Enquanto caminhava pelo corredor do colégio, em direção à sala do coral, Finn pensava na conversa difícil que acabara de ter com Rachel. Jamais poderia ter imaginado que, um dia, a veria chorar por outro e que sugeriria que parassem de se falar. Nunca, nem em pesadelos, poderia ter previsto que, depois de abrir mão dele, como namorada, perderia a melhor amiga e veria a garota que era o amor da sua vida parecer uma pessoa completamente diferente, ainda que, por um breve momento, tenha dado aquele sorriso que um dia fora tão seu.
Não podia, no entanto, se deixar abater por isso. Era um momento de realização pessoal que ele precisava desfrutar em sua plenitude. Um momento igualmente surpreendente, mas, dessa vez, de um jeito positivo, em que conseguia ter orgulho de si mesmo, dos resultados de seus esforços, observações e instintos. Rachel deveria passar a ocupar dentro dele apenas o lugar da pessoa que tinha sido fonte de inspiração e motivação, por muito tempo. Da mesma forma que ela estava seguindo em frente, ele também precisava caminhar fora da sombra dela, mesmo que não tivesse decidido ainda que caminho trilhar.
Ao entrar na sala do coral, foi recebido com aplausos pelos membros do coral e compartilhou com eles o sucesso. Trocas de elogios foram feitas entre eles, enquanto alguns liam, em voz alta, postagens de colegas da escola, e até de professores e pais, nas redes sociais, sobre o musical. A empolgação atingia até aqueles que não tinham participado da montagem e só faltava Will para a comemoração ficar completa. Sua demora gerou ansiedade em alguns deles, como Tina e Kitty, que foram até a porta.
Depois de um tempo, se juntou às duas, mas ainda teve que esperar que o mentor terminasse de conversar com um outro homem, mais ou menos da idade dele, antes de caminhar até eles, sorridente. Uma nova algazarra começou com sua chegada e mais críticas positivas foram lidas na Internet. Havia até quem falasse em defesa de um maior investimento no setor de artes dramáticas do McKinley High, ainda que essa fosse a parte mais polêmica, contestada pelos apaixonados por esportes, que temiam a perda de investimento na área.
"Essa semana não foi fácil, por saber que será a última em que os verei, por um tempo." Will falou quando conseguiu que os pupilos se acalmassem e permanecessem sentados e em silêncio, finalmente. "Mas ajuda saber que os deixo em boas mãos. Há uma pessoa que ama o Glee tanto quanto eu, e esse alguém é o Finn. Eu sei que ele tem o necessário para que ganhem as seletivas." Afirmou, e alguns alunos ficaram apreensivos, mas não disseram nada. "Tenho muito a agradecer a vocês!" Continuou, porque amava um discurso emocionado. "Não apenas por terem alegrado todos os meus dias, mas por me darem a chance de dividir esta alegria. Eu vejo vocês em alguns meses, e espero ver um troféu das seletivas bem ali. Amo muito todos vocês e vou sentir saudade."
Os jovens se despediram dele, desejando sorte, e foram embora. Ele e Finn apagaram as luzes, enquanto falavam novamente sobre a peça e Will dava algumas instruções sobre como ele deveria conduzir as reuniões do grupo e preparar a turma para a primeira competição do ano. Por mais que Schuester quisesse deixar Finn à vontade e seguro, ele mesmo estava nervoso, pois sua decisão de colocar um recém-formado como substituto era arriscada e polêmica. Sue Silvester estava esperando apenas o próximo deslize do coral para voltar a atacá-lo com tudo!
"É sério, pode me ligar a qualquer hora." Repetiu, pela terceira ou quarta vez, quando já estavam no corredor, fazendo Finn sorrir.
"Eu sei."
"Você tá legal?" Perguntou, preocupado com a responsabilidade que estava jogando nos ombros do outro.
"Eu to ok. E você tá bem?" Devolveu a pergunta. Também queria que seu amigo estivesse confortável com aquele arranjo.
"Estou." Assegurou. "Oh... e, para as Seletivas, não se acanhe em abrir com uma balada. Claro que temos ótimos dançarinos, mas os juízes sempre recompensam os melhores cantores. Então você precisa..."
"Sr. Schue, deixa comigo." Pediu, encarando-o com expressão segura, o que fez Will rir de si mesmo. Os dois se abraçaram, em sinal de cumplicidade e apoio mútuo.
"Vai com tudo!" O mais velho incentivou.
"Você também." O mais novo devolveu, franzindo a testa ao perceber que não estavam sozinhos no corredor.
"Rupert!" Will também ficou surpreso, ao acompanhar o olhar do garoto. "Cara, eu pensei que a essa altura você teria desistido! Desculpe pela demora."
"Tá tudo bem. Eu não tenho mais hora do toque de recolher." Brincou, se referindo ao horário certo para chegar em casa imposto por seus pais, durante boa parte de sua adolescência.
"Finn, esse é Rupert Campion. Ele foi meu colega aqui no McKinley. Rup, esse é o aluno sobre o qual falamos."
"É um prazer, Finn." Campion estendeu a mão direita e Hudson a apertou, mas olhou seus dois companheiros confuso, tanto pela menção a estarem falando dele anteriormente, como pelo fato de aquele nome soar familiar.
"O prazer é meu." Respondeu ainda pensativo. "Desculpe, mas você tem alguma coisa a ver com a Broadway?"
"Uhum... eu sou diretor." Sorriu, simpático.
"Sabia que o Kurt ou a... que alguém que eu conhecia já tinha falado de você. Nossa! Um diretor da Broadway assistiu ao nosso musical?" Questionou, passando a mão nervosamente pela nuca.
"Assisti e achei fantástico para uma peça de escola. Foi por isso que eu e Will falamos de você. Eu mal pude acreditar quando ele me disse que a peça foi dirigida por alguém que há poucos meses estava na escola. Você tem muito talento!"
"Todo mundo trabalhou junto." Afirmou, modesto, mas Schuester balançou a cabeça negativamente. O maior responsável tinha sido, sim, seu ex-aluno favorito.
"Will me disse que você quer ser ator."
"Eu já não sei mais, na verdade. Eu fiz um teste, mas não fui bem."
"O James Lipton é um cara simpático e um bom apresentador, mas eu não acho que a opinião dele deva ser superestimada a ponto de destruir os seus sonhos, Finn." Falou e Finn apenas o olhou, sério, considerando suas palavras. "Eu sei que você não pode beber, mas que tal se eu e Will formos tomar uma cerveja, e você nos acompanhar em uma pizza... ou algo assim? Eu gostaria de conversar melhor sobre isso com você."
"Ok." Respondeu, dando um sorriso de lado. Era bom ter a atenção e os elogios de uma pessoa importante. Era como a cereja no bolo, depois dos comentários dos leigos, que já o tinham deixado nas nuvens.
Os dois ex-colegas de colégio foram colocando o assunto em dia no carro e continuaram fazendo isso ainda enquanto escolhiam sabores de pizza e suas bebidas. Finn observava o bate-papo, interessado, enquanto bebia coca-cola e comia os bastõezinhos de pão que o Breadstix servia de entrada. Não ficou em silêncio durante muito tempo, no entando, porque logo Rupert quis que ele desse detalhes sobre seu teste mal sucedido para a escola de teatro e sobre o modo como conduzira a direção de Grease.
"Então aproveitei que meu padrasto tem uma oficina e levei os meninos até lá. Queria fazê-los sentirem-se como verdadeiros mecânicos, como o próprio Danny Zuco e seus amigos." Narrou uma das etapas do processo. "Eu disse a eles que isso era necessário porque atuar é sobre conhecer o material, os temas... pelo menos é assim que eu sinto, apesar de não ter técnica nenhuma." Deu de ombros.
"E é perfeito." Asseverou o renomado e experiente diretor. "Por isso eu tenho certeza que Lipton se equivocou, ao não te aprovar. Ele, com certeza, levou mais em consideração o fato de você não ter feito teatro durante o seu período escolar, do que o teste em si, a demonstração da sua habilidade. Ou então você ficou nervoso demais na hora e não mostrou o seu potencial, porque o cara que eu to vendo aqui na minha frente NÃO PODE deixar de trabalhar com teatro."
"Sério?" Franziu o cenho incrédulo, enquanto Will, a seu lado, sorria amplamente, orgulhoso. "Você acha, então, que eu devo tentar de novo esse ano?"
"Na verdade, eu tenho uma proposta pra você, Finn. Uma que, se eu tivesse recebido na sua idade, teria considerado irrecusável." Garantiu. "Eu quero que vá morar em Nova York e trabalhe na minha equipe. Seu salário seria, obviamente, menor do que o dos meus assistentes mais experientes... apenas o suficiente pra você se manter na cidade. Por outro lado, você teria tempo para estudar também e toda a minha assessoria nisso."
"Você merece isso, garoto!" Will apertou o ombro dele, quando viu que ele estava boquiaberto e seus olhos arregalados. "Mas..." Ficou ele mesmo mudo por alguns segundos. "Como eu vou fazer com o coral?" Indagou, baixinho.
"O Finn não precisa ir correndo. Eu não tiraria ele de você, afinal eu te devo essa. VOCÊ me apresentou essa grande promessa."
"Por que você faria isso por mim?" O menino perguntou, ainda espantado.
"Primeiro, porque eu vi a maneira como você falou sobre o musical... com paixão, entusiasmo, e isso hoje em dia não se vê tanto. A gente vê muita gente querendo a fama, a grana, mas não o palco, o frio na barriga quando um peça estreia... todos os preparativos, as decisões. Quem quer tanto ESSAS COISAS, merece ter. Segundo, porque eu não tava brincando quando eu disse que você tem talento. Se isso se perdesse e você fosse trabalhar com outra coisa, eu não iria me perdoar por ter ignorado você e deixado o teatro nas mãos de gente com muito menos potencial."
"Bom, é..." Tomou um gole de refrigerante, tentando se acalmar. Suas mãos estavam trêmulas, seu coração disparado como não acontecia desde o dia das finais do ano anterior. "É claro que eu vou, se você puder mesmo esperar até o Sr. Schue voltar." Concluiu, empolgado.
Ficou combinado que Will voltaria logo que fosse possível e que ele, então, se mudaria para Nova York, onde ficaria, por alguns dias, no apartamento em que o próprio Lipton morava com a mulher, para poder procurar com calma uma moradia definitiva. Os três brindaram à iminente mudança drástica na vida do rapaz e continuaram conversando, tendo convencido Finn, depois de muita argumentação, a deixar de lado as formalidades e chamar os dois pelo primeiro nome. Will já não era mais seu professor e Rupert seria seu chefe, mas explicou-lhe que, no ambiente do drama, mesmo as hierarquias eram tratadas com descontração.
Então não só a noite correu, fazendo os três chegarem a suas casas no meio da madrugada, como os dias voaram, em meio a tanta coisa a fazer. Hudson tinha pouco tempo para deixar os membros do coral bem preparados para enfrentar uma apresentação que seria a primeira para vários deles, e ainda teve que organizar sua mudança, ao mesmo tempo em que tentava convencer Carole e Burt de que não precisava da ajuda de Kurt e de que, na verdade, preferia que eles sequer contassem para o "irmão", enquanto ele não se estabelecesse de vez.
Depois de considerar algumas opções, resolveu atribuir a maior responsabilidade aos veteranos e escolher músicas com as quais pensou que a maior parte dos componentes do grupo provavelmente se identificaria. Ninguém protestou quando ele anunciou que abririam a exibição com um dueto de Tina e Blaine, que cantariam Just give me a reason, da Pink, ou quando perguntou a Artie se ele gostaria de ter um solo e sugeriu Viva la vida, do Coldplay. Pareceram bem animados especialmente ao começar a dividir em partes Walk on, do U2, para ser cantada por todo o grupo, e a empolgação não diminuiu ao longo dos ensaios.
Will estava presente no dia da competição, mas Finn achou que realmente talvez Rup estivesse certo sobre seu talento para trabalhar com teatro, quando percebeu que foi ele, e não o professor, quem conseguiu passar calma e segurança ao grupo, apesar do próprio nervosismo e do medo de falhar. Não sabia como olharia nos olhos de Will, se perdessem, quando o amigo tinha contado com ele para manter o padrão alcançado no ano anterior, depositando nele uma confiança que ele mesmo nunca tivera.
Felizmente, a preocupação deu lugar ao alívio quando o resultado foi divulgado e o Novas Direções venceu.
De pé no palco, junto com Schuester, que erguia a taça por estar oficialmente à frente do coral, Finn Hudson pensou, pela primeira vez, que aquele talvez fosse, finalmente, o início de uma vida de vitórias e o encerramento de um período de abatimento e conformismo, no qual ele já tinha se permitido ficar por tempo demais.
