Finn acordou confuso, ao escutar duas batidas na porta do quarto, e chegou a pensar que tinha apenas sonhado com o barulho, decidindo, assim, virar-se para o outro lado e voltar a dormir. As batidas se repetiram, no entanto, fazendo com que finalmente abrisse os olhos e, ao se acostumar com a claridade e enxergar o relógio despertador que ficava em sua cabeceira, percebesse que tinha perdido a hora. Levantou-se, então, procurando por algo que pudesse vestir, ao mesmo tempo em que pedia a quem havia batido para aguardar.
"Oi, Rachel." Cumprimentou a visitante, passando uma das mãos pelos cabelos e tentando ajeitá-los.
"Oi, dorminhoco." Disse, sorridente, enquanto ele abria espaço para que ela entrasse no cômodo. "O primeiro tempo acabou um pouco antes, e eu falei pro pessoal que vinha ver se tinha acontecido alguma coisa com você, mas, na verdade, eu tinha certeza que você tinha perdido a hora." Riu. "Eu pensei até em dar uma desculpa pra eles e deixar você dormir mais, mas achei que você não ia querer perder o segundo tempo também."
"E não ia querer mesmo." Concordou, indo até o banheiro e colocando pasta na escova de dentes, enquanto ela se sentava na cama dele. "Mas você podia ter ligado." Falou, sem jeito por ter feito com que ela se deslocasse até os dormitórios, e começou a escovar os dentes, sem cerimônia.
"Eu tentei e não fui só eu! Mas acho que o seu celular tá desligado." Rachel declarou e ficou mexendo no próprio telefone, esperando que ele acabasse de fazer sua higiene pessoal. Sorriu, vitoriosa, aproveitando que Finn não a estava vendo, ao lembrar-se da raiva estampada no semblante de Cameron, quando a garota sugerira que alguém deveria certificar-se de que ele estava bem, e ela se levantara imediatamente, não dando chance para que a outra se oferecesse, como queria.
"Eu apaguei ontem, quando cheguei aqui. Agora é que eu to me lembrando que eu não coloquei o celular pra carregar e nem programei o despertador." Riu, coçando a nuca.
"A culpa foi minha, que fiquei te segurando." Ela se desculpou.
"Não é nada sua culpa, Rach! Eu tava me divertindo." Assegurou, enquanto tirava a blusa amassada que tinha posto correndo, e colocava uma outra, limpinha, tirada da cômoda.
Desde que o novo semestre tinha começado em NYADA, Finn tinha passado a aceitar os convites do irmão para jantar no apartamento dele e de Rachel, por não querer ficar sozinho nem gastar demais comendo em restaurantes. Com as constantes visitas, ele e Rachel tinham começado a conversar mais, a estudar juntos e ajudar um ao outro com trabalhos, e a ver filmes e programas de TV na companhia um do outro, o que era justamente o que eles tinham feito na noite anterior, enquanto Kurt cumpria com um ritual de beleza extenso.
"A gente podia se divertir ainda mais." Ela o surpreendeu, aproximando-se e colocando as mãos em seu peitoral. "Você tá tão gostoso!"
"Rachel!" Tentou repreender, se afastando e indo até a cama, com um par de meias limpas nas mãos, para calçá-las com os tênis largados no chão durante a noite.
"Desde que você me deu aquele beijo..." Ela continuou, decidida a não ficar bancando a amiga para sempre.
"Eu acho melhor a gente não falar sobre isso, Rachel." Ele quase suplicou.
"E por que não?" Perguntou, desafiadora, ocupando um lugar ao lado dele.
"Porque foi só um beijo! A gente se deixou levar..." Disse, com cuidado.
"E esqueceu de tudo e pensou só no quanto a gente queria se beijar, nem que fosse só mais uma vez." Completou, mas ele balançou a cabeça, não concordando.
"Não. Foi bem diferente de quando a gente cantou nas nacionais."
"Pois eu to me sentindo exatamente como você se sentiu naquele dia, Finn. Eu daria qualquer coisa pra te beijar de novo!" Declarou, olhando nos olhos dele, que acabou perdendo a vontade de argumentar e apenas respirou fundo, deixando que ela fizesse o que declarara desejar tanto.
Sentiu os lábios dela nos seus, as unhas longas arranhando seu pescoço, o cheiro de sua pele, mais doce do que costumava ser, com o cheiro de baunilha de um perfume francês que ela passara a usar, recentemente. Recebeu a língua dela em sua boca, acariciando-a com a sua, devagar, e experimentando um calor familiar por dentro, os pelos se eriçando. Segurou-a pela nuca, aumentando a intensidade do beijo, e sentiu a outra mão da garota adentrar sua camiseta, tocando-lhe o abdômen.
Envolveu a cintura dela, puxando seu corpo para mais perto, enquanto continuavam com as bocas grudadas, mas quando começou a beijar o pescoço dela, a morena aproveitou para subir em seu colo e ficar ainda mais junto dele. Ela pressionou sua intimidade contra a ereção do rapaz e puxou a blusa dele para cima, recebendo ajuda para tirá-la, bem como para se livrar também da sua. O fecho do sutiã foi aberto por ele, pouco depois, enquanto suas bocas visitavam-se de novo, e ela só tirou as mãos das costas dele para arrancar a peça de seu próprio corpo.
"Rachel, espera." Ele disse, se afastando de repente, ao notar o quão longe já tinha ido, com os mamilos dela roçando sua pele. "A gente não pode fazer isso. Isso é loucura!" Ele pegou do chão a própria camiseta, assim como o sutiã e a blusa dela, entregando-lhe.
"Eu não entendo." Ela comentou, mas vestiu-se. Estava exposta demais para um confronto.
"Mesmo o seu lance com o Brody não sendo sério, eu não acho legal..." Começou a se explicar, mas não teve chance de concluir o raciocínio, porque ela tinha ouvido o suficiente para ficar extremamente surpresa.
"Lance com o Brody?" Franziu o cenho. "Tá certo que até umas duas semanas atrás a gente não tava se falando muito, nem se encontrando fora daqui, mas não é possível que você não tenha percebido que eu não chego nem perto dele, na faculdade. Eu nem falo mais com ele, quanto mais ter um lance!"
"Alguém me falou que ele tinha dispensado você, mas..."
"Isso é ridículo! Ele não me dispensou. Fui eu quem falou pra ele que a gente devia se afastar, assim que você veio morar em Nova York." Assegurou, não dando tempo para que ele comentasse que Cameron afirmara ter visto os dois juntos em um restaurante, durante as férias. Ele acreditara na amiga que, em verdade, tinha inventado tal história depois de perceber que ele tinha gostado do boato de afastamento dos ficantes.
"Tudo bem, mas... mesmo assim, eu não posso simplesmente transar com você, tipo... casualmente, como se a gente não tivesse uma história."
"E por que teria que ser assim, Finn?" Questionou, confusa. "Você não vê que a coisa que eu mais quero, desde que você se mudou, é voltar com você?" Ele não respondeu e baixou os olhos, fazendo o medo percorrer a espinha de Rachel, na forma de um calafrio. "Você não me ama mais?" Indagou, em um fio de voz.
"Eu não sei." Respondeu sincero e, enfim, encarou-a. "É claro que eu te quero! Muito! Como eu sempre quis, ou talvez ainda mais. E nós também voltamos a ser amigos, o que é ótimo, mas..."
"Mas?" Ela interrompeu, ansiosa.
"Mas eu não sei mais se eu te conheço, Rachel. Você mudou muito, com essas roupas, essa maquiagem pesada..."
"São só roupas, Finn!" Afirmou, chateada.
"Não, não são! É o seu jeito, o seu comportamento." Suspirou. "A Santana me disse que você tava decidida a fazer um filme de quinta, onde ia mostrar os seios, e que foram ela e a Quinn que tiveram que te convencer do contrário."
"Eu não passei em nenhuma daquelas audições." Tentou justificar. "Eu achei que precisava de algum trabalho pra começar!"
"Mas não é só isso! O pior de tudo foi que isso acabou nem sendo uma surpresa pra mim, depois das coisas que o Brody me mostrou."
No final do ano anterior, do mesmo modo que tinha tentado se manter longe dela, Finn tinha fugido o quanto pudera de Weston, mas eventualmente o rapaz o encontrara em uma situação em que ele não pudera dizer "não" a suas supostas ofertas de ajuda, por estar na frente de pessoas importantes. Obviamente ajudar era algo que passava longe da cabeça do veterano, que usou a oportunidade e muito cinismo para destilar seu veneno.
"Coisas que o Brody te mostrou?" Ela irritou-se e ficou de pé. "Como você não percebe que qualquer coisa que ele tenha te falado foi pra te colocar contra mim?"
"É claro que eu saquei que ele tinha péssimas intenções, mas o fato é que ele não inventou nada. Eu vi vários vídeos de você dançando, de um direito que a minha Rachel nunca dançaria, ele te tocando, de um jeito que nem eu te tocava na frente de outras pessoas... de um jeito que eu levei um tempo enorme para te tocar!"
"Eram danças, apresentações..."
"Eu vi também alguns ensaios. Ele filmou vários ensaios de vocês, sabia?" Rachel engoliu seco, pois se lembrava muito bem de que tinha ficado algumas vezes com Brody, durante tais ensaios, e que, muitas vezes, fora ela mesma quem provocara, seduzira, precisando sentir-se sexy, atraente, desejável, coisa da qual não se orgulhava e até se arrependia. Finn, por sua vez, se sentiu até um pouco enjoado, recordando aquelas imagens e o momento em que o garoto mais velho insinuara ter transado com Rachel na noite de Ação de Graças. Teve vontade de falar sobre isso, mas o medo de uma confirmação era maior que a curiosidade.
"Você já sabia que eu tinha ficado com ele." Ela disse, sem jeito, sentando-se ao lado dele outra vez.
"O problema não foi você ficar com ele. Eu não sou hipócrita e me lembro de todas as vezes que fiz você me ver com a Quinn. O problema é o seu jeito!"
"Um jeito de garota vulgar, que não é pra namorar?" Indagou, com raiva. "Eu não sabia que você tinha se tornado esse tipo de cara que julga e rotula as garotas."
"E não me tornei, ok? Você sabe muito bem que a minha mãe me ensinou a respeitar todas as mulheres! Que é justamente porque eu respeito você e, pra mim, não tem isso de garota que serve pra namorar e garota que não serve, que a gente não tá transando agora." Observou. "Eu sei que as pessoas mudam, Rachel... amadurecem, conhecem e se interessam por coisas novas. Eu mesmo mudei um pouco. O problema é que a sua mudança foi muito grande, em muito pouco tempo! E eu hoje não vejo muito em você da garota por quem eu me apaixonei e isso me deixa confuso sobre os meus sentimentos." Lamentou.
Os olhos de Rachel começaram a se inundar com lágrimas e ela baixou o rosto para que Finn não visse. Não tinha como contestar o que ele estava dizendo, visto que, por fora, ela realmente tinha mudado muito, e também não reconhecia, vez ou outra, a menina que costumava ser. Tinha criado uma personagem de si mesma, com medo de todas as novidades em sua vida, e principalmente da ausência dele, da falta que ele fazia.
Quando ele voltara a estar por perto, ela já não sabia mais como reencontrar a sua essência, a sua natureza. Também tinha levado muito a sério a necessidade das mudanças e deixado acontecerem coisas que não podia apagar, como ter ficado com Brody apenas por estar convencida de que ter um relacionamento aberto com um veterano bonitão, que já tinha ficado até com uma professora, faria dela uma garota moderna, descolada, interessante, e mais em sintonia com uma cidade como NY e uma escola como NYADA.
"A gente se vê na aula... que, aliás, já deve ter começado." Disse, indo em direção à porta, mas foi parada pela mão de Finn segurando seu braço.
"Espera, Rach!" Pediu. "Eu não queria que a gente se afastasse de novo. Eu... queria muito que nós continuássemos amigos."
"Eu não sei se consigo ser só sua amiga, Finn. E eu... não QUERO ser só sua amiga." Ela o encarou, precisando que ele visse a seriedade e a determinação com que estava falando, mesmo que, desse modo, ele fosse ver também suas lágrimas, que já escorriam pelo rosto. "Eu não vou desistir de você, Finn!" Decretou, saindo e indo diretamente para o banheiro, lavar o rosto e se recompor.
Quando a professora de Interpretação Musical I, aula que os alunos do segundo semestre também dividiam com os recém-chegados, por ser oferecida apenas uma vez ao ano, pediu que cada um cantasse uma música que falasse sobre a sua personalidade ou seu momento de vida, ela não teve dificuldade para escolher.
Where there is desire there is gonna be a flame
Where there is a flame someone's bound to get burned
But just because it burns doesn't mean you're gonna die
You gotta get up and try, and try, and try
(Onde há desejo, haverá uma chama
Onde há uma chama alguém está sujeito a se queimar
Mas só porque queima não significa que você vai morrer
Você tem que se levantar e tentar, e tentar, e tentar)
Se Finn já não tivesse entendido o recado antes, com ela cantando a música da Pink ele saberia: ela faria o que fosse preciso, para fazê-lo ver que ainda era, e sempre seria, a Rachel que ele amava e para, então, tê-lo de volta.
Mesmo que agora estivesse apenas se queimando e machucando com aquela paixão, não significava que ela iria sucumbir, antes de tentar, e tentar, e tentar.
