Apesar das esperanças de Rachel, as coisas não mudaram ao longo de Janeiro. Finn continuou falando pouquíssimo com ela e, quando falava, era formal e a deixava muito frustrada. Mesmo quando a comissão de dirigentes de NYADA responsável pela seleção de novos alunos resolveu que ele deveria ser avaliado nas aulas, ao invés de pelo método convencional, de uma só audição, ele evitou ao máximo trabalhar em grupo com ela.
Algumas vezes, foi inevitável, porque os próprios professores escolheram os grupos, mas a interação rápida, no meio de outros colegas, não trouxe maiores consequências. Foi somente bem próximo ao recesso de primavera, no entanto, que aconteceu o que ele mais temia, cada vez que vinha um trabalho novo. Aconteceu na aula de Interpretação I, com a Srta. Victoria Campbell.
"O nosso último trabalho do semestre vai ser feito em duplas, e eu trouxe uma lista com os nomes de vocês numerados, numa ordem qualquer. Assim, um de vocês pode escolher, sem saber, cada uma das duplas, pra ficar justo." Informou a professora. "Quer me ajudar nisso, Clark?" Perguntou a um dos alunos, que não parava com uma conversa paralela.
"Uhum... claro, fessora! Bora!" Disse, mostrando-se pronto a colaborar, apesar de ter parecido estar muito pouco atento. "Cinco e nove... pode ser?"
"Erik e Hope." Declarou, balançando a cabeça, positivamente, depois de consultar um papel.
"Quinze e dezenove."
"Greta e Mary." Continuaram ambos, formando o segundo par.
"Onze e três."
"Rachel... e Finn." Falou a mulher, antes dos próximos números, que nenhum dos dois continuou acompanhando, preocupados com o que estava por vir. Teriam que passar um tempo juntos, ensaiando, e mesmo Rachel, que adoraria ficar todo o tempo do mundo ao lado dele, não achou bom que isso fosse acontecer por uma obrigação acadêmica.
"Por último, mas não menos importantes, ficamos com Cameron, Paul e Ben. Vocês estão em número ímpar aqui." A Srta. Campbell terminou de formar os grupos, um tempo depois. "As instruções são simples." Continuou, finalmente chamando a atenção de Rachel, que se preparou para fazer anotações. "Vocês vão escolher uma cena qualquer de um casal, não muito longa, porque só vamos ter duas aulas para as apresentações, e encenar aqui, semana que vem."
"Casal... casal mesmo?" Questionou Finn, um pouco tenso.
"Casal, casal. Duas pessoas romanticamente envolvidas." Respondeu, confusa com a pergunta. "Menos o trio, que tem que escolher algo que envolva triângulo, é claro."
"Mesmo pra nós, que somos duas garotas?" Mary perguntou.
"Adaptem o diálogo, se não encontrarem uma cena do agrado de vocês que seja originalmente com um casal de mulheres." Instruiu. "Vocês podem colocar fundo musical, usar itens de cenografia, figurino... o que vocês quiserem. Tudo o que facilitar a atuação de vocês é válido, mas o que vai contar mesmo é a interpretação, obviamente."
A mulher respondeu mais algumas indagações dos alunos, antes de dispensá-los, e Finn se aproximou de Rachel, a fim de combinar de ir ao apartamento dela, para que pudessem escolher uma cena e decorar juntos. Os dois agiram como simples colegas de classe, utilizando suas habilidades de atuação antes mesmo de a tarefa começar. Cada um sugeriu duas cenas de filme, quando se reuniram dias depois, mas não foi difícil chegarem a um acordo, e foram necessárias apenas pouco mais de duas horas de ensaio, para que julgassem que se sairiam muito bem.
"Nós vamos fazer uma cena de Orgulho e Preconceito." Informou Finn à classe, na semana seguinte. "Mas não nos preocupamos com figurino ou nada do tipo, porque achamos que a cena em si poderia acontecer nos dias de hoje mesmo."
"É. Não tem nenhuma referência de época na cena." Complementou Rachel. "É a cena em que a Lizzie vai caminhar e encontra o Sr. Darcy."
"A gente achou que, mesmo hoje em dia, uma tia poderia querer se meter na vida do sobrinho, e tentar convencer uma garota de que ela não era boa o suficiente pra ele, assim como a tia do Sr. Darcy fez." Concluiu Finn, e então a dupla se posicionou bem no centro da sala de aula.
"Não pude dormir." Rachel falou, já encarnando a personagem.
"Eu também não. A minha tia..." Ele iniciou uma pergunta, que foi interrompida, como no filme.
"Sim. Ela esteve aqui." Disse, baixando o rosto, como se estivesse sem jeito.
"Como poderei reparar tal comportamento?" Foi a vez dele de assumir um tom envergonhado.
"Depois de tudo que fez pela Lydia e creio que pela Jane também, sou eu quem devo me retratar." Continuou, olhando nos olhos dele, como Keira Knightley fizera na cena com Matthew Macfadyen.
"Você deve saber." Ele retomou o diálogo. "Claro que deve saber que fiz tudo por você. Você é generosa demais para brincar comigo. A sua conversa com a minha tia ontem acendeu uma esperança que jamais havia acalentado. Se seus sentimentos são os mesmos de abril, diga logo. O meu desejo e a minha afeição não mudaram. Mas uma palavra sua poderia silenciar-me para sempre." Ele fez uma pausa, se aproximando mais. "Se, no entanto, os seus sentimentos mudaram, preciso dizer que você enfeitiçou o meu corpo e a minha alma, e eu a amo, a amo, a amo. Não quero estar mais longe de você de hoje em diante."
Foi a vez dela de encurtar a distância entre eles, tomando-lhe uma das mãos nas suas, e tentando ser simplesmente profissional, mesmo quando desejava tanto que aquelas fossem palavras de Finn e não do Sr. Darcy. Nos ensaios, ele não tinha sido tão convincente na emoção, talvez por não querer que ela confundisse as coisas, mas agora ele estava fantástico e ela estava tendo mesmo que se esforçar para lembrar que era só teatro.
"Bem, então..." Ela disse, beijando-lhe as costas da mão, carinhosamente, em um gesto que eles também tinham deixado de fora dos ensaios, mas que estava no roteiro copiado por ela. "As suas mãos estão frias." Continuou e ele assentiu, acariciando o rosto dela e encostando a testa na dela, lembrando-se bem da descrição da cena.
Seus olhos, no entanto, acabaram se encontrando e, tão perigosamente próximos como estavam, puderam sentir o cheiro um do outro, o calor da respiração. Assim como tinha acontecido nas finais da competição de coral, mais de dois anos antes, ali naquela mesma cidade, o magnetismo que existia entre os dois fez ambos esquecerem onde estavam e o que estavam fazendo, por um breve momento.
A espécie de transe não durou mais que alguns segundos, mas foi tempo suficiente para que eles juntassem delicadamente seus lábios, antes de perceber o que estavam fazendo e de recordar que eles não trocavam mais aquele tipo de carinho, pois não tinham mais um relacionamento. Afastaram-se, nervosos, sem conseguir encarar um ao outro, e logo ouviram algumas manifestações, juntos com as esperadas palmas que seguiam cada trabalho apresentado.
"Eu não me lembro de um beijo no final dessa cena." Cameron falou, em tom antipático. Rachel creditou o comentário a ciúmes, pois já tinha percebido que a garota vivia se insinuando para seu ex noivo. Teve vontade de revirar os olhos, mas se controlou.
"A gente adaptou." Deu de ombros, enquanto já caminhava de volta para o lugar onde estivera sentada antes, assistindo às demais apresentações. Não queria continuar muito perto de Finn e nem deixar que o beijo atraísse tanta atenção.
"É. A gente achou que não ficaria legal terminar a cena tão de repente. No filme existe o corte, né?" Ele também tentou disfarçar o deslize dos dois, enquanto sentava-se novamente perto dos amigos.
"Eu gostei da interpretação de vocês pra cena." Declarou a pessoa com que eles realmente se preocupavam, não parecendo ter notado que o beijo tinha sido entre Finn e Rachel, e não entre Fitzwilliam Darcy e Elizabeth Bennet. "E o beijo se encaixou com a transposição pra época atual. Quem hoje em dia acabaria uma declaração de amor sem um beijo, né?" Sorriu Victoria, pedindo em seguida para que a próxima dupla tomasse sua posição.
Finn saiu da sala e da faculdade tão rápido que nem os amigos tiveram tempo de falar com ele sobre o trabalho ou qualquer outra coisa. Rachel só se incomodou com Cameron observando-a com desconfiança, enquanto ela arrumava suas coisas. Já imaginava que Finn não iria querer conversar sobre o assunto imediatamente, por isso não se surpreendeu ou chateou com a pressa dele.
Só ficou triste, e até um pouco irritada, quando os dias se passaram, as aulas acabaram, o recesso começou, e ele continuou agindo como se nada tivesse acontecido. Porém, infelizmente, com ela se preparando para algumas das audições sobre as quais ele havia lhe falado, e ele ocupado com os preparativos iniciais para uma nova produção do chefe, Rupert Campion, teve que se conformar em não confrontá-lo e aceitar que o beijo tinha sido só uma coisa de momento, que provavelmente ele faria de tudo para não repetir.
Quando o viu de novo, as pequenas férias estavam quase acabando, ele já tinha sido definitivamente aceito em NYADA e até já havia feito sua mudança para o dormitório da faculdade. Chegou correndo ao Callbacks Bar, onde ela e Kurt já estavam, havia mais de uma hora, com Quinn e Santana, que estavam aproveitando a interrupção nas aulas para visitá-los.
"Desculpa, gente, mas eu achei que a reunião que eu tive ia demorar bem menos." Falou, tirando o casaco.
"Tudo bem, gigante! Tá perdoado... DESSA vez." Santana falou, implicante, mas puxou o amigo para um abraço.
"Eu não sabia que ele vinha." Rachel comentou, baixinho, com Quinn, que sabia que os dois não estavam convivendo muito.
"A Santie insistiu." Respondeu a loira, em tom de desculpas, e a morena assegurou-lhe que estava tudo bem.
Hudson examinou o cardápio, fez alguns pedidos e quis saber das amigas o que tinha acontecido com cada uma, desde o feriado de Ação de Graças, quando haviam se encontrado pela última vez. Também falou sobre suas experiências em Nova York e fez Rachel desistir de ficar à mesa com o grupo e ir cantar, quando começou a citar Cameron, várias vezes, ao descrever boa parte de suas atividades fora do trabalho. Não teve o prazer de vê-lo dizer, quando questionado por Santana, que não pretendia ter nenhum envolvimento afetivo ou sexual com ela, apesar de perceber suas constantes investidas.
"E você acha que eles viriam?" Ouviu Fabray indagar, quando voltou a sentar-se ao lado dela.
"Não é tão longe." Santana respondeu, pensando no pessoal que ainda morava em Lima.
"Pro Puck, é." Finn acrescentou, se referindo à distância entre LA e NY.
"O que nos deixaria sem as bebidas." Quinn observou, tentando dar a entender que a presença do garoto com o qual teve uma filha só importava pela sua capacidade de driblar a lei.
"O Sam também tem um documento falso." Santana deu de ombros.
"Também é longe pro Mike e pra Mercedes, mas acho que pra eles é mais tranquilo gastar uma grana com viagem." Finn continuou, mais preocupado em rever o maior número de amigos possível do que em encher a cabeça de álcool.
"Do que vocês tão falando?" Berry finalmente perguntou, mexendo seu suco com o canudinho.
"De uma festa dos solteiros no dia dos namorados, lá em casa." Kurt declarou. "Você não se opõe, né, diva? A gente não tem nada pra faze primeira vez que todos nós estamos solteiros ao mesmo tempo, num dia dos namorados." Falou, animado.
"Não sei muito bem se concordo que isso é motivo pra comemorar, mas claro que não me oponho a uma festa com vocês." Sorriu amarelo.
Começaram a mandar mensagens para os amigos logo em seguida e depois passaram a noite planejando como seria a reunião no loft. Todos apareceram no dia dezoito de fevereiro, inclusive Puck, que já não estava mesmo achando LA um lugar tão promissor e revolveu passar por NY em sua viagem de volta para Lima, onde voltaria a limpar piscinas e tentaria, futuramente, conseguir uma vaga na faculdade comunitária.
"É claro que a melhor coisa de ser solteiro é poder pegar todas as gatas que eu quiser." Puck afirmou, sincero.
Quando todo mundo já tinha cantado ao som de um videokê, bebido bastante, principalmente graças à brincadeira do "eu nunca", e cansado de inventar coisas no jogo de "verdade ou consequência", capazes de causar constrangimento sem relembrar velhos relacionamentos, os amigos resolveram que iriam listar suas coisas favoritas na fase de solteirice.
"Pra mim, a melhor coisa é passar o final de semana todo na cama, realmente dormindo." Riu Blaine, lembrando-se de quando Kurt planejava atividades para cada momentinho dos sábados e domingos dos dois.
"Sair com os caras, sem alguém achando o tempo todo que eu to fazendo alguma coisa errada." Sam acrescentou.
"Poder usar uma calcinha bem grande, pijama de flanela e pantufas, e me encher de comida calórica, enquanto choro, vejo um filme bem triste." Tina falou, fazendo Mike arregalar os olhos, surpreso com a parte da calcinha.
"Eu acho que vai ser mais divertido falar sobre o que eu mais ODEIO em estar solteira, e aproveitar pra bater naquele coração ali, e liberar os doces, pra gente se encher deles, e engordar pra caramba, e continuar solteiras." Rachel falou, de um jeito engraçado, por causa da bebida pink que alguém tinha preparado especialmente para ela. Levantou-se, indo em direção ao coração de isopor cheio de guloseimas, que estava perdurado no meio da sala, pronto para ser destruído. As lojas o vendiam na época do Valentines Day justamente com o fim de serem usados nas anti-celebrações.
"Ótima ideia!" Sugar se juntou a ela, pegando o bastão que vinha com o coração e começando. "Eu odeio ver outras meninas recebendo presentes no dia dos namorados e não ganhar nada!" Falou, fazendo todo mundo rir do fato de que ela era materialista até nessas horas.
Todos acabaram se levantando e disputando o bastão, enquanto gritavam, ao mesmo tempo, sem ouvir uns aos outros, sobre cada coisa que os incomodava em não estarem namorando. Apesar de algumas delas serem verdadeiramente deprimentes, ficavam engraçadas faladas em voz alta e toda a confusão, junto com o teor de álcool no sangue de todos, rendeu gargalhadas de fazer a barriga doer. No final, pode-se dizer que foi um bom dia dos namorados, na medida do possível.
Pela primeira vez, depois de muito tempo, Finn pareceu relaxado perto de Rachel e capaz de se divertir junto com ela, e é claro que, se dependesse dela, não se trataria da última vez.
