"Você tá esperando alguém?" Kurt falou um pouco mais alto para que Rachel ouvisse, quando escutou a campainha tocar.

"Não." Ela respondeu, tratando de vestir um roupão por sobre a camisola.

"Não pode ser o Brody?" Questionou, ainda da cozinha.

"Acho que não." Disse, calçando chinelos.

"Finn!" Ela escutou o amigo cumprimentar o outro rapaz e rumou para a sala, vendo então os dois se abraçarem.

"Você não precisa ficar tão surpreso, porque eu sei que a Rachel já te contou que eu estava na cidade." Hudson falou, rindo, quando eles se soltaram. Cumprimentou a garota com um sorriso sem graça, que ela devolveu, apertando o nó do roupão por não saber direito como agir.

"Ainda assim, eu não esperava que você batesse na nossa porta hoje." Kurt assegurou.

"Eu sei que se não fizesse isso os Hummel receberiam um telefonema cheio de cobranças por explicações, amanhã bem cedo." Explicou Finn, caminhando para o sofá, onde sentou-se, com o irmão juntando-se a ele, enquanto Rachel ocupava uma poltrona. "Eles não merecem ser interrogados, porque não te contaram nada a pedido meu. Eu queria chegar aqui e fazer as coisas por minha própria conta."

"Então mate a nossa curiosidade, meu caro!" Pediu, afetadamente.

"Foi o que eu vim fazer." Riu, antes de explicar como tinha conhecido Rupert Campion, de contar sobre a proposta de trabalho dele, sobre a chegada a Nova York e a hospedagem na casa do diretor, e, por fim, sobre sua visita a NYADA e a relação entre ela e um possível ingresso seu no corpo discente da instituição.

Rachel observava tudo, sorrindo todo o tempo. A empolgação dele, ao falar sobre tudo com detalhes, era contagiante! Era óbvio que ele tinha achado, finalmente, algo que o motivava de verdade, algo pelo que ele tinha paixão. Ela conhecia esse tipo de sentimento pelo teatro, porque era também o dela, ainda que ela desejasse os holofotes sobre si e ele, pelo jeito, preferisse as emoções dos bastidores.

Ela relaxou e se permitiu até fazer algumas perguntas, e ele mesmo, envolvido com sua própria narrativa, conseguiu agir de um jeito natural perto dela, sorrindo quando respondia. Talvez a presença de Kurt facilitasse as coisas, porque mantinha a interação como uma simples conversa entre amigos e, toda vez que os olhares dos dois se cruzavam, ele podia desviar os olhos na direção do rapaz e continuar falando, como se nada tivesse acontecido.

"Isso tudo é ótimo, Finn! Ótimo mesmo!" Hummel mostrou-se contente por ele, quando a história acabou. "Principalmente a parte em que você vai me apresentar a um de meus maiores ídolos." Brincou, fazendo os outros dois rirem.

"Eu também to muito feliz por você, Finn. Que bom que enfim alguém viu todo o talento que você tem!" Ela disse, animada, mas ele retribuiu com um sorriso tímido.

"E que você sempre disse que eu tinha." Falou, lembrando-se de todas as vezes em que ela tentara convencê-lo do próprio valor, mesmo quando ele não dava o devido valor a ela e tentava negar seus sentimentos por ela, em razão do peso que dava à sua popularidade, que agora ele via como algo inútil e fútil. "Obrigada." Acrescentou, sério, não querendo se deixar levar por isso e esquecer acontecimentos mais recentes. "Eu vou conversar com o Rupert e tentar marcar um jantar, pra ele te conhecer." Prometeu a Kurt, aproveitando para mudar de assunto.

"Eu também posso ir?" Ela indagou, esperançosa, mas ele apenas deu de ombros, voltando a falar com o irmão e a deixando com a mesma sensação desagradável que tinha ficado do encontro no corredor da faculdade.

"Mas, pelo amor de Deus, Kurt! Você tem que se controlar e não ficar feito um louco, elogiando demais ou fazendo perguntas demais. O cara é seu ídolo, mas é meu chefe." Praticamente implorou e o outro mostrou o dedo mindinho, como quem sela um pacto.

"Você já sabe onde vai morar?" Ele quis saber, recordando que Finn tinha falado sobre estar provisoriamente na casa dos Campion. Passou pela sua cabeça a possibilidade de perguntar se ele precisava de lugar para ficar, mas achou que seria melhor só fazer isso em último caso, porque a casa também era de Rachel e ele não tinha muita certeza sobre se daria certo colocá-los para conviver em um espaço tanto pequeno.

"Eu vou ficar mais um tempo com o Rupert, porque, se eu entrar mesmo em NYADA, a gente acha que o melhor lugar pra mim vai ser nos dormitórios mesmo." Finn declarou.

"Tem que dar sorte com o companheiro de quarto. A da Rachel era meio estranha." Analisou, antes de pedir licença para sair da sala, indo atender o celular que estava tocando no espaço reservado para quarto.

"Eu to realmente feliz que você esteja aqui, Finn, e que tudo isso esteja acontecendo na sua vida, porque você merece MESMO." A morena reforçou, ocupando o lugar no sofá deixado por Kurt, e assim se aproximando mais do ex.

"Obrigado." Foi a única reação dele, que fingiu estar interessado na capa de uma revista que estava sobre a mesa.

"Você vai a NYADA amanhã? Depois da aula, eu poderia te levar para conhecer melhor a cidade." Arriscou.

"Eu agradeço, Rachel... mas amanhã eu não sei se já vou ou não pra lá. E também eu já conheci vários lugares com a cunhada do Rupert e já combinei de visitar outros com alguns colegas de trabalho meus, no final de semana." Permaneceu observando qualquer coisa na sala para não encará-la.

"Tudo bem, então, mas a gente devia ir pra algum lugar. Pode ser um café ou um bar... um lugar onde a gente possa conversar, passar um tempo juntos." Demonstrou que não desistiria com facilidade.

"Rachel..." Ele respirou fundo e olhou para o rosto dela, afinal. "Desculpa, mas a gente concordou que seria melhor não termos mais nenhum tipo de contato. É claro que vamos nos encontrar em NYADA..."

"Mas isso foi antes, Finn!" Interrompeu o raciocínio dele.

"Antes?" Ele levantou as sobrancelhas, confuso.

"Antes, sim! Quando você estava em Lima e eu aqui em Nova York..."

"Não foi por causa da distância que a gente decidiu isso, Rachel." Foi a vez dele de não deixá-la concluir. "Foi porque eu peguei você CHORANDO por causa de outro cara, menos de seis meses depois que a gente terminou um NOIVADO! O mesmo cara, aliás, que você beijou, aqui nessa mesma sala, pouco depois de vir pra Nova York, quando eu achava que você estaria aqui se concentrando em realizar seus sonhos, dando tudo de si na faculdade que você escolheu e na qual brigou tanto pra entrar!"

"Você entendeu errado, Finn."

"Nisso você tá certa! Eu entendi tudo muito errado!" Disse, cada vez mais irritado, provavelmente porque tinha guardado demais tudo aquilo para si mesmo. "Eu entendi que você não gostava do Brody, e só tinha ficado com ele porque tava triste e carente. Eu entendi que você só tava terminando comigo porque eu tinha sido um idiota, imaturo, e ido embora pra Lima, no meio da noite, sem nem falar com você. Entendi que o término era temporário, que você ainda acreditava na gente e queria que a gente ficasse junto... que era eu quem precisava confiar mais em mim, pra poder confiar na gente também."

"Finn..."

"Eu não quero que você fique tentando se explicar, tá? Não tem nada pra explicar!" Afirmou, levantando-se. "Quando eu montei Grease, eu fiquei todo orgulhoso de mim, e tudo que eu pensava era que você ia ficar orgulhosa de mim também, pra, na hora h, te pegar chorando por outro... por ELE!" Fez uma careta de desprezo que ela nunca tinha visto igual no rosto dele.

"As coisas não são tão simples assim." Tentou argumentar, mas ele já estava perto da porta àquela altura.

"A gente vai ter contato na sua faculdade, é claro, mas, pelo menos por enquanto, é melhor que seja só isso. E é melhor também eu ir, agora. Já tá tarde." Falou, abrindo a porta e acrescentou apenas um "tchau" antes de fechá-la atrás de si.

Rachel sentou-se no chão, encostada à porta, enterrando o rosto nas mãos e bufando. Sentia-se idiota por ter sido orgulhosa e não dito, simplesmente, que ainda o amava, e que jamais chorara por Brody, mas sim por ter sido humilhada por Cassandra, e não ter conseguido consolo na forte atração que o veterano dizia ter por ela, no momento em que mais precisara. Chorara, na verdade, porque não conseguira o que era necessário para camuflar o sofrimento que vê-lo de novo causara, a dor que as lembranças evocadas pelo musical tinham provocado.

O pior é que a tendência natural era que a situação se agravasse ainda mais, porque havia uma probabilidade enorme de Finn ficar sabendo que ela estava mais próxima de Brody do que nunca, a ponto de ter passado o feriado de Ação de Graças com ele. Hudson certamente veria isso como uma confirmação de que ela tinha sentimentos por Weston, quando, na realidade, ela tinha sido apenas fraca, não conseguindo permanecer completamente sozinha, sem alguém com quem aparecer nos lugares, sem alguém que pudesse fazê-la se sentir desejada, com seus elogios e toques.

"Era a Anne no telefone. O Finn já foi? Eu ia dizer para ele jantar com a gente." Kurt voltou, ao terminar sua conversa com uma colega da Vogue, e se surpreendeu ao vê-la sozinha.

"Foi, sim. Ele mandou dizer que vai marcar o tal jantar com Rupert e te liga."

"E você vai me contar sobre o que conversaram?" Perguntou, desconfiado.

"Eu disse que a gente devia ir a algum lugar e passar um tempo juntos, mas ele quer se manter sem contato comigo."

"Vocês vão se ver em NYADA." Observou o óbvio.

"Quanto a isso, acho que ele não tem muita escolha, né?" Comentou, suspirando, enquanto ficava de pé.

"Rachel, você não vai gostar do que eu vou dizer, mas o que te fez pensar que seria diferente?" O amigo resolveu usar de sinceridade. "Da última vez em que vocês se viram, foi super desconfortável. Você até disse que não se sentia mais em casa, em Lima, depois de falar com ele. Você não pode achar que ele iria chegar aqui e magicamente virar de novo o seu melhor amigo."

"Eu não quero que ele seja meu melhor amigo, Kurt. Pra isso, eu tenho você!" Disse, um pouco irritada. "Eu amo o Finn. Eu nunca vou deixar de amar, mesmo que não fique falando disso toda hora. Eu sempre tive esperança de que a gente teria um futuro juntos e, agora que ele não só tá aqui, como deixou de achar que não é bom o suficiente e, finalmente, encontrou uma carreira na qual ele quer investir, a gente não voltaria a namorar num passe de mágica, é claro, mas poderia se reconectar e... trabalhar nisso juntos."

"Pelo jeito, você vai ter que trabalhar por sua própria conta... e bastante!" Concluiu. "Você não vai querer comer, não é?" Indagou, prevendo a resposta e ela só confirmou com um gesto de cabeça, voltando ao cantinho da casa que lhe pertencia, enquanto ele ia provar sua massa sozinho.

Estava triste e frustrada naquele momento, e a tristeza só aumento quando, na quarta-feira, Finn foi apresentado como um aluno especial na aula de história do teatro, e a cumprimentou apenas de longe, escolhendo um lugar na sala bem distante do dela. A frustração, no entanto, deu lugar à determinação que ela julgava ser característica sua. Não perderia o amor da vida dela sem lutar e a primeira coisa que precisava fazer era conversar com Brody, de quem, com certeza, precisaria se afastar.

"Oi, gata." Ele atendeu o telefone, animado, sem imaginar qual era a razão pela qual ela estava ligando.

"Oi, Brody. Tudo bem?" Questionou, por hábito, mas não esperou resposta. "Será que a gente pode se encontrar no Café Au Lait? Eu preciso conversar com você."

"Aconteceu alguma coisa na faculdade?" Ele devolveu a pergunta, mas também foi respondendo à dela, sem aguardar. "Eu posso ir pra lá, mas só daqui a umas duas horas, porque a Cassie me pediu uma ajuda."

"Tudo bem... te espero lá." Combinou, se despedindo em seguida. Normalmente não gostaria de ouvir que ele não podia vê-la imediatamente por causa de Cassandra, não por ciúmes, mas porque tratava-se da mulher que tinha prazer em fazer sua vida um inferno e parecia natural querê-la longe do jovem com quem estava, de certa forma, envolvida. Naquela manhã, porém, a referência à professora não afetou seu humor nem um pouco, já que o que ela queria era justamente acabar com qualquer tipo de relação com ele e o fato de não saírem exclusivamente um com o outro poderia ser até bom, nesse caso.

Ela achou realmente que esse primeiro passo não seria dos mais complicados, mas talvez estivesse sendo otimista como poucas vezes na vida, justamente em um dos momentos mais impróprios.