CAPITULO DOIS
Chase havia descoberto por Foreman que a família de Cameron estavam vindo de Chicago. Na verdade, pai e um irmão.
- Cameron? Achei que tivesse outro sobrenome.
- Como é? Do que você está falando? – Foreman o olhou, confuso.
- Nada. Só... achei que Cameron fosse o sobrenome do marido, não da família dela.
Foreman estreitou a testa. Chase sabia no que estava pensando.
Chase limpou a garganta.
- Vou avisar ela. – e se levantou.
- Ela está dormindo.
- Ah... – ele gemeu, infeliz. Queria vê-la. – Certo.
- Os pais dela chegam em duas horas. Eles falaram com Dr. Newman por telefone, mas ele pediu para chamá-lo quando chegarem.
- Claro.
- Eu vou pra clínica.
Chase suspirou ao ver Foreman atravessar a porta.
Quando isso vai acabar?
XXX
Chase se sentia ansioso. Se sentia estranho em relação aquela Cameron sem memória. Ela parecia tão ingênua, indefesa. Era horrível compará-la com a Cameron de antes: impetuosa, voluntariosa, e um tanto, intolerável.
Esta Cameron era diferente. Ela o olhava diferente. Sorria diferente.
E estava adorando vê-la daquele jeito.
Estava gostando daquela Cameron. Esta Cameron sem medos e culpas.
- Com licença, - um homem abriu a porta de vidro. – você é o Dr. House?
- Não. – ele se levantou. – Sou Dr. Chase. Dr. House já foi pra casa.
- Oh, eu sou Michael Cameron, pai da Dra. Allison Cameron...
- Claro. Por favor, entrem. Estávamos lhe esperando.
Atrás dele, havia um homem e uma garota. O homem devia ser um pouco mais velho que Chase. Devia ter no máximo 35 anos. E Chase sabia que era irmão de Cameron. Tinha cabelos negros e olhos verdes como os dela.
- Olá, sou Christian Cameron. Esta é minha filha, Molly.
- Oi. – Chase disse.
Ela sorriu. E Chase viu Cameron no sorriso da garota. Ela era uma cópia perfeita. Tinha o mesmo sorriso, o mesmo olhar... Cameron deveria ser assim com essa idade.
- Sentem-se, por favor. Dr. Newman pediu para chamá-lo quando chegassem. – Chase foi até o telefone, e em pouco tempo voltou.
- Como ela está? – perguntou o pai.
- Ela está bem. Descansando. Ela não teve nenhum problema. Nada. Só um braço quebrado. O único problema mesmo...
- É a falta de memória. – afirmou o irmão.
- Exato. Nós nem sabemos bem como isso aconteceu. Dr. Newman disse que é um tanto raro isso, mas que as vezes... acontece.
- Mas e quanto a essa historia de que ela acha que tem 17 anos? – perguntou o pai, confuso.
- É. Dr. Newman disse que é uma das brincadeiras que o cérebro pode fazer. Ele disse que o cérebro na hora do trauma se refugiou num momento tranqüilo da vida da Cam... Allison. E esse é o momento. Quando ela tinha 17 anos.
- Mas a memória dela vai voltar?
- Vai. É só uma questão de tempo. – Chase afirmou.
- Mas como ela está em relação a isso? Digo, ela... tá aceitando normalmente? – perguntou Christian.
- Parece que sim. Ela e o Dr. Newman conversaram muito. Parece que ela aceitou que um só um problema psicológico temporário.
- Desculpem! – Dr. Newman invadiu a sala.
- Dr. Newman, este é Michael Cameron, pai da Dra. Cameron. – o psiquiatra o cumprimentou. – Este é Christian Cameron, irmão da doutora, e sua filha, Molly.
Dr. Newman os cumprimentou.
- Obrigado por terem vindo tão rápido. Sua filha está bem, sr. Cameron. Não teria os chamado se fosse só o caso de um braço quebrado. O que aconteceu é um pouco mais complicado que isso. E o cérebro é um brinquedo complicado... – e riu.
Meu Deus, ele é pior com piadas que o House...
XXX
Cameron abraçava a sobrinha, como se nunca a tivesse visto. Pensando bem, não tinha mesmo.
- Meu Deus, olhe pra você. Você está linda, está enorme...
- Ai, tia Alli, pare com isso. Parece que eu sou um bebê. – ela se afastou do abraço, envergonhada.
- Mas pra mim, você só tinha cinco anos. É incrível. Você tá a cara do seu pai.
- Que nada. Todo mundo diz que eu sou a sua cara.
- Não é que parece mesmo?
- Temos os mesmos olhos, o mesmo cabelo, o mesmo sorriso... Vovô me chama de "Mollialli".
Cameron gargalhou.
- Mollialli. É a cara dele dizer isso. Como você está? E a escola? Já se formou?
- Já. O baile foi semana passada. Andrew e eu perdemos como rei e rainha, mas... não importa. Eu vou para John Hopkins.
Cameron gritou. Algumas pessoas no corredor se viraram ao ver o grito.
- Eu não acredito! Você vai ser médica também?
- Está nos genes!
Cameron a abraçou novamente. Aquilo era incrível. Sua sobrinha, sua bebezinha ia estudar pra ser medica, assim como ela.
- Quem é Andrew? – perguntou disfarçando a emoção.
- Meu namorado.
- Eu conheço ele?
- Claro que conhece. Estamos juntos a dois anos. Ele tá bravo comigo. Ele... vai para Harvard. Vai ser complicada a distância.
- É complicado mesmo, mas só é resolvido conversando.
- Eu sei. É que tudo aconteceu tão rápido que... não tivemos tempo. Ele vai viajar com os pais. Vão esquiar, essas coisas. Mas e você? Está namorando?
- Como é que eu vou saber? Esqueceu que eu não lembro?
- Ah, é? Bom.. acho que você teria me contado. Digo, antes do... acidente.
- Eu não disse nada?
- Não. Você é bem... discreta. Mas... na ultima vez que estive na sua casa...
- O quê?
- Eu encontrei no seu guarda-roupa uma gravata...
Cameron arregalou os olhos.
- ... uma toca de lã...
Cameron deixou o queixo cair.
- ... e um suéter da Quiksilver.
- Então... eu estou saindo com alguém!
- Saindo? Pra você ter roupas de um cara no seu guarda-roupa, você tem que estar transando com ele!
- Você acha? – ela fez uma careta. – É provável, certo? Eu tenho 27 anos. Devo ter uma vida sexual saudável.
- Eu tenho 17 e tenho uma vida sexual saudável. Por que você não teria?
- Mas que combinação estranha!
- Quê?
- Suéter, gravata e toca? Que homem veste isso?
Molly riu.
- Não sei. Que homem você conhece que usa gravata?
- ...
- Nem aqui do hospital?
- Molly, esqueceu que eu...? – tarde demais, Molly já babava diante do vidro do quarto.
Chase passava ali no corredor ao lado de House.
- Meu Deus, que médico! Será que vai ter médicos desse jeito em John Hopkins?
Cameron riu.
- Ele trabalha com você, não é? – Molly voltou a sentar na beirada da cama.
- Foi o que ele me disse.
- Foi? Então vocês trabalham juntos, são amigos...
- Bom, isso é que é estranho... ele me disse que somos "meio" amigos.
- "Meio"?
- Quando perguntei porque, ele me disse que nós temos um relacionamento...
Molly levantou as sobrancelhas.
- ... Mas não somos namorados. Que nós temos um acordo.
- Acordo? Tipo... sexual?
Cameron gargalhou. Será?
- Exato. Não sei. Fomos interrompidos. E eu não tenho coragem de perguntar pra ele de novo.
- Eu pergunto
- Molly! Claro que não. Tá doida? "Você tá transando com a minha tia?" Acho que isso não é um bom começo de conversa.
- Bom... mas fico imaginando esse cara na cama. Meu Deus! To até sem fôlego. – ela começou a se abanar. – Cadê o Andrew quando eu preciso dele?
Cameron riu.
- Não se afobe, tá. A gente não sabe se ele é o dono da gravata.
- Mas a gente descobre. Nós vamos até a sua casa mesmo. Pegar roupas e essas coisas. Você não tem nada em Chicago. Então, a gente descobre se as coisas que estão lá são de alguém atual, ou se é de um rolo antigo. Se for antigo, você já devolveu, certo?
- Você perguntou pra pessoa errada. Me pergunte sobre quantos gols Lucca fez no ultimo jogo. Isso eu saberia.
Cameron deixou o queixo cair.
- Lucca...? Meu Deus!
- Quem é Lucca?
- Meu... namorado.
- Isso é que é entusiamo. Você está acordada a três dias, e só agora lembrou que tem um namorado?
- Não, Molly. Lucca era meu namorado no colégio.
Molly levantou as sobrancelhas de novo.
- Ele deve estar casado, com um penca de filhos, e vendendo seguros contra acidentes. – ironizou Molly.
- Jura?
- Como eu vou saber, tia? Por favor.
- É verdade. Se passaram dez anos. Que loucura.
Molly esta virada para o vidro.
- Imagina se aquela gravata é do Dr. Chase!
Cameron virou para a sobrinha e percebeu que ela olhava sonhadora para o nada.
- Aquela boca vermelha, e o cabelo caindo na testa. Que vontade de botar aquele fio loiro teimoso atrás da orelha dele...
- E quando ele morde o lábio? – Cameron sugeriu.
Molly virou para a tia de boca aberta.
- Bem observado.
- Ele mordia a boca quando falava comigo. – Cameron riu. – Deus do céu, esse homem tá mexendo com meus neurônios.
- Imagina se ele for a cara da gravata?
Molly gargalhou, e Cameron riu junto.
- Posso interromper?
- Oi, pai. – disse Molly.
XXX
- Oi.
Cameron ouviu o sotaque e sorriu. Eles estavam no quarto do Princeton onde ela estava internada.
- Oi. Dr. Cha... Robert. – se corrigiu.
- Precisa de ajuda? – ele perguntou ao vê-la guardando algo numa bolsa, com dificuldade pelo braço quebrado.
- Não. Já terminei. Na verdade... nem sei se as coisas que estão aqui são mesmo minhas.
Chase riu, levemente.
- Viu meus pais? – ela perguntou, virada pra ele, encostada na cama.
- Estão com Dr. Newman.
- Recomendações finais?
- Acredito que sim. Você vai mesmo para Chicago?
- Vou. Acho que vai ser bom ficar um pouco lá com eles. Digo... eles estão um pouco mais velhos que eu lembrava, mas... deve ajudar, eu acho.
- Você vai ficar muito tempo? – perguntou tentando parecer indiferente.
- Não sei. Se lembrar de tudo amanhã, volto amanhã mesmo. – e riu, feliz. – Engraçado como são as coisas. Eu não via a hora de me livrar dos meus pais, ir para a faculdade e fazer a minha vida. E agora que eu a tenho, vou pra Chicago, correndo.
- É, pais são assim mesmo.
- Você sente isso em relação aos seus pais?
- Atualmente não.
- Por que?
- Eles já faleceram.
- Ah! Sinto muito.
- Não sinta. Eu ia te perguntar: que idade tem seu irmão?
- Bem... ele é cinco anos mais velho do que eu. Eu tenho 27, certo? Então, ele tem 33.
- Mas a sua sobrinha tem quanto? 18?
- 17. – Chase ergueu as sobrancelhas. – Exato. Meu irmão engravidou a namorada quando tinha 16 anos. Imagine quando eu a vi. Pra mim ela tinha 5 anos.
Chase riu divertido.
- Robert, posso te fazer uma pergunta?
- Qualquer uma.
- Quando eu voltar, mesmo que eu não me lembre de nada, eu... posso te ligar? Sabe... pra gente conversar, e você me falar sobre mim? De você também.
Chase sorriu, com o coração acelerado.
- Com certeza.
- Algo me diz que eu tenho seu telefone.
- Tem sim.
- Sabe, eu andei pensando: você disse que esse trabalho é um ótimo trabalho. – e ele confirmou. – Você sabe se eu gosto?
- Bom, tenho certeza. Eu não sei dizer muita coisa sobre você, mas disso eu tenho certeza.
- E você gosta?
- Muito.
- Estava pensando se vou sentir falta daqui. Você acha que é possível sentir falta de algo que você não lembra?
Chase fez uma careta, nunca tinha pensado naquilo.
- Não sei. Se você achar que uma lembrança é mais do que momentos guardados no hipotálamo...
Cameron sorriu. Chase ficou embaraçado. Nem sabia se ela sabia do que ele estava falando.
- Você acha que nossas lembranças podem estar guardadas no coração, ao invés em uma parte específica do cérebro?
- Talvez. Me diz você. Existe alguma coisa que você acha que está guardada no seu coração? Digo, algo familiar antes de você acordar do acidente?
Você.
- Bem... talvez algumas coisas pequenas. – ela parou pra pensar. – Um bilhete num buquê de flores coloridas...
Chase sorriu. Será que ela falava do buquê que ele havia lhe dado?
-... Um celular tocando... "Black" do Pearl Jam...
Chase estreitou a testa.
Cameron riu, ruborizada.
- O quê? – ele perguntou.
- Você vai rir.
- Prometo que não.
- Certo. Eu... a sua risada. – ela disse.
Chase sorriu misterioso.
- Minha risada? Mesmo?
- É. Não sei porque mais a sua risada me é muito familiar.
Chase se aproximou mais. Cameron não conseguia piscar. Aqueles olhos azuis eram... tão... oh Deus porque não consigo pensar direito perto dele?
- Allison!
- Oi Chris. – ela respondeu, vendo o irmão.
- Está pronta? – ele perguntou.
- Estou. – ele pegou a mala em cima da cama.
- Obrigado e adeus, Dr. Chase. – ele o cumprimentou.
- Adeus, sr. Cameron. – Chase se despediu.
- Christian, por favor.
- Então, Robert... eu te ligo.
- Vou esperar. – disse sorrindo.
Cameron segurou a respiração. Aquele sorriso era familiar também.
- Vamos, Alli.
- Tchau. – ela sussurrou para Chase.
Ela pegou a mão do irmão, e seguiu na direção do corredor.
Um som encheu seus ouvidos:
- "Êeeee aah... ôo..." – era Black. - "Sheets of empty canvas... untouched sheets of clay..." – Cameron se virou na direção do som, atrás dela.
- Oi... estou indo, House. – ela viu Chase no celular, parado no meio do corredor.
Ele a fitando, piscou maroto e sorriu.
Cameron abriu um sorriso. Aquele som de celular era familiar demais...
- Vamos Alli. – pediu o irmão.
Ela levantou o braço bom, lhe dando um adeus silencioso, e se virou, se sentindo estranhamente feliz.
Isso estava no meu coração ou no meu cérebro?
XXX
Nos dias que se passaram, Chase se sentia confuso. Estranho, ansioso, como se lhe faltasse algo.
Sentia falta de Cameron. Era isso. Havia se acostumado a tê-la por perto todos os dias. E a ausência dela lhe fazia sentir um buraco no estômago. House lhe incomodava todos os dias com esse fato. Dizia que Chase estava "moribundo".
Na verdade, estava louco para vê-la de novo. Ainda mais que agora, ela parecia mais natural e confortável com ele. E isso lhe deixava com a consciência pesada. Se sentia culpado ao se aproximar dela. Porque... não era Cameron. Era outra...
Mas que mal teria se... se aproximasse dela? Sem segundas intenções, claro. Ela precisa de alguém, uma companhia. Qual o mal de sair com ela? Levá-la para jantar, tomar umas cervejas, rir , conversar, beijar, fazer amor...
Não, não, não. Não, Chase, não!
Pra ela, você é um desconhecido. Você tá aproveitando a situação. Ela vai lhe culpar, por ter aproveitado o fato dela não lembrar de nada.
Chase fechou os olhos e bateu a testa no volante do carro.
- Ai, Cameron, saia da minha cabeça...
Alguém buzinou alto e ele se assustou.
- Vai você, filho da puta!
Ligou o rádio. Precisava ouvir música, novidades, atualidades.
Ele suspirou ao ouvir a voz de Chris Martin, e se pegou cantando junto:
- "I awake to find no peace of mind/ I said, how do you live as a fugitive?/ Down here where I cannot see so clear/ I said, what do I know?/ Show me the right way to go.".
Aquele mundo em que ele vivia que parecia ser resumir em diagnósticos e Cameron, estava o transformando num ET.
- "And the spies came out of the water/ But you're feeling so bad 'cause you know/ But the spies hide out in every corner/ But you can't touch them no/ 'Cause they're all spies."
Em pouco tempo a música acabou, e o locutor começou a dar notícias do tempo, do transito e o que entraria em cartaz no cinema no dia seguinte. Foi então que Chase se lembrou:
- Hoje é quinta! Já tava esquecendo. Eles vão me matar!
XXX
Chase jogou a bolsa em cima do sofá, e arremessou longe sua jaqueta de couro. Apertão o botão da secretária eletrônica antes de parar na frente da geladeira.
- Oi, Dr. Chase, eu sou Analucia, sou enfermeira do centro cirúrgico. Peguei seu telefone com Libby, e pensei se você não estava a fim de sair no fim de semana. Se quiser, vou trabalhar a tarde, você me dá um toque. Tchau. – bip. Mudou de mensagem.
- Vai sonhando. – ele murmurou, engolindo o conteúdo de uma lata de cerveja.
- Oi, Robert, é Allison... – Chase engasgou, molhando a camisa. – Estou ligando só pra dizer que já voltei de Chicago. Não ajudou muito lá. Melhor estar aqui perto de vo... Bem, eu já estou em casa e pensei em te ver, falar com você, mas eu não lembro seu endereço, então pensei que seria mais fácil você vir aqui. Se quiser, ou se puder, claro... Talvez não, você provavelmente trabalhou o dia todo... mas o convite está de pé. – e desligou. – Não há mais mensagens.
Chase ficou fitando a máquina como se nunca a tivesse visto antes. Ele abandonou a lata de cerveja em cima do balcão e voou até o sofá, pegando sua jaqueta de couro.
- Você é um idiota, Chase. Você é um idiota. – disse a si mesmo, andando na direção da porta. – Deus, estou tremendo!
E riu.
XXX
Cameron misturava os ingredientes numa panela pequena no fogão, enquanto bebia de uma taça de vinho.
Ela se sentia feliz, animada. Estava adorando a sua vida de mulher independente. Era médica, uma profissional. Tinha um emprego, um bom salário. Podia comprar o que bem entendesse comprar.
Tinha o seu apartamento, onde pudesse ouvir música em qualquer volume e onde podia levar quem quisesse. Onde podia beber vinho de boa qualidade em taças de cristal e podia cozinhar comidas que ela mais gostava.
Engoliu o vinho e beliscou um pedaço de aspargo que tinha acabado de por no molho. Sorriu sentindo o cheiro bom da sua comida e cantarolou com a música que vinha do rádio:
- "Hey, come on try a little/ Nothing is forever/ There´s got to be something better than/ In the middle/ But me & Cinderella/ We put it all together/ We can drive it home/ With one headlight."
Escutou batidas na porta, e estranhou.
Quem seria?
Abaixou o volume do aparelho e atendeu a porta.
Tomou um susto. Era Chase.
- Oi. – ela disse, feliz. Não acredito!
- Oi. Recebi seu recado.
- Que bom que veio. Entre. – ela convidou, e Chase entrou. – Me dá sua jaqueta.
Chase a tirou, e Cameron a pendurou no armário.
- Como você está? – ele perguntou.
- Bem, bem... Digo, eu... ainda não lembro de coisa alguma, mas...
- Como foi em Chicago?
- Estranho. – ela pareceu atrapalhada. – Quer dizer, é tudo muito... novo. É esquisito ver que todas as pessoas com quem cresci envelheceram... assim como eu.
Chase riu.
- Por favor, se sente, Robert. – ela pediu, e se virou indo para a cozinha. Chase ainda não tinha se acostumado com Cameron o chamando pelo primeiro nome.
Ela voltou com duas taças de vinho nas mãos, e lhe entregou uma.
- Obrigado. – ele disse. – O que vai fazer agora?
- Na verdade, estava pensando em... acompanhar vocês no hospital. Não trabalhar, só observar.
- Isso é ótimo. Voltar a sua rotina. Vai te ajudar, tenho certeza.
- Também acho. – ela bebeu o vinho, se sentindo animada.
Ela passou a língua pelos lábios. Chase acompanhou o gesto e Cameron ficou sem graça.
- Ah... – ela tentou. -... eu ia te perguntar: você conhece algum dos meus amigos? Minha família não sabe e ninguém apareceu no hospital.
- Não, não conheço. Você nunca mencionou ninguém e eu também nunca vi.
- Eu não tenho amigos? – ela estranhou.
Chase levantou os ombros. Realmente não sabia.
Ela pareceu, sinceramente, chateada.
- É o trabalho, Cam. Nós não temos tempo.
- Nem pra ter amigos?
Ele balançou a cabeça: não.
Ela suspirou. Tenho você, pelo jeito.
- Janta comigo?
- Claro.
- Eu fiz uma massa.
Chase arregalou os olhos.
- Não sabia que cozinhava!
- Desde criança. Só não sei se você vai gostar. Só juntei alguns... itens congelados.
- Vamos ver. – ele se levantou do sofá.
- Algo me diz que você já veio aqui. – ela disse, pegando pratos e talheres.
Chase ruborizou.
- Já. Eu já vim aqui... algumas vezes. – ele se sentou a mesa.
- Então você era um convidado constante?
- Por um tempo. – se sentiu incomodado. Não queria entrar naquele assunto.
Cameron serviu os pratos. E Chase se impressionou.
- É fettuccine com... camarões e aspargos.
- Está lindo, Cam.
- Às vezes lindo e gostoso não andam juntos.
- Discordo. – ele sorriu, malicioso.
Cameron sorriu, embaraçada e Chase levantou a taça, propondo um brinde. Ela, adorando, acompanhou.
- Um brinde! – ele exclamou.
- A quê?
- Você escolhe.
- A nós! – ela disse naturalmente. – Que esse... encontro se repita sempre. – e bateu a taça na dele.
Encontro? – ele pensou.
- A nós. – ele repetiu e bebeu.
- Continuando o que falávamos: você disse que vinha aqui... por um tempo.
Chase confirmou, com a boca cheia.
- Por que "por um tempo"?
Chase engoliu seco.
Tinha chegado o momento. Tinha adiado aquela conversa até agora. E não podia esconder mais. Não podia esconder que não eram amigos. Não podia esconder que a conhecia intimamente. Não podia esconder que era apaixonado por ela.
- É... Cam... nós, como eu disse antes, tivemos um relacionamento.
- Você, uma vez, mencionou um acordo. Isso não me saiu da cabeça. Pensei em tantas teorias que...
- Eu vou explicar. – ele largou o garfo. – Sim, nós tínhamos um acordo. Nós decidimos que nós só... teríamos...
-... sexo? – ela sugeriu. E Chase confirmou. – Molly acertou.
Chase estreitou a testa. Molly acertou? Elas falaram de mim?
- E... isso deu certo? – ela perguntou, confusa.
- Deu... muito certo. – disse sorrindo.
Cameron sorriu, embaraçada, se sentindo estranhamente, orgulhosa.
- Quer dizer que nós... fazíamos sexo sempre. Digo... com freqüência.
Chase confirmou de novo.
- E como isso aconteceu? Nós simplesmente... Quando começou?
Chase entendia a confusão dela. E tinha medo de explicar. Tinha medo que Cameron se afastasse dele ao saber da verdade.
- Foi... você que me convenceu... no dia dos namorados.
- Eu te convenci? – ela deixou o queixo cair.
- Cam, não se sinta assim. Isso não é um bicho de sete cabeças.
- Não, não é isso. É que... não parece com algo que eu faria. Digo, fazer sexo com alguém que eu não ame... – mas a duvida a preencheu. – Ou... amo?
Chase adorou a confusão dela, por não saber se o amava. E pensou em algo que jamais tinha pensado.
O que aconteceria se dissesse que sim? Poderia dizer que ela o amava, e que não puderam ficar juntos.
Mas era errado. Brutalmente errado. Não poderia aproveitar da situação daquele jeito. Daquele jeito não. Poderia estar ao lado dela. Falar com ela. Rir com ela. Mas não mentir. Quando a memória dela voltasse, ela o odiaria por ele ter mentido. Por mais que ele a amasse.
- Não. – ele foi sincero. – Você... não me ama.
- Eu disse isso pra você?
- De certa maneira.
- Com todas as palavras?
- Não. Mas eu sei.
Cameron ainda tinha um semblante de profunda incompreensão. Não compreendia si mesma. Como ela tinha levado as coisas daquela maneira. E ele parecia triste com aquilo. Triste e magoado.
- Nós não estamos mais nesse relacionamento, certo?
- Não. – ele respondeu, amargo.
- Por que?
- Você... bem... você me chutou.
Cameron riu.
- Jura? – ela parecia surpresa. Ela ainda se sentia confusa demais. Como ela poderia ter um relacionamento com aquele homem lindo sem amá-lo e ainda por cima "chutá-lo"?
- Por que? Você sabe por que eu fiz isso?
- Sei. – Cameron aguardou uma explicação que não veio.
- Me diz. Por favor.
- É que eu... quebrei as regras.
- As regras do acordo? – ela perguntou, e ele confirmou. - Como?
Chase ruborizou de novo. Ela tinha que saber.
Cameron o observou. Ele levantou os olhos azuis pra ela, e ela conhecia aquele brilho. Parecia ter visto aquele brilho antes.
"Eu quero mais", veio a mente dela.
– Não... não me diz que... Ah meu Deus! Você...
- Me apaixonei por você. – ele completou.
Cameron abriu a boca, surpresa. Ele a ama.
- E eu terminei com você porque você me ama? – e ele confirmou. – Meu Deus!
Que tipo de mulher eu sou?
- Cam, relaxe. Isso não é mais importante.
- Como não? Que mulher faz isso? – ela fecha os olhos, se odiando. Murmurou triste: – Eu sou desprezível.
- Não, você não é. - ele se aproximou mais dela e pegou nas suas mãos, e Cameron pode ver os olhos azuis dele agora claros como o céu. - Você é... perfeita.
Oh, Deus, não diz isso...
- O que há de errado comigo? – ela sussurrou. – Por que não amo você?
Eles se fitaram, e Chase alcançou uma das mãos ao rosto dela e fez um carinho com um dedo seguindo a linha do maxilar dela.
Cameron podia sentir o hálito morno dele e o perfume cítrico. Parecia que toda sua esperança estava contida naquele beijo. Precisava beijá-lo.
Cameron tremeu ao senti-lo se aproximar. E aquele segundo que antecedia o beijo estava cheio de uma elétrica ansiedade.
Ela sabia disso. Ele sabia disso. Sabiam que aquele beijo tinha sido esperado por muito tempo.
Ela fechou os olhos, e ao invés de sentir os lábios vermelhos dele, só ouviu o telefone tocar.
Abriu os olhos, e viu o olhar frustrado dele. Mas Chase não desviou o olhar, e eles ficaram se fitando, mudos. Como se um gesto, uma palavra pudesse dissolver aquela visão que haviam criado.
- Oi, tia Alli, é Molly. Só estou ligando pra saber como você está. Vovó está tendo crises de ansiedade porque você não ligou quando chegou. Mas como você não atendeu o telefone deve ser porque está muito... ocupada. – e ela riu maliciosa. – Já telefonou para o Dr. Robert-gato-de-boca-vermelha? Pra você não estar em casa, é porque deve ter ligado. Aproveite. – ela riu e desligou.
- Robert-gato-de-boca-vermelha? – ele riu.
- Robert-gato-de-boca-vermelha. – ela confirmou, rindo junto. – Molly te apelidou.
- Vamos jantar. Ainda tenho uma surpresa pra você. – e ele retirou a mão do rosto dele.
- Surpresa? – sentindo falta do calor dele.
Ela sentia que tinha perdido a chance. Será que teria o assustado se tivesse o beijado mesmo o quando telefone tinha tocado?
Ela compreendia como ele se sentia. Ele deveria estar confuso demais. Confuso com ela. Com aquela situação. Ele não deveria se sentindo confortável perto dela. Não daquela Cameron.
Ele estava acostumado com aquela Cameron dedicada e profissional, que o chamava pra transar e depois chutá-lo da cama. E não de uma Cameron perdida e deslumbrada com um mundo como uma turista. Será que se agisse como a velha Cameron, ele se sentiria melhor?
Algo lhe dizia que não. Ele quase a beijou. Beijou esta Cameron. A nova.
Será que quem estaria falando mais alto? O homem apaixonado ou o homem neofílico?Afinal homem adora um sexo novo e fácil. Mas não poderia dizer isso de Chase. Não lembrava se ele era o tipo de homem que acha que mulher é um objeto fácil de ser usado.
Será que ele queria a nova ou a velha Cameron?
Ela sabia que o queria. Ela, a nova Cameron. Só tinha medo de que quando se lembrasse de tudo, se arrependeria. Mas sabia do fundo da alma que Chase não era comum. E se ele a despertaram antes, ao menos sexualmente, é porque algo ali valia a pena.
E outra... ele a amava. Já isso valia qualquer coisa.
Ela levantou a taça e vinho e vibrou:
- Adoro surpresas! – e sorriu.
XXX
N/A: Pronto, "pipol". Esse capitulo foi mais ou menos fácil de fazer. Tava quase pronto. E explicando algumas coisas: não sei bem (ou não lembro) se o sobrenome da Cam, é do marido ou da família. Preferi ser da família. Outra coisa, achei interessante o fato de Cam chamar Chase de Robert, e ele a chamar como antigamente. Velhos hábitos não mudam.
Ah, "Dr. Robert-gato-de-boca-vermelha" foi uma invenção minha. É que eu e a Lis somos fascinadas por aquela boca.
A música que Chase ouve no carro é "Spies" do Coldplay. Exato, Coldplay de novo. Essa musica é do primeiro álbum deles, chamado "Parachutes". Faz parte da trilha sonora de um dos seriados (que já acabaram) que eu mais adoro: "La Femme Nikita". (Ai, ai, Michael! Pena que eu não tenho TV a cabo).
E a música que Cameron ouve na cozinha é "One Head Light" (que por acaso é do ano de 1997) da banda The Wallflowers, do filho do Bob Dylan. Adoro essa letra.
John Hopkins – é uma universidade muito, muito famosa em Medicina. Talvez a melhor do mundo. No seriado, tanto House como Foreman, se formaram lá.
"Black" do Pearl Jam – definitivamente minha musica favorita. Sou uma fã apaixonada por Pearl Jam. Fui no show em 2005 (peguei meu 13° e comprei o ingresso de cambista mesmo, não resisti) e iria de novo se tivessem voltado. Tem uma outra música genial deles que cabe muito bem na relação Cham, que é "Come back". Quem sabe em outro capitulo, em outra fic...
Analucia e Libby – tirei de... ? De... Lost, claro. Que pena, adorava a Libby.
Neofílico – é quem gosta de novidade.
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS A PRIMEIRO A MULHERADA DO FF: Koelha, você adivinhou uma coisa antes que viria nesse capitulo 2. O que você disse foi uma coisa que Chase pensou. Ele pensou nisso, na opção de mentir, mas como você mesma disse: ele não faria isso, e não fez. Nice catch!!! Lalah, pois é, as coisas tão começando a se esquentar. Nessa surpresa que vai rolar, algumas coisas podem acontecer. O que acha que vai rolar? Anne, obrigada. I'll still rocking!! Lucy Mona, na verdade a Cam nem vai dar bola para o House. Ela só acha ele um velho chato. Mai, minha doce, você sabia como ia terminar esse capitulo, e devido tua sapiência, me fez muda-lo. Realmente achei que as coisas iriam se apressar demais, né? Mas o três vai dar o que falar. MULHERADA DA COMU: Lais, obrigada por achar que isso é um talento. Eu só gosto de escrever, então... eu escrevo. Andréa, continue lendo. Você é fantástica.
E pra mulherada que não me deixa rewiews, mas sei que lê, tanto De repente, quanto Segunda Chance:
Jéssica, Ni, Nayla, Flora, Naiky, Michelle, Camila, Vanessa, Cris-x, Natassja, e Bia – toda essa mulherada que posta no fórum Tueday e na Comu Cham do Orkut. Thank you, very much!! Vocês são maravilhosas. Sem vocês não continuaria escrevendo. E ah! Mai faça uma campanha para as duzentas e poucas pessoas da comu entrar no fórum, e que participe mais ativamente dos tópicos!!!
SPIES (ESPIÕES) – COLDPLAY
I awake to find no peace of mind
Eu desperto para o desasossego
I said, how do you live as a fugitive?
Eu disse, como você vive como uma fugitiva
Down here where I cannot see so clear
aqui embaixo, onde eu não enxergo tão bem
I said, what do I know?
eu disse, que é que eu sei
Show me the right way to go
Me mostre o caminho certo
And the spies came out of the water
E os espiões saíram da água
But you're feeling so bad 'cause you know
e você se sente tão mal porque você sabe
But the spies hide out in every corner
que os espiões se escondem em cada canto
But you can't touch them no
mas você não pode tocá-los não
'Cause they're all spies
porque eles são todos espiões
ONE HEADLIGHT (UM FAROL) – THE WALLFLOWERS
So long ago, I don´t remember when
A muito tempo, nem me lembro quando
That´s when they say I lost my only friend
Me disseram que tinha perdida minha melhor amiga
Well they said she died easy of a broken heart disease
Me disseram que ela morreu da doença de coração partido
As I listened through the cemetery trees
Enquanto eu ouvia pelas arvores de cemitério
I seen the sun comin´ up at the funeral at dawn
Eu vi o sol romper o dia no funeral
The long broken arm of human law
O grande braço partido da lei humana
Now it always seemed such a waste
Agora sempre parece uma perda de tempo
She always had a pretty face
Ela sempre teve um rosto lindo
So I wondered how she hung around this place
Então eu penso como ela perdeu tempo nesse lugar
Hey, come on try a little
Hey, vamos tentar mais um pouco
Nothing is forever
Nada é pra sempre
There´s got to be something better than
Deve haver alguma coisa melhoor
In the middle
Naquele meio
But me & Cinderella
Mas eu e a Cinderela
We put it all together
Nós colocaremos tudo juntos
We can drive it home
Nos podemos seguir pra casa
With one headlight
Com um farol.
