A/N: Oie, galere cheia de vida! Não que alguém leia essa indecência, mas bem, aqui estou eu atualizando-a novamente. E demorei nesse (e em 'SS') porque estou sofrendo de tendinite - é o que dá cair na porrada em boate, violência nunca é a solução.

Todos os * são da Hanna deturpando as palavras ou os ditados a seu bel-prazer. O outro ** menciona um filme, Lady Vingança, da trilogia da vingança (com Oldboy e Mr. Vingança). Pra quem não conhece, é uma ótima pedida. As músicas do capítulo são 'I see the light' do filme da Disney Enrolados, temos Santana (o guitarrista, genty) com Rob Thomas e 'Smooth' e pra fechar, The Fratellis com 'Whistle for the choir'. Se puderem, deem uma olhada nas músicas, são bonitinhes.

De presente de aniversário atrasado pra Carol, que ainda lê essa derrota, Espero que curta as músicas e feliz aniversário pela 399ésima vez. ;*

Sobre 'SS', no mais tardar, em umas duas semanas eu posto, só deixando minha patinha melhorar mesmo. A todos que leem, obrigada e boa semana. E sintam-se à vontade para criticarem ou comentarem, ou mandarem parar com isso porque vergonha e humilhação tem limites. Vocês sabem que eu sou do bem e gosto de ouvir (ou ler) opiniões. ;]

Xoxo!

P.S.: O título é uma música do Panic! At The Disco, pra quem não conhece. ;]

Olha, é cada vez mais deprimente dizer que não tenho nenhuma das duas séries. Mas digo assim mesmo, a vida num é justa, né?


"Bem, crianças, vocês tem alguma idéia do que precisam comprar?" O marido do homem – isso tá certo? – negro (não sei exatamente o nome dele, talvez Levy) nos perguntou e todos olhamos para a Spence, que visivelmente preferia estar se encaminhando para a cadeira elétrica a estar conosco, por isso, sua resposta foi dar de ombros. Sentindo que nós mal sabíamos o que estávamos fazendo ali, Mufa resolveu nos salvar (sim, podem ficar chocados, até eu fiquei), com toda a sua simplicidade de palavras (aham, me chupa) e rios de conhecimento.

"Hum, tudo?" É, um passo de cada vez, não é mesmo? A gente num pode exigir tanto assim da Meyer, obviamente. Claro que os homens ouviram e sorriram desse fato, porque realmente é necessário um período de adaptação a tanta esquisitice. Mas fazer o quê? A gente tem que amá-la como ela é e, acreditem, eu já me fiz essa pergunta várias vezes e só desisti. Enfim, os dois resolveram tramar um plano de compras, ou sei lá o que seria isso.

"Pois bem, vamos nos dividir, que tal?" O tal do moço continuou falando e, no fundo da minha mente, eu só ouvia a nerd dizendo algo sobre 'dividir pra comungar'* ou algo parecido. Falando nela, ao ouvir a frase do homem, ela só faltou correr para as colinas, vaca! Se aproveitando disso para me abandonar com esses loucos! Olhei para meu namorado em busca de consolo e salvação, mas ele só sorria mole pra prancha de surf e descobri que perdi meu homem praquela sapatão encoberta. Vida sem vergonha!

"Então, eu e Spence vamos ver as coisas pra casa e dar uma volta no shopping pra ver se procuramos roupa de cama, de mesa e esses negócios, que tal?" Ah sim, eu tinha me esquecido de dizer que esse era o único supermercado do mundo que ficava dentro de um shopping, o que definitivamente levava o 'fazer compras' a um nível completamente novo. Percebendo o meu bico de mau humor, Caleb resolveu valsar para o meu lado e me sussurrar no ouvido. "Han, por mais que eu te ame e adore cada segundo da sua companhia, tenho certeza de que nós não conseguiríamos achar roupas de cama e de banho para a casa se nós passeássemos juntos pelo shopping." E agora a culpa era minha se eu preferia passear pelas lojas a ver toalhas de mesa iguais? Ora essas, uma mulher merece o mínimo de compreensão! "Além do mais, acho que a Spence não está muito confortável com a Rachel e nem com os pais dela e acho que foi pela minha brincadeira que ela ficou assim..." Ah sim, agora o meu namorado era psicólogo e conhecia minha melhor amiga mais do que eu, tudo faz sentido, não é? "Ei, não faz esse bico, você sabe que eu te amo. Eu só acho que ela está um pouco estressada..." Eu queria só uma novidade, já que essa menina vivia ligada na tomada todos os dias, mas resolvi dar créditos a ele por estar sendo um cavalheiro, mesmo que isso custasse a minha sanidade numa tarde com esses quatro. Vendo que estava me convencendo com sua fofura, ele só me deu um beijo na testa e sussurrou um 'obrigado' no meu ouvido. Revirei os olhos pra isso e olhei para a dita magrela, que me sorria como se estivesse possuída pela alma maconheira da Maya (credo! Bate na madeira!). O que os amigos não fazem, né? Depois de receber um abraço do meu fora da lei e da nossa Sherlock e vê-los se despedindo em outra direção, me virei para Mufa e para os outros, já que 'pro que não tem remédio, a morte virá'*. Falando nela, a Rachel parecia uma criança contrariada vendo sua vítima ir embora (quase senti pena, não sei exatamente de qual das duas) e Mufa me olhava com cara de confusão, o que nem é nada de novo... Como se almoço de mais cedo não tivesse sido esquisito por si só. Valha-me, Cristo! Êta diazinho que não acaba!

"Bem, crianças, vamos para a mesa enquanto meu marido nos servirá como o bom criado que ele é." O WhiteBerry (que descobri ser o mais homem dos dois) disse para seu marido que bateu o pé no chão e já esperei por uma saia rodando, uma jogada de cabelo e saltos de quinze centímetros. E bom, eles nunca vieram, mas pude ver que o sangue do dito homem poderia passar um café a essa altura do campeonato, se levarmos em consideração a cara de poucos amigos que ele fazia. Seu marido o ignorou solenemente (e creio que eu ainda tenha algo a aprender com ele para colocar em prática em todos os momentos em que a Jane Bond baixa um espírito maligno e nos faz sofrer atrás de suas teorias zoadas sobre coisas desnecessárias) nos levou até uma grande sala de jantar. "Fiquem a vontade, meninos, eu vou ver se apresso o meu serviçal." Dito isso, o homem marchou atrás de seu homem. Pra vocês verem como esse mundo é sem vergonha, duas pirocas ambulantes ali e nenhuma pra Spence. Só pode ser isso que está influenciando nesse caralho de mau humor dela, estar sozinha e ter que ver os dois podendo usufruir de... Enfim, usufruir um do outro. E não que eu queira pensar nisso, argh!

"Nossa! Essa sala é incrível! Eu adorei a arte da decoração, ficou realmente maravilhosa e meio moderna, não é? Embora ainda tenha um estilo clássico e..." Blá blá blá, quem fizer a Mufa calar a boca ganha um biscoito. Mas talvez (e só um pouquinho) eu concorde de leve com ela.

"Ora, obrigada, Aria! Pois bem, meus pais optaram por um tema amplo e arejado, com mais iluminação para dar contraste com os móveis antigos e escuros, assim a casa não ficaria com uma aparência tão sombria e ainda ganharia um visual mais casual e jovial, sem apelar para..." Para a puta que me pariu! Deus! Esse almoço vai ser uma tortura! Meyer e a tagarela falando sem parar para respirar depois de uma noite não dormida (graças a nossa líder espiritual, diga-se de passagem) é pra dar um tiro na boca (delas e) de qualquer um! Falando nisso, a nerd está estranhamente calada e nem ousou respirar e comentar o que quer que fosse sobre isso tudo. Não que ela precisasse, já que com essa cara de quem deu e pediu de volta, era simples saber que ela estava se sentindo, milagrosamente (e para tudo tem uma primeira vez), fora de seu habitat natural (ou seja, não estava enfurnada num museu com suas amigas múmias ou trancada e mantida em cativeiro numa biblioteca). Certo, isso também me alarmou, mas o fato de ela ainda estar de mãos dadas com a falastrona foi o retoque final e, por isso, sorri em sua direção. "E isso tudo, como você pode ver, casa muito bem com as nossas personalidades e objetivos futuros. Mas esperem só até ver o meu quarto." Só Jesus é rei! Num é possível que essa menina ainda esteja falando! Ela acabou de dar um mapa da casa toda e ainda tinha mais o que dizer?! Alguém me acuda aqui, porque isso pode ser algum tipo de penitência pros criminosos. Passar o resto da vida ouvindo essa menina é algo que num desejo nem pro meu pior... Ah rá! Mas eu quero mesmo é que ela fale na cabeça da filha da puta da –A! Aposto que a piranha da Mona vai se arrepender até de ter comprado seu primeiro celular. Cadela vadia!

"Ótimo, Rachel! Eu adoraria!" Não! Eu não podia acreditar em meus ouvidos e nem na boca grande da Aria, por isso olhei de relance para a nerd que tinha acabado de perder o pouco de cor (que a deixava quase humana) que tinha e assumiu uma cara de enterro tão cretina que pensei até que ela tinha recebido outra mensagem da puta. Mas por sorte nem era isso, o seu terror se explicava na conversa cavernosa que a Mufa tava tendo com sua outra amiga anã de jardim. E a dita amiga voltou a sorrir. E a Spence quase começou a chorar. Ah, mas por caralho também, né? Tá certo que essas duas poderiam ocupar o sofá da Oprah por um ano inteiro, sem pular um dia e falar sem precisar de água ou de comerciais, só que essa cara de velório da cabeçuda também já tava demais. Num era só ela que sofria nisso, caceta! Eu e o meu namorado também estávamos desejando a morte e...

"Cara, que bacana esses ingressos pro show do Aerosmith, Rachel! Nunca ia imaginar que você gostava!" Aí fodeu na boca da 'porda'* porque até ele se virou contra nós e foi tricotar com as duas liguarudas. Ê coisa boa, hein? Olhei para minha única cúmplice (porque os três pareciam estar falando em códigos, tipo os golfinhos e suspiravam rápido demais para o nosso pobre ouvido humano interpretar) que só suspirou fundo. Fundo até demais e acho melhor a gente abrir essas janelas ou vamos ficar sem ar aqui. Mas bom, ela já não estava mais de mãos dadas com a língua mais rápida do oeste (já que a meio metro correu como uma maloqueira para mostrar as bagulhadas para os outros dois) e por isso veio sapateando pro meu lado.

"Que que é isso?!" Suspirei para a cdf ao ver o trio língua solta valsando pela casa e falando (a boca sem medo, e eu realmente queria saber como uma língua tão grande conseguia caber num corpo tão minúsculo, porque ela e a Aria desafiavam a lei de sei lá o quê conseguindo falar tanto e sendo tão nanicas. Será que elas conseguiam entrar no livro dos recordes?) sobre decoração, músicas e técnicas de como falar e falar sem fazer sentido. A pobre nerd (e eu imagino o quanto ela não deve estar cansada, ainda mais sem seu combustível preto) só deu de ombros e roubou o restante do ar que tinha deixado há pouco numa respiradela profunda.

"O meu pior pesadelo." Uma resposta mal humorada e por dentes trincados assim como imaginei e concordei também. Até me lembrar de um detalhe.

"Ainda não, mas agora você visualiza a Mona com eles e eu te dou..." Ao ouvir a minha sugestão de filme de terror classe b, a magricela me olhou com tanto pavor que juro que pude ver e dar tchau para sua alma e seu espírito no exato momento em que ela os perdeu. Exatamente! As coisas sempre podem piorar!

"Quem é mona aqui?" A voz grossa de um dos homens disse ao fundo e rodopiei para olhar o dono de tamanha potência vocal. Qual não foi a minha surpresa ao ver o marido e serviçal do Sr. WhiteBerry, o BlackBerry, resmungando de braços cruzados e com uma cara assassina nos olhando? No mesmo segundo, libertei minha alma para vagar com a da Spence por aí assim que fitei bem seus olhos. E a minha melhor amiga, como já não tinha uma para perder, só olhou para os lados, caçando os três faladeiros e os analisando. Mufa estava com sua cara aterrorizada de sempre (aposto que ela treina isso na frente do espelho), Caleb me olhava com uma grande interrogação na testa e a pouca perna e muita língua... Ah, ela era um outro caso, porque se um olhar matasse, estaríamos as duas caídas e torradas no chão. Enfim, deixei de olhá-la porque o cara ainda me olhava com uma expressão nada gay e bem perigosa e eu tinha que pensar em uma mentira rápido, muito rápido. Pensa, Hanna, pensa.

"Não foi nada disso, senhor, nós só conversávamos sobre algumas dúvidas que a Spence estava tendo sobre..." Sim, eu estava dando a entender que minha melhor amiga era gay de novo (não 'de novo' exatamente, já que num dá pra ser gay duas vezes. Ou dá? Não sei mesmo, até porque eu nunca fui gay nem uma vez, mas que seja) e ela estava do meu lado com uma expressão entre assassina, magoada, chocada, triste e divertida. Sabe Deus como uma pessoa consegue ser assim tão expressiva, mas me foquei em só agradecer aos céus por ela não usar toda essa 'expressiovidade'*,ou seja lá o que for, falando. Três já é demais, como dia a série. E, falando no distinto trio, a boca líder arreganhou seus dentes e senti minha magrela tremer de medo ao meu lado porque isso só poderia significar uma coisa: falatório.

"Exatamente, papai! A Spence está com problemas para sair do armário e eu estava sugerindo mais cedo levá-la ao grupo que vocês freqüentam para ajudá-la nessa fase delicada, entende? Eu sei que isso é complicado de ser feito sozinho, então eu adoraria que vocês se colocassem à disposição para ajudá-la nessa grande decisão porque ninguém melhor que vocês dois entendem isso... Okay, talvez o Kurt, mas como eu ia dizendo, eu acho importante..." Caralho, como eu estava arrependida de ter pensado nessa mentira! Puta que pariu! Era melhor eu ter chamado o homem de mona, bichona e travesti na cara dele e termos sido expulsos na porrada do que ser submetida a isso. Deus! Olhei para a Spence, que estava mastigando a boca, e tentei passar por um olhar todo o meu arrependimento por aquela escolha tão infernal. Coitada, nem a nerd merecia isso... Sua resposta foi um balanço negativo de cabeça e um sorriso fraco e amarelo para os homens e para a incalável* menina que já estava segurando sua mão como uma cola. Mesmo de mãos dadas com a estátua Hastings, a menina não perdoou nossos ouvidos e continuou falando. "Então, eu estava pensando em levá-la na semana que vem, porque hoje já acabou a reunião. Ou será que dá tempo? Ora, se nós corrermos, ainda conseguiremos pegar uma boa parte e-" Seu discurso sem fim foi cortado por um de seus pais (o que não era a mona. Quer dizer, era sim, já que estava casado com outro homem, mas não era o que achava ser mona. Se bem que ele nem era macho assim...) e agradeci mudamente ao destino por isso.

"Estrelinha, vamos deixá-la descansar um pouquinho. Eles acabaram de chegar de viagem e devem estar famintos." O moço WhiteBerry disse e sua filha ficou bicuda e mal humorada, mas acabou calando a boca e já conto isso como uma grande vitória. Certo que ela num largou a mão da Spence e só revirou os olhos, mas vamos aos poucos. O homem, então, balançou a cabeça sem acreditar que poderia ter uma filha assim, tão liguaruda e sorriu. Principalmente porque quem estava sofrendo não era ele. Ou talvez ele sofresse conosco. Vá saber. "Enfim, vamos para a sala de estar jantarmos e nos conhecermos melhor. Afinal de contas, eu quero saber o que os traz a Lima, oras." Essa foi a pior frase da história da humanidade que esse cara poderia ter dito, ainda mais no momento em que vivíamos. Não que ele fosse perceber que a capacidade humana para se assustar era infinita e a cara de morta-viva da Mufa só comprovava isso. Com sua usual boca sem limites arreganhada, a menor das anãs da história do mundo tinha ficado mais pálida e transparente do que véu de noiva virgem e seus olhos poderiam saltar e dar mortais carpados no chão, mas sua súbita atração pela nerd os fizeram só olhá-la em um mudo pedido para uma desculpa. Revirei os olhos, argh! Mas que menina lerda! Segui seus olhos e a dita ossuda por sua vez só olhava para baixo, mais derrotada que quando a prostituta da –A a chantageou a terminar com o Toby. Coitada, não bastasse estar sendo refém da falante menina, a nossa pobre líder ainda tinha que lidar com a incapacidade da Mufa de fechar a matraca (literalmente, já que sua bocarra mesmo assim estava aberta) e de parecer mais normal. Doideira pura. Olhei para o meu namorado que resolveu me trocar para namorar as paredes e suspirei fundo. Essa gente sempre deixa toda a responsabilidade em minhas mãos, impossível isso! Mas por sorte, quando me preparei para mentir qualquer coisa a respeito do clima, o homem voltou a si e nos espanou para comermos. "Vamos, crianças, sem timidez!" Dito isso, a Rachel marchou na frente (ainda calada e, pelo visto, isso deve ser seu recorde pessoal) e saiu carregando a magrela pela mão como uma criança sendo castigada.

E o jantar nem parou por aí.

"Vamos, gente, vamos comer! Não fiquem embaraçados! O meu marido realmente é um ótimo cozinheiro, podem acreditar." O tal do Leroy (que descobri ser o WhiteBerry e mais falante que seu marido, o BlackBerry. O que é estranho, já que seu parceiro tinha nome de celular, então deveria falar mais, mas enfim. A parte boa é que eles não falavam como a Rachel. Não que alguém consiga... e acreditem, isso vindo de mim é algo para ser pensado, já que nunca fui muito quieta) disse e nos entreolhamos assim que terminamos de nos servir. Meu namorado estava quase babando em cima da comida enquanto a olhava com amor e desejo (não, eu não estou com ciúmes de um macarrão ao molho branco, eu era muito mais deliciosa); Aria olhava de um lado para o outro e trocava olhares com a comida; a menina Rachel ria deles, claro. Mas definitivamente o mais fora do comum era a atitude da Spence. Não que ela seja lá muito normal, porque a gente tá longe disso, mas aquilo ali tava zoado demais pro meu gosto. A nerduxa apenas cruzou os braços e se encostou na cadeira com uma sobrancelha arqueada na direção dos homens. Mas que caralho?! Ninguém ensinou essa menina a ser pelo menos cordial com as pessoas que estão nos alimentando? Tudo bem que o senhor e senhora Hastings num prestavam nem do avesso, mas péra lá! Esses dois caras estão nos dando de comer quando não temos um copo d'água para salvar nossas vidas em casa, eles merecem, no mínimo, um pouco mais de educação, ora bolas! "Algum problema, Spencer?" Eita, porra! Agora fodeu que o homem percebeu. Sempre muito melhor que todos, a nossa cdf só deu seu sorriso descarado e filha da puta, balançando a cabeça em negativa. Deus me segure, isso não vai prestar!

"Não, senhor, só acho que os senhores deveriam fazer as honras." Achando aquilo de uma educação de primeira (quando eu sabia que era só filha da putagem dela), sua amiguete colorida sorriu como um letreiro luminoso (e ela realmente tinha um belo sorriso, isso era um fato) e sacudiu a cabeça como um boneco do capeta enquanto os dois homens sorriam entre si e deram a primeira garfada.

"Hum, papai, isso está uma maravilha!" Estranho, mas essa frase curta foi dita pela falante nanica e um dos pais sorriu e balançou a cabeça em concordância. Enquanto os três tinham orgasmos comendo, eu estava encarando a Spence pra descobrir qual foi a maluquice da vez (porque algo tinha que estar por trás disso) e ela só deu de ombros em resposta. Suspirei fundo, a cafeína estava realmente derretendo o cérebro dessa menina. Quero dizer, a cafeína também, porque ela, além disso, faz seu dever de casa no quesito estranheza estudando como uma desesperada e pensando merda em quantidades que a deixariam trilhonária*? Trilha... Enfim, cheia do dinheiro. Resolvi ignorá-la e, depois de ver meu namorado e Mufa atacando a comida como mortos de fome, resolvi abrir os trabalhos também. E, verdade seja dita, aquilo estava maravilhoso!

"Hum, esse molho está maravilhoso, Sr. Berry. O que o senhor usou para fazê-lo?" Mufa perguntou entre uma colherada e outra e eu só me dei ao trabalho de concordar com a cabeça porque alguém me disse que é feio falar de boca cheia. Meu namorado também assentiu e deu um sorriso cheio de dentes (com molho branco) para todos na mesa. A Rachel simplesmente sorriu um sorriso tão grande que parecia ter vencido um prêmio e a nerd... Bem, a esquisita estava com sua cara de prisão de ventre e olhava pra baixo, talvez com vergonha (não que ela tenha alguma) de admitir ou simplesmente sem palavras para elogiar a comida.

"Meu ingrediente secreto, Aria." O mais bichona respondeu e alguma mosca no ar fez a nerd se engasgar e tossir como uma desesperada. Que porra? Claro que aquilo chamou atenção de todos e a falante não perdeu a oportunidade de cochichar algo nos ouvidos da cdf enquanto lhe servia um copo d'água. "Minha filha, beba água! Meu Deus! Você está bem?" O sr. BlackBerry continuou e a dita 'magriseca'* só abanou a mão em sinal de pouco caso, o que nos fez voltar a comer e deixar sua metade de babá cuidar de sua boca babadora. A resposta da cdf foi só um balanço de cabeça e um sorriso tão forçado que mais parecia um rangido pra pouca perna. "E então, crianças, o que os traz até aqui? E melhor, de onde vocês são?" E lá veio a pergunta de novo e dessa vez foi feita pelo outro Berry, coisa cretina! Mas dessa vez nós tivemos sorte por estarmos almoçando, ou seja, podíamos enganá-lo e fingir estarmos muito famintos. Ora, ora! Mas eu tenho só idéias maravilhosas!

"Bem, nós somos de Rosewood e viemos para cá atrás de uma amiga nossa, que veio morar aqui." Claro que isso seria a língua felina do meu namorado e nem me admiraria caso estivesse em outra situação, só que não hoje. E pelo visto, o choque nem foi só meu, a prancha de surf parecia estar só pura pele, osso e brancura com sua bunda seca sentada na cadeira e a Mufa... a Mufa estava de boca aberta (pelo menos ela mastigou antes disso) e com seus mesmos olhos assustados e esbugalhados de sempre. Nada de novo até aí. Quer dizer, até os outros três parecerem se interessar em nossas vidas como se tivéssemos acabado de ganhar o American Idol. A tagarela, claro, tagarelou primeiro.

"Nossa! Isso é maravilhoso! Pelo visto vocês devem ser muito amigos e se gostar muito, não é?" Sua pergunta foi direcionada a boca que não se contém (o meu namorado dessa vez, já que a boca da Ar estava abrindo e fechando sem emitir sons), mas seus olhos estavam colados na Jane Bond. Balancei a cabeça e voltei a comer. Eles que são macacos, eles que se mordam.*

"Não exatamente. Quero dizer, as meninas são amigas e eu as conheço pela minha namorada." Estou dizendo, essa sinceridade toda dele num faz bem a ninguém. "E sobre gostar dela? Ah, ela é bacana sim e nós todos nos gostamos, principalmente a Spence." Fechou seu discurso com um sorrisinho de canto boca e pronto! O clima fechou, o tempo virou*, o mundo acabou! A Rachel encarou a Spencer com quê de tristeza e de curiosidade, a dita cuja (que até então estava pálida como um espírito) entrou em novo acesso de tosse e ficou vermelha de um modo perigoso, por isso peguei um copo d'água só pra garantir (vai que ela começa a pegar fogo no meio do almoço e acaba nos matando incendiados? Alguém precisa estar preparado, né?), a gente nunca sabe o que pode acontecer.

"Ela é a sua namorada?" De um modo esquisito (e tudo sobre esse dia estava sendo esquisitíssimo até aqui), a Rachel perguntou baixo e meio tímida. Caralho! Será que ela estava interessada na nerd?! Mas isso seria ótimo e ainda me renderia anos de risadas e piadas de mau gosto! Tomara, tomara! Cruzei as pernas e os dedos da mão esquerda pra dar uma forcinha ao destino. Até os dois senhores gays se assustaram com isso e se entreolharam para depois olhar para a menina em questão, pra vocês visualizarem a maravilha da situação.

"Não! Não!" Assim que terminou de ouvir a meio metro sussurrar a pergunta, a nerd soltou esse grito de guerra e depois arregalou os olhos quando viu que os copos na mesa conseguiram, milagrosamente, sobreviver a esse show de ópera. E isso, claro a deixou ainda mais vermelha (e a essa hora ela já estava quase abóbora, de um vermelho tão vivo) se fosse possível. "Quer dizer, não. Nós todas somos só amigas e o Caleb quis dizer que ela é próxima de mim assim como a Han é mais próxima da Aria, só isso." Terminou fitando o copo d'água que morreu em um gole seu. E acabamos concordando com a cabeça porque aqueles estranhos não precisavam saber de mais do que já estavam sabendo, tudo graças a boca saliente (e só eu sei o quanto, muito obrigada) do meu namorado.

"Mas e a Quinn, Rachel? Eu pensei que você tivesse terminado com o Finn para-" Um dos pais da menina perguntou (o Sr. BlackBerry e Top Chef) e a menina quase teve um ataque de nervos naquela mesa e ficou tão envergonhada quanto a Spence ainda estava e por isso resolveu interromper seus pais. Seu pai e pai. Isso dá dois pais, né? Acho que sim... Pois é, acho que hoje é dia do vermelho, pena que estou usando verde.

"Nós ainda estamos nos evitando." Foi seu murmúrio curto e baixo e, pelo que eu conheci dela, aquilo era tão anormal quanto ver a nerd embaraçada, me ver calada e não ouvir a Mufa dando conselhos (ou crises). Os homens se entreolharam mais um pouco e um deles deu de ombro (o mais falante) e o cozinheiro resolveu continuar o tricô.

"Ah é? Pois não parece, já que ela ligou pra cá hoje atrás de vo-"

"Ela fez o quê?" Antes que o pobre pudesse terminar, a Rachel fechou a apresentação de ópera que a Spence começou com um grito e um salto de ginástica artística de sua cadeira. "O que ela queria? O que ela disse? Ela perguntou por mim?" Numa corrida, Rachel continuou perguntando sobre a pobre menina (que teve sorte por não ter conseguido falar com ela, na verdade) e voltei meus olhos para a nossa Sherlock, que suspirou aliviada. É, pelo menos ela num era a bola da vez.

"Bem, comigo é que ela não queria conversar, estrelinha." O comediante continuou com um sorriso que fez sua filha revirar os olhos. Depois de levar uma cotovelada de seu marido, o homem engoliu a graça e continuou. "Ela queria saber como você estava porque aparentemente aconteceu algo que ela não quis me contar e se enrolou até gaguejar, dizendo que ligaria mais tarde." Rachel riu sem graça e olhou para o seu prato, de repente mais vermelha que o diabo. O que assustou o homem – e o homem do homem – e nem sei o motivo, já que eu só fiquei feliz por ela ter ficado calada, mas vá entender. "Então, meu amor, tem algo que eu tenha que saber?" Ao ouvir a pergunta, se fosse possível, a dita menina resolveu fazer cosplay da Mufa em uma de suas crises existenciais; ou seja, abriu e fechou a boca como se estivesse se comunicando com algum ser sobrenatural e não precisasse de sons. O que era uma boa mudança para seu falatório infinito. Vendo isso, seu pai – o que estava bancando a Oprah – resolveu entrar em estado de choque e levou a mão ao peito fingindo ter uma parada cardíaca. Se me cabe dizer, pura frescura. "O que aconteceu, bebê?"

"Hum, nada, papai, só que talvez eu tenha terminado com o Finn por causa da Quinn e, mais precisamente, pela minha despedida de solteira na semana passada, numa festa co-" Nem prestei atenção no resto do discurso porque poderia perder o resto da minha juventude ouvindo, além do mais, resolvi me focar em sua frase. Depois as pessoas me chamam de lerda, é ela que terminou no fim e eu que sou devagar com as coisas. Aposto que existe um nome pra esse tipo de burrice, certeza. Mas claro que só nerds como a Spence saberiam me dizer qual era e eu não iria perguntar agora e ter que lidar com a fúria desse povo novamente.

"Você fez o que, Rach?!" O grito do tal do homem me tirou de meus pensamentos e resolvi voltar a comer e ouvir a fofoca.

"Ela me beijou e... Bem... Eu... Não sei, o Finn nunca..." O fim desse discurso nunca pareceu tão distante, foi o que ela quis dizer. Mas os homens se chocaram, claro, e quase morreram engasgados com o macarrão.

"Estreli-" O outro homem, o que não falava tanto assim e nem era muito cheio de viadice comentou em choque (ou seja, o Sr. WhiteBerry). Não era muito cheio dessas frescurites, mas percebe-se que um quê (um erre, um esse...) de viadice ele tinha, eu quis dizer, porque nem se eu estudasse canto lírico alcançaria o tom de voz que ele usou pra expressar o seu choque.

"Não, isso eu vou decidir com ela quando o tempo chegar. Não quero conversar sobre isso agora." Wow! Quem diria que a menina falante era assim, tão disputada? Pois é, acho que a nerd vai ter que batalhar para conquistá-la – o que seria maravilhoso de ver. Não que isso vá acontecer, já que, pela cara da nossa líder, ela não poderia ter ficado mais feliz nem se tivesse vencido um jogo de biriba com seus colegas de asilo. É, faz sentido...

"Certo, não está mais aqui quem perguntou... Só quero que saiba que somos seus pais e estaremos aqui sempre, para o que precisar." Ouvindo o belo discurso, a menina só sorriu e balançou a cabeça em concordância e se preparou para abrir sua boca em mais uma jornada de discursos, mas resolvi me aproveitar da situação e cortá-la primeiro.

"Os senhores sabem onde nós podemos fazer compras? Porque não tem nada lá em casa e, bem, não queremos abusar da hospitalidade e, além disso, temos que resolver umas coisas sobre as contas e tudo mais." Sim, se surpresa matasse, a Sherlock e a Mufa estariam caídas e carbonizadas no chão por terem me ouvido dizer isso, mas ignorei-as. Okay, caso eu fosse sincera, não estava dando a mínima por não termos um pão velho e amassado pelo diabo na geladeira, só queria poder nos salvar dali. E claro, como sempre, meus planos são fantásticos. A biba sorriu como sua filha e balançou a cabeça concordando. Suspirei aliviada e olhei para meus amigos que também sorriam. Ora essas, Hanna Marin não erra!

"Claro que sabemos, criança! Mas podemos fazer melhor ainda! Nós iremos levá-los lá, que tal?" O homem que nos convidou para jantar sugeriu e seu marido, companheiro, namorado, ou o que seja, só riu da nossa desgraça, assim como sua filha. Olhei ao redor em busca de suporte dos meus amigos e me deparei com um sorridente namorado (sério, o que esse garoto anda tomando? Que tipo de droga é essa?!), uma Spencer pálida e derrotada (porque pelo menos alguém compartilhava a minha dor naquela mesa) e uma Aria... Bem, sendo a Ar de sempre, o que quer dizer que ela estava viajando na maionese e com seus grandes olhos verdes esbugalhados tentando ler nossas expressões (é, a gente num pode exigir muito das pessoas...), para depois franzir a sobrancelha em uma de suas perguntas estranhas, dadas por sua lerdeza. Suspirei fundo e tentei olhar para nossos novos vizinhos que riam como loucos de nossa desgraça.

Porra! Não foi dessa vez.

...

"Vocês querem sobremesa, meninas?" Perguntei ao casal de namoradas assim que terminamos de almoçar. E deixe eu contar uma coisa, acho que não existe explicação pra essas duas, elas simplesmente se completam. Claro, a Santana é, no mínimo, difícil de lidar e de entender, até porque, ela tem uma mente pervertida que faria a Han parecer a virgem Maria... E só de pensar nisso, um vazio me bateu e senti falta daquelas meninas e das nossas diferenças. De um lado, temos a Ar com toda a sua compreensão e conselhos pras horas difíceis, sempre nos consolando de um modo que só perde para os nossos pais. Mas claro, ela também tinha dificuldades para lidar com a pressão e literalmente só falava quando já tinha pensado e se decidido sobre o que dizer. Do outro lado, tínhamos a Hanna, que era um furacão, sempre cheia de palavras, de comparações e de ditados tortos, com uma personalidade que nos revigorava, fosse por sua falta de filtro ou pelos seus instintos de proteção que entravam em ataque sempre que alguma de nós corria perigo. E isso me lembra a Spence, que também tinha essa mania de nos proteger de qualquer coisa, mas acabava levando isso a um nível completamente novo e surre-

"Você tá rindo de que, Emmie?" Brittany me tirou das minhas lembranças e balancei a cabeça suspirando fundo para me focar no agora. Eu só espero que elas estejam bem, só isso... Voltei a olhar para a loira meiga sentada na minha frente e dei um sorriso leve. Pois é, diferente de sua namorada que tinha uma personalidade forte e cheia de vontades, a Brittany era doce e compreensiva, além de intuitiva e muito carinhosa. Acho que nenhum ser humano conseguiria se zangar com ela, mesmo nos piores momentos, muito por essa aura de inocência que a rodeava e nos fazia sentir como se o mundo pudesse ser bom, como se nem todas as pessoas fossem ruins e como se pudéssemos esperar algo positivo do futuro, ou achar que temos um futuro pra começo de conversa. "Você tem um sorriso bonito, Emmie, deveria sorrir mais." Ela completou e me interrompeu mais uma vez, me deixando embaraçada e olhei para baixo.

"Er, obrigada... eu acho." Respondi assim que voltei a mim e resolvi olhá-las. A Britt sorria contente e a Santana... Bem, ela revirava os olhos. Será que ela estava com ciúmes? Quer dizer, eu não posso negar que a namorada dela era atraente, mas definitivamente ela não fazia meu tipo. Nada contra loiras angelicais, mas eu prefiro morenas que saibam agir e tenham certeza de si e não pensem duas vezes antes de ir atrás do que querem, que talvez tenham uma personalidade do tipo A e sejam controladoras, empenhadas, viciadas em cafeína, que saibam tudo sobre literatura, história, trigonometria, música, arte e tenham uma voz rouca e baixa que faça arrepios subirem pela minha espi-

"Deus do céu, menina, você vai entrar em chamas se continuar vermelha assim!" Pisquei algumas vezes antes de voltar a olhar pra Santana que, por sorte, tirou minha mente de lugares inapropriados demais para serem pensados na hora do almoço. "Sério, garota, você acabou de inventar um novo tom de vermelho." Sorri meio desconcertada pra ela e limpei a garganta, o que quer que esteja acontecendo comigo tem que parar e, de preferência, agora.

"Então, vocês querem sobremesa?" Resolvi repetir minha pergunta e me focar nisso.

"Só se for álcool." Santana respondeu e eu olhei-a abobada novamente, com direito a boca aberta e tudo. "Credo, despenteada, nunca ouviu falar em piada não? Cruzes..." Ela resmungou se levantando da mesa e pegando nossos pratos, indo para a pia e murmurando algo em espanhol que não identifiquei e nem entendi. Balancei a cabeça de novo e pude ver a Britt me sorrindo em desculpa e indo atrás dela. Bom, resolvi arrumar a mesa e não me meter no momento de intimidade do casal, que parecia estar alheio a minha presença. Na verdade, elas não estavam fazendo nada de mais, a Santana só lavava os pratos cantarolando alguma canção e a Britt estava sentada na pia, secando-os e sorrindo. Uma cena digna de um romance moderno, se me cabe dizer e lá no fundo, eu senti uma certa angústia, por pensar que eu nunca pude fazer isso nem com a Ali (já que ela me usou por todos os nossos anos de amizade e isso deveria me revoltar, mas na verdade, eu só me sentia culpada por ter me apaixonado tão perdidamente por ela, sem nem ao menos me auto-preservar. E depois ela... se foi. E isso fazia uma nova onda de culpa me consumir. Porque nunca mais eu irei vê-la novamente, ou ouvir sua voz, ou abraçá-la...) ou com a Maya. Mas esse era um assunto que eu não gostaria de pensar agora, ou nunca. Só de lembrar que todas as garotas que eu consegui me apaixonar morreram... Morreram não, foram assassinadas, é enlouquecedor. Pelo menos agora as meninas podem ser feliz sem que eu as arraste para baixo. Será que elas estão bem? Será que as coisas estão melhores para elas? Claro que estão! A –A, ou melhor, a Mona está presa e tudo está seguindo o seu devido rumo, a Ar ainda está com o Sr. Fitz e os pais dela já aceitam melhor; a Han está com o Caleb e ainda deve mandar na escola e a Spence... está com o Toby. É. Ao menos ela está feliz. Ele a faz feliz. E é isso que importa.

"Emmie, o seu celular." Dei por mim mais uma vez ao ver a Britt acenando na minha frente. Deus! Eu preciso parar de viajar assim, ainda mais com visitas em casa, elas, no mínimo, vão me achar uma louca psicótica. Balancei a cabeça pra clarear meus pensamentos e sorri leve para a loira na minha frente, que me apontava o aparelho em cima da mesa e sorria compreensiva. Evitei olhar para sua namorada, mas eu podia jurar que ela estava revirando os olhos encostada na pia. Bem, resolvi ignorar isso e peguei meu celular, respirando fundo antes de abrir a mensagem. É, apesar de estar tudo resolvido, antigos hábitos não morrem tão cedo. Olhei mais uma vez pra loira que ainda sorria, agora com uma morena ao seu lado e, de um modo muito estranho, elas pareciam estar mais curiosas com a mensagem que eu.

"You hold me without touch, you keep me without chains." E eu ainda sinto a sua falta mais do que gostaria de admitir. Espero que esteja bem. Xoxo – Spence

Sim, a mensagem não tinha nada de mais, mas isso não quer dizer que eu não tenha sentido meu coração dar saltos no peito e um calor aquecer meu corpo e uma sensação estranha (e eu não irei nomeá-la pelo que me resta de sanidade) fez meu estômago revirar e minhas mãos começarem a suar. E isso só poderia significar uma coisa:

"Você tá ficando doía, miss Gaga?!" Lembrem-me de agradecer a Santana por ter me salvado de sentir coisas que eu não deveria estar sentindo e pensar coisas com uma certa pessoa na qual eu não deveria estar pensando. Definitivamente não. Nem por um segundo. Ela é a minha melhor amiga, pelo amor de Deus! Minha melhor amiga heterossexual que namora o meu único amigo. Minha melhor amiga que está há mais de dez horas de distância de mim. Minha melhor amiga que me faz estar arrependida por ter fugido sem nem dizer um 'até logo'. Minha melhor amiga que sente mais a minha falta do que gostaria de admitir e me faz sentir coisas que eu também não gostaria de admi- "Acho que alguém quebrou ela..." A voz da Santana me assustou novamente e me virei rápido o suficiente para ficar tonta e deixar o celular cair no chão.

"Droga!" Antes que eu pudesse me recuperar da minha falta de ar e analisar o chão em busca dele, a loira já estava mostrando a mensagem para sua namorada, que só me sorria macabra.

"Ah sim, agora eu entendi tudo, miss Gaga, tá escondendo a namoradinha d-" Antes do final dessa frase, eu já estava pulando em cima delas e pegando meu celular de volta. "Eita porra! Ninguém aqui vai roubar a sua garota não, despenteada, se não percebeu, nós estamos felizes juntas, okay?" Santana continuou dizendo e cruzou os braços, me olhando com força e analisando minha reação (que até eu posso afirmar que era estranha demais). Abri a boca para respondê-la, mas não pude encontrar palavra que fosse, por isso acabei me calando e fechando-a novamente, olhando para o chão.

"Nós não estamos te julgando, Emmie, relaxa." A voz da Britt me sobressaltou tanto quanto sua mão no meu ombro e pulei de susto quando senti seu toque, o que quase me fez tropeçar na cadeira e ir de cara no chão. Assim que consegui me ajeitar (com ajuda da loira em questão), olhei-a com um sorriso de agradecimento e lá estava ela, sorrindo meiga, diferente de sua namorada que rolava os olhos para aquilo tudo e permanecia de braços cruzados, respirando fundo.

"Cruzes! Isso tudo por uma mensagem clichê?! Se isso não é amor, não sei mais o que é!" A latina disse cheia de si, sorrindo torto como quem acabou de acertar uma equação mirabolante e ganhou algum prêmio por isso. Claro que ela estava errada, nós só éramos boas amigas e nada mais, por isso corri pra me explicar.

"Nós somos apenas amigas." Não, o meu tom de voz não convenceria nem os surdos, mas o que vale é a intenção, não é? Estranhamente, isso pareceu muito divertido pra dita menina e ela passou a sorrir ainda mais e caminhar na minha direção como um predador, o que me fez engolir seco e dar um passo pra trás. Mas para o meu azar, a mesa estava logo atrás de mim e não pude correr, ou fugir. Se bem que eu ainda podia me esconder embaixo de uma das cadeiras e-

"Tem certeza disso, Emo?" Foi sua única pergunta assim que parou exatamente na minha frente e me fazendo entrar em ataque de pânico. Droga! Eu mal conheço essas duas e elas já querem saber da minha vida?! E por que eu não consigo mentir? Não confiando na minha voz, só assenti com a cabeça rapidamente, o que, aparentemente, era algo muito divertido, já que ela abriu ainda mais o sorriso... "Porque de onde eu estou, isso parece muito mais que amizade, Emo. Daqui parece que vocês tem alguma coisa, certo?" Ela sussurrou as palavras e arregalei os olhos com medo do que elas significavam. Sem parar para pensar, acabei concordando com a cabeça novamente. Sim, movimento errado. Já que assim que percebemos o que eu fiz, ela sorriu macabramente e eu perdi a cor da face e a capacidade humana de me comunicar diretamente com palavras. Droga! Nem a Ar conseguiria estar assim, tão perdida quanto eu. "Viu como eu estava certo, Emo? Então, vocês namoram há quanto tempo e por que ela não está aqui?" Claro que aquilo estava divertidíssimo para ela, que só se sentou na cadeira e cruzou as pernas enquanto eu desejava ser sugada por um buraco negro. Sentindo o meu desconforto, a Britt resolveu abaixar e sussurrar algo no ouvido da sua namorada que só cruzou os braços de birra. Sorri um pouco para a dita loira, mas para a minha infelicidade, nem ela conseguiria fazer a morena largar a pergunta de lado. "Você vai me responder ou eu vou precisar ir toda Lima Heights pra cima de você, Emo?"

"Ir pra onde?" Perguntei curiosa, isso era algum tipo de luta, lugar ou esporte que as pessoas daqui faziam? Me ignorando completamente, ela só revirou os olhos e me olhou com uma expressão nada amigável que me fez engolir em seco.

"Ir para o ponto aonde você vai me responder as minhas perguntas." Não, nem o detetive Wilden era mais macabro que essa menina sentada na minha frente e de braços cruzados. Ela poderia muito bem apagar as luzes e jogar uma lâmpada pendurada na minha cara, só para completar a imagem.

"Er, quais?" Ninguém pode me julgar por tentar ganhar tempo enquanto eu penso em uma mentira, não é? Obviamente ela não gostou, mas minha vida foi poupada (porque ela realmente ameaçou se levantar da cadeira e me estrangular até a morte) pelo anjo loiro que ela namorava e se sentou em seu colo. Sorri mais uma vez para ela por ter me salvado de novo da sua namorada.

"San, a Spence é só uma amiga que a Emmie gostaria que fosse algo mais, mas estava com medo de tentar e acabou fugindo sem se declarar pra ela e nem deu a chance de ela fazer o mesmo. E eu tenho certeza de que isso aconteceria, certeza. Você sabe que eu pressinto essas coisas." Seu discurso terminou com uma piscadela para a sua namorada e um beijo rápido em sua boca e olhei abobada para as duas. Não pela cena, mas pela capacidade de essa menina perceber as coisas. Nem a Spence conseguia ser assim...

"Argh!" Por que eu preciso pensar tanto nela? Acabei falando alto enquanto me apoiava na mesa e as duas se separaram para me olhar, tão surpresas com isso quanto eu mesma.

"Algum problema com duas garotas se beijando, Emo, ou é só saudade da sua mulher?" Santana perguntou fazendo algo que estava careta e um sorriso assustador. Ótimo, agora elas acham que eu estou com inveja porque elas podem se beijar e a garota que eu queria beijar está há num sei quantos quilômetros de distância de mim. Em baixo da terra. A Maya, não a Spence. Não, nem era na Maya que eu estava pensando... Deus! Quando minha vida ficou tão complicada?!

"Não, San, ela só está assim porque eu estou certa, não é, Emmie?" Brittany respondeu me sorrindo tanto que só tive força pra arquear os lábios, mas tenho certeza que isso pareceu mais uma careta do que um sorriso. Percebendo meu desconforto, ela parou de sorrir e me olhou meio triste e logo fiquei triste também. Sabe-se lá o que essa menina tem que a gente não pode imaginá-la sem sorrir. "Por que você fugiu dela, Emmie? Ela te fez algo?" Sua pergunta veio acompanhada de uma mão no meu ombro, mas por incrível que pareça, isso não me confortou, só me deixou com mais raiva. O que tem com esse povo? Por que todos ficam pensando coisas ruins sobre ela?

"Claro que não! Ela nunca me faria nenhum mal! Não sei por que vocês ficam insistindo que ela poderia me magoar. Eu tenho certeza de que ela não faria isso nem inconscientemente, então não sei que diabo de pergunta é essa!" Não sei o que tinha acontecido comigo, mas eu tinha perdido a paciência com aquilo tudo. Certo que a Spence não sabe lidar com sentimentos e ultrapassa todos os limites quando bem quer, achando que está fazendo algum bem para alguém, mas ela nunca nos magoaria. Disso eu tenho certeza.

"Cuidado que ela morde!" Santana resmungou e me olhou com cara feia por ter levantado a voz para sua namorada e, ao olhar para a loira em questão, uma onda de culpa me arrastou e olhei para baixo em vergonha por tê-la tratado mal assim.

"Desculpa, Britt... Eu só..." Só não sei mais me comunicar e estou perdendo o pouco de sanidade que sempre tive.

"Tudo bem, Emmie, eu entendo. Só não consigo entender por que você fugiu dela se isso está te fazendo tão mal." Eu respirei fundo e olhei para baixo porque, sim, ela estava certa, mas até onde eu gostaria de dividir a verdade com as duas? Será que eu poderia confiar nelas assim? Ou melhor, será que eu não acabaria arrastando as duas pra maluquice que é a minha vida se eu contasse sobre a Ali? E sobre a Maya? "Ei, não fica assim! Eu sei que você ainda não nos conhece exatamente, mas você pode nos contar qualquer coisa que não iremos te julgar." A loira continuou falando e segurando o meu ombro, o que me fez olhar pra ela. E sua namorada sussurrou algo como 'fale por você', mas resolvi ignorá-la e me focar na Britt, que revirou os olhos pra Santana, me fazendo sorrir. "Vou te contar a nossa história, quer ouvir?" Assenti com a cabeça e me ajeitei em cima da mesa, ansiosa para ouvir o que ela tinha a dizer. "Pois bem, nós duas sempre fomos amigas. Junto com a Quinn, nós formamos a Santíssima Trindade." Ao ver a minha cara de vento ouvindo aquilo, ela parou e riu um pouco antes de continuar. "Nos chamavam assim porque nós éramos as líderes de torcida mais desejadas da escola e, bem, todos os garotos adorariam sair conosco. E conseguiram." Ali eu só estava confusa com aquilo tudo e a morena estava sambando desconfortável embaixo de sua namorada e praguejava algo em espanhol. "Ela merece saber, San." Foi a única coisa que a Britt disse pra sua namorada e, pela primeira vez, ela estava visivelmente triste. Sua namorada respirou fundo e olhou pra baixo, ficando quieta. "Pois é, nós saíamos com todos os caras que quisessem. Não a Quinn, porque ela nunca foi desse tipo. Mas bem, eu e a San transávamos de vez em quando, quando não tinha nenhum dos caras pra gente-"

"O que ela quer dizer, Emo, é que nós fizemos... Não, eu fiz muitas burradas antes de me assumir gay e antes de assumir que era com ela que eu queria ficar pelo resto da minha vida. Porque eu tinha vergonha e medo de perder a reputação, mas nem isso vale ficar sem ela. Então, foram muitas coisas que nós precisamos passar e que eu precisei passar pra gente estar aqui, hoje, conversando sobre isso contigo. Muita coisa que eu me arrependo de ter feito e de ter pensado..." Santana terminou o discurso da Britt e ficou avassaladoramente triste, o que, estranhamente me fez ficar triste também.

"Eu... Eu sinto muito por isso." Não me perguntem por que eu disse isso, mas minha vontade foi de dar um abraço nas duas, o que seria ainda mais estranho então achei melhor me envergonhar só com palavras. Brittany me sorriu sincera e abraçou a namorada, sussurrando algo em seu ouvido que a fez resmungar alguma coisa, até se virar pra mim.

"O que eu quis dizer, Emmie, é que não existe amor pronto ou perfeito, a gente tem que trabalhar para termos algo pra nos orgulharmos, sabe? E bem, era isso que eu estava tentando te dizer sobre a Spen-"

"Isso não tem a ver com ela." Eu não sei exatamente o que me deu pra falar isso, mas até eu me surpreendi com isso e as duas me fitaram, Britt olhando com paciência e Santana com uma sobrancelha arqueada, provavelmente por eu ter cortado o discurso da sua namorada. Deus! Ela é pior que a Spencer! "Er, eu não saí de lá por causa dela..." E agora? Eu conto a verdade ou não?

"Você não precisa nos dizer se não quiser..." Claro que só poderia ser a Brittany falando isso e, inexplicavelmente, essa frase e sua expressão me fizeram tomar a minha decisão. Respirei fundo e olhei nos olhos delas tentando parecer tão sincera quanto seria. Mas não era a história mais fácil de ser contada. Definitivamente.

"Eu fui apaixonada pela minha melhor amiga uma vez e, bem, dizer que não foi correspondido é um eufemismo, mas mesmo assim eu nunca a confrontei. Ela era a garota do momento da nossa escola, a que poderia ter quem quisesse e destruir quem passasse pelo seu caminho. Mas, por algum motivo desconhecido, nós éramos amigas." Comecei a contar e pude vê-las prestando rara atenção naquela memória deturpada que eu tinha, até a Santana, mesmo que ela fingisse estar interessada nos cabelos da Brittany. "Ela era tudo que os garotos queriam, era linda, esperta, descolada e a abelha-rainha da escola e bem, as meninas a invejavam. De um modo estranho, ela formou o nosso grupo de amigas, ou, como ela via, de seguidoras dela. Com a Hanna, a Aria, a Spencer e eu. Ela dizia que os nossos segredos nos mantinham unidas, mas nós não sabíamos nada sobre ela, só o contrário. Quatro personalidades diferentes para ela manipular, e a que mais fugia ao controle dela sempre foi a Spence. Porque bem, ela me usava pelos meus sentimentos, usava a Aria pela bondade dela e a Hanna pela baixa auto-estima. Mas a Spencer nunca abaixou a cabeça pra ela e os argumentos das duas só nunca acabaram em violência porque a gente não deixava." Suspirei fundo antes de continuar e Santana me interrompeu.

"Eu já gostei dessa sua namoradinha." Ela disse com um sorriso e limpei a garganta, olhando para baixo até a temperatura do meu rosto voltar ao normal, mas não pude deixar de sorrir um pouco, só um pouco. Coisa que ela pareceu gostar e desistiu de fingir prestar atenção nos cabelos da Britt para focar os olhos em mim.

"Er... Enfim. Nós continuamos amigas por todos esses anos, mas uma noite que estávamos juntas, a Alison sumiu e foi quando acabamos nos afastando. Por um ano, ficamos sem nos falar até que o corpo dela foi encontrado... Ela tinha sido assassinada." Parei para colocar as minhas emoções sob controle e respirar fundo. Evitei olhar para as duas porque não queria ver suas expressões de pena. "E, por mais estranho que isso pareça, nós acabamos nos reunindo por isso. E voltamos a viver nossa vida do melhor modo possível."

"Eu sinto muito por isso, Emmie, deve ter sido difícil pra você." Brittany tentou me reconfortar, mas apenas balancei a cabeça, eu não precisava mais disso, mas sorri assim mesmo, era bom poder contar essa história pra alguém. Era bom poder contar com alguém novamente.

"Obrigada, Britt. Mas bem, isso não parou por aí..." Decidi continuar contando a história e, obviamente deixei o fato da –A estar metida em tudo fora da conversa. Não por não confiar exatamente nelas, mas não poderia colocá-las em situações complicadas. Bom, eu confesso que me senti um pouco mais leve quando terminei de contar a história e de explicar o motivo pelo qual eu não podia mais ficar em Rosewood, não podia mais colocar a vida das minhas amigas em perigo e bem... Nem a da Spence. Acho que isso as fez entender um pouco os meus motivos por não ter ficado e precisar de um novo começo, de uma nova vida. Mas ao mesmo tempo era dolorido demais viver como se eu não tivesse um passado, como se eu não tivesse três amigas pelas quais eu daria a vida em troca e tinha certeza que, cada uma do seu jeito, faria o mesmo por mim.

Assim que terminei a história, a Britt me abraçou chorando e até a Santana parecia estar um pouco mexida com isso e ficou desconfortável sabendo de tudo. Quer dizer, o tanto quanto ela pode, né?

"É, tudo bem, mas acho que a sua amiga merece uma mensagem de volta, não?" Seu sorriso torto estava com força no lugar e ela me olhava preparada para nos juntar. Revirei os olhos, essa menina não prestou atenção na história não? Será que ela não entendeu os meus motivos? "Enfim, é problema seu. Vamos ver algum filme e esquecer isso?" Olhei para a Britt que assentia com a cabeça e sorria e me levantei da mesa, indo para a sala preparar os DVDs. Se eu prestasse um pouco mais de atenção, eu não teria deixado as duas pra trás com meu celular em cima da mesa, mas acabei me esquecendo completamente disso por estar me sentindo melhor em tanto tempo.

Claro, eu não deveria ter feito isso, mas só iria descobrir depois.

...

"Eu preciso de café, Caleb, não funciono sem ele." Cruzei os braços na frente do meu peito e fiquei no meu lugar, mudamente o desafiando a continuar me arrastando pelo shopping. Claro que o menino em questão só revirou os olhos e me olhou. Mas não que ele fosse me interrogar, já que, depois de fugir de sobreviver ao almoço dos Berry, ouvir a Rachel falando por léguas e ter que encarar compras com eles, se alguém sabia como eu me sentia com isso tudo, esse alguém era o Caleb. Isso sem contar com a minha preocupação com a Em e o futuro encontro com a tia dela, sério. Eu estava batendo pino e não tinha mais café no meu sangue para me ajudar a pensar. Era o holocausto. Era pior que isso, era minha vida saindo dos trilhos e rumando ao precipício mais próximo sem o menor sinal de-

"Certo, vamos só levar essas coisas pro carro e depois nós cuidamos disso, okay?" Assenti com a cabeça e dei uma carreira com o que me restava de força para abrir a mala do carro e colocar nossas compras em excesso: almofadas, lençóis, toalhas, travesseiros, edredons, fronhas, cobertas e toda a sorte de coisas que achamos necessárias. Ou melhor, mais ainda que o necessário, porque pela quantidade de coisas que compramos, nós poderíamos morar aqui pelos próximos cinco anos. "Ah, de nada." Ele me disse e me virei em meus calcanhares para olhá-lo, mais do que envergonhada por estar dependendo do dinheiro dele e por tê-lo feito pagar por essas coisas.

"Ah sim, obrigada. Eu prometo que irei pagá-lo assim que eu conseguir um emprego, Caleb, e me desculpa te colocar nessa situação, é que o meu cartão bate diretamente na conta do meu pai e eu não quero que ele saiba onde eu estou. Ainda tenho que ir ao banco pedir um cartão pra minha poupança e abrir outra conta pra-"

"Eu não estava falando sobre isso, Spence. Eu realmente não me incomodo de pagar por essas coisas, sabe? Eu ainda não sei lidar com o fato de ter dinheiro e ter uma mesada que nunca imaginei ganhar na minha vida, então isso não me faz diferença. Eu gosto mesmo de ajudar." Ele me interrompeu e me deu um sorriso, colocando o resto das bolsas que estavam em sua mão no porta-malas do carro. "Eu estava falando sobre a Rachel..." Claro que estava. Revirei os olhos pra ele e bati a porta com força, me virando para irmos. "Ei, cadê o meu 'obrigado'?" Suspirei fundo e resolvi agradecê-lo logo pra gente seguir nosso rumo logo.

"Obrigada por me tirar da situação que você me colocou, Caleb." Sua resposta foi sorrir bem grande e ignorar completamente o sarcasmo na minha voz. Argh! Menino mais cheio de si, aposto que isso é culpa da Hanna. Esses dois se merecem.

"Não há de que, mas você está me devendo e eu tenho algo em mente pra você me pagar." Sem ao menos me olhar, ele só continuou sorrindo e me piscou ao fim dessa triste sentença de morte. Tudo o que fiz foi respirar fundo e continuar andando, ignorando completamente sua frase. Isso até ser puxada por ele pra dentro de uma loja.

"Que diabo, Caleb?!" Gritei com ele que só sorria como o gato psicodélico da drogada da Alice e olhava ao redor da loja. Resolvi fazer o mesmo e analisar o lugar onde estávamos. Uma parede estava cheia de garrafas de uísque, outra era decorada por maços de cigarro, o teto era uma imitação meio estranha da capela Sistina, claro, os anjos foram substituídos por astros do rock desde os anos quarenta e olhei pra ele em choque. "O que é isso?" O que esse menino queria fazer ali?

"Isso é uma loja, Spence, com uns artigos legais pra venda, não acha?" O Sr. Graça resolveu continuar com suas piadas e revirei os olhos. Por sorte não estava ventando hoje, porque por mais que eu não acredite nesses contos da carochinha, não queria correr o risco de um vento me bater e me deixar vesga pra sempre.

"Certo, Sr. Rock'n'Roll, o que estamos fazendo aqui?" Perguntei para ele antes de uma menina loira se aproximar com uma camisa rasgada do Joy Division, uma calça preta de couro toda estropiada e um par de botas vermelhas. Okay... Mas o que mais chamava a atenção era realmente a sua maquiagem pesada que fazia cosplay de algum hentai meio sombrio. No mesmo momento, eu me aterrorizei e dei um passo pra trás. Sabe-se lá que droga ilícita ela tinha usado e o que essa menina sinistra estava querendo ali...

"Fala, colegas, meu nome é Jenny, posso ajudá-los?" A loira estranha se dirigiu a nós dois e arregalei os olhos, fitando o Caleb, de qual filme trash de terror classe b essa menina tinha fugido?

"Na verdade, pode sim! Dois dezoito anos duplos com energético, por favor." O fora da lei falou cheio de confiança e senti até medo de pensar onde ele tinha arrumado essa atitude esquisita, mas desisti ao olhar pra cara borrada e rasgada que parecia ter sido vítima de um assalto. Pra minha sorte, ela logo se virou e foi fazer sabe Deus o que, mas pelo menos foi fazê-lo longe de mim. "Ei, tente manter a mente aberta, Spence, seus olhos quase caíram no chão quando você viu a Jenny." Ele sussurrou no meu ouvido e me virei em choque para ele. Ora essas, o que eu poderia ter feito?

"E o que você esperava? Essa menina parece um desses animais que servem de cobaia pra testar cosméticos depois de ter sido violentada numa avenida e roubado roupas de um mendigo. Não é minha culpa isso." Ele revirou os olhos para mim e olhou sorrindo para a frente. E claro, lá estava ela novamente, agora ainda mais sinistra, já que ela estava sorrindo com aquele batom vermelho borrado e o rímel escorrendo me olhando...

"Obrigado, Jenny! Meu nome é Caleb e essa é a Spencer, nós estamos querendo dar uma olhada nas coisas daqui." E ele continuava dando trela pra essa psicopata que parecia ser mais perigosa que o Chucky jamais seria e imaginei-a com uma faca e-

"Não há de que, Caleb, é um prazer conhecê-los. Se precisarem de mim, estarei por aqui." Me aterrorizando com um último olhar firme e sem vergonha, ela se virou e voltou rebolativa para o seu caixão, afinal de contas, ainda era dia e a miss vampiranha não podia valsar por aí sem queimar no sol como um palito de fósforo.

"Ela gostou de você, hein?" Uma cotovelada do menino me cortou dos meus pesadelos e olhei-o com uma carranca digna do DNA dos Hastings. "É, alguém aqui anda fazendo sucesso com as mulheres e esse alguém não sou eu." Revirei os olhos pra ele que ainda segurava as bebidas e cruzei os braços.

"Aquela criatura mal pode ser chamada de ser humano, quiçá mulher." Resmunguei baixo e voltei a olhar para aquele cativeiro. Tudo bem, era um lugar estiloso até, mas nunca em minha vida me imaginaria ali. Isso até sentir um copo na minha mão e olhar questionadora para o menino, que estava brindando comigo. "O que isso quer dizer?" Perguntei fitando o copo.

"Saúde. Geralmente, as pessoas brindam com isso em mente." Revirei os olhos de novo e voltei a olhá-lo bebendo aquilo. Ele só podia estar brincando comigo, né? "Você precisa beber agora, Spence." Com um sorriso cretino, ele continuou sorrindo e bebendo e suspirei fundo.

"Isso não é café." O que era óbvio, mas ele tinha me prometido café e não me embebedar em plenas duas da tarde. Deus! Imagine viver com ele, Hanna e Aria juntos?! Se eu sobreviver uma semana, já posso me considerar uma vencedora.

"É melhor que café e você precisa parar de pensar tanto, se culpar tanto e aproveitar um pouco a vida. Além disso, tem energético nele, o que te dá a sua cafeína do dia." Suspirei fundo e olhei para ele, que ainda bebericava aquilo ali e me olhava de canto de olho. Pois bem, que seja! Não custa nada beber um copo, não é? E talvez seja melhor eu relaxar um pouco, essa viagem foi bastante desgastante. Com isso em mente, virei aquele copo de uma vez. "Ei! Spence, isso não é tequila, é pra se beber aos poucos!" O dito menino me gritou e ameaçou puxar o meu copo.

"Pois veja bem, eu sei o que é um uísque, Caleb, e já bebi um. Agora você pode chamar a sua amiga espantalho de manicômio porque eu estou realmente com sede." Falei pra ele e resolvi valsar pela loja olhando os acessórios que tinham por lá. Entre jaquetas de couro, calças rasgadas, camisas de banda, alguns CDs e muitos instrumentos musicais, as coisas eram realmente bacanas e num custava nada testar, né? É como dizem, se não se pode vencê-los, junte-se a eles.

Obviamente, ele fez como eu pedi, outra dose dupla de uísque. Não pensar nunca me pareceu uma opção tão boa.

...

"Ai, essa parte é tão linda!" Minha Britt estava chorando ao ver pela enésima vez a parte em que o tosco do príncipe se declara pra esquisita da menina e apertava a minha mão com força, ao mesmo tempo que ela apertava a da Emo que, como o nome já diz, obviamente estava chorando. Tudo bem, eu até entendo o fato de ela estar triste. Entre ser uma asa negra e uma versão homossexual e assassina do Rei Midas, ela até tinha o direito de ficar deprimida. Nossa, eu nem imagino como deve ser beijar alguém e essa pessoa morrer, mas com certeza é péssimo. Mais pras meninas que morreram, é claro, só que reconheço que ela deve sofrer também. Enfim, cada um no seu quadrado, e eu já tenho muito problema na vida pra me focar no possível veneno que tem na língua sem vergonha dessa menina. Ora, ora, mas uma idéia me surgiu! Eu bem que posso usá-la pra me livrar das pessoas, né? Por exemplo, ela bem que podia beijar a bicha pau no cu do Sebastian e nos livrar da competição! Isso sim é plano perfeito, ora essas! Quer dizer, se funcionar, né? Porque só meninas morrem beijando ela, então seria um tiro muito longo e teríamos que contar com a sorte (que eu nunca tive). Mas e por outro lado, aquela travesti era quase uma mulher, né? Se for assim, vale? Se bem que as meninas que ela se livrou eram sapatões, então talvez o plano tenha uma pequena falha, embora num custe nada ten- "Vamos, Emmie, vamos cantar!" Fui interrompida de meu plano para ganharmos as regionais pela minha namorada que saltou do meu colo e puxava a Emo pela mão e para o meio da sala. A menina, obviamente, parecia um peixe fora d'água já que mal sabia falar, imagine cantar...

"Eu não sei cantar, Britt..." Num disse aí? Não que seja difícil de adivinhar isso, já que só de olhar para a cara dela, nós víamos que ela não veio ao mundo muda por muito pouco. Mas bem, eu estava querendo ver isso mesmo. Minha namorada, claro, não aceitou um não como resposta e resolveu pular e rodar a miss Gaga de um lado para o outro como uma beyblade e sorria, o que, tirando a esquisitice da menina e da situação, era sempre bom de se ver (o sorriso da minha loira, eu quis dizer).

"Mas eu também não sei cantar, só que a gente pode tentar, né? Diz que sim, vai, por favor!" Rá! Agora eu quero ver a Emo resistindo a isso! Esse bico da Britt era impossível de se ver sem entrar em uma onda de culpa e de tristeza profunda, acreditem, eu posso afirmar com certeza! Então, resolvi olhar para a dita menina que estava mastigando a boca como um chiclete e olhava para todos os cantos da casa evitando ceder aos olhos tristes da minha loira. Resolvi me encostar no sofá e cruzar os braços, aquela cena merecia ser filmada e estava boa demais pra ser verdade. Quero dizer, tirando a 'miss-quisita' e sua falta de jeito com tudo. Isto é, até ela me olhar com um pedido mudo nos olhos para que eu a ajudasse e resolvi catar o meu celular para mexer nele. Falando nisso, não quero nem imaginar o que ela vai fazer quando a sua sapatão encantada resolver ligar pra ela hoje à noite depois de receber uma mensagem amorosa (que, eu confesso, mais parecia uma carta e foi idéia da Britt), pedindo que ela venha visitá-la. E o pior é que eu num duvido nada que a outra sapata apareça aqui com um violão e dirigindo um caminhão branco, do jeito que aquelas mensagens gritavam 'amarrada', eu só me admiraria caso ela não viesse. Ah, vamos lá! Qual casal de amigas troca sms com versos de uma música de amor? Exatamente! As amigas que querem comer as outras amigas. Se bem que, se essa Spencer pensar um pouco, é melhor ela tomar cuidado pra num beijar essa boca vampiresca que suga a vida e a vitalidade dos outros. Ou não, né? Pelo que vi nas mensagens, essa menina queria mais é que a Emo chupasse tudo o que tinha direito inclusive a sua boce-

"Tudo bem, Britt, você ganhou! Eu canto contigo." A resposta da vampira me tirou de meus pensamentos sombrios e horripilantes e, por isso, fiquei quase feliz. Mas claro, não demonstrei. "Okay, o que iremos cantar?" A boca de fumo continuou e resolvi viajar mais um pouco em meus pensamentos, talvez até cochilar? Eu sei que vocês devem estar pensando que eu estou sendo a Santana que todos conhecem e amam e não dando a mínima pro fato de essa menina matar mais que a peste negra. E eu estou tentando compreender isso. Quero dizer, ou Deus realmente existe e está condenado-a por sua sapatice desavergonhada, ou alguém nesse mundo quer que ela fique solteira pra sempre. Afinal de contas, as duas pobres meninas que tiveram o desprazer de colocar a língua na boca desse corvo perderam mais que o ar num beijo, perderam a vida. Elas foram assassinadas, pelo amor de Deus! Isso é um crime! Mas qual pessoa poderia matar dois sapatões por estarem só fazendo lesbianice? Será que foi essa tal de Spencer e, sem querer eu a trouxe para cá e agora Lima está correndo perigo de ser arruinada numa fúria de ciúmes dela? Será que seria isso? Dios Mio! Onde foi que eu fui me meter?! "Você começa então e não vale rir!" A Emo sorria alheia ao seu futuro a sete palmos do chão e me balancei desconfortável no sofá. Maldita culpa que precisava me consumir! O que eu fui fazer?! Bom, agora não era hora pra choro nem vela, já que a minha maravilhosa namorada ia cantar com a esquisita, então resolvi deixa isso pra lá e me focar nisso. Por sorte, a Berry e sua língua de trapo não estavam aqui, ou essa menina nunca mais ousaria abrir a boca nem para comer, mas isso não quer dizer que eu não tenha a diversão toda para mim, claro.

Dito isso, minha namorada acionou a versão de karaokê do filme e deu o outro microfone pra Emo, se preparando para começar a música.

"All those days watching from the windows

(todos aqueles dias vendo pelas janelas)

All those years outside looking in

(todos aqueles anos olhando de fora para dentro)

All that time never even knowing

(todo aquele tempo sem nunca ter sabido)

Just how blind I've been

(o quão cega eu fui)

Now I'm here, blinking in the starlight

(agora estou aqui, piscando sob a luz das estrelas)

Now I'm here, suddenly I see

(agora que estou aqui, de repente eu percebo)

Standing here, it's all so clear

(estando aqui, é tudo tão claro)

I'm where I'm meant to be

(estou onde eu deveria estar)"

Mais uma vez e como sempre, lá estava ela cantando unicamente para mim e era uma sensação boa da porra, me deixem contar. Naquele momento, não existia a matadora, não existia culpa, não existia nada que não fosse ela me cantando aquela música de um modo tão meigo e angelical que eu quase duvidei do fato de ter morrido e ir pro céu. E minha Britt me cantava com tanto amor e sinceridade que eu só não chorei porque sou Santana Lopez, mas estou certa como o inferno de que eu poderia ter chorado e, nem assim, eu expressaria todo o amor que eu tinha por aquela menina. E isso quer dizer muito vindo de mim. E contando com a nossa história, nada ficava mais cabível nisso tudo. Absolutamente nada. Me forcei a piscar várias vezes para não chorar e ela apenas me sorriu, como sempre, sabendo o que seu amor por mim fez até aqui. E eu nunca me arrependeria disso.

"And at last I see the light

(e finalmente eu vejo a luz)

And it's like the fog has lifted

(e é como se a neblina tivesse evanescido)

And at last I see the light

(e finalmente eu vejo a luz)

And it's like the sky is new

(e é como se o céu fosse novo)

And it's warm and real and bright

(e é acolhedor, real e brilhante)

And the world has somehow shifted

(e mundo de um jeito mudou)

All at once everything looks different

(de uma vez, tudo parece diferente)

Now that I see you

(agora que eu vejo você)"

Se virando para o dois de paus que estava se balançando como um espantalho na ventania, minha namorada me piscou e se virou para ela, cantando e sorrindo. Certo, dessa porra eu num gostei nem um pouco. Nem um pouco mesmo. Mas foi só olhar pra cara de banana da menina que eu soube que ela precisava disso e, bem, ela estava sozinha numa cidade distante e triste por ter perdido (eu quis dizer envenenado) duas namoradas e nem eu conseguia ser assim, tão sem coração. Por isso deixei-a olhar pra Britt. De leve. A menos que ela pense em perder os olhos, eu quis dizer.

"All those days chasing down a daydream

(todos aqueles dias correndo atrás de um devaneio)

All those years living in a blur

(todos aqueles anos vivendo em um borrão)

All that time never truly seeing

(todo aquele tempo, nunca percebendo)

Things, the way they were

(as coisas como elas são)

Now she's here shining in the starlight

(agora ela está aqui, brilhando sob as luz das estrelas)

Now she's here, suddenly I know

(agora que ela está aqui, de repente eu sei)

If she's here it's crystal clear

(se ela está aqui, é claro como cristal)

I'm where I'm meant to go

(eu estou onde devo estar)"

E eis que chegou a vez da Lady Vingança** cantar e assustar as almas de suas camaradas mortas. Do seu lado, minha loira estava sorrindo e a motivando a alegrar o meu dia (rindo de sua cara, claro) e cantar foi o que ela fez. Bem, dizer que eu estava ansiosa para ouvi-la quebrando as vidraças era um eufemismo, mas até me aprumei no sofá para ver aquilo. Qual não foi a surpresa ao ver que não, a Emo não cantava assim tão mal? Tudo bem que ela não tinha a voz rouca o suficiente pra fazer o príncipe (por mais que fosse sapata o suficiente para se vestir como ele), mas definitivamente ela não tinha a voz ruim e não errou ou desafinou, estragando o dueto que minha Britt quase chorou para conseguir. Por isso eu fiquei grata, já que uma Brittany feliz é uma Santana feliz. E bem, ficou bonito. Não tanto quanto seria caso eu estivesse cantando, mas mesmo assim, pra uma menina que não usa a voz nem pra falar, ela não nos envergonhou.

"And at last I see the light

(e finalmente eu vejo a luz)"

Britt resolveu acompanhá-la e harmonizar a música a música em dueto que, para a minha surpresa, ficou incrivelmente bonito. Droga, nem vou poder rir dessa esquisita.

"And it's like the fog has lifted

(e é como se a neblina tivesse evanescido)"

A Emo continuou com sua parte e virou para mim sorrindo. Arqueei uma sobrancelha em sua direção. Que. Diabos?

"And at last I see the light

(e finalmente eu vejo a luz)"

Britt acompanhou-a novamente e se virou para mim também. Gente, eu perdi alguma aqui. Será que eu estava seja? Por que as duas estavam me olhando e sorrindo meigas (minha namorada, obviamente. A Emo estava rindo estranha).

"And it's like the sky is new

(e é como se o céu fosse novo)"

Minha Britt cantou e me jogou uma piscada de longe que fez meu coração acelerar como um era esperado e acabei sorrindo como uma boba apaixonada (porque era exatamente como eu estava me sentindo)

"And it's warm and real and bright

(e é acolhedor, real e brilhante)

And the world has somehow shifted

(e mundo de um jeito mudou)

All at once everything looks different

(de uma vez, tudo parece diferente)

Now that I see you

(agora que eu vejo você)"

Se olhando brevemente, as duas continuaram cantando até se virarem para mim e sorrirem mais uma vez (okay, alguém chame o sanatório porque quem endoideceu fui eu), de mãos dadas e andando na minha direção, me puxando pelo braço para me juntar a elas numa cantiga de roda, ou sei lá que raios. Para finalizar a canção, estávamos num círculo (de fogo) no meio da sala e eu só olhava de uma pra outra que se olhavam e me olhavam. Loucura e nada mais. No último verso, minha Britt abraçou aquela sem vergonha na minha frente e depois me puxou pra um abraço esquisitíssimo (como a menina que estava conosco), à três. E bem, eu fui, né? Não é como se eu pudesse dizer não pra essa menina. E essa Emo, apesar de assassina, até que era gente boa, por isso abracei-as até que sinceramente.

"Eu estou tão feliz aqui com vocês duas! Tão-tão feliz..." Minha Britt falou com lágrimas nos olhos assim que nos separamos e suspirei fundo. Por isso, sorri pra ela e pra Emo também.

"Se você está feliz, eu também estou feliz, Brit-Brit!" Eu disse sinceramente para ela e beijei sua mão para provar o meu ponto. A estranha no ninho sorria sinceramente e pela primeira vez desde que a vi ontem.

"Obrigada por me aceitarem e por me entenderem, de verdade. É tão difícil ter que começar tudo de novo..." Lá estava a Emo sendo bem, emo, e chorando as pitangas. Não, na verdade ela estava mordendo sua boca maligna para não chorar e revirei os olhos. Mulheres e seus eternos choramingos.

"Você tem a gente agora, Emmie, daqui em diante, nós seremos sua família!" Minha Britt falou isso, como vocês podem imaginar, já que eu não diria isso nem em um milhão de anos, mas assenti com a cabeça (já que a dita loira me olhou me desafiando a negar e... er, eu não a deizaria triste, né?). E só sei que no segundo seguinte eu estava sendo envolta em mais um abraço a três enquanto minha namorada me olhava com uma interrogação na testa, provavelmente pensando na mensagem que a gente mandou pra tal da Spencer mais cedo e tudo o que dizia nela e bem, esse olhar só podia dizer uma coisa: fodeu.

...

Argh! Quando foi que o meu dia virou uma temporada de Survivor? Porque Deus me livre, essa viagem já foi escrota o suficiente, com o almoço que só faltou a companhia da piranha da Mona pra ficar ainda pior e um dia todo rodando pelo mercado na companhia da Mufa, da falante e dos Berries... Bem, eu merecia um prêmio, no mínimo. Ainda mais depois de ficar mais de duas horas escolhendo coisas para a casa e ter que carregar quatro carrinhos de compras. Qua-tro! Certo, os senhores Berries até que nos ajudaram com coisas que nós não entendíamos (tipo lâmpadas, fios, tinta, verniz, cortinas e sabe-se lá mais o quê) e nos ajudaram a pagar também, o que não fez mal nem de longe, não é? Enfim, a Rachel estava calada, assim como a Mufa (o que é bom demais pra ser verdade) e imagino que as duas estejam cansadas demais até pra abrir a boca. Pequenas vitórias, é assim que se começa.

"Ai, o que eu não daria para estar deitada agora." A boca da Mufa não conseguiu ficar muito tempo fechada, afinal de contas. Mas fui obrigada a concordar, claro. Já que eu estava matando para deitar num cama fofinha e abraçar o meu travesseio humano (ou seja, Caleb), mesmo que ele não esteja no meu lado bom nesse exato momento, porque me trocar pra ficar perneando com a Sherlock por aí é de foder o palhaço em chamas. Mas bem, do jeito que eu estou cansada, nem raiva eu ando conseguindo sentir porque consome muita energia e já estava cansada o suficiente empurrando o carrinho pelo shopping. Isso até a voz de Mufa me desestabilizar mais uma vez junto com sua cotovelada. "Han, aqueles ali não são a Spence e o Caleb?"

"Ai, caralha, Aria, isso dói! Você machucou o meu fígado, sabia?" Reclamei enquanto alisava meu dolorido fígado e conversava com ele. Afinal de contas, não é pela falta de noção da Meyer que ele iria se virar contra mim, ora essas, ainda temos muitos anos de álcool pela frente. Juntos, como o belo casal que somos. Como a sem vergonha safada que era, Mufa só revirou os olhos. Grande amiga da onça.

"Hanna, isso é sua costela, o seu fígado fica mais embaixo." Ela comentou se achando o próprio presidente dos EUA e bufei.

"O fígado é meu e eu sei onde ele fica, okay?" Resolvi jogar logo a real porque quem sabe dos meus órgãos sou eu, e num é porque ela é estranha, cheia de poesia em sua cabeça de vento e pega um professor que agora ela ia conhecer o meu corpinho. Só conhece ele quem eu deixo.

"Não exatamente, o fígado de todo mundo fica no mesmo lugar, Hanna, assim como as costelas." Ora, mas se ela queria guerra, ah, mas ela teria. Parei de empurrar o carrinho e cruzei os braços, me virando para ela.

"Gente, mas eu tenho certeza de que são a Spencer e o menino Caleb! E eles estão com umas roupas diferentes, né? Meio rock'n'roll. Eu curti o estilo. E olha, ele tá afinando a guitarra, será que eles vão cantar ou o quê?"

"Er, ela realmente ficou muito bem com esses óculos de sol e com essa jaqueta de couro mesmo, pai. E eu gostei do estilo dele também..."

"Você está muito engraçadinha, Aria, haha, mas não me venha com essas aulas sobre autonomia porque eu não estou interes-"

"Anatomia, Han." Ora, mas que nervo dessa menina! Agora ela ia ter guerra! E ainda me olhava como se estivesse ganhando um concurso, essa abusada!

"Nossa, eu não sabia que a Spencer podia cantar! Deve ser maravilhoso, vamos assistir, pai e papai?" Ao fundo, eu ouvi a voz que não se calava nunca, mas resolvi ignorá-la. Claro que era bom demais para ser verdade essa menina estar calada assim, até agora. Além do mais, com a Aria me desafiando embaixo dos meus olhos (bem embaixo mesmo, já que ela era nanica como um brinquedo de lego), a faladeira poderia esperar.

"Você está me agredindo e implicando comigo, Aria, quer me dizer alguma coisa?" Perguntei descruzando os braços na frente dela e dedando o seu ombro, ela só revirou os olhos.

"Ora, eu estava chamando a sua atenção pro seu namorado e comentando onde ficam o fígado e as costelas, só isso." Rá, me chupa que era só isso.

"Mas é claro que não era só isso! Nunca é só isso vindo de você."

"Mentira que eles vão cantar essa música do Santana?! E ele toca guitarra muito bem, hein? Wow! Aposto que ele poderia entrar pro Glee. Na verdade, os dois." E ela continuava falando...

"E o que você está insinuando, Hanna?" Aria me perguntou com a mesma raiva que eu estava sentindo. Agora pode, ela se fazer de inocente! Rá! No cu do tatu.

"Man, it's a hot one

(cara, essa é quente)

Like seven inches from the midday sun

(é como estar a sete polegadas do sol do meio dia)

I hear you whisper and the words melt everyone

(eu ouço você sussurrar e suas palavras derretem a todos)

But you stay so cool

(mas você fica na sua)"

"Caleb, pelo amor de Deus! Você pode parar com essa mania feia de cantar toda vez que eu estou conversando com a Aria?! Mas que coisa irritante, caralha! Num posso nem conversar." Gritei, sem me virar. E era bom que ele me entendesse. Coisa mais chata isso, ficar interrompendo as conversas alheias. Eu, hein?! Vou ficar cantando quando ele a nerd ficarem de papinho também, cacete.

"Han, olha..." A voz de Mufa me chamou e seu dedo apontou alguma coisa no alto. Mas que porra era essa agora? Ela tava vendo o super homem ou o quê?!

"My muñequita, my Spanish harlem Mona Lisa

(minha bonequinha Minha Mona Lisa do Harlem Espanhol)

You're my reason for reason

(você é a razão da minha razão)

The step in my groove

(A cadência do meu balanço)"

"Ih, caceta, hein?! Agora é você, Mufa?! Mas que foi?! E ele com essa mania de cantar enquanto a gente conversa, olha que vou te contar, ainda vou perder a minha paciência com a amizade sem vergonha que ele tem com a Spencer..." Comentei gritando e a Ar ainda olhava pra mim e pro super homem voador pelos céus. Qual é o problema dessa gente?

"Shhhhhh!" Que raios que tá havendo aqui? Quem é essa pessoa abusada que estava me mandando calar a boca? Me virei em meus calcanhares para brigar com quem quer que seja esse sem vergonha e eis que me deparo com mais de trinta pessoas me olhando torto e olhando pra alto. Inclusive os Berries todos. Mas que gente mais babaca era essa?!

"And if you say this life ain't good enough

(e se você dissesse que a vida não é boa o suficiente)

I would give my world to lift you up

(eu daria o meu mundo pra te levantar)

I could change my life to better suit your mood

(eu poderia mudar toda a minha vida para me adaptar ao seu estilo)

Cause you're so smooth

(porque você é incrível)"

E por que o Caleb não calava a boca, meu Deus?! Eu já tinha parado de discutir com a Mufa. Contra a minha vontade, tudo bem, mas mesmo assim, ué? Por que ele continuava cantando? Eis que olhei pra minha estranha melhor amiga do meu lado e segui seus olhos em busca do super homem nos céus, mas qual não seria a minha surpresa ao ver o meu namorado no segundo andar daquele shopping, com sua usual calça rasgada, camisa presa de mais cedo e um óculos de sol segurando uma guitarra e cantando em um microfone. Eu só posso estar variando devido ao cansaço. Num tem explicação isso.

"And it's just like the ocean under the moon

(e é como o oceano sob a lua)

Well that's the same as the emotion that I get from you

(bem, é a mesma emoção que eu recebo de você)

You got the kind of lovin that can be so smooth

(você tem esse jeito de amar tão incrível)

Give me your heart, make it real

(me dê o seu coração, faça acontecer)

Or else forget about it

(ou vamos esquecer tudo)"

E lá estava ele, levantando os óculos de sol e me olhando fundo nos olhos enquanto cantava, fazendo aquilo tudo parecer uma serenata e não uma loucura. Mas confesso que a voz dele estava tão sexy e rouca e seus olhos estavam colados em mim o tempo todo e eu me senti um pouco envergonhada e orgulhosa ao mesmo tempo, já que, se há menos de um minuto atrás os desocupados desse shopping estavam me mandando calar a boca, agora eles estavam tentando adivinhar pra quem o rock star estava cantando e, vejam só! Era pra mim! Tomem essa, inúteis! Só parei de cantar vitória ao ver o seu sorriso sedutor e as entradas da guitarra que, bem, mexeram comigo... Enfim, é o clima esquentou, por assim dizer.

"I'll tell you one thing

(bem, vou lhe dizer uma coisa)

If you would leave it'd be a crying shame

(se você partisse seria lastimável)

In every breath and every word I hear your name calling me out

(cada respiração e cada palavra eu ouço você chamando meu nome)

Out from the barrio, you hear my rhythm on the radio

(por todo o bairro, você ouve meu ritmo no seu radio)

You feel the turning of the world so soft and slow

(você sente o mundo girando tão suave e lentamente)

Turning you round and round

(fazendo você girar e girar)"

Mas agora vocês não vão acreditar no que os meus olhos estavam vendo! Do lado do meu namorado, se balançando com um microfone e uma garrafa de uísque na mão estava ela, a Cérebro, numa versão obscura e sinistra de roqueira do The Runnaways. Sério. O que fizeram com ela? Olhei para a Mufa que me olhou ao mesmo tempo e com sua mesma cara de origami de sempre (e talvez e apenas talvez, eu estivesse vestindo uma igual), vendo que não encontraria respostas em mim e nem eu nela, nós nos viramos pra continuar nossa análise da situação. Voltando a Jane Bonde, ela usava uma jaqueta de couro preta, uma camisa branca meio rabiscada por baixo, uma calça jeans rasgada e umas botas de cano alto. Ah sim, sem contar com os óculos de sol dentro do shopping. O que esse povo andou tomando? Ah sim, andaram bebendo o uísque que estava na outra mão da Spence. Deus do céu! Como eu pude deixá-los sozinhos?!

"And if you say this life ain't good enough

(e se você dissesse que a vida não é boa o suficiente)

I would give my world to lift you up

(eu daria o meu mundo pra te levantar)

I could change my life to better suit your mood

(eu poderia mudar toda a minha vida para me adaptar ao seu estilo)

Cause you're so smooth

(porque você é incrível)"

E lá continuava ela cantando, nos olhando e sorrindo arrastado, provavelmente pela quantidade de bebida que ela acabou de ingerir. Mas mesmo vendo-a fazendo essa pose de Madonna nos tempos do pop obscuro, não barrava olhar para a Rachel que só faltava babar ao olhá-la cantar. Miséria! Isso num vai prestar. Tudo bem, eu sei que a prancha de surf tinha uma voz realmente sexy (eu tenho ouvidos, okay?) e ela poderia fazer uma pessoa tremer só fazendo bom uso dela. O que ela estava fazendo agora e bem, estava tendo efeito. E o melhor de tudo! Não era só a Rachel que estava obscenamente se afogando em baba no meio da praça do shopping, acreditem! Tinham mais meninas que estavam se contorcendo ouvindo a nerd cantar.

"É impressão minha ou a Spence poderia levar metade dessas meninas pra cama?" Perguntei baixo para a Mufa que se assustou e quase deu um salto, me olhando com cara de culpa. Caralhos que me fodam! Ela também?! "Até você, Aria?! Você só pode estar me foden-" Antes que eu pudesse terminar minha frase, ela estava com a mão na minha boca, sussurrando.

"Fala baixo, Han."

"Você também daria pra nerd?!" Resolvi ir direto ao ponto antes que ela morresse pálida na minha frente. Mas que abuso! Já num bastava a Emily e a Rachel e metade da população feminina nesse shopping, até a Mufa tinha que cair nos encantos da nerd? Isso era injusto!

"Credo, Han, só tô achando a Spence sexy, só isso." Claro que sua boca sempre cheia de palavras inventaria uma desculpa esfarrapada. Cruzei os braços.

"And it's just like the ocean under the moon

(e é como o oceano sob a lua)

Well that's the same as the emotion that I get from you

(bem, é a mesma emoção que eu recebo de você)

You got the kind of lovin that can be so smooth

(você tem esse jeito de amar tão incrível)

Give me your heart, make it real

(me dê o seu coração, faça acontecer)

Or else forget about it

(ou vamos esquecer tudo)"

"Sei, Aria, sei." Revirei os olhos para ela enquanto a Sherlock ia fazendo a mágica de abaixar as calças de todas as meninas que lá estavam. Mas a pior era a Rachel, que estava mordendo a boca e rindo como uma perturbada. Bom, algumas das outras estavam gritando também. Gente, alguém tire essa menina do armário, por favor? Já está chato de lidar com isso.

"Por que, Han, com ciúmes?" Acreditem ou não, isso foi Mufa que resolveu brincar de ser engraçada. Nossa! Como eu estava rindo, uhhh. Nanica abusada.

"Morrendo." Nem me dei ao trabalho de olhá-la, só continuei vendo a multidão de mulheres quase se jogando aos pés da sexy simbol do momento.

"Percebi." Ignorei a tentativa de humor da Aria e continuei olhando para frente e prestando atenção nos dois. Assim eu ganhava mais. Dito isso, a nova dupla do momento se entreolhou e resolveram cantar e piscar um para o outro... Mas isso num era só uísque não, tinha algum ilícito ali no meio, certeza!

"And it's just like the ocean under the moon

(e é como o oceano sob a lua)

Well that's the same as the emotion that I get from you

(bem, é a mesma emoção que eu recebo de você)

You got the kind of lovin that can be so smooth

(você tem esse jeito de amar tão incrível)

Give me your heart, make it real

(me dê o seu coração, faça acontecer)

Or else forget about it

(ou vamos esquecer tudo)"

E eis que meu namorado resolveu solar na guitarra e os dois fecharam a última estrofe se olhando e cantando (a Spence ainda segurava seu amor engarrafado), o que fez o shopping todo cantar junto e bater palmas, incluindo os Berries e a Mufa do meu lado. Revirei os olhos pra todos e resolvi me focar no meu namorado, que me piscava ao final da música e bem... aí sim eu comecei a aplaudir, claro. As pessoas fazem isso no final, né? Mas a estranhice não para parou por aí, minha gente bronzeada! Não, não! Eis que de alguma tumba do inferno, me surge uma pirigótica pintada como uma galinha de macumba e abraça a prancha de surfe por um bom e longo tempo e alisa suas costas. Ai, meu caralho! O que será que eu perdi? De canto de olho, olhei para a Rachel que só faltava voar e esganar a menina que já era estranha o suficiente sem precisar apanhar pra isso, mas bem. Logo depois, a mesma boneca sexual abraçou o meu namorado e sussurrou algo em seu ouvido depois se virou, claramente secando a nossa já seca líder antes de voltar pro laboratório. Que porra era aquela?

"Ei, meninas!" Meu namorado gritou e resolveu encapar seu brinquedo (calma, gente, eu estou falando da guitarra), enquanto a Spence tomava longos goles de uísque diretamente na garrafa. Esses dois só podem estar possuídos, não é possível. Assim que terminou o seu trabalho, ele pegou sua guitarra e jogou-a no ombro e segurou o amplificador em uma mão, enquanto carregava os restos mortais da Spence até a gente. Olhei para a Mufa que deu de ombros e olhou pra frente em estado de choque.

"Vamos, meninas, nós podemos encontrá-los no carro." O Sr. BlackBerry disse e resolvemos segui-los, afinal de contas, não tinha muito o que fazer além disso, né? Bom, entre 'trancos e solavancos'* conseguimos chegar sãos e salvos lá, ainda empurrando os tais dos carrinhos. Bem, nós chegamos, mas a Spence foi um assunto completamente diferente. Quer dizer, não porque a nerduxa tenha caído de cara no chão (infelizmente, porque eu iria rir até perder o ar) apesar de estar mais alta que o sol, mas por sua gostosura ter sido agarrada pelo meio do caminho e ter conquistado uma multidão (okay, não exatamente) de fãs. Mulheres, obviamente. Sério, ela fingir ser hétero está fazendo mal aos meus olhos.

"Que porra foi essa, vocês dois?!" Falei abrindo o mar de sapatas sem vergonha assim que os avistei com a cara mais lavada (em álcool) do mundo se sentindo os rock stars parados do lado da máquina mortífera da Olívia Palito. Os dois, claro, só me sorriram como os sem vergonha que são e meu namorado veio me agarrar e me beijar no meio do estacionamento. Certo que ele beija bem, mas nem isso vai me impedir de passar o meu sermão do dia, que é: "Que caralho de pessoa fica bêbada em plenas quatro da tarde?!" Perguntei olhando o meu namorado que apenas gargalhou, mas qual não foi a minha surpresa ao ver a nerd arrastando palavras para me responder? É, isso é 2012 e ninguém vai se salvar.

"Tá cedo pra quem, Han?!" Não acreditando em meus olhos, meus ouvidos e nem no cheiro de posto de gasolina que vinha desses dois, só me virei para Mufa que também me olhava incrédula.

"É sério que ela tá citando Marissa Cooper de O. C.?" Estranhamente fazendo sentido, Meyer me perguntou e foi minha vez de arregalar os olhos em pavor. O que estava acontecendo ali?

"O que você deu pra ela, Caleb? Como você pode dar bebida assim pra Spence a essa hora do dia? O que vocês dois tem na cabeça?" Eu estava gritando com meu namorado e ele gargalhava guardando a guitarra e balançava a cabeça. Qual é o problema desses dois? Olhei para a nerd para saber se ela estava um pouco melhor, mas lá estava ela, flertando com uma menina desconhecida, o que fez a Rachel marchar até lá e separá-las, reclamando algo com a menina que, assustada por ouvir tantas palavras e frases sem fim, só saiu fugindo. O que não impediu a nanica de se virar pra Spence e...

"Você é tão pequenininha, eu consigo te pegar no colo, sabia?" A última coisa que ela disse antes de segurar a, agora muda, menina pela cintura e levantá-la até a sua altura. Não, ela só podia estar me sacaneando se ia beijar essa menina no meio do estacionamento do shopping com o meu namorado bêbado rindo como uma hiena e todos em estado de choque demais pra se mover. "Pronto, viu? Da minha altura." Com seu usual sorriso bagaceiro, lá estava ela, sem vergonha e flertando com a menina que, pela primeira vez na história do mundo, ficou calada por mais de trinta segundos. "Como está se sentindo mais alta, Raaach?" Aquilo era um show de horrores, dos mais tenebrosos possíveis e ninguém conseguia se mover e tomar atitude que fosse. Ficamos apenas vendo a nerd abraçar a pouca perna que a abraçava de volta (choque é o caralho que essa menina tá, o nome disso é pouca vergonhice) e sorrir para ela, ainda de óculos de sol. Claro que 'desgraça pouca é sacanagem'*, então para fechar essa visão cretina, Caleb parou de rir, abriu a mala do carro, guardou seu amplificador e tirou uma outra coisa encapada que descobrimos mais tarde ser um violão. Ah, mas eles só podem estar me sacaneando! E o pior! Não era só ele que estava fazendo da minha vida um inferno na terra, a Frank Sinatra estava balançando a menina e resolveu cantar e fazer meu namorado acompanhá-la na melodia. Que diabo de dia é esse, meu Deus?!

"Well, it's a big big city and it's always the same

(bem, esta é uma cidade enorme e é sempre a mesma)

Can never be too pretty tell me you your name

(não poderia ser tão bonita, diga-me seu nome)

Is it out of line if I were so bold to say "Would you be mine"?

(seria deselegante se eu fosse corajosa o suficiente pra dizer "você seria minha"?)"

E lá estava a avassaladora Hastings sussurrando pra sua nova vítima ao som da viola do meu namorado. E bem, se a menina que estava presa pela cintura já se sentia flutuando com a atenção daquela bêbada sem vergonha, agora tenho certeza de que ela estava quase vivenciando um ataque cardíaco ao ouvir aquela voz saliente de atendente de tele-sexo. Caralho, por que logo eu preciso passar por isso? A menina não sabia se beijava a pilastra, se ria como uma aloprada, se acabava se desmanchando pelo ar...

"Because I may be a beggar and you maybe the queen

(porque eu talvez seja uma pedinte e você talvez a rainha)

I know I maybe on a downer am still ready to dream

(sei que talvez possa estar deprimida, eu ainda estou pronta para sonhar)

Now it's 3 o'clock, the time is just the time it takes for you to talk

(agora são 3 horas, é justamente o tempo que você leva pra falar)"

Depois de rodar a menina pela cintura como se estivesse possuída, a nerd abaixou a cabeça no pescoço da pobre coitada e continuou sussurrando essa cantoria desonrada no ouvido da nanica que, de boba nem tinha nada, enlaçou cintura da nossa pobre (e estou começando a achar que ela merece mesmo essa falastrona) líder com as pernas e abraçou mais apertado, provavelmente querendo se aproveitar de seu estado louca-do-cu-de-bebida. Claro que a cantarolante não se incomodou e continuou a fazer o seu trabalho, ou seja, cantar mais.

"So if you're lonely why'd you say you're not lonely?

(então se você está sozinha, por que você diz que não está sozinha?)

Oh you're a silly girl, I know I heard, it so

(oh, você é uma menina tola, eu ouvi dizer)

It's just like you to come and go

(que é típico o seu vir e ir)

You know me, no, you don't even know me

(e me conhecer... você sequer me conhece)

You're so sweet to try, oh my, you caught my eye

(você é doce o suficiente pra tentar, oh Deus, você chamou minha atenção)

A girl like you's just irresistible

(uma garota como você é simplesmente irresistível)"

Sem o menor pudor e no meio de um estacionamento cheio de pessoas que tinham família e adorariam não ver aquilo, as duas continuaram agarradas como coalas. Ou melhor, a Rachel continuou segurando a bêbada com força (e não sei como essas duas não caíram na porra do chão!) e a cantora de bordel afastou o rosto do pescoço da menina pra rir e continuar a envergonhar a minha pessoa a níveis nunca antes vistos. Certo, eu já roubei um óculos de sol no shopping, já parei na delegacia e tive que voltar pra devolvê-lo, mas acreditem em mim, nem isso era tão embaraçoso quando assistir a essa cena sem conseguir porrá-las com uma barra de ferro. E o pior de tudo, a Spence até que eu entendo, porque ela bebe e fica assim, flertando até com os postes e piranhando como se o mundo fosse acabar em castidade, mas aquela menina não, ela estava rindo e feliz e acariciava a cara de pau da nerd com uma das mãos que não estava agarrando-a e, meu Deus, não! Ela não pode beijar a Jane Bonde aqui, não pode e é contra a lei. Sem me dar por mim, eu segurei a mão da Mufa e fechei os olhos porque não queria ver essa cena, mas algo me chamou a atenção.

"Rachel?! Que porra?" Uma voz foi a única coisa que ouvi antes de abrir os olhos e me deparar com um cenário completamente novo. Como se a Spence fosse, na verdade, o Voldemort, a sacana falastrona deu um salto de seu colo, o que fez com que nossa melhor amiga se desequilibrasse e se encostasse no carro até levantar os olhos e tirar os óculos de sol (porque estávamos dentro de um estacionamento, afinal de contas) a tempo de ver um soco voando em sua cara descarada, o que a fez cair em cima do meu namorado que se acabou batendo com o violão no Sr. WhiteBerry, que bem, voou em cima do Sr. BlackBerry e esse acabou empurrando um dos carrinhos em cima da Mufa, que estava segurando a minha mão e no final das contas, caímos eu e ela em cima do Caleb, agora sem violão. "Quem é você e o que você pensa que está fazendo com ela?!" Como estávamos todos no chão, não pude ver quem era esse cão de guarda, mas pude ver nossa melhor amiga esticando a mão. Mas essa porra dessa menina só pode estar alucinada se ela pensa que vai se apresentar pra garota que acabou e socá-la e isso vai acabar bem...

"Prazer, meu nome é Spencer Hastings e o seu é?" Bem, ela estava... Antes que eu pudesse fuzilar meu namorado com os olhos, ele saltou em suas pernas bêbadas, se jogou na frente na Spence e acabou tomando um soco no estômago e caindo ajoelhado no chão.

"Caleb!" Gente, alguém chama a defesa civil, esse monstro precisa ser pego! Gritei e tentei me levantar para ajudá-lo, mas de algum modo, acabei tropeçando na Ar e catei cavaco até parar em cima da guerreira Xena que só me arremessou pra cima da Mufa novamente. Puta que pariu, essa menina tá tomando esteróide pra cavalo, só pode ser!

"Ai, Han, o meu braço!" Aria gritou embaixo de mim e me esforcei pra me rolar de cima dela antes que a pobre acabasse se quebrando.

"Quinn! Para com isso, eu posso explicar!" A voz da falante menina demorou a fazer sua apresentação, mas enfim nos brindou com potência e a endemoniada menina parou e desistiu de quebrar a cara da Spence (já que ela já estava com a boca cortada) e olhou pro bibelô falante que estava olhando aquilo tudo aterrorizada.

"Vamos, Berry, eu tô ouvindo!" A tal da Quinn disse e comecei a praguejar meu dia, essa maldita viagem, essa nanica falastrona (não, dessa vez não era a Ar, que acabou cortando a mão quando caiu, coitada), essa família assustadora, meu namorado, a maldita bebida, a falta de estribeira da Spence e essa menina sem vergonha que tinha acabado um noivado, tinha uma namorada e estava dando em cima da minha melhor amiga em menos de doze horas. Ah, mas quem quer que seja essa Quinn, ela num tem o direito de ficar puta não. Porque quem estava revoltada era eu.

"Você ouviu a loira, pode explicar que porra é essa, Rachel." Foi minha vez de cruzar os braços e olhar pras duas. E recebi um olhar assustado da sem vergonha em questão e uma sobrancelha arqueada da loira pit bull. Ah, mas se ela acha que depois de ter sido assombrada pela cadela da Mona por mais de um ano só pra chegar nesse fim de mundo e sentir medo dela, ela estava muito, muito enganada. Pode vir quente que Hanna Marin está fervendo!