Primeira Parte

Capítulo seis - Obsessão

"Foi você quem me procurou", disse Tom vagarosamente. "Sim, ainda você, como poderia ser diferente? Você apareceu quando eu estava quase desistindo, porque todos os meus caminhos estavam atrofiando, as únicas coisas que me sustentavam eram os meus sonhos...", ele fez uma pausa, como se reconstruísse seus sonhos cuidadosamente em sua mente. Depois fitou Gina com raiva. "Você continua me servindo, ou porque acha que ainda está viva? Desde o início eu sabia que você me serviria por muitos anos, e quando você crescesse, quando atingisse a idade que Gabrielle nunca atingiu, você seria útil novamente. Você seria ela.


A história de Gabrielle

A casa onde eu nasci continua a mesma, até hoje os jardins são da exata maneira como eram quando o primeiro lustre foi desligado e esquecido no teto fundo e escuro, agora que não era mais a moradia de um trouxa. A Mansão Riddle permanece intacta mesmo estando desabitada, e eu sei bem o motivo. As pessoas têm medo de se aproximar do nosso terreno porque, afinal, três pessoas foram misteriosamente mortas da noite para o dia ali na sala, e não houve nenhum cadeado arrombado, nenhuma tranca quebrada, e o mais fascinante, não havia sangue no chão. As pessoas simplesmente amanheceram sem vida, pai, mãe e filho. Somente o fiel jardineiro continuou trabalhando ali, aparando regularmente a grama que, sob a sombra da moribunda Mansão, parecia crescer com mais rapidez do que nunca. Franco era seu nome, um nome apropriado.

Mas a Mansão Riddle já era estranha antes mesmo das mortes, apesar de ninguém nunca ter percebido coisa alguma, jamais ter notado nada.

Franco possuía uma pequena família, e não consigo recordar quanto tempo ele nos serviu, quando eu nasci ele já trabalhava para nós, era casado e tinha dois filhos. A esposa dele, Margaret, era uma mulher baixa, de faces muito coradas e olhos miúdos de fuinha. Entretanto não conseguia entender como duas criaturas tão pouco interessantes geraram outras duas tão diferentes, tão perfeitas. Leonard tinha alguns anos a mais do que eu e as garotas do vilarejo o seguiam quando ele estava fazendo entregas, mas elas eram tontas, seguiriam qualquer coisa. E ele sempre as ignorava, talvez por achar que se abrisse a boca um dia elas descobririam que isso era tudo que ele tinha; a aparência. Bem, Leonard possuía muito mais do que isso, mas por hora basta apenas saber que ele era um garoto de dezesseis anos, sério e quieto.

Gabrielle era sua irmã, e dela eu lembro tão nitidamente que às vezes, quando acordo no meio da noite, a vejo parada na janela me observando, etérea, o rostinho inclinado como que para a lua e os olhos de boneca transmitindo qualquer coisa muito distante. Ora, ela era uma criança com pensamentos de adulto. Um ser que eu jamais conseguiria entender, embora somente tivesse tentado já tarde demais.

Certa noite desci até a cozinha e a encontrei servindo uma mulher pobre, magra, mas jovem, que usava um casaco puído de lã que cheirava a amônia e suor, e algo mais que eu desconhecia mas era infinitamente mais forte que o álcool. Os cabelos estavam muito despenteados no alto da cabeça, e o aspecto geral era ainda pior porque eles eram longos, grandes e destruídos.

Mas ela fora carinhosamente convidada a entrar e sentar-se à mesa, e agora comia avidamente um pedaço de pão e chupava um prato de sopa ao mesmo tempo. Gabrielle a olhava, taciturna. Um pouco mais distante, Leonard afiava as facas na máquina, o pé subindo e descendo no motorzinho que fazia a pequena roda de metal girar, as faíscas explodiam no ar, muito perto de seu rosto. Estava, como sempre, muito concentrado.

Então, de repente, eu vi um brilho na mulher. Algo grande e cintilante que tremeluzia entre as dobras de seus farrapos. Eu estava distante demais, malmente enxergava as janelas atrás de Gabrielle, a neve caindo grossa lá fora. Mas, como uma lógica que se faz obvia de repente, compreendi tudo.

No segundo seguinte Gabrielle estava se aproximando da mulher, a surrada saia azul ondulando e arrastando no chão.

"Mais leite?", perguntou à mulher.

"Claro, Mademoiselle", respondeu a mulher.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Gabrielle passou por trás da mulher, como se fosse até a geladeira, então ergueu os braços, eu vi o enorme pedaço de ferro apertado entre suas mãos, ela golpeou o alto do crânio da mulher. Creio que houve um enorme ruído, barulho de osso espatifando, mas o som do metal sendo afiado por Leonard era mais alto que isso, de modo que tudo pareceu natural e silencioso; a mulher desabou sobre a mesa como uma boneca sem vida. O sangue desceu por cima de seus olhos abertos. Em seguida Gabrielle enfiou a mão dentro das vestes da mulher. Eu podia ver seu pequeno cérebro funcionando rapidamente, ela havia percebido tudo antes de mim, antes de seu desatento irmão Leonard. Quanto a ele, permanecia afastado e alheio a qualquer coisa que se passava na cozinha.

Eu fiquei espantado quando vi o enorme colar de pedras preciosas saindo, como um fio colorido e muito brilhante, de dentro das roupas da mulher, sendo puxado pelas mãos de Gabrielle. Ela não estava surpresa, talvez tivesse ficado no instante em que a mulher bateu na porta, mas agora tudo aquilo parecia muito banal para ela.

Continuei parado ali, o sangue pela mesa me espantava mais que o vermelho dos rubis. Era realmente muito vivo, eu estava apaixonado por tudo, pela mulher e pelo sangue que saia dela, mais belo que qualquer outra jóia, e estava apaixonado por Gabrielle.

Com muito cuidado, Gabrielle limpou a mesa e retirou a mulher da cozinha, a levando para algum lugar lá em baixo, talvez no porão. Muito fácil, pois a mulher não devia pesar muito mais do que ela, uma garotinha de doze anos. Depois voltou e, pondo um banquinho perto da pia, lavou as louças que a mulher havia usado.

O tempo todo ela sabia que eu estava a observando.

No dia seguinte ela foi me encontrar na Sala de Música. Eu estava perto dos violinos, pois eu adorava os violinos e os sons que eles podiam produzir, e nesse sentido eu admito que não somos tão espertos como os trouxas, não conseguimos fazer sons mais elaborados que o fervor de um caldeirão ou a explosão de um feitiço. De modo que eu dedilhava aquelas cordas duras e frágeis dos violinos, examinando cada som que o par arco e cordas fazia. Vi primeiro a borda de seu vestido de seda roçando suavemente o chão, e depois tomei consciência dela.

O colar que ela havia pego na noite anterior estava apertado de encontro ao peito. Me olhou inexpressiva durante bastante tempo, depois pareceu que a minha visão a emocionou de alguma forma, e ela se aproximou de mim quase correndo.

"Isso não se faz, Gabrielle", eu lhe disse, sentando no banco aveludado do piano.

"Tom, meu querido", ela segurou meu rosto e me fez olhá-la nos olhos escuros, azuis e raivosos como o mar em tempestade. Mas a voz era delicada como sempre fora. Ela era delicada. "Para quê? Pense nas coisas reais que você já sentiu, em tudo que seus pais lhe ensinaram e perceba o quanto tudo isso pesa sobre nós, o quanto é inútil. Nasça pela segunda vez, aprenda tudo de novo porque é nisso que a humanidade está se transformando. Daqui a algum tempo será muito comum! As pessoas vão caçar umas às outras por riquezas, talvez muito menos."

"Gabrielle, você a matou!", eu exclamei. Não podia acreditar.

"A morte é sempre o nosso destino mais certo. Você a viu, iria morrer, estava bêbada e drogada, e era ladra. Uma ladrazinha ordinária! Agora veja, Tom. Olhe como é perfeito..."

E ela abriu as mãos, me mostrando o colar como quem mostra uma graciosa borboleta. Sim, era magnífico, o verde, o vermelho, o negro, o amarelo e até mesmo o transparente dos cristais e os finíssimos fios de ouro entre as pedras. Pensei nas meninas pálidas em Hogwarts, nas pulseiras sem brilho que usavam e nos brincos miúdos que punham nas orelhas, a maneira educada e contida de falar, os cílios sempre baixos. Tudo aquilo me enjoava, a falta de ação nas coisas, a conformidade das palavras e dos pensamentos, por isso o sangue era tão extraordinário para mim, corrompendo a pele frágil dos mortais, era como as notas de um violino, e Gabrielle, ainda muito nova, tinha o encanto de uma rainha.

Ela puxou os cabelos para o alto da cabeça e se virou de costas. Eu me levantei e fechei o colar em torno de seu pescoço. Gabrielle deu a volta no piano e se olhou na superfície negra e lustrosa da madeira.

O sol entrava pelas cortinas de organiza, seda e veludo atrás dela, aumentando o branco de seu vestido, de sua pele, e iluminando os longos cabelos ruivos. Ela encolheu os pequenos ombros, e eu a achei parecida com uma fada, mais semelhante às fadas dos contos que as verdadeiras, que eram criaturinhas irrequietas e de dentes afiados. Uma escultura mágica como L´Aurore e tantas outras que marcaram o século por sua sedutora delicadeza.

Acredito realmente que ela não se desfez totalmente do corpo da mulher, talvez tenha queimado a carne, os ossos, mas algumas vezes eu a via com luvas macias e alvas de pele, usava quando íamos até a igreja. É claro que eu apenas acompanhava Franco e a família, não gostava de igrejas, achava ridículo tudo aquilo, pessoas se reunindo sob um teto cheio de ouro e imagens sem valor, fazendo orações para um Deus onisciente e onipotente! E depois, quando li alguns trechos de uma bíblia velha de Leonard, tornei-me ainda mais intolerante sobre aquele assunto. Um homem e uma mulher teriam dado início à vida humana na Terra, eles haviam gerado filhos, mas e o resto da espécie, como havia sido proliferada se é impossível que relações consangüíneas resultem em seres normais? E mais e mais contradições. O que me comovia era a fé das pessoas, a força com que acreditavam naquelas extravagâncias. Como já disse, ia até a igreja por uma convenção da nossa família, que era de bruxos e não queria despertar curiosidades em Franco e sua família trouxa.

Mas isso não demorou muito. Logo eu deixei de fingir tantas coisas que não era, e na verdade ninguém se importou. E não se importariam de qualquer forma.

Ainda não falei de meus pais. Eram pessoas muito pacíficas, em resumo. Quando estava em casa, nas férias de verão e no Natal, sentia uma necessidade quase física de voltar para Hogwarts, para suas passagens secretas e as salas escuras cheirando a incenso e caramelo.

Acontece que não tenho muita coisa para falar de meus pais, eles eram como peças neutras num jogo, coisas sem sentido no meio de uma estante com porcelanas. Minha mãe era mansa demais, desde sempre isso me causava irritação, perdoava muito, tinha uma ingenuidade desmotivante, do tipo de pessoa capaz de ficar horas olhando um ponto fixo, pensando, sem se mexer, sem piscar, apenas respirando. Eu chegava da Hogwarts com inúmeras coisas para contar, o meu primeiro ano lá foi estranho e engraçado, mas ela jamais soube disso, não porque eu não tivesse vontade de contar, eu até contei, mas garanto que ela não ouviu.

Quanto a meu pai, era a criatura mais desinteressante que eu conheci até hoje. Muito mais inválido que minha mãe. Ela gostava de livros e gastava o tempo que não dava para mim com eles, mas meu pai não sabia ler, ou se sabia ao menos formar frases, jamais demonstrou. Acredito que soubesse, caso contrário não teria tido condições de se formar em Hogwarts, mas sempre que pedíamos para que lesse alguma coisa, ele franzia o cenho em estado de confusão, olhando as letras em sua frente, e terminava por ir embora, parecendo aborrecido. Jamais entendi esse comportamento.

Até onde me lembro, o universo ao meu redor era tranqüilo – exceto quando Gabrielle agia de forma inesperada, mudando, à sua maneira de Dona do Mundo, o rumo das coisas – quieto e com poucos fatos interessantes.

Quando Franco foi convocado para a guerra, eu não tinha a menor noção do que significava tudo aquilo, de que ele poderia não voltar, o que era bastante óbvio, e não entendia porque sua esposa chorava tanto e durante tanto tempo, assim como Gabrielle e, com menos freqüência, Leonard. Eu via Gabrielle em seu quarto, a testa encostada junto à janela e lágrimas de açúcar brilhando em seu rosto.

"Pare de chorar", eu dizia, admirado, e me aproximava para olhá-la, para ver seus olhos tristes, porque aquilo me extasiava; ela ficava muito mais frágil. "Não se sente bem?"

Mas Gabrielle me empurrava com violência, me encarava rapidamente, o rosto deixando de ser meigo e tremendo de raiva por mim, depois saía do quarto. E eu nunca entendia.

Foi Leonard quem me explicou.

"A Guerra é para se morrer, é como uma penitência e não se deve fugir dela. Cedo ou tarde ela virá, de qualquer forma. Morrer: é nossa única convicção."

"Já disse que não acredito nisso", eu replicava, realmente indiferente.

Leonard não se dava ao trabalho de continuar as conversas que tínhamos, ele não se mostrava interessado em quase nada do que as pessoas diziam ou faziam. Talvez por isso estivesse sempre sozinho, certamente se achava bom demais para os outros, ninguém o agradava, ninguém o fascinava o bastante para conseguir prendê-lo em algum assunto por mais de alguns minutos, nada era forte o suficiente para pará-lo ou para afetá-lo. Leonard não era forte, como eu pensei durante tanto tempo e o desprezei por isso, como desprezava e odiava aqueles que eram melhores do que eu. Ele apenas não agüentava lidar com a realidade das coisas. Preferia virar de costas para elas, antes que elas o atraíssem e o sugassem.

Pois bem, com a Guerra as coisas começaram e também terminaram. A mulher de Franco se encaminhou para uma forte e silenciosa depressão, que dentro de quatro meses a enfraqueceu de tal forma que qualquer mudança de temperatura, ainda que mínima, era o suficiente para derrubá-la. Passava horas rezando no quarto e não deixava que ninguém se aproximasse de sua porta, nem mesmo os filhos, porque imaginava que não havia outra pessoa no mundo que tivesse mais fé e esperança do que ela. Cada dia rezava mais, e aos poucos acho que já não conseguia rezar também, porque abríamos a porta durante a madrugada e a víamos desacordada perto do altar improvisado que ela mesma fizera. Recusava-se a alimentar-se. No outono daquele ano, faleceu.

Certamente era tudo por causa de Franco, pela ausência dele. Mas era dramático! Uma magnífica comédia dramática. Como um efeito dominó, Leonard e Gabrielle também começaram a definhar. No começo pareciam desnorteados como gatos largados no meio da rua; não choravam, franziam invariavelmente a testa como se se fizessem perguntas íntimas que exigiam respostas muito complicadas e tinham súbitos acessos de apatia que perduravam dias e dias. Uma vez achamos Gabrielle nos jardins, sentada na borda da fonte com uma flor na mão, as pétalas violáceas começavam a apodrecer entre seus dedos. Ela havia ficado paralisada ali a mais de um dia, como uma estátua branca! A levamos para dentro e nessa noite ela entrou no meu quarto. Apenas escutei o ruído da maçaneta girando e depois senti o perfume dela, ainda mais forte quando ela se aproximou e deslizou na cama, enterrando a cabeça na curva de meu pescoço. Ela estava próxima de fazer quinze anos, era mais velha que eu quase um ano, mas na maioria das vezes eu ignorava esse fato, até hoje, quando vejo Gabrielle em meus sonhos é como uma irrefreável menina de doze anos.

Naquela noite eu não dormi, parecia que todo meu sono tinha, de alguma forma, passado para Gabrielle e foi ela quem adormeceu. Teve quinze horas ininterruptas de sono. Quando o sol começou a entrar pela minha janela, eu me virei e a vi ali do meu lado, um perfeito anjo de cabelos de fogo ondulando pelos seus ombros e braços. Havia uma suave cintilação líquida debaixo de seus olhos e entre os cílios.

Nas vésperas de seu décimo quinto aniversário, Gabrielle tentou matar o irmão.

Ninguém nunca notava. Por isso a idéia de que ela pudesse ter entrado no quarto do irmão durante a madrugada e atirado uma caixa de fósforos inflamada de fogo nos lençóis em que ele dormia era hedionda. Mais fácil seria crer que aquilo decorrera de uma combustão espontânea, ou que a casa estava infestada por espíritos maliciosos, como o próprio Leonard estava, á princípio, inclinado a acreditar.

Acontece que Gabrielle sempre tivera essa revolta oculta contra o irmão. Fazia muito tempo que ela havia me dito em voz baixa numa noite qualquer enquanto olhava, inexpressiva, a lareira apagada:

"Ele é muito bonito. As pessoas não conseguem vê-lo, não agüentam o ter por perto sem se interessarem. Às vezes pensam que é uma miragem. O que nenhuma delas sabe é que ele é um egoísta, e rouba de mim tudo o que pode."

Eu sabia que ela se referia à atenção. Na verdade, Leonard era estranho com os outros, mas sempre foi muito ligado aos pais. Gabrielle não suportava isso, dizia que sentia facadas no peito quando via seu pai tocando nele, a mãe beijando seus cabelos.

Certamente fora ele quem mais sofrera a perda dos pais. Franco podia não estar morto, mas isso era questão de tempo. Leonard realmente estava vivendo só por viver. Durante as primeiras semanas após a morte da mãe, Gabrielle cuidou do irmão como se ela mesma não precisasse de cuidados. Fazia para ele tudo que sua mãe costumava fazer, e ainda muito mais. Acordava tão cedo que o céu não tinha tido tempo de clarear, ia para cozinha e ficava lá até que Leonard levantasse para tomar café e cuidar dos cavalos. Então ele sentava à mesa e ela a enchia de bolos, pães de todos os tipos, o leite mais fresco e branco que se podia comprar na vila, pêssegos e geléias. Depois perguntava se ele havia dormido bem, no que ele sempre respondia "sim" sem refletir. Nas tardes sem sol, especialmente porque detestava sol, Leonard sentava lá fora no jardim e era capaz de permanecer horas ali, sozinho e em silêncio, mordiscando um fiapo de mato, se não fosse a presença de Gabrielle ao seu lado, que começava a se tornar constante.

Ela geralmente aparecia sem fazer ruídos, e quando ele se dava conta ela já estava lá, o olhando sem expressão alguma no rosto, como se pudesse arrancar-lhe pelos olhos todas as respostas às perguntas de ódio que tinha.

Ele sempre agia com uma fria indiferença a tudo aquilo. Às vezes parecia que fazia questão de mostrar o quanto estava pouco interessado nas cortesias da irmã.

Bem, é claro que Gabrielle entendeu o recado.

Se Leonard não tivesse morrido naquela vez, provavelmente morreria mais tarde, porque Gabrielle havia ficado ainda mais furiosa e indignada por não ter conseguido se livrar dele para sempre e voltaria a tentar. Todo o antigo ciúme que sentia se convertera em mágoa e depois em ira. Eu jamais a havia visto tão impaciente, tremia inteira só em ouvir a voz de Leonard, em sentir o cheiro dele pela casa ou se deparar com sua imagem. Ela continuou tentando liquidá-lo. Um dia o cavalo que Leonard montava empinou de repente e inexplicavelmente, o jogando contra uma árvore, e na confusão o cavalo quase pisoteou o rosto de Leonard, que ficou inconsciente durante vários dias. O cavalariço mais jovem que trabalhava conosco advertiu que havia sangue nos laços de couro que prendiam a cela por debaixo do cavalo, e um pedaço afiado de vidro estava preso ali, perto da barriga do animal.

Cada dia que passava Leonard se tornava mais propenso a acidentes desse tipo, Gabrielle o odiava mais e odiava também minha mãe, que estava planejando mandá-la para um internato na Escócia. Tinha menos simpatia ainda por meu pai, que invariavelmente tentava tratá-la como uma segunda filha.

"Não coma mais na cozinha, Gabrielle", ele lhe dizia. "Não há motivos para isso. Se quiser, pode ficar com o quarto de hóspedes no final do corredor, e providenciaremos uma bela mobília para ele."

Ela se limitava a lançar um olhar de desprezo para meu pai. No entanto pediu que lhe emprestasse os livros que tinha na biblioteca.

Mas era difícil entender porque ela não tinha nenhuma raiva de mim, o que eu tinha que nenhuma pessoa viva que ela conhecia não tinha? Porque ela tinha um ódio fatal por Leonard, que apesar de recolhido encantava homens e mulheres sempre, porque olhava feio para as pessoas na rua e fazia maldades com quem quer que tentasse se aproximar dela, como fez um dia com a filha do dono do empório, derramando um pó degradante na escova de cabelo da garota, de alguma maneira misteriosa? Dias depois percebia-se que os cabelos dela estavam rareando e ela ficaria sem cabelo em pouco tempo.

Gabrielle tinha uma raiva irrefreável pelo mundo inteiro, sentia-se sempre superior às outras pessoas e tinha certeza de que ninguém merecia sua companhia, e nesse aspecto ela era maravilhosa. Não havia nada no mundo que pudesse pará-la ou intimidá-la, deixava sempre muito claro para os que gostavam dela que não retribuiria esse sentimento, que aquele tipo de coisa era desprezível. Como se o fato de alguém a amar fosse um insulto à sua própria pessoa.

Isso tudo não valia para mim.

Quando eu via Leonard tendo acidentes cada vez mais violentos, a filha do dono do empório sendo severamente castigada e sem saber porque, meu pai recebendo olhares fuzilantes e sem saber o quanto era inconveniente para aquela ingênua garota de quinze anos, eu me enchia de alívio e medo ao mesmo tempo, porque eu era o único que Gabrielle adorava. Ela não tinha pensamentos ruins sobre mim, não desejava minha morte, não dissimulava para mim, e para ela foi um choque receber a notícia de que definitivamente seria mandada para um internato.

"Entendo", fez ela em voz baixa.

"Você já cresceu o suficiente e o que percebo é que está perdendo seu tempo aqui", disse minha mãe. "Se não for agora, ficará tarde demais para aprender as coisas."

"Tenho os livros que..."

"Ah, meu bem. Sim, os livros ensinam, mas o que eles podem nos dar ainda é muito pouco e abstrato. Você deve aprender coisas concretas, úteis de verdade."

"Vou para um internato de garotas?", Gabrielle interrogou, franzindo as sobrancelhas.

"Sim."

Aquilo a enfureceu.

"Um bando de garotas desmioladas!", ela exclamou para mim, mais tarde. "Boas maneiras, isso é útil para eles, declinar palavras em latim, isto é algo essencial hoje em dia! 'O que é isto que você está bebendo?', 'vinum, vinum, vino, vina, vina, vinis'! Ora, que ridículo."

Ela estava inconformada. Havia placas vermelhas em seu pescoço e em seu rosto, os olhos brilhavam tanto e com tanta fúria que poderiam explodir. Eu estava sentado na cama e Gabrielle me olhou, no mesmo instante sua expressão descontraiu e ela ficou apenas séria, os olhos não mais tão raivosos, mas conservando a intensidade do azul escuro e radiante.

"Porque não tem raiva de mim, Gabrielle?", eu perguntei, não mais suportando.

"Você não é normal", ela respondeu simplesmente.

"Não sou normal?"

"Não, não é. As pessoas que conheço são normais, elas são estúpidas e burras, são normais porque não fazem a mínima diferença no mundo. Mas você faz, ainda que ninguém saiba. Assim como Deus não sabia que seu anjo mais belo e fiel faria alguma diferença um dia, Lúcifer seria o Príncipe das Trevas."

Eu fiquei aturdido, sem saber o que falar. Até hoje aquelas palavras ditas por Gabrielle em forma de sopro giram em minha cabeça, como ela teria descoberto, e isso me faz achar que eu sempre fui o que viria a ser. E que todos já nascem sendo o que se tornarão um dia.

Eu não disse mais nada, e de repente senti o corpo de Gabrielle perto do meu, e suas bochecha tocando a minha, a pele aveludada do rosto roçando no meu muito lentamente, gelada e macia.

"As pessoas são normais, meu querido Tom", ela estava murmurando tristemente. "Imagine a minha decepção ao descobrir isso."

Minha mãe me enviou a primeira carta de Gabrielle em dezembro, nas férias de natal do meu quinto ano em Hogwarts. Eu estava sozinho no escuro Salão Comunal da Sonserina, agindo como minha mãe agia e ficando imóvel e em silêncio por muito tempo, quando uma coruja parou na janela e ficou fazendo estardalhaço para que eu abrisse o vidro. Eu fiz isso, e voltei para a poltrona para ler a carta. Junto com ela também havia uma mensagem de minha mãe, que eu deixei de lado e abri a carta de Gabrielle. Só em ver a letra elegante e sentir o cheiro dela no papel, meu sangue bombeou freneticamente, eu comecei a tremer.

Ela não escrevia a mais de nove meses e não deu satisfações sobre isso.

É um pesadelo. Não me importo em precisar usar um uniforme que seja igual ao de todas as garotas, ou com as regras, porque acabo descobrindo uma maneira de burlá-las e nunca ninguém percebe nada. Eles nunca percebem, são um bando de burros, como eu havia lhe dito. Mas não sei até quando vou suportar essas garotas com seus gestos delicados e suas vozes esganiçadas. Elas se reúnem de noite para falar de roupas e falar de rapazes. E não podemos ler qualquer coisa, nossos livros precisam ser inspecionados pelas freiras; Platão é proibido, assim como Debrey e algumas obras de Shakespeare, Hamlet, por exemplo.

Era apenas isso. Intrigado, peguei a mensagem de minha mãe. Em três linhas ela dizia para que eu fosse para casa, levasse as roupas escuras que eu tinha e costumava usar em Hogwarts. Ela precisava falar algo importante e urgente para mim.

Assim que cheguei em casa, soube o que era. Quando minha mãe me olhou, tive certeza.

"Trouxe as roupas escuras?", ela perguntou, desviando os olhos.

Eu fiquei imóvel. Imaginei a voz de Gabrielle em minha mente "A morte é sempre o nosso destino mais certo. Você a viu, iria morrer, estava bêbada e drogada, e era ladra. Uma ladrazinha ordinária! Agora veja, Tom. Olhe como é perfeito..." Depois imaginei sangue, a mesma tonalidade dos rubis no colar.

Ela tinha se suicidado. Suicídio, essa palavra tão bela e que carrega milhões de implicações em seu significado. O que ela teria pensado quando se jogou do alto da torre dos sinos? Até quantas batidas por minuto seu coração teria alcançado antes de parar completamente? E porquê, o que havia de errado? Eu precisava entender. Gabrielle parecia um sonho que tinha acabado abruptamente, eu também me senti como um sonho, achei que minha vida se resumia numa ilusão que um dia certamente acabaria, e esse fim nós convenientemente chamamos de morte, o que nada mais é que o fim das ilusões. O fim do sonho.

Eu fui até o caixão no alto do altar, olhei para ela, e precisei me segurar nos compridos castiçais de ferro ao meu lado, tamanho foi o meu choque. Ela não estava morta. Não podia estar, estava mais viva que antes, a pele branca e opaca, os lábios suavemente corados, e os cílios, as sobrancelhas e os cabelos tão maravilhosamente ruivos, podia-se achar que o sangue fluía também por eles. Me virei para minha mãe e lhe disse que Gabrielle estava viva, que estavam cometendo um erro. Ela não sorriu e me corrigiu, alegando que era muito comum que os mortos ficassem tão radiantes momentos depois da morte.

No entanto, olhando para ela, eu a vi mover os lábios, e me virei para as pessoas ao meu redor, confuso. Pessoas bem vestidas e cheirando bem, os tecidos de suas roupas brilhando como jóias líquidas, os véus de filó ocultando os rostos sem defeitos das mulheres, e todos estavam calados e pesarosos por Gabrielle, gente que talvez nem ela mesma soubesse que podiam existir e que a conhecessem. Me voltei outra vez para Gabrielle e escutei, como uma sinfonia distante:

"Olhe para elas, Tom. Essas belíssimas criaturas, sinta a delicadeza de seus olhares sobre mim, escute as preces que elas fazem enquanto pensam na safra do vinho que provaram ontem, observe os fios de cabelo tão brilhantes, o morno da pele, e os vermes que se enroscam dentro de suas barrigas em silêncio. Veja tudo isso e tenha ódio de cada um deles, de seus mundinhos obscenos, suas vidas que se assemelham a uma chama débil de uma vela derretida. Seus esforços sem propósito."

Nessa mesma noite, ela continuou, o queixo acoplado na curva de meu pescoço e a respiração frágil rufando em meu ouvido:

"Mude tudo isso, Tom, descubra um meio de ser diferente. Já que não temos certeza de coisa alguma, ao menos tenha certeza de ser o melhor. Faça eles o adorarem ou o odiarem, pense que isso é a única coisa que vale a pena, já que somos feitos de projeções de pensamentos, que sejam projeções inigualáveis."

Imortal. Era o que ela queria dizer, queria que eu fosse imortal, como ela não tinha conseguido ser, como milhões de pessoas não conseguem ser, e passam a vida tentando descobrir um caminho, um meio para se realizarem, e jamais percebem que o orgulho e a vaidade, esses sentimentos tão pouco valorizados é o que nos move. A imortalidade através dos séculos, a marca na história das gerações, eu precisava fazer algo único, algo gigante, ela estava querendo dizer isso afinal. Tom, seja grande, seja o melhor ou o pior, mas apenas seja inesquecível.

Mas como?

A idéia começou numa tarde comum de verão, enquanto eu folheava os livros de História da Magia durante uma aula de Estudo dos Trouxas. Alguém havia perguntado sobre os imortais da história dos trouxas, e eu ouvi um turbilhão de nomes sendo soprados em voz alta. Einstein, Napoleão, Mozart, e até mesmo Coco Channel, uma mulher ainda bastante jovem naquela época.

Platão. – um garoto murmurou ao meu lado, e eu o olhei de imediato, quase pedindo para que repetisse o nome.

Sim, Gabrielle havia lido os livros dele. Havia citado seu nome na minúscula carta que me mandara, "E não podemos ler qualquer coisa, nossos livros precisam ser inspecionados pelas freiras; Platão é proibido, assim como Debrey e algumas obras de Shakespeare...". Ainda vidrado no garoto, pedi em voz baixa que ele me falasse de Platão. O garoto me olhou, perturbado com a pergunta.

"Um filósofo grego", disse. "Não acredito que nunca ouviu falar."

"Sim, já ouvi. O que ele fez?"

O garoto deu de ombros. Não sabia explicar.

A biblioteca de Hogwarts era fantástica, mas é claro que eu não ia encontrar os livros de um filósofo trouxa ali. De modo que foi em casa, nas férias de verão daquele ano, que os procurei nas estantes enferrujadas de livros de meu pai. Os achei, como esperava, e quando os abri não pude ficar de pé. Desabei numa poltrona perto da mesa, porque o cheiro de Gabrielle era muito forte, como se seus dedinhos perfumados tivessem acabado de folheá-los. Entre soluços eu li todos eles ainda naquele dia, devorando cada pensamento, cada idéia, ávido e cheio de raiva, porque o cheiro dela me feria. Eu estava entrando em colapso, uma convulsão de sensações, de ódio, e eu sequer sabia porque. Era como se eu tivesse sofrido uma injustiça muito grande e me rasgasse por dentro por não poder fazer nada. Então Leonard entrou na biblioteca e meu viu entre os livros, alguns rasgados devido a força que eu colocara em suas folhas, o couro da capa frisado porque eu o apertara enquanto lia. Não sei o que ele pensou disso tudo, mas se se espantou ou se achou engraçado, não demonstrou. Apenas falou que eu iria achar Nietzsche infinitamente mais interessante, já que estava tão comovido com Platão.

Mas eu não estava interessado naquele outro. Eu poderia estar procurando coisas de qualquer outro imortal, eu poderia ter pesquisado sobre os grandes feitos de Napoleão ou sobre as façanhas das antigas civilizações, mas Platão era o sinal de Gabrielle.

"O que ele fez de importante, Leonard?", eu quis saber, agarrando o livro em minha frente e o atirando aos pés dele. "Me diga o que ele fez de tão importante e que o tornou grande."

Leonard quase riu.

"Você entendeu alguma coisa do que acabou de ler?", perguntou.

Eu não respondi.

"Ele fez o que não sabemos fazer ou o que simplesmente não temos vontade ou desistimos de fazer", Leonard falou. "Ele refletiu."

Quando Leonard deu as costas e saiu, eu abaixei a cabeça para meus livros e os odiei. Atirei todos no chão, alguns contra a vidraça da janela, rasguei-os e os pisoteei.

No dia seguinte retornei a biblioteca e fiquei olhando a estante de livros. E fiquei fazendo isso pelo resto das férias. Leonard passou a me fazer companhia; sentava-se num canto escuro da biblioteca e ficava em silêncio, geralmente lendo ou então escovando o veludo das saias de minha mãe. Estava extremamente magro, havia adoecido vezes sem conta desde a morte da irmã, e parecia que até mesmo seus cabelos louros, que geralmente possuíam uma leve cintilação ruiva, estavam totalmente pálidos (morreu de leucemia duas semanas antes que Franco retornasse da guerra). Ele nunca me perguntou ou disse coisa alguma, fui eu quem, nos últimos dias na Mansão antes de voltar para o sexto ano em Hogwarts, disse em voz alta:

"Uma idéia nova, foi o que eles fizeram, e por isso nunca vão ser esquecidos."

Sem levantar a cabeça de seu livro, Leonard murmurou: "Você está enganado."

O silêncio ficou zumbindo depois disso.

"Porque?"

"Talvez o maior mérito não esteja em criar algo novo, mas em mostrar uma perspectiva completamente nova sobre o mesmo assunto. Você não leu Nietzsche, não foi?"

Mas eu não escutava mais, porque não podia acreditar na minha falta de percepção. Esteve o tempo todo tão claro para mim, e eu me recusava a ver. Fui até o meu quarto e procurei o livro de História de Magia, o qual eu folheava naquela tarde quando me surpreendi com o simples nome de Platão. E lá estava, a página dedicada aos fundadores de Hogwarts. O mais fascinante entre todos, para mim, sempre fora Salazar Slytherin.

O resto você pode presumir. Eu trabalhei incansáveis meses, procurei registros da vida de Salazar, seus conceitos sobre trouxas e sangues-ruins, sua estranha relação com Godric, e até mesmo o breve e tumultuado relacionamento com Rowena. A história dele era cheia de buracos, como se ele aparecesse, vivesse dois ou três anos e sumisse, ninguém o via mais, nenhum registro de onde ele havia morado durante aquele tempo, nenhum documento assinado naquela época. Isso foi ficando mais freqüente. Até que ele de repente sumiu de vez, e apareceu quinze anos depois, já morto. Na verdade, a única maneira de saber um pouco mais sobre ele era consultando a histórico dos outros fundadores.

Se lhe interessa, soube coisas até mesmo íntimas sobre cada um deles. Posso descrever com exatidão as características de cada um, a suavidade dissimulada de Helga ou a seriedade constante de Rowena. Durante um ano eu quebrei a frágil barreira do tempo e do limite do homem, eu aprendi Magia Negra para alterar algumas coisas a meu favor, para possibilitar que tudo fluísse da minha maneira, eu aprendi as línguas antigas dos bruxos para ler livros que continham segredos milenares sobre magia, a história das duas vertentes; a Magia Branca e a Magia Negra, eu voltei no tempo para observar os fundadores, embora raramente tivesse acertado a época em que Salazar estava "vivo". Durante um ano eu vivi com aquelas três pessoas, caminhei entre elas sem que elas pudessem me enxergar ou me sentir, escutei a delicada voz de Helga, contemplei seus sedosos cabelos ruivos caindo sobre os ombros quando ela desamarrava as fitas que os prendiam antes de dormir. Escutei os diálogos tristes, ditos em forma de sussurros apáticos, de Salazar e Rowena, quando Hogwarts ainda não tinha alunos e era somente um belo castelo em ruínas, onde a luz da lua enchia as paredes e prateava a relva ao redor.

Não me dei conta de que estava transcendendo demais as regras da natureza. Eu desajustei o tempo, provavelmente o "descolei" do relógio natural das épocas, dos anos e dos minutos. Enquanto eu tentava ajustar as datas, enquanto manipulava o tempo como ninguém jamais havia conseguido, quase emparelhei o passado e o futuro, e você pode imaginar os danos se isso realmente tivesse acontecido. Tudo seria sugado para um grande nada, acredito. Mas o fato é que eu estava começando a viver no passado. E para os que viviam no passado eu era o futuro, por mais que eles não me vissem e não soubessem que eu um dia iria existir. O que aconteceu foi semelhante ao que acontece numa corrida, quando dois carros estão indo um atrás do outro, e de repente passam a correr quase em paralelo. O passado e o futuro acontecendo quase ao mesmo tempo, com uma pequena diferença de alguns anos os separando...mas talvez seja complexo demais para você compreender. Eu sempre fui inteligente demais para a minha idade e atropelava as coisas, simplesmente porque elas eram fáceis demais para mim. Um pequeno gênio sem controle.

Foi quando você apareceu. O meu desastre finalmente tinha trazido as conseqüências. Você tinha onze anos, estava no futuro, mas foi como ter atravessado uma barreira para outra dimensão, para a minha dimensão, o passado. E eu podia ver você e você podia me ver. No exato momento em que você surgiu no centro do meu dormitório, vazio e silencioso, eu entendi que havia dado certo, que o diário que eu havia feito e mandado para o futuro tinha sido achado, e isso era um sinal de que eu tinha sido destruído, embora não soubesse como. O diário servia para que eu tivesse uma chance de me vingar caso fosse derrotado um dia.

Todas as minhas preocupações sobre como e quem havia conseguido me deter falharam e morreram quase no mesmo instante em que apareceram. Eu estava vendo Gabrielle. Ah, você era como uma cópia mais elaborada dela, e a constatação disso foi tão violenta que eu rosnei. Sim, é claro que você lembra. Apenas os olhos mudavam tudo, porque não eram raivosos, mas infinitamente pacíficos e castanhos, quase dourados. Você era a criatura mais vulnerável e bela que eu já havia visto, e só não era tão incrível quanto Gabrielle por falta de oportunidade. Ainda hoje eu vejo que você se torna cada vez mais o que ela foi, que sua mente está aberta, esperando para ser recriada.

Tom parou de falar. Gina o olhava em estado de confusão mental. Várias imagens ressurgiam do fundo de sua memória, perguntas espocavam como pipoca. Então Tom ainda estava vivo, aquele Tom, exatamente seis anos mais velho que ela agora? Seis anos era o que separava o passado do futuro. E Voldemort estava no presente, o que significava que ele havia se duplicado e agora vivia em duas épocas. Um horrível engano de cálculo, uma rachadura irreversível no tempo, algo que apenas alguém com grande capacidade poderia fazer. Difícil demais para entender plenamente.

"E é apenas por isso que você continua viva", Tom falou. A noite já havia começado e sombras fundas cobriam parte de seu rosto, que parecia uma máscara de luz e brilho no lugar dos olhos. "Eu não deixei descendentes que pudessem me servir de alguma forma."

Gina o olhou bruscamente.

"Não vou seguir você! Não vou concordar com as coisas que faz!"

Ele soltou uma risada baixa e longa.

"É claro que não vai. Você vai apenas atravessar novamente a barreira que a separava de Tom, vai encontrá-lo outra vez, o verdadeiro Tom Riddle, e então irá gerar um filho dele."

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