Primeira Parte
Capítulo quatro - A casa de Salazar Slytherin
"Eu sei o caminho até o quarto, Madeleine", Draco sibilou para a garota, que vinha o seguindo de modo febril desde que deixara a sala de leitura.
"Ela voltou a falar dele", resmungou Madeleine, insistente. "Abriu os olhos e falou dele..."
A garota continuou a tagarelar, mas Draco não a ouviu; acabava de entrar no quarto e fechar a porta.
As sedas brancas atadas no dossel da cama tinham aparência encardida e haviam sido amarradas nas colunas de madeira vermelha do espelho, de modo a parecer os tentáculos moles de um polvo, e Narcisa se agarrava a uma das colunas, imóvel.
Ele foi até ela e a trouxe de volta pra cama. Narcisa não desviava os enormes olhos da parede.
Aquele quarto ele evitava, e odiava estar nele agora. Tudo ali dentro era agressivo e errado, a mobília lustrosa e cor de sangue, os adornos espalhafatosos, a tapeçaria persa, enfeitada de desenhos que, de longe, lembravam um pedaço de músculo humano estirado no chão, as cortinas de carmim, as rosas de cheiro doce, as tulipas detalhadas no teto, era tudo tão misturado e vibrante, e Narcisa era pálida e tinha os gestos de um morto-vivo.
Draco pôs uma cadeira entre as pernas e sentou-se de frente para o encosto, olhando a mãe acomodar-se debaixo dos lençóis. Esperou até que Narcisa desse intenções de começar uma conversa. Mas ela ainda demorou minutos incontáveis até dizer, com a voz baixa e receosa:
"Ele esteve aqui."
"Esteve?", fez Draco sem interesse. "Quando?"
"Ontem de noite", Narcisa observava a parede. "Eu acordei e ele estava nesta cadeira que agora você está, me observando. E conversou comigo, e esperou até que eu dormisse. Então entrou no meu pesadelo... o mesmo de sempre: eu esperava e ele vinha pelo campo, as roupas sangrentas brilhando no dia, e eu via que trazia um coração que pulsava", ela estendeu a mão e agarrou fortemente a de Draco. "O coração era o seu."
Agora ele apoiava a cabeça no braço que estava sobre o encosto da cadeira, e de certa forma relevava o aroma enjoado das rosas e suas pétalas de bordas estragadas ali perto, na cabeceira. Uma luz girava nos olhos de Narcisa, mais forte que a chama das velas no lustre, uma luz que não existia nos olhos de Lúcio e, sim, existia nos dele. Era a luz transparente do ódio. E Draco se demorava estudando os próprios olhos, exatamente como os de Narcisa. Olhando para os dela via a cólera em um ângulo mais embaçado, mas ainda sim estava visível, estava lá, talvez anuviado por anos de sono, mas existia.
"Tenho um presente para você", disse ele no mesmo sussurro, talvez mais baixo que o dela.
"Um presente...", as narinas de Narcisa dilataram-se. "O que é?"
"É uma boneca."
"Uma boneca...", ela meditou brevemente. Então fechou os olhos por um momento. "Como ela é?"
"Como você gostaria que fosse?"
Os olhos de Narcisa se abriram. Fitaram-no, cor de água.
"Como acha que seria?", perguntou. "Se você tivesse sido uma menina... seria uma linda menina e se pareceria comigo."
"Ela tem cabelos ruivos."
"É bonita?", ela hesitou, afastou o olhar, então voltou e contemplou os cabelos de Draco com desânimo. "Ela é... ruiva?"
"Deixe-me dizer como seus vestidos ficarão bonitos nela, todas as rendas e..."
"E as fitas."
"Não. Nada de fitas. Fitas são para...bem, ela não gostará de fitas. Ela é alta."
Narcisa moveu os dedos nervosamente dentro das cobertas.
"Ela não é uma boneca", disse num misto de espanto e perspicácia. "É uma garota!"
"Não, mamãe, é uma boneca."
"Traga ela aqui", fez Narcisa, séria.
Estava voltando a recobrar a lucidez, de modo que Draco retirou a rosa comprida do vaso ao lado da cama e a aproximou de Narcisa. Ela fitou a rosa com espanto, mas então se hipnotizou pela cor violácea de suas pétalas e fechou os olhos. Ele deslizou a flor pelas pálpebras dela, suavemente, até que os cílios louros dela parassem de tremer, depois se levantou. Lançou um olhar à pintura na parede, o homem de nariz reto, cuja as sobrancelhas levemente castanhas se franziam pesadamente para quem estivesse no quarto .
"Draco...", murmurou Narcisa. "Tire-me daqui, me ponha noutro quarto, longe..."
A cabeça dela pendeu para o lado. Draco olhou novamente a pintura, então saiu.
Lúcio o esperava do lado de fora, encostado à parede e de braços cruzados. Os dois se olharam por um estante.
"Como está a Bela Adormecida? Deixe-me adivinhar...dormindo?"
Lúcio não sorriu, ao invés disso fez uma reverência na direção da biblioteca. Estava trajando uma comprida capa de lapelas altas, feita de um material que lembrava o petróleo. Uma roupa ridícula, pensou Draco ao entrar na biblioteca, como ele próprio era.
Lúcio fechou vagarosamente a porta atrás de si, dizendo:
"Não vou enfeitar a ocasião. Voldemort pediu para que você fosse até ele."
A biblioteca possuía paredes forradas por um veludo cor de carmim escuro o bastante para lembrar a tonalidade do sangue quando seca, janelas estreitas com triângulos no topo e que se assemelhavam a vitrais de igrejas e, como uma espécie de pequeno auditório, um palco baixo atrás das estantes enormes de livros, onde ficavam, recuados, uma mesa de madeira escovada e uma poltrona com estofado no mesmo tom do papel-de-parede. Draco se encostava nessa mesa agora, os braços cruzados e os olhos fixos em Lúcio.
"Não pode esperar três dias?", perguntou o rapaz.
"Draco", o homem bufou, "ele não espera!"
Lúcio começou a caminhar na frente do palco, a luz brincando em seu rosto, ora iluminando apenas um lado dele, ora provocando sombras profundas nas dobras da capa que usava. Parou perto da janela. O céu, que se tornava fortemente anil, cintilava em nuvens negras atrás do perfil comprido do homem, acentuando as matizes sombrias de seus olhos, e no fundo os ramos das árvores cortavam o contorno redondo da lua em traços finos como veias humanas.
"Bem", Draco continuou, desviando os olhos da visão do pai, "o que pode acontecer se eu não aceitar? Ele ter um chilique?"
"Não repita isso", disse Lúcio friamente, olhando os lados. "O assun..."
"Ao inferno!", Draco começou a gritar. "O que ele tem para me dizer eu não estou interessado em ouvir. Ninguém chega a lugar nenhum com a lerdeza que vocês se movem. Um conclave. Mais um conclave! Já aconteceram sete desde Agosto! Como é que funciona, vocês dizem uma palavra por seção?
"Se formos rápido demais, falharemos."
"A solução é esta: se matem. Comecem uma seita e se suicidem num feriado qualquer."
"Suicidar? Coisa de covardes."
"Serviria para vocês."
"E quanto a Parkinson?"
Draco virou-se para o pai. Captou nele qualquer sinal de relutante curiosidade. Esperou que continuasse:
"O que você tem com ela? Estão..."
"Não tenho nada", fez Draco, seco.
Lúcio anuiu.
"Chegou aqui olhando para as louças como se nunca tivesse visto porcelana na vida. Encantador esse ar de inexperiência dela. Não me lembrava disso...", esboçou-se um tom de simpatia na voz do homem, mas havia alguma coisa cínica nos olhos dele. "Narcisa tinha beleza, mas não tinha graça. Tudo para ela era simples demais e perfeito demais, não gostava de perguntas, odiava mais ainda respostas: o que acontecesse estava bom. Eu trancava minhas gavetas. Ela jamais as forçou para saber o que eu escondia. Era o mesmo que estar casado com uma samambaia loura. Loura! Sobretudo loura!"
"Porque isso de repente?", contestou Draco. "Estava falando de Pansy."
"Comparações. Estou fazendo as comparações para você não cometer o mesmo erro que eu. Pansy é esperta...ao mesmo tempo parece inofensiva. Soube que a descobri na Sala dos Cristais?"
"Não me diga", respondeu o outro sem entusiasmo.
"E no outro dia chegou até o sótão. Deve ficar se encostando às paredes quando não tem o que fazer, ou está procurando algo que não sabemos o que é. Este é o problema que não é problema: sabe-se lá o que ela realmente é."
Draco escutava.
"E tem aquela massa de cabelos vermelhos...", continuou Lúcio.
"Gosto de ruivas..."
"Ao menos não é loura."
"... são fascinantes."
Lúcio o estava observando.
"Então o problema dela é parecer não ter problema?", Draco arrematou, de repente.
"Digamos que seja apenas curiosa. A curiosidade é uma fraqueza que pode pender para o bem ou para o mau. Um coelho descobre uma toca com sua curiosidade...um outro coelho cai na mira de uma espingarda ao fuçar uma isca...por curiosidade."
"Sendo assim, ela não será uma boa namorada", concluiu Draco, apático. "Nessas curiosidades vai terminar me botando coisas na testa."
"E o que interessa isso?", espantou-se Lúcio. "Ninguém é puro nos dias de hoje. Se quer encontrar santas vá até a igreja. No que estávamos falando? Seu entendimento com o Lorde."
"Nunca nos desentendemos. Não vou, é minha palavra final."
"Vá e discuta isso com Ele. Se não quiser fazer o que ele pedir, não faça, mas fale disso com Ele. Do contrário vou achar que está com medo."
Lúcio afastou-se para a porta.
"É isso que sua mãe tinha, é isso que você tem:", foi dizendo ao sair, "o meu casaco é ridículo? Porque é que você não disse?"
Gina chegou até a porta da cozinha e ficou espreitando, de uma cavidade na parede, o compartimento nebuloso da casa. Estranhou. Não pensava que existissem na Mansão Malfoy mais que meia dúzia de pessoas, incluindo os próprios Malfoy, mas ali naquele gigantesco quadrado quente contavam-se mais de dez. O vapor atrapalhava as formas das mulheres, o cheiro dos temperos era tão forte que confundia os sentidos, pratos estranhos descansavam na mesa de pedra e algumas garotas se curvavam sobre eles, os enfeitando, os experimentando, falando umas com as outras e rindo com vulgaridade. Era o único ruído vivo. Entre as panelas e as facas alguns instrumentos conhecidos da cozinha de Hogwarts pendiam dos pregos no teto baixo, mas em sua grande maioria os objetos eram comuns como os dos trouxas. Uma mão bateu em um deles, fazendo a fileira de alumínio escovado tilintar como milhares de sinos. Conley surgiu na nuvem de fumaça cheirosa: roubava um doce debaixo das vistas de uma garota, depois, em forma de gesto, pedia segredo.
Gina o observou se aproximar, e quando já estava suficientemente perto, sussurrou para ele um tímido oi.
"Srta. Parkinson", ele constatou. "Estão nos preparativos para o Natal. Posso lhe arranjar qualquer coisa, já provou carne de raposa? Sabe, desconfio que não seja de raposa: onde diabos arrumam raposas por aqui?"
"Não sinto fome", subitamente ela resolveu perguntar: "Quem são as garotas, Conley? Conhece alguma delas?"
"Todas elas."
"Parecem até que são irmãs. Quantas são?"
"Não: só Elizabeth, Madeleine e Core. As outras só fingem ser iguais. Sete."
"A do meio, encontrei com ela no corredor a algumas horas atrás."
"É Core."
Gina a fitou longamente. A garota sentiu-se observada. Ergueu os olhos agitados na sua direção.
"Pode pedir para ela levar mais lenha para o quarto?"
Conley anuiu, deu um largo sorriso. Às vezes parecia que ele só fazia sorrir.
Gina subiu as escadas e esperou no quarto, sentada na borda da janela. Meia hora depois escutou um ruído no corredor, a porta se abriu com um toque e um pedido de licença.
A garota entrou no quarto e, apesar de carregar grandes toras de lenha, tinha movimentos imperceptíveis. Abaixou-se em frente á lareira e acomodou pacientemente a madeira dentro do vão, perguntando em seguida se queria que a acendesse. Gina assentiu.
Ficou espantada com o modo pouco pacífico com o qual a garota a olhou, ainda de joelhos no chão. Então, inesperadamente, a menina sorriu. E ficou sorrindo até rir.
"Você é diferente", disse, batendo as mãos na roupa ao se erguer. "Digo, é linda. Muito linda. É diferente."
Gina franziu as sobrancelhas sem se dar conta.
"Diferente do quê?"
"Diferente do quê, não: diferente de quem. Da outra. A que você finge ser."
Gina assustou-se. Correu para a garota num surto de horror, no meio do caminho decidiu verificar se passava gente pelo corredor. Não passava. Trancou a porta. As duas ficaram se olhando; Core com os espertos olhos de lobo e Gina com o branco rosto de porcelana.
'De onde...?", começou Gina, confusa.
Core passou os dedos pela bancada da lareira, examinando a poeira demoradamente: não estava preocupada com o transtorno que pudesse ter causado.
"Mas tem coisas que você não tem, ela tinha", disse, a voz untuosa. "Prefiro você: não faz questão das uvas antes de dormir..."
"Quem mais sabe disso?", cortou Gina.
"Eu, Conley", enumerou a outra, "e ele."
"Ele? Ele quem?", Gina já estava exasperada.
Core maneou a cabeça. "Draco Malfoy. Tem problema não chamá-lo de Senhor ou Sir?"
Gina não podia escutar. Estava pensando. Se a garota ela sabia? Lembrava-se de Pansy, seria isso? Então outras pessoas podiam se lembrar também. Não, mas ninguém mais! Como Conley sabia? Por isso ria tanto para ela. Estava achando engraçado. Pois não tinha graça. Fora Malfoy quem contara para a garota, estavam juntos naquele dia, podiam ter estado juntos noutros dias, podia ter levado a garota pra cama e contado tudo, era bastante estúpido para tal coisa.
"Estúpido", sibilou ela.
"Perdão?"
"Saia...", murmurou Gina.
"Não vou contar", defendeu-se Core. "Você não..."
"Saia!," o grito que Gina dera surpreendeu a si mesma. Falou, falsamente suave: "Saia... por favor, saia."
Assim que a garota se foi, ela se deitou no divã, a princípio trêmula de medo – o que aconteceria se sua mentira chegasse nos ouvidos de Lúcio?- mas depois sentindo-se suja por ter sido traída, louca, talvez humilhada. Humilhada era demais. Só traída. Bem, sentia-se usada, era isso. Qual é a surpresa? Ela se perguntava, chorando. Quando entrou nesta casa e olhou nos olhos dele, soube que teria um preço. E depois, você nem confiava nele.
Confiava nele. Tinha alguma coisa no modo morno como Draco falava suas atrocidades, na maneira triste como o azul translúcido de seus olhos pulsava: passava confiança.
Limpou o rosto e foi até o corredor. Core não tinha ido embora: arrumava um quadro na parede.
"Core", chamou.
A garota voltou, insegura, e desculpou-se:
"Sinto muito."
"Me diga", tornou Gina ao fechar a porta, "como descobriu?"
"Foi Draco Malfoy, mas eu insisti."
"Como pode insistir no que não sabia ainda?"
"Não, eu perguntei se ele não se sentia atraído por Pansy Parkinson, falei que vocês se viam todo dia na escola e decidi que ele gostava de você, por isso a trouxe para cá. Ele estava meio bêbado, tinha tomado absinto, dizia que via fadinhas verdes nos meus olhos, então contou: 'Ela não é Pansy Parkinson, é uma garota da Grifinória sem importância. Me dê um beijo.'"
"Então você não insistiu. Ele contou porque quis."
"Eu estava por cima dele..."
"Entendo", fez Gina depressa. "O que mais?"
A garota a fitou.
"Quer saber os detalhes?"
"O que ele disse?", insistiu Gina, mordendo o lábio.
"Ah...um monte de besteiras."
"Contou o que estou fazendo aqui?"
"Não contou, não. O que você está fazendo aqui?"
"Escute, gostaria de me ajudar?"
Perguntou aquilo porque a garota a olhava com grande admiração.
Core, apreensiva: "Então vocês não tem nada?"
"Eu? Ter algo com Malfoy?"
"O modo como se olham..."
"Como é que nos olhamos?"
"Você é tão bonita..."
"Igual a você", Gina estudou os loiros cabelos da garota, mais escuros que os de Draco, mas exatamente frágeis como os dele. "Não temos nada. Vai me ajudar?"
Pouco tempo depois estava com a planta da Mansão Malfoy esticada no chão, sobre o tapete. Core lhe trouxera também a chave da sala de mapas, segundo ela a única a qual tinha acesso, pois limpava as prateleiras, e um mapa feito a mão das passagens secretas da casa.
"Tem também o da segunda casa", anunciou ela, enquanto Gina copiava avidamente a planta.
"Segunda casa?"
"A do professor."
"Que professor?"
"Alguma coisa Slytherin. Ah, não sou como vocês, não sei dessas coisas, ouvi que era um professor em Oxford."
"Um fundador em Hogwarts. Está aí com você, a planta da casa dele? Que coisa, achei que tinham a derrubado e posto essa no lugar."
"A Mansão é ligada á casa dele por uma escada central. Se acha esta casa grande, a de baixo é o dobro. Só fui lá uma vez, é a coisa mais maravilhosa que meus olhos já viram. Minha mãe e minhas tias cuidam de deixá-la como se o falecido ainda morasse lá. Na verdade, ele continua morando lá.'
"Como assim?", Gina rabiscava um banheiro. Ergueu os olhos para a garota.
"Elas trazem cabelo de lá: acham preso no ralo da banheira. Os lençóis amanhecem meio amassados, as cortinas abertas, os tapetes tortos, frutas comidas pela cozinha. Não sou maluca de voltar lá."
"Ah...", fez Gina, rindo. "Pode ser brincadeira de Malfoy. Atormentar as mulheres."
"Ele tem outro jeito de nos atormentar. Só que não desço mais."
Gina ficou olhando a garota.
"Me diga, Core, como ele é?"
"O falecido?"
"Malfoy."
"Do jeito que você o vê."
Passos estalaram no corredor. As duas sabiam que eram os passos de Lúcio. Ficaram caladas por um tempo. Gina baixou a cabeça, guardou sua cópia e empurrou a planta original na direção de Core.
"Eu não o vejo", e desconversou: "Não sabe onde guardam as varinhas?"
"Sei, na casa do falecido."
"Pode trazer a planta da casa de Salazar, por favor?"
A garota hesitou.
"E se me pegam?"
"Mas não é você quem limpa a sala de mapas?"
"A planta da casa de Slytherin não fica na sala de mapas. Fica no quarto de Draco Malfoy."
Gina, instantaneamente: "Então esqueça."
"Ele não está lá", avisou Core. "Se quiser vou agora."
"Não quero."
A garota calou-se.
"Mesmo assim obrigada", disse Gina, erguendo-se do chão e enrolando suas cópias.
Ocorreu-lhe a idéia de que Core não fosse confiável. Aos infernos, já estava feito.
Agradeceu mais uma vez e, logo que ficou sozinha, tornou a abrir os mapas numa ansiedade febril e os estudou durante as horas que se seguiram. Alguém veio até sua porta falar sobre o jantar, ela andava pelo quarto, raciocinando, e respondeu que não sentia fome. Então a voz de Malfoy entrou na conversa, do outro lado da porta:
"Que horas são?"
"Seis e meia, Sir."
"Ela almoçou?"
"Não, Sir."
"E não quer comer?"
"Não, Sir."
"Vai ver descobriu que não há raposas por aqui...", e se afastou, perguntando sobre Conley.
Passava das três da manhã quando acordou, tonta de fome, e reparou que nevava. Teve vontade de tomar banho. Brincou com as pregas da saia, fechou os olhos de novo, os abriu e divisou os mapas no divã. Os fitou durante vários minutos. Levantou-se, foi até o espelho e olhou o cabelo como quem se avalia para sair, lembrou-se de sua mancha de sangue: não quis nem ver.
Os corredores estavam fundos; o simples clique da porta se fechando fez um eco horrível. Tinha praticamente toda a planta da Mansão Malfoy na cabeça, sabia onde ficava a escada, era no lugar de um antigo elevador. Não demorou para achar, apenas ouvia o silêncio da Mansão, gotas de água pingando em algum lugar.
Era um cubículo pequeno, onde uma escada em caracol descia como que para o inferno. Apanhou uma das velas no corredor e desceu. Fios de água brotavam da rocha nas paredes, escorrendo entre as pedras. Gina chegou ao fim dos degraus: estava noutro cubículo, só que este era bem mais baixo e estreito. Na frente havia uma porta parafusada de ferro, que ela empurrou com esforço e deu alguns passos para dentro.
Viu dois pilares logo ao lado da porta, formando uma espécie de portal, colunas grossas do mais puro ônix, se fundindo com o chão como a superfície ampla e negra de um lago. Ao caminhar pra o centro daquele primeiro salão, deslumbrada, Gina lançou um olhar ao teto alto e curvo em forma de cúpula, às paredes escuras onde pequenos pontos cintilavam ao longe, piscando à luz das velas como astros no cosmos. Ela estreitou os olhos ao se aproximar, depois os arregalou e deixou a boca se abrir suavemente...Diamantes. Em desenhos talhados na pedra, ramos de flores contorcidos e raízes de rosas espinhosas, havia uma pedra de diamante para cada miolo de flor, e o mesmo acontecia com os detalhes dos espelhos ao redor do salão e, prestando mais atenção, certas coisas ali tinham a perfeita forma de um S. Até mesmo as dobradiças das portas. Os bordados em fios transparentes nas almofadas tinham insinuações de S´s que cintilaram delicadamente quando Gina aproximou o candelabro. Fios de vidro, de metal transparente, o metal da Sala dos Cristais, o que fora enfiado na pele daquela mulher. Viu uma teia de aranha no teto, pensou na teia maior e afiada sobre a mulher, como uma rede de fios de água.
Então um calafrio percorreu o corpo de Gina; ela desejou sair daquele salão.
Na sala seguinte tinha um enorme quadro de uma mulher de costas, a cabeça baixa e os cabelos negros arrumados numa trança, os fios translúcidos da morte enrolados graciosamente entre as mechas. O brilho sutil das linhas tocando a pele e cortando, o sangue fino fazendo caminhos sobre os ossos frágeis de suas costas fora captado de maneira perfeita. Parecia real e doloroso.
Não importava onde estivesse, a casa de Slytherin era recheada por aqueles fios.
Havia também outras coisas. Pontes que se esticavam junto ao chão: viravam tapetes. Livros que respiravam, pessoas que viviam suas vidas nas telas dos quadros. Mas quando Gina cruzou um corredor, algo interessante lhe chamou a atenção. Um cômodo de duas cores, um quarto todo em preto e branco com estranhos objetos simétricos, o piso feito em lajotas pretas e brancas como um tabuleiro de xadrez. Gina franziu a testa quando viu, sobre a penteadeira bicolor, escovas de cabelo e caixinhas peroladas transbordadas de broches e, em cima do estofado de veludo negro, fitas vermelhas de cetim. Talvez o que Core dissera sobre a casa ainda ser habitada fizesse sentido, embora houvesse uma atmosfera muito mais morta do que viva naquele lugar.
Numa parede recuada havia um quadro a óleo retratando um campo vasto e pálido, com uma árvore sem folhas na extremidade esquerda, onde um garoto de olhar sério se apoiava enquanto segurava outra criança pelo braço, uma garotinha toda vestida de preto. Um ponto vibrante reluzia nos olhos do garoto, parecia que algo se movia dentro deles, que eram vivos. Cada vez mais perto, Gina inclinava suavemente a cabeça na direção do garoto, e a vela em sua mão projetava uma luz agitada no quadro, em cima dos membros brancos do menino, os dedinhos que agarravam o braço da garota pareciam detalhes de uma escultura tão viva que seria capaz de se mover...Uma corrente de ar passou pela porta, embora não fosse possível saber de onde ela vinha, e balançou as chamas da vela. Aquele rápido movimento de luz pareceu animar o quadro, todo ele se moveu; a menina caiu e o garoto virou bruscamente a cabeça para ela , o brilho azul nos olhos fervendo de maneira maldosa. Gina soltou a vela num espasmo de susto e recuou, escorregando na borda do lençol bordado de uma das camas. Agarrou-se nele, mas algo misterioso aconteceu. Ele não deslizou com a força de Gina, como seria natural que ocorresse. Era como se houvesse um peso sobre ele o prendendo, algo em cima da cama o impedindo de escorregar. Então Gina ergueu a cabeça além da borda da cama e viu uma pessoa encostada no espelho da mesma. Um garoto sentado de modo apático entre os travesseiros.
Era Rony.
O impacto daquela visão fez Gina ficar sem reação. Durante muito tempo ela o fitou, incapaz de se mover, incapaz de pensar em qualquer coisa ou ao menos dizer algo. Até que finalmente murmurou, a voz esganada:
"Meu Deus, Rony... o que você faz aqui?"
Ele virou vagarosamente os olhos taciturnos para ela. Sua pele, normalmente sardenta e com aspecto corado, estava branca e lisa como um mármore até mesmo sobre o nariz, os cabelos ruivos possuíam uma tonalidade de dourado-queimado que Gina não se lembrava existir antes e, o mais notável de tudo, ele parecia mais velho. Não um rapaz de dezesseis anos, talvez um homem.
Gina tornou a murmurar silenciosamente o nome do irmão inúmeras vezes enquanto o olhava. Ele franziu as sobrancelhas para ela, sua boca se curvou nos cantos de maneira severa e as narinas se dilataram numa espécie de máscara furiosa.
"Não faça isso", ele disse.
Ela balançou a cabeça, aturdida.
"Rony, como você descobriu..."
Mas ele a havia agarrado e a puxado para si.
"Você sabia que eu escuto sua voz?", ele falou em voz baixa, como se doesse dizer aquilo. "Está em todos os lugares, está na minha cabeça e lateja dentro dela desde que você se foi."
"Eu não podia contar...", começou Gina, o observando com os olhos ora muito abertos ora estreitados.
Rony tinha ficado subitamente de joelhos sobre a cama, toda sua altura cobrindo Gina num abraço rígido, e agora ele apoiava a cabeça no ombro dela e respirava desesperadamente o cheiro pelo pescoço da irmã. Gina segurou a cabeça dele entre as mãos e a ergueu. Sentia o corpo todo dele tremer suavemente e sua pele tinha uma temperatura febril.
"Ron", ela disse num tom quase meigo. "Ron, me diga, como descobriu que eu estava aqui, porque veio até aqui?"
Mas ele apenas repetia que ela não poderia ter feito isso, e Gina já começava a sentir-se assustada com aquilo tudo, porque Rony a adorava, ela sabia disso e também o adorava, mas ele a estava beijando. Beijava seu rosto, fechando uma mão em torno de seu braço e mergulhando a outra debaixo de sua cabeça, movendo as pontas dos dedos entre seus cabelos enquanto a pressionava contra o peito.
"Todas as pessoas que conheço", ele disse, "não importam para mim. Mas porque você achou que poderia estar entre elas?"
"Do que está falando? Porque está falando assim? E Harry?"
Ele levantou os olhos.
"Harry?", disse, como se desconhecesse a palavra e o próprio som dela fosse hipnotizante.
Gina segurou-o pelos ombros e o afastou delicadamente em direção ao fundo da cama. Olhou a expressão do irmão e imaginou que ela nunca poderia ter estado mais lisa e confusa. Ele parecia infinitamente mais velho. Mas era jovem, e aquela discordância era fascinante. Ela o olhou demoradamente, perguntando-se porque Rony, o irmão que mais adorava, estava lhe causando tanto espanto somente agora, depois de anos de convivência, como se durante esse tempo todo eles tivessem vivido separados por uma parede e sem jamais se olharem, e agora a imagem dele a afetava do mesmo modo que o chão parece macio para uma ave.
Entendeu porque o amor que se tem pelos parentes mais próximos é tão puro e perfeito. É que a superfície não parece brilhar tanto em nossos pais, por exemplo. Que a imagem deles não é tão encantadora para nós como é para os outros, mas a voz sim, a risada; são essências que ofuscam o que quer que venha por fora e que nos acostumamos a amar. Era desse modo que ela havia amado Rony, e agora isso estava se invertendo. Estava o enxergando de fora para dentro, um choque.
Como poderia ser tão maravilhoso o cabelo dele, que formava espirais de fogo ao redor da cabeça? Todas as nuances de branco da pele dele brilhavam como uma seda, pulsavam sobre as minúsculas ondulações púrpuras das veias em seu pescoço, e as sardas em seu rosto na verdade não eram tão numerosas quanto os outros imaginavam ser, mas sim suaves, apenas pintalgando o dorso de seu nariz como pequenas manchas num mármore.
Era agradável olhar para ele, ainda que fosse para vê-lo interrogativo, a boca semiaberta, de modo a poder ver o brilho dos dentes.
O rosto dele era como um espelho para todas as suas fantasias. Gina ergueu a mão e o tocou; precisava experimentar a pele dele, ela iria lhe parecer mil vezes mais macia do que antes. Os lençóis deslizaram como gelo debaixo de seus joelhos e ela se aproximou dele sem querer, se inclinando para frente e quase o beijando. Ela queria isso. Inclinou-se mais. Então sentiu os lábios dele. Rony pareceu pronunciar seu nome, mas se o fez foi num sussurro extremamente baixo que se assemelhou a um gemido de prazer ou de dor. E, aos poucos, Gina percebeu que talvez aquilo fosse doloroso para ele, pelo exato motivo o qual estava sendo para ela. Dor física. O corpo dele parecia ser revestido com o mais fino e afiado pó de vidro, que arranhou seu braço quando ela o passou, ainda que com delicadeza, em volta do pescoço dele. As mãos dele hesitavam tocar nela; ele as afastava como se sofresse um choque. O encanto se aprofundava, e Gina abriu os olhos e viu seus próprios dedos formarem caminhos sangrentos ao deslizarem pelo maxilar dele, tão branco e liso. Era como suor e sangue diluídos juntos e escorrendo com o contato entre a pele deles. E ela sentia que estavam sendo como animais que precisavam de alertas dolorosos daquele tipo para perceberem que não poderiam estar fazendo o que faziam. Olhou dentro dos olhos de veludo azul dele e se viu refletida ali, flutuando no cosmos escuro no centro deles enquanto o sofrimento aumentava a ponto de a fazer querer chorar.
Talvez tivesse sido apenas um sonho, um pensamento terrível influenciado por todos aqueles quadros, por aquele quarto. Mas o fato é que, quando ela fechou os olhos e os abriu bruscamente outra vez, estava se assustando com os efeitos sombrios que a chama bruxuleante de sua vela causara na pintura do menino e da menina em sua frente e recuando para trás, perdendo o equilibro e escorregando no bordado do lençol que sobrava para fora da cama. E não havia ninguém na cama. Nada dentro da escuridão das cortinas. A única coisa animada ali era o sangue brilhante nos travesseiros, o sangue que ainda pouco eles estiveram transpirando.
