"Então é assim? O ex-namoradinho do ensino médio resolve que pode deixar de ser garoto do interior e se encaixar em Nova York, e a futura princesinha da Broadway imediatamente cai de amores por ele de novo?" Perguntou Brody, entre irritado e debochado, depois de ouvir de Rachel a notícia sobre a mudança de Finn e a decisão da morena de que ela e o colega veterano de NYADA deveriam se afastar.
"Por que você tá sendo irônico?" Questionou, confusa. "Eu nunca escondi de você que eu amava o Finn!"
"Mas também não pareceu mais tão interessada em resolver as coisas com ele, depois que foi a Lima pela última vez." Afirmou. "Preferiu reclamar do meu lance com a Cassandra e ficar me atiçando, até a gente se pegar de novo, e agora acha que pode simplesmente acabar com tudo, de uma hora pra outra?"
"A gente nem namora pra valer, Brody!"
"Que se dane!" Falou, ameaçador, projetando o corpo na direção do dela, por sobre a mesa da cafeteria, e só não gritando para não chamar atenção de alguns colegas que estavam em volta. "Eu não sou o tipo de cara que é colocado, assim, pra escanteio, sem mais nem menos, garota!"
"E o que você pode fazer, hum? Me obrigar a continuar ficando com você?" Indagou, cruzando os braços na frente do peito, de um jeito desafiador. Não iria se deixar intimidar pela postura dele.
"É claro que não, gatinha." Ele se encostou na cadeira de novo, altivo, também cruzando os braços e sorrindo com sarcasmo. "Eu nunca precisei usar força pra ter uma mulher e nem faria isso. Eu só não quero que você ache que eu vou facilitar as coisas pra você." Explicou, tomando um gole de suco.
"Como assim?"
"Você pode se livrar de mim, mas duvido que consiga voltar com o namoradinho imbecil, depois que ele souber como nós dois nos divertimos juntos, na ausência dele."
"Você não pode falar dele assim! E você não tem o direito de se meter..." Rachel se exaltou, levantando a voz, mas foi interrompida.
"Paga pra ver!" Ele se divertiu com o nervosismo dela e ela respirou fundo, sentindo vontade de quebrar alguma coisa. Talvez até a cara dele!
"Quer saber, Brody? Eu esperava que você fosse mais adulto e fosse lidar com isso numa boa! Mas afinal eu to vendo que esse seu ego inflado, essa sua arrogância, deve ser o que faz quase todo mundo que eu conheço querer distância de você." Informou. "Foi bom, porque antes eu ainda ia lamentar não poder ter algum contato com você, como amiga, mas agora eu vou dar graças a Deus, se eu puder nem mesmo dirigir a palavra a você."
Ela despejou tudo aquilo e ele nada respondeu, mantendo-se com um sorriso cínico no rosto, enquanto ela mexia na bolsa, tirando dinheiro da carteira e colocando sobre a mesa, para pagar por seu chocolate quente. Tentava se mostrar confiante no que dissera, mas não conseguia disfarçar tão bem quanto gostaria o nervosismo.
"E olha! Pode falar o que você quiser pro Finn. Ele vai entender que eu só fiquei com você porque ele tava longe, eu tava sozinha, sem esperança de ficar com ele de novo, e louca pra que alguém me desse atenção." Disse, mesmo que não acreditasse, ela mesma, que as coisas fossem ser tão fáceis. "Ele me conhece e sabe do meu fraco idiota por quem faz com que eu me sinta o centro das atenções!" Acrescentou, já de pé.
"É o que a gente vai ver." Ele retorquiu, com uma calma irritante.
Rachel saiu como um foguete do café, pois lágrimas de raiva e preocupação queriam sair de seus olhos, e ela não gostaria que estas fossem vistas por Brody, ou por qualquer um dos muitos alunos de NYADA que frequentavam o lugar, que ficava no andar térreo do edifício da escola de teatro. Sua pressa era tanta e sua cabeça estava tão baixa para esconder o semblante, que ela quase esbarrou em Cameron, uma das meninas que estavam entrando no local, acompanhadas justamente de Finn e de mais um garoto.
"Nossa! Ela tava com pressa, hein! Eu tive que desviar." Comentou a garota.
"Acho que ela tava era nervosa." Falou Delvin, soltando a porta por onde Rachel tinha passado, agradecendo a gentileza dele com a voz meio engasgada. Mal podia saber que o encontro com seu pequeno grupo de amigos a deixara ainda mais tensa e que, naquele momento, ela estava praticamente correndo pela rua, com lágrimas borradas de negro escorrendo por sua face.
"Deve ter brigado com o Weston." Concluiu Jorja, ao ver o colega em uma mesa mais ao fundo da cafeteria, tomando suco e mexendo no celular.
"Eles namoram?" Finn indagou, tentando parecer apenas um colega curioso.
"Eu acho que não é namoro, não. O Brody não faz o tipo que assume compromisso." Respondeu Cameron, já escolhendo uma das mesas e sentando-se.
Finn não ficou exatamente surpreso, pois já imaginava que Rachel estivesse em uma relação com Brody. Quanto à opinião de Cameron, confirmada pelos demais, de que não se tratava de namoro, ele não sabia se ficava feliz ou ainda mais chateado. Claro que um lado dele, com ciúmes e esperanças de pessoa apaixonada, preferia que ninguém mais tivesse o título que um dia fora dele. Outro lado, porém, detestava saber que Rachel estava se prestando ao papel de aceitar qualquer coisa que o garoto mais velho quisesse lhe dar.
Já o rapaz em questão ficou surpreso e satisfeito de ver que poderia começar a colocar seu plano em prática imediatamente, quando levantou os olhos de seu iPhone e se deparou com o "rival" sentado a algumas mesas de distância. Chamou o garçom e pagou por aquilo que Rachel e ele tinham consumido, e caminhou até Finn, se preparando para encarnar um personagem, do mesmo modo como tinha feito quando este interrompera o primeiro beijo entre a morena e ele.
"E aí, Finn? Tudo bem, cara?" Disse, dando um tapinha nas costas dele com uma das mãos e, em seguida, oferecendo a outra para um cumprimento, como se encontrasse um velho conhecido qualquer.
"Tudo bem, Brody?" Ofereceu em troca, apertando a mão estendida em sua direção. Não gostava dele, mas talvez fosse somente porque sentia ciúmes, afinal o garoto nunca lhe dera nenhum real motivo para pensar que sua simpatia estava sendo falsa. Além disso, não queria provocar uma cena desagradável na frente dos novos colegas, recusando um simples aperto de mão.
"A Rachel me falou que você se mudou e vai estudar com a gente. Isso é ótimo!" Afirmou, como se ele tivesse sido um tópico de conversa como qualquer outro entre ele e a menina. "Depois, eu e ela podemos te dar uma dicas, se você quiser. Ela saiu correndo pra um compromisso, mas eu tenho certeza que ela também vai querer te falar da experiência dela aqui. Apesar de eu achar, aqui entre nós, eu tenho bem mais a contribuir." Fingiu segredar, rindo.
"Ok. É... obrigado." Finn assentiu sem jeito, enquanto os demais ocupantes de sua mesa observavam, achando tudo muito estranho.
"Eu também vou indo, então. Bem-vindo." Esticou a mão de novo e, depois de mais um cumprimento falsamente amistoso entre os dois, se despediu dos outros colegas com um aceno de cabeça e um sorriso.
"Você não falou que era amigo do Brody e da Rachel." Uma das meninas comentou, quando ele estava suficientemente longe.
"Eu não sou. Eu estudei com ela, em Lima." Esclareceu, sem querer entrar em maiores detalhes.
"Então, isso foi bem estranho! Ele tá longe de ser um cara simpático." A outra garota comentou e ele apenas deu de ombros.
De repente os itens do cardápio se tornaram um assunto muito interessante sobre o qual falar. Finn quis saber que sanduíches eles recomendavam e disse estar na dúvida entre chocolate quente e o café com leite, que era especialidade da casa. Tudo o que pudesse fazer para evitar falar sobre Rachel ou Brody, ele faria. Talvez um dia aqueles três fossem saber, de um jeito ou de outro, que ele e Berry tinham sido noivos, mas ele não sentia vontade de conversar sobre isso com ninguém, por enquanto.
Durante as próximas semanas, Rachel não foi importunada por Brody e mal viu o jovem circulando por NYADA. Em compensação, não conseguiu se aproximar muito de Finn, que normalmente a cumprimentava, com acenos e sorrisos, mas se mantinha distante. Se ela puxava algum assunto relacionado às aulas, ele respondia, simpático, mas nunca era possível falar sobre coisas pessoais, porque ele sempre estava acompanhado de colegas ou atrasado para o trabalho.
Pouco antes do recesso de final de ano, Rachel poderia jurar que percebeu uma mudança e o tratamento ficou ainda mais seco, com os cumprimentos não mais acompanhados de sorrisos, e respostas monossilábicas sendo dadas a suas perguntas. Ficou se questionando sobre se aquilo tinha ou não algo a ver com as ameaças de Brody, mas não perguntou, afinal não saberia bem o que dizer sobre o que quer que Weston tivesse contado a ele.
Sentiu-se aliviada em saber que iria viajar com os pais antes do Natal e voltar somente depois do Ano Novo, uma vez que Carole e Burt tinham decidido passá-los em Nova York com os filhos, e, se ela fosse ficar na cidade, acabaria festejando com um ex-noivo que fazia questão de se comportar como um estranho. Deixou um presente para ele, porque também comprou lembranças para o resto da família, mas tomou cuidado para não escolher algo pessoal, visto que, àquela altura, estava muito difícil ficar otimista sobre sua decisão de lutar por ele.
"Vou ali, rapidinho, falar com a Rachel." Ela o escutou dizer a alguém, quando mexia em seu armário, no corredor da faculdade. Era o primeiro dia de aulas do ano e ela já tinha achado que as coisas tinham melhorado um pouco, quando chegara a uma das aulas, e ele a cumprimentara, sem que seu semblante ficasse triste de repente.
"Oi." Virou-se, sentindo a presença dele atrás de si. Junto, estavam Cameron, Ellen e Delvin, que ainda não conheciam todos os laços que, um dia, haviam unido os dois, mas já sabiam que Rachel morava com o "irmão" do garoto, no apartamento onde ele passara o Natal.
"Oi, Rachel. Tudo bem?" Perguntou, um pouco sem graça. "Eu... queria te agradecer pelo presente. E me desculpar também, porque eu não tinha comprado nada pra você e..."
"Tudo bem, Finn." Tentou soar convincente, mas não conseguiu. "Não tem problema. Eu sei que você ainda tá se adaptando." Ele sorriu de lado, sincero, e foi como se ela tivesse voltado no tempo por um breve instante.
"É verdade." Riu. "A minha mãe me pediu pra te agradecer pelos presentes dela e do Burt... e pra te perguntar se você gostou da blusa." Referiu-se ao que Carole deixara para ela.
"Eu adorei!" Respondeu, verdadeira. "Eu só não liguei pra ela ainda, porque eu cheguei ontem mesmo." Olhou em volta, sorrindo amarelo para os próprios colegas, que prestavam atenção na conversa, ao invés de se entreterem com qualquer outra coisa, mas mesmo assim decidiu aproveitar a oportunidade. "Será que a gente podia conversar um pouco? Tomar um café talvez?" Indagou, voltando a olhar para ele, mesmo que não soubesse exatamente sobre o que falariam, se ele aceitasse.
"Hum... ok." Balançou a cabeça, visivelmente tenso. "Pode ser."
"A gente vai indo nessa, cara." Delvin tomou a iniciativa de se despedir.
"Beleza. A gente se fala." Finn apertou a mão do rapaz, enquanto trocava sorrisos com as meninas. Rachel se sentiu no início do ensino médio, quando Brittany e Santana faziam Hudson se achar "o cara", flertando com ele pelos corredores, e ela pensava que iria morrer de tantos ciúmes.
"Obrigada por não fugir do meu convite." Rachel brincou, já sentada à mesa de uma lanchonete, depois de terem ido até lá quase em silêncio. Bebeu um gole de suco, enquanto esperava Finn terminar de mastigar um pedaço de cookie.
"O pessoal ia achar estranho, se eu me recusasse a tomar um café com você. Eles iam começar a fazer perguntas, e eu não quero causar constrangimento pra nenhum de nós dois." Afirmou, comendo o resto do cookie, e ela fez o mesmo com seu muffin. "Além disso, eu tava mesmo querendo te dar uma coisa." Continuou, pegando a mochila, tirando alguns papéis de dentro dela e colocando-os sobre a mesa.
"O que é isso?"
"São datas, locais e detalhes sobre algumas audições que vão acontecer ao longo desse mês e no próximo. Eles vão avisar em NYADA daqui a uns dias, mas ninguém me pediu sigilo e eu achei que, se você tivesse mais tempo pra se preparar, poderia ser bom." Deu de ombros.
"Você ainda se preocupa comigo?" Ela sorriu de verdade, pela primeira vez naquele "encontro". "Você não me odeia, então?"
"Odiar?" Franziu o cenho. "Eu nunca poderia te odiar, Rachel. A gente tem uma história! Eu só... eu só não to preparado, ainda, pra ser seu amigo." Acrescentou com tristeza.
"E quem disse que nós precisamos ser amigos?" Ela tentou pegar a mão dele sobre a mesa, mas ele a retirou, devagar, coçando a nuca com ela e se mostrando nervoso.
"Se você não se importa, eu agora preciso ir. Eu tenho bastante trabalho pra fazer, hoje, no teatro." Desconversou, já colocando dinheiro sobre a mesa. Ela concordou em ir embora e também não fez objeção quando ele pagou toda a conta.
Deixou a lanchonete um pouco mais esperançosa, achando que talvez aquela conversa tivesse representado um pequeno avanço, e que, se ele não a odiava, mas também não conseguia ser seu amigo, talvez fosse porque, no fundo, ele ainda a desejava.
E desejo era, definitivamente, uma grande coisa para quem pensara não ter absolutamente nada mais de Finn Hudson!
