Finn caminhou confiante pela plataforma da estação de trens de Lima, levando uma mala de rodinhas e uma mochila pesada, dessas usadas por quem viaja apenas com uma nas costas. Estava levando quase todas as suas roupas de frio para Nova York e, quando tivesse um endereço fixo, Carole enviaria o resto, junto com algumas outras coisas que ele gostaria de ter consigo pelos próximos anos.
Era tudo muito diferente da última vez em que tinha ido até aquele lugar e ele procurou afastar as lembranças. Tinha que se mostrar bastante esperançoso e feliz, para que a mãe pudesse suportar mais uma despedida, que dessa vez prometia ser definitiva, visto que ele não pretendia voltar à cidade, a não ser para festividades, e, mesmo assim, talvez só no ano seguinte. O Natal e o Ano Novo não estavam tão distantes e ele ainda estaria em período de adaptação quando chegassem.
"Você vai ligar todos os dias, não é?" Implorou a mãe. "Não vai fazer como quando foi pro exército, meu filho... por favor!"
"Eu vou ligar, mãe. Eu já prometi." Assegurou, beijando a testa dela.
"Parece que não te levaram muito a sério, quando você disse que não fazia questão de nenhuma despedida." Burt disse, apontando para um grupo grande de pessoas, que seguravam um cartaz, desejando-lhe boa sorte.
No fundo, Finn sabia que Will, Sam, Blaine e Artie não o deixariam ir sem uma grande aparição, e que arrastariam todos os membros do Glee Club, bem como Emma, com eles. Apenas sorriu, se aproximando dos amigos e abraçando um a um, pois não haveria muito tempo, antes que o trem deixasse o local. Enquanto diziam adeus, todos reforçaram declarações que já tinham feito antes, de que sentiriam saudades e de que tinham certeza de que ele faria muito sucesso e seria feliz na Grande Maçã.
"Não coloca ninguém no meu lugar, hein! Eu venho pro casamento." Pediu ao antigo professor, de quem se despediu por último.
"Eu nem cogitaria!" Sorriu o amigo mais velho, dando tapinhas em suas costas.
"Se cuida, rapaz." Burt falou, zeloso, enquanto o enteado subia no trem.
"Toma cuidado, meu filho. Se agasalha bem! Tá muito frio lá!" A mãe se manifestou, mais uma vez, segurando o choro e se agarrando ao braço do marido, em busca de conforto. "E liga pro Kurt! Você sempre podem ajudar um ao outro!" Terminou, enquanto Finn ria, por ela estar sendo repetitiva, e apenas assentia em relação às recomendações.
A viagem foi confortável e a chegada, tranquila. O rapaz deu o endereço de seu novo chefe ao motorista de um táxi e colocou fones nos ouvidos, relaxando no banco de trás do veículo, enquanto ele se movia, lentamente, pelas ruas, graças ao trânsito de cidade grande. Foi observando tudo e movendo os lábios, ainda que sem emitir sons, para acompanhar suas músicas favoritas, sorrindo quando, em meio às gravações do Muse, viu seu estado de espírito refletido em uma canção.
It's a new dawn
It's a new Day
It's a new life
For me
And I'm feeling good
(É um novo amanhecer
É um novo dia
É uma nova vida
Pra mim
E estou me sentindo bem)
Matthew Bellamy, vocalista da banda inglesa, dizia em alto e bom som, apenas para ele, que repetia tudo, sem nem mesmo perceber que deixava sua voz sair, atraindo olhares estranhos do motorista. Não importava, no entanto, porque, mesmo que os tivesse notado, eles não teriam acabado com seu humor, que só melhorava à medida que ia chegando a seu destino. Era sábado e, como não estava trabalhando em nenhuma produção nova no momento, Rupert só precisaria visitar o teatro à noite e estava esperando pelo rapaz em seu enorme apartamento.
Finn foi recebido pelo novo mentor e conheceu imediatamente a Sra. Campion, que não tinha ido visitar Lima com o marido por estar ocupada com alguns trabalhos. Era cenógrafa e estava participando da produção de duas peças, sobre as quais eles passaram boa parte da tarde falando, antes de mostrarem a Hudson o quarto que ele ocuparia, por algum tempo. Pelo resto do dia, ele apenas descansou, mas no domingo o casal fez questão de levar seu hóspede para almoçar e ele foi apresentado também à cunhada do chefe, que se ofereceu para mostrar a ele um pouco da cidade.
Debbie era apenas um pouco mais velha que Finn, e bastante simpática, extrovertida e animada. Ele não pode deixar de notar também que ela era linda e, a princípio, ficou até um pouco sem jeito por estar sozinho com uma garota, pela primeira vez em tempos! No entanto, o embaraço não durou muito, e logo eles estavam conversando como bons amigos, visto que Finn estava em Nova York para cuidar de seu futuro, começar uma carreira, e não pretendia se envolver com ninguém e acabar perdendo o foco.
A tarde foi agradável, mas ele chegou cansado, depois de tanta caminhada e se jogou na cama, sabendo que a segunda-feira provavelmente seria ainda mais exaustiva. Ele e Rupert saíram cedo e foram para o escritório do diretor, onde o jovem foi apresentado ao resto da sua equipe de trabalho, que no momento estava envolvida com suporte a dois espetáculos já em cartaz, e com pesquisas, para que em breve fosse iniciada a montagem de uma peça, provavelmente musical.
"Vou te dar algumas coisas pra ler e então, você pode ir almoçar com os meninos, enquanto eu resolvo umas coisas aqui." O chefe disse, se referindo a Bob e Stacy, seus assistentes mais antigos. "Depois, nós vamos a NYADA." Completou, sentando-se à mesa.
"NYADA?" Finn perguntou, sentando-se também, com medo de perder o equilíbrio. Seu coração disparara quando ele escutara o nome da faculdade de sua ex-noiva, que sequer sabia de sua presença naquela cidade.
"É... NYADA. Nunca ouviu falar?" Franziu o cenho o homem mais velho.
"Já! Claro!" Assegurou.
"E algum problema?"
"Não. Problema nenhum." O garoto tentou soar convincente. "O que a gente vai fazer lá?"
"Se você não desconhece completamente, também já deve ter ouvido falar que ela é a melhor escola de drama dos Estados Unidos. É claro que você poderia ir pra uma outra, tipo Julliard ou The Actors Studio, mas eu acho que você merece e pode ter o melhor. Julliard tem teatro, mas é uma escola de artes, não é especializada. Já The Actors é especializada demais... é uma escola de atores."
"Eu pensei que NYADA também fosse uma escola de atores." Falou, verdadeiro.
"Não! NYADA é uma escola de drama completa. Nos primeiros semestres, há cadeiras básicas pra qualquer profissional do teatro e, depois, você vai poder ir escolhendo o que tiver mais a ver com você."
"Entendi."
"É claro que eu espero que você seja diretor e trabalhe comigo, por muito tempo... e também acho que é o que tem mais a ver com você. Mas eu ainda te conheço pouco e... bom, mesmo que você nunca pise em um palco, você vai ver que, parar dirigir atores, é preciso ter uma formação parecida, saber se colocar no lugar deles."
"É claro." Finn concordou. Queria aproveitar tudo o que a experiência de Rupert pudesse lhe acrescentar, mesmo que para isso tivesse que enfrentar um encontro não marcado com Rachel.
"Todo semestre, nós, diretores e produtores, indicamos alguns jovens promissores para vagas especiais de lá." Rupert continuou, alheio à saia justa em que estava seu pupilo. "É claro que minha indicação não garante a sua entrada, mas o processo de seleção é diferenciado e ter sido indicado vai te dar visibilidade. A cobrança também é maior, claro, mas eu não me preocupo com isso, até porque pressão é uma coisa que vai fazer parte do seu dia-a-dia."
"Eu posso imaginar." Riu, mais de nervoso do que qualquer outra coisa, mas recebeu um sorriso de volta, que parecia indicar que ele teria ajuda ao longo do percurso, e relaxou um pouco.
"Se você for aprovado, você só vai começar depois do recesso de final de ano, mas eu quero ir lá com você hoje, pra que você conheça o lugar e algumas pessoas importantes. E também há uma boa chance de que você comece a assistir a algumas aulas, informalmente, pra não perder tempo e até como uma forma de avaliação, mas isso a gente vai saber mais tarde."
Finn não disse nada sobre o fato de já ter estado na faculdade em questão, e tentou não pensar sobre aquela visita, que parecia ter ocorrido tanto tempo antes, nem sobre a que fariam naquela mesma tarde. Recebeu roteiros e livros das mãos de Campion e instruções a respeito da leitura, da produção de relatórios e de pesquisas complementares ao material ali reunido. Durante o almoço, interagiu tanto com os novos colegas de trabalho, que pareciam ter uma infinidade de histórias interessantes e engraçadas para contar, que conseguiu não ficar tenso, por umas boas horas.
Somente quando os dois já estavam andando pelos corredores, em direção à sala de Carmen Tibideaux, depois de ter deixado a do Professor Pollastri, ele começou a sentir um incômodo crescente. Observando tantos alunos espalhados pelo lugar, algo lhe dizia que ele não teria a sorte de passar pela escola de drama sem esbarrar com Berry, e ele logo constatou que estava certo, ao ver o rosto dela a poucos metros, e a transformação que ele sofreu, ao vislumbrar igualmente o seu.
"Finn? O que você tá fazendo aqui?" Perguntou, se aproximando. "Que surpresa!" Disse, sorridente, mas seu sorriso se desfez quando ele não esboçou a mesma reação, mesmo tendo parado de andar.
"Oi, Rachel. Eu... eu to fazendo uma visita. Depois eu te explico melhor." Afirmou, coçando a nuca.
"Eu sou Rupert Campion." O homem ao lado, que também se vira obrigado a parar, estendeu a mão, que ela apertou, sorrindo nervosamente, por saber perfeitamente quem ele era.
"Rachel. Rachel Berry."
"Você estuda aqui? Finn não me disse que conhecia ninguém daqui."
"Eu estudo, sim. Eu to..."
"Ela é minha... amiga, de Ohio. Ela também era do coral do Will." Ele a interrompeu, não querendo que alguém associado a ele pudesse incomodar de alguma forma o famoso diretor, nas mãos de quem a vida dele estava entregue. Sabia o quanto Rachel podia ser intensa ao falar de si mesma, de NYADA e de seus sonhos de estrelato.
"Nossa! Will é bom mesmo em formar os melhores, hum?" Observou, simpático, e ela sorriu, apesar de estar sem jeito com a situação. "Foi um prazer te conhecer... mas a gente tem hora com a Carmen e, se você estuda aqui, sabe bem como é a Carmen, né?" Brincou.
"A gente se fala, Rachel." Finn despediu-se, sabendo que, depois daquele diálogo de pouquíssimas palavras, ia ter que contar a ela e Kurt tudo sobre sua mudança, principalmente agora que ele possivelmente iria frequentar NYADA.
Hudson caminhou para um lado e Berry para o outro, voltando para perto de alguns colegas com quem tinha trabalhos a fazer. As aulas do dia já haviam acabado e o cansaço, que não era pequeno, tinha quadruplicado com aquela surpresa, que poderia ter sido ótima, mas tinha sido, na verdade, bem estranha e, no final, ruim. O caminho até o loft que dividia com o melhor amigo nunca parecera tão longo!
Rachel pendurou o sobretudo atrás da porta e jogou a bolsa na mesinha de centro, atirando-se deitada no sofá. Estava não só exausta, mas também confusa em relação ao encontro com Finn e à frieza com que tinha sido tratada por ele. Até ouviu Kurt entrar na sala e dizer algo sobre compras de supermercado e opções de molho para uma massa que faria para o jantar, mas nem registrou direito a informação e suspirou, sem responder nada ao amigo.
"Problemas com a Cassandra de novo?" Ele indagou, virando o rosto de lado, simpático.
"Não." Respondeu, mas não evoluiu, o que o deixou impaciente.
"O que foi, então? Eu conheço essa cara e só cansaço não é."
"Você sabia que o seu irmão tá em Nova York?" Devolveu a pergunta, sentando-se e tirando o sapato.
"O Finn?" Surpreendeu-se.
"Você tem outro?" Ironizou.
"Tecnicamente, eu não tenho nenhum!" Ele cruzou os braços na frente do corpo. "E, não. Eu nem imaginava que o Finn estivesse por aqui." Informou, sincero. "Ele deve ter vindo procurar você! Onde você o viu?"
"Em NYADA, mas, definitivamente, ele não veio por minha causa." Afirmou e, então, o amigo sentou a seu lado, mais interessado.
"NYADA, Rachel? Então é óbvio que é por sua..."
"Eu falei com ele, Kurt... e ele mal me cumprimentou! E sabe o que é mais estranho?"
"E pode haver algo mais estranho que o Finn em NYADA, sem ser pra procurar você?"
"Ele tava visitando a faculdade com Rupert Campion." Declarou e fez o rapaz franzir fortemente o cenho.
"Uau! Se ele conhece o Rupert, ele vai ter que me apresentar!" Animou-se.
"Seria ótimo conhecer o Rupert, mas... meu Deus, Kurt! Você não tá achando tudo isso muito esquisito?"
"É. É claro que sim. Mas eu vou descobrir, já, já, o que tá acontecendo." Explicou. "Ou nem tão já, porque eu acho que tá um pouco tarde pra ligar pro meu pai. Mas amanhã, eu vou saber tudinho!" Bateu no joelho dela, levantando-se. "E então, você prefere molho de queijo ou tomate com manjericão?"
"Tanto faz." Ela pegou os sapatos e também se levantou, indo para o espaço que lhe servia de quarto.
Para falar a verdade, aquele assunto a tinha feito perder completamente o apetite!
