A\N: Não que ninguém leia isso, ou qualquer coisa que eu escrevo, mas eu prometi atualizar e cá estamos, ébria e em plena madrugada porque estou viajando em algumas horas e a vida é isso aí mesmo.
Os *'s são pra Hanna, mais uma vez, esculhambando tudo, inventando palavras e errando todos os ditados porque quem não tem teto de vidro faz o quê? Dorme em cama quente e não usa luz solar.
Nesse capítulo, aprendemos um pouco mais sobre a relação Faberry pelos olhos das Liars (e da Santana, que não poupa ninguém); temos a tia da Em fazendo a Aria questionar sua vida amorosa. A Hanna, obviamente, arrasando nos ditos populares; Caleb e Cérebro musicalmente juntos; Rachel devaneando sobre a Quinn enquanto cronograma toda sua vida amorosa. E Spencer sendo a Spencer de sempre, nerd, ébria e superprotetora.
Caso tenhamos erros, eu tô bêbada e escrevi bêbada, como passei toda a semana. (E sem ps3.) Além do mais, esse capítulo é simplesmente pra dar continuidade porque o próximo vai ter flashback da história Faberry, Quinn conhecendo Emily, Santana ficando de cara e os fugitivos tentando lidar com a mais difícil missão de se estabelecerem e voltarem a confiar em pessoas.
Os casais estão disponíveis pra mudança, caso queiram, por isso está tudo em aberto até aqui. E, aqui, vocês decidem. Até daria o meu telefone pra isso, mas meu whatsapp decidiu dar beijo e tchau pra vida também como já estou habituada. Enfim, podem decidir pelas reviews, caso ainda percam tempo lendo isso. Eu realmente adoraria saber a opinião de vocês porque nem sei como continuar esse desastre de trem, sério.
Enfim, pra quem lê a outra fic (meus pêsames por perderem tempo hábil), eu nem sei quando volto de viagem e por isso não posso prometer nada. Sobre nenhuma das duas, na verdade.
A música daqui é 'Rhiannon' do Fleetwood Mac (que é demais!) e ainda não tenho placa de vídeo então sem endereços. Mas o youtube ainda é público, minha gente mais maravilhosa!
PS.: O rating deu uma mudada porque o seguro morreu de velho, galere. Melhor garantir que remediar.
Xoxo, espero vê-los em breve! (Talvez duas semanas, se tudo der certo na viagem, mas desde quando dá?)
Obrigada Milla e Gamessupl por ainda lerem isso aqui. Eu gosto de ler a opinião de vocês e talz, por isso coloquei Spencer e Rachel e sei lá que ship doideira é esse, já que nunca vi ou li a respeito, mas é como diz o ditado, quem pariu Mateus que embale (no caso vocês). Sério.
Eu já me acostumei a não ter nada e a perder tudo, por isso, nem Marlene e nem R.M. podem me tirar qualquer coisa além da vida, que já tá meia bomba mesmo. Não tenho um pau pra atirar no bicho gente. Mas a vida é assim mesmo.
"Você só pode estar louca se acha que eu vou cair nessa, Berry!" A loira grunhiu com uma careta tão horrorosa que parecia ter chupado uma dúzia de limões. A dita nanica nem bambeou com a raiva explícita e apenas cruzou os braços.
Mufa ao meu lado olhava tudo apavorada. E eu queria mais é que a porra do circo pegasse fogo mesmo. Palhaçada dessa loira bisca vir batendo na minha melhor amiga.
"E o que você tem a dizer sobre o fato de você e a Tara estarem num encontro romântico no cinema, Quinn? Ou você acha que eu não a vi?" Sim, de um episódio de MMA, aquele encontro macabro tinha virado uma terapia de casal.
E lá estávamos eu e a Meyer no meio daquele terror todo. Obviamente, a Spence e o Caleb estavam muito ocupados bebendo como se tivessem fugido do Saara.
E sobrou pra nós duas ouvir e presenciar aquela miséria.
"Você que tá noiva do sem noção do Finn, Berry, não venha colocando a culpa em mim." A loira revoltada continuou e de repente, não mais que de repente, uma mão apertou sua cintura e uma menina de cabelo castanho (bastante parecida com a Mufa até, melhor mantê-la longe dessa loira maníaca) se materializou e ela se virou a tempo de ser beijada pela tal da Tara. Tara de tarada, só pode.
Para terminar de revirar meu estômago, a sinistra enfiou a língua na boca da loira (que estava boquiaberta com tamanha piranhice) e logo me virei para olhar a nanica falastrona. Ó Deus!
Uma visão de partir o coração de qualquer um, eu digo a vocês. Seus grandes e escuros olhos estavam cheios de lágrimas e ela mordia uma banda do beiço pra não chorar como uma mexicana. Coitada. Isso tudo enquanto os animais estavam quase se acasalando (por mais que a tal da loira she-ra estivesse sendo sexualmente abusada, não consegui sentir um fio de pena dela depois do soco que ela deu na nerduxa. Vaca).
A Spence, como bêbada alma que é, bambeou para perto da sofrida baixinha e abraçou-a por trás.
Claro que isso foi tudo o que precisou para fazer a menina se virar e se jogar em cima dela como uma sofrida atriz classe b e nossa cavalheiresca e sapatânica* líder resolveu pegá-la no colo novamente já que a loira fora da lei estava com os olhos fechados e não veria aquela baixaria tão cedo por estar fazendo coisas piores.
Cadê a segurança desse shopping pra prender essas lésbicas sem nível?
Algum passarinho deve tê-la avisado sobre o outro casal de caminhoneiras (sério, vou agarrar a Aria aqui a pouco, isso é bullying com os héteros) porque logo se afastou da tarada e deu um sorriso sem força pra ela.
Depois que a safada piscou de volta foi que ela se ligou na anã de jardim e se virou com uma cara de culpa que logo virou ódio assim que viu seu boneco de totó de volta ao colo da Olívia Palito.
Juro que ela deu um grunhido e ameaçou dar um passo na nossa direção, mas parei na frente. Tomar no cu se ela vai ficar chupando língua de uma menina na cara da linguaruda e ainda ia dar uma de boa moça? Só por cima do meu cadáver.
Uma cena desses filmes horríveis de ação porque a gente só ficou se encarando e ela tentou me assustar arqueando uma sobrancelha. Amadores. Fiz o mesmo e olhei-a de cima pra baixo por tanto tempo que até a boca sem fim cansou de se calar e voltou a nos assustar.
"Eu terminei com o Finn essa manhã, Quinn, só isso que eu iria te dizer mais tarde." Incrivelmente direto ao ponto, ela me chocou dizendo apenas uma frase. Acho que seu coração partido partiu a língua também.
Não que isso tenha feito qualquer diferença pro pitubull fêmea endereçado que só olhou com ainda mais raiva pra nossa líder.
"Tô vendo que tão logo você arrumou alguém, Rachel. Quer que eu te dê os parabéns agora ou daqui a pouco?" Foi dito com tanto desdém que até a prancha de surf se indignou, largou sua falante princesa e marchou em sua direção e lhe deu um empurrão surpresa (e surpreendentemente forte também) que a fez bambear. Jesus, Maria e José! E lá vai nossa líder botando pra foder! Sério, o que tá havendo nessa cidade?
A piranha que estava trepada no braço da loira veio andando e xingando e a Rachel correu pra tentar segurar a mais nova heroína (provavelmente virada na heroína). Mufa levou uma mão ao seu bocão aberto e os dois homens fizeram o mesmo. Gente, o bagulho tá ficando doido!
"Eu deveria fazer mais do que isso, mas esse é só pra você acordar e pensar no que está fazendo." Foi o que a nerduxa suspirou mais assustadoramente que o Voldemort apontando um dedo na cara da menina que tão logo vai mordê-lo fora (esse monstro). "Eu não aceito julgamentos da minha família e não vão ser os seus que eu vou passar a aceitar, como também não me desce o fato de você estar julgando a Rach depois de estar se agarrando com uma prostituta. Então se considere com sorte porque da próxima vez vai ser pra machucar."
Foi como ela fechou seu sermão com chave de ouro e a dita prostituta ficou puta (putas ficando putas, nada mais comum) e antes que sua loira fosse defender sua honra como nossa sapatanesca* competidora fez com o falante playomobil, ela já estava voando em cima da Spence e só foi impedida de terminar a arte que seu guarda-costas começou na cara da nossa melhor amiga pelo meu namorado que pulou na frente e fez uma barreira entre as três.
"Você vai se arrepender disso, vagabunda! Ah se vai!" A piranha estava gritando como um cachorro com raiva enquanto seu cavalheiro olhava da Rachel para a nerd com expressão nenhuma, de verdade. Talvez ela tivesse triste pelo fato de ter perdido sua língua infinita antes mesmo de tê-la conseguido e estava se decidindo entre continuar piranhando vida afora ou tentar reconquistá-la. Porque por mais desequilibrada que ela seja (o que é muito já), acho que pelo menos algo ela sentiu pela falastrona pra arrumar esse barraco todo. "Sai da minha frente, viado!"
A puta continuava gritando e eu já estava no meu limite para não arrebentar sua cara de vadia.
Do nosso lado, a linguaruda deu um sorriso triste e agradecido para a pilastra e apertou sua mão em apoio, que nem aquele cara que treinava a Hilary Swank em Menina de Ouro pra acalmá-la, acho eu.
Depois disso, sem nem ouvir mais todo o dicionário da sua garota de programa, a tal da Quinn se virou e foi embora sem se despedir ou chamar sua cadela, sendo observada pela pouca perna.
"Essa é a sua deixa, menina." Spence disse com uma voz séria e muito pausadamente para alguém que estava tão louca do cu quanto eu sei que ela estava. Deve ter sido possuída por um espírito de algum desses lutadores, tenho certeza.
Assim que viu que estava se debatendo sozinha e sua mulher tinha fugido em seu caminhão de volta pras trevas, a galinha parou de discutir com o Caleb e só fuzilou a magricela com os olhos.
Aquilo de se um olhar matasse, nossa Jane Bond teria morrido várias vezes hoje.
"Isso não vai ficar assim!" Foi o que sua boca suja gritou apontando pra todos logo depois de caçar seu rumo de volta pra alguma encruzilhada de onde ela fugiu.
Piranha.
Enfim sós! Acho que consegui ouvir todos suspirando aliviados depois disso. Mas o que me chamou atenção mesmo foi o sorriso devasso que meu namorado lançou pra Spence antes de dar uma golada funda na garrafa de uísque e passar pra ela que mudamente fez a mesma porra.
"Vocês só podem estar me fodendo!" Falei para os dois que infelizmente voltaram ao seu estado desgraçado e cheio de risadinha. Meu cu! "Me dá a porra da chave que eu dirijo, tô querendo morrer porque vocês são dois alcoólatras não." Bufei pra vara pau e ela arregalou os olhos em medo. Assim que eu gosto!
Isso antes de olhar pra nanica com cara de cachorro que caiu da mudança.
"Han, eu acho melhor você não dirigir..." Mufa, claro que seria ela, resolveu duvidar das minhas habilidades volantenescas* assim, na minha cara! Essa outra anã abusada! Mas antes que pudesse defender meus talentos de motorista, a boca de buraco negro decidiu voltar à competição de falação com força total.
"Eu posso dirigir o carro, se você estiver de acordo, Spence. Eu te prometo que tenho carteira e sou uma ótima e consciente motorista, nunca abusando da velocidade e respeitando todas as leis de trânsito. Inclusive, eu nunca fui multada e tenho um histórico completamente limpo, pode perguntar a qualquer um dos meus pais. Certo, pai e papai?" Meu santo Jesus Cristo!
Se ela correr dirigindo tanto quanto corre falando, essa menina tem que estar nas Nascar.
Atordoada de bebida e por ouvir tantas palavras juntas e amarradas, a nerd apenas concordou com a cabeça (para calar a boca da menina, só pode ter sido) e deu a chave pra ela pensando que, até mesmo se ela dirigir mal e a gente morrer, é bom que vamos ter silêncio na pós-vida.
Sua boca imperdoável se contentou em apenas arreganhar os dentes e beijar a bochecha da nerd depois de tal voto de confiança.
Me entreolhei com Mufa e meu namorado, ele dava risinhos baixos porque a bêbada heroína estava vermelha e com vergonha de ter aquela boca má tão perto da sua e Mufa estava boquiaberta e me olhando com sua usual cara de perdida de sempre.
E lá vou eu ter que aturar mais sapatonice.
"Caralhos que me fodam!" Foi o que eu disse depois de ler a mensagem gay e rancorosa da ex-prenha me intimando para uma conversa etílica porque aparentemente seu enfeite natalino tinha feito merda.
Quero dizer, mais uma merda, já que aquela ali não se contentou em beijar a boca de bueiro do marginal e namorar a diva competidora do Adrenalina Oral (bando de viado e sapatão junto), ainda ficou noiva da torre de Babel que atende pelo nome de Finnescrupuloso. Não me perguntem o porquê, eu também não sei.
Só espero que ela abra as pernas pra alguém antes da noite de núpcias ou ela estará fodidamente arrependida por passar o resto da sua miserável vida tendo que dar praquele ogro que precisa de mapa, bússola e GPS pra se guiar numa xota.
Eu, por exemplo, preferia ter passado o dia numa aula do Sr. Imbecil a ter tido o desprazer de dar praquela anta, mas que meus crimes sejam absolvidos.
"O que foi, San? Tá tudo bem?" Britt logo notou que sendo uma delícia lésbica como sou, é no mínimo assustador cogitar ser fodida por um caralho a essa altura do campeonato. Podem sentir inveja, perdedores, eu namoro a garota mais inteligente de Lima. Quiçá do mundo!
"Britt, nós temos que ir." Suspirei para ela e não vi um, mas dois bicos tristes me olhando de volta. Revirei os olhos para a Emo porque tenho nada a ver com sua vida desgraçada e azarada, eu já tinha que lidar com a cabeça rosa (graças a Deus não mais) e oca da minha iniamiga e isso contava como punição o suficiente. "Fabgay mandou uma mensagem falando que aconteceu algo com sua vitrola em miniatura e aparentemente ela precisa beber." Óbvio que precisa, para resolver estar apaixonada pela vociferante meio metro, ela precisa de muita cana nas ideias. É cada uma.
"San, não fale assim da Quinn e da Rach, elas são nossas amigas." Engoli um litro de saliva e me engasguei imaginando o inferno que não seria ser amiga da boca de sapo.
Deus me acuda. Recuperei o fôlego tão logo (mas as assombrosas imagens ainda povoarão meu pobre cérebro por um longo tempo) e suspirei fundo novamente.
"Que seja! Elas devem ter brigado porque a mensagem da Q. foi mais atravessada que boceta de prostituta." Depois dessa, a Emo tossiu como uma virgem e aposto dez pratas que fez o sinal da cruz e rezou umas três ave-marias em silêncio.
Menina fresca da porra.
"Oh Deus! Será que elas brigaram novamente?" Tomara Deus que a nossa ex-capitã e residente hello kitty revoltada (porque nem a Avril Lavigne usa mais rosa pra chocar a sociedade, proibiram o crepom rosa nas papelarias e todos deveriam seguir o exemplo) tenha aproveitado a briga e cortado um palmo de língua daquela boca sem fundo.
Vamos torcer pelo melhor.
Antes que pudesse abrir a boca, eis que a dita rebelde com causa (e ser apaixonada pela cantarolante estilista de Matusalém é uma delas) me enviou mais uma mensagem.
Ela terminou com o Finnútil, mas ela já estava abraçando outra galinha. Traz algo forte. –Q
"Quem são Quinn e Rachel?" Antes que pudesse grunhir mais e escrever que a culpa era toda dela por piranhar com qualquer vagabunda desclassificada pra se punir mais por suas péssimas escolhas amorosas, a Emo perguntou e me lembrei que sua azarenta figura ainda estava ali.
"Quinn é a outra loira do nosso grupo, nossa melhor amiga. Ela costumava ser a nossa capitã das líderes de torcida, mas ela se descobriu gay e assumiu que é apaixonada pela Rachel então ela tava numa fase bem rebelde e até pintou o cabelo de rosa. Por sorte a tinta não durou muito e ele já voltou ao normal." Britt explicou sorridente e a boca assassina ficou calada e se resumiu a balançar a cabeça positivamente. "E a Rach é a líder do Glee Club, um lugar com várias pessoas estranhas e que os outros consideram perdedores, mas eles são nossos amigos." Não meus! Valha-me Cristo! Que Deus me poupe de mais esse revés! A estranha ainda concordava e minha loira sorria como se aquilo fosse feliz. "Ah sim! E a Rach é vegana. E ouve músicas bem estranhas. Mas ela até que é legal."
A terceira afirmação é uma completa mentira, vão por mim.
"Enfim, Fabgay me disse que o hobbit terminou com o Finnseguro, mas já estava agarrando outro sapatão. E ela precisa de algo forte." Talvez uma dose de realidade.
Ou de cianureto. O que for mais viável.
"Que horror, San! Isso é péssimo! Ela deve estar arrasada!" Claro que estava, ver que até a farfalhante anã do showtunes tinha arrumado alguém e ela ainda estava com aquele projeto de exu que ela conheceu fumando orégano na frente da igreja é de matar qualquer mortal. "Vamos, meu amor! Ela precisa de nós!" Britt continuou e pensei que além de veneno e um papo com o Dr. Phil, nossa querida encrenqueira podia levar uma surra também, ela estava precisando disso. "Me desculpe, Emmie, mas nós podemos fazer algo amanhã, o que acha? Assim você conhece a Q.." Minha namorada disse sorrindo e a boca amaldiçoada ainda estava presa no lag, ou seja, concordando com tudo desde 78.
O fato de que eu seria obrigada a lidar com sua invisível e muda presença por todo o dia seguinte não me passou despercebido. Mas vamos lidar com um mal de cada vez.
E eu sempre posso ter uma pneumonia ou um câncer amanhã pra fugir desse mau agouro.
"Certo. Eu vou adorar ir com vocês." Óbvio que vai. "Bem, melhoras pras suas amigas e até amanhã." De novo eu tremi ao visualizar qualquer tipo de amizade com a elfa cantora. "Eu vou levá-las até a porta."
E foi o que fez. Depois de um abraço apertado e um beijo no rosto – cortesias da minha garota que tem dó de gente zoada –, ela resolveu testar as águas comigo e dei-lhe um aperto de mão. Rápido, limpo e bem distante da boca que ela usa pra matar suas vítimas como a Erva Venenosa.
Sou nova demais pra morrer. Ela me sorriu constrangida e balancei a cabeça. Que seja. Tem mais uma sapata azarada precisando dos meus ensinamentos de vida e é bom que ela aprenda que eu não sou mulher pra demonstrações de carinho.
Meu carinho eu expresso com álcool e olhe lá. Exceto com a Brittany. Mas ela já é exceção pra todas as minhas regras mesmo.
Fui marchando para o carro enquanto a B. saltitava logo atrás e a sapa James Dean enchia minha caixa de mensagens com coisas eu provavelmente vou excluir sem ler. Fogo no cu dessa gente doida!
Quando foi que eu concordei em ser psicóloga de alguém nessa merda? Tenho que rever esse meu contrato com a vida e acrescentar uns adendos aí. Tá tudo errado.
Depois de doze horas, um monólogo sobre a importância de cintos de segurança e de ter visto até uma velha mancando ultrapassar a Rachel no volante, nós, enfim, chegamos.
Porém, não se pode contar vitória antes do tempo, minha gente linda, pois parada na frente de nossa porta estava uma mulher de braços cruzados e atirando dardos pelos olhos.
Certo, o que a nerduxa fez pra esse ser humano?
Antes que eu pudesse tirar alguma informação útil de sua boca ainda cortada que engolia mais álcool que saliva no estilo Hanna Marin de ser, resolvemos todos descer e lidar com aquele dragão.
Mufa desceu primeiro, eu desci em seguida e meu namorado quase deu com sua cara bêbada no chão e tive que ouvir mais risinhos daquela dupla maligna. A nanica desceu e deu a volta para abrir a porta pra prancha de surf como um belo príncipe porque no estado que a Spence tava, até colocar um pé na frente do outro era uma luta.
"Pelo amor de Deus! Vocês não tem compromisso com nada não? Eu estou esperando aqui há pelo menos duas horas!" A sem educação disse como se algum de nós desse a mínima e me entreolhei com a Ar, que me olhava com sua cara de charada de sempre.
Quem capetas é essa mulher e o que ela estava fazendo ali se sentindo no direito de nos julgar?
"Quem é Spencer Hastings?" A mal humorada perguntou e uma risada da virgem foi a resposta seguida pelo meu namorado indicando a bêbada pra mulher.
Olha, eu vou dizer que o estado etílico da Spence num era nada louvável e eu sempre me orgulhei por adorar biritar e ter a mente aberta com os outros, mas a olhada diminutiva e a cara de nojo que aquela piranha velha fez ao ver nossa líder me enraiveceu até o último osso.
Quem essa vaca estava pensando que era pra olhar assim pra minha melhor amiga?
"E quem é você?" Antes que eu pudesse esculhambá-la por isso,a Rachel parou na frente da nossa Olivia Palito e cruzou os braços, tentando ser intimidadora.
A verdade é que ela parecia uma criança fazendo birra dado o seu tamanho. A vadia então arqueou uma sobrancelha e fez cara de surpresa.
Certo, o que essa doida queria? Será que a tal da Quinn chamou ela aqui pra terminar de bater na nossa amiga? Porque se for esse o caso, ela tá fodida porque estamos em maior número.
"Eu sou Christine, a tia da Em, e você me deu seu endereço mais cedo pra nós conversarmos sobre como serão as coisas, Spencer." Oh! Esse é a velha que achava que podia ditar as regras conosco. Me entreolhei com todos e o sorriso da dita bebum foi instantâneo ao ouvir da Em. "E você está bêbada?" Ela perguntou com desdém e fiz questão de fuzilá-la com os olhos.
Claro que a sem noção tava bêbada, até um cego veria seu estado terrível, mas não dá a ela o direito de olhar nossa amiga desse modo. Ah, mas não dava mesmo.
"Rachel e Caleb, levem a Spencer pra dentro. Eu e a Ar vamos conversar com essa moça." Disse para a falante, na verdade, já que os dois esponjas estavam sorrindo pra ela, mais felizes do que deveriam ao perceber que teríamos notícias da nossa sapata fugitiva.
Lerdos.
Mufa me concordou com a cabeça e cruzou os braços pra fazer cara feia pra mulher também.
"Mas peraí, Hanna! Eu quero saber como tá a Em! Ela está bem? Onde ela está?" Isso foi a nerd mais empolgada do que deveria depois de ter sido tratada tão mal. Era nessas horas que eu queria que ela estivesse sóbria, só pra colocar essa velha ridícula em seu devido lugar e parar de ficar de risinho pro inimigo.
Deus! Eu nunca imaginei que algum dia da vida eu iria sentir falta do mau humor dessa menina. É o fim dos tempos, só pode mesmo ser.
"Ela está ótima e, pelo visto, bem melhor do que você. Agora sobre onde ela está, isso é algo que eu não sei se você merece saber." Pera lá! Que porra era essa?
Antes que a Bebencer pudesse fazer bico, gargalhar ou qualquer coisa embaixo do sol (nunca se sabe em se tratando de bêbados), a Rachel abriu a porta e foi carregandoescoltando os dois pra dentro de casa (enquanto Caleb pegava seus novos brinquedos e mais algumas sacolas do carro na nerd) sob os olhares firmes daquela galinha velha. Ah mas ela vai se ver comigo.
"O que você quer?" Perguntei logo na cara dura porque não acabamos de cruzar meio país pra ouvir desaforo dessa sem noção. Mufa continuou com seu olhar reprovador para aquela bisca e bufou pra dar ênfase ao meu tiro certeiro.
"Discutir filosofia." Foi o que a bagaceira disse revirando os olhos e rangi os dentes. Cretina.
"Como pode ver, nós temos coisas mais importantes a fazer do que discutir filosofia nesse momento. Então, deixemos essa conversa pra outro dia." Ar disse toda séria e de olhos cerrados, já caminhando para a porta. Adoro.
"Vocês não querem saber como a dita 'melhor amiga' de vocês está?" Antes que Mufa pudesse abrir a porta, a sem vergonha disse usando aspas imaginárias. Revirei os olhos. Super ultrapassada. "Porque achei que vocês, diferente da alcoólatra da Spencer, se importavam mais com-"
"Se eu fosse você não terminaria essa frase." Aria disse rodopiando em seus pequenos calcanhares e devo admitir que senti certo medo de sua expressão.
Isso até ela ir caminhando lentamente na direção da velha como num daqueles filmes de faroeste. Eita caralha!
"Ora, menina, você não tem o direito-"
Antes que a ridícula pudesse terminar a frase, Meyer rosnou sarcástica e cruzou os braços. Era hora de ouvir um de seus monólogos.
Sim, apesar dos pesares, era em momentos como esse que super me orgulhava de chamá-la de melhor amiga.
"Não! É você que não tem o direito de vir aqui e ofender a Spence ou julgar o quanto nós nos importamos com a Em. Deus! Nós fizemos uma viagem de dez horas pra saber se ela está bem; viagem essa que a Spence dirigiu sozinha, madrugada adentro; nós dormimos num muquifo no meio do nada por duas horas pra vir parar nesse lugar; a Spence teve que exigir favores pra conseguir a chave dessa casa que é dos avós dela. Nós fomos fazer compras porque não tem um pão velho na geladeira e a companhia elétrica ainda não ligou a luz. A casa precisa ser pintada novamente e faxinada pra ser habitável e nós simplesmente largamos a escola, a nossa vida e as nossas famílias pra vir até aqui ouvir meia dúzia de desaforo seu." Isso ela falou apontando o dedo pra desequilibrada. Sorri por dentro. "Então não, Christine, que não tem o direito é você! Nem o direito de nos chantagear com informações e quer saber por quê? Porque não importa aonde e nem como, nós vamos descobrir onde a Emily está e vamos levá-la de volta, com ou sem a sua ajuda. A decisão é sua."
Não sei quem estava mais boquiaberta, se era eu ou a ancestral louca, mas a Ar fechou esse discurso polido e que exalava ódio por todos os lados se virando e caminhando até a porta novamente.
"Você está me ameaçando, menina? Porque eu devo lembrá-la que foi por minha causa que vocês chegaram até aqui, visto que a Emmie não se dignou a compartilhar essa informação com vocês. Então, se eu fosse você, eu mediria bem as palavras a partir de agora." Foi o que a velha tosca respondeu de braços cruzados.
E lá foi Mufa rodopiar novamente para o segundo round de ataque verbal. Eu confesso que tava adorando muito tudo aquilo. Coisa mais maravilhosa.
"Não, estou só te alertando. Não pense você que nós somos quatro adolescentes irresponsáveis que gostam de dirigir e se mudar por esporte e que simplesmente vão esquecer a amiga e ignorar o paradeiro dela porque você acha que é o certo. Então, se você realmente se preocupar com ela e quiser nossa cooperação, meça você muito bem as suas palavras."
Fechou seu sermão com um suspiro e um olhar que poderia matar mais que a tal da bomba hidráulica que a nerduxa me explicou no dia anterior (e que não fiz a menor questão de prestar atenção). Que orgulho da nanica!
Nos encaramos por um bom tempo, as três, enquanto a insana parecia pensar nas opções que tinha. Eu já estava bufando e querendo entrar pra pegar uma lixa porque faz o tempo passar mais rápido, mas acho que a doida é lerda então temos que esperar o tempo dela pra decidir e coisa e tal. O que é ridículo, era só concordar com a Aria e tudo funcionaria mais rápido, mas não! Ela tinha que atrasar tudo de propósito, essa vaca.
Quando se deu por vencida, suspirou e concordou com a cabeça olhando somente para Mufa.
"Okay, então eu vou lhes dar o benefício da dúvida e nós vamos conversar sobre o que está acontecendo com a Emily porque eu estou preocupada." Ela soltou de mau grado e pude ver minha baixinha preferida dando um sorrisinho miserável que faria a Ali levantar de seu túmulo só pra aplaudir.
Cruzei meus braços e me apoiei no carro da nerduxa. Não sei por que, mas algo me dizia que essa conversa não seria agradá-
"O que a Spencer fez pra minha sobrinha?" Oi? Meu assombro foi tão grande que tive que olhar pra Ar e vê-la encarando a mulher de olhos semicerrados e puro desprezo nos olhos.
"O que você está insinuando?" Voltando a marchar pra perto da desvairada, nossa nanica número um disse em uma pose que até seria assustadora, caso ela não fosse bem menor que a dita louca.
E menor que o resto da população do mundo. Salvo a Rachel, obviamente.
Vou ligar pra Branca de Neve e dizer que ela perdeu duas anãs pelas quebradas enquanto ela se divertia e comia maçãs claramente alucinógenas.
"Ora, é óbvio que sua amiguinha não é a pessoa mais confiável e pude saber da Em que ela realmente estava com medo de contatá-la. Por isso eu te pergunto novamente: O que-"
Antes que a escrota continuasse a destilar veneno pra cima de nossa líder espiritual, Aria marchou e parou a centímetros dela, com olhos assassinos e uma pose assustadora.
"Você não ouse!" Mufa vociferou como o Simba em sua última cena de rei da floresta. E confesso que pude ver a moça tremendo levemente de medo. Chupa essa, galinha velha! "Você não ouse julgar a minha melhor amiga e acusá-la de ter feito algo pra Em quando tudo que ela fez foi nos proteger. Não pense você que sua posição te dá algum direito a opinar e ofender a Spency porque a Em te disse meia dúzia de coisas que te fez maquinar teorias ridículas por conta própria. Eu te garanto algo aqui, Christine, a Spencer nunca-"
"Magoaria a Emily."
"Magoaria nenhuma de nós." Ar completou assim que a abusada resolveu interrompê-la.
Okay, não me levem a mal, mas aquele discurso em prol da nerduxa foi bem esquisito. Quero dizer, não que a Spencer não mereça ser protegida porque Deus sabe que, tanto quanto precisamos dela, ela precisa igualmente de nós por ter uma família tão filha duma puta (e isso me faz entender um cadinho a sua rebeldia e seu estado deplorável e encharcado em álcool), só que a Aria estava realmente vestindo a fantasia de mulher maravilha e vindo a seu socorro.
Coisa que eu meio que gostei e me senti mal.
Gostei pelo fato de a nerd realmente precisar de pessoas pra defendê-la. E me senti mal pelo fato de ela nunca ter tido ninguém além de nós.
A abusada, óbvio, não gostou nada daquela vibe de heroísmo toda e cerrou os olhos pra Mufa depois de encará-la de cima a baixo.
"Hum, pelo visto você e a Emmie dividem algo em comum." Foi o que ela disse se sentindo a voz da sabedoria. "Ou alguém."
Ao ouvir aquilo, Ar deu dois passos pra trás e passou a olhá-la em confusão. Com isso aí eu já tava mais habituada, pra ser sincera.
"O-o que?" E lá estava a nossa lerda nanica de volta, senhoras e senhores.
"Depois desse seu discurso defensivo até demais, eu a aconselharia a reavaliar os seus sentimentos, garota, eu creio que você-"
"Eu te aconselho a dar o fora daqui, minha senhora! Se o seu objetivo era nos ofender e jogar coisas na nossa cara, o caminho de volta te espera." Estava na minha vez de defender meus amigos e pela cara de pavor da Mufa, percebi que seus muitos argumentos e teorias tinham ido às compras enquanto aquela vaca destilava seu veneno sorrindo cheia de si.
Pelo menos a louca resolveu me olhar naquele momento. E de canto de olho, eu via uma Aria pálida e branca como as neves.
"Pensei que fôssemos trabalhar em equipe." A cretina desconversou e caminhei na direção da minha melhor amiga que se perdeu em alguma viagem na maionese. Coloquei a mão em seu ombro pra que soubesse que, bem, ela era louca, mas eu a amava assim mesmo.
"Me dê dois bons motivos pra isso, porque de onde eu estou, você não fez além de vir aqui e nos ofender-"
"Eu só ofendi a Spencer." Olha a audácia dessa ridícula! Achando que porque ela só ofendeu a nerduxa tudo estava bem entre nós. Ah mas ela não perdia por- "Mas a sua amiga aqui não consegue lidar com verdades." Cadela piranha!
"Boa volta pra casa, nosso assunto acabou aqui." Falei assim que palavras menos ofensivas me vieram em mente e quando senti os ombros de Mufa tremerem em raiva e realmente, eu estava cansada da viagem, a casa estava sem luz, eu tinha dois bêbados pra tomar conta, compras pra descarregar e duas nanicas pra interrogar.
E aparentemente, pelos mesmos motivos. A primeira e única presidenta Spencer Hastings.
"Eu só quero saber se é dessa Spencer que a Emmie sente medo. Só isso." A mulher murmurou depois que nos viramos. Ou melhor, eu me virei e reboquei a Meyer a fazer o mesmo.
Suspirei fundo antes de me virar pra respondê-la.
A essa altura, eu só queria que aqueles dois tivessem deixado um bocado de birita pra mim. Ou o álcool em gel que a gente comprou iria entrar pra jogo.
"Não, não é de nenhum de nós. Na verdade, o fato de Spencer estar bêbada agora se deve muito ao fato de ela ter passado por isso junto conosco e, infelizmente nem todas as pessoas sabem lidar com sentimentos." Pois vejam vocês como sou a voz da razão e fui até que educada com essa caduca que não merecia nada além de um ganho de direita.
A cereja do bolo ficou por ela estar encarando Mufa com um olhar de curiosidade e algo parecido com pena. Que porra?
"Entendo. Desculpa por tê-las tratado tão mal, mas quando minha sobrinha faz uma viagem de dez horas e chega no meio da noite no meu portão, eu não posso deixar de me preocupar." Bem, pelo menos ali a mulher parecia sinceramente arrependida e olhou para baixo, tirando um cartão do bolso. "Esse daqui é o meu número pra caso queiram me ligar e saber da Emmie. Eu não vou falar nada disso pra ela e espero que façam o mesmo." Cerrei os olhos pra essa peste, lá vamos nós de novo. "Não estou pedindo isso por mim, mas por ela. Se ela fugiu de Rosewood sem dizer nada a ninguém e nem a vocês, é porque algo realmente assustador está acontecendo e eu não quero correr o risco de ela fugir daqui também. Sabe Deus pra onde ela iria."
Okay, até que fazia sentido e, no ruim e no pior, acredito que minha mãe também teria tomado a mesma atitude. Na verdade, a mãe de todos nós.
Exceto a do meu namorado que o largou como um peso morto e da nerduxa que se importava mais com seus clientes chave de cadeia do que com a própria filha. O que quer dizer algo sobre a recente amizade bagaceira e etílica desses dois.
Enfim, a mulher estava esperando uma resposta e, pelo andar da cavalaria*, não viria da boca da Mufa.
"Eu só tenho uma condição." Disse pra ela no meu melhor tom mafioso.
Porque a Olivia Palito realmente me fez assistir aquele tal de Poderoso Chefão quando entrou numa paranoia de sua família ser mafiosa pelo fato de o promíscuo do seu pai ter tido um caso com a vagaba da mãe da Ali e suspeitar poder ser irmã da nossa falecida amiga. Coisa de doido, mas vindo daqueles dois urubus, nada era impossível.
Ela assentiu com a cabeça com um leve 'prossiga'. Ora, ora, não estamos educados nessa fina noite de sábado?
"Eu quero que você nos diga como a Em tá, se tem feito amigos, se conheceu alguém, se já te contou sobre o que a fez fugir e coisas do tipo." Sua resposta foi uma sobrancelha arqueada. "Não preciso jogar na sua cara que nós sabemos o porquê de ela fugido, porque nós estávamos lá." Ali a mulher (e sinto umas vibes bem contraditórias vindo dela) me olhou assustada e ameaçou abrir a boca. "Mas isso é algo que ela precisa confiar em você e dizer. Nós somos amigas dela, não suas."
Um sorriso com um quê de orgulho foi sua resposta seguido por um aceno positivo de cabeça. E, depois de anos estagnada em sua mente louca, Meyer suspirou fundo e passou a mão nas têmporas em alívio.
"E como vocês se chamam?" Seu sorriso orgulhoso permaneceu ali e fiz questão de me introduzir e dar meu telefone pra ela. Porque eu definitivamente não queria aquela mulher, por mais parecida que fosse com dona Ashley Marin, esculhambando a Spence por sua primeira impressão errada.
Mufa também se introduziu, mas não deu seu número e apenas encarou a mão esticada da mulher por longos segundos. Vixe! Ótima hora pra se ser deselegante.
A mulher nem se ligou nisso e forçou um sorriso e olhos cerrados pra Ar que olhava maniacamente para todos os lados como se louca estivesse tentando ler seus pensamentos no seu olhar.
Não podia culpá-la já que isso era realmente fácil. A Aria era a menina mais fácil de ser lida e mentia mal que só, tadinha. Sei nem como os pais dela nunca desconfiaram do Sr. Fitz antes de tudo estourar. Acho que só mesmo a minha mãe caiu na mentira de achar que ela era a –A.
Como se a Mufa, sendo vegetariana, fosse ameaçar alguma vida com um garfo, menos ainda com um celular.
Enfim, suspirei aliviada quando mais aquele transtorno parecia ter terminado de um modo até que civilizado.
Mas, por favor, foquem-se no 'parecia'.
"Acho que você poderia usar um drink, Aria, você me parece em conflito."
Olhei para trás assim que ouvi a mulher sem noção incentivando minha melhor amiga no rumo do alcoolismo já liderado pelo meu namorado e a Cérebro. Que cacetes?
Ela não era católica apostoradora* e romana julgando a nossa líder espiritual por estar mais embriagada que a Amy Winehouse em fim de carreira, como poderia querer que a Ar seguisse pelo mesmo caminho?
Me virei para olhar a Ar e dizer que sim, beber é sempre a melhor resposta, mas ela não precisava começar esse caminho sem volta caso não tivesse com vontade e eis que me deparo com uma Mufa de dentes trincados, respirando fundo e com a testa encostada na parede de casa.
Sério, alguém me conta o que eu perdi!
Que porra essa cidade estava fazendo com a gente?
"Desembucha, Q!" Falei pra Juno assim que entramos pela porta de sua casa e me deparei com uma lastimável cena.
Ela tinha matado duas garrafas de vodca e não tinha sobrado nada pra mim.
Tudo bem que tinha uns adendos aí, tipo: ela estar só de top, deitada no sofá com o ebó que ela fez questão de invocar numa roda de macumba africana em cima dela passando suas mãos de polvo por todo o corpo da nossa ex-capitã.
Cena mais desgostosa não poderia haver. Tanto que minha namorada escondeu o rosto no meu pescoço pra não ter que lidar com aquele show de horrores.
Limpei a garganta como o Pavarotti e olhei com raiva praquela menina sem futuro que estava arrastando Fabgay para o seu mesmo buraco.
A resposta do exu foi apenas se virar e dar um sorriso atravessado quase me fazendo virar em meus calcanhares e deixar aquele casal assombrado se pegando porque eu poderia estar fazendo coisas muito melhores ao invés de ser recebida por aquele pesadelo e ainda ter que ouvi-la falar sobre RuPaul na mesma noite.
Mas eu infelizmente me importo com ela e, como já tava ali mesmo, não ia passar a oportunidade de ofender aquela oferenda mal despachada.
"Vocês tem dez segundos pra se soltarem e eu estou contando." Vociferei e pude ver as duas revirando os olhos de suas posições indecentes no sofá.
Depois dessa cena, eu vou precisar de mais dez anos de terapia para me livrar de mais esse trauma.
Como fui ignorada pelo casal e isso é algo que eu odeio, apenas rosnei baixo depois de ouvir minha namorada suspirar em pesar.
Tô dizendo que aquela cena fere até a mais inocente das pessoas. Nesse caso, a Britt.
Na verdade, elas ainda decidiram se alisar mais e a assombração ameaçou tirar as calças de uma Fabgay completamente louca do cu de álcool. A dita sapata loira em questão resolveu rir salientemente para aquela cobaia humana e respirei por dentes trincados.
"Quando sair, fecha a porta." Foi o que o estorvo disse sorridente e mordendo o pescoço da loira imbecil que pareceu gostar disso. Mas visto que aquela mula rebelde não era a mais forte bêbada dessa terra (se o fato de ela ter engravidado depois de duas long necks de birita quisesse dizer algo) e contávamos com uma garrafa seca e outra quase no fim, então não sabia diferenciar se a sapata idiota estava realmente gostando ou só porrada demais pra diferenciar. "A menos que vocês queiram participar..."
Sim, isso foi dito pela boca de bueiro e, caso minha namorada não tivesse me segurado com uma força sobre-humana, ela estaria sem metade dos dentes na boca a essa hora.
Até a Janis Joplin se surpreendeu com aquilo e passou a encará-la com sua cara de origami de sempre.
Pra vocês verem, quanto mais no alto da pirâmide, maior a queda.
(E que Deus me perdoe, mas até a Berry era melhor que essa menina. Pelo menos com a vitrola viva, a Fabgay teria um futuro, diferente de com esse demônio que fugiu do sétimo inferno. No máximo, uma infinidade de DSTs e digo a vocês que existiam métodos melhores de contraí-las.)
E eu até teria feito algo, caso as duas não tivessem voltado a se pegar loucamente. E de novo me traumatizando mais do que toda a saga de Chucky, o brinquedo assassino.
Rangi os dentes e me virei para Britt que me olhava triste e encarava a porta que nos salvaria daquela tortura. É, ela estava certa. Não adianta tentar ajudar ninguém que não quer ajudado.
Mas como o foda-se é sempre rápido e por conta da casa, resolvi ir embora e me despedir em grande estilo.
Afinal de contas, eu poderia estar fazendo coisas muito melhores do que vendo aquela putaria depois de receber milhares de mensagens que, como tinha dito mais cedo, nem me dei ao trabalho de abrir.
E esse, aparentemente, foi o meu erro. Caso eu tivesse me dado ao infortúnio de lê-las, teria me poupado dessa cena nefasta.
"Essa foi a última vez que eu vim num chamado seu pra tentar enfiar alguma coisa na sua cabeça oca, prenha." Falei por dentes trincados e pude vê-la me encarando com raiva enquanto a sanguessuga chupava seu pescoço. Isso que é estar no clima de sexo com alguém.
Se bem que eu nem posso culpá-la porque aquela experiência humana que se encontrava em cima dela era realmente amaldiçoada.
Óbvio, depois disso, ela agarrou aquela boca podre e resolveu beijá-la pra me assustar e me fazer perder uma semana de sono. Revirei os olhos e caminhei pra porta.
Pelo menos, eu tinha uma garrafa de vodca pra beber com a Britt enquanto ela decidia assistir qualquer desenho que eu já tivesse assistido mil vezes e cantaria todas as músicas pra ela.
Cada um tem a mulher que merece.
"Eu realmente espero que a nova garota da Berry seja melhor do que você, Fabray. Mas de onde eu estou, isso nem é muito difícil." Terminei antes de fechar a porta e fui caminhando pro carro com uma raiva que me faria ficar verde.
No caso de eu já ter sido atingida por uma onda de radioatividade como o Hulk, eu quis dizer.
Isto é, até a Britt me parar e me dar um beijo surpresa e de tirar o fôlego. Como sempre fez e sempre fará.
Olhei-a com uma expressão surpresa (e talvez apaixonada, mas só Deus pode me julgar) e ela me sorriu e me abraçou.
"A gente precisa dar um tempo pra Q. conseguir chegar até a gente." Foi sua resposta sorridente como se nada mais normal houvesse e olhei-a abobada.
Claro que minha namorava estava certa mais uma vez, e pude ver uma certa loira descabelada correndo sem blusa e sem sapato atrás de nós com uma expressão de raiva e indignação que eu estava acostumada até demais.
Olhei para a minha loira que estava serena e me deu um sorriso enquanto a Fabgay vociferava palavrões do outro lado da rua como se estivesse possuída pelo capiroto.
Coisa que ela só podia estar quando decidiu se comer com um de seus tranca-rua menos evoluídos.
Nada como namorar a garota mais inteligente do mundo. Sorri meu sorriso mais sincero pra ela e recebi um beijo de volta.
Isso até a princesa das trevas surgir atrás da loira tosca no mesmo visual aterrorizante e fazer um barraco com ela no meio da rua.
A discussão estava ótima, eu confesso, mas o melhor foi ter me lembrado da garrafa de vodca que eu tinha na bolsa.
Pois é, como não tinha pipoca, vai álcool mesmo.
Minha namorada me motivou a sentar no capô do meu jeep e ela sentou-se logo atrás de mim, me abraçando pela cintura enquanto eu abria nossa companheira para assistirmos ao espetáculo de terror que se desenrolava na nossa frente.
Tudo bem que não era exatamente um desenho da Disney e eu não estava com a minha loira no meu colo cantando qualquer coisa sobre amor.
E alguém vai ouvir e pagar por isso. Provavelmente a sapata revoltada e sem juízo do outro lado da rua.
Mas é como dizem, as coisas que nós não fazemos pelos amigos...
"Porcaria, tamos sem luz!" O rapaz, Caleb, pelo que eu entendi, resmungou depois da nona tentativa frustrada de tentar ligar o interruptor. Em vão.
A menina ao meu lado riu de um modo contagiante que logo o fez gargalhar e tive que soltar um sorriso.
Óbvio, eu não conhecia absolutamente nada sobre aquelas pessoas. Mas isso não quer dizer que eu não iria tentar.
Se eu, Rachel Berry, podia me orgulhar de alguma coisa, era do fato de dar sempre uma segunda chance para as pessoas provarem seu valor.
E, infelizmente, algumas vezes eu dava chances até demais. Como com ela. Mas não pensarei nisso.
"É, acho que vamos ficar nesse clima intimista mesmo." Spencer disse enquanto andávamos de mãos dadas rumo ao sofá.
Na verdade, ela me guiava até ele e por isso estava grata, já que, ou ela tinha uma visão de super-homem e podia ver em raio-x, ou ela tinha uma ótima memória e sabia se guiar no escuro.
Diferente de nossa companhia que acabou derrubando duas cadeiras e deu uma canelada em um móvel antes de resolver sentar-se à mesa de centro a nossa frente.
"Ah rá!" Foi o que ele disse ao tirar um isqueiro do bolso e iluminar um pouco o breu que estava aquela sala. "Spence, você acha que nós temos velas?" Ele perguntou a sua amiga que pareceu pensar e alisou o queixo, contemplativa e de olhos fechados.
Não sei por que, mas alguma coisa naquela menina me acalmava e me deixava mais segura.
"Nós trouxemos algumas do mercado, Caleb, elas estão nas sacolas, em um dos trocentos quartos que temos aqui junto com os instrumentos e os litros de álcool que vocês trouxeram." Decidi me prontificar a responder porque os dois não participaram das compras conosco (quero dizer, não daquelas) e, do jeito que tinham bebido, iria demorar até a menina ao meu lado mapeasse toda a casa.
Sua resposta foi um sorriso sincero e agradecido que, por motivos que me fugiram ao controle, me deixou um tanto quanto embaraçada.
"Ótimo! Então vou lá em cima tentar achar esse tal quarto e pegar as velas e os instrumentos pra gente fazer uma cantoria à luz de velas." Isso ele disse se levantando e batendo com a canela no sofá e resmungando algo como 'isso se eu sobreviver até lá'.
Até se lembrar que tinha um isqueiro no bolso e resolver acendê-lo novamente pra navegar melhor por aquela sala imensa.
Na verdade, a casa era absurdamente grande. Com direito a um piano de calda em frente a uma lareira que provavelmente teria custado mais que meu carro.
Por acaso eu disse lareira?
Parei de pensar ao ouvir o risinho da morena ao meu lado que logo balançou a cabeça e seguiu o rumo da minha visão. Pois é, ela também pensou o mesmo. Sorri pra mim.
Como aquela garota chegou lá sem quebrar nada era um mistério. Mas nada se comparava ao fato de ela ter acendido a lareira sem nenhum instrumento ou eletricidade.
Okay, como ela tinha feito aquilo?
"Ei! Como você conseguiu acender a lareira?" Comecei a perguntá-la quando a vi voltando para a minha direção e se sentando novamente ao meu lado. Ela me sorriu torto, um pouco rebelde e não posso mentir e dizer não gostei.
Nem dizer que aquele sorriso, infelizmente, me lembrava de outra pessoa.
"Bem, eu posso te explicar toda a teoria de atrito e como acontece a combustão ao esfregarmos duas superfícies iguais e, de preferência rochosas, mas isso não é exatamente necessário, só torna todo o trabalho muito mais simples, já que a resposta é o ângulo, a força e o movimento utilizado, mais até que o próprio material." Ela me explicou como uma professora e engoli em seco ao pensar em duas superfícies iguais se esfregando em certo ângulo. E agradeci mudamente ao fato de a lareira ter acendido e poder culpá-la pela súbita vermelhidão no meu rosto.
Coisa que ela pareceu não notar ou não comentou e por isso serei eternamente grata.
Isto é, até ela se virar pra mim e piscar com um sorriso pueril que me fez engolir em seco.
Por Barbra, o que estava acontecendo comigo?!
"Ou eu posso te dizer que tem uma caixa de fósforos atrás do terceiro porta-retratos, da esquerda pra direita. Mas isso tiraria todo o charme da explicação." Spencer terminou se escorando no sofá e rindo abertamente pra mim.
E não, aquilo não tirava nem um pouco o charme da explicação, mas mordi o lábio para manter minha boca fechada.
Porque, de um modo ou de outro, aquela menina era fascinante.
"E como você sabe que tinha uma caixa de fósforos atrás daquela moldura?" Perguntei sinceramente curiosa e ela me sorriu tímida.
"Temos várias explicações pra isso também." A charmosa menina disse depois de passar uma das mãos no cabelo no que, creio eu, seja um hábito nervoso.
Por algum motivo aquilo me fez sorrir como uma boba.
"Pois eu quero ouvir todas." E depois desse sussurro, não me perguntem por que eu estava sussurrando já que a casa era imensa, ela sorriu de volta.
"Comecemos pelo fato de eu ter colocado aquela caixa de fósforos ali há exatos sete anos atrás." Ela deu uma gargalhada pura antes de continuar e fiquei surpresa. Sempre achei que minha memória era infalível e incomparável, mas aquilo ali era surreal. "Eu costumava passar algumas férias aqui e fui escoteira por quatro anos, parabéns pra mim!" Sorri em resposta pro seu sorriso (o que não era difícil já que era um dos mais honestos que já vi) e ela voltou a olhar pra frente. "Mas como a minha avó não me deixava treinar minhas habilidades pirotécnicas e físicas, ela preferia que eu acendesse a lareira do bom e velho modo, obviamente, sendo supervisionada por ela ou pelo meu avô e foi como a caixa de fósforos foi parar ali." Spencer terminou a história num tom mais sombrio e olhando fixamente pra lareira. "E eu me lembro, primeiro por ter sido importante e segundo por ter uma certa memória fotográfica. Ou como as meninas diriam, eu sou controladora e tenho TOC com coisas fora do lugar que eu deixei e que não sigam uma métrica ou explicação para ser." Ela parou para suspirar fundo e aproveitei para me chegar mais perto dela. Só para ouvir o resto da história, obviamente. "De todo modo, ninguém mais abriu essa casa depois que meus avós faleceram, então eu imaginei que a caixa fosse estar no mesmo lugar que eu deixei."
Por algum motivo que não me pareceu importante no momento, assim que ela terminou esse discurso, eu estava abraçando-a e me sentindo um tanto quanto triste. Talvez por imaginar o quão importantes eram seus avós ou sei lá.
"Eu sinto muito, muito mesmo." Disse baixo e ela me abraçou de volta, me puxando pro seu colo, para minha surpresa. A menina respirou fundo e deu de ombros.
"Obrigada, mas está tudo bem. De verdade. Essa é a lei da vida, não é? Morte e impostos são a única certeza que temos." Ela respondeu enquanto eu tentava me ajeitar em seu colo e a abraçava de lado.
Apenas assenti com a cabeça.
Por mais que a Santana goste de pontuar, eu conheço os momentos para me calar.
E caladas ficamos por algum tempo, enquanto eu ainda estava no colo de uma completa desconhecida de quem eu apenas sabia sentir saudades dos avós, ter vindo de outra cidade resgatar uma amiga (ou assim espero. Quero dizer, supunha), saber cantar e que bebia antes da noite cair. Sabia também que ela usava um perfume francês incrível que provavelmente não vai sair tão cedo da minha roupa. Tinha uma voz rouca e (sexy) sabia cantar para multidões (o que seria ótimo pro Glee). E dava ótimos abraços.
Ah sim, ter me defendido dela e de sua nova namoradinha. E de ter um hálito de uísque assim como o dela na primeira vez em que nos beijamos.
E sobre seu TOC com organização, memória fotográfica, vir de uma família visivelmente estável e rica e ter amigos que não medem esforços para estar ao seu lado. E por ter um dom de me fazer me sentir melhor comigo e mais calma.
Ela era exatamente o que eu não era.
E se parecia assustadoramente com a Quinn.
"Certo, conte-me mais sobre você, Spencer Hastings." Disse num suspiro porque eu realmente precisava diferenciá-la da Quinn. Pelo meu próprio bem.
Sua resposta foram alguns risos bobos e um suspiro.
"O que quer saber, Rachel Berry?" Ela disse num sussurro em resposta e talvez, apenas talvez, meu coração tivesse acelerado.
Que diabo! Será que estou fadada a sempre me interessar por pessoas como ela?
"Qualquer coisa! Namoros, interesses, músicas preferidas, família, amigos. Absolutamente qualquer coisa!" Não sei se falei mais alto em desespero, mas senti que ela afastou seu queixo, até então apoiado na minha cabeça e suspirou fundo, muito fundo.
"Okay." Foi sua única resposta antes de se calar por algum tempo.
Logo pensei que tivesse cruzado alguma linha, ou que ela tivesse dormido depois da viagem e de beber tanto.
E por último, que ela era exatamente como a Quinn e não se abria com ninguém. E essa foi a que mais me doeu.
Até ouvir seu riso rouco e voltar a encostar a cabeça no seu pescoço e respirar fundo sentindo seu perfume misturado a um cheiro de álcool que me trazia certas lembranças. Que Barbra me ajude!
"Começando pelo 'qualquer coisa'," Spencer começou e usou aspas imaginárias, me fazendo rir e me encantar um pouco mais. Só um pouco mesmo. "Aquele piano ali é meu e foi presente de aniversário de seis anos, já que meu avô adorava me ouvir desafinando as cordas enquanto minha avó lutava pra me ensinar a tocar qualquer coisa." Não me segurei e dei uma gargalhada em seu pescoço, fazendo-a se afastar mais e me olhar em reprovação, balançando a cabeça em negativa. "Ria o quanto quiser, baixinha, mas era complicado pra mim ficar tocando por quatro horas por dia enquanto eu tinha o mundo todo pra descobrir. Era imoral fazer isso com uma criança."
"E depois de tanto sofrimento, você aprendeu pelo menos, Spencer Hastings?" Perguntei me afastando e sorrindo um pouco pra sua carranca.
"Óbvio! Isso faz parte da quilométrica lista de coisas nas quais os Hastings são bem sucedidos." Não sei por que, mas senti um certo tom de reprovação em sua frase que não era direto para mim. "Depois de alguns anos, muitos anos, na verdade, eu aprendi a gostar. E deixava todos felizes, então vida que segue." Ela falou e fechou os olhos, encostando a cabeça no sofá.
"Você pode tocar algo pra mim qualquer dia?" Perguntei tentando melhorar seu humor ou qualquer coisa que o valha. Por algum motivo, eu me importava.
Sua arqueada de sobrancelhas me fez fechar os olhos, engolir em seco e me lembrar de alguém em quem eu não deveria pensar. E não deveria me lembrar de certas coisas também.
Não era justo...
"Tudo bem, temos um trato." Sua voz me trouxe de volta antes que eu pudesse recordar de cenas que seriam melhores deixadas pra trás ou esquecidas e enterradas de uma vez por todas e abri os olhos. "Ei! Tudo bem contigo? Não precisa me ouvir tocar se não quiser, eu não vou usar isso contra-"
"Eu quero! Eu só..." Resolvi interrompê-la e fechar os olhos novamente. Deus! Por que era tão difícil?
"Certo." Ela respondeu e resolveu me abraçar um pouco mais apertado. "Bem, sobre namoros, eu estou solteira. Eu tive um namorado em Rosewood, mas nós terminamos. Algumas vezes, eu gosto de pensar que ainda somos amigos, mas pra ser sincera, eu nem sei mais." Ela continuou e abri os olhos para me focar nela, mas os papéis se inverteram e era ela que estava de olhos fechados. "Interesses eu tenho vários. Incontáveis e nem sei por onde começar."
"Me diga alguns." Perguntei sorrindo pelo seu jeito de me fazer me sentir bem só em continuar falando e interromper meus pensamentos. Que não deveriam ser pensados. Não mais.
Ela me abriu seus olhos castanho claros, talvez um tom mais escuro que os dela e me sorriu, assentindo com a cabeça.
"Bom, eu posso te citar todos os presidentes que assumiram o país em ordem de ascensão assim que nos tornamos uma república e falar sobre seus projetos de governo." Ela disse e olhei-a boquiaberta. "É, eu gosto de história." E era incrivelmente inteligente também. "Não, mentira, eu gosto de estudar e aprender sobre coisas. De química a religião, vale tudo." Sorri em resposta e acenei com a cabeça. Sim, essa era uma pessoa com quem eu poderia passar horas conversando. Ou só ouvindo (sim, mundo, eu sou capaz disso!). "Também gosto de arte, mas eu prefiro a história por trás dela. Mas cantar, apreciar obras, museus e artistas é coisa da Ar." Ela sorriu um pouco mais e piscou, tentando se lembrar de algo. "Eu gosto de esportes também e qualquer um me faz feliz." Arqueei a sobrancelha pra ela. Esportista? Ela jurava? "Sério. Eu acho que sou competitiva demais. Tirando natação, que é o forte da Em, até pôquer eu vou entrar pra competir."
Gargalhei e ela cerrou o cenho.
"Isso não é saudável, você sabe." Falei em tom de brincadeira.
"Na maioria das vezes, viver também não é." Ela me respondeu no mesmo tom e parei para analisar aquilo. Do que será que ela- "Bom, interesses musicais seriam mais os clássicos-"
Antes que pudesse terminar minha teoria, ela continuou.
E antes que ela pudesse terminar sua resposta, eu dei um grito e abracei-a com força.
"Não me diga que você gosta de Barbra Streisand, Liza Minelli e showtunes no geral?"
Sério! Como não me apresentaram essa menina antes? Santa Barbra! Ela era simplesmente-
"Okay, eu não digo." Não pude conter meu imenso desgosto e tristeza ao ouvir sua resposta negativa, em tom brincalhão e revirando os olhos. Não, eu não vou dizer que isso me lembrou da Quinn. "Ei! Não aperta o gatilho ainda que eu estava brincando." Continuei encarando-a com raiva. E ignorando o fato de isso ter me lembrado de alguém. Que maldição! "Quero dizer, eu não tenho nada contra e realmente gosto da Broadway e dos grandes clássicos," Talvez eu tenha voltado a sorrir como o Coringa (e ela vai me achar completamente bipolar até o final da noite), o que a fez sorrir um pouco de volta. "mas eu estava falando de música clássica. Sabe, teve um cara chamado Mozart que fazia sinfonia com outros caras como Chopin, Beethoven, Vivaldi e Wagner em alguns teatros no início do século XVI. E rock do século XX, sempre achei melhor que o atual também." Spencer continuou com um sorriso torto que me fez respirar fundo.
Diabo, diabo, diabo!
"Hum..." Respondi como uma retardada para cortar aquele assunto. Ela continuou com aquele sorriso e engoli em seco.
A Quinn definitivamente não deveria ser lembrada depois de tudo que eu passei por ela e não quando a menina em questão era honesta e sinceramente mais aberta que ela jamais seria.
"Continuando," Ela disse depois de me ver fechar os olhos. "Essas pessoas que você acabou de conhecer resumem a minha família e meus amigos, então temos duas respostas em uma aqui." Abri os olhos para sua expressão meio deslocada e com um quê de tristeza e não pude deixar de perguntar.
Claro, eu poderia, mas não seria Rachel Berry se deixasse.
"Você não se dá bem com seus pais?" Sim, isso definitivamente me lembrava de uma pessoa que eu adoraria esquecer no dado momento e ela só respirou fundo e fechou os olhos.
Se ela fosse como a Quinn, com certeza eu não teria resposta e provavelmente eu sairia voando do seu colo em seu louco ímpeto de desviar do assunto e me afastar.
Acreditem. Eu, infelizmente, já passei por isso.
Mas a verdade é que, mesmo sendo igual em muitos quesitos (mais do que eu gostaria de admitir e refletir a respeito), ela estava um passo a frente por algum motivo.
"Não, eu não me dou." Ela disse me olhando séria e resignada e assenti com a cabeça para que ela continuasse. E, depois de um suspiro fundo, ela continuou. "Eles nunca estão em casa, não se importam com absolutamente nada além de trabalho, clientes, dinheiro, imagem pública e notas que possam me levar pra qualquer faculdade que os faça bradar pros amigos como eles foram bem sucedidos inclusive como pais." Se vocês podem imaginar, ela estava de olhos fechados e respirando fundo e eu fazia o mesmo por um motivo completamente diferente. "Eu tenho uma irmã mais velha que, bem, é o exemplo a ser seguido. Meu pai é o típico cara que ganha rios de dinheiro fazendo tramoias políticas e judiciárias, teve caso com a vizinha e não aceita ser julgado porque, aparentemente, ele está acima de Deus." Spencer continuou e abri os olhos para observá-la. "Minha mãe é exatamente igual, exceto pelos casos extraconjugais, mas também não duvido nada, já que ela também está no mesmo meio e é casada com ele e acredito que eles devem ter um motivo pra isso, já que amor, definitivamente, não é." Depois disso, ela me sorriu meio triste e meu coração se partiu ao pensar no que essa menina não passou pra ser 'aceita' e amada pelos pais. "A parte boa é que eles provavelmente só vão se dar conta de que eu não estou morando mais lá um pouco antes da graduação porque vou precisar me inscrever pra faculdades que eles aceitem, então eu tenho tempo. E o fato de eles costumarem mostrar afeto com dinheiro ou presentes pra lá de escandalosos também não é nada tão ruim, na verdade. Então nem tudo está perdido." Seu discurso foi fechado com um sorriso cínico que eu conhecia muito bem e me senti despedaçada por dentro.
Eu adoraria dizer que esse foi o meu motivo pra abraçá-la e não o fato de que eu simplesmente não podia reconfortar outra pessoa que passou pela mesma coisa.
E lá estava uma menina muito parecida com outra pela qual eu... Gostei. Isso. Gostei. E por algum motivo, compará-la com a Quinn estava me fazendo mal e me deixando culpada por algo que eu não sabia explicar e nem sei se gostaria de entender.
A morena embaixo de mim apenas sorriu resignada.
Talvez eu seja tão transparente quanto dizem por aí.
"E o que eu posso saber sobre Rachel Berry?" Ela me perguntou e sorri um pouco mais. Até ela continuar. "Além de que ela usa shampoo de morango, gosta de falar em parágrafos, é uma grande conhecedora da ACLU." Ela disse piscando pra mim e me derreti por dentro. Não acredito que alguém tenha prestado tanta atenção assim em mim. Que não fosse para usar em um futuro argumento, vide Quinn. De todo modo, ela continuou. "Aparentemente é apaixonada por showtunes; acabou de terminar um noivado e é apaixonada por uma certa loira agressiva?"
Obviamente, a última pergunta, que soou muito mais como afirmação foi a que mais me surpreendeu. E , por todos os anos que passei estudando teatro e drama, não consegui controlar meu sincero pavor ao ouvir aquela sentença.
"C-como?!" Exclamei pulando do seu colo e quase rolando do sofá até o chão.
O que a fez se levantar logo em seguida, mas (para a minha sorte) ela manteve a distância. E nem sei quanto eu precisava daquela distância naquele momento.
Ela me arqueou uma sobrancelha daquele modo que eu preferia não conhecer tão bem...
"Rachel, eu posso estar bêbada, mas não estou cega." Sua resposta foi sincera e me peguei abrindo e fechando a boca como um boneco ventríloquo. "De todo modo, se quiser alguém com quem conversar sobre isso, eu sou uma boa ouvinte." Eu queria. Eu verdadeiramente adoraria e acredito que até precisava. Mas não com ela. Não era justo com nenhuma das partes envolvidas. "Quero dizer, na maioria das vezes."
Foi a última coisa que disse piscando me fazendo querer sorrir, chorar, fugir, me abrir e acusá-la como se fosse culpa dela eu ter sido ingênua e me apaixonado por alguém que só queria destruir meu casamento.
E eu deveria ter previsto.
E eu teria previsto. Caso ela não beijasse tão bem.
Mas por sorte, antes de falar qualquer coisa que não fizesse o menor sentido pra nós duas, Caleb voltou sorridente com velas, uma garrafa na mão e um violão e encarando a lareira acesa e olhando pra sua amiga em seguida.
"Que bom que eu quase quebrei um braço tentando caçar as velas quando a lareira está acesa, Spence." Foi o que disse de braços cruzados para a menina mais alta que só sorria superior.
E eu tenho algo com esse tipo de sorriso. Infelizmente.
(Pra mim.)
"Surpresa, Cal!" Foi sua exclamação que fez o rapaz gargalhar (e era difícil ficar chateada quando ela sorria tão simples e sincera, digo por mim mesma) e balançar a cabeça em negativa enquanto ela me olhava com força.
E eu engolia em seco.
"Pois bem, trouxe velas, uísque e o violão pra gente cantar algo à luz da lareira. E lá se foi todo o meu romantismo..." Caleb disse num tom reprovador que talvez tivesse funcionado se ele não estivesse com uma garrafa de uísque, como ele mesmo disse, na boca. "O que tem em mente para cantarmos?"
E assim ele bebeu até passar para a menina que fez o mesmo e ainda me encarava com determinação. Santa Barbra! Onde eu fui me meter?
A resposta da dita morena foi uma sobrancelha arqueada que me fez perder a voz e um sorriso torto que acelerou meu coração enquanto ela me encarava um pouco antes de se virar pra ele.
"Acho que está vez da Rachel cantar, o que acha, Cal?" Foi sua resposta cínica e seu comparsa de crime apenas sorriu matuto (o que há com essas pessoas e seus sorrisos incorrigíveis, credo!) antes de concordar com a cabeça várias vezes. E, ao prestar atenção nele, eu perdi seu desfile até mim, me dando conta, inclusive, tarde demais. "E então, Rach, topa?" Foi suspirado pra mim.
Óbvio, já que eu era a única Rach no recinto... Enfim.
Assim que controlei minha respiração (depois de anos de aulas técnicas pagas e aulas práticas e gratuitas com a Quinn), me virei para os dois que me olhavam com a mesma expressão: desafio.
O Caleb me encarava de um modo um pouco menos determinado e que me dizia que estaria tudo bem no caso de eu desistir.
A Spencer...
Bem, ela era um caso especial. E que estava estacionado a um palmo da minha frente.
E foi quando me lembrei do que ela me disse sobre ser competitiva e não desistir de nenhuma competição independente das circunstâncias.
E talvez isso tenha me empolgado um pouco mais com a situação. Ou foi a sua expressão charmosa, seu sorriso torto e sua sobrancelha levantada que eram uma perdição. Quem sabe as roupas meio rasgadas, a garrafa e o hálito de uísque (que eu nunca pensei ser tão excitante até beijar uma certa loira com esse gosto e mandar meu noivado pros infernos) e o fato de ela me olhar como se não existisse nada que eu pudesse esconder daqueles olhos.
Não sei o que foi, mas Rachel Berry estava ali e pronta pra descobrir.
"Pode sentar no piano, Hastings. Eu sei exatamente o que vamos cantar." Disse sorrindo atravessado pra ela e bem...
Vê-la me piscando e passando a língua pelos lábios era algo que eu simplesmente não podia lidar naquele momento.
Mas foi o que ela fez. E deixou a garrafa em cima da mesa de centro e foi rebolativa e sorridente praquele piano maravilhoso. Enquanto eu engolia em seco e tentava me lembrar do que eu iria cantar e por qual motivo.
Isso tudo quando na verdade, a pergunta mais importante a ser feita era pra quem eu estaria cantando.
Ou por quem.
E honestamente não tinha certeza se eu gostaria de descobrir.
Assim que controlei a respiração, coisa que, infelizmente, demorou mais do que eu previa e muito mais que a estada da abusada da tia da Em ali, voltamos pra casa.
Acho que nós podíamos chamar aquela mansão de casa agora, já que sabe Deus quanto tempo passaríamos ali, longe dos nossos parentes até conseguirmos fisgar e convencer a Em a voltar a Rosewood conosco.
E nem sei se eu queria voltar mais praquele lugar depois do que passamos.
Não, eu não ia pensar no Ezra.
E nem em ninguém mais.
Só que essa não era uma tarefa fácil com a Han furando o meu crânio com olhares que deveriam ser processados e julgados como tentativas de homicídio.
Na verdade, eu nem sei como estava me sentindo com aquilo tudo acontecendo.
Certo, meu pai disse que, desde que eu arrumasse uma escola pra frequentar e não perdesse o ano letivo (conheçam Byron Montgomery, o famigerado professor de Hollis que, volta e meia tem caso com suas alunas, senhoras e senhores!), tudo estaria certo e ele me ajudaria nas despesas. Despesas essas que nós, em momento algum, paramos para analisar e colocar na ponta do lápis.
Nada que eu fosse fazer agora, já que eu estava exausta.
E enquanto houvesse cartão de crédito que pra ser usado, tudo será nosso.
Isso é, até eu arrumar um emprego.
Cada um de nós, na verdade.
A Han porque, até onde eu sei, as coisas não vão bem pra Ashley na firma e bancar a família toda sozinha já era uma tarefa difícil. Ainda mais duas casas.
E, mais uma vez, os patriarcas da família mostram como são belos modelos de conduta.
O Caleb porque, acredito eu, não vai querer depender do dinheiro de sua mãe (por mais justo que acabe sendo depois que ela o abandonou) e deve se lançar no mundo informático por aí.
E a Spency porque até fazer um pacto com o diabo era preferível a lidar com seus pais deliberando ordens e voando até aqui para nos apontar o quão decepcionantes todos nós somos. Inclusive ela, que não merecia.
E, em todos os casos, aquela casa dos Hastings era grande demais pra nós e acabaria custando um pouco mais do que poderíamos bancar.
Entre comida, contas, escola e dinheiro para nossas festas particulares e encontros amorosos, as estatísticas estavam contra nós.
Não que eu vá ter algum encontro amoroso.
De todo modo, olhei meu celular assim que entramos pela cozinha. E a desculpa foi a luz para banhar toda aquela escuridão.
Quando eu só estava esperando uma mensagem boba do Ezra pra confirmar que eu não estava louca e que a tia da Em estava inventando coisas em sua mente.
"Mufa, você tá bem?" Assim que vi minha caixa de entrada vazia, me virei para Han e assenti positivamente. Não que eu estivesse bem, ou feliz com o apelido para ser sincera (mas já estava habituada, de um modo ou de outro), só que eu realmente não tinha resposta pra dar.
Nem sabia no que pensar, pra ser bem sincera. Após uma busca pelos confins da minha mente, nada mais fazia sentido.
Quero dizer, eu amo o Ezra. Mas até que ponto isso é só amor e não uma projeção da minha mente pelo fato de ele ser um professor e isso, por si só, torná-lo inacessível e tão logo mais desejável, eu já não tenho mais certeza.
Como também não posso afirmar sobre o fato de estar com ele até agora justamente pelo que enfrentamos para ficarmos juntos.
Vocês sabem, como Romeu e Julieta vão até as últimas consequências e, no nosso caso, não morriam, seria desleal eu simplesmente largá-lo por uma vida nova, né?
Mas só de pensar numa vida sem a Mona nos atormentando e fazendo seus jogos psicológicos e sádicos, quem pode me culpar por querer começar de novo?
E, infelizmente, isso queria dizer sem ele, já que nunca, a toda poderosa senhora Fitzgerald iria deixá-lo fugir para longe de suas asas por uma aluna do colegial que entendia lhufas da vida e tinha mais problemas familiares e pessoais do que poderia se dar conta.
E sem emprego ou dinheiro. Pois é, os deuses não estavam sorrindo pra mim.
Talvez outros problemas também, mas não vou flertar com essa via pelo dado momento.
Ou nunca. Que seria um bom tempo até decidir entreter essa avenida.
De todo modo, sorri para Han, com toda a alegria que eu deixava guardada para os dias de chuva (ou um dia de Mona, enlouquecida, destruindo minha vida e tendo que rir aleatoriamente para minha família pra não ser internada e dada como louca), coisa que ela não acreditou e tentou me escoltar até um canto escuro.
E isso foi até ter ouvido a voz de alguém.
Uma voz maravilhosa. Quase divina e que provavelmente pertencia a Rachel, já que conhecíamos a voz do Caleb e da Spence.
"Que diabos?" Foi sua pergunta gentil e suspirei fundo novamente, Agradecendo em minha mente ao belo timing que eles sempre tinham para cantar e me livrar dos inquéritos da Han.
Longe de mim falar mal dela, mas nós sempre discutíamos por um assunto ou outro e preferia pular essa opção naquele momento.
Nem eu sabia o que se passava na minha mente, quiçá explicar.
Assim que me virei rindo interessada pra ela, sua resposta foi virar os olhos e perseguir a pessoa que, mais uma vez estava cantando enquanto ela queria me enquadrar.
Vejam vocês como a arte sempre nos salva.
De todo modo, saímos de lá, iluminando nosso caminho com celulares enquanto a Han marchava como uma fascista em campo de guerra, prestes a soltar o discurso sobre a raça ariana.
Isto é, até chegarmos ao meio da sala e nos depararmos com o cartão-postal.
"Rhiannon rings like a bell through the night
(Rhiannon soa como um sino na noite)
And wouldn't you love to love her?
(e você não adoraria amá-la?)
She takes to the sky like a bird in flight
(ela comanda o céu como um pássaro a voar)
And who will be her lover
(e quem será seu amante?)"
Caleb estava solando em um violão extremamente embriagado e se sentindo o homem mais feliz do mundo.
A Spencer estava sentada como uma miragem ao piano e de olhos fechados, com uma expressão calma e intrinsecamente feliz.
E a Rachel estava atingindo notas e mais notas enquanto ria para os dois em um ar de desafio.
Depois de uma trama de suspense barato, nossa vida virou o High School Musical.
Pelo menos não tínhamos o Zac Efron pra pular cantando de algum dos cômodos. Tudo sempre podia piorar.
(Okay que a Rachel cantava muito bem e o Caleb continuava solando com tanta destreza quanto mais cedo, apesar de ter bebido mais que seria possível. Mas a minha maior surpresa foi a Spencer tocando aquele piano exuberante e com uma magnitude que posso até ter imaginado algum dia, mas nunca sonhei vivenciá-la.)
E, em um canto de uma sala à meia luz de uma lareira, Hanna e eu ficamos apenas observando tudo aquilo.
"All your life you've never seen
(em toda sua vida, você nunca viu)
A woman taken by the wind
(uma mulher ser levada pelo vento)
Would you stay if she promised you heaven?
(você ficaria se ela te prometesse os céus?)
Will you ever win?
(será que um dia você ganharia?)"
Rachel cantava olhando fixamente pra Spence no piano que só tocava de sobrancelha arcada enquanto sorria um de seus mais terríveis sorrisos pra menina.
Talvez até eu tenha engolido em seco depois daquela visão.
Mas pelo menos a Han estava babando o Caleb e não me dava mais a menor atenção.
Sorte minha.
Obviamente, ninguém nem reparou na nossa presença e continuaram cantando e tocando como se a vida se resumisse àquilo.
E talvez eles estivessem certos.
Isso é, até a Spencer nos notar e me chamar com a cabeça pra perto deles, me motivando a cantar.
E eu até andei para mais perto e me sentei no sofá, mas não ousei abrir a boca. Sua resposta foi uma carinha triste que fiz questão de ignorar (confesso que me doeu, mas bem).
Não por maldade, mas como os três estavam tão imersos cantando naquela sala.
E bem, eu não era o Zac Efron pra surgir cantando da escuridão, me dignei apenas a observá-los e sorrir.
"She is like a cat in the dark
(ela é como uma gata na noite)
And then she is the darkness
(e então ela é a escuridão)
She rules her life like a fine skylark
(ela comanda a sua vida como uma cotovia)
And when the sky is starless
(quando o céu não tem estrelas)"
Rachel alcançou todas (e mais algumas) notas enquanto olhava da Spencer pra mim com uma grande interrogação na testa.
Suponho eu que ela estivesse surpresa de eu não ter pulado cantando como uma caixa de música.
(Assim eu prefiro pensar)
E os três estavam fazendo um trabalho tão incrível que acabei escutando palmas logo ao meu lado e não poderíamos ter outra opção a não ser a Han.
E eu estava certa.
Lá estava ela, batendo palmas e esticando os braços enquanto se rodopiava pela sala e me esticava a mão para me chamar numa dança que, caso eu tivesse um pouco mais de bom senso, eu teria negado.
Mas eu não tinha o menor bom senso e estava me sentindo infinitamente melhor ao ouvir aquele karaokê improvisado (ainda melhor que um aparelho de karaokê, na verdade). Por isso, aceitei.
E assim fomos bailando e rodopiando pela sala como dois piões no meio daquele salão enquanto a Rachel cantava ao lado do Caleb e sorria para nós.
E a Spence nos olhava de olhos cerrados e com uma interrogação na testa.
Quero dizer, foi o que pareceu enquanto girávamos, mas como estávamos muito depressa e prestando atenção nos nossos passos, não pude saber com certeza.
"All your life you've never seen
(Em toda sua vida, você nunca viu)
A woman taken by the wind
(uma mulher ser levada pelo vento)
Would you stay if she promised you heaven?
(você ficaria se ela te prometesse os céus?)
Would you ever win?
(será que você ganharia?)
Will you ever win?
(será que um dia você ganharia?)"
Naquela parte, enquanto Caleb entrava em um solo peculiar, Hanna decidiu trepar em cima da mesa de centro e sensualizar pra mim como se estivéssemos num cabaré.
(Talvez fosse culpa da luz. Da música. Da alegria.)
E seu namorado ria, parecendo se divertir ainda mais. Assim como a Rachel que, definitivamente, tinha acabado de imaginá-la como uma dançarina de fundo depois dessa apresentação.
Só a Spencer que, sabe Deus por quais cargas d'água, estava nos olhando séria demais pro tanto de álcool que ela bebeu.
Isto é, até a Rachel sentar no colo dela.
O que eu definitivamente achei desnecessário.
"Rhiannon
Rhiannon
Rhiannon"
De todo modo, alcançamos o refrão e cantamos todos juntos.
Ou assim eu presumo já que estava me focando na Han e no Caleb e sabe Deus o que a Rachel estava fazendo jogada no colo da Spence a essa altura do campeonato.
Eu estava me divertindo. Juro.
"Taken by, taken by the sky
(levada, levada pelo céu)
Taken by, taken by the sky
(levada, levada pelo céu)
Taken by, taken by the sky
(levada, levada pelo céu)
Dreams unwind
(sonhos se desfazem)
Love's a state of mind
(o amor é um estado de espírito)"
Mesmo ao entrarmos na última estrofe, nenhum de nós pareceu ligar para o fato de que, de acordo com a versão do Fleetwood Mac, aquela parte era pra ser solo.
Caleb e Spencer por estarem pra lá de bêbados. A Rachel por estar prestando atenção em outras coisas. Ou certa pessoa que não comentarei.
E eu e a Han por termos continuado a nossa dança à lá Stevie Nicks no meio da sala, rindo e gritando, com ela ainda em cima da mesa de centro.
Isto é, estávamos todos muito felizes até duas lanternas de xênon surgirem nas nossas caras e mudarem toda a situação.
A Han, de susto ou medo, caiu da mesa de centro em cima de mim e dei com a cabeça no chão, praguejando baixo.
Não sei o que houve com o Caleb, mas acredito que ele tenha dado com as canelas na mesa de centro pelo seu urro de dor.
E com a Spence e a Rachel eu realmente não tinha a menor ideia porque a única resposta foi um som que definitivamente não tinha sido planejado saindo do piano e o barulho de um corpo caindo no chão. Presumo que tenha o da Spency já que ouvi sua reclamação logo em seguida.
Oh Deus! Era o que faltava a polícia bater na nossa casa!
"Eu exijo a presença dos meus advogados antes que qualquer coisa possa ser dita!" Essa foi a Rachel gritando para os misteriosos faróis enquanto a Hanna xingava tudo o que já tinha ouvido em seus dezessete anos de idade.
A única resposta das pessoas (?) misteriosas foram risadinhas sarcásticas e baixas.
Meu Cristo! Lá vamos nós de novo!
É, essa Lima tava botando Rosewood no chinelo a cada hora que passava.
