Primeira Parte

Capítulo oito - Incesto

Assim que acordou escutou a voz de Narcisa nos corredores, o ruído martelado de seu salto pelo soalho, ordenando que as cortinas fossem abertas, por favor, pelo menos um dia na vida daquela Mansão abafada, caso contrário os convidados se sufocariam quando chegassem, horas mais tarde. E de fato, minutos depois, os sons das cortinas correndo pelos trilhos foram ouvidos em todos os quartos, como uma sinfonia alta ecoando pelas paredes.

Uma das garotas entrou timidamente nos aposentos de Gina e o atravessou até as janelas. Saiu em seguida, deixando um quarto cheio de luz para trás.

Era uma magnífica manhã de inverno, uma manhã que, Gina tinha certeza, era rara ali naquela região por ser tão clara e limpa. O ar estava puro e se podia ver as partículas de poeira cintilando entre os raios de sol.

Ao virar o rosto na direção da porta, notou Narcisa ali, toda vestida de preto e ostentando os cabelos soltos, louros e muito lisos, espalhados sobre os ombros. Entrou no quarto sem olhar para Gina, e fez uma careta de desagrado ao passar pela pintura da garota na parede.

"Coisas de mau gosto", reclamou. "Não entendo porque precisam permanecer na casa. Por mim já estariam num Museu, só a moldura parece excelente. Onde está o vestido que usou ontem, minha querida? É preciso que seja lavado e guardado."

Gina indicou a cadeira, onde ela havia posto o vestido dobrado e, sobre ele, o camafeu e as fitas usadas para atar as costas do vestido. Depois olhou para o retrato da garota e lembrou-se do outro retrato, o que havia no quarto de Narcisa.

"Este quarto era dela, não era? De Lady Slytherin."

"Sim", fez Narcisa, apanhando o camafeu e enrolando as fitas dentro do vestido. "Olhe para ela, não parece uma garota mimada? Para quê cobri-la de véus como se estivesse sendo preparada para um velório?"

Tudo, com exceção de Draco, havia mudado da noite para o dia na Mansão Malfoy. Os empregados quase não engatavam conversas paralelas nos corredores (e nenhuma das garotas foi vista rondando o quarto de Malfoy logo cedo, como costumava acontecer com freqüência), estavam, pela primeira vez desde que Gina chegara ali, se portando como empregados.

Ainda quando descia a grande escadaria em T, Gina se fascinou com a explosão de luz no hall principal, o mármore das colunas reluzindo muito liso junto às portas das saletas que rodeavam o primeiro andar, e numa delas, debaixo de um feixe amplo de claridade solar, estava Draco, com os mesmos gestos amuados e o perfil de estátua, sentado numa magnífica poltrona verde-esmeralda, folheando um livro. Fazia um esforço danado para ler com tamanha quantidade de luz nos olhos de água.

Ela contemplou os pingentes dos lustres, agora impecavelmente limpos e livres de teias de aranha. Depois caminhou para a sala onde, por regra, tomava o café-da-manhã. Ali estavam Lúcio e Narcisa. Talvez a cena mais estranha dentre todas as que Gina já presenciara até então. Não importava que fossem marido e mulher, havia entre eles qualquer coisa de contrastante, de deselegante e excêntrico. Como se um anulasse os atributos do outro, e então ambos ficavam parecendo apagados, meio mortos naquela mesinha delicada e forrada com porcelanas.

Gina preferiu não ficar. Ao contrário, seguiu para a cozinha. Lá aceitou uma fatia de pão doce que Core lhe ofereceu ("Mas Elizabeth errou com o açúcar na calda. Deve estar meio salgado. Porque diabos não escrevem sal e açúcar nos vidros?"), mas não fez questão do copo de limonada. Perguntou para a garota, logo que as duas foram ocultadas num canto perto do fogão por uma densa camada de vapor:

"Core, sabe se existem mais quadros, como o que está em meu quarto, aqui nesta casa? Digo, quadros dos Slytherin."

Core bateu as pestanas para Gina.

"Eu não devia lhe dar mais nenhuma informação. Mas vamos logo com isso: há vários no quarto de Draco Malfoy."

"Como se chega no quarto dele?"

Core bateu o pé. Abanou o vapor em seu rosto antes de dizer, com impaciência:

"Não me diga que não sabe!"

"Sei apenas de um caminho, que é passando pela casa de Salazar Slytherin. Não existe outro?"

Ainda inconformada, a garota respondeu:

"Quando a Mansão foi construída por John Sebacius, havia um quarto, que era o dele, e que não tinha janelas. Isso porque, sendo dinamarquês e vindo morar na Inglaterra, achou o clima quente e os dias ensolarados demais, de modo que mandou fazer um cômodo privado de claridade e revestido por paredes de pedra, para que no inverno esfriasse mais rápido.Uma câmara frigorífica, na verdade", Core acrescentou. "Um belo dia, quando Draco soube da existência desse lugar, não sei porque infernos insistiu que esse fosse seu quarto dali pra frente. Mas sabe o que mais? Repudiando qualquer tipo de luminosidade, John construiu um túnel alto na parte direita da casa, no último andar, totalmente vedado: vai dar no quarto. Talvez seja, no inverno, o lugar mais escuro e frio da casa. Por isso ali não pode existir madeira, só ferro, e também precisamos trocar as colchas de cama por outras novas todos os meses, senão apodrecem."

"Pois então, onde fica o túnel?"

"Quantas escadas existem nessa Mansão?"

"Duas", Gina respondeu seguramente. A do hall e a do terraço, que ela jamais tinha visto mas sabia que existia.

"Quatro", corrigiu Core. "Têm mais duas laterais que só são utilizadas pelos empregados. Vá pela lavanderia."

A garota apontou com o queixo um portal atrás de Gina. Largando o resto de seu pão, Gina entrou pelo portal em pedra sentindo o gosto salgado e ácido do sabão que flutuava pelo ar, insuportavelmente cheiroso, como uma fumaça quente e opaca cobrindo as paredes e o teto daquele lugar úmido e perfumado. Não havia ninguém na lavanderia, mas, pela grande quantidade de água pelo chão, sabia-se que ela fora usada a pouco tempo.

Realmente, atrás de uma portinha carcomida, logo no final da lavanderia, existia uma escada estreita em madeira muito podre e avermelhada. O corrimão, quando se segurava, tremia um pouco nas hastes. No entanto Gina subiu por ela depressa, evitando fazer muitos ruídos, e se deparou com dois ou três ratos pelos degraus, encolhidos contra a parede, criaturas muito pequenas e brancas, olhando-a com olhos de prata no escuro. Lembrou-se do escorpião. O que volta e meia andava pela Mansão, e poucas vezes era notado, porque sua casca vermelha se fundia com as estampas igualmente rubras dos tapetes, dos soalhos. Mas Gina o vira inúmeras vezes, enquanto jantava perto do fogo, ele refulgia, dourado e cor de sangue na borda da lareira.

Agora estava quase lá, já podia enxergar o veludo negro que forrava o túnel, a textura macia cintilando no alto da escada, o frio intensificado nas paredes e uma luz débil tremeluzindo muito longe.

Era um túnel alto, parecia majestoso, enquanto Gina caminhava por ele, apoiando-se à parede, quase podia ver John Sebacius ali, um homem certamente grande e, como na imensa pintura no topo da escadaria principal, muito severo. Então os Malfoy descendiam de uma linhagem dinamarquesa, e o quarto de Draco havia sido o aposento de um de seus antepassados, sem janelas, sem luz... no entanto fascinante. Ao entrar mais uma vez no quarto de Draco Malfoy, Gina tornou a achá-lo mágico.

A porta estava entreaberta, como se a pessoa tivesse saído e pretendesse voltar logo, e dela fugia a luz que podia ser vista da escada. O fogo dentro do quarto estava aceso, e desta vez a luz era igualmente clara, mas possuía tonalidades douradas e não azuis. Talvez aquela lareira fosse um artifício que indicasse quando era noite e quando era dia, já que ali não tinha janela alguma ou nada que desse para o céu. Criação de John, provavelmente.

Tudo estava um tanto morto e sem significado, o próprio fogo exibia uma chama comum, algumas vezes dando sinais de que se extinguiria, havia algo ali, algo estranho e impassível, uma espécie de carga negativa anulando a existência do que era matéria, do que era sólido.

E, além disso, o cheiro de Draco estava misturado e impuro. Gina olhou diretamente para sua cama, e por algum motivo não se surpreendeu em ver ali o escorpião, como que morto, entre as cobertas de veludo e cetim.

Mas ignorou o bicho; olhou ao redor e jamais pode imaginar que o quarto de Draco fosse tão pequeno. Uma cama, um biombo em ferro, uma lareira era tudo que o preenchia, e talvez fossem somente os cortinados grossos escorrendo pelas paredes que fizessem com que o ambiente parecesse tão confortável. Mas não era possível, onde Draco guardava suas roupas? E seus sapatos, e então não tinha livros?

Observou o chão, o pequeno vão onde a cama ficava, acabou por agoniar-se com a pista de Core, sentia-se estúpida, e suspirando e jogando a cabeça para trás, avistou uma argola pendurada no teto.

Claro, John não poderia viver naquele espaço apertado, não parecia ser homem disso. Ah, mas por que diabos gostava de tudo pro alto? Porque não ter feito um outro aposento ao lado, ou em baixo, de onde surgira a idéia excêntrica de trepá-lo no teto?

Logo Gina também descobriu para quê servia a grade ao redor da cama, e fez-lhe uso correto: escalou-a e andou por cima dela, alcançando a argola. Debaixo de seus pés deu um último vislumbre ao escorpião antes de agarrar as bordas do largo quadrado, agora aberto, e subir num único impulso.

Era uma câmara baixa e sombria, apenas uma pequena janela oval no alto de uma das paredes a iluminava com fios fracos de luz que vazavam através do vidro grosso e imundo. Mas acertara em cheio; e ali estavam, talvez, todas as pinturas dos Slytherin. Sobrepostos pela câmara sem qualquer ordem, os quadros cobriam as paredes, em tamanhos variados, uns sem moldura, tão velhos que a tinta já apodrecia, outros mal arrumados, pendurados em ângulos tortos.

O mais estranho era a insistente figura de uma garota. Havia homens e mulheres, e podia-se perceber uma certa diferença cronológica por causa das roupas que usavam, a mudança brusca dos esplêndidos casacos de brocado, colarinhos de renda italiana, para as suaves sedas nas luvas brilhosas, o tafetá delicado nas mangas dos vestidos, a verdadeira tonalidade loura dos cabelos ao invés das rechonchudas perucas brancas cacheadas. Entre todos os quadros, o rosto taciturno da garota se repetia, a ponto de Gina achar que ela fora pintada mais de duas vezes em posições quase idênticas. Parecia que a garota havia sido vítima de uma obsessão, e a pessoa, numa idéia louca, resolvera captar cada movimento dela, ainda que fosse um simples abrir e fechar de olhos.

Era a mesma garota no quadro em seu quarto. Aquela criança fúnebre e misteriosa, mas desta vez Gina a via sem nada lhe cobrindo as faces. O rostinho de anjo era do mais imaculado branco, os cabelos, que possuíam a enganosa coloração loira dos Slytherin (que na realidade tinham dois tons: um castanho claro e um castanho mais dourado)., eram notoriamente mais escuros, quase cor de caramelo, e as finas sobrancelhas , a vulnerável linha que delineava o pescoço, davam-lhe, além do ar triste, uma fragilidade fresca.

Num dos quadros parecia haver uma gota de sangue cintilando sobre os lábios rígidos da garota.

Gina não teve tempo para observar melhor o que era aquilo, porque foi assolada pela sensação de estar sendo profundamente vigiada. Quando se virou, viu alguém parado debaixo da janelinha oval na parede; a claridade passava em cima da cabeça da pessoa e não iluminava seu rosto. Mesmo assim Gina soube quem era. A capa de veludo verde avolumando o ombro do homem, o brilho débil de uma lâmina semi-ocultada sobre ela, o verniz e as fivelas prateadas no sapato antigo.

É claro que era Salazar Slytherin.

Ele, aos poucos, andou para frente, fixando os olhos no quadro que Gina estivera observando, deixando, sem perceber, a luz bater nas extremidades de seu rosto e iluminar seu cabelo e sua barba.

Gina o fitou enquanto ele fazia isso. Um sujeito transcendental, usando uma calça larga na parte superior e justa a partir do joelho, e meias brancas de seda, um colete vistoso em diversas tonalidades de verde por debaixo da capa, e a presença destoante daquela barba rala e aparentemente macia. Podia-se dizer que ele era um homem bonito.

"Como foi que você voltou?", perguntou Gina, de repente compreendendo o que aquele escorpião era.

Ele a ignorou por um momento, preso ao quadro.

"E porque é que voltou?", Gina ainda murmurou.

"Não foi minha vontade", respondeu ele, inclinando a cabeça na direção do quadro. Estreitou os olhos. "Embora eu não possa afirmar que fui obrigado a voltar. Voltei por uma proposta que me pareceu justa."

E está escondido – disse Gina, agora um pouco fascinada pela imagem de Salazar. – na forma de um escorpião. Porque...um escorpião?

"Mobilidade", fez ele simplesmente, virando-se para os outros quadros da garota.

"Quem é ela?"

Gina sentia um enorme êxtase. Durante todo o tempo que se estudava em Hogwarts, você podia ouvir falar de Rowena, certamente ouviria bastante sobre Griffyndor ou Helga, mas Salazar Slytherin era apenas uma criatura lendária, porque pouco se sabia sobre ele, quase ninguém vivo para contar sua história, nenhum documento a relatando. Era como se ele tivesse apagado sua própria existência antes de morrer. De fato, era disso que as pessoas desconfiavam. E por isso ele a fascinava tanto.

Bem, ele não era lendário. Tivera uma vida, e Gina desejava ardentemente saber sobre ela.

Salazar pousou os olhos agudos em Gina.

"Pois não devia", disse. Sua voz era metálica e limpa. "Ninguém é humano o suficiente para saber de minha vida."

Diante disto Gina apenas o fitou, a boca ligeiramente aberta.

"Qual a sua ligação com você-sabe-quem?", perguntou mais uma vez.

"Não tenho nenhuma ligação com esse proscrito", sibilou o homem, girando os olhos escuros para uma outra direção, um gesto que pareceu cheio de fúria.

"Mas está aqui na Mansão e se parece com ele. Pode ler pensamentos, voltar a vida quando lhe convém e se camuflar, como um camaleão."

Salazar tornou a fitá-la. Aproximou-se dela e inclinou o enorme corpo sobre o de Gina. Ela sentiu o forte cheiro de suas roupas, velhas e bolorentas, roupas de defunto, mas que não causavam repulsa. Ele tinha os olhos de um azul escuro e faiscante, e que pareciam hipnotizar naturalmente.

"Minha cara", disse ele com leveza, "se há entre mim e Voldemort qualquer relação ou semelhança, é porque este me imitou de modo hediondo e falso. Não é a cópia mais desastrosa que já pude ter dentre todos os que tentaram me seguir? e se estou hoje aqui, camuflado, é porque preciso soprar algo novo e útil dentro de alguma cabeça humana, ou jamais sairei dos contos e especulações mal feitas que vocês se ocupam em inventar."

Foi difícil para Gina acatar que alguém tão ultrapassado pudesse ter algo de novo para se acrescentar.

"E neste ponto", continuou ele, "posso lhe responder uma de suas primeiras perguntas. O meu último herdeiro, e isso eu não creio que você saiba, é realmente Voldemort. Mas isso é uma questão meramente consangüínea. Draco Malfoy foi bastante sensível quando notou uma violenta diferença entre Salazar Slytherin e Tom Riddle. Ficou bastante óbvio para ele que eu jamais agiria do modo indiscreto e assassino com que aquele garoto agia, deturpando meus conceitos e valores, os quais eu tinha levado uma vida inteira para construir e manter. Dentre eles o único que permaneceu inalterado foi a superioridade dos bruxos em relação aos trouxas. Pois bem, Draco Malfoy me trouxe de volta para que eu lhe ensinasse minhas teorias. E aí está um dos motivos do asco entre Lúcio Malfoy e o filho."

Era como uma corda, Gina pensou, Lúcio estava puxando numa extremidade e Draco na outra. E a vida de duas pessoas, de pai e filho, transformada numa brincadeira de cabo-de-guerra.

"Ele vai matá-lo...", murmurou ela.

Salazar não respondeu. Já estava outra vez absorvido pelo quadro, olhando-o desalento, e não era possível dizer no que ele pensava. Não por ser inexpressivo, mas porque seus olhos refletiam uma infinidade de coisas e com muita violência. A garota tinha um efeito incrível sobre ele, arrebatador, e Gina acreditou que ela fosse filha dele. Mas então o homem se abaixou diante de um quadro e começou a alisar os contornos em tinta na pintura, a curva que o lábio inferior fazia com a pele, a superfície ebúrnea da bochecha; a menina possuía uma essência fina que o próprio Slytherin não tinha. Talvez, imaginou Gina, a essência da inocência. Novamente ele pousou as pontas dos dedos na boca da garota, como se acariciasse a pétala de uma rosa.

Ela não era filha dele. Quem era ela?

E nesse exato momento, enquanto Gina observava a estranha atitude do homem, como uma pancada, um bilhão de imagens vieram em sua mente, desordenadas e estonteantes, e ela recuou e escorregou, caindo contra a parede.

Era uma dor absurda, e não era física. Assemelhava-se à dor de ver alguém muito querido morrendo ou sofrendo. Gina ergueu os olhos para Salazar, a confusa figura de Salazar, e viu uma sombra cobrir o rosto dele, como um véu negro deslizando em sua face, e também sobre ela e sobre o mundo. Ele estava lhe mandando aquelas imagens! E a visão da garota pulsava na mente de Gina loucamente, e depois cada vez mais devagar, no ritmo dos ponteiros de um relógio, no compasso de um coração deixando de bater; ela de negro, ela enrolada em um véu de ombros, ela despedaçando uma rosa entre os dedos... os olhos azuis muito abertos e vazios...até que restou somente uma imagem.

E não apenas ela. Um garoto jovem, o olhar azul como a noite, sob o teto de algum lugar escuro, olhava para uma garota dentro de um caixão. Salazar começou a enviar para Gina até mesmo as sensações. O brilho que os cabelos dela irradiavam, espalhados no cetim creme, o perfume deles, a temperatura latente do corpo do garoto, a dor quando os dentes dele cortaram a ponta da própria língua e o gosto do sangue quente quando ele se curvou para baixo, deixando que o sangue caísse em pequenas gotículas cintilantes sobre os lábios da garota. Os olhos dela se abriram. Fitaram-no, brilhantes e de cor azul-violeta. Ela abriu a boca e, devagar, ergueu a cabeça para encontrar o beijo dele. A língua dele se transformou na dela. O lábio dela estava frio.

E, como se pudesse ver muito além daquilo, Gina vislumbrou um pequeno altar atrás deles, as coroas de flores envelhecendo perto dos tocos de vela, ratos maculando a toalha do altar, se enroscando em baixo da pequena plaqueta que mostrava, em letras de prata, o nome: Shuzethe Slytherin , 1890 – 1904.

A voz de Salazar foi se sobrepondo às imagens:

"Voldemort não está totalmente certo quando diz que foi o único a violar perfeitamente as regras do tempo. Eu trouxe Shuzethe de volta ainda por mais uma noite. Enquanto estávamos naquela imunda capela no cemitério, o mundo inteiro paralisava para nós, o tempo só corria para mim e para ela. Talvez você não esteja completamente errada em achar Voldemort parecido comigo. De fato, assim como ele, eu matei meus pais, embora ninguém jamais tivesse descoberto. Eles repugnaram minha irmã quando souberam...ela se matou por isso. Como eu poderia os amar?"

Gina ergueu os olhos para Salazar. Agora ele jazia inexpressivo diante do quadro. Tudo aquilo era odioso.

"Sua irmã!", disse Gina, a voz entrecortada.

"Não importa", Salazar replicou com aspereza, "foi a única pessoa que amei no mundo, azar ter sido minha irmã."

Agora compreendia as ilusões que se tinha quando se estava na casa dele. Os quadros que ganhavam vida e faziam as com que as pessoas tivessem delírios incestuosos, como ela mesma tivera.

"Meu Deus", ela sussurrou, levando a mão á boca.

Salazar soltou uma risada gutural.

"Saia daqui, menina", ele disse. Depois, quando Gina engatinhou, trêmula, para o largo quadrado no chão e deslizou para fora da câmara, ele murmurou: "Ninguém é humano o bastante para saber..."

Estava acontecendo depressa demais, tudo tinha começado a fluir rápido e de repente. Sim, ela mataria Lúcio Malfoy, mas o que aquilo significava? Praticamente nada.

Ela pensava em Lúcio e via Draco, exatamente como ele seria no futuro, mas infinitamente mais imponente, o olhar mais agudo e capaz de ferir, como uma flecha. Qual era, afinal, a diferença entre eles? Porque é que não doía tanto a morte de Lúcio, mas não concebia matar Draco, e eles eram tão podia tudo aquilo estar acontecendo? De quem era a culpa? Talvez não fosse apenas Voldemort, na realidade eram todos, na verdade era tudo desde o princípio, e isso incluía Harry. Se ele não tivesse conhecido Rony, se ele não tivesse se aproximado tanto dos Weasley e se ela não tivesse o amado desde o primeiro momento em que vira aquela pequena e expressiva figura na estação, não estaria envolvida naquilo. Nunca teria estado na Floreios e Borrões ao lado de Harry quando Lúcio jogara o diário de Tom Riddle em seu caldeirão, e toda a confusão daquele dia talvez jamais tivesse acontecido. Mas era estúpido pensar sobre isso, porque não iria conseguir detestar Harry por ele existir, era inútil.

Mas estava quase acabando...mataria Lúcio, Draco resolveria o resto, ninguém saberia que ela estava metida naquela história. Ela apenas poria o veneno na boca dele, e estava acabado. Voltaria para Hogwarts no dia seguinte, sem a Marca Negra, apenas com uma marca do sangue de Tom Riddle sobre as costelas, mas não queria mais se livrar dela, porque tinha medo de arranjar outra marca, outra coisa horrível em seu corpo.


Estava perto do meio-dia quando Draco entrou na sala. Entrou tão silenciosamente que Gina não o notou. Estava numa das salas de leitura da mansão, e havia observado o título dos livros na estante durante horas talvez, mas agora apenas olhava na direção deles, não os lendo, não os vendo. Draco não disse coisa alguma. E quando Gina finalmente se virou para a porta e o viu ali, parecia que ele estava disposto a esperar pelo resto da vida que ela o notasse, em silêncio e inexpressivo como uma estátua.

"Fui até o seu quarto hoje", ela disse. "Encontrei os quadros de Shuzethe, a garota da pintura em meu quarto. Encontrei Salazar Slytherin também", ela fez uma pausa, esperando a reação dele. Continuou, porque não houve reação. "Então é isso, não é? Está ouvindo as coisas que ele tem para lhe ensinar. E vai fazer o quê depois?"

Draco demorou a responder. Estava extremamente calmo e quando falou, quase se tornou impossível o escutar, apenas os timbres mais roucos de sua voz faziam com que suas palavras fossem compreensíveis.

"Provavelmente nada, porque não depende de mim. Não vou me virar contra Voldemort e começar uma outra guerra, não faz sentido. As pessoas precisam de propósito para fazer alguma coisa."

"Mas então para quê isso?'

"Fala de Salazar Slytherin?"

Gina assentiu.

"Quis escolher o ponto de vista certo, apenas isso."

"Como descobriu que o ponto de vista de Voldemort era o errado?"

Agora estava extremamente curiosa, e se aproximava de Draco quase hipnotizada pela voz dele, pelas palavras dele e pela delicada elegância de seus gestos.

"Ora, você nunca percebeu?", ele murmurou, franzindo as sobrancelhas suavemente. "Todos percebem, você obviamente também notou. Só que nós temos conceitos já tão fixados e inflexíveis que não nos damos conta de que o errado pode dizer muita coisa. É o inadequado, o que nos fere, o que zomba de nós, e isso não pode estar certo. Logo, está errado."

Ele sorriu, e Gina compreendeu que ele estava desdenhando dela.

"Salazar odiava trouxas", ela começou. "Sempre foi contra a aceitação de alunos que não fossem filhos de bruxos, que não tivessem em suas veias o sangue mais puro e mágico. É preconceito. E preconceito é desprezo, e desprezo machuca, portanto é errado."

Draco a encarou.

"Estou seguindo sua lógica, Malfoy."

O que é mais errado, Weasley, odiar sangues-ruins ou matá-los?

"Uma coisa leva à outra."

Ele riu baixinho. Pôs as mãos no bolso e caminhou para dentro da sala, andando na direção da janela aberta e cheia de luz diurna. Franzia furiosamente o rosto para a luz, mas ao mesmo tempo parecia gostar dela, do calor que ela lhe oferecia, a sensação tão rara de pele quente, de roupas quentes e ar quente.

Então aconteceu algo bastante curioso. Gina já havia desconfiado vezes sem conta de que as pessoas podiam ler seu pensamento, principalmente Draco, mas daquela vez ele não estava lendo pensamento algum, ele estava adivinhando uma coisa. Parou no centro da sala e voltou apenas um pouco a cabeça para ela, os olhos cintilando como jóias, e disse, desconfiado:

"O veneno que lhe dei..."

Gina abriu a boca.

"O veneno!", exclamou.

Estava com Narcisa, ela o havia levado embora junto com o vestido, de manhã, ao entrar no quarto. Mas isso não surpreendia Gina. Havia algo em Draco...uma magia diferente, ele podia fazer coisas que os outros bruxos comuns não podiam. Certas vezes isso lembrava Tom, todas as coisas maravilhosas, perigosas, que ele conseguia fazer e ninguém mais conseguia o tornavam valioso como um pedaço de diamante.

Mas então o veneno...ela virou-se rapidamente na direção das escadas, e quando estava planejando perguntar a Core qual era o quarto de Narcisa, escutou a voz de Draco dentro do salão:

"O último no corredor."