas e conheço o preconceito e sei..."
"ACLU? O que é isso?" Cale interrompeu a defesa de tese da menina sobre homofobia para me perguntar, o que tornou tudo ainda mais suave...
"Bem, eles são uma associação que lida com preconceitos sofridos pelas minorias e defende a igualdade perante os indivíduos." Sim, eu tinha que saber disso tudo pelo fato de meus pais serem advogados. E também achava interessantes as vertentes de defesa desse grupo.
"Exatamente, como a sua amiga explicou muito bem, eles defendem o nosso direito..." Essa menina acabou de desmanchar com o noivo, por que estava se incluindo nisso? "de sermos felizes e livres no nosso amor e nos nossos relacionamentos. E eu posso processá-lo por preconceito, rapazinho, esse é um pensamento muito ultrapassado e nós já mostramos que a cidadania é um direito igual e não há manual que diga que um indivíduo deve ser heterossexual para receber o respeito como um ser humano. Então eu exijo..." Deus! Essa menina estava achando que estava em um palanque, não é possível. Não que eu discordasse dela em algo, porque achei o discurso muito bonito e justo, mas ela estava conversando com dois jovens jogados numa grama, não com o parlamento britânico.
"Ei, péra lá! Eu não tenho preconceito!" Caleb conseguiu dizer a tempo, antes de ela começar a citar os códigos civis para basear sua teoria, mas a garota não se deu por vencida e só observou-o com descrença. Ai, Deus, lá vamos nós... "É sério!" Claro que nem eu no lugar dela seria convencida por essa frase batida, por isso revirei os olhos pra ele. "Então, sabe essa minha amiga aqui? Ela é gay e eu nem estou julgando-a..." De qual amiga ele estava falando se a Em nem estava aqui? A menos que ele estivesse... Ei!
"Como é?" Encarei-o com força, não é possível que ele estivesse mentindo e me acusando assim, na minha cara.
"Você é?" A falante menina disse ao fundo, mas eu estava muito mais focada no discurso mentiroso do Caleb, esse traidor! Quis se fazer se amigo só para me jogar pra cima dessa menina... Ele vai ver só!
"Ei! Vocês nem vieram se divertir conosco, a casa está linda e o sofá é maravilhoso, mas acho que precisamos dar uma limpeza nela e talvez até passar uma tinta nas paredes pelo tempo que ela ficou fechada..." Hanna se materializou na porta parecendo um tanto quando eufórica e cansada (também, depois do que aquelas duas fizeram no salão, elas poderiam competir numa maratona por terem tanto preparo físico), nos encarando. Isso até ver a tal menina estirada ali e, no seu jeito bem subjetivo de ser, fuzilou-a com os olhos e depois nos olhou. "Eita, porra! Quem é ela?"
"Isso é maravilhoso! Eu vou adorar te levar para alguns encontros com algumas pessoas que estão na mesma situação que você..." Claro que toda a educação da nossa amiga foi ignorada em prol de mais um discurso da futura presidente dos EUA.
"Em que situação a Spence está?" Hanna, obviamente, só cruzou os braços e se encostou na soleira da porta encarando a menina e desafiando-a a tecer algum comentário de mau gosto sobre mim. Enfim, alguém do meu lado, nem que momentaneamente.
"Como dizem por aí, 'saindo do armário'."Com um sorriso que beirava o maníaco, a desconhecida resolveu explicar a situação e gesticular com as mãos. Argh! Mas um raio de pessoa para usar aspas imaginárias na minha vida! Virou moda isso?
"Você tá?" Para completar o circo e a minha via-crúcis, Aria surgiu atrás da Han e se pôs a nos encarar também. O que há de errado com esse mundo, meu Deus?
"Não! Claro que não!" Ainda em estado de choque, eu respondi (ou gritei, mas isso seria facilmente explicado dado o meu estado de nervos) sentada na grama e virada pra elas.
"Não sinta vergonha. Seus amigos, presumo eu. Peraí, eles são seus amigos, não é? Ou eu devo chamar a polícia? Eles invadiram a sua casa? Calma, não se preocupe que eu vou buscar ajuda!" Não sei nem o que a política teve a ver com isso ou quem respondeu essa pergunta porque estava muito ocupada fuzilando o Caleb com os olhos. Desgraça de situação que ele foi me meter. "Ah sim, menos mal então e desculpem o mal entendido. Bom, como eu ia dizendo, assim que eu levá-la numa de nossas reuniões, você vai encontrar muitas pessoas como você e pode até fazer algumas amizades pela por aqui, conhecer gente nova, fazer programas interessantes e conhecer o itinerário gay da cidade..." Não sei o que há de errado nesse mundo, com essa menina ou o que eu fiz para a minha vida se tornar isso, só posso dizer que tanto quanto seu discurso, a piscadela que o seguiu me aterrorizou pelos próximos cinqüenta anos e um calafrio me subiu a espinha. "Eu acho uma ótima idéia para se começar com o pé..."
"Peraí! Você tem que ir nisso, Spence!" Hanna subitamente cortou o programa de rádio que estava adaptando o meu futuro sem nem pedir licença. Grandes amizades são essas...
"É disso que eu estou falando..." Contando com a falta de misericórdia de Hanna, a boca que não se cala tomou ainda mais munição e resolveu cruzar os braços e me sorrir vitoriosa. Eu só olhei incrédula para ela que, no momento, estava olhando para a Han, que também sorria e... Cristo! Será que a Em passou por algo parecido com isso?
"Claro que não, Hanna! Qual é o seu problema?" Me virei com raiva para ela e fuzilei-a com os olhos. Casal mais cretino era esse!
"Você vai se sentir bem-vinda..." De relance, também olhei torto pra essa desconhecida falastrona que chega sambando na casa dos outros. Oras, quem ela pensa que é?
"A Em pode passar a freqüentar isso..." Hanna comentou exclamando e balancei a cabeça em negativa. Não, isso já era abuso demais e eu duvido que a Em vá aparecer em algo desse tipo... "E esse seria um ótimo modo de nos aproximarmos dela aos poucos e sem que a águia saiba..." Essa parte me foi sussurrada, mas eu resolvi não levar muita fé nesse assunto e só neguei com a cabeça. Afinal de contas, por que a cobaia tinha que ser eu? Além do mais, e se a Em não aparecer? O que eu faria num lugar desses?
"Ótimo, viu? Você já conhece uma participante, vai fazer amizade rápido e quem sabe até achar um amor?" Minha vontade era de gargalhar como uma psicopata de toda aquela viagem paranóica da falastrona, mas acabei sorrindo amarelo para a menina, o que foi ligeiramente mal interpretado por ela (e como não seria, não é? Sabe Deus o que anda na cabeça dessa pessoa) e recebi um sorriso enorme de volta. Ah, até que ela tem uns dentes bem bonitos e brancos e bem cuidados... E ela estava tentando me tirar de um armário imaginário, só de pensar nisso, meu humor voltou ao estado sombrio. Essa doida varrida. "Oh, esqueci dos meus modos, como você se chama?"
"Spencer Hastings." Tirando o fato de estar de dentes trincados, até que fui bem educada, não? Ainda estiquei a mão para apertar a dela, vejam só? Eu mereço um prêmio!
"É um prazer conhecê-la, Spencer, eu sou Rachel Berry e estou ao seu dispor. Para qualquer uma das duas opções e..." Não, dessa vez a tortura que eram seus discursos intermináveis não foi cortada por um de nós. Na verdade, ela mesma percebeu que sua língua não tem freio e só cessaria atividade no dia de sua morte. Mas bem, não posso dizer que não achei graça nisso (apesar de estar de boca aberta como um palhaço desses de parque de diversões que precisamos acertar suas bocarras arreganhadas para ganhar prêmios), ela ficou um tanto quanto envergonhada (talvez por falar tanto e não ter sido apresentada às vírgulas) e isso foi meio que fofo. "Eu falei isso?" Minha única resposta foi sorrir sem graça e assentir com a cabeça enquanto os outros tinham expressões variadas. Aria, é claro, estava com seus olhos arregalados quase saltando de seus globos oculares e o casal Bonnie e Clyde... Bem, eles estavam rindo porque adoravam maquinar o mal contra mim. "Desculpa... Eu não tenho filtro e costumo falar tudo o que vem na minha mente e isso..." Não sei se eu fiquei mais assustada ou se foi ela, mas no quesito vergonha, ela tinha acabado de criar um novo tom de vermelho.
"Eu percebi que você não tem filtro." Tentei sorrir para a menina e amenizar o clima que tínhamos ali e ela, em resposta me sorriu de volta e ficou ainda mais vermelha. Certo, ela era bonita e interessante, apesar de falar muito e não ter limites, diferente da Em. Que é minha melhor amiga e só. Deus! Minha cabeça parece um disco quebrado!
"Vamos tomar um café, Rachel?" Hanna chamou nossa atenção sorrindo como um palhaço macabro e só nesse minuto me dei conta do fato de ainda estarmos de mãos dadas e isso está bem errado pra começo de conversa e provavelmente não vai acabar nada bem...
"Han, você esqueceu que não temos nem açúcar em casa?" Aria comentou e todos nos viramos para ver o novo debate das duas. Sim, eu ainda estava segurando a mão da tal da Rachel. Ou ela estava segurando a minha. Que seja. Mas até que ela tinha a mão macia...
"Ah é... Pois é, nerd, nós precisamos fazer compras também." Han comentou se sentindo triste de repente e a Rachel me olhou sorrindo novamente. Pois é, ela realmente tinha um sorriso muito bonito...
"Vocês todos são muito bem vindos para tomarem café conosco!" Como que por um milagre, os dois homens que estavam espiando tudo apareceram atrás da parente (será?) deles e um dos dois colocou as mãos nos ombros dela, que soltou minha mão no susto e eu pulei em minhas pernas de medo. Primeiro, os dois eram grandes e podiam fazer um estrago. Segundo porque ela tinha as mãos tenras e era realmente bom ficar de mãos dadas com ela, mas não era nada normal ficar segurando a mão de uma pessoa por tanto tempo... E não que eu vá ter algo com a menina, óbvio! Desgraça... Isso é hora de ficar paranóica?
"Isso é ótimo! Vamos?" Hanna comentou e todos nós eles assentiram com a cabeça. Nem a faladeira e nem eu fizemos gesto algum, ela por ainda estar vermelha, tímida e olhando pra baixo e por estar observando-a. Não de um modo estranho ou secando-a, mas só estava interessada mesmo. Não nela, claro, eu acabei de conhecê-la e nem tinha como isso acontecer assim tão rápido, mas essa loucura toda era algo novo e... Quero dizer, claro que não era algo novo! Eu convivo com a Hanna e a com a Aria, pelo amor de Deus! Só que... Ah, ela era meio que bonitinha quando ficava envergonhada. Sem maldade alguma, obviamente, só estava certificando um fato. Ela era meiga e ponto. Nada de mais.
"Você vai também?" Rachel me perguntou baixo e ainda corada e bem, ela ficava realmente fofa quando estava tímida (já disse isso?) e eu tive que sorrir também.
"Você quer que eu vá?" Eu perguntei baixo e olhando diretamente para ela. Não que eu estivesse flertando. Óbvio que não. Só era bonitinho vê-la embaraçada e mordendo o lábio.
"Não, Spence, ela quer que a gente vá e você passe fome e fique sozinha aqui. Idéia idiota..." Hanna (quem mais seria?) cortou o assunto e me motivou a andar, me empurrando (nada) delicadamente e revirei os olhos. Voltei a olhar a pequena que havia acabado de ficar solteira (e isso é errado em todos os níveis possíveis) e ela me assentiu timidamente com a cabeça e sorriu meiga, aproveitei e fiz o mesmo em sua direção.
"Eu estou com fome, vocês podem ir sorrindo e andando?" Hanna, claro, nunca perderia uma oportunidade de me envergonhar.
"Han, você vai assustar os senhores..." Aria tentou contê-la e eu pedi aos céus para que elas não discutissem dessa vez. Pelo menos não dessa vez.
"Oh, acredite, nada mais nos assusta, não é, Leroy?" O homem negro disse ao seu esposo(?). Como será que é isso? Eu deveria dizer marido e marido? Porque pelo que bem entendi da Rachel, eu posso ser processada por qualquer deslize (e ela que não conheça meus pais ou o meu inferno astral será levado a um nível extremo completamente novo, ainda mais nesse quesito de ações judiciais. Deus me livre e guarde!) e não posso cometer pequenos erros.
"Não, ainda mais depois do Finn..." O marido, Leroy, respondeu e citou o fim de alguma coisa, ou de uma era. Onde eu fui me meter? E eu achando que a Mona sendo a psicopata da –A e nos vigiando era o mais longe que eu chegaria esse ano no quesito esquisitices. Mas claro, nada é tão simples quanto parece...
"Pai! Dá pra gente não tocar nesse assunto enquanto estamos recebendo visitas?" Rachel ficou momentaneamente tensa e comentou com um dos homens. Afinal, se fosse com os dois, ela usaria plural, não é? Quer dizer, um pai é o singular e dois pais é o plural. Mas mesmo assim, 'pais' é ambíguo porque geralmente se trata de um pai e de uma mãe. Será que eles tem esses papéis pré-definidos? Ou será que eles trocavam, tipo 'hoje eu acordei pai e você vai ser a mãe'? E por que é que eu estou pensando nisso exatamente?
"Oh sim, desculpa, estrelinha! Vamos por aqui, crianças!" Um dos dois 'pais' disse e acho que foi o Leroy, o homem dos óculos e seu companheiro (exato! Essa é a melhor definição que eu poderia encontrar) apenas sorriu baixou do seu lado.
"Fim de quê?" Perguntei a menina que estava andando lentamente ao meu lado enquanto nos encaminhávamos para o portão de sua casa.
"O meu ex." Ao ouvir minha pergunta, ela parou e me olhou triste. Santo Cristo! Ela matou o menino que acabou de sair daqui! Será que ela cortou os freios do carro dele e a essa hora o garoto está morto e jogado em uma vala? Olhei em volta e os dois homens sorriam maquiavélicos e ela olhava cabisbaixa. Agora eu entendi tudo! Esses dois mataram o rapaz, por isso estavam espreitando atrás da moita todos os movimentos dele. Deus é mais! Eu saio de uma assassina em potencial para ser vizinha de um trio macabro que destruía quem quer que magoasse a mandante (porque do jeito que ela fala em parágrafos, outra coisa não pode ser) ou se metesse em seu caminho sádico... "O que houve, Spencer?" Droga! Eu não posso dar bandeira ou terminarei morta e enterrada no jardim assim como meus amigos então preciso bolar um plano cabível pra nos tirar dessa situação... "Ei, fala comigo, aconteceu algo?" Ela completou segurando a minha mão e comecei a suar frio e olhar para os lados, caçando uma rota de fuga. "Nossa, você está gelada..." Não tanto quanto estarei depois que vocês me matarem.
"Ela está pensando em qual fim levou o seu ex." Caleb perguntou e quase desmaiei. Como ele pode ser assim tão ingênuo? Agora que eles sabem que eu já peguei todo o plano cruel dos três, nós viraremos seus escravos e seremos torturados até a morte e depois eles farão parecer um aciden...
"Como assim 'qual fim'?" Ainda segurando a minha mão e dessa vez apertando-a levemente (provavelmente para testar minha estrutura óssea e saber o quanto eu agüento antes que eles se desfaçam em pó), a vilã se virou para o Caleb (e eu só não gritei 'bem feito' porque ia acabar morrendo pelas gracinhas dele, assim como o resto de nós) e o olhou de cima em baixo, certamente pensando em qual de seus objetos de tortura medievais ele caberia. Olhei para os dois homens e eles se entreolhavam surpresos por eu ter sacado todo o plano e aposto que pensavam em como se livrariam da gente agora.
"Ué, não foi o que você disse?" O menino que vendeu nossa alma e comprou nossa morte até tentou perguntar, mas ela só fez gesto de pouco caso com a mão (porque a outra ainda estava me prevenindo de fugir segurando a minha) e se virou para os pais, indicando com a cabeça que era pra eles começarem logo os jogos mortais. Os homens assim fizeram e aproximaram lentamente a chave da fechadura enquanto eu suava frio.
"Não faço a menor idéia e nem me interessa em que fim ele levou." A desumana explicou me olhando e arreganhou seus dentes em uma muda mensagem de que eu não tinha escapatória e era melhor colaborar ou estaria morta. Todos me olhavam e meu relógio mental badalava cada segundo e o ar ficava mais rarefeito e...
"Ele é grande, Spence. Vai ter que colocar carne nesses ossos aí se quiser enfrentá-lo." Hanna comentou me cutucando com o dedo e quase rosnei pra ela. Primeiro ela me empurra pra cima da Em, agora me joga no colo dessa assassina que acabei de conhecer. Qual é o problema dela? Ela me detesta tanto assim? Além do mais, como eu vou competir com um menino que está morto? E melhor ainda, como ela sabia que ele era grande? Deus! O que será que esses três fizeram para derrubá-lo? Ainda aposto um rim nos freios cortados, sempre funcionou melhor nas séries e nos filmes. "Que foi? Vocês não acham que o grito de vocês era discreto o suficiente pra gente não olhar pela janela, né?" Oh, Deus! Ele deve ter sido torturado pelos dois amantes antes de morrer. Coitado desse menino...
"Sorte sua e dos seus amigos, minha jovem, hoje é dia do nosso especial da cozinha!" Um dos dois homens comentou comigo e meu sangue terminou de gelar no meu corpo. Isso mesmo, eles iam nos envenenar como em um daqueles filmes de terror. Aposto que éramos cobaias de algum experimento perverso e fúnebre na cozinha que juntava muitos compostos químicos letais. Sem pestanejar, o homem piscou para mim e terminou de rodar a chave na fechadura e girar a maçaneta, abrindo a porta. Ah, Em, olha onde nós nos metemos querendo salvá-la? Bem, onde quer que você esteja e independente de pra onde eu vá, espero que você saiba que eu te amo e que eu sinto muito por morrer assim, tão covardemen... "Entrem, crianças! Vamos ao nosso almoço de boas vindas! Afinal de contas, vocês precisam conhecer o melhor, não é? E se existe algo divino em toda a cidade, está aqui dentro das nossas panelas!" O dos óculos continuou falando e sua filha a mini-criminosa me puxou pela mão e me motivou a entrar. Fechei os olhos e respirei fundo. Que irônica é a vida, não é? Eu sobrevivi ao Ian e a Mona tentando me matar e vou morrer envenenada em um almoço com meus novos vizinhos delinqüentes. Quem quer que seja que escreve esse script, tem um senso de humor muito do filha da puta!
"O que eu posso dizer? Sejam bem-vindos a Lima, Ohio." Seu cúmplice comentou já fechando a porta (e suponho eu que todos nós já estávamos lá dentro), mas permaneci de olhos fechados e só respirei. A mão ainda estava apertando a minha em bombeadas, provavelmente testando minha pulsação sanguínea para poupar trabalho no futuro. Respirei fundo uma última vez e me preparei para o meu destino. Se fosse para morrer, eu o faria com honra! A Em merece que eu lute, pelo menos. Que comecem os jogos!
