Primeira Parte
Capítulo cinco - Anjo e demônio
"Isso não entristece você?", ela havia perguntado, mas não lembrava muita coisa sobre aquele dia, se estava chovendo ou se era primavera, quais as cores da camisa de Rony. Sabia e se lembrava muito bem de estar nos fundos de uma loja, brincando com uma fita de veludo vermelho que havia puxado dos cabelos, e que enquanto falavam, Rony observava aquela fita como se fosse a única coisa real em seu mundo solitário e turvo.
Ela lembrava também da triste expressão dele diante daquela pergunta. Sabia o que se passava na cabeça dele. Gina é muito triste, ela vê o mundo como uma grande massa ocasional de decepções e caminhos sem saída. Vê as pessoas como sombras perdidas perambulando pela terra maculada que alguém, talvez Deus, criou, e ele gosta de brincar conosco. Era isso que Rony pensava sobre ela. E não estava errado.
A primeira decepção que teve foi naquele mesmo dia, quando viu um acidente de carro numa rua em Londres, numa noite quieta e sem estrelas. O carro capotara violentamente e várias vezes seguidas depois de ter ido de encontro com um poste, e parara de cabeça para baixo perto dela, uma garotinha ruiva que usava casaco de lã e fitas de veludo vermelho nos cabelos. Ela assistira tudo com muita calma, como alguém que vai ao teatro e espera a apresentação terminar, e só depois todas as coisas que os personagens disseram e fizeram afloram na mente e chocam. Uma compreensão tardia das coisas. Ela vira, em silêncio, uma mancha fria e escura deslizar para fora das janelas destruídas, o sangue fluir brilhantemente pela rua, e depois não viu mais nada porque Carlinhos a puxou para dentro de uma loja e a manteve nos fundos. Lá fora o barulho de sirenes. Os trouxas se aglomeravam aos poucos nas calçadas, as cabeças deles eram pontos coloridos através da vitrine. Ela sabia que alguém tinha morrido, e estava decepcionada consigo mesma. Minutos antes de acontecer o acidente ela vislumbrava a pálida luz do poste, de perto tão intensa que parecia o sol radiante durante a noite...o sol, criação divina, a lâmpada, criação do homem...O homem era um ser frustrado que copiava o que Deus criava? Porque apenas Deus podia criar? E depois do acidente: Porque morrer? Deus era um grande e magnífico jogador de dados!
Como o homem podia se conformar com tudo aquilo? Chegavam mais pessoas para contemplar o carro virado e o sangue o rodeando.
Muito tempo depois ela contou a Rony que não suportava mais viver porque não existia motivo para isso. Era tudo muito estúpido e ridículo, não aturava conviver com seres de sua própria espécie porque os achava idiotas, cegos, decepcionantes.
"As pessoas não fazem sentido para você", ele respondeu. "Mas como você pode saber se você faz sentido para elas?"
"Isso não me preocupa. Não me preocupo em fazer sentido para os outros."
"Então porque veio me dizer essas coisas?"
Ela não respondeu. Jamais tinha imaginado que se Rony não existisse ela não teria para quem dizer que não queria continuar vivendo, de modo que não perceberia o erro que estava cometendo. E era maravilhoso, porque Rony não disse isso, ele nunca lhe disse para mudar de opinião. O simples fato de ele existir já a fazia se arrepender de querer morrer.
Às vezes se cansava de pensar e procurar respostas, então passava dias silenciosa, observando as pessoas, o som aveludado das risadas que elas eram capazes de produzir, os adolescentes em Hogwarts, de gestos inocentes e despreocupados, inclinado-se sobre seus livros como se eles fossem seus suportes, e no fundo todos também estavam cansados de pensar. Mesmo assim, eram belos. Imaginar que suas mentes funcionavam tão maquiavelicamente bem! Que eles amavam e odiavam com a mesma intensidade, se é que não achavam que amar e odiar dava no mesmo. Ela sabia dessas coisas, de certa forma via o mundo de cima agora. Mas foi preciso alguém morrer, Rony existir.
"Amo você", Gina murmurou, os olhos arregalados como se descobrir aquilo a assustasse, depois sentiu uma lágrima fina sair de seu olho.
Sim, o amava, e o que existia de sujo em beijá-lo? Não havia problema, apenas não sentia vontade, nunca sentiu. Fora apenas um sonho miserável e doloroso como a fome. A verdade era bem mais simples: não haveria culpa se um dia beijasse Rony, seu amado irmão, porque esse gesto não representaria paixão, o desejo cálido e egoísta que os seres humanos sentem uns pelos outros e insistem invariavelmente em chamar de amor. O que existia entre eles era muito menos palpável e inatingível.
Olhou para o quadro que permanecia em sua frente, o quadro do garoto que segurava a garotinha, ambos ligados por um braço revestido de seda preta. Feitiçaria antiga, talvez Magia Negra. Funcionava somente com os que tinham irmãos consangüíneos. Mas era bonito, apesar de tudo, e a casa toda de Slytherin era linda e terrivelmente sedutora.
Saiu daquele quarto e andou por um corredor escuro, a vela tinha ido embora, e Gina não lamentava isso, porque assim todas as singularidades macabras daquela casa ficariam ocultas nas sombras, lugar de onde era preferível que jamais saíssem.
Não lembrava o que tinha ido fazer ali, não se preocupava mais com isso. Queria achar o caminho de volta e ir para sua cama, para os lençóis frios e para as colchas quentes.
E Harry? Harry não existia mais, pelo menos por enquanto. Noutro dia, quando se deparasse com todos os encantos que ele exalava enquanto cumpria o medíocre papel de existir, voltaria a se apaixonar por ele, pelo brilho delicado de seus cabelos negros. E quando isso acontecesse ele seria o único ser humano na Terra, o único garoto para ela, mas agora ele era apenas Harry, uma pena deixada no ar, à deriva.
Viu uma porta dupla de ferro, completamente moldada, lembrava um portal do inferno, com corpos metálicos em ângulos sobre-humanos, uns por cima dos outros, as costelas esticadas debaixo da pele, as bocas formando O's, e lá em cima o indistinguível contorno de nuvens sendo cortadas por explosões de luz. Mas não tinha nada a ver com o inferno, é claro. Bruxos – especialmente bruxos como Slytherin – não acreditavam em céu e inferno, em Deus ou Diabo. Aquela porta tinha um significado mais real, como todas as coisas no mundo dos bruxos têm, embora exista a magia, algo tão sobrenatural, para as contradizer.
Diferente do que imaginava, as portas estavam abertas. Gina abriu apenas uma delas; a empurrou suavemente, vendo uma escuridão funda revelar-se. Então alguma coisa estalou acima de sua cabeça, o ruído de fogo brotando abruptamente da extremidade de compridos pedaços de madeira presos à parede, sentiu o calor dentro dos olhos. Em seguida outras tochas acederam sozinhas, instigadas apenas pelo movimento de Gina pelo quadrado baixo que era a sala, andou um passo, a tocha ao lado queimou, deu mais três, quatro passos, meia dúzia de tochas explodiram no escuro, e toda a luz convergiu para o centro da sala, iluminando algo grande e pesado parado ali. Um espelho, também inesperado como a porta e as tochas, a peça que dava mais luz do que recebia, porque emitia uma luminosidade branca suave e quase florescente, como marfim ou osso. No entanto, quando chegou mais perto, entendeu que o espelho não podia ser feito de nenhum material vulgar, tinha a moldura incrivelmente clara e delicada, em alguns pontos tão lustrosa que dava a impressão de ser transparente.
Começou a ouvir pequenas vozes saindo do espelho, como cochichos infantis que depois foram aumentando e se distorcendo até chegar à altura de gritos desesperados e que de repente cessaram numa espécie de convulsão de imagens. Imagens de pessoas antigas, línguas antigas, tempos em que o fogo era o único sol para o homem. Mas foi isso mesmo o que viu? A velocidade das imagens havia sido surpreendente, talvez menos de um segundo, de modo que achou que não tinha visto coisa alguma. Tinha imaginado, e não foi espontâneo. O espelho a estava fazendo ver aquilo. Vidas passadas pelo espelho, pessoas que sua superfície fria refletiu, idiomas que sua moldura porosa absorveu como uma esponja. E tudo aquilo foi vomitado dentro de sua mente.
Gina não chegou muito perto daquele espelho. Ficou em um ponto em que ele não pudesse lhe refletir por inteira. Mas agora estava mais longe ainda, tinha ido para perto da parede, e viu uma coisa fora do lugar ali. Ah, veja só, um pedaço de pano branco. Um pedaço inconfundível de popeline branco e lustroso que atravessava a parede como um fantasma, e ninguém ali na Mansão Malfoy usava aquele tipo de tecido, Lúcio não gostava de branco, mas Draco quase sempre usava camisas de popeline por debaixo dos pesados casacos e sobretudos, de modo que aquilo tinha tudo a ver com ele. Era o tecido que combinava com a elegância discreta, aquele brilho suavemente acetinado e branco, que muitas vezes dava um pouco mais de graça ao uniforme escuro de Hogwarts quando as pessoas sobrepunham a gola da camisa à do casaco.
Mas como aquela roupa podia ter se prendido ali, entre os tijolos, o papel-de-parede, como se a parede fosse macia e penetrável...?
Gina escutou o som das patinhas de um rato correndo em algum lugar, tamanho era o silêncio ali em baixo. Se aproximou e esticou o braço, tocando o tecido. Depois o puxou, e todo ele veio, a camisa de Draco, sedosa e cheia do cheiro dele, aquele perfume que lembrava luxo e bom gosto. Sua mão afundou quando a pressionou contra a parede, como se a matéria fosse feita de plasma, de vento.
Em seguida, Gina deixou a camisa de lado e passou para o outro lado.
Havia uma delicada claridade lunar cintilando nas cortinas, mas á princípio não viu nenhuma janela. Através do complicado trabalho em ferro do biombo que detinha Gina, o quarto não era nada mais do que escuro. Lembrava uma clareira no meio de uma solitária floresta, o foco solitário de uma lanterna numa parede preta, o misterioso brilho das galáxias girando no universo.
Naquele momento ela olhou para o lado, onde um ar morno ondulava em sua direção, e percebeu que a luz prateada que dançava sobre as cortinas não vinha da lua, vinha de uma enorme lareira encravada na parede de pedra, coberta por uma metálica estrutura que ardia quase líquida, porque dentro da lareira um fogo branco queimava como se tivesse vida, aumentando, crescendo parecendo querer incendiar o quarto, estalando e depois encolhendo.
Uma larga cama ladeada por duas grades de ferro fora posta em frente á lareira, tão escura que a única coisa que poderia chamar a atenção sobre ela era corpo branco e delgado do rapaz que dormia entre os lençóis.
Gina saiu de trás do biombo, aproximou-se das grades de ferro perto da cama para olhar o rapaz. A magnífica coberta sobre ele era de veludo negro e grosso, mas visivelmente macio e quente, adornada com fios de seda prateada. Através das mangas das roupas que Draco usava diariamente, através das lapelas brancas do uniforme de Hogwarts que roçavam em seu pescoço, era possível sentir a brancura de sua pele , mas a sensação de vê-la realmente, as costas tão claras que pareciam luminosas entre as almofadas escuras sobre a cama, causava uma espécie de encanto. O cabelo dele, desalinhado e repuxado para o alto da cabeça, como se antes de dormir tivessem sido agarrados numa espécie de pensamento insuportável, deixava uma penugem de ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura láctea do pescoço.
Ele brilhava, mas com uma suave intensidade, com uma pulsação que acompanhava sua respiração e as ondulações do fogo, tal qual um dragão que adormece debaixo das estrelas e é possível sentir o rufar do seu coração contra a terra.
Tudo que existia ali, os adornos de metal, os arcos do teto, o piso de mármore negro, o fogo – inclusive o fogo – respirava conforme Draco, tudo estava na premência de seu sono.
Ela ficou bastante tempo ali, parada a certa distância, mas perto o suficiente para enxergar o brilho louro dos pelos no braço de Draco sobre o lençol. Ficou tanto tempo que deixou de sentir seus membros, deixou de sentir o próprio corpo, passou a ser uma essência viva e consciente, cheia de emoções diante daquilo. Podia ser um padrão, uma regra, que todas as pessoas fossem tão estupidamente perfeitas enquanto dormiam? E, afinal, porque é que existia beleza, porque é que as pessoas se fascinam tanto com algo que é belo a ponto de deixarem de existir? Ela sabia que muitas pessoas conheciam Draco e o amavam porque ele era perfeito, sim, agora ela compreendia que nele a palavra beleza tomava corpo, as pessoas simplesmente se encantavam por ele, pelos gestos , as sobrancelhas levemente retas...mas talvez a beleza existisse só para nos provar que não somos inteiramente racionais. Que, antes de tudo, somos animais cheios de necessidades biológicas, instintivas. Seria isso? Ela poderia estar fascinada pela beleza? É, estava. Desejava tocá-lo, sentir as ondulações sólidas dos ossos das costas debaixo da pele tão branca e lisa.
"Tão bonito...", ela sussurrou sem se dar conta.
Draco se moveu apenas um pouco, devagar demais, Gina quase não percebeu, mas escutou o ruído dos grossos lençóis roçarem uns sobre os outros, e uma faísca avermelhada tremeluziu entre as dobras dos veludos: o escorpião.
Deslizando manso por cima das cobertas, as escalando como montanhas, desapareceu atrás do ombro de Draco. Gina não se moveu. Deu a volta, foi pelo pé da cama, pois as laterais eram tapadas por grades.
Subiu devagar, evitando movimentar o colchão, os veludos e almofadas fofas escondendo o escorpião: ele acabara de se insinuar para a garganta de Malfoy, o aguilhão subia trêmulo no ar, de um vermelho translúcido puxando para o laranjado.
Gina encaixou o joelho em algum lugar, apoiou uma das mãos no espaço entre o braço de Malfoy e o travesseiro, e esticou a outra para o bicho. Tudo com muita cautela, silêncio e expectativa.
A ponta do aguilhão do escorpião ficou mais ereta no ar, ele pareceu mais vermelho do que nunca, como uma pessoa tendo um acesso de raiva. Gina então compreendeu que estava sendo louca em tentar enxotá-lo sem artifício algum, nem ao menos tinha uma almofada, porque todas estavam debaixo de alguma parte do corpo de Draco, mas de repente ficou fascinada pelo bicho, pelos movimentos lentos...quase sonolentos... as articulações em camadas se dobrando e a casca parecendo plástico.
Um fascínio que não demorou quase nada, porque o quarto, de uma hora para a outra, tornou-se estranho e tenso. Parecia que havia várias pessoas a olhando ao lado das grades, e que todas estavam prendendo a respiração. Gina sentiu-se terrivelmente vigiada.
Olhou para baixo e deparou-se com os enormes olhos azuis de Draco brilhando para ela, um ponto escuro dentro da íris que inchou lentamente, como um buraco negro crescendo no céu durante o dia.
Ela vira aquele fenômeno outras vezes, a idêntica maneira que as pupilas de Rony se abriam para o medo e para o perigo. Mas Draco não estava com medo, porque estaria? Não havia expressão alguma em seu rosto. Ele parecia não ter vontade de falar ou se mover, ainda que Gina estivesse por cima dele, o olhando, constrangida e inadequada.
"Oh, sinto muito, Draco",– ela murmurou. Sentia que seu rosto começava a ficar incrivelmente vermelho, sentia seu pescoço ficar quente. Repetiu, trêmula: "Me desculpe, Malfoy..."
E não disse mais nada.
Draco fez menção de se mover, apoiando-se num cotovelo, e Gina afastou-se, saiu da cama, imaginando o que mais podia dizer; o escorpião tinha sumido de sua mente, ele não existia mais naquele momento. Existia apenas ela e Malfoy.
Então aconteceu uma coisa. Gina percebeu que havia algo muito errado com Draco, ele não tinha reação. Sentou-se na cama, os olhos baixos, quase não emitindo brilho, parecia atordoado, em estado de letargia. Ele ergueu as mãos e as olhou, depois passou-as pelo rosto e depois pelos cabelos, inclinando a cabeça para baixo e os puxando, exatamente como devia ter feito antes de dormir.
Ah, Deus, ele foi picado pelo maldito escorpião, ela pensou, apavorada. Cheguei tarde demais.
"Malfoy, o que..."
Ia perguntar o que ele estava sentindo. Mas Draco levantou a cabeça, surpreendendo-se com a voz e a figura ainda trêmula de Gina, e tudo voltou a ser como era antes.
"Weasley!", ele exclamou. "Saia daqui...mas que diabos é isso?"
Ele foi na direção dela e a pegou pelo braço, a levando para trás do biombo. Articulava frases pela metade, cheias de uma introspectiva indignação. Queria saber quem havia a ajudado a chegar até ali, queria nomes, e também queria uma explicação para o motivo de ela ter entrado em seu quarto. Ninguém entrava ali sem permissão, isso era uma regra. Empurrou-a pela parede falsa e ambos passaram para a sala do espelho, escura e vazia. A voz deles ecoava na sala:
"Malfoy, se você tivesse devolvido minha varinha é claro que eu não precisaria estar aqui agora."
"Ação e reação é algo que nem sempre funciona no nosso mundo, Weasley."
"Funciona no meu."
"Então acredito que não estamos falando a mesma língua. Não vai ter sua varinha, achei que isto já tivesse ficado bem claro."
Gina o olhou nos olhos por um momento.
"Está bem claro desta vez, Malfoy. Agora escute uma coisa que também deve ficar clara. Reze para que eu nunca mais tenha minha varinha, caso contrário você vai amanhecer do avesso."
Pairava sobre a Mansão Malfoy uma nuvem cinza que rodava fazendo espirais no céu, cuspindo rajadas de vento gélidas que arrancavam violentamente os galhos frágeis das árvores no jardim e varriam para as soleiras das portas camadas cada vez maiores de neve.
Quem olhasse para fora da Mansão pensaria que já era noite, mas havia passado apenas quinze minutos depois das dez da manhã.
Draco ordenou a Madeleine que saísse do quarto e tomou o lugar dela, largando-se displicentemente na cadeira, de frente para Gina, que delirava de febre na cama.
A garota virou-se para ele numa reação de espanto.
"Porque a mandou sair?", perguntou quando a porta se fechou atrás de Madeleine. "Não...Madeleine!"
Draco soltou um muxoxo.
Gina olhou em volta debilmente. Por todo o seu pescoço e rosto brotava uma fina camada de suor, e a pele dela cintilava como a superfície de uma porcelana. Estivera assim durante a noite toda, arfando, dormindo, divagando, embora ele sempre suspeitasse que havia um pouco de lucidez nos gestos dela. Havia começado na mesma noite que invadira seu quarto.
"Não fico sozinha com você!", rosnou ela, reunindo forças. "Com Tom, ainda suporto, porque sei que ele é uma mera lembrança, mas você é real, sua criaturinha ruim!" Gina acrescentou, rilhando os dentes, vendo que Draco não dava importância ao que dizia: "Saia daqui!"
"Weasley", fez ele suavemente, "me deixe lhe dizer que não foi Tom Riddle quem esteve com você esse tempo todo. Pode ser que o que você veja seja a imagem dele, mas é Voldemort quem fala, quem toca em você, quem... marca você."
Ela piscou os enormes olhos dourados e o fitou, muda. Seria possível que Gina acreditasse de verdade que era Tom Riddle, o mesmo garoto franzino de dezessete anos que conhecera na Câmara Secreta através de um diário, que aparecia para ela? Enquanto meditava sobre isso, Draco ia franzindo involuntariamente as sobrancelhas. Gina o confundia, algumas vezes ele conseguia a entender, mas havia vezes em que ela simplesmente fingia, e fingia tão bem que não dava para saber em que hora estava fingindo. A odiava por isso.
"Você é louca", murmurou ele, sem muita convicção sobre isso.
"Qual a sua satisfação em fazer isso, Malfoy? Você se sente feliz, extasiado quando destrói os sentimentos de alguém? Eu sei o que vejo, e é Tom Riddle quem eu vejo, é a voz dele que eu escuto...", ela fez uma pausa, não despregando os olhos dele. "Você tem medo de mim?"
Draco se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nas pernas e ficando mais perto do rosto de Gina, que respirava sem fazer ruídos, apenas suas narinas quase translúcidas tremulavam suavemente.
"Você é linda, sabia?", disse. "Mas garotas se tornam mais bonitas quando estão sendo protegidas. Talvez fosse bom se você nunca mais saísse dessa cama."
Ela piscou lentamente.
"Vou entender isso como um sim. Malfoy, me diga que não foi real."
"Não foi real?", ecoou ele
"O espelho...", Gina hesitou.
Ela estava falando sobre o espelho durante horas. Dizia que sonhava com aquela sala na casa de Slytherin, via o espelho em sua frente com perfeição, mas ele não a refletia, ao invés disso mostrava Harry.
"Ele está em perigo, Malfoy", Gina continuava. "Você precisa fazer alguma coisa."
Draco a escutava paciente, algumas vezes começava a pensar em outras coisas e de repente ouvia a voz de Gina, distante, e se lembrava de que ela ainda estava falando.
"Ah, sim... o espelho", fez ele em tom cansativo. Olhou-a longamente.
Ela era espetacular, não desistia fácil. Estava dando tudo de si naquela farsa ridícula, enfiando-se debaixo de milhões de cobertas para poder suar cada vez mais, pedindo que Madeleine respondesse que a febre não baixava quando lhe perguntassem como estava se sentindo, e além de tudo isso contava seus supostos sonhos com uma agonia quase real. Revirava os olhos como se delirasse. Enfraquecia a voz para parecer mais frágil que o normal. Ele sabia que ela estava ardendo de vontade de ter a varinha de volta, mas não a pediria outra vez.
"Você quer sua varinha, Weasley?", perguntou Draco inocentemente, erguendo uma sobrancelha num gesto causal. "Quer sua varinha para ajudar Harry?"
"Então você sabe onde ela está, não sabe?"
"Claro que sei. Mas a regra diz que você não poderá tê-la enquanto estiver na minha casa. Poupe Madeleine, que já está cansada de ter que torná-la mais pálida cada vez que eu saio do quarto."
Gina o encarou, séria. A expressão de Draco resumia duas pequenas palavras: em vão.
"Meu Deus, Malfoy, eu o odeio!"
Ele não se importava, realmente, se pessoas que ele desprezava o odiassem. E ele tinha por Gina Weasley algo muito parecido com o desprezo, mas ouvi-la dizer aquilo no estado incapacitado em que estava o fez gargalhar, e ele demorou a entender o que estava acontecendo quando ela, deslizando pelo outro lado da cama, correu na direção da porta em passos velozes.
Draco rosnou, saltando da cadeira e esticando o braço para a deter enquanto ela atravessava o quarto, mas Gina foi para longe do alcance dele em movimentos astutos, e tudo que suas mãos tocaram foram as fitas de cetim branco da camisola dela. Conseguiu, porém, alcançá-la antes que ela saísse para os corredores. A garota chamou Core quando Draco a puxou pela cintura e a fez girar para trás, fechando a porta e a trancando.
"Pelos infernos!", praguejou ele.
Gina, que havia ido para o fundo do quarto e tremia de raiva, se apoiava no rebordo da janela, tão fora de si que seria capaz de acabar com o quarto inteiro.
Foi então que Draco teve a idéia de tocá-la, algo que não tinha se dado ao trabalho de fazer, de modo que não tinha certeza absoluta se ela estava febril ou não. Mas quando ele deu um passo na direção de Gina, ela lançou-se sobre ele como uma criatura descontrolada, o socando com os pequenos punhos fechados e tornando-se cada vez mais raivosa à medida que Draco tentava lhe segurar.
Ele fechou uma das mãos sobre o pulso dela, talvez com mais força do que era necessário, pois ela gemeu alto e arqueou como quem recebe um punhalada no estômago. Draco afrouxou os dedos, mas foi uma má idéia. Sentiu uma dor fina nos lábios e no rosto, e foi tudo rápido demais para que ele pudesse ter alguma reação. Ficou observando Gina, sentindo a dor no lábio inferior e no rosto aumentar, começar a arder e queimar. Depois passou as costas da mão pela boca. Estava sangrando, ela havia lhe arranhado como uma gata selvagem. Gina recuou quando Draco ergueu os olhos.
"Escute, Weasley", ele falou, inteiramente calmo, "não torne a fazer isso. Eu não tenho conceitos muito bem formados sobre cavalheirismo ou delicadezas, posso machucar muito você."
Parecia que qualquer coisa que fosse dita naquele quarto a revoltaria mais ainda. De modo que ela retrucou com selvageria:
"E eu não ligo! Você está me usando, e não vai fazer diferença alguma no fim das contas, quando conseguir o que quer de mim! Eu não me importo! O que é que você quer? Ande, fale de uma vez. Você subestima as pessoas, Malfoy, tenta estar sempre à frente delas e isso o torna patético! Fale, eu sei que você não me deixou ficar por simples caridade. Tem um preço, não tem?"
Ela sabia que tinha. Mas Draco ainda estava atordoado com o modo repentino que as coisas estavam acontecendo, e não disse nada durante um longo tempo. Sentou na borda da cama, passando o punho da camisa no rosto e sustentando o olhar na garota. Gina estava tão branca que a única coisa que lhe dava um pouco mais de cor eram os cabelos de fogo.
Foi ela quem quebrou o silêncio, ficando constrangida enquanto fitava as fortes marcas de unha no rosto de Draco.
"Você não devia ter me segurado."
Ele ainda a olhava, indiferente.
Gina continuou: "Eu não menti o tempo todo. Tive um pouco de febre no início da noite, mas... olha, apenas me diga o que fazer, certo? Então ficaremos quites e... não haverá mais nada que nos prenda um ao outro."
"Mate meu pai", Draco disse num sussurro rouco.
"O que?", fez Gina.
"Dê veneno a ele, na noite de natal. O resto eu mesmo faço."
Ela sequer piscava, o olhando como se ele tivesse lhe dito que o céu era vermelho.
"Não", Gina balançou a cabeça, "não posso fazer isso. Peça outra coisa, me peça para..."
"Mete-o!", exclamou Draco. "É a única serventia que você pode ter."
"Porque você... porque não o mata, ao invés de mandar que os outros façam isso?"
"Pelo mesmo motivo que você quer me ver morto, mas não conseguiria me matar com suas próprias mãos."
"Malfoy", ela disse, suavemente, "eu não quero ver você morto."
"Bem, é a minha teoria para alguém que odeia uma pessoa e tira sangue dela com as unhas."
Gina tencionou andar para perto dele, mas ele se levantou bruscamente e andou em direção à porta.
"Já disse que sinto muito", Gina falou.
"Não, você não disse."
"Oh, então você vai chorar por causa disso?"
Mas ele não lhe deu ouvidos, apalpou o bolso da calça para achar a chave e saiu, tendo a precaução de trancar a porta por fora.
Conley mordia uma maçã enquanto conversava com Madeleine na escada que dava para os torreões. Ela estava sorridente e sua voz soava mais melosa que o normal. Calou-se quando Draco passou. Não gostava dele, e isso não era segredo. Talvez por isso tivesse ajudado Gina. O que ninguém sabia era que Draco gostava dela na mesma intensidade. E ela não tinha um terço da beleza das outras irmãs, além de possuir um ar enraivecido e mãos masculinas.
Ele passou pela úmida cozinha, reclamou da lama que entrava pelas frestas das portas e duas mulheres correram para limpar o chão, empurrando a neve que teimava em vazar para dentro.
Apanhou, então, um pano e foi para trás do balcão, virando-se de costas para o resto da cozinha e se ocupando em limpar os cortes no rosto.
Um monstrinho sem modos, era o que Gina Weasley era. Ele ainda não entendia como pode ter ficado simplesmente a olhando depois do que ela lhe fizera, por mais que uma vontade louca de revidar o dominasse.
Mas precisava dela. Só por mais alguns dias.
Finalmente Core passou e o notou ali. Draco fingiu que não a viu e fez uma careta de dor.
"Cristo...", a garota se espantou, "você foi atacado por um lobo?"
Ela o lançou um rápido olhar e pediu que esperasse. Pouco tempo depois retornou com um pequeno lenço úmido na mão e examinou de perto os machucados.
"Ah, então não foi um lobo", disse ela em voz baixa e suavemente decepcionada, tocando levemente os cortes. "Com quem andou brigando?"
"Com uma garota que mede meio metro menos que eu."
"Que mentira, ela é mais baixa que você no máximo uns cinco dedos."
Draco a olhou friamente.
"É claro que foi ela", Core retrucou, "não existe mais nenhuma garota nessa casa que teria a coragem de brigar com você", e acrescentou, seca: "Porque você não sabe tratar uma dama."
"Vocês não são damas. São criadas."
Ela ignorou o comentário em parte.
"Certamente ela é uma dama, e você foi muito polido com ela e não a xingou, não a tratou mal e não mandou que escovasse seus casacos, como é do seu tipo fazer quando se espeta nos alfinetes que sem querer deixamos nas roupas."
"Você esquece alfinetes na minha roupa de propósito, não me surpreenderia se encontrasse vodus meus no seu quarto", Draco disse, sem emoção, sentindo uma fina dor na hora que Core apertou com um pouco mais de força o pano sobre a ferida.
"Ora, está certo. Então eu faço vodus. Mas aturo suas besteiras quando você bebe aquela porcaria venenosa."
Ela segurava sua cabeça com a outra mão, acariciando mechas do cabelo dele enquanto falava.
Draco puxou o lenço da mão dela e se inclinou para ir embora. Mas a garota o reteve, agarrando suas lapelas e o empurrando na bancada. As costas dele bateram nas colheres e panelas penduradas na parede, as fazendo se chocar e cair em seguida. Core derrubou um cepo ao se apoiar na mesa, debruçando-se sobre Draco e o beijando. As facas se desprenderam da madeira e giraram no ar, tilintando alto e se espalhando no chão, aos pés deles.
Foi a primeira vez que alguém fez isso com Draco, e ele não apreciou nem um pouco a atitude de Core. Era sempre ele que tomava iniciativas, ninguém nunca o beijava se ele não quisesse, e ele não queria. Não queria coisa alguma naquele momento, apenas sentia raiva de si mesmo por não ter reagido no quarto, e isso o fez lembrar de que Gina tinha entrado em seu quarto duas noites atrás, e não chegara lá sozinha.
Ela o beijava com força e isso fazia o corte em sua boca doer, mas ele não recuou. Segundos depois Core deu um pulo para trás, intrigada, tocando a ponta da língua que estava muito vermelha e sangrava.
"Você me mordeu...", ela disse, atônita.
"Você me traiu", ele replicou, desviando das facas no chão e atravessando a cozinha.
Gina tentava se lembrar quando fora a última vez que se sentira quente perto de um garoto. Quase sempre quando Harry estava por perto (e quase sempre ela fazia alguma coisa ilógica), mas isso já acontecia fazia tanto tempo que ela aprendera que, afinal, não importava a idade ou a experiência porque sempre iria agir da mesma forma em ocasiões daquele tipo. Era simples, quando via Harry, todos os seus sentidos desligavam-se, e ela deixava de existir.
Por isso ela sabia que o amava. Mas não podia mais se basear nisso, pois tinha acabado de sentir algo parecido por Draco. Ele não sabia, mas quando a segurou, a impedido que saísse para os corredores, também causou nela, além de ira, calafrios.
Bem, nenhum garoto tocava nela daquele jeito. Ela estava acostumada com o tratamento frágil de seus irmãos e das pessoas que conhecia. Não que gostasse de violência, mas Draco a segurava com tanta firmeza, e ela ficou imaginando quanta segurança as mãos dele não podiam passar para uma garota, em outra ocasião.
Gina adorava mãos, e as dele eram perfeitas, com dedos longos e brancos feito mármore, além de hábeis; ele as movia depressa quando queria, como as mãos de um mágico, e era adorável o ver refletindo sobre algo, com elas no queixo.
Entretanto, era uma atração boba, porque Malfoy era bonito. Muito bonito. Mas não sentia por Harry a raiva e o desprezo que sentia por ele, algumas vezes, e a antipatia e desdém de Draco conseguiam apagar qualquer brilho que ele naturalmente tivesse.
Um dia ele sorriu naturalmente para ela, talvez quando ela ainda era fisicamente como Pansy Parkinson e ele não precisasse destilar sua superioridade...mas ela se lembrava como aquilo a surpreendera. Quando ele sorria daquela maneira, era como se uma luz se acendesse dentro dos olhos dele e ofuscassem. Em Draco, aquele gesto não era um simples movimento de músculos faciais, era uma transformação magnífica.
Harry estava quase sempre rindo, mas era diferente, ainda que fosse igualmente bonito, porque era comum.
Quantas coisas adorava em Harry? Ela não parava para pensar sobre isso, mas estava pensando que adorava as mãos de Draco, o sorriso, a voz...é, a voz dele era rouca e calma—
"Desculpe entrar sem bater."
Gina virou-se bruscamente para a porta, o coração acelerando apenas um pouco. Mas era Core, e ela falava de maneira estranha, como se mantivesse uma pedra de gelo debaixo da língua, e vertia lágrimas grossas pelas faces.
"Me desculpe por não bater", repetiu a garota, arrebatada.
"Como você entrou aqui?", assustou-se Gina.
"Pela...", Core virou um dedo na direção da porta.
"Mas estava trancada! Eu ouvi quando ele virou a chave pelo outro lado."
Então a garota começou a chorar copiosamente.
"Mas o que é isso?", perguntou Gina. "Que houve?"
"Calhorda!", a outra bateu o pé. "Ele vai me pagar por isso... eu só o beijei, mas ele não difere um gesto de carinho com um de violência! Bruto!"
"Do que você está falando?"
"Ora, não importa", fungou Core, apalpando os bolsos e tirando de um deles um papel fino dobrado em quatro pedaços. "Aqui está, eu marquei de verde o lugar onde sua varinha está. Pegue-a e esconda consigo, depois fuja daqui na primeira oportunidade que tiver."
Gina olhou a garota, atônita. Depois observou o papel que ela lhe estendia, trêmula, com os dedos molhados com lágrimas.
"Mas o que aconteceu?", insistiu Gina, deixando o papel de lado.
Core embromou, a voz engrolada: "Não tem importância..."
"Acontece que é estranho você ter entrado por aquela porta, quando ela estava trancada, o que indica que você roubou a chave de Malfoy ou pegou a cópia. E houve um beijo? Você o beijou? Ele a machucou? Então você está morrendo de raiva e, por vingança, vai me ajudar?"
"Você estava certa", a garota disse, ríspida. "Você não o vê. E tomara que nunca veja."
Gina não entendeu bem o que Core disse, de modo que voltou as atenções para o papel.
"Aceito sua ajuda", falou, o apanhando e o desdobrando.
Core aproximou-se dela. "Veja, é um dos primeiros cômodos. É pequeno em relação aos outros."
Gina passou os olhos pelo papel. Era um mapa mal rabiscado, como o que copiara para si, mas com menos detalhes. No entanto, o tal cômodo estava claramente assinalado com um "x". Ela levantou a cabeça e fitou Core.
"Obrigada", disse. E continuou depois: "Ou eu devo agradecer ao Malfoy?"
Core não gostou. Na verdade, tornou a chorar. Gina mordeu o lábio.
"Esqueça o que eu disse."
A garota agora chorava tanto que Gina teve pena, e fez um gesto para que ela se sentasse na cama, ao seu lado. Core não hesitou, e encolheu-se perto de Gina, escondendo o rosto nas mãos, no que os suaves cabelos loiros deslizaram para frente dos ombros. Gina os afastou gentilmente.
"Esqueça o que eu disse", repetiu.
"Vocês brigaram?", perguntou a outra entre soluços.
"Eu e Malfoy? Bem, sim. Mas eu não sou uma descontrolada, eu apenas me descontrolei."
"Você o machucou", lamuriou-se Core.
"Sim, mas..."
"E ele não ligou. Ele ligou? Ele quis dar o troco?"
"Troco?", indignou-se Gina. "Você acha que ele me bateria? Ah...não diga que ele... ele bateu em você?"
"Não, mas eu nunca o machuquei!", replicou Core. "No entanto ele é como o pai, tem instintos violentos."
Gina ainda não tinha uma opinião formada sobre isso, de modo que achou melhor não dizer nada. Mas ela lembrou inevitavelmente do pedido que Draco havia feito a ela mais cedo. Envenenar Lúcio. Lúcio Malfoy era o tipo de ser humano que se adora quando se conhece superficialmente, e que se tem nojo quando passa a conhecer melhor. Mas era o pai dele! Que tipo de relação estranha esses dois mantinham?
E ela não iria matar uma pessoa, já tinha problemas demais para resolver, um deles seria resolvido naquele exato momento.
Não foi difícil achar a sala onde ficavam as varinhas, o problema é tudo estava muito mais escuro do que Gina lembrava ser na casa de Slytherin, por isso demorou um pouco mais para achar os corredores certos.
Quando tencionava por a mão na maçaneta, ouviu vozes ecoando dentro da sala. Gina parou de chofre. Aproximou o toco de vela que segurava do buraco da fechadura e viu uma pessoa se movendo lá dentro, sobre uma luz ambárica fraca. Parecia estar falando sozinha e aos sussurros. Não parecia a voz de ninguém que conhecia, e por um segundo pensou ser Salazar Slytherin quem estivesse lá dentro. Escutou a pessoa se mover vagarosamente de um lado para o outro, resmungando, então se afastou, houve o som de outra porta se abrindo e Gina deduziu que havia um outro aposento depois daquele, o qual a pessoa estava agora.
Olhou mais uma vez pela fechadura, não viu nem ouviu movimento algum. Foi então que algo relativamente estranho aconteceu. Um vulto passou de repente pelo buraco da fechadura, fazendo Gina se assustar e recuar, em seguida a porta foi trancada bruscamente, e tudo voltou ao silêncio mais uma vez.
Sabiam que ela estava lá. Como podiam saber? Gina soprou a vela, talvez fosse o movimento da luz pelo piso do corredor que tivesse chamado a atenção. Então ela se abaixou em silêncio, perguntando-se porque não tinha tido essa idéia antes, e olhou pela fresta da porta.
Viu os reflexos da pessoa caminhando pelo soalho, parando em um certo ponto perto de um móvel e agora, definitivamente, indo para outro aposento. Ela contou, quase um minuto depois a pessoa não havia retornado. A sala estava fazia. Gina olhou em volta, mas não encontrou nada fino o suficiente para entrar pela fechadura, de modo que usou o broche que tinha no cabelo, enfiando a presilha estreita pelo buraco e empurrando a chave cuidadosamente enquanto colocava o papel que Core lhe dera para apará-la quando caísse no chão, do outro lado.
A chave pulou da fechadura de uma maneira bamba, quicando pelo piso e saindo da área do papel. Então Gina teve uma dupla preocupação. Em quanto tempo a pessoa retornaria, e ela tinha mesmo saído da sala ou apenas subido em algum móvel para a enganar? Arrastou o papel pela fresta, uma das bordas tocando a chave e a trazendo consigo. Antes de por as mãos na chave, Gina ficou em silêncio. Nada se movia por perto. Se levantou e encaixou a chave na fechadura. Ela abriu com um suave clique, e Gina afastou a porta apenas um pouco, lançando um breve olhar ao aposento.
Havia nele uma certa obscuridade elegante, era quase que comum, diferente dos outros cômodos do resto da casa, tão extravagantes, tão surreais. Aquele continha uma mesa pequena no centro e dois baús de ferro e cobre. Algo cintilava sobre a mesa.
Gina entrou, vendo que a porta na outra extremidade da sala estava levemente encostada, como se a pessoa pretendesse voltar em algum momento. Rapidamente ela foi até um dos baús e o abriu, se deparando com uma infinidade de pedaços compridos de madeira em tons mais claros e em tamanhos diferentes.
Meu Deus.
E apenas por achar que talvez no outro baú tivesse mais sorte, correu até ele e não havia sequer levantado completamente a tampa quando sua varinha se precipitou sobre as outras como se tivesse vida, arremessando-se para o chão e rolando para o lado de Gina.
Ela então a apanhou e correu para os corredores, achando a saída e a escada que a levaria de volta à Mansão Malfoy, olhando insistentemente por sobre os ombros, pois tinha quase certeza de que alguém a perseguia desde que saíra daquela sala (o que era perfeitamente provável, pois seus sapatos barulhentos não a deixavam ser discreta). Numa das vezes viu o escorpião que sempre perambulava pela casa a espreitando numa ondulação no tapete.
Eu preciso de um banheiro, suplicou ela para si mesma. Havia vários banheiros na Mansão, mas ela queria o maior que já vira até agora, e que ficava para os lados dos aposentos de Lúcio Malfoy. Tinha uma banheira incrivelmente gigantesca e redonda, cercada por uma escada em pedra verde, e Gina foi até ela assim que entrou e trancou a porta.
Girou uma das torneiras e a banheira começou a encher. Gina não esperou até que estivesse completamente cheia, apenas dois dedos de água bastavam. Inclinou-se sobre a borda da banheira e apontou a varinha para a água suavemente esverdeada.
"Revelare Harry."
Um ponto escuro surgiu no centro da banheira e foi esticando como um buraco negro, e uma imagem pouco nítida do que parecia uma rua se formou na água, frágil e transparente. E ali estava Harry, um garoto de cabelos muito negros e brilhantes andando entre vultos disformes e coloridos. Aquela imagem fez o sangue em Gina fluir com mais força pelo corpo. Por muito tempo ela permaneceu simplesmente o olhando. Havia pessoas conhecidas ao redor dele, com quem ele falava ou olhava, movendo suavemente os olhos verdes e quase amarelos devido a claridade da manhã. Ele jamais lhe pareceu tão bonito e real, podia sentir a textura macia de seus cabelos através da água cintilante.
Gina disse, outra vez erguendo a varinha, desta vez mirando Harry:
"Exaudi vocem meam! ...não vá se assustar..."
Mas Harry se assustou. Teve a reação de olhar imediatamente para cima, os enormes olhos filtrando a luz, depois olhou para os lados e para as pessoas em sua volta, verificando se elas também tinham achado estranho aquela voz vinda do nada. Mas ninguém exceto ele escutaria Gina.
Ela disse outra vez:"Harry, é Gina Weasley."
Ele franziu as sobrancelhas, parecendo confuso.
"G...Gina?"
"Shhh!", fez Gina depressa.
"Onde você está?", ele se virava duvidoso para todas as direções.
"Pare com isso, por favor, não chame atenção! Harry, me escute, eu estou falando com você, só você pode me ouvir, e eu só posso ouvir você."
"O que aconteceu?", ele estava tão atordoado que não parecia estar processando as coisas que Gina falava. "Onde... pra onde você foi? A sra.Weasley não sabe que você sumiu, Rony está..."
"Explico tudo se você puder sair daí e for para um lugar onde possa falar comigo sem que as pessoas pensem que você é doido."
"Eu não vou a lugar nenhum", replicou ele, num tom natural de sinceridade que apagou qualquer antipatia que houvesse naquele gesto. "Prove que é Gina Weasley."
Gina não soube o que dizer. O que poderia haver no mundo que somente ela e Harry soubessem e que pudesse comprovar que ela era ela? Ah, ok...Ela começou a recitar: "Seus olhos são verdes como sapinhos cozidos, seus cabelos, negros como um quadro de aula, queria que...Ah, não me faça terminar isso."
Mas Harry estava sorrindo. De um modo tenso, é verdade, mas o importante era que agora ele acreditava que falava com Gina Weasley.
Ele deixou o lugar, desviando dos vultos coloridos, então uma claridade diurna salientou todas as cores em Harry, ao mesmo tempo em que suavizava o verde elétrico de seus olhos. Ele era a única imagem limpa e nítida para ela, e enquanto ele andava, Gina o observava. A visão de Harry sempre conseguia a acalmar, mas porque desta vez não estava funcionando?
"Você está bem?", ele perguntou, encostando-se em algo lá fora, debaixo da neve que caía.
"Um pouco melhor do que o habitual. Harry, eu não poderia estar aqui, o lugar onde eu estou é, certamente, um lugar que você ou ninguém jamais desconfiaria que eu estaria um dia, e não posso fazer magia, por isso demorei tanto a me comunicar com alguém; eles confiscaram a minha varinha. Mas eu a consegui de volta temporariamente, então é com você que eu preciso falar, não com Rony, não com meus pais; com você."
"Eles?", fez Harry, que continha a pergunta desde que ela falara da varinha.
"Tenho visto coisas bizarras aqui", continuou Gina, desviando da pergunta, "eles não estão defendendo um lado, não é algo que se limita em bem contra o mal, não é uma vingança. Existe um...uma coisa que extrai sangue, são linhas finas e invisíveis no escuro e que entram pelas veias da pessoa, puxando seu sangue. Ela não lembra de nada depois: desmaia enquanto perde sangue. Eles podem controlar a pessoa com isso, o sangue é o líquido vital, é a coisa mais importante para eles. Você-sabe-quem e todos os outros desprezam os que não são sangue-puro, assim como Salazar fazia. Está tudo se repetindo. Durante todo esse tempo em que estiveram quietos, estavam apenas se ocupando com um plano próprio qualquer.
Harry estava pendurado em cada palavra dela. Não pareceu surpreso, mas sim admirado.
"Não me diga que você está com eles? Gina, que diabos..."
"Não estou. Não do modo como você está pensando. Olhe, são várias coisas, certo? Não posso contar todas a você agora."
"De onde você tirou essas coisas?"
"Eu as vi!"
"Gina, é claro que não viu. Nós vamos para o último ano em Hogwarts e nunca ouvimos falar disso, nem nada sequer relacionado. Só porque Salazar Slytherin não gostava de sangues-ruins, não quer dizer que todos que concordam com ele são obcecados por sangue. E ver todas essas coisas num lugar onde não se pode fazer magia? Contraditório."
"Nunca ninguém ouviu falar porque isso é Magia Negra", Gina argumentou num tom de desdém. "Não ensinam Magia Negra em Hogwarts."
Harry ficou mudo e pensativo.
"Olhe", ela tornou, "é maluco assim mesmo. Mas se é tão impossível de acreditar, ao menos encare tudo o que eu disse como uma possibilidade. Infelizmente você não deve conseguir saber mais sobre isso em livros, porque tenho a impressão de que tudo foi elaborado a pouco tempo, como um plano. Mas eles tiveram de tirar essas idéias de algum lugar, de modo que talvez haja pistas aqui..."
"Infernos, aqui onde?", Harry rosnou, revelando-se impaciente.
Da borda da banheira, Gina o olhou, estupefata. Se ele pudesse vê-la, com certeza teria dito a mesma coisa, mas de uma forma mais amena.
"Bem...eu...me desculpe, Harry, mas não posso contar onde estou..."
"Então terei de avisar Dumbledore sobre seu desaparecimento", disse ele sem mudar a expressão séria.
"Harry!", ela ficou tão agitada que quase se levantou, mas lembrou não haver razão para isso e tornou a se debruçar pela banheira, mordendo o lábio com força.
Suponhamos que ela contasse onde estava, o que ele faria? Não seria muito pior? Mansão Malfoy. Lúcio era um comensal. Ela tinha uma Marca Negra no pulso. Havia uma certa conexão, apesar de nada ter relação alguma. Ela estava lá por um motivo próprio, mas aquilo seria interpretado como rapto, seqüestro, o que quer que fosse. Ela seria uma vítima. Seria um alvoroço.
"Me deixe ver você, Gina", pediu ele, a voz gentil.
Harry podia conseguir qualquer coisa quando queria. Ao menos com Gina. Ela se endireitou, voltando a se sentar na posição normal, olhando pelo banheiro se não havia nada nele que pudesse entregar o lugar onde estava. Havia muita coisa. M´s bordados nas toalhas, desenhados nas torneiras, e um quadro; a pintura dos rostos de Lúcio e Narcisa.
Rapidamente, Gina apanhou as toalhas e jogou por cima das torneiras, tendo o cuidado de fazer com que todos aqueles emes ficassem virados para baixo, depois retirou com esforço o enorme quadro dos Malfoy da parede e o encostou atrás da banheira. Então correu para o espelho.
Vinha ganhando um ar incrivelmente pálido durante aqueles dias, porque não saía da Mansão, embora se saísse não faria diferença, porque parecia que naquele lugar o sol não existia. Seus olhos estavam marcados por suaves olheiras, e enquanto se avaliava no espelho, franziu a testa numa careta desapontada. A única coisa que permanecia igual era seu cabelo – parecia uma mistura fantástica de cobre e ouro.
"Certo", ela disse, calma, quase num sussurro, mas Harry a ouviu.
O banheiro se tornou silencioso, Gina foi até a banheira outra vez e se sentou num degrau da escada, apoiando os cotovelos unidos nas coxas, arqueando as costas numa maneira desconcertada, e em seguida cruzando os braços na barriga.
Por um longo momento, Harry não emitiu som algum.
"Você está me vendo?", perguntou ela, finalmente.
Harry: "É um banheiro?"
"Certo, Harry, você já está começando a perceber coisas demais...", ela se virou para a água na banheira. Harry estava abaixado no chão. Supôs que ele tivesse derretido um bocado de neve e feito o feitiço ali mesmo.
Lembrava muito um garotinho observando algo interessante no chão, o rosto fascinado pela curiosidade. Ele tinha dezesseis anos, mas havia algo na sua maneira de olhar as coisas que o fazia parecer muito mais jovem, muito mais frágil do que ele realmente era. Gina o estava estudando, até que se deu conta de que ele a estava vendo fazer isso, então emendou:
"Por isso termine logo esse feitiço."
Harry ergueu os olhos antes de finalizar o feitiço, espiando se ninguém o observava. Quando tudo estava terminado, ele não levantou.
"Algum problema?", Gina perguntou.
Ele não respondeu de imediato. Estava visivelmente confuso, embora Gina não soubesse com o quê. Escutou passos no corredor, alguém se aproximando da porta, e agarrou a varinha ao lado da banheira. A pessoa chegava cada vez mais perto, o que a obrigou a terminar o feitiço de uma vez. Quando o fez, percebeu que a pessoa havia desviado para outro aposento. Sentiu uma pontada de angustia por ter deixado Harry de repente e sem avisar, mas ele logo notaria que ela já tinha ido embora...
Novamente um banheiro, mas este havia sido destinado para seu uso exclusivo desde que chegara na casa. Era mais ou menos esse tipo de coisa que fazia Gina se sentir tão confortável e estranhamente deslocada no mundo dos Malfoy. A começar por aquele banheiro, que era tão grande, tão limpo...tão individual. Era assim que tudo funcionava para os Malfoy; cada um come com os seus talheres, por exemplo, os de Draco eram de prata, os de Lúcio Malfoy eram de ouro. E também cada um tinha um quarto, uma biblioteca, uma sala de leitura, um banheiro, decorados de maneira diferente, mas de certa forma mantendo uma estreita ligação, que não deixava a pessoa achar que estava num aposento que não fosse seu.
Gina entrava naquele banheiro fantástico e não via rastros de mais ninguém, não sentia o cheiro de mais ninguém. Na Toca, quando entrava no seu modesto banheiro, olhava as cortinas molhadas pela última pessoa que havia tomado banho ali, e o cheiro do xampu ainda dançava levemente pelo ar. Encontrava cachos do cabelo de Rony (e sabia que pertenciam a ele por serem mais enrolados que o de qualquer um dos Weasley), inscrições indecifráveis e jogos da velha no espelho embaçado e um ou dois jeans embolados no chão, o que sempre a enchia de raiva. Mas era como saber que estava em casa.
A banheira estava cheia, e Gina derrubou sais de banho na água, fazendo o vapor subir quente e perfumando. Depois despiu as roupas e entrou, amarrando o cabelo para cima da cabeça. A água era como um purificador natural para qualquer coisa, e Gina sentiu que poderia dormir ali para sempre, envolta em vapor quente e cheiroso, os olhos fechados.
Então, depois de muito tempo, ela abriu os olhos, espantada.
Como a noite descendo, ou como uma capa preta caindo sobre seu corpo, um sopro gelado apagando a chama de uma vela, uma escuridão abateu-se sobre seu coração, um silêncio fúnebre estacou em seus pensamentos, no ar e no tempo.
Gina tremeu.
Não estava mais sozinha. O vapor continuava a se acumular no teto e no chão, e começava a formar uma densa camada turva ao redor da banheira. Gina esticou o braço e desligou as torneiras. Enquanto o vapor se dissolvia, as veias dentro de seu pescoço palpitavam como tambores. Um vulto negro apareceu perto da janela, aos poucos tomando forma e cor. Uma estátua incrivelmente branca e vestida de negro, os olhos vivos demais, perfeitos de cinza. Ela compreendeu, assim como se fazem as grandes idéias, assim como acabam os primeiros segundos do dia, que tudo estava apenas começando.
O vapor se dissipou por completo. O assombro de Gina misturou-se com o fascínio; ela estava franzindo a testa gravemente. Via Tom Riddle, mas não era Tom Riddle. Muita coisa havia mudado, o que ele fizera consigo mesmo? Era a coisa mais deslumbrante que já vira, ah, sim, deslumbrante, como se a lua tivesse descido dos céus e o fabricado com sua luz, o rosto, o pescoço e os dedos para fora da comprida manga da camisa. Uma criatura branca e luminescente, os olhos brilhando como obsidianas. E havia a coloração pálida e suavemente rosada dos lábios, os dentes alvos e opacos debaixo do sinistro sorriso lembravam as teclas de um piano.
Ele se moveu para perto da banheira e Gina não conseguia piscar, não conseguiria se mover, se assim desejasse. Tom tocou a água tranqüila na banheira e ela começou a se transformar; nuvens vermelhas desabrocharam debaixo da água como uma explosão de sangue, e as nuvens se multiplicaram sutilmente na direção de Gina.
"Oh, meu Deus", ela murmurou, então se afastou bruscamente para trás.
Sangue, sangue sangue, era tudo que conseguia pensar. O cheiro do sangue a deixava tonta, o vermelho do sangue cintilava mais que um rubi. Lembrou-se do acidente de carro em Londres, anos atrás. Sangue negro na noite, a luz ambárica da lamparina era forte e radiante como o sol que se punha na janela atrás de Tom, no horizonte. Mas quando aquele mar convulsivo de vermelho estava preste a tocar seu corpo, algo extraordinário aconteceu: o sangue tornou-se leite.
Tom falou, a voz arranhada e áspera soando calma: "Não se assuste, minha querida..."
Mas Gina estava o olhando de modo nocivo.
"Afaste-se de mim", disse, estava chorando e cerrava os dentes com força. "Porque ainda eu, Tom? Me deixe em paz porque não tenho nada a lhe oferecer. Talvez tivesse no passado, e você soube aproveitar o que eu podia lhe oferecer, mas agora já não existe coisa alguma."
Ele recuou, encarando-a com desconfiado retraimento, como se Gina o tivesse ofendido, e havia tanta coisa estranha naquele rapaz esguio... Certamente ele era Voldemort sob o disfarce elegante do garoto sério e taciturno de dezessete anos, mas os olhos...eram realmente de Tom, do Tom que ela conhecera na Câmara Secreta e que ainda chorava pelas covardias do mundo e irritava-se com a simplicidade das coisas. Agora parecia que ele tinha medo de responder, ou talvez tivesse medo de até mesmo pensar naquela resposta. Mas ergueu os olhos cinzentos para Gina, e eles estavam novamente pulsando o brilho misterioso de sempre.
"Foi você quem me procurou", ele disse. "Sim, ainda você, como poderia ser diferente? Você apareceu quando eu estava quase desistindo, porque todos os meus caminhos estavam atrofiando, as únicas coisas que me sustentavam eram os meus sonhos...", ele fez uma pausa, como se reconstruísse seus sonhos cuidadosamente em sua mente. Depois fitou Gina com raiva. "Você ainda me serve, ou porque acha que ainda está viva? Eu queria matá-la no início, derrubar a última peça ainda em jogo no tabuleiro, mas quando você crescesse, quando atingisse a idade que Gabrielle nunca atingiu, você seria útil novamente. Você seria ela."
