Rachel sentiu como se estivesse de novo nas dependências do McKinley High School, ao andar pelos corredores de NYADA, na manhã seguinte. Algumas pessoas a olhavam com olhos arregalados, outras pareciam sentir pena dela, mas o pior de tudo era perceber grupos de alunos cochichando e rindo, e lembrar do medo que costumava sentir de pessoas como aquelas, que eram normalmente responsáveis por mais do que fofoquinhas e risadas apenas, e se divertiam insultando a garota, ou cobrindo seu rosto e roupas com raspadinhas intensamente coloridas.

"O que é isso, Rach?" Finn se aproximou quando Berry estava pegando um caderno no armário, depois de perceber que era dela que Cameron e Jorja estavam rindo. "Que roupas são essas?"

"São as roupas que eu vou usar daqui pra frente." Afirmou, alisando a saia xadrez, que acompanhava meia três quartos e um suéter com uma coruja na frente. "Eu te disse ontem que não vou desistir de você, Finn. Eu vou te mostrar que eu sou a mesma pessoa por quem você se apaixonou." Garantiu.

"Mas eu te falei que o problema não eram as roupas, Rach."

"Você falou que o problema não são SÓ as roupas!" Cruzou os braços na frente do corpo.

"É... você tem razão! Eu disse isso. As roupas novas são mesmo um pouco exageradas." Concordou. "Só que essas roupas... você já não usava roupas assim nem lá em Lima, lembra?" Argumentou.

"Eu to tão ridícula assim?" Inquiriu, ofendida.

"Não." Ele deu um sorriso torto, achando a teimosia dela muito familiar e o esforço em agradá-lo bastante encantador. "Você tá linda, como sempre. Como você mesma falou, você se vestia assim, quando a gente se apaixonou. Como eu ia te achar ridícula? Só que, infelizmente, eu acho que, aqui em NYADA, uma menina vestida de colegial pode virar alvo de gozação." Observou, temeroso por ela.

"Eu aguento qualquer gozação pra te mostrar que eu sou a mesma Rachel de sempre! Até porque eu já vim até aqui, muita gente já me viu assim, e eu não acho que vá poder mais evitar as piadinhas."

"É, mas eu meio que tive uma ideia... se você topar." Declarou e ela apenas o olhou, curiosa. "A gente pode dizer que você se vestiu assim porque nós fizemos uma aposta e você perdeu."

"E a gente teria apostado o que?" Levantou as sobrancelhas, gostando da proposta.

"É... sei lá. Você apostou que... deixa eu ver." Pensou mais um pouco. "Você apostou que eu dormiria no meio de um filme... pronto! Funny Girl, por exemplo."

"Você sempre ficou acordado, pra me fazer companhia." Sorriu feito boba, recordando.

"Mas ninguém sabe disso." Cochichou, com cumplicidade, e apenas com um piscar de olhos o acordo estava selado.

Eles contaram sobre a aposta para todos os colegas das aulas que tiveram naquele dia, completando um a história do outro com tanta perfeição que a aposta parecia verdadeira. Foram "parceiros no crime", como quando cantaram With you I'm born again, boicotando a si mesmos para que Sam e Quinn ganhassem uma competição de duetos, e Evans permanecesse no coral. As velhas roupas não ajudaram Rachel da maneira como ela imaginara que ajudariam, mas acabaram tendo a sua serventia e quebrando o gelo depois da discussão.

"Se eu tivesse te visto de manhã, nunca teria deixado você sair daquele jeito. O Finn te livrou de uma vergonha épica!" Kurt afirmou, enquanto ele, o irmão e a melhor amiga colocavam a louça do jantar na pia, naquele mesmo dia. Rachel já não estava com roupas parecidas com as que usava quando tinha quinze ou dezesseis anos, mas tampouco aparecera exageradamente maquiada e com pele demais à mostra. Optara por um short jeans larguinho, uma camisa polo feminina e tênis all star.

"Foi bem divertido!" Finn afirmou, ainda rindo da história que ele e a ex-namorada tinham acabado de relatar.

"E ninguém pareceu duvidar da gente. Acho que engoliram a história toda." Observou Rachel.

"Disso não há dúvidas. Namorando ou não, vocês sempre formaram um tipo de dupla dinâmica!" Hummel assegurou.

"Por falar em dupla, o Will me ligou e pediu para nós dois cantarmos algumas músicas no casamento, Rach. Tudo bem pra você?" O outro rapaz quis saber.

"É claro que sim! Tem poucas coisas que eu gosto mais de fazer do que cantar com você. Mas quanto você diz algumas músicas, você quer dizer quantas? Porque a gente só tem quinze dias pra ensaiar e você sabe que eu não aceito nada menos que a perfeição." Foi a resposta dela.

"Tem coisas que nunca mudam mesmo." Kurt revirou os olhos. "Eu vou ligar pro Adam, enquanto vocês falam sobre como roubar a cena no casamento alheio, e depois lavo a louça." Completou, indo para o espaço que lhe servia de quarto.

"Quem é Adam?" Finn não se lembrava de ter ouvido aquele nome antes.

"É um carinha que ele conheceu na revista, mas acho que eles ainda nem saíram juntos." Esclareceu, enquanto trocavam a cozinha pelo sofá da sala.

"Ele desistiu mesmo de NYADA pra fazer moda, né?"

"É... e eu acho que ele tá feliz." Sorriu. "Agora, me fala: em quantas músicas você e o Sr. Schue tão pensando? São só quinze dias!"

Finn riu da preocupação exagerada da garota com uma simples apresentação em um casamento de amigos. Levou alguns minutos, mas conseguiu convencê-la a cantar cinco baladas, dizendo que eles nunca tinham cantado mal juntos, mesmo quando precisaram fazê-lo sem sequer ensaiar. Sugeriu algumas músicas e ouviu argumentos dela em prol de outras e, no final, eles já tinham a lista final e bases que baixaram na Internet, apenas para poderem ensaiar visto que no dia da festa haveria uma banda.

Durante os dias seguintes, eles ficaram mais próximos do que nunca, desde que haviam deixado de ser um casal. Quando não estavam assistindo a aulas, estavam melhorando detalhes do mini show que fariam ou passando tempo juntos no apartamento dela, que ficava quase toda noite só para os dois, pois Kurt tinha finalmente começado a sair com o colega de trabalho.

Finn se pegou várias vezes correspondendo a olhares, sorrisos e pequenas provocações de Rachel, mas não tomou nenhuma atitude, não querendo se precipitar. Já tinha se deixado levar uma vez e isto acabara levando apenas a uma conversa dura, que provavelmente a magoara, e que não tinha acabado com a confusão enorme que tomava conta de seus pensamentos e sentimentos. Ela, por sua vez, percebia a tensão sexual que existia entre os dois, mas preferia não se arriscar a sofrer uma nova rejeição, e foi somente um dia antes da viagem a Lima que eles chegaram perto de falar sobre o assunto de novo.

"Ai, Finn. Desculpa a demora!" Rachel entrou ofegante na sala que os dois usavam para ensaiar, colocando suas coisas em uma cadeira. "Tava na aula da Cassandra e você sabe como é." Suspirou. "Eu não sei por que ela continua implicando tanto comigo, agora que eu não disputo mais a atenção do Brody com ela... por que ela continua querendo sempre me colocar pra baixo, como era quando ele parecia interessado em mim e não lambia tanto o chão que ela pisa."

"A Cassandra tem interesse no Brody?" Finn era aluno da loira também, na disciplina Dança I, enquanto Rachel estava cursando Dança II, e ele achou simplesmente bizarro uma mulher como ela querer a atenção de um aluno como Weston.

"Eu nunca comentei com você?" Berry espantou-se. "Ela não só tem interesse. Eles já ficaram juntos, algumas vezes. Quando você me encontrou lá na escola, chorando, e achou que era por ele, eu tava na verdade era com raiva, porque eu tava mexida por ter visto você de novo, queria falar com alguém que me colocasse pra cima, e foi ela quem atendeu o celular dele, enquanto ele fazia sei lá o que."

"Sério?" Ele enrugou a testa.

"Sério!" Ela disse, enfática, ainda um pouco irritada. "E nem precisa me dizer o quanto eu fui idiota de me chatear e chorar por causa dela!"

"Posso dizer, então, que você tá sendo boba de continuar se importando com ela, agora?" Perguntou, zombeteiro. "Deixa pra lá, Rach! Até porque tem uma coisa muito mais importante com a qual você deve se preocupar." Falou, tirando um papel do bolso e entregando a ela.

"Yentl? Uma montagem de Yentl?" A morena perguntou, eufórica, depois de ler o panfleto com informações sobre as audições para a seleção do elenco da peça. "Depois da Barbra, só existe uma pessoa perfeita pra esse papel... e essa pessoa sou eu, Finn! Vai ser quase tão bom quanto estrear na Broadway com Funny Girl." Afirmou, confiante. "Eu vou ser aplaudida de pé, ainda no meio da peça, quando eu cantar Papa can you hear me e... O que foi?" Questionou, saindo de seu monólogo super acelerado, quando notou que o rapaz a encarava com um sorriso torto no rosto.

"Você tá falando como a velha Rachel." Explicou, colocando as mãos nos bolsos da calça.

"Não existe isso de velha Rachel e nova Rachel, Finn. Eu sou a mesma pessoa de sempre. Só andei um pouco perdida." Deu de ombros.

"Você tá certa e..." Assentiu ele, mas não conseguiu nem prosseguir.

"E isso quer dizer o que?" Perguntou, esperançosa.

"Olha aí a ansiedade da ve-... a ansiedade típica de Rachel Berry." Riu, depois de se corrigir a tempo. "Isso quer dizer que eu tenho pensado muito nas coisas que eu te disse, no quanto eu peguei pesado com você e..."

"Você tinha razão, Finn." Ela interrompeu de novo, não querendo que ele se sentisse culpado. "Eu não devia ter mudado tanto o meu estilo, ficado com o Brody, nem dançado daquele jeito, só pra impressionar uma professora idiota! Eu não devia ter tentado mudar pra me adequar a NY, se, na verdade, eu nunca fui inadequada!" Comentou, sincera. "Tudo que você disse doeu, mas também serviu pra eu perceber isso, e que eu precisava voltar a ser eu mesma, não só por você, mas pro meu próprio bem. Graças a Deus não aconteceu coisa pior, como eu participar de uma produção de gosto duvidoso, ou namorar o Brody e acabar dormindo com ele que, com certeza, ia me pressionar... nunca seria doce e compreensivo como você, pra ficar esperando pacientemente eu achar que era a hora certa. Eu ia estar me odiando agora!"

Finn não tinha nem processado direito ainda a informação de que Rachel não tinha chorado por estar apaixonada por Brody, mas por ter procurado consolo no rapaz e ter sido impedida de encontrá-lo, graças a alguém que fazia questão de ser sua inimiga. Agora, ela tinha acabado de acrescentar que não chegara a transar com o rapaz, sem saber o quanto ele tinha desejado essa informação, mas sentido medo de perguntar a respeito, e o tamanho do alívio que ela trazia!

"Ai, eu to tão empolgada, Finn!" Quase gritou, voltando a ler os detalhes no pequeno papel em suas mãos. "Mas eu vou ter pouco tempo pra me preparar. Olha aqui!" Completou, mostrando a data da audição para a protagonista. "Você vai me ajudar, não vai? Dessa vez, eu tenho que passar, e agora que você sabe tudo de direção, você tem que me dar as dicas, passar o texto comigo..."

"Eu não sei tudo de direção ainda, Rach." Riu. "Mas eu vou te ajudar no que eu puder, claro! E eu tenho certeza de que você vai se sair super bem. Agora, a gente pode fazer nosso último ensaio?" Propôs, e ela sorriu amplamente, pegando o microfone.

Voltaram a se encontrar somente no local do casamento, porque Finn teve que ficar algumas horas a mais que ela e Kurt em NY, trabalhando. O casal de noivos escolhera dar a festa em um lindo hotel fazenda em uma cidade vizinha a Lima, no qual todos os convidados ficariam hospedados, ao longo de um final de semana inteiro. Depois do café da manhã de sábado, Finn e Rachel passaram o som com a banda apenas uma vez e já estavam preparados para colocar os casais para dançar, durante o almoço que aconteceria após a cerimônia religiosa.

"E então... você vai conseguir mesmo cantar comigo?" Rachel perguntou, quando se preparavam cantar a música escolhida para a primeira dança de Will e Emma como marido e mulher, Nothing's gonna change my love for you. "Quero dizer... nós temos uma química bem perigosa, cantando." Completou, não tendo ignorado o modo como ele a olhara, quando aparecera arrumada no jardim, pouco antes.

"Eu acho que posso me controlar." Retorquiu em tom brincalhão. "Embora, eu devo admitir, você esteja de tirar o fôlego!" Falou mais sério, sentindo seu olhar atraído para o dela, e dando graças a Deus quando a banda tocou a introdução e foram obrigados a subir ao palco.

Cantaram outras três músicas sem interagir muito, mas quando alguns membros do coral, antigos e atuais, assumiram os microfones, eles arriscaram ir para a pista com os amigos e se divertir juntos. Os movimentos de Finn faziam Rachel gargalhar e a risada dela fazia o interior dele derreter. Vê-la imitando seus movimentos e brincando de ser tão sem jeito e sem ritmo no corpo quanto ele, fazia o tempo voltar, e foi assim que ele acabou com ela nos braços, quando a música ficou lenta, dançando como se fosse de novo festa de formatura.

Ele observou enquanto ela foi arrastada pelas outras meninas, mesmo tentando protestar, para pegar o buquê da noiva. Viu quando as flores caíram nas mãos dela, sem que fizesse qualquer esforço para alcançá-las, e é claro que percebeu quando ela tentou se comunicar com ele pelo olhar, naquele momento. Engoliu, de uma só vez, o conteúdo de um copo de refrigerante e foi para o banheiro, a fim de ficar sozinho por alguns minutos, sem ter que enfrentar perguntas sobre os dois, que àquela altura já tinham começado a ser feitas por Sam e Puck.

"Eu peguei o buquê." Ela disse, saindo de trás de uma pilastra que ficava perto do toilet, quando ele finalmente deixou o lugar. "Mas fiquei só com essa flor, e dei o resto pra uma prima da Emma, que queria muito, apesar de ter achado engraçado o jeito como ele veio até mim." Falou, fitando a margarida que rodava entre seus dedos, e arrancou-lhe uma pétala. "Bem me quer."

"É um buquê bonito e, se ele meio que te escolheu, você devia ter ficado com ele." Opinou.

"Flores murcham. A essência da coisa toda é a supertição sobre o casamento, e eu nem tenho um namorado." Alegou, tirando outra pétala da flor. "Mal me quer."

"Pegar o buquê não significa que você vá se casar tipo imediatamente... significa?"

"Não. Bem me quer." Desfez-se de outra pétala. "Mas o que dizem é que quem pega o buquê é a próxima. Mal me quer. Só que eu fiquei pensando: quem liga pra supertições? Eu prefiro acreditar que é a gente quem determina o que vai acontecer, com as nossas ações. Bem me quer." Chegou ainda mais perto dele, que a encarava, em silêncio, atento. "Eu também gosto mais de metáforas que de supertições, e percebi que as flores dão uma boa metáfora... que os relacionamentos são muito parecidos com flores. Se você encontrar a semente certa, a colocar em terra boa, der a ela água e luz do sol... então ok: você vai ter o broto perfeito. Depois, mesmo assim, virá o inverno e a flor poderá morrer. Mal me quer. Mas, se você cuidar do jardim, a primavera também virá e a flor vai florescer novamente. Bem me quer."

"Está me dizendo que pretende se tornar jardineira?" Finn brincou, tentando impedir que as coisas ficassem muito tensas.

"Estou dizendo que a nossa relação passou por momentos difíceis, como uma planta enfrentando um inverno intenso, com as flores sucumbindo ao frio e morrendo. Mal me quer. Mas que um dia a primavera vai chegar e você e eu sabemos como as coisas terminam! Eu não sei como ou quando a gente vai voltar, mas eu sei que a gente vai, por mais que você esteja tentando fugir. Você é o meu namorado! A gente é endgame! Eu sei disso e você sabe disso." Declarou, com a convicção que a convivência recente com ele lhe permitira readquirir, e percebeu Finn se aproximando, como se fosse beijá-la, o que, no entanto, não aconteceu.

"Nós... temos que ir cantar mais um dueto." Ele retrocedeu, mas não só não contradisse as afirmações dela, como sustentou seu olhar no dela, ao arrancar a última pétala, que equivalia a um "bem me quer".

Ambos cantaram We've got tonight com sorrisos nos rostos, e no meio da música ele tomou a mão dela na sua, não a soltando até o final. Saíram do palco e ele a puxou para trás de um arranjo enorme de flores, beijando-a de um jeito ansioso, intenso, desenfreado, que a deixou surpresa, mas extremamente contente e excitada. Em outros tempos, ela ficaria preocupada com a possibilidade de serem pegos ali, em tamanha demonstração despudorada de desejo um pelo outro, mas naquele momento ela não poderia ligar menos.

"Parece que eu não consigo me controlar como falei, afinal, né?" Ele disse, ofegante, quando pararam de se beijar, coçando a nuca, envergonhado.

"Foi a nossa última música. Por que você não vai comigo pro meu quarto agora, hum?" Sugeriu, passando a mão pelo abdômen dele.

"Eu to louco pra fazer isso, Rach! Mas eu não sei se é justo com você." Falou, sério. "Eu gosto de ver você tão confiante sobre a gente, segura..."

"Mas ainda tá confuso... eu sei. Só que eu não ligo!" Asseverou. "E já tá na hora de você me deixar decidir o que é melhor pra mim... o que é justo ou não comigo, ao invés de ficar me protegendo o tempo todo!" Reclamou e pôs fim ao debate, recebendo dele um último beijo ao ar livre, antes de seguirem juntos para o quarto.