Primeira parte
Capítulo sete -A loucura da Bela Adormecida.
A voz de Draco costumava vibrar entre as paredes daquela casa nas férias de verão. Ela vinha junto com o ar quente da estação, entrava em seu quarto como o sol da manhã: "Mamãe, não acha que já dormiu demais?", aquela vozinha ainda fina perguntava, depois jogava seu peso de pluma sobre a cama, que estremecia e levava embora os restos do sono acumulado em seus olhos como alguém que sopra uma névoa. Ela acordava sempre assim nas férias de verão, com aquele corpinho macio e frágil sacudindo a cama, com aquele olhar arregalado de vidro que deixava escapar, entre a ingenuidade da idade e a confusão da pré-adolescência, a pressa incontida em acordar a mãe preguiçosa.
"Venha cá, garotinho", ela o chamava, e ele vinha, como o filhote dourado de um leão, se enfiar debaixo do braço dela. "Isso. Como foi seu ano em Hogwarts? Fez amigos?"
"Não", ele respondia. "Não há pessoas suficientemente especiais em Hogwarts."
"Ah!"
Ela ria, mas não aprovava em todo aquelas palavras. Draco tinha...uma espécie de superioridade em relação aos outros garotos de sua idade. Não gostava de ter amigos, não permitia que ninguém chegasse perto demais para se igualar a ele; uma amizade era uma disputa disfarçada. Um jogo desvantajoso de interesses: eu te dou minha vida, recheada de pontos críticos, e você me dá sua confiança. Não, muito obrigado.
Mesmo quando não entendia o significado da palavra "disputa", desconfiava de qualquer coisa que o ameaçasse. A pobre babá Patrice não entendia porque o garoto a repelia com tanta freqüência, a ponto de preferir dormir sozinho que com ela do lado. Draco pedia para que ela fosse despedida, um dia ela escutou e entrou no escritório de Lúcio para ter uma conversa com o patrão.
"Quero que me mande embora", disse, grave.
"Porque?", Lúcio perguntou desinteressado, enquanto folheava uma edição antiga e luxuosa de algum livro importante.
"Porque parece que seu filho Draco me...detesta."
"Ele odeia você, Patrice", afirmou Lúcio apático e não levando a conversa a sério.
A garota o fitou com profunda mágoa, e contendo a voz, falou:
"Então o senhor devia contratar outra babá!"
Lúcio não respondeu. Após alguns minutos do mais incômodo silêncio para Patrice, ele murmurou, coçando a testa franzida enquanto deslizava os olhos pelas linhas do livro:
"Não, você está bom."
E Patrice permaneceu na casa, submetida aos gestos cada vez mais rudes de Draco em relação a sua pessoa, por mais quatro anos. Era uma pena que ele a detestasse tanto, pois ela certamente o amava demais.
"Draco, meu querido, não arranque as rosas do jardim", ela pedia docemente.
"Não suporto rosas", ele replicava, despetalando entre os dedos a flor pálida e cheia de orvalho.
"Meu bem, que mal elas lhe fazem?"
Patrice esticava a mão para acariciar os cabelos finos cor de platina que Draco tinha, mas o garoto se afastava deliberadamente. Lágrimas surgiam nos olhos da pobre criatura sempre que ele fazia algo do tipo. E eram mais fortes quando Draco resolvia explicar porque ela ainda estava naquela casa:
"Porque meu pai não gosta de mim e quer me ver infeliz sempre. Odeio você e o fato de precisarmos conviver sempre juntos o deixa satisfeito."
Draco...numa noite consideravelmente sombria, sem estrelas ou lua, ele fez o que ela, sua tranqüila mãe, não podia suportar. Já tinha doze anos e havia se tornado um garoto magro e pálido, somente os olhos azuis e taciturnos transformavam sua expressão insensível, e havia apenas duas coisas que eram capazes de tirá-lo da tranqüilidade e do silêncio misterioso no qual ele se fechava (principalmente para Patrice): Lúcio e ela, Narcisa.
Dois dias atrás ele tinha fatalmente estado no lugar errado e escutado uma tal conversa indevida entre o pai e uma das garotas que trabalhava na casa desde pequena. Desde então estava pensativo demais, observando a garota e todos os trabalhos que ela fazia; limpar o escritório do patrão, espanar os livros e cuidar da roupa suja. Antes de dormir, ela sempre tomava uma xícara de chá na sala de leitura, com Lúcio. Naquela noite, enquanto o pai e a garota conversavam coisas banais, Draco os observava, sentado numa poltrona recuada da claridade que saía da lareira, a cabeça apoiada na mão. Narcisa estava a alguns metros de distância, verificando a lista de convites de boas festas para o natal, alheia ao marido e á empregada. Os olhos agudos de Draco iam da xícara sobre a bandeja para a garota e o pai. Lúcio notou. Desviou os olhos para a esposa, lá atrás, afundada nas almofadas vermelhas do sofá com o livrinho de nomes aberto sobre os joelhos...voltou os olhos para o filho com olhar de gato, então virou-se para a garota, o rosto jovem, talvez não mais que dezessete anos, esboçando um sorriso sereno, e as mãos frescas indo pegar a xícara na bandeira: ela já ia dormir. O corpo de Draco se inclinou na poltrona, os olhos ansiosos refletiram a luz do fogo.
"Maldito!", Lúcio sibilou, e avançou sobre a garota, dando um tapa na xícara em sua mão, que voou longe e se espatifou contra a parede. Narcisa se assustou.
A garota começou a tremer.
"Se...senhor...", balbuciou.
Mas Lúcio olhou o filho, aturdido em sua poltrona escondida nas sombras. Havia ódio ali.
"Você...", começou o homem, "Ora, seu pequeno demônio!"
Narcisa se aproximou, era visível sua confusão.
"Lúcio, o que..."
"Ele ia envenenar Millie!"
Ah, que desgosto. A mãe não podia suportar aquilo...sempre tão rude, malévolo e vingativo, agora tinha tentado matar uma pessoa! Uma moça que não tinha lhe feito mal algum! Ele tinha posto veneno de rato em seu chá, havia aos montes no porão, a região toda era infestada de ratos...Millie não suportava ratos. Oh! Pobrezinha! Ia morrer daquele jeito! Todos deviam sair da sala, queria ficar sozinha com Draco, falar com ele.
"Você é uma peste para nossa família", ela lhe disse. Estava a ponto de desmaiar. "Eu sabia que carregava uma maldição no ventre, a começar pelo sexo! Um menino! Meninos são sempre...tão indelicados. Veja só seu pai, eu achava que você seria como ele, insensível, mas você é muito pior...Ah, Merlim! Você odeia as pessoas, odeia tudo que não tenha o seu sangue!", então ela subitamente estremeceu, o agarrou e o sacudiu pelos braços. " Você vai me odiar um dia, Draco? Responda!"
"Eu amo você, mamãe..."
Narcisa fungou.
"Se...você fosse uma menina...", mas já estava descontrolada e aquele garotinho em suas mãos era apenas um garoto qualquer, não tinha seu sangue, não era seu filho, não podia ser. "Eu podia ter tido uma garota!"
E aquele ruído da xícara se quebrando contra a parede sempre ficara gravado em sua mente, sempre surgia em seus sonhos...era como o som de seu coração partindo. Agora escutava esse som. Algo se quebrando...
Abriu os olhos, parecia que não fazia isso a tanto tempo, não estava acostumada com a luz, ela a cegava...ao longe a voz nervosa de alguém xingando, passos apressados se afastando e uma porta batendo. A neve entrava pela janela semiaberta. Ficou quieta, não tinha forças para levantar ainda, mas seus olhos começavam a se acostumar com a luz diurna, que na verdade era fraca e fria. Estava em seu quarto, em todos aqueles anos foi o único cenário que sua visão estudou. Mas podia se mexer...desta vez estava sozinha em seu quarto, e aquela rosa...aquela rosa enfeitiçada, onde estava?
Apoiou-se nos cotovelos e olhou o criado-mudo. Nada ali além de um paninho bordado. Pelo canto dos olhos, um vislumbre em preto, castanho e verde: o quadro de Salazar Slytherin. "Levante-se", ele estava dizendo com os lábios fechados, enquanto os olhos reprovavam aquela atitude. Então ela se ergueu e num impulso esforçado sentou-se e pôs os pés no chão.
Ali estava a rosa, caída no chão sobre os destroços do vaso quebrado, parecia menos vermelha e morta, como um peixe retirado da água. Pegou a flor e a amassou, depois ficou de pé e caminhou, escorando-se nos móveis, até o espelho.
O que viu a assustou e a fez rir. A bela Narcisa de cabelos de prata, desgrenhada e úmida como uma mulher selvagem, a camisola branca e fina impregnada de suor e perfume, as maçãs do rosto tão fundas que espantavam, e os cílios compridos embaraçados e molhados, mas bela. Não era engraçado que ela fosse tão bela e tão destruída? Como aquela flor que estava ali no chão.
A casa estava silenciosa como se vazia, somente os cheiros denunciavam gente morando ali. Passos foram ouvidos ao longe, um alvoroço se formando, e seu nome foi dito entre as vozes femininas e agudas lá em baixo. Alguém ia ser punido por ela estar andando pela casa...e lá vinham elas, todas as garotas, o farfalhar das saias arrastando pelo chão indicando que elas vinham depressa, e eram todas...
"Sua destrambelhada! Como foi deixar o vaso cair!"
"Core, se você me dedurar, arranco todos esses seus cabelos, entendeu?"
"Sir Lúcio vai despedir todas nós por sua causa, Madeleine, isso é o menos pior que pode nos acontecer!"
"Não comecem..."
"E não estamos contando com as surras de ma..."
Mas elas pararam abruptamente de falar, porque dobraram no corredor e viram Narcisa em pé no meio dele. Todas ficaram muito descoradas e de olhos esbugalhados; para elas Narcisa era um defunto saído da cova.
"Senhora...", Core foi a primeira a se aproximar, cautelosa e desconfiada. "A senhora não tem saúde para fazer esforços."
A garota pegou gentilmente a mão de Narcisa e começou a virá-la em direção ao quarto, mas Narcisa e empurrou com indignação e lhe lançou um olhar severo. Lá atrás,todas as outras garotas se encolheram.
"Não seja atrevida, menina!", gritou Narcisa. "Dei um fim naquela rosa estúpida, nenhuma de vocês vai me por naquele sono dos infernos outra vez! Nenhuma de vocês e nem mesmo Draco! Aquele bastardo...nunca vou perdoar...veneno, onde foi que ele achou veneno...ah, sim...ratos", ela olhou subitamente para Madeleine, que franziu a testa. "Me diga, Millie, você adorava meu marido, não é? Adorava conversar com ele, e estar com ele...Lúcio achava você muito bonita, desde criança."
"Madame..."
"Uma moça tão doce, e Patrice também era. Onde Draco está?"
As garotas se entreolharam e nenhuma delas se atreveu a responder para Narcisa.
"Andem, suas raposas! Onde está Draco?"
"Não está no momento, Madame", respondeu Core, contrariada e ainda raivosa pelo empurrão que levara.
Narcisa pareceu ficar satisfeita.
"Então estou sozinha...Lúcio também não está, está?"
"Não, Madame."
"Sozinha. Estamos sozinhas."
Madeleine saiu sorrateiramente detrás das outras garotas e caminhou ondulante pelo corredor.
"Temos visitas", disse, a voz estranhamente maliciosa. "Uma amiguinha do senhor Draco veio passar o natal conosco. O quarto dela é este aqui."
E, abrindo a porta de mogno escuro, deixou espaço para Narcisa entrar. Encostada à parede, Core murmurava para Madeleine "O que você está fazendo?". A outra dava de ombros. "Madeleine, que diabos você está tramando?" insistia Core em sussurros.
Narcisa andou pelo quarto lentamente, abriu as cortinas e observou a cama coberta de veludo verde. Vários lampejos vermelhos cintilavam sobre a colcha escura e sobre os travesseiros, fios delicados de cabelo acobreado. Narcisa apanhou um deles e o ergueu contra a luz.
"Aqui está a boneca", disse, e pediu para ser levada até onde a visita se encontrava.
"Querida, estou entrando."
E sem mais avisos, entrou. A garota estava dentro da banheira e fitava, assustada, um homem de preto perto da janela. Olhando melhor, não era um homem, era somente a silhueta disforme da árvore lá fora. Mas a menina a olhava com terror absoluto e não notou Narcisa se aproximando.
"Que há, meu bem?", chamou Narcisa um tanto brusca.
A adorável garota piscou e a olhou. Era a coisa mais encantadora, aparentava ter uns quinze ou dezesseis anos, mas o rosto era o de uma criança, uma menininha assustada porém esperta. Os enormes olhos eram realmente como os de uma boneca, castanhos e brilhantes como madeira polida.
"Você está congelando!", exclamou Narcisa, julgando que era esse o motivo para os olhos da menina estarem tão letárgicos.
Tirou rapidamente a garota da banheira e a enrolou numa toalha. Tinha a estrutura óssea tão frágil que parecia querer quebrar com um toque menos cuidadoso. A levou direto para o quarto, onde já tinha previamente deixado os vestidos que ela usaria. A garota ignorou o monte de panos sobre sua cama e ficou parada e silenciosa no mesmo lugar em que Narcisa a deixara: no meio do quarto.
"Qual é o seu nome, meu anjo?", perguntou ela, acendendo o abajur.
O céu começava a se tornar cinza escuro.
A garota não respondeu. Olhava Narcisa mas não a via. Somente quando a mulher se aproximou impaciente e fez com que se sentasse rispidamente na cama, os olhos da menina desanuviaram, fosse pelo impacto daquele gesto, fosse por um alfinete que ela havia sentado em cima.
"Ah, sim, eu esqueci de retirar este aí", Narcisa disse, recolhendo o objeto. "Qual o seu nome?"
"Pansy Parkinson", respondeu a garota, a voz baixa e débil.
Então a garota começou a perceber os vestidos, e também a mulher e o quarto em que estava. Pôs rapidamente uma mão sobre os vestidos, como se quisesse senti-los com a palma.
O vento uivava auto lá fora, fazendo redemoinhos de neve cintilante.
Draco olhou para cima e viu o badalo do enorme sino na torre balançando. Se não subisse mais depressa, já seria noite e ele ficaria mais vulnerável na escuridão. E não ia poder ver Voldemort. Queria ver Voldemort, era o mais importante.
Então começou a escalar, em passadas grandes, a íngreme escada da torre. Sentiu que Voldemort já estava lá antes mesmo de chegar à sacada. Como as pessoas não podiam notar aquele forte, excêntrico aroma mágico que ele exalava? Era quase igual a energia que Dumbledore tinha, mas mais aguda e persistente. Quando chegou ás sacadas, olhou ao redor. Recortado no horizonte cinza e roxo, uma pessoa jazia parada na borda do parapeito.
Contra a já pouca claridade da tarde, o que se via era somente o contorno escuro de um homem.
"Chegou com as doze badaladas do sino", disse o homem, a voz era pastosa e tinha um timbre tranqüilo. "Você me fez esperar, Draco Malfoy."
"Se tivesse marcado comigo em um lugar mais perto de casa, talvez eu tivesse levado menos tempo pra chegar."
"Ah, sim...Mas igrejas são sempre os lugares mais apropriados. O melhor lugar para buscar ajuda, o melhor lugar para buscar a paz, o melhor lugar para trair", ele fez uma curta pausa, e pareceu que estava rindo das próprias palavras, "o melhor lugar para qualquer coisa. Igrejas são templos maculados da fé. O luxo e todas as regras que elas impõe são na verdade deliciosos. Porque não aqui?"
"Escute, poderia sair do parapeito? Tenho vertigem."
Voldemort riu.
"Você é uma pessoa interessante. Será possível que seu pai não perceba isso?"
"Você é mais poderoso que eu, Voldemort", Draco murmurou. "Mas se falar mais uma vez de Lúcio, vou matá-lo, nem que tenha de morrer tentando."
"O que lhe atormenta mais", Voldemort começou a se afastar do parapeito e ir na direção de Draco, "falar de Lúcio ou falar do desprezo dele por você?"
Segundos após isso, os dois estavam caídos sobre a neve. A rapidez com que aquilo aconteceu foi tão grande que Draco apenas percebeu que, como se acordado pelos próprios rosnados, já estava apertando, sem sucesso, a garganta de Voldemort, que gargalhava. Durante os poucos segundos que ficou grudado nele, Draco compreendeu que jamais poderia matar aquele homem, porque nem ao menos teria a chance de fazer isso antes de ele próprio morrer. Aqueles olhos cinzentos e inteligentes, aquela força física incompreensível que o atirou para longe como quem se desfaz de um boneco de pano, aquele corpo alto e coberto de preto que se ergueu intacto da neve, não podia jamais representar alguma ameaça para Voldemort. O homem podia falar o que quisesse, as coisas mais odiosas sobre sua vida, e tudo que ele iria poder fazer era escutar. Não havia possibilidade de defesa, não havia oponente, havia apenas o líder.
Draco rosnou mais alto e sem perceber. As mãos apoiadas no chão apertavam a neve com a máxima força que uma pessoa pode ter, mas não doía. A dor maior era ter perdido mais uma vez.
"Sei o que está pensando", disse Voldemort, caminhando lentamente em sua volta. "Que você não vai perder de novo, que com Lúcio vai ser diferente, você vai ganhar, porque é a única coisa em que não suportaria se perdesse", o homem se abaixou até ficar no nível dos olhos de Draco. "Mas não é a única coisa em que você pode ganhar. Não há nada que você possa fazer por sua mãe, nenhum tipo de magia vai curá-la, o que mais resta na sua vida? Ela não é como uma igreja, muito ouro, muitas regras e nenhum propósito? Porque é que você não dá uma olhada no seu futuro, Malfoy, para me responder a uma simples pergunta: Porque não?"
"Não me interessa o futuro", respondeu Draco, começando a sentir o gelo cortar as palmas de suas mãos. "Que diabos vou ganhar com isso?"
"Seu tempo é curto..."
"Porque você não me deixa em paz?", Draco gritou. "Porque quer que eu faça parte dos seus malditos seguidores?"
Voldemort o olhou severamente.
"Não há mais tem tempo!", vociferou. "Depois da morte de Lúcio, você será o próximo!"
A boca rígida de Draco curvou-se suavemente para o lado, como um sorriso duvidoso. Então se tornou repentinamente cético e sem expressão, ficando mudo e imóvel por um longo tempo. O vento rodopiando ao seu redor parecia fantasmas o açoitando.
"O que..."
"Tomei a liberdade de ver seu futuro. Preciso de você, Draco, porque a sua frieza e desprendimento do mundo e das pessoas são uma das maiores qualidades de um comensal, mas você precisa de mim muito mais. No entanto não temos tempo, porque você vai morrer."
"Ah, você vai precisar me matar, é isso que quer dizer?", concluiu Draco sem emoção.
"Vai morrer pelas suas próprias mãos, não pelas minhas."
"Suicídio é para covardes", replicou o garoto, e olhou Voldemort longamente. "Mostre meu futuro."
No decorrer de todo aquele dia nervoso, Gina pensara em fugir. Certas coisas ainda não estavam muito certas quanto a isso, mas precisava sair dali ou enlouqueceria. Jamais poderia esquecer as palavras de Tom...
"Não há possibilidade alguma de uma recusa, minha criança. Entenda, você não está em posição de argumentar, e mesmo se estivesse, eu lhe provaria que está errada. Digamos que eu lhe dê uma oportunidade de falar, o que é que você diria? Gina, ah,minha querida. Você é só uma garota. Ainda não está na hora, mas falta pouco. Enquanto isso me deixe protegê-la, é o motivo único pelo qual estou com você, nada mais. Sempre estive aqui para isso. Vi você crescer e alimentar a mesma paixão imortal que sente por aquele garoto...ah, sim, o garoto que me derrubou. E é uma estúpida ironia que este mesmo garoto tenha trazido você até mim, e você vai gerar a pessoa que irá me vingar. Talvez tudo se repita, seria quase uma profecia maravilhosa se tudo acontecesse outra vez...Harry Potter indo matar seu segundo maior inimigo, então a surpresa acontece. Bam! O garotinho no berço o destrói e ele vai passar o resto de sua miserável vida tentando compreender 'Porque é que isso aconteceu?', ele vai se perguntar, e a resposta é sempre a mais risível..."
Ele havia parado de falar, estava tremendo, mas de êxtase. Então começou a rir, e essa risada se tornou quase insuportável, a risada dos demônios e o grito dos anjos, tudo ao mesmo tempo. Ele prosseguiu, ainda mais absorvido pelas próprias palavras:
"Meu Deus, como é perfeito. Consegue ver? Vocês dois! Do mesmo modo que foi comigo e Lílian, sim, está tudo se repetindo. Mas será mesmo?", ele murmurou, desviando os olhos como se falasse consigo mesmo. "Eu não sei de tudo, talvez ninguém saiba de toda a história...mas se for...", tornou a olhar Gina, parecia que estava olhado-a através de uma nova luz. Franziu as sobrancelhas.
"Tom...", ela havia murmurado e acariciado seus cabelos.
Por mais que tentasse, por mais que soubesse, não suportava a idéia de ter estado sempre com Voldemort, desde que chegara na Mansão. Ela nunca tinha tocado em Tom Riddle, jamais tinha o sentido, ele era apenas uma lembrança, um espírito da memória, e ele tinha pele somente em seus sonhos, e eram nos sonhos que ele se tornava mais vivo, às vezes mais vivo que o próprio Voldemort enquanto mero disfarce. Olhando para Voldemort ela via Tom Riddle, não só fisicamente como também através da aparência frágil do rapaz de dezessete anos. Certas vezes os olhos de Voldemort deixavam escapar um pouco do que antes fora Tom, uma centelha de vazio e de fraqueza, e ódio inocente e tristeza.
"É mais confortável para você, minha criança", ele disse, obviamente lendo seus pensamentos. "Foi em Tom que você primordialmente confiou, foi com os traços jovens dele que você sonhou. Você não me conhece, não como realmente sou. O que me tornei mais tarde. Gostaria de ver?"
Gina tirou as mãos dos cabelos dele. Não disse coisa alguma, mas uma mudança começou a acontecer no rosto dele. Algumas rugas suaves apareceram na testa, perto dos olhos e no pescoço quando ele sorriu, e tornaram a desaparecer quando ficou sério outra vez. O queixo pareceu mais firme, a pele apenas um pouco menos lisa e macia. Os olhos também mudaram, ficaram infinitamente menos brilhantes e escuros, porém eram tão vivos que podiam filtrar a luz, se quisessem, podiam absorver uma alma, confundir um animal na noite. Ali estava Voldemort, nada assustador senão pela singularidade de seus traços, a cintilação sobrenatural dos olhos. Completamente regenerado, talvez com a mesma aparência que tivera quando seus poderes foram retirados e ele foi esmagado pelo bebê Harry Potter. Isso não seria possível esquecer.
Mas Gina ficou apavorada. Havia coisas em Tom que simplesmente transmitiam confiança e um desejo tenro de aproximação, talvez tivesse sido por isso que ele atraiu tantas vítimas; era um garoto encantador. Um jovem alto e bem vestido que andava entre trouxas pelas ruas de Londres, usando o longo casaco preto de lapelas altas, calças de seda e luvas de couro, e trajava capas de veludo entre os bruxos. Mas Voldemort possuía uma repugnância que parecia emanar de cada poro de seu corpo. Era como um exótico animal selvagem o qual se prefere manter distância.
Ela viu o rosto dele se tornar inteiramente liso e puro outra vez. A única coisa que assinalava a presença de Voldemort e não a de Tom, verdadeiramente, eram os olhos cinzentos e ruins.
Ele sorriu.
"Bem, é claro que você o ama, não é mesmo? Quem não amaria a Tom Riddle? Nem mesmo o demônio Gabrielle. O que não consigo entender é que tipo de amor é esse que pode se dividir em dois..."
Se dividir em dois...ela não tinha compreendido o que ele queria dizer com aquilo...
Tudo era na verdade um grande e realístico pesadelo, que às vezes parecia sonho. Porque estar naquela Mansão, apenas estar nela, era maravilhoso. Sentia como se o mundo fosse feito de veludo e ouro, cristal e prata. Ainda se fascinava com os lençóis de cetim em sua cama.
Havia ali qualquer energia maliciosa escondida nos tetos com detalhes góticos, nos cheiros alcoólicos das salas ou nos aromas doces dos perfumes que os Malfoy borrifavam sobre as peles finas de seus pulsos. Diante daquela essência de luxo, Gina sentia uma vontade tímida de transgredir regras.
Tencionando descer até a cozinha para pedir a Core que lhe preparasse algo de comer, pois já ultrapassava as oito horas da noite, passou pelo corredor e escutou o inconfundível barulho da porta da frente se fechando. Aproximou-se do parapeito da escada para ver quem chegava. Era Draco, e ela recuou lentamente para as sombras, tornando-se invisível para ele.
Seguiu-o com o olhar enquanto ele atravessava o enorme hall, retirando o sobretudo e o atirando num console anexado á parede.
Então Gina esperou que ele desaparecesse, entrando num dos cômodos que o hall tinha conexão, e desceu silenciosamente a escada, observando as alongadas sombras que Draco fazia no chão ao se movimentar lá dentro. Parou próxima á porta, debaixo de uma nesga mais ou menos escura onde as chamas douradas que saiam da lareira não chegavam completamente, e olhou a figura quieta de Draco sentada numa poltrona. Os cabelos dele estavam visivelmente molhados, e alguns pedaços de gelo cintilavam entre os fios, sua pele parecia infinitamente mais branca, mas conservava uma tonalidade arroxeada nos lábios e debaixo dos olhos, como se tivesse emergido nas águas congelantes de Ártico. Havia nódoas de sangue em sua camisa branca.
Durante muito tempo, Gina permaneceu distante, sentindo, mesmo da porta, o calor que emanava da lareira e que certamente agradava Draco, embora não soubesse o que havia sucedido com ele.
O monte de vestidos sobre sua cama voltou a pulsar em sua memória...vestidos para uma boneca real.
"Se ela tivesse nascido, talvez tivesse sua idade", Narcisa havia comentado, agarrando sofregamente a borda de um dos vestidos. "Ou um pouco mais velha."
Ocorrera um pensamento desagradável à mente de Gina. Narcisa havia perdido um bebê?
"Porque é que ela não nasceu?", havia perguntado, temendo ser inconveniente.
Narcisa murmurou para que ficasse de pé e ela obedeceu, corando um pouco quando a mulher despiu-lhe a toalha do corpo e pediu que vestisse o vestido. Mais uma vez Gina hesitou. Não que fosse uma roupa pesada, como aparentava ser por causa da longa saia revestida por uma espécie de seda frisada, mas era estranho usar algo que parecia ser tão antigo.
"Ora, meu bem, porque Draco nasceu ao invés dela", Narcisa respondera, abotoando a gola alta e bordada no pescoço de Gina.
"Não entendo..."
Narcisa virou Gina para olhá-la de frente. A garota reparou nos enormes olhos de água da mulher, característicos dos Malfoy. Aquela coloração azul fraca, quase inexistente, podia intimidar, desafiar, como ocorria algumas vezes com Draco e Lúcio, ou ser doce tal acontecia com Narcisa. Mas ela era perversa, e Gina começava a compreender o que ela queria dizer.
O delicado vestido que usava agora fora feito para uma adolescente, e fora feito a bastante tempo atrás, porque Narcisa esperava que tivesse tido uma garota, e não um garoto. Não queira ter tido Draco.
Gina finalmente entrou no aposento, suavemente, evitando ser notada, rodeando a poltrona de Draco pelos fundos do aposento, até que aquele gesto pareceu estúpido e desnecessário, e ela disse numa voz bastante baixa:
"Malfoy, você foi atropelado."
Draco lançou a ela um olhar oblíquo, apenas um gesto de que acabara de notá-la ali, junto a um vaso japonês. E nunca seus olhos, vivamente translúcidos, pareceram possuir um azul mais esmaecido.
Ele tinha sofrido algum acidente. E pelos pedaços pequenos de vidro misturados ao sangue nas mãos dele, podia-se imaginar que ele havia atravessado alguma janela.
"Você tem vidro nas mãos", informou ela, como se ele já não soubesse. Então se aproximou de Draco, sentando cautelosamente em frente a ele, sobre o tampo da mesa.
Ele a fitou, apático. Poderia ter rido do modo como Gina estava vestida: com um vestido simples e justo, de sarja branca, um colarinho direito de homem e mangas que acabavam em punhos de renda, tudo muito ultrapassado e que deveria estar em moda no início do século, mas que, na atual época, dava a uma garota de quinze anos ares de bonequinha de luxo. No entanto ele malmente pareceu notar toda a sua parafernália antiquada.
"Posso...?", fez Gina, apontando as mãos sangrentas de Draco.
Ele virou as palmas das mãos para cima ao mesmo tempo em que olhava a garota agudamente. Gina inclinou-se mais para perto, pondo uma das mãos grandes dele entre as suas.Tentou retirar delicadamente um vidro maior e mais visível, porém achou que o simples ato de tocar aquele local seria doloroso demais.
Mas Draco oferecia a própria mão num gesto desolado e insensível, como um garoto que mostra dissimuladamente o machucado à mãe a fim de sensibilizá-la, e não havia como odiá-lo por fazer isso. Naquele momento Gina odiou Narcisa e suas palavras mesquinhas em relação às expectativas de ter uma filha, e por mais estranho que fosse, por mais incômodo e inconcebível, teve impulsos de revelar a Draco o que achava de tudo aquilo, de Lúcio e de Narcisa, e que eles eram a imagem vergonhosa dos pais que ela jamais desejaria para si mesma. Mas talvez, se dissesse uma coisa daquele tipo, seria muito agressiva, e podia desconfiar da reação explosiva que Draco teria, porque era bem certo que ela também detestaria ouvir más palavras sobre os Weasley.
De modo que não disse nada enquanto pensava sobre essas coisas, mas não se conteve em ao menos tocá-lo com um pouco mais de suavidade nos machucados, retirando dois ou três farelos afiados de vidro.
"Que aconteceu?"
Ele não quis responder, limitou-se e encará-la.
"Melhor chamar Core ou alguma das meninas", disse Gina, deixando a mão de Draco sobre o braço da poltrona. "E seria bom também um pedaço de gaze."
"Você pensou em fugir?", ele perguntou de repente.
Gina o olhou, surpresa.
"O que?"
"Andou pensando em fugir...", e dessa vez não foi uma pergunta; foi uma afirmação apática. Ele começou a voltar vagarosamente o rosto muito pálido para o outro lado, então tornou a virá-lo para Gina, como se mudasse de idéia e precisasse ver o rosto dela e toda a expressão que este fosse ter enquanto falava: "O que você é? Você não é imprevisível para mim, eu sei todos os seus passos antes mesmo que você os dê, Weasley, no entanto isso faz diferença? Eu não consegui nada de você. Faz parecer que nenhum de nós saiu do lugar."
T"alvez eu não tenha nada para lhe oferecer", replicou Gina.
"Ninguém nesse maldito mundo tem algo para me oferecer. Apenas para me tirar: Lúcio vai me matar. Ou pretendia fazer isso ao vender minha alma para Voldemort, assim como se vende a alma para o demônio", Draco inclinou-se irado para Gina. "Você também vai me matar, apenas descubra como fazer isso antes de meu pai."
"Malfoy!", murmurou Gina, escandalizada.
"Mate meu pai, Weasley."
Ela ergueu-se bruscamente; ele também; e assim ficaram, mudos, com a ansiedade palpitando nos olhos, como se se tivesse feito uma grande alteração no Universo, e eles esperassem pelo desfecho daquilo tudo. Malfoy já ia voltando a ter a brancura de nácar nas faces, que agora se enrijecia toda numa expressão nervosa quase imperceptível, os lábios perdiam a tonalidade arroxeada do frio e no pequeno corte que Gina fizera nele mais cedo, o sangue cristalizava, muito vermelho. As outras marcas de suas unhas gravadas no rosto dele estavam sutilmente escondidas atrás de algumas mechas cintilantes de cabelo louro.
"Me desculpe", murmurou ela, estendendo para ele, como se quisesse afastá-lo, a mão ligeiramente trêmula. "Por tudo. Não posso fazer isso."
Draco olhou para a mão de marfim no ar, esticada em sua direção, os dedos frágeis inquietos, e franziu as sobrancelhas para aquele gesto, como que o reprovando severamente.
Gina arrematou:
"Entendo toda a raiva que você tem pela sua família, mas não vou virar uma assassina por...por nada."
"Por nada!", exclamou Draco. "Então você acha que meus motivos para detestar meu pai são ridículos."
"Escute, você pode fazer isso, se o odeia tanto, vá e mate-o: não me meta nisso."
Draco andou passivamente pela saleta, pisando, como de costume, suavemente sobre os tapetes, sem estalar o couro macio dos sapatos. Parecia pensar com concentração em algo que estava além do conhecimento de Gina, e por isso a manteve de lado, ali perto da lareira, talvez querendo que ela se sentisse ignorada. Isso, porém, foi uma intenção sem sucesso, pois a garota aproveitou-se do silêncio de Draco para se ocupar em imaginar como ele tinha caído. E aquele absurdo todo de que Lúcio o mataria, de que ela o mataria! Então não havia dúvidas de que ele vira o próprio futuro e o interpretara com estupidez. Ora, ela o matando! Era quase inimaginável.
Gina sorriu para si mesma, voltando o rosto para o fogo dourado da lareira. Não era o caso de Malfoy ser inseguro e desconfiar sempre de tudo e de todos; era apenas vaidade em se achar superior demais, ameaçador demais, quase um risco, e por isso causar nos outros uma inveja mortal. Mas, ainda assim, ele não tinha toda a culpa. Os egocentrismos de Lúcio Malfoy e as blasfêmias de Narcisa sobre o filho, ainda pequeno, refletiam nitidamente em cada atitude de Draco.
Era fascinante como ele, mesmo odiando os pais, se parecia com eles. A elegância dos Malfoy era nele mais assinalada; em seus dezesseis anos tinha quase a mesma estatura imponente de Lúcio, a maneira idêntica de se calar e ficar horas em silêncio, concentrado em algum ponto superficial, e isso Narcisa também possuía, mas de traços fora inteiramente para ela que Draco se saíra: era tão perfeito em sua brancura acetinada...já Lúcio tinha alguma coisa de ultrajante na barba rala e loura...
De repente, olhando fixamente para ele, Gina sentiu que estava chorando. E antes mesmo que pudesse limpar aquela lágrima que fugia pela sua face, Draco a olhou.
"O que eu preciso fazer?", disse ela em voz baixa para ele, assim, como se implorasse desculpas.
Talvez matar Lúcio Malfoy fosse livrar aquela criatura infeliz de um tormento.
Sem compreender, Draco hesitou.
"Mas não me faça ver sangue."
"Não vai ter sangue", murmurou ele, ainda pasmo. E andou rapidamente para o lado dela, revirando um bolso interno do casaco. "Apenas dê isso a ele."
Draco mostrou a Gina uma espécie de pílula oval e meio transparente; quase lembrava uma pastilha venenosa.
"Como vou fazer que ele tome isso?", perguntou ela, erguendo os olhos para ele.
"Com a sua língua."
Gina entreabriu os lábios num imenso assombro.
"Está sugerindo que eu beije seu pai? Que imundo!"
"Não é uma sugestão, é o único meio", replicou Draco, cético. "A menos que isso seja algo desconhecido para você."
Diante daquelas palavras, Gina fez-se escarlate. Teve a idéia de se afastar de Draco, daquela Mansão e daquelas pessoas desestruturadas e descaradas. Mas então ele tornou a falar num tom de voz tão hipnotizante e rouco que Gina permaneceu onde estava e o escutou. Disse que antes, a alguns dias atrás, teria outra opção para ela, um anel cheio de veneno em pó que Sybil Vane lhe dera, mas esse anel tinha misteriosamente sumido, e andava desconfiando de Core, que tinha o costume reles de esconder as jóias de Narcisa num lugar em que somente ela e a Madame sabiam, poderia ter se confundido e pensado que o anel era da mulher e estava fora do lugar. Mas, se se sentia tão insegura em fazer uma coisa tão simples, que era por a pílula na boca de Lúcio, ele podia lhe ensinar, com minúcias, os procedimentos.
"Não é essa a questão", replicou Gina, agora muito pálida. "A situação em si é que é horrível. Me diga, ele vai começar a morrer no mesmo segundo? Meu Deus, o que estou dizendo?!"
"Ao menos nesse ponto a pílula é melhor que o veneno de Sybil, que não tinha data certa para começar a agir", Draco falou por alto. E para Gina: "Depois que o veneno estiver em Lúcio, você pode ir embora. Fuja, se quiser, volte pra casa, o que acontecer em seguida não é mais problema seu."
De certo modo, ouvir aquilo a aliviou. Draco se afastou, deixando com ela a pílula, que Gina guardou dentro do camafeu em seu pescoço. Jóia emprestada de Narcisa, com duas camadas de cores; um tom de laranjado pêssego com uma figura alva talhada em relevo. Gina não gostava dessas coisas, apreciava menos ainda o modo como estava vestida; era odioso saber que Narcisa a tinha como a filha que jamais nascera.
Deu-se conta de que Malfoy a olhava meticulosamente da janela, de uma maneira esquisita e que não era nem de desdém e nem de cólera. E por não ser de nenhuma das duas maneiras, não se sentiu incomodada: estava mesmo se habituando às sondas que era submetida, algumas vezes secretamente, pelas pessoas daquela casa.
De modo que sentou na borda do divã forrado de negro, de frente para a lareira, o tecido mole do vestido branco ondulando, ganhando tonalidades de ouro por causa do fogo e se parecendo com delicadas folhas de manteiga se derretendo sobre seus joelhos e pernas. Os pequenos anéis de cabelo que fugiam do grampo, no alto da cabeça, iam faiscando quando ela se inclinava para atiçar o fogo.
Mas ia mesmo envenenar Lúcio Malfoy?Já não fora demais o episódio da Marca Negra, e se descobrissem que ela ainda havia matado um homem? De certo que a desculpa de ter sido um favor a Draco parecia, na realidade, obscena, e ela jamais a daria como justificativa. A verdade era que ela estava sentindo um pesar grande demais por Draco, algo quase fraterno e que, de tão compulsivo, encobria a antipatia que ela sentira por ele. Aquela criatura havia sido tão escorneada que agora tinha ódio pelo pai e apatia pela mãe, e era irracional odiá-lo por isso.
"Malfoy...", fez Gina, virando-se lentamente para ele, que ainda a fitava. "Porque é que você tem tanta raiva de Lúcio?"
Draco franziu as sobrancelhas.
"Todo esse tempo que tem estado aqui, Weasley, na Mansão Malfoy, você nunca desconfiou? Então olhe ao redor. Ele arruinou nosso nome e é necessário que alguém o pare."
"Arruinou?", Gina vagueou os olhos pelos cortinados negros e cor de cereja logo atrás de Draco, pelos móveis escuros e que, de tão polidos, podia-se achar que eram revestidos de vidro, pelo lustre de pingentes gordos e em desuso, e por fim observou a tapeçaria bege e cor de sangue debaixo dos próprios pés, trabalhada em fios de seda. "Arruinou? Você tem que estar brincando. Às vezes acho que seu único passatempo é me provocar."
"Então eu precisaria viver no marasmo de um mosteiro... Não é deste tipo de ruína que eu me refiro. O Ministério, veja você mesma, já não respeita nem um pouco as opiniões de Lúcio, isso porque, desde que Voldemort voltou, algo desesperador se apossou dele. Lúcio vem cavando a própria cova. Ele é maluco, estou lhe dizendo."
Gina não se satisfez com esses argumentos.
"Não é o bastante para querer matar o pai", disse, num tom firme de quem instiga uma discussão.
Uma sombra passou no rosto de Draco. Ele lançou um olhar raivoso a Gina, que não o enxergava estando novamente de frente para o fogo, e se aproximou dela morbidamente, com seus passos de gato, indo se sentar justamente no divã que ela ocupava a borda, com uma perna para cada lado, deslizando as costas pelo único braço do móvel.
Gina o notou ali de repente. Fez pouco caso.
"Sabe porque se torna tão difícil compreender porque preciso matar Lúcio?", inquiriu Draco. "Porque você ama seus pais."
E, depois disso, Gina ficou o olhando, sem ter o que responder. Agora que ele estava mais perto percebia outra vez o agradável cheiro que ele tinha e que parecia emanar de seu claro pescoço. Ela então ficou tentada em por para trás todos aqueles fios de cabelo umedecido que caiam desordenados no rosto dele, mas primeiramente disse:
"Você deve estar congelando", e suas palavras soaram tolas e sem propósito.
Ele recuou num ímpeto de desconfiança assim que ela esticou o braço, forrado de sarja branca e renda, e varreu com os dedos os cristais de gelo presos numa mecha de seu cabelo. A olhou suspeitoso enquanto ela, muito suavemente, fazia cair, numa fina chuvinha translúcida, todos os pedaços de gelo e neve de seu cabelo e , se aproximando ainda mais (a ponto da barra do vestido dela roçar em seus sapatos), os pondo para longe de seus olhos.
Quando ela tornou a se afastar, um tanto sem emoção, ele ergueu o queixo num gesto bastante grave, passando uma ou duas vezes mais a mão pelos cabelos, como se quisesse arrumá-los de outra maneira que não fosse a dela.
Gina ficou de pé, e antes de ir dormir o lembrou de pedir a alguma das meninas para retirar o resto dos vidros em suas mãos.
