Primeira Parte
Capítulo dois – A Mansão Malfoy
Rony xingara todos os nomes e agora estava sentado na poltrona, folheando, com ansiedade cada vez maior, uma revista velha que encontrara entre as estantes. Tentara escrever várias vezes uma coruja, explicando o que acontecera para sua mãe, mas o chão ao redor dele acabara salpicado de bolas de papel, porque ele não chatearia a sua mãe com uma coisa daquele tipo. Ela não merecia.
E talvez também fosse porque Gina chorava. Quando ele lhe dizia que contaria tudo à mamãe, ela soluçava. Não ia contar, é claro, mas seria bom que ela não achasse que estava brincando.
Gina era tola, mimada, isso às vezes atrapalhava. Porque ela sempre queria ser o centro do universo? Bem, agora ela era. Faltava uma semana para o Natal e depois disso as aulas voltariam a ser normais, e só no que se falaria seria dela. Ele não podia permitir, porém, que aquele problema, por mais incômodo que estivesse se tornando, interferisse nos seus planos. Não sabia ao certo que tipo de idéia sua irmã tinha na cabeça, a não ser que se tornara a criatura mais idiota que já vira.
A porta se abriu.
"Achei que tivesse se perdido no banheiro."
"Não que seja difícil", disse uma voz que definitivamente não se parecia com a de Gina. Rony virou-se. "Eu realmente concordo que devíamos ter mapas espalhados pela escola, mas eu não estava no banheiro."
"Harry", murmurou Rony sem emoção.
"Hermione está procurando por você."
"Onde é que ela está?", mas Rony teve de acrescentar logo em seguida: "Gina, não Hermione."
"Talvez tenha se perdido no banheiro", Harry zombou. Rony não lhe deu ouvidos. "Era ela quem estava esperando?"
Rony não respondeu.
Harry ficou parado na porta. Parecia pateticamente tranqüilo naquele estúpido suéter vermelho.
"Não vai com a gente para Hogsmeade?"
"Me dê motivos para ir."
"Porque é sábado, é dia de fazer coisas idiotas, porque todos foram embora para suas casas, e quem sabe porque é véspera de Natal e já fazemos isso a quatro anos."
Rony franziu a testa.
"Quatro anos?", exclamou.
Meu Deus, como ele odiava o Natal. Onde diabos estava Gina?
"Hermione não está de bom humor..."
"Você não a viu?", quis saber Rony, e acrescentou num tom exasperado: "Gina, não Hermione."
Desta vez Harry perdeu a pose pacífica e apertou os dentes. Rony ignorou o silêncio.
"Porque é que não sai desta maldita poltrona e vai procurar ela você mesmo?"
Ele não estava mais parecendo patético. Estava parecendo indesejável.
"Escute", começou Rony com uma latente irritação. "Eu entrei aqui e a encontrei alisando a Marca Negra no pulso enquanto escondia um frasquinho na outra mão. Vamos lá, tente se por no meu lugar, o que é que você acharia?"
"Você é ridículo. "
Harry estava sério. Ou talvez fosse raiva, Rony não estava interessado nos sentimentos do amigo naquele momento.
"Vamos, Harry! Onde é que foi parar a sua gentileza? Seja gentil comigo, seja gentil com Gina! Não comece com seus discursos de merda sobre como devo agir com os outros, ela é minha irmã!
"Então haja como se realmente fosse."
"Cala a boca."
"Não está acreditando que ela esteja do lado de Voldemort, está?"
"Isso sinceramente não me importa", Rony falou, encarando Harry e apertando os lábios. "Não é essa a questão. Eu não acho que você vá se preocupar de que lado sua irmã está quando cedo ou tarde todos vão estar contra você, de qualquer forma."
"Eu e Hermione não estaremos..."
"Ela não tem medo de nada disso. Gina, infernos, não Hermione! Ela nem mesmo liga se metade da escola a acha louca desde os onze anos de idade, porque não compreende o que realmente aconteceu naquela época. Você acredita Harry – acredita que ela não sente raiva de Tom Riddle? Ela o admira!", Rony soltou uma risada amarga. "O que se pode dizer a uma criança de onze anos... 'você foi traída, usada'? Mas ela não é ingênua como você pensa que é, como todos vocês têm a mania idiota de achar, ela apenas não se importa."
"E você se importa?"
Novamente Rony não respondeu. Só restava a ele esperar que Gina voltasse.
Do corredor, a voz de Hermione veio animada. Ela apareceu na porta arrumando a gola de um comprido casaco branco de lã. Uma de suas luvas caiu no chão e ela a apanhou, dizendo:
"É impressionante como as coisas caem quando você não as pode segurar."
"Você não pensou no que acabou de dizer, não é?", fez Rony, dedilhando de maneira distraída uma harpa decorativa no canto da sala.
"Ah, você!", exclamou ela depois de tê-lo visto. "Onde é que estava?" Hermione corou. Olhou de Harry para Rony, então para Harry. "O que está acontecendo aqui?" disse devagar.
"Rony não quer ir, só isso."
Ela os encheria de perguntas. Rony pensou a mesma coisa e revirou os olhos.
"Honestamente, Rony", Hermione suspirou. "você tem imaginação hiperativa e necessidade patológica de inventar situações de intenso conflito em sua vida. Está precisando pegar um pouco de sol. O que acha, Harry?"
"E aproveitar para fazer coisas idiotas."
"Exatamente", ela assentiu. "Então vamos", e se virou. Então voltou-se outra vez para eles. "Não, esperem aqui. Eu não gosto de branco, vou acabar cegando alguém andando com isso no meio da neve. Cinza ou preto?"
"Cinza."
"Eu já volto."
Ela fechou a porta.
"E você se importa?", Harry perguntou a Rony. Tinha uma vaga sensação de já ter perguntado isto antes.
Segundos depois Hermione surgiu na porta, dobrando a gola do seu casaco branco e deixando a luva cair.
"É impressionante como as coisas caem quando você não as pode segurar."
"Você não pensou no que acabou de dizer, não é?", Rony resmungou, manejando a harpa.
"Ah, você! Onde é que estava?..."
"Rony não quer ir...só --esperem um pouco, isso..."
"Honestamente, Rony ,você tem imaginação hiperativa e necessidade patológica de inventar situações de intenso conflito em sua vida. Está precisando pegar um pouco de sol. O que acha, Harry?"
Harry franziu a testa e disse lenta e automaticamente:
"E aproveitar para fazer coisas idiotas..."
"Exatamente. Então vamos." ela se virou e tornou quase na mesma hora. Harry olhou para Rony. Ele também não percebia aquilo tudo? "Não, esperem aqui. Eu não gosto de branco, vou acabar cegando alguém andando com isso no meio da neve. Cinza ou preto?"
"Cinza..."
"Eu já volto."
Ela fechou a porta.
"E você se importa?"
Isso não está acontecendo, pensou Harry.Hermione entrou. Ele olhou para o chão antes que as luvas caíssem.
"É impressionante como as coisas caem quando você não as pode segurar."
"Você não pensou no que acabou de dizer, não é?"
"Ah, você! Onde é que estava?"
Harry virou-se de costas para os dois. Quem quer que fosse que estava brincando com ele devia estar achando bastante graça. Mas ele lera sobre esse tipo de coisa em algum lugar, ou escutara em alguma aula...era um feitiço. Você só precisava achar o ponto que desunia o elo entre os ciclos. Ele lançou um olhar à sala.
"Rony não quer ir", disse sem raciocinar.
"Honestamente, Rony, você tem imaginação hiperativa e necessidade patológica de inventar situações de intenso conflito em sua vida. Está precisando pegar um pouco de sol. O que acha, Harry?"
"Talvez seja o casaco..."
Hermione anuiu.
"Exatamente. Então vamos...Não, esperem aqui. Eu não gosto de branco, vou acabar cegando alguém andando com isso no meio da neve. Cinza ou preto?"
"Preto."
"Eu já volto."
Ela fechou a porta.
"E você se importa?"
Dessa vez Harry correu até a porta, assim que Hermione apareceu ele puxou as luvas de sua mão para que não desse tempo de caírem.
Rony dedilhou a harpa.
"Ah, você! Onde é que estava?"
Certo, já estava ficando sem graça.
"O que está acontecendo aqui?"
"Ele não vai!" Harry gritou, olhando ao seu redor. Onde estava o elo?
"Honestamente, Rony ,você tem imaginação hiperativa e necessidade patológica de inventar situações de intenso conflito em sua vida. Está precisando pegar um pouco de sol. O que acha, Harry?"
"Por Deus, Hermione, cale a boca."
"Exatamente... Então vamos...Não, esperem aqui. Eu não gosto de branco, vou acabar cegando alguém andando com isso no meio da neve. Cinza ou preto?"
"Preto! Preto!"
"Eu já volto."
Ela fechou a porta.
"E você se importa?"
Era a harpa, só podia ser a maldita harpa. Pulou na frente de Rony e se colocou entre ele e a harpa.
"O que está acontecendo aqui?" perguntou Hermione.
O que era então? O que era?
"Honestamente, Rony ,você tem imaginação hiperativa e necessidade patológica de inventar situações de intenso conflito em sua vida. Está precisando pegar um pouco de sol. O que acha, Harry?"
Mas Harry não estava mais ouvindo. "Saia, Hermione."
"Então, vamos. Não, esperem aqui. Eu não gosto de branco, vou acabar cegando alguém andando com isso no meio da neve. Cinza ou preto?"
"Preto."
Ele a escutou dizer o incansável "Eu já volto" e sair, trazendo a porta da maçaneta consigo. Então Harry ergueu suavemente a mão e a segurou, impedindo que se fechasse. Os passos da amiga se afastaram pelo corredor. Quando se virou para olhar Rony, ele estava verificando as horas no relógio.
"Quinze para as sete da manhã? Ela é louca ou o quê, não tem trem uma hora dessas pra canto algum!"
Através dos pequenos batentes chumbados das janelas, filtrava-se a luminosidade abricó de um dia incomum no inverno de Hogwarts. O sol subia turvo por cima das montanhas, e com certeza iria ser pôr cor de sangue no final do dia.
Finalmente, Hermione acabara convencendo Rony a ir a Hogsmeade, mas enquanto o escutava reclamar que Gina simplesmente o deixara plantado ali naquela saleta e fugira, Harry imaginava um jeito de chamar Sirius. Como todas as outras vezes que tentara falar com o padrinho, a comunicação seria incerta, e poderia tanto demorar, não acontecer, ou ser surpresa, com a cabeça de Sirius surgindo inesperadamente entre as chamas, de modo que fazia quase três horas que estava sentado no vazio Salão Comunal da Grifinória, de frente para a lareira.
Quase cochilou várias vezes, quando por fim se deparou com o rosto de Sirius no centro da lareira, flutuando acima das chamas. Harry realmente chegou a desconfiar que o padrinho estivesse foragido; tinha a expressão serena de quem já viveu tudo o que tinha para viver e está apenas vivendo mais um pouco.
"Olá, Harry", ele disse.
Não exatamente espantado, mas fascinado, Harry sorriu. "Então a minha coruja não foi tarde demais."
"E porque seria tarde demais?"
"Você está bem? Quer dizer, estou vendo que está...mas porque – digo, não o vejo assim desde...desde, talvez, desde muito tempo..."
"Nem me fale...Isto aqui se trata de um pouco de ânimo antes de ir para a guerra", os olhos dele irradiavam a luz vermelha do fogo, mas não tinham brilho próprio. "Não vim falar disso. O que é que aconteceu?"
"Sim", disse Harry, "você sabe alguma coisa de Voldemort?"
"O que é que aconteceu?", Sirius repetiu.
"Nada , nada importante, só que...faz tempo que não sabemos sobre ele..."
"Se sabe muito sobre ele", respondeu Sirius de imediato, como se repreendesse Harry "Sabe-se o suficiente para não confiar em muitas coisas ao nosso redor."
"Ele poderia estar aqui? Em Hogwarts..."
"É claro que não. Está perguntando por causa de um dos empregados que morreu a alguns dias, não é? Argo Filch, se não me engano."
Harry abaixou a cabeça.
"Bem, não exatamente. É tudo. As coisas estranhas estão voltando a acontecer."
"Defina coisas estranhas."
"Eu", Harry disse, "O tempo."
"Você..."
"Eu vejo sangue."
"O tempo..."
"Se repete."
Sirius ficou calado e pensativo. Após um tempo, falou como se apenas analisasse as próprias palavras: "Ele pode estar tentando chegar até você...mas não sabe como, então confunde as coisas, confunde o tempo, é como se quisesse criar uma ponte, um caminho mais curto."
Harry percebeu-se sentado numa poltrona, com o sangue aquecido o bastante para lhe causar leves choques pelo pescoço.
"Não disse isso para que se assustasse."
"Não estou assustado."
"Veja bem, Harry, Voldemort está com um poder tão surpreendente que já não precisa mais estar presente num lugar para fazer magia. Quando o seu sangue o trouxe de volta, o fez realmente voltar a viver. Mas não acredito que o esteja controlando de longe. Isso não parece possível."
"Como sabe disso?"
"O Ministério está se utilizando de Magia Negra para conseguir pistas de Voldemort. Somente pessoal autorizado tem acesso às informações que eles conseguem, então também não sei muita coisa."
"Magia Negra?", Harry estranhou. "Isso não está certo."
"Polimorfismo, Harry."
"Esse tipo de coisa foi proibida em setenta e quatro pelo Conselho dos Bruxos então eles mesmos estão voltando com essas criaturas?"
Quanta falta de senso. Harry se lembrava de um polimorfo. Não eram humanos, e nem bruxos, e não sabia se podiam ser chamados de seres mágicos, por mais que o que fizessem possuísse qualquer coisa de sobrenatural. Mas vira um em seu pleno estado de desenvolvimento – devia ter por volta de seis anos de idade, a criatura. Estava a venda numa loja (sem registro) no Beco Diagonal. Atrás das grades da enorme gaiola, via-se uma adorável garotinha observando os que entravam com os olhos de um gato. Então alguém lhe jogava algumas pipocas e ela virava uma suja e aborrecida esfinge.
"Não me parece ético" , continuou Harry, cético. "É proibido."
"Harry", o padrinho inclinou a cabeça nas chamas de modo enfático " o ministério é quem dita o que é proibido."
"Despotismo. "
O fogo começou a morrer; as labaredas foram deixando de lamber as paredes da lareira e a imagem de Sirius também esmaeceu. Harry se levantou e pegou três toras curtas e grossas de madeira, atirando-as no fogo, que quase de imediato voltou a se elevar, laranja e dourado.
"E quanto a Lupin?", o garoto murmurou.
"Espero que volte antes do Natal."
Ouviu um movimento no andar de cima, no dormitório das meninas, e achou que Gina realmente estava fugindo de Rony, aparecendo só uma hora depois que ele pegara o trem para Hogsmeade com Hermione.
"É Gina", Harry avisou "A irmã mais nova de Rony."
"Eu adoraria ver seus amigos de novo, Harry. Provavelmente já não lembram as crianças que eu conheci."
"Mas você não conheceu Gina. Foi ela quem abriu a Câmara Secreta, disso você soube, não soube? Enquanto esteve em Azkaban?"
"Não recebemos nenhum tipo de informação em Azkaban, mas eu soube logo que fugi. Existe algum bruxo pelo mundo que não saiba? Tive pena por ela, e mais ainda quando descobri que tinha apenas onze anos. Ele sempre escolheu os mais fracos."
"Sirius, você também não...", Harry acabara de lembrar de um detalhe, "sabe o que ela tem no pulso, não é?"
O homem não respondeu. De repente parecia interessado demais para dizer qualquer coisa.
"A Marca Negra", declarou Harry. "E não foi ela quem fez. Tem certeza de que Ele não pode controlar as coisas de longe?"
"Tem certeza de que não foi ela quem fez?"
Não, não tinha certeza. Durante todo aquele tempo, ainda não conhecia Gina. Se tivesse de acreditar em Rony ou Hermione seria mais fácil. Mas porque infernos Voldemort iria querer usá-la de novo? Fez sentido quando a levou para a Câmara Secreta, porque Harry iria atrás, iria direitinho para ele. Mas que finalidade tinha em marcar ela com aquele símbolo idiota? Porque escolheria ela tendo ele, Harry Potter, para fazer mal? Vamos pensar; não que fosse impossível que Gina, acordando num dia ruim, tivesse decidido passar para o lado Dele, e de fato o Veritaserum a fez confirmar tudo, mas será que ela realmente pensava que poderia botar medo em alguém desse jeito?
"Não tinha me dito isso antes", refletiu Sirius. "Devia ter dito antes...essa garota pode estar...O ajudando", ele olhou longamente para Harry. "Mas isso seria ridículo."
Então compreendia porque Rony estava tão apavorado. Seus pensamentos mais terríveis eram sobre Gina ser vista como culpada de todos aqueles incidentes em Hogwarts, como, sem dúvida nenhuma, seria.
A gata de Argo miava do lado de fora do salão comunal. Andava meio desnorteada desde que o dono morrera.
Certamente, pontualidade era o tipo de coisa que Malfoy valorizava. Ao faltarem exatamente quinze minutos para as sete horas, ele dobrou o corredor.
Enquanto Pansy cerrava as unhas na aula de Poções e enchia a mesa de pó, Gina relembrava a fórmula da poção polissuco. Demoraria bastante, por isso teve de providenciar tudo com antecedência. Os ingredientes teriam sido difíceis de conseguir se Snape não estivesse tão empenhando em tirar pontos de Hinna Johnson por ela ter cortado os dedos de morcego de modo errado e feito a infusão de aloxina voar no teto com uma explosão verde-lama, levando Snape a dar as costas para seu depósito no fundo da sala.
Gina ainda tremia um pouco, mas tinha dado certo com Pansy, ela estava petrificada numa das salas inutilizadas da torre da Sonserina, embora não tivesse sido fácil a surpreender na saída do salão comunal da casa, porque a própria passagem não era tão evidente quanto a da Grifinória. Mas parecia que alguém a estava ajudando, pois Pansy apareceu no corredor no último segundo, e bem na frente de Gina, como que de presente.
Bem, ela não teve muito tempo de pensar. Nenhuma das duas teve. Só que o espanto de Pansy foi maior devido ao fato de ter visto uma cópia dela própria em sua frente, de modo que não se mexeu, paralisada de espanto.
Gina saiu de modo ocasional de trás de uma coluna. "Boa noite."
Draco a viu, mas não disse nada.
Esquecera de aprender os modos de Pansy. Será que ela daria boa noite a alguém? Pela convivência que deveria ter com Malfoy, era lógico que se comportasse como ele. Draco não falou durante o caminho inteiro até a porta, e ela também não.
"Queimou?", ele disse de repente.
"Queimei." Gina respondeu pacientemente, embora não soubesse o que é que havia queimado.
Enquanto as colossais portas de Hogwarts se abriam por elas mesmas para que eles passassem, ele a olhou. A roxa claridade do fim do dia entrou nos olhos dele, os tornando quase lascivos, mas Gina não hesitou. Foi ele quem desviou o olhar para avistar o coche na estradinha à frente, parado com as rodas enterradas na neve.
"Achei que tivesse dito que não viria." ele disse.
"Mudei de idéia."
"Porque?"
"Por causa daquela faca. E do resto", ela acrescentou depressa. Seria melhor que sobrassem argumentos do que faltassem.
Draco parecia não dar ouvidos. Estava olhando agudamente para o cavalariço.
Era um belo coche, Gina se deu conta. Saído de filmes. Os cavalos – quatro – eram castanhos e as crinas negras brilhavam sobre os dorsos inclinados para o chão.
"Olá, Senhor", cumprimentou o cavalariço.
"Quem é você?", perguntou Draco de modo hostil, enquanto observava o homem suspender suas malas e as de Gina para cima do teto.
"Conley Arroway, Senhor. "
"Eu não perguntei seu nome", replicou Draco.
O homem o olhou, repentinamente sobressaltado. Gina sorriu para ele atrás de Draco, e de algum modo o cavalariço se refez mais rapidamente.
"Tarter Allen faleceu, Senhor, no mês de Setembro. Lady Malfoy me contratou para ficar no lugar."
"É jovem demais."
Realmente era. Gina não lhe dava mais de vinte anos, no máximo vinte e dois. Mas tinha a pele marcada de sol, vermelha como um presunto cru. Ele apertou as fivelas sobre as malas e abriu a porta para que entrassem. Gina ficou parada, esperando Draco entrar, mas percebeu que ele estava fazendo a mesma coisa.
Um tumulto de sensações tomou conta de Gina quando ela entrou e se deparou com uma janela, um vidro que a refletiu. O que é que estava fazendo? Sentia um gosto terrível na boca. Estava indo direto para a boca do tubarão, e ninguém a estava cutucando para seguir em frente. A pele estragada de Pansy, o rosto de feições grosseiras, o cabelo sem forma, tudo era apenas um corpo, e agora estava dentro dele, de um corpo que não conhecia, e logo estaria dentro de uma casa que igualmente desconhecia, com pessoas completamente diferentes vivendo lá.
Rony não estaria lá, estaria em Hogwarts, mas ela estava deixando Hogwarts, então, quem estaria lá para ela?
Entretanto, não pretendia voltar. Somente tinha medo de continuar.
Sentiu o corpo de Draco fazer o coche estremecer, e em seguida o som da porta se fechando. Ele não era o tipo de cara que você chama de grande, mas era alto para a idade, e isso fazia alguma diferença.
De imediato suas narinas experimentaram um forte aroma. Menos ardente que o ar frio – que a pouco cortava sua respiração de modo doloroso, arranhando os pulmões, enquanto caminhava ao lado de fora – e mais ácido que o perfume de limão que sua mãe borrifava nas cortinas de seu quarto. Uma mescla de álcool destilado de perfume com alguma substância artificial que lembrava menta ou eucalipto. Era um cheiro que tinha gosto. E estava por todos os lugares, pelas graciosas almofadas, pelo carpete, em Malfoy.
Sentia-se dentro de um luxuoso caixão.
Draco foi para perto da janelinha de comunicação.
"Ele tinha 54 anos, Tarter", disse para Conley Arroway.
O homem agitou as rédeas e os cavalos sacudiram os quadris. Estavam andando.
"Se é o que me diz, Senhor. Eu não sabia."
"Tinha 54 anos e um histórico perigoso."
Gina ergueu involuntariamente uma sobrancelha. Tinha a impressão de que estavam simplesmente saindo do chão. Olhou pela graciosa janelinha. As rodas do veículo raspavam as copas das árvores.
"Senhor?"
"Estou dizendo que tinha 54 anos e um histórico perigoso. Foi o cavalariço dos Riddle durante 10 anos."
"Porque isso haveria de ser perigoso?", replicou o homem após um certo tempo.
Draco sorriu. Tinha uma mescla de enlevo nos olhos que beiravam a translucidez. Escorregou novamente para o acento, jogando a cabeça para trás; os cabelos confundiram-se com o cetim.
"Porque haveria de ser perigoso, Parkinson?", fez, a garganta ondulando enquanto falava.
Gina se esforçou para parecer apática. Bom, não era difícil. "Depois do que o nome Riddle se tornou, qualquer coisa que um dia foi relacionado a eles parece ser uma ameaça", disse.
Malfoy levantou a cabeça. Sorriu para ela.
"Eu amo você, Parkinson."
Gina teve um acesso de tosse.
"Conley?"
"Senhor?"
"Do que foi que Tarter morreu?"
"De casamento!", a risada aguda de Conley foi ouvida até mesmo dentro do coche. "A mulher era intragável."
As horas infinitas que se passaram finalmente estavam acabando. Não que realmente Gina tivesse notado, permanecera a maior parte do tempo dormindo, de qualquer modo, com a cabeça encostada na janela, e Malfoy era um ótimo companheiro de viagem: não emitia um único ruído sequer. Ela já imaginava o quão tediosa seria sua semana e o seu Natal.
Quando o céu estava completamente negro e o frio vencia as paredes de couro do coche, Malfoy tirou uma garrafa debaixo do banco. Lembrava um artefato egípcio.
Conley falou com os cavalos.
"Ele não sente frio?", perguntou Gina, ciente de que Conley não podia ouvi-los.
Draco não respondeu a pergunta, invés disso espiou a garota sentada no banco com uma expressão sarcástica. Depois virou a gargalo da garrafa na boca.
"Você não é a Pansy."
Por mais inesperada que a situação fosse, Gina tentou uma cara sem emoção.
"Receio que eu seja."
"Não. O que houve com suas frases inconvenientes?"
"Você quer inconveniência? Vamos falar da sua família."
Malfoy abaixou a garrafa, concentrado em Pansy.
De alguma forma, falar da família dele era inconveniente, e Gina apenas suspeitou disso. Não saberia explicar porque, mas é o tipo de coisa que você desconfia. Entendeu isso quando os olhos dele passaram a não ter nenhuma reação. Ao mesmo tempo, uma onda de angustia a assolou. Ele estava sentado na frente dela, a encarando, e não parecia querer nunca mais deixar de encará-la, a odiando, fermentando os pensamentos mais imundos naquela maravilhosa cabeça loira.
Então ele simplesmente levou o dedo aos lábios e aproximou-se dela. Gina se viu hipnotizada por aquele simples gesto. "Shh..." fez ele - como se uma criança imaginária dormisse ali do lado. "Eu não sei o que deu em você, Parkinson", Malfoy falou, indo se encostar novamente no acento, mas não tirando os olhos dela. "Mas está muito melhor assim."
E você muda de comportamento muito rápido.
Sentindo constantemente os olhos dele sobre si, Gina virou o rosto para a janela. Algumas luzes baixas piscavam no horizonte, o contorno escuro das colinas tinha mudado, agora eram mais afiados, mais pontiagudos, uma densa bruma deslizava próximo ao chão, pela orla dos campos, entre as florestas. Começaram a descer. Os cavalos faziam barulhos feios, como se estivessem evitando voltar à terra firme, e logo se descobriu o porquê.
As rodas do coche bateram no chão suavemente e voltaram a rodar em cima de paralelepípedos. Estavam numa espécie de estradinha ladeada por faias peladas, bordos, carvalhos, magnólias, nogueiras, castanheiras e bétulas, tudo se fundindo num punhado de árvores na escuridão, que os lampiões pendurados nas extremidades do coche iluminavam.
Um lince correu para fora da pista, assustado, quando o cavalariço soltou uma exclamação de aviso. A criatura sumiu entre os troncos retorcidos das árvores. Outros olhinhos brilhantes piscavam volta e meia, uivos ecoavam perto deles.
Mas o que mais preocupava Gina era que, por baixo das luvas, a pele cinzenta de Pansy já ganhava tons de branco-leite. Se demorassem mais, se ficasse mais dez minutos dentro daquele coche, viraria Gina de novo. Não havia trazido consigo nenhum frasquinho reserva, o que fora um lapso, senão uma idiotice. Mas havia litros e litros em sua mala.
O coche parou. Malfoy desviou o olhar de Pansy. Um comprido portão cinza, com dois emes moldados no ferro retorcido indicava que tinham chegado nos terrenos da Mansão Malfoy. Depois de um certo tempo, o portão foi aberto e eles entraram.
Os cavalos fizeram uma curva em volta de uma sebe, e ali estava a Mansão. Escura, grande, e opaca à luz do luar. Lembrava uma bela casa do século passado, mas simplesmente desabitada. Nenhuma luz vinha das janelas, apesar da grama estar impecavelmente aparada.
Passou pela mente de Gina que não havia ninguém na casa.
Conley desceu, falou outra vez com os cavalos, e veio abrir a porta. O ar gelado da noite lambeu as pernas de Gina.
As colunas projetavam sombras nas portas, de modo que foi quase um susto quando uma senhora apareceu no topo da escada, sorrindo para eles.
"Onde está meu pai?", fez Draco quando passou por ela.
"No escritório, senhor", ela olhou para Gina e franziu a testa. Gina desviou os olhos para os degraus da escadaria que subia e abaixou a cabeça. Certamente estava começando a voltar ao normal, e mechas ruivas já deviam se misturar com os fios grossos de Pansy. "Olá, querida", a senhora cumprimentou de modo educado.
Gina se deteu num sorriso e entrou no encalço de Draco. Assim que a porta se fechou atrás deles, ela se deu conta de que nunca em sua vida entraria novamente num lugar como aquele. Os lustres cintilavam no teto, mas estavam cobertos por uma escuridão fantasmagórica, e o que iluminava o gigantesco hall eram as quatro lareiras e as milhares de velas longas e finas, como fios de cera com foguinhos nas pontas, espalhadas por todos os lugares.
Enquanto andava, pisava por grossos tapetes persas, de compridas franjas de seda.
Aquela mansão fora feita para trouxas.
Malfoy sumira. Provavelmente subira a colossal escada em forma de T que havia em sua frente e fora para um dos lados em que se dividia o segundo andar. Agora estava, aparentemente, sozinha.
Um quadro imóvel, de moldura avermelhada como os móveis, cobria a parede da escada inteira e exibia a cara carrancuda de um velho barbudo de intensos olhos claros, encarando qualquer um que entrasse na casa como se já o repreendesse de antemão por fazer alguma besteira durante a estadia. Ao passar pela moldura imponente, Gina leu gravado na borda inferior: John Sebacius L. Malfoy.
A rapidez com a qual se transformava zunia em seus ouvidos. Precisava desesperadamente de suas malas, onde é que aquela senhora as tinha colocado? Aliás, onde é que a senhora estava? Apenas Malfoy e ela entraram na casa, Conley e a mulher ficaram de fora, então onde diabos...? Mas uma mecha inconfundivelmente ruiva caiu nos olhos de Gina. Com um susto, ela correu pelo comprido corredor e entrou na última porta ao final dele. Abriu-a sem pensar no que estaria do outro lado, mas para sua sorte não era nada além de livros.
A biblioteca, e quão longe será que ela ficava do seu quarto, se é que tinham levado suas malas para o seu quarto? E onde era o seu quarto?
Mal teve tempo de se encolher num canto e seus dedos já se alongavam em formas suaves, deixando as mãos masculinas de Pansy para trás. Seu jeans voltou a parecer mais frouxo e não tão curto como quando vestiu o corpo da outra garota, que era muita maior do que o dela. Gina puxou o grampo que prendia os cabelos densos de Pansy e ele caiu em ondas cor de cobre que se diluíam num dourado-fogo.
Ela sentiu a parede vibrar em suas costas. Pessoas falavam do outro lado dela.
"Esteve fugindo durante anos", ela escutou. Falavam tão alto que não era necessário pôr o ouvido perto da parede. "As pessoas realmente pensam que você é fraco, sabia?"
"As pessoas pensam o que é mais conveniente para elas", respondeu outra voz, e que definitivamente era de Draco Malfoy.
"...você poderia ter tido tudo. Ele está em todos os lugares, e vê tudo por todos os ângulos, vê até nossos pensamentos...os mais traiçoeiros...as traições de pensamento. Ele presta atenção em você, Draco, não pense que não presta."
Fez-se um silêncio.
"Poderia estar do lado dele, Draco. Poderia ser melhor do que eu."
"Ora", fez Draco Malfoy em seu tom suntuoso. "qualquer um poderia ser melhor que você, papai."
Gina não via o rosto dele e nem o que estava acontecendo, mas pelo modo como ele pronunciou "papai", sabia que Draco sorria o sarcástico e desavergonhado sorriso para o pai, da maneira odiosa e irritante que somente ele conseguia.
Um ruído oco estalou em seguida.
Ela se afastou da parede com um sobressalto. Aquilo fora o inconfundível barulho de um tapa?
"É você quem vai arruinar tudo!", um dos dois gritou, a voz tão alterada que não foi possível saber de quem era.
Lúcio andou pelo cômodo e abriu a porta com um chiado. Saiu, e seus passos passaram a ser ouvidos no corredor. Gina imaginava com assustadora perfeição todo o que se passava atrás da parede, porque conhecia os passos de Draco, e eram distintos dos de Lúcio; silenciosos, quase inaudíveis.
Draco estava sozinho agora.
Loucos, pensou Gina, e logo sua concentração estava novamente de volta às suas malas. Sairia dali, rastrearia suas roupas com a varinha, entraria no quarto e tomaria a poção Polissuco. Seria vista, e sabia disso. Aquela casa era cheia de quadros, e por mais que não fossem bruxos, que não se movessem, eram muito piores. Mas por não se moverem não significava que não viam.
Ali mesmo tinha um. Enquanto andava entre as estantes, Gina via uma nesga pálida e cintilante de cabelos loiros, imóveis, nas sombras. Uma figura inexpressiva e vestida toda de preto como se comemorasse um velório.
Seu coração deu um salto. A moldura do espelho lhe pregara uma peça, se dera conta disso. O brilho nos olhos daquela figura era tão vivo como os dela; dançava como a água sob a lua.
"Você", Draco disse, do outro lado da biblioteca. "Eu estava sentindo o cheiro de gente não convidada."
Gina via seu rosto atento de raposa e o dele, parado, branco, atrás dela, refletido no espelho.
"O que é que você vai fazer comigo, Malfoy?"
Ele demorou o que pareceram horas para finalmente responder. Estava, inicialmente, a analisando. "Vamos combinar uma coisa. Nada disso aconteceu."
"Eu não posso ir embora."
"Não pode mesmo."
"Eu preciso estar aqui quando Você-Sabe-Quem estiver."
A expressão de Malfoy mudou ao escutar aquilo.
"Se quisesse falar com ele, poderia ter usado um diário", ele disse, e riu debilmente em seguida. "Ei, o que é que você tem debaixo da manga, hein? É uma carta? Ou é uma Marca?"
"Como é que você...?"
"Weasley", ele começou a se aproximar, "a pequena Weasley. Tem idéias grandes. Meu pai, ele iria gostar de você. Pensaria que talvez tivesse achado a essência que tanto procurou em mim. Ingênua, ou ousada? Você é ousada, Weasley. Uma garotinha estúpida que resolveu pintar as unhas de preto. Mas o meu pai...ele sinceramente adoraria você."
O modo como ele a olhava agora chegava a dar nojo. Estava pensando que ela queria ir para o lado de Você-Sabe-Quem – que pensasse, pouparia explicações. Ele estava bem atrás dela agora, sua respiração nivelava no ouvido de Gina. Ela fechou os olhos.
"Vamos conversar decentemente", disse ela.
"Que acha de me dizer porque veio até aqui? Seria decente."
"Já disse. Preciso estar nessa reunião."
"Certamente você não sabe, Weasley", ele falou num modo quase polido, "mas nós, adolescentes, não participamos do Conclave. Perdeu a viagem."
"A única pessoa que pode tirar essa Marca de mim foi quem a fez. Quem será que a fez?"
Draco abriu a boca como se estivesse maravilhado. "Agora estamos fazendo as coisas do meu modo. O que a faz achar que a pessoa estará aqui?"
"Depois do que o nome Riddle se tornou, qualquer coisa que um dia foi relacionado a eles parece ser uma ameaça", Gina disse. Draco fez um ruído com garganta que lembrava o ronronar de um gato. "Ela vai estar aqui, Malfoy. Eu tenho certeza."
Então Gina teve a gélida sensação das mãos de Draco deslizando dentro do seu casaco, procurando alguma coisa...
"Minha varinha", pensou Gina em voz alta, tateando os bolsos. "Você pegou minha varinha!"
Quando ele se afastou, ela se virou e o seguiu, temendo perguntar se aquilo acabava ali. Mas não foi preciso.
"Os empregados provavelmente botaram você no quarto que Pansy sempre ficava. Mas você não é Pansy. Vou trocar você de quarto. E chega dessa lenga-lenga de poção Polissuco, vai ser a Weasley que sempre foi."
"Seus pais..."
"Meus pais nunca notaram a existência de mais alguém na casa que não fosse eles mesmos. Não prestavam atenção em Pansy e não vão prestar atenção em você", ele olhou para ela por sobre o ombro. "Já não posso dizer o mesmo dos empregados."
"Ninguém aqui parece se importar com coisa alguma", replicou Gina, lembrando o modo que foi deixada sozinha no hall de entrada logo que chegara. "Nem mesmo os empregados."
"Aqui", Draco pôs os dedos numa porta trabalhada de mogno e a empurrou suavemente.
Ela entrou. Gina não tinha visto nenhum dos outros cômodos, mas sem dúvida aquele era o mais simples de todos, comparado com o resto da casa. Tinha as paredes cobertas de um papel de parede verde e bege, uma felpuda alcatifa cor de ouro e cortinas de veludo brilhoso e escuro. A cama no centro era alta, forrada de lençóis em tons de oliva, verde musgo e trigo, as sedas que pediam do dossel se espalhavam pelo chão.
"O que é essa cortina?", perguntou ela, observando que uma parede inteira fora coberta por uma seda vermelha.
Mas Draco já tinha saído. Ele tinha passos que mal se ouviam. Isso não era bom.
O relógio na parede era a única coisa que importava a Rony. Enquanto Hermione e Harry falavam sobre qualquer coisa, ele pensava que talvez nunca devia ter deixado Gina sair daquela saleta para ir ao banheiro.
Após ter recebido suas malas e as acomodado num canto, Gina se voltou mais uma vez para a parede coberta. A olhou durante um tempo. Foi até a corda e a puxou.
Era uma mulher. Não uma mulher de verdade, mas a pintura de uma, embora tão perfeita que se podia achar que respirava. A pintura cobria toda a parede, do teto ao chão; uma bela mulher sentada em panos e almofadas, um rosto imaculado que de tão triste dava medo. Os cabelos castanhos saiam de baixo dos véus e emolduravam o rosto como folhas escuras e o brilho rasgado de enormes olhos azuis davam um pouco mais de cor à sua pálida imagem.
Gina deitou-se na cama e a contemplou. O que era aquilo? Que casa era aquela? Havia até mesmo esquecido de que estava com fome. Escorregou pelos travesseiros e ficou entre as suaves dobras peroladas dos lençóis, e lembrou-se dos bifes de filé e do salmão defumado de Hogwarts – queria uma boa porção de torta de cereja. Não importava a estranheza daquela casa e das pessoas, estava num palácio, se descesse até a cozinha encontraria pudins cobertos por caldas brilhosas de açúcar.
Jamais tinha se sentido assim antes; importante e em perigo. Aquilo tudo tinha qualquer coisa de cinema.
"Gina..."
As costas dela se arrepiaram. Rolou na cama e olhou o outro lado do quarto. As cortinas na janela voavam, e Gina as olhou por cima do espelho da cama. Flocos de neve flutuavam para dentro do quarto, trazendo o cheiro cristalino do ar.
"Gina..."
"Quem está aí?", perguntou, sentando na cama ao centro do quarto. "Malfoy?"
Não, não era Malfoy. Conhecia bastante a voz dele, como poderia esquecer? Era Tom. O coração de Gina acelerou de tal modo que sua respiração se atropelou até a boca.
Tom, ela pensou, Tom... Levantou-se e andou até a porta. Agora o sentia quase como se sentisse seu próprio corpo, sua própria pele grudada à carne. Não conseguia mais respirar, todo o ar daquele quarto tinha simplesmente evaporado como se precisasse dar lugar à outra coisa.
Ela pôs a mão na redonda maçaneta e a girou, mas não abriu a porta. Meu Deus, ele estava tão perto agora, nunca tinha chegado tão perto... podia ouvir a respiração dele...queria sentir a respiração dele.
Tom...Tom! – o nome dele pulsava em sua mente quase no mesmo ritmo das batidas de seu coração.
Ela afastou a mão da porta. Virou-se e olhou a cama.
A branca luz da lua cintilava nas minúsculas superfícies da neve que entrava, tornava tudo no quarto prateado. Menos a cama. Os compridos dosséis e as cortinas de seda que pediam dele escondiam uma criatura recostada nos travesseiros, seus olhos da cor do aço riam.
O sangue...Gina se aproximou, o sangue. O sangue dela era um mero líquido quente e latejante percorrendo o corpo. Seu corpo estava perdendo as forças por completo, e a sensação de morte foi quase total quando passou debaixo das cortinas e escorregou pelos lençóis.
Estava morrendo. Mas era tão bom!... era um prazer impronunciável, e ela ardia por isso. Via-o agora, e não era como nos sonhos. Ele tinha um cheiro, o cheiro que ela mais desejara sentir em toda a sua vida; o cheiro das sombras.
Ele se inclinou para ela, e o fato de que seria possível tocá-lo causou terror em Gina.
"Estava esperando por você", Tom disse, sua voz rouca arranhou a atmosfera. "Aqui."
O corpo fraco dela se apoiou no dele, suas enormes mãos brancas a seguraram.
Aqueles olhos... eram malvados demais, bonitos demais. Da cor da destruição, da humilhação, da dor e do luto. Cinza, a cor que não era branco e nem preto.
"Gina, porque não quer a minha Marca?", ele fez, alisando sua adorável Marca Negra no pulso dela.
"Foi você quem a fez? Por que?"
Ele abriu os lábios num amargo sorriso, a respiração gelada corou as faces de Gina como uma brisa do inferno. Tom beijou-lhe a garganta, as curvas do pescoço, seus lábios anestesiavam e esgotavam Gina, seus dentes mordiam a pele dela. Aquilo doía, pareciam as presas de uma serpente deslizando pelo seu corpo.
"Porque somos animais", ele disse, o mais próximo possível do ouvido dela. "Deixamos nosso território marcado."
"Eu sinto muito... mas não é desse jeito."
"Você sente?", ele rosnou, repentinamente enraivecido.
Então ele sibilou, agarrou as vestes de Gina e as rasgou, ela pulou para trás, horrorizada, mas Tom estava sobre ela dessa vez, a impedindo de sair, a puxando para si com a força anormal de um garoto de dezessete anos, e de repente uma luz branca incidiu nos olhos dela, quase a cegando.
"Sente por isso?"
Gina viu os olhos dele escurecerem, tornarem-se duas esferas de metal. A superfície fina de uma faca alva como a lua roçava pelo seu quadril, não cortando, mas acariciando a pele, subindo pela cintura. A faca que Draco falava, não tinha idéia de como era fria. Mas nas mãos de Tom era totalmente diferente, ele a segurava como se soubesse cada golpe que ela poderia desferir, como se a faca fizesse parte de seu próprio corpo, de modo que ela chegava a ser ainda mais bela.
"Vai me...matar?", Gina perguntou, a voz frágil.
"Vou marcar território", ele disse, e com um sorriso fez um rápido movimento com a faca, e Gina sentiu a lâmina passando entre sua pele, mas não havia dor...na verdade, não houve golpe.
Ela olhou o rosto de Tom. Ele não sorria mais. Algo morno e leve respingava nela.
Com um sobressalto, ela olhou para baixo. Ah, ele não tinha a machucado. Tinha machucado a si mesmo. E agora o enorme corte que atravessara as vestes e a pele dele desenhava um fio comprido de sangue no lado direito das costelas dela.
Ouviu o som daquele corte novamente, e desta vez acordou. Abriu os olhos e no segundo seguinte saiu da cama, andou pelo quarto vazio e à luz de velas. Observou que a pintura daquela mulher estava coberta. Não havia, se é que não tinha sido um sonho também, adormecido olhando para ela? E no entanto... foi até a janela e abriu as cortinas. No entanto, nem ao menos tinha lua no céu.
Gina viu sua atônita figura do outro lado do quarto, refletida no espelho. Quase como acreditando ainda dormir, levantou a blusa – Um engraçado caminho feito de gotas de sangue percorria suas costelas no lado direito de seu corpo, a evidência de que Tom havia estado sobre ela, e tinha se cortado com aquela faca branca, e seu sangue tinha caído sobre seu corpo e se fundido com sua pele.
De fato, o cheiro dele ainda estava pelo quarto.
"Cinqüenta quartos?", exclamou Gina.
Draco a encarou.
"E não quer me pôr em outro?", ela continuou. "Escute, eu não vou mais dormir com aquela mulher me olhando!"
"Para isso foram instaladas as cortinas", disse ele pacientemente.
"Mas eu sei que ela vai estar logo atrás delas!"
A luz do dia entrava através do grosso vidro da janela e faiscava nos talheres sobre a mesa. Luz... ardia nos olhos. Draco olhou para trás, encarou a criada sem expressão. Ela saiu da porta, onde estivera parada desde que Gina entrara, e fechou as cortinas da janela rapidamente.
Maldita fosse, agora perdera a fome. Ou talvez tivesse acordado sem, o fato era que aquela mulher estúpida o incomodava, e muito mais do que a luz.
"Saia", disse entre dentes para ela.
A criada pediu licença e se retirou.
Mas gostaria de partir o pescoço dela. Mais tarde ela pagaria, porque agora estava sozinho com Gina. Seu pai, como de costume, não tomaria café na mesa, o que era quase perfeito: teria o tempo que fosse preciso para analisar aquela Weasley.
Via-a em Hogwarts, dentro do uniforme desregrado das garotas. Tinha alguma coisa de frágil; os traços finos, os ossos fracos. As garotas frágeis... deixavam-no totalmente maluco. Não as devassas, as chamativas, e sim as frágeis. Eram somente elas que exalavam a essência feminina. O êxtase de as possuir era maior do que com qualquer outra.
Gina começou a se constranger com o modo com que ele a olhava, e Draco riu disso. Constranger as pessoas o deixava calmo.
Depois de um tempo, ele disse:
"Sabe quem é aquela mulher?"
"Não. Suponho que seja alguém que tenha vivido aqui, não me parece uma pintura recente. Lascas saindo."
"A casa não é recente. A garota é Lady Slytherin."
"Sim, a garota", repetiu Gina, a voz baixa devido à surpresa de ouvir Draco dizer "garota" – "Quantos...quantos anos ela tinha?"
"Talvez o mesmo que você. Se retirasse todos aqueles véus e panos pretos, perceberia que não passa de uma criança."
Gina franziu as finas sobrancelhas ruivas para ele em desagrado. Criança?
"Slytherin?", ela murmurou, apenas agora refletindo. "Está me dizendo que esta casa foi de Salazar Slytherin?"
"Não. A casa dele está debaixo desta."
"Vocês a demoliram e fizeram essa?"
Gina Weasley era lerda.
"Meu pai ainda não viu você?", Draco mudou bruscamente de assunto.
"Eu ainda não vi ninguém."
Weasley tinha a Marca do Lorde das Trevas, isso era bom; ela serviria como uma deliciosa armadilha naquela casa, isso também era bom. Ela era ingênua, mas esperta, isso não era bom. E, sobretudo, ninguém a tinha notado ainda. Talvez devesse a deixar mais evidente. Certa vez ouvira que todos os seres soltam no ar um aroma envolvente quando estão com medo, um odor perceptível de perigo. Lúcio amava o perigo. O caso era que ela ainda assim era ousada demais, e se não a controlasse, logo estaria fazendo perguntas e sabendo o que não podia. Tudo o que precisava era passar confiança. Não seria difícil, mas também não seria fácil.
"Quer ver gente? Vamos à cidade."
"Hum...", ela afastou a xícara de leite dos lábios. "Aliás, onde é que estamos?"
"Wick, extremo norte da Escócia."
Ela pareceu pensar no assunto.
"Certo", disse.
Ele sabia porque ela havia aceitado, e era incrível como sua mente funcionava do exato modo como ele desejava. Ela se levantou e saiu, atravessando o hall e desaparecendo nas escadas.
"Senhor?", disse uma voz fina atrás dele. Draco virou-se. A maldita criada. "Sua mãe acordou."
"Por acaso isto é novidade?"
"Não, senhor, mas ela está chamando."
"Quem?"
Ela não respondeu.
"Quem?", Draco repetiu.
"O rapaz."
Draco se levantou. Foi até a criada. Examinou seu rosto. Tinha uma brilhante pele rosada, embora os ossos largos se mostrassem aparentes sob ela.
"Ah, sim. Diga a Narcisa que ele vai ficar fora de casa a manhã toda, porque eu vou até a cidade. Diga que temos visita também."
"Sim, senhor."
Gina puxou as vestes de Harry para perto do corpo. Havia uma satisfação intensa e profunda em fazer aquilo. Quando ela aspirava aquele cheiro, era como se água fresca viesse tranqüilizar sua alma torturada, em chamas.
Primeiro a afirmação de Malfoy no coche: "Você não é a Pansy", e aquele brilho nocivo pulsando dentro dos olhos dele. Depois a troca de quarto, colocando-a debaixo da vigília do quadro daquela garota, e então o convite para irem até a cidade. Ela tinha uma constante sensação de estar caminhando para uma armadilha, a incômoda certeza de que ele estava sempre um passo à frente.
Malfoy sabia o que ela pensava. Seguia seu raciocínio. Para ele, ela era uma experiência.
Ela começava a achar que o encontro com Tom na noite passada fora um artifício dele também. E, ligeiramente alarmada, imaginou que tipo de pactos aquela família tinha com Você-Sabe-Quem. De qualquer modo, moravam na antiga casa de Salazar Slytherin. Não que ele tivesse sido um homem de caráter duvidoso, mas não admitia sangues-ruins em Hogwarts. O que é que Você-Sabe-Quem mais abominava? Sangues-ruins. De uma forma ou de outra, estar naquela Mansão não era algo que se fizesse em estado de sanidade.
E, por mais contraditório que fosse, o que Gina tinha mais medo naquele lugar era dela mesma. Do que poderia deixar que acontecesse se não continuasse concentrada no objetivo de se livrar daquelas marcas.
Vestiu o casaco e saiu do quarto. Olhou para uma portinha na parede lateral.
Sabia que devia descer e ir com Malfoy até a cidade, que já demorara demais, mas invés disso ficou olhando para a porta.
Enquanto os corredores eram iluminados por velas, a porta nem iluminada era. Ficava perdida dentro das sombras que se acumulavam no canto da parede.
Isso aguçou ainda mais a incessante curiosidade de Gina.
Colocou a mão na maçaneta, girou-a. Havia uma escada em caracol, íngreme e escura. Ela subiu, hesitou, depois continuou subindo rapidamente.
Diante dela estava um cômodo mal iluminado por pequenas janelas ovais. Havia quase uma certa nobreza naquele espaço amplo com seu extenso piso cinzento. Aquele sótão devia ter quase a mesma extensão da casa, que era imensa. Com certeza era o maior cômodo.
Morcegos dependuravam-se das vigas lá no alto. Antigos lampiões de metal pendiam das vigas transversais.
Gina estreitou os olhos. Lá longe, num amontoado aveludado, roupas de uma tonalidade clara brilhavam suavemente sobre os raios de sol que atravessavam as densas camadas de poeira nas janelas. Aproximou-se, mantendo o cuidado de não fazer ruídos no piso. Era uma mistura de armário de vassoura e capela funerária, com todas aquelas flores apodrecendo pelos cantos, sem cor, sem perfume, tornando os delicados cabides, as trabalhadas estantes, objetos hediondos. A única coisa viva ali parecia ser os casacos, tão brancos, tão sedosos, a superfície cintilante à luz do dia, ainda que fosse pouca.
Não soube quanto tempo se demorou apenas contemplando aquelas peças, mas finalmente sentiu que não estava mais sozinha e olhou para trás.
Estava escuro, mas os dentes dele brilhavam como a porcelana, visíveis debaixo de um sorriso sem beleza. Não era Draco, mas era um Malfoy.
Uma ligeira mudança de expressão o perturbou quando a olhou melhor. Então ele disse: "Pansy Parkinson", embora não houvesse convicção em sua voz.
"Pansy Parkinson", ecôo Gina maquinalmente.
O olhar dele foi pousar nos casacos.
"Gosta deles?"
Gina não respondeu, se deteve na mancha escura que o homem era contra o cenário descolorido atrás dele.
Ah, Lúcio Malfoy era tão diferente do que ela imaginava. Mesmo que não o pudesse ver de um modo completo, era diferente. Exatamente esguio como Draco, mas pesado. Parado sobre o chão, parecia tão pesado como as lonas estendidas em cima dos móveis quebrados. Seus ombros pareciam feitos de chumbos, seus punhos pareciam ser capazes de reduzir osso a pó.
Ele se adiantou, os passos rufando indelicadamente o piso, agarrou a gola do casaco mais próximo, fez um gesto para que Gina se virasse de frente para o espelho e o arrumou sobre os ombros dela.
Quando Lúcio afastou apenas um pouco sua presença pesada, ela pode sentir o casaco. Ou não sentir, porque era a coisa mais leve que já experimentara, e fresca ao toque, como não estar usando nada, absolutamente nada além da própria pele do corpo.
"Veja", murmurou ele, a estudando pelo espelho "é da mesma tonalidade que a sua pele."
Ela o encarou, e compreendeu o sentido daquilo tudo. Pele. Como não entendera antes?
"Sim", Gina disse em voz baixa, retirando o casaco e o devolvendo. Aquilo era imundo.
Queria sair dali, queria simplesmente jamais ter escutado aquela conversa dentro do armário.
Mas Lúcio a fitava, e ela olhou para baixo, a principio desejava apenas não encarar aqueles olhos lascivos, mas enxergou uma coisa a mais naquele lugar. Um escorpião. Estava perto de Lúcio o suficiente para o machucar, mas não se movia; mantinha seu aguilhão erguido no ar, vermelho e brilhante. Então uma figura se fez notável na porta. Por cima do ombro de Lúcio, Gina observou Draco analisando a cena de longe, com ansiedade, embora na verdade não pudesse decifrar mais do que simples atenção em sua expressão.
"Numa outra hora", disse Lúcio. "eu poderia levar você até minha sala. Você gosta de poções? Milhares delas. Mas eu não a aconselho a provar nenhuma. São raras e perigosas, nada parecido com o que vocês fazem na sala de aula."
