Primeira Parte

Capítulo três - A raposa e a teia.

Quando Gina Weasley apareceu inesperadamente na biblioteca de sua casa, Draco pensou em duas coisas. Uma delas consistia em reconhecer, depois de saber da Marca Negra e tudo que a envolvia, que a garota havia sido bem esperta em ir procurar, ali na Mansão Malfoy, uma solução para seu problema. Ela sem dúvidas ficara sabendo, embora Draco não entendesse como, do Conclave.

O Conclave era uma espécie de reunião que os comensais costumavam fazer, e que então acontecia, geralmente, num lugar bastante reservado e obscuro. Existia um livro, algo parecido com um diário, onde se registrava tudo que era dito e tudo que acontecia num Conclave, e o mais interessante para Draco era bater os olhos na extremidade direita, no alto da página, onde ficava, por ordem, registrado hora, local e data, e conferir os lugares onde as tais reuniões ocorriam. Tinha curiosidade de saber como seria um Conclave num ossuário, por exemplo.

Enfim, a segunda coisa que ele pensou não tinha uma relação direta com a garota, mas com Lúcio Malfoy. Por mais que odiasse, por mais que detestasse imensamente o fato de ser extraordinariamente parecido com o pai, Draco sabia que, assim como Gina lhe parecera tentadoramente atraente, aos olhos imorais de Lúcio ela teria um fino perfume de verbena; e entre aqueles tons matizados de ruivo que lhe cobriam os ombros, sua pele pareceria mais clara, mais fresca à vista, e atraindo como um pedaço cetim.

Mas durante o caminho até a vila ela se mostrara pouco graciosa e muito tagarela. Vinha sentada no acento de frente para Draco, alisando os joelhos cobertos por uma fina meia-calça branca que lhe dava um ar inocente junto com o casaco de cashmere escovado cor de trigo.

"Como foi que Você-sabe-quem conseguiu voltar?", ela perguntou.

"Simples", e Draco aspirou um pouco de ar antes de prosseguir: "Imagine que alguém como Voldemort não morreria simplesmente. Deixaria artifícios espalhados por todos os lugares, porque pensaria numa possível necessidade de voltar à vida, caso fosse morto no futuro."

"Eu não perguntei se Ele tinha voltado", Gina replicou, seca "Perguntei como tinha voltado".

"Os ossos do pai", começou Draco, sem emoção , "o sangue de Harry Potter, e mais uma mãozinha de seu fiel servo."

Então, como que em desagrado pela resposta, ela ficou algum tempo considerando aquelas palavras. Quando o coche parou suavemente perto do meio fio, sacudida pelo ruído da rua assim que Draco abriu a porta e pulou para fora, ela tornou:

"Porque sua casa é como a dos trouxas?"

Draco esperou até que ela deslizasse para seu lado.

"Estamos a menos de cinco quilômetros de uma vila trouxa" disse, "O Ministério pediu que fosse assim para os poupar trabalho. Então os serviçais que andam pelos jardins e atendem as portas da Mansão se vestem como trouxas e evitamos aparatar ou fazer feitiços, não transfiguramos coisa alguma pois uma vez o encanador teve uma espécie de vertigem e saiu berrando pela vila que havia visto a Sra. Narcisa tornar os cabelos loiros em ruivos com o ato de passar-lhes a mão. Recebemos uma multa do Ministério, que levou cinco dias para se certificar que todos na vila já tivessem sido desmemoriados

Gina Weasley sorriu ligeiramente enquanto ouvia. Então uma coisa lhe chamou a atenção, algo que fez seus castanhos olhos de ágata meditarem mesmo enquanto falava:

"Sua mãe não está em casa?"

"Está dormindo."

"Imagino que seja verdade", disse após um tempo. "Não há muito o que se fazer por aqui. Isolada no meio de tanta neve, eu também dormiria o dia todo..."

Ele a olhou de lado e diminuiu o passo, deixando que ela se distanciasse. Observou quando ela parou, já bastante longe, no centro da praça, e virou para o lado tão lentamente que apenas as ondulações de seu cabelo e as pregas da saia oscilando levemente sob a bainha da capa indicavam que tinha se movido. Depois ela espiou curiosa as pessoas ao seu redor, pálidas sob o céu cinza-pérola da manhã.

Draco imaginou as sensações dela. As mesmas que ele sentira quando estivera pela primeira vez no Beco Diagonal e Narcisa se distraíra por um minuto, ou talvez nunca tivesse prestado atenção – talvez naquela época já não fosse seguro sair com ela, porque, de qualquer modo, eles se perderam. E tudo que podia fazer era esperar, odiando, mesmo naquela idade, precisar indiscutivelmente de alguém, precisar insuportavelmente de Narcisa para voltar para casa.

Agora Gina estava perdida no centro da Praça, o olhar frágil saciando Draco. Atrás dela a luz fraca do dia se derramava sobre as paredes da catedral e brilhava, quase morta, nos vitrais. Ele andou de novo para perto de Gina, perguntando-se o sentido daquilo tudo. O olhar dela deslizou pelo chão e encontrou os sapatos dele, a borda da capa preta roçando nos joelhos enquanto ele caminhava em direção a ela. Gina apenas se virou e subiu a escada da catedral.

"Esta não é uma igreja comum", ela disse num murmúrio vago, parando nos degraus e estudando o monumento. "Não existe nada de puro nela."

Ela estava certa. Por mais que tivesse sido uma Catedral por longos anos, agora abrigava um antro negro debaixo dela, tal qual uma bela ópera esconde ninhos de ratos debaixo do palco.

As pessoas que passavam por ali não notavam, os sacerdotes dentro da igreja não notavam, mas Gina notava, e ele também notava, porque tinham uma imensa afinidade com aquela energia subterrânea. Magia.

Podia sentir o chão tremendo sob seus pés, o rufar dos corações impuros no subsolo, as vozes assomando-se pelas paredes como unhas arranhando uma superfície. Era nítido assim.

Ele galgou pela escada e passou pelas enormes portas da catedral, Gina veio ao seu encalço, e ambos atravessaram a nave até o fundo iluminado do altar.

Draco se moveu suavemente para trás das cortinas aveludadas que escondiam o órgão. Encontrou uma abertura cortada nas pedras e uma escada em caracol improvisada que descia até os túneis. Lá embaixo, o cenário lembrava um ossuário.

As solas duras de seus sapatos arranharam o chão úmido, os passos menos pesados de Gina vieram logo depois. Eles andaram pela ampla galeria escura em silêncio. Algumas vezes um ruído excitado vinha de dentro das paredes, um barulho de água e o chiado dos canos. Cacos de gelo se espatifavam sob seus pés, mas se tivessem tido uma atenção maior, teriam notado que na verdade espatifavam esqueletos de ratos.

Draco se inclinou para a parede. Havia limo , sujeira e uma camada consideravelmente grossa de gelo tremendo sobre ela de modo quase imperceptível, se esfacelando aos poucos, como se uma vibração distante abalasse ligeiramente a galeria.

Então ele fechou os olhos. Viu através das pálpebras os caminhos que se formavam à frente e que pareciam não ter fim, visíveis apenas por uma fraca luminosidade dourada que causava a enganosa sensação de haver véus caindo do teto.

"Feche os olhos", ele disse a Gina. "E não abra."

Ao obedecer, o nítido reflexo do encantamento passou pela face branca da garota. Era a reação que as pessoas tinham ao ver o esgoto virando um corredor delicado, de paredes que lembravam um veludo negro, brilhando com a dourada névoa de seda que ondulava devido a suave ventilação do túnel.

Ela estendeu o braço. A mão tateando o ar, os dedos de marfim tremulando suavemente à procura das sedas imaginárias que os cercavam. Mas eram reais, Draco sabia. E no estante seguinte ela estava desaparecendo, desmaterializando-se.

Ele fechou os olhos novamente, e o que viu dessa vez não o agradou.

"Você!", resmungou uma voz feminina. Draco malmente enxergou a figura de uma garota encostada de braços cruzados na parede, o olhando descontente. "Ela não vai falar com você hoje."

Draco andou até ela. Sara. Ainda tinha a adorável mecha branca na franja preta.

"Avise que eu estou aqui."

"Você se acha bastante importante para isso", retrucou Sara, e depois com mais selvageria: "Você deveria morrer."

Draco gargalhou.

"Vamos, Sara. Não se torne uma moça complexada apenas porque neguei meu pescoço a você", ele aproximou os lábios do ouvido dela. "Tenho o sangue amargo."

Ela não se moveu. Fitou o nada em sua frente de modo raivoso, então livrou-se subitamente da sobra que Draco fazia sobre ela e seguiu adiante no corredor. Ele a acompanhou. Tentou uma ou duas vezes perguntar onde fora parar Gina, mas Sara o odiava naquele momento, cada fibra de seu corpo o repugnava, de modo que fingia não o ter por perto.

A luz amarelada que os cercava mudou para um tom doentio de azul, e eles saíram para uma área que lembrava a Paris perdida de algum século; as ruas de paralelepípedo e casas quadradas espremidas umas nas outras, fossas brilhando com a claridade das velas acesas dentro delas, as risadas libidinosas das mulheres, o ruído do couro dos coches se torcendo em algum lugar, o esverdeado sobrenatural dos olhos das pessoas.

Sara abriu outra porta e eles entraram numa espécie de campo aberto, cuja relva era prateada como a lua. Muito longe havia o contorno de um casebre, luzes tremulavam lá dentro, vultos humanos vagavam pela orla de uma floresta lá em baixo

Atrás da porta seguinte tinha um enorme teatro. Da última vez que Draco esteve ali, estavam apresentando uma peça meio maluca sobre a morte, e um homem alto e moreno, que significava a morte, conversava com uma moça muito jovem sobre várias coisas. Enquanto a moça falava, um grupo de criaturas pálidas e vestidas de preto deslizava silenciosamente em sua direção, então ela era morta subitamente por eles, como urubus devorando carniça. Draco lembrava de ter desconfiado que tudo aquilo não era uma encenação. Mas desta vez o palco estava escuro, e na platéia só havia uma pessoa, o homem alto e moreno, que olhava atentamente para eles.

Finalmente, a última coisa que Sara abriu não foi uma porta, e sim uma cortina. Afastou-a delicadamente e Draco entrou.

Sybil estava sentada em sua gigantesca cama, lembrando uma medusa esculpida no mais puro gesso, perscrutando, com olhos luminosos, algo em sua frente.

"Dê-me ela, Draco", ela disse com fascínio, sem se dar ao trabalho de olhá-lo.

Draco andou pelo quarto até poder ter a mesma visão de Sibyl.

Viu Gina Weasley imóvel ao pé da cama, os olhos paralisados e inexpressivos. Parecia uma graciosa boneca de porcelana com meias brancas e luvas de algodão. Sibyl Vane repetiu com mais ambição:

"Dê-me ela, Draco."

E Draco a fitou. Estava como sempre fora, e nunca mudaria – sua natureza não permitiria. Os cabelos acetinados e compridos, serpenteando entre as dobras do lençol como cobras negras, os olhos amarelos se projetando para frente, para Gina, a pele tão fina que se podia ver as veias no rosto e nos braços, e os caninos pontiagudos apareciam discretamente atrás dos lábios avermelhados.

Draco sorriu.

"O que você tem pra mim, Sybil?"

Ela afastou os olhos de Gina.

"Não veio aqui para saber o que eu tenho pra você", disse, severa. "Está querendo mais, querendo algo que não pode ter, senti isso desde que desceu do coche e começou a andar pela minha Praça", então voltou a pousar os olhos em Gina. "Tire as roupas dela."

"Não é algo que eu jamais tenha pensando em fazer", ponderou Draco sem emoção.

"Debaixo dessas roupas, ela lhe esconde um segredo."

Draco fingiu pensar no assunto.

"Escute, sabe o que eu quero muito agora? Veneno."

Sybil tinha veneno. Ela tinha de tudo dentro de seu quarto, coisas muito piores que veneno. Enfeitiçava as vítimas que arrastava para o quarto com artifícios mundanos; drogas, todos os tipos, ópio, álcool, até mesmo absinto, e ele já saíra de lá com uma garrafa dessas na mão. Sempre saía com algo, Sybil simplesmente o adorava, então não o negaria veneno.

Ela se levantou e foi até a janela. A paisagem lá fora não era uma rua, um campo, e não era a mesma paisagem para todos. Ela mudava, de acordo com quem olhasse. Draco nunca havia olhado, mas tinha imensa curiosidade em saber o que Sybil via, porque seus olhos iluminados apagavam-se e não refletiam nada, exatamente como agora.

"Veneno", ela repetiu para si mesma. "Tinha me esquecido do quanto é fácil tirar uma vida, apesar de fazer isso todas os dias. Veneno, a mais ingênua das armas, eu tenho veneno, a pessoa morreria em um segundo ou em um ano. O que é um ano para vocês, mortais, é um segundo para mim. A catedral vai estremecer, os santos vão balançar e cair, os ratos comeram a Santa Eucaristia e se aninharam nas vigas, roeram a toalha podre do altar, e eu continuarei em pé. Intocada. Agarrarei subitamente a mão de tinta da Virgem e vou vê-la quebrar-se em minha palma, esfarelar-se por meus dedos. Sou a única coisa Imortal que jaz consciente sob esse teto, Deus não vive nessa igreja. As estátuas transmitem a imagem do nada. Entretanto você quer veneno para tirar a vida de mais alguém."

Draco ficou calado, alternando o olhar nela e em Gina.

"Eu não gosto da morte", Sybil disse, mas estava sorrindo tranqüilamente. "Só gosto quando a tenho escorrendo por meus lábios. A dor e o prazer são tão grandes que penso em dar a vida de novo, mas estaria condenando outra frágil criatura a ser como eu. A vida é frágil."

Então ele a viu olhando mais uma vez para Gina, e novamente os olhos dela se encheram de luz.

"Dê ela para mim", sussurrou. "Eu a transformarei. Será como a ingenuidade em forma de anjo, que matará durante a noite com sua inteligência assassina, e terá o privilégio de ser rara."

"Sybil", fez Draco, como que a acordando impacientemente de um sonho, "eu quero veneno."

Sybil pareceu meditar.

"Eu poderia unir a sua mente à dela", disse, simplesmente, e foi até o fundo do quarto.

Apanhou uma pequena caixinha de metal e tirou um anel de dentro. Tinha uma pedra redonda e branca como o leite. Ela o pôs na palma da mão de Draco.

"Não existe contra-feitiço", explicou com indiferença. "É bom se certificar que dará á pessoa certa, não me venha com lengalengas se algo sair errado. Vai estar feito e pronto."

"Foi gentil da sua parte", resmungou Draco. "Poderia acordar a garota?"

"Onde a encontrou?"

"Veio até mim."

"Sim, todas as mulheres vão até você", Sybil zombou. "O que está fazendo com ela?"

"O que você faria com ela?"

"Já disse, a transformaria numa igual."

"Sara teria um ataque", retrucou Draco.

Os ombros de Sybil tremeram, ela riu. Esgueirou-se pela borda da cama até a outra extremidade, onde Draco estava sentado, e inclinou seu leve corpo sobre o dele.

Draco sentiu a respiração dela ondulando perto de sua garganta.

"Sara está me cansando", Sybil disse.

"Você se cansa rápido demais das coisas", ele respondeu, estudando o anel. "Somos muito parecidos."

Havia um minúsculo fecho debaixo da pedra, e Draco o levantou cuidadosamente. Ali estava o veneno, dentro do anel, um pó prateado e mais fino que a areia, luminoso como tudo que Sibyl possuía; pó de diamante, era o que parecia.


Muito lentamente, Gina começou a sentir a suave rotação do mundo físico que a rodeava; os súbitos deslizes que as rodas do coche davam na neve, o rufar das patas dos cavalos no chão, as risadas de Conley. Poderia sentir, se fechasse os olhos com mais calma, seu próprio sangue bombeando pelo rosto, pelo pescoço.

Mas o que se tornava mais forte e persistente no meio de tudo isso era o cheiro de Draco. Ela estava numa espécie de transe e provavelmente fora aquele cheiro que a despertara e que dilatara suas pupilas estáticas.

Durante todo o tempo ela ficara inconsciente, sob o feitiço fascinante de dois olhos amarelos como o sol que por si só iluminavam toda a sua mente com uma luz morna. Olhos sobre-humanos que a prendiam, e ela não tinha vontade de se mover, de ir embora ou de viver. A voz que escutava era baixa, baixa demais para os ouvidos dos mortais, e ainda que não soubesse o significado das palavras, desejava que ela nunca calasse.

Então uma mão ágil havia pegado seu ombro e a instigado a se mexer, a puxado bruscamente do fundo de um lago branco até a superfície, e ela se mexeu, relutante, por muito tempo achando a escuridão cega demais, porque os olhos iluminados tinham se fechado.

Gina virou os olhos para Draco, sonolenta. Ele estava fitando, como ela já o tinha notado fazer em outras ocasiões, um ponto imaginário lá fora; os enormes olhos translúcidos filtrando o dia, os lábios fechados numa linha macia de desinteresse. Parecia meditar. Os dedos da mão ligeiramente recurvados sob o queixo, o polegar parecendo acariciá-lo levemente.

"O que aconteceu?", perguntou Gina, a voz lembrando um sopro.

Ele piscou, dizendo com a mesma tranqüilidade: "O que é que você acha que aconteceu?"

"O que aquela...mulher era? Parecia um anjo."

"Um anjo...", ecoou ele. Seus lábios ensaiaram um sorriso e seus olhos refletiram certa hostilidade. "Sybil Vane é um vampiro. O que não anula a sua teoria sobre anjos."

Gina moveu nervosamente a perna, alinhando os joelhos.

"Do que está falando?"

"Exatamente que parte você não compreendeu? A dos anjos?"

"Vampiro", Gina disse depressa, a voz ganhando um tom ácido. "Vampiro! Eu sei o que senti, o que eu vi, aquilo não era um vampiro. Vou lhe dizer como vampiros são: idiotas, burros e feios."

"Acha mesmo tudo isso de Sybil Vane?", retrucou Draco.

"Ela não é um vampiro."

"O que é que você tem debaixo das suas roupas, Weasley?"

Ele tinha se virado para Gina de repente e a observava com a mesma concentração com a qual estivera pensando minutos atrás.

Ela não respondeu. Então Draco passou para o acento da frente, ficando próximo a ela. Surpresa com o gesto, Gina se encolheu perto da janela. Draco pôs rapidamente a mão contra o vidro da mesma para que a garota não tivesse por onde escapar, depois segurou a gola do casaco que ela usava e a abaixou pelo seu ombro.

Gina puxou o casaco de volta, sentindo o rosto arder. O que aconteceu em seguida foi um discreto e estranho desentendimento. Malfoy tentava fazer com que o casaco saísse do corpo de Gina de todas as maneiras (embora nada fosse agressivo, na verdade os movimentos dele eram extremamente suaves), em contrapartida ela deslizava para a borda do acento, muda de pavor.

"Malfoy...", ela murmurou, mexendo-se inquieta, quando sentiu as pontas do cabelo dele lamberem sua garganta.

Então ela escorregou completamente do acento, saindo pelo espaço debaixo do braço de Draco e foi, nervosa, para o outro banco.

Sem nada legível nos olhos, apenas com fios finos de cabelo pálido escorregando afiados sobre os lábios, Draco resignou-se no acento, não tornando a olhar novamente para Gina durante o caminho até a Mansão . Minutos depois um sorriso vazio esboçou-se em seu rosto.


Lúcio Malfoy estava em pé num canto escuro do hall, os olhos tal qual dois diamantes brilhando de modo dramático.

Gina reparou que havia inúmeras pontas de charuto misturadas com o deserto de cinzas fundidas na lareira, uma paisagem cinza e vermelha que teria se desvanecido com um toque do ferro. Mas ainda estava muito quente, e irradiava uma luz forte. Debaixo dessa morna claridade, ela notou a presença de Lúcio; sempre calma e pesada. Sentiu que Draco parara em suas costas, projetando uma suave sombra sobre ela, uma sombra que se estendia até os pés de Lúcio.

Foi para Draco que ele se dirigiu:"Mais uma de nossas criadas desapareceu."

"Cuide disso sozinho", retrucou Draco, retirando o casaco por um dos braços.

"O problema, Draco, é que ela está viva."

Gina percebeu que a voz do homem era fria e recheada por um tom de alerta.

"Então não é um problema", disse Draco, sem emoção, erguendo uma das delicadas sobrancelhas.

"Não, não é um problema...", murmurou Lúcio para si mesmo. Então voltou-se para Gina. "Ah, Parkinson, poderia nos dar licença por um momento? Veja bem, tenho algo para lhe entregar, não se perca pela casa."

Gina o olhou de esguelha e saiu. Não se perder pela casa. Mas era isso mesmo que ela pretendia fazer. Olhou para os dois lados do corredor. Num deles havia a pequena porta para o sótão, e do outro uma sólida parede de ferro. Ela andou até a parede e tocou sua fria superfície. A voz de Draco Malfoy ressonava dentro da sala, mais macia que a de Lúcio, morna e metálica, arranhando as frágeis chamas das velas pelo corredor como se fosse ar e tivesse aroma; as entonações roucas das palavras, o mesmo modo com que Tom falava. Porque eram tão parecidos? Podia-se achar que eram irmãos, que tinham um os gestos do outro.

Ela deslizou a mão para a extremidade da parede e a empurrou. O ferro que parecia pesado girou com facilidade, e Gina se viu num emaranhado suave de cortinas aveludadas, onde cordas fiadas em ouro pendiam dos cantos e uma luz fina brilhava no meio do teto, emitindo a fraca luminosidade de um teatro. Puxou uma das cordas e as cortinas subiram, criando vincos fofos, e atrás delas o cintilar sutil de inúmeras superfícies de cristais acendeu-se. E o reflexo dela se desenhava por todos os lugares que se voltava; nas curvas sinuosas dos frascos pequenos, nos gargalos dos frascos longos, nas pontas dos vidros feitos em geometria.

O chão da sala ficou coberto de luzes coloridas que os frascos irradiavam.

Então Gina escutou um gotejar. Ping...ping...em intervalos demorados, como água pingando de uma torneira mal fechada. E observou que uma das cortinas não havia se erguido quando puxara as outras. Era de trás dela que o barulho vinha, e foi para lá que ela andou, tênue, olhando os frascos e deixando os raios luminosos deles penetrarem no fundo de seus olhos.

Quando afastou a cortina, demorou certo tempo para compreender o que via. Antes mesmo que pudesse fazer isso, um par de olhos semicerrados a perscrutou, semimortos, semilúcidos.

Gina recuou instintivamente.

"Não...espere!", uma voz se esganiçou.

Houve um ruído histérico de algo caindo no chão e se espatifando numa agonia desesperada.

A pessoa estava numa espécie de mesa metálica, deitada e com a cabeça virada para a porta, os cabelos em ondas escorriam molhados por sua testa espantosamente pálida e o vestido tinha as tonalidades cinzentas que as vestes dos criados da Mansão Malfoy costumavam ter, porque era a moça que lhe servira no café-da-manhã.

Gina aproximou-se, entrando no foco de claridade que uma vela trêmula derramava sobre a mesa. Assim que a moça a viu de perto, abriu um pouco mais os olhos. Uma água escura saía por todos os poros dela.

"Tire-me daqui", ela murmurou, rodopiando os olhos. "Oh, por favor, me livre dessas torturas!"

A moça virou a cabeça para o outro lado, mexendo o ombro esquerdo de um modo estranho, como um tique nervoso, e soluçando. Mas não estava soluçando. Nada percorria suas faces a não ser o líquido sujo que ela mesma transpirava. Sacudia o ombro e o braço para sinalizar algo, e , certa vez, quando um brilho repentino lampejou no ar, um pouco acima do corpo débil da moça, Gina viu. Vislumbrou, como quando se observa um fio de cabelo contra a luz, linhas muito finas, quase invisíveis, que se enfiavam dentro das vestes da moça.

Gina apanhou a vela e andou ao redor da saleta, derrubando fogo nos outros pavios, acendendo as fileiras de candelabros enferrujados pelas paredes. E lá estavam eles, os fios afiados, armando uma rede complicada sobre a moça, descendo até ela e a perfurando tão delicadamente que Gina, com razão, não os tinha notado antes.

"Precisa compreender", disse a moça, parecendo ainda mais irrequieta.Certamente já não ligava para a dor que os fios lhe causavam, "não seja como eles, saia desta casa, mas antes tire essas coisas de mim, elas puxam meu sangue."

"O que?", fez Gina, lerdamente.

"O sangue! Não é isso que importa para vocês?", retrucou a moça, a voz áspera. Os olhos dela arregalaram-se num acesso descontrolado de raiva. "Há muito sangue naquela outra sala, não se iluda com os frascos, é sangue o que neles contém! Se é inteligente, se é imunda, se é magnífica e se é rica, nada importa, você é o que seu sangue for, por isso vai acabar aqui, como eu! O meu sangue...", ela afastou o olhar, por um momento pareceu cheia de dignidade. "meu sangue é nobre. Vê? Por isso estou aqui. Depois eles o porão num frasco de vidro colorido e belo, e escreverão meu nome no fundo, então o colocarão entre os outros, e eu viverei naquela sala e serei imortal."

"Imortal...", repetiu Gina em estado de choque.

"Seu sangue é puro?", perguntou a moça inclinando a cabeça, enquanto Gina se afastava, perturbada. "Volte, criança! Não me deixe morrer!"

"O que é isso?", disse Gina de repente, lançando um olhar de terror aos fios que pendiam do alto.

A moça a olhou. Apesar dos traços severos em seu rosto magro, estava nitidamente intrigada. Depois ficou morbidamente séria, e finalmente falou num tom suave de alívio imaculado:

"Então você não sabe... não é um deles. Quem é você, meu bem?"

Gina não pode responder. Sentia agora algo parecido com a tristeza banhada em arrependimento, uma aflição que roubava sua vontade de viver, e não compreendeu naquele momento o que se passava. Era uma moça desconhecida, e não tinha nada de carismático, mas estava tendo simplesmente vontade de gritar de dor. A sensação de que poderia não ser a moça, poderia...Não suportava ver aquilo, não conseguia!

"Mas eu soube que não era como eles logo que chegou", continuou a moça em devaneios. "Nos seus olhos existem coisas que faltam nos deles: a crueldade honesta de uma raposa. Como veio parar aqui? Minha criança, sabe que não poderia entrar sozinha, do mesmo modo que não poderá sair. Quem está lhe ajudando?"

Gina balançou a cabeça. "O que eles fazem aqui?"

"E isso importa?", replicou a outra, os fios cintilando dentro da pele de seu pescoço.

"Importa pra você se eu for embora?"

A moça começou a falar entre gemidos e soluços:

"Fique no meu lugar e descubra sozinha! Não... não, não é simples desse jeito...São pactos, você não compreenderia. Não fique na casa para entender, jamais conseguiria, enlouqueceria tentando. Mas escute, o que eles fazem aqui é capturar a sua vida e toda a sua essência. Você não é nada além de um delicado corpo que se move se não tiver lembranças e medos, e se não tiver desejos e sangue. E quando eles encontram alguém em que as gerações são continuamente fluídas, sempre verdadeiramente puras, as tomam, porque é assim que fazem. É a religião deles."

"Vo...você-sabe-quem, o que sabe sobre ele?"

A moça parou. Um brilho de espanto ficou contido no canto de seus olhos.

"Estará aqui e prefiro já estar morta quando chegar."

"É para ele que tudo isso acontece, não é? É por ele?"

A outra se agitou. Os fios lhe cortavam a carne enquanto se mexia alucinadamente, querendo arrancar por si própria a parafernália translúcida que a prendia. Gina foi até ela, pôs uma mão em sua testa; estava fria, mas suava, e era aquele suor estranho e encardido. A moça começou a chorar e olhar ao redor da sala. Agora as velas começavam a se apagar sozinhas como se um vento repentino invadisse a saleta, mas não havia corrente de ar alguma, e logo tudo mergulhou na escuridão. Gina foi puxada para trás por uma mão poderosa, e o corpo da moça esticou-se na mesa, brilhando com uma transparência sobrenatural que lhe permitia ver através da pele, ver as veias ramificadas formando linhas escuras.

Gina tapou o rosto com as mãos e se virou na direção da porta. Um braço a impediu de escapar. Abriu os olhos, erguendo-os, analisando aquele tecido escuro que cobria o braço pesado de quem a segurava, as mãos enormes que se fechavam ao redor de seu ombro. Na escuridão, o rosto de Lúcio Malfoy tomava uma forma sisuda, seu nariz aparentava ser pontudo e suas sobrancelhas, grossas e mais envergadas. Os olhos eram cavidades profundas e negras.

Mesmo de costas para tudo que acontecia na sala, Gina tremia. Imaginava o sangue da moça fluindo dentro dos fios, para fora de seu corpo, e os gritos que chegavam em seus ouvidos faziam seus pensamentos serem verdadeiros pesadelos.

Aos poucos os gritos cessaram, a mão de Lúcio afrouxe-se, porém a outra se moveu para as costas de Gina, a empurrando para fora, enquanto fechava as cortinas e ia para a sala de frascos.

Ela sentiu uma moderada força em sua espinha dorsal quando ele falou:

"Draco jamais quis vir até aqui. Você veio."

"Sinto muito", fez Gina automaticamente.

Lúcio caminhou pelas estantes, seu cabelo de cetim reluzia.

"Não sinta. Eu pedi que não viesse até aqui?"

"Disse para que eu não me perdesse pela casa", ela fitou os enormes olhos dele. Por um momento tentou enxergar Draco. "Bem, eu entendi o que quis dizer... "

"Mas regras existem para serem quebradas. Você achou meu relicário", disse ele. Depois molhou os lábios. "Talvez nunca tivesse estado bem escondido."

"Eu realmente..."

"É uma coleção magnífica", continuou Lúcio ao virar-se de maneira afetada para os frascos. "Os mais preciosos do século, sim, seu pai está entre eles, embora aquela garota...entenda, ela tinha de ser sacrificada. Não, com seu pai foi diferente, foram apenas umas gotas..."

E algo ressurgiu com clareza das remotas regiões das incansáveis considerações de Gina. Ela esperou até que Lúcio tivesse terminado seu falatório.

"Há algo que não entendo bem", disse ela então. Talvez Pansy tivesse usado um tom menos sério. "Para quê guardar o sangue, quando se pode ter a pessoa viva?"

"Quase todas as pessoas que me entregaram o sangue estão vivas."

Fez-se um silêncio curto.

"É claro que isso não me pertence...", emendou o homem, lançando um olhar displicente à Gina. "E é claro que ninguém se lembra que tem um frasco cheio do próprio sangue aqui, na minha casa." Lúcio pôs a língua na ponta do canino, como Draco costumava fazer em ocasiões irônicas. "Ficam letárgicos por causa do feitiço. Mas Ele planeja tudo direitinho. Imagine que o sangue lhe dá a vida...e lhe dá a morte. Se eu tenho o seu sangue, então tenho você."

Ele falava da maneira mais suave e singela que alguém poderia falar, e encarava Gina como se encarasse qualquer coisa ali. Na verdade mantinha a atenção em tudo naquela sala; os movimentos das cortinas, as sedas das cordas roçando nos frascos, o rufar das vestes dela, das vestes dele, os discretos movimentos que os lábios dela faziam, acompanhando os seus numa divertida brincadeira mental.

De repente Lúcio caminhou em sua direção. Gina pensou em se afastar, mas simplesmente não o fez. E ele parou em sua frente, erguendo um braço por cima de seu ombro e inclinando o corpo sobre o dela. Então se afastou, e ela viu que ele havia pegado um dos frascos na estante atrás de si. O objeto irradiou uma luz cor de prata quando foi aberto, Lúcio respirou o conteúdo como se este possuísse alguma fragrância agradável.

"Harry Potter...", disse num sussurro quase inaudível, "qual é a cor do seu sangue?"

"Perdão?", fez Gina.

"Não tem interesse de saber qual a cor do sangue de Harry Potter?", Lúcio replicou.

Ela estava indo responder honestamente "vermelho", mas parou. Não era vermelho o sangue que estava dentro do frasco que ele segurava, porque haveria de ser vermelho o sangue de Harry?

"De quem é este aí?", quis saber.

"Draco."

"Posso...?"

Lúcio colocou o frasco delicadamente nas mãos de Gina. Ela tocou o frágil relevo detalhado nas pequenas laterais do vidro, vislumbrando o conteúdo emitir raios quase brancos por entre seus dedos.

Se eu tenho o seu sangue, então tenho você.

Sentiu-se tentada a afastar as mãos e deixar o frasco escorregar por elas para ir se espatifar no chão, e destruir os outros que estavam nas prateleiras, mas então encontrou os olhos perspicazes de Lúcio. Ele sentiu o que ela pensava e estendeu a mão. Gina lhe devolveu o frasco.

"Dourado", disse ele ao abaixar as cortinas, ocultando sua coleção de vidas. "Dourado é a cor que o sangue de Harry Potter deve ter depois do feitiço."


Por horas Gina pensou sobre o que vira. Sentou-se numa sala vazia que encontrou, onde o fogo na lareira lançava sombras escuras ao fundo e ficou ali até que não houvesse mais aquele brilho saindo pelas beiradas das cortinas e que indicava que ainda era dia lá fora.

Se eu tenho o seu sangue, então tenho você. Era isso que Lúcio planejava, ter o sangue de Harry Potter. Por isso você-sabe-quem tinha as coisas tão sob controle, ele simplesmente controlava as pessoas através do sangue delas...não seria impossível que tivesse feito isso com ela; retirado seu sangue – e ela não lembraria, porque ninguém nunca se lembrava – o utilizado para hipnotizá-la ou algo do tipo, e ali estava a Marca Negra: realmente feita por ela.

E estava numa armadilha, porque fora para onde você-sabe-quem queria, somente agora isso fazia sentido. Se Rony soubesse, se Harry soubesse --

Gina saiu imediatamente da sala. Malfoy...maldito fosse por só poder conversar com ele naquela Mansão hedionda, e nem ao menos sabia onde se enfiava, onde era seu quarto, onde era a cozinha ou qualquer outro canto em que ele costumasse ficar. Então, ao dobrar o corredor, uma garota veio andando, amarrando os fios do colete de maneira ágil e, quando notou Gina, arrumou-se rapidamente e lhe deu um sorriso manso.

Gina percebeu que a garota estava corada nas faces.

"Sabe onde está Draco Malfoy?", perguntou.

A garota deu uma risadinha indiscreta.

"Sim, está na sala de leituras."

"Isso não ajuda muito", replicou Gina. "Qual é a porta?"

"Siga pelo corredor, é a terceira porta.'

Gina o fez. Ele estava mesmo lá, recostado numa luxuosa poltrona ao centro da sala, as compridas pernas esticadas sobre uma mesinha octogonal com detalhes em madre-pérola, o pescoço estirado para trás e os olhos fitando imóveis o teto. Tinha as mãos extremamente brancas e entrelaçadas no colo.

Ela não disse nada por alguns instantes. Fitou o modo suave como a pele em seu pescoço latejava e teve uma repentina visão; os fios invisíveis de navalha enterrado-lhes na garganta, fios de marionetes puxando uma espécie de sangue que ia se tornando fortemente prateado. Então Draco moveu-se na poltrona e pousou os olhos inexpressivos nela.

"Qual o problema?", disse, a voz rouca e igualmente calma.

Gina baixou os olhos. Sentia um cheiro doce e enjoativo, que se parecia muito com o cheiro da garota que encontrara ainda pouco, no corredor.

"Esta sala é tudo menos de leitura", retrucou, e perguntou-se o que aquilo importava agora. "Escute...", ela hesitou, "você tomou minha varinha..."

"Não se pode entrar aqui com uma varinha. É contra a lei."

"Eu achei que a lei não se aplicasse a você."

"A minha lei."

"Eu não posso fazer nada sem ela", fez Gina entre dentes.

Ele pareceu meditar, curvando as finas sobrancelhas.

"Weasley", sussurrou, "o que é que você quer?"

"Um feitiço."

"Não sabe fazer o feitiço?"

"Eu não tenho",ela sibilou, "a minha varinha!"

"E não vai ter. Se for tudo, saia e não me perturbe."

Draco tornou a inclinar o pescoço para trás.

"Mostro o que você quer ver se devolver a maldita varinha", Gina atropelou-se ao dizer, como se não quisesse que suas palavras fossem compreendidas.

Ele não mostrou reação. Então seus ombros tremeram com arrogância e ele sorriu para o teto. Sorriu com uma mistura confusa de orgulho e satisfação, mas quando Gina se aproximou, seu sorriso tornou-se uma expressão nervosa.

Ela fugiu os olhos para a janela enquanto erguia o suéter e a camisa. Não viu os olhos de Draco se aquecerem com curiosidade e logo em seguida voltarem a não transmitir nada, brilhando apenas por refletirem o acetinado da pele dela, que ele observava como se nunca tivesse visto algo tão intrigante em toda a vida. Passou os dedos pelas manchas de sangue. Gina segurou uma risada. As pontas dos dedos dele eram geladas e faziam cócegas.

"É...sangue?", ele murmurou. Sim, era vermelho vivo como sangue, e brilhava como sangue, mas não deixou marcas em seus dedos. "Como diabos...?"

"Eu não sei", respondeu Gina com aspereza, e abaixou as vestes. "Dê minha varinha."

Draco não se moveu.

"Mostre-me de novo, Weasley."

"Não acredita no que viu? Sangue brilhante e vivo, não parece uma pintura fresca? Uma pintura horrível, se quer saber."

"É para isto que quer a varinha? Para se livrar desta coisa?"

"Apenas me dê a varinha, Malfoy!"

Ele suspirou fazendo pouco caso.

"Não chegou com isto aqui, suponho."

Gina estreitou os olhos de um modo feroz. Começou: "Se eu..."

"Responda!", rosnou Draco, levantando-se bruscamente. Gina calou-se. "Me responda: onde arrumou isso?"

Ela se afastou dele.

"O que importa?"

"Importa. É apenas isso."

Não havia emoção em sua voz.

"Viu quem fez ? Viu o rosto da pessoa?", ele insistiu.

"Lógico que vi. Era Tom Riddle."

Draco acenou com a cabeça de modo casual.

Gina o observou de onde estava. Que tipo de reação esperava que ele tivesse? Draco não tinha reações, era simples. Ele não se importava com riscos, com diálogos inesperados. E não admirava a beleza, ele a ignorava, assim como fingia não ter conhecimento sobre a sorte. Ele era automático e frustrante. Não importava que reação você estivesse esperando dele, ele jamais a teria, ou por ser inatingível ou apenas para contrariar você. E era assim, fácil e amargo.

Gina murmurou, evasiva: "Minha varinha."

"Sua varinha não está mais comigo."

"O quê?", ela riu. "Você... não pode devolvê-la?"

"Fico feliz que tenha compreendido."

"Porque me deixou mostrar as... porque não disse que não iria cumprir o acordo?"

"Havia um acordo?", agora Draco sentava-se no encosto da poltrona, analisando a expressão atormentada de Gina. Girava um peso de papel entre os dedos.

"Não...", fez ela, "não diretamente..."

"Explique para mim como se faz um acordo indiretamente."

"Eu disse que mostrava o que queria ver se devolvesse minha varinha, e então eu mostrei e você não me impediu! E sabia que não me devolveria a varinha! Eu disse!"

'Sinto muito. Eu não havia entendido."

Gina estacou. O corpo esguio de Draco estava parado diante dela, e ele abaixava a cabeça e a inclinava indiferente para o lado, passando o peso de papel entre os dedos como um mágico brincando com uma moeda. Os cabelos escorregavam para seu rosto e flutuavam como fios de cetim; quanto mais deslizavam no ar, mais se pareciam com o cetim. Ela respirava o cheiro de Draco, mas estava vendo Tom Riddle.

"Você sente?", ela disse. Estava lagrimando, "Eu não sentia... e ele sabia disso, por isso me castigou. As pessoas não deviam dizer que sentem muito...quando não sentem nada."

Ele a fitou longamente, acariciando a ponta do canino com a língua.

"Oh, sim", fez, de repente. "Eu sinto muito por isso."

E começou a rir, e depois gargalhar.

"Vá para o inferno, Malfoy!"

Ela moveu a mão rapidamente, então parou. Não iria bater nele, iria? Não se sentia bem fazendo isso, nunca batera em ninguém, e não faria isso agora. Não estava com raiva dele, precisava da varinha, era o mais importante. De modo que se encostou nos livros, na estante de pinho e esperou até que ele não tivesse mais fôlego para rir.

Inesperadamente, Draco olhou para a porta. Olhou durante tanto tempo para ela que Gina sentiu-se tentada a imitá-lo e virar-se na direção da porta também. Então a maçaneta tremeu levemente e girou. Uma garota entrou, não era a mesma que Gina vira no corredor, mas se parecia muito; os mesmo cabelos anelados e loiros, os mesmos lábios finos, mas os olhos eram estreitos e raivosos.

"Ah, não diga", fez Draco, apático. "Ela acordou outra vez."

"Sim", acenou a garota.