Primeira Parte
Capítulo onze – Tom Riddle
Sobre a floresta congelada ao redor da Mansão, a lua despontava como um fantasma na noite, empalidecendo as estrelas. Lá fora, nos jardins, a neve havia coberto os caminho que levavam até os fundos do terreno, as fontes tinham arcos de gelo transparente se derramando pelas bordas, onde mais cedo, pela manhã, a água havia fluído.
Draco soprou de leve contra a vidraça da janela. O reflexo de Rebeka foi substituído por alguns instantes por um círculo embaçado. Ele sentiu o piso ranger e no instante seguinte ela estava inclinada sobre ele, com a mão em seu ombro. O cheiro dela era um almíscar de hidratante sob a leve emanação do sol e do mar.
Desde que deixaram o hall, ela vinha se comportado de forma meio inadequada. Quando chegaram ao patamar do segundo andar, ela enfiou dois dedos entre o sapato e o calcanhar e os tirou, seguindo descalça até a Biblioteca. Uma vez lá dentro, ela falou pouco; parecia que os livros, mesmo que fechados, exerciam sobre ela um efeito muito profundo. Ele decidira deixá-la examiná-los à vontade e esperou ao lado da janela, lançando olhares furtivos para o relógio de parede de vez em quando. Apesar de tudo, acreditava que Gina Weasley fosse capaz de fazer o que ele lhe pedira. Matar um homem. Não porque fosse de má índole, mas porque não sabia ao certo o significado daquilo. Ela estava assustada, como qualquer um ficaria dentro daquela Mansão, estava confusa, ele podia perceber isso na freqüência com que ela piscava, como se quisesse limpar os pensamentos o tempo todo, ela estava triste, ela estava sozinha.
Devagar, Draco sentiu como se um olho estivesse observando seus pensamentos. Então a mão de Rebeka pousou em seu ombro e ele compreendeu antes que ela tivesse tido tempo de lhe contar: ela lia pensamentos.
Atrás dele, ela riu suavemente. "Não se sinta vulnerável por causa disso. Se serve de consolo, a sua mente é difícil demais de ler, de modo que só peguei os últimos fios do seu pensamento."
"Hum", fez ele.
"A mente de seu pai foi fácil, fácil."
Ele se virou e a olhou.
"Consegui a atenção do príncipe?", ela disse, molhando os lábios.
"Você sempre a teve", respondeu ele, olhando abertamente para o decote de Rebeka.
Ela não se importou. "Posso lhe dizer cada pensamento que está ocorrendo lá embaixo agora", as mãos dela brincaram com a gola da blusa dele, "Embora eu prefira ir direto ao ponto e lhe contar o que Lúcio Malfoy está planejando fazer essa noite."
"Um conclave?", disse ele de modo sarcástico.
Rebeka deu um passo para frente e aproximou os lábios da orelha dele, "Ele sabe como atingir você, meu anjo,"
O modo como ela disse aquilo fez a pulsação de Draco subir alguns batimentos na região do pescoço. "Não sei do que você está falando", ele disse.
"Ele conhece você muito bem, apesar de você achar que não. Essa noite ele vai se vingar, porque esteve esperando por isso a muito tempo."
Draco pensou em Narcisa.
"Não", disse Rebeka, "Não é ela."
Gina viu Tom Riddle pela primeira vez quando tinha onze anos. Naquela época ele media algo em torno de um metro e oitenta e ela tinha no máximo dois terços disso. A voz dele, ela sempre se lembraria, era de uma textura etérea e um tanto ansiosa, como se ele estivesse o tempo todo esperando por alguma reação do seu interlocutor. De alguma forma, isso era algo agradável nele. Passava uma certa confiança, até dava um pouco de pena. Mas o homem que entrou pelo salão naquela noite não se parecia com Tom Riddle, e se as pessoas não tivessem começado a se curvar diante dele, ela jamais suspeitaria que estava olhando para a mesma pessoa que conhecera aos onze anos.
Ele tinha nos olhos o que as pessoas tem após viverem décadas e décadas absorvendo todo tipo de coisa em suas consciências, quando então descobrem que estão velhas demais para aproveitar tudo que aprenderam – mas Tom não estava velho. Ele estava no auge da vida, e seu sorriso mostrava o quanto ele estava doido para aproveitá-la da forma mais intensa e celerada possível. Na verdade havia tanta vontade nele – no modo de caminhar, de sorrir e mostrar os caninos pontiagudos – que fazia você se sentir diminuído, uma chama débil ao lado de uma fogueira vigorosa. As pessoas se dobravam diante dele, algumas arregaçavam as mangas das vestes e mostravam suas Marcas Negras no pulso, com o orgulho de quem exibe um presente caro. Os mais novos o olhavam como se jamais tivessem visto nada parecido em suas curtas existências.
Para Gina, aquele homem era tão estranho e complexo quanto uma equação binômia. A única coisa que havia prevalecido em sua percepção é que ela continuava parecendo ter dois terços de sua altura.
Por um segundo, quando ele olhou em sua direção, ela achou ter visto fagulhas de reconhecimento nos olhos dele. Mas era uma idéia idiota, uma vez que ela tivera contato apenas com uma lembrança dele, e não com ele em carne e osso.
As pessoas começaram a se aglomerar ao redor dele, falando coisas em uma língua desconhecida que levantou os pêlos de Gina desde o cóccix até a nuca. Ela também pressentiu uma pesada atmosfera no salão, como se uma cortina negra tivesse sido jogada sobre a Mansão. Houve um estalo, os lustres tremeram brevemente, o champagne na taça que Gina segurava ondulou, e então as pessoas se afastaram, e aos pés dela havia um enorme emblema, uma enorme Marca Negra esverdeada brilhando no soalho.
"Minha nossa Senhora" exclamou alguém atrás dela.
Gina se virou e viu os enormes olhos de Core arregalados para a Marca no chão.
"Isso é algum..." disse Core "ritual de Magia Negra..."
"Há quanto tempo você está aí?"
Core a olhou como se Gina tivesse falado na mesma língua que os outros convidados no salão.
"Quem é esse homem?" perguntou Core, embora continuasse olhando para Gina de uma forma estranha.
"É o chefe do seu patrão", disse Gina, passando as mãos pelo pescoço. Tinha a sensação de ter uma mão invisível querendo apertá-lo.
Core balançou a cabeça. "Parece uma versão mais atual de Posídon."
Posídon. Core tinha o dom de conseguir ser engraçada em momentos que ninguém estava a fim de rir.
"Escute, vamos sair daqui", disse Gina, recuando com Core para as sombras. As pessoas estavam tão ocupadas em reverenciar Tom Riddle que não as notaram ali – as únicas pessoas em pé e que ainda falavam em inglês moderno no salão.
"Onde está Draco?" disse Core.
"Ele está com a futura noiva dele."
Elas subiram a escada que levava ao segundo andar e entraram no corredor da direita. Gina se encostou num console de mármore preto e aspirou, expirou, aspirou e expirou, já não escutando mais os burburinhos lá em baixo. Então olhou para Core. Ela nunca estivera tão pálida.
"Futura noiva?" murmurou ela, as sobrancelhas franzidas e uma expressão profundamente triste no rosto.
"Foi só uma brincadeira", disse Gina. "Na verdade é Narcisa quem quer que eles se casem, acho que da parte de Draco não há nenhum interesse." Gina refletiu um pouco sobre as próprias palavras. Bem, talvez não. "Mas você não tem motivos para ficar assim", continuou.
Core parecia incapaz de produzir som.
"Ela é", disse Gina, desviando os olhos. "Bem, ela é..." Tentou lembrar do modo como Draco olhara para Rebeka quando ela disse um delicioso "Boa noite" quase em seu ouvido. Ele se voltou e seus olhos brilharam. Agora tinha certeza de os ter visto brilharem. "Ela é muito bonita, mas é alta demais, entende? Draco não se casaria com uma mulher que fosse mais alta que ele, ele não aceitaria, você entende? Porque ele é...muito vaidoso. E não sei porque, refletindo melhor, Rebeka parecia ter os pés muito grandes, talvez seja por isso que descia meio cambaleando pelos degraus."
"Rebeka." disse Core.
"Rebeka Estern."
Core estremeceu e estendeu a mão na direção de Gina, mas suas pernas pareciam ter se soltado do corpo, e ela caiu de joelhos no chão. Gina se abaixou depressa e pegou as mãos da garota. Estavam geladas e brancas. Ela soluçava como uma garotinha que perdera o brinquedo preferido de repente.
"Rebeka Estern" ela não parava de repetir. "Não é você."
"Não sou eu?"
Core balançou a cabeça. "Não é você a noiva dele."
"Não sou eu a noiva dele? Não, é claro que não! Você achou... de onde você tirou isso?"
Gina percebeu que estava rindo e parou. De repente aquilo tudo ganhava uma proporção maior do que devia, mesmo que ela não entendesse bem porque.
Core abriu a boca e murmurou alguma coisa sobre um anel, os olhos arregalados em espanto. Quando Gina pediu que ela repetisse, uma coisa estranha aconteceu. Os olhos verdes e assustados de Core deslizaram para algum ponto atrás de Gina no momento em que uma risada infantil ecoou pelos corredores. Por um longo tempo, só o que se ouviu foi o silêncio precedido pela risada. Parecia que até as pessoas lá embaixo tinham se calado para escutá-la.
Core balançou a cabeça, "Não", disse, e levou as mãos à boca, horrorizada, "Não pode ser."
Gina olhou para ambos os lados do corredor e não viu nada. O silêncio era agora tão profundo que zunia no espaço, e ela tinha a impressão de estar escutando coisas dentro deste silêncio. As velas acesas formavam grandes círculos de luz nas paredes, intercalando com os vãos escuros e profundos que se formavam para além dos limites da luz. A risadinha continuou, e agora era tão frágil que podia ser um choro, um gemido sufocado, um móvel arrastando no chão. O caso é que Gina não escutava mais nada além disso.
"Não", Core murmurou, quando Gina olhou para a porta de seu quarto.
"É dali que vem."
De repente a garota se inclinou para a frente e, esticando os braços, agarrou um dos pulsos de Gina. "Sinto muito, eu não queria o seu mau, eu não queria! Oh, por favor, meu Deus, meu Deus...Não vá até ela!"
Mas Gina não lhe dava atenção. Já estava com a mão na maçaneta da porta.
Core gritou: "Cale-se!Cale-se!"
Gina escutava com perfeição a voz da menina. Era boleada, mas tinha o timbre frágil e quebradiço, o tipo de voz que oscila quando se murmura e que estremece no cérebro como uma pequena agulha. Ela não estava mais rindo, na verdade nunca esteve – ela estava chorando. E pedia para que tivessem piedade. Ela estava ao lado da cama de dossel, usando o mesmo vestido de renda preta retratado no quadro, o mesmo véu de gaze preta, a exata posição, com as pernas cruzadas para o lado e uma mão apoiada no chão, a outra pousada melancolicamente sobre a coxa direita, mas ela não estava mais sentada em almofadinhas de cetim, estava sentada sobre flores. E sobre a cama, por cima dos móveis, formando um rastro até a janela, havia pétalas de flores. Mortas. Eram tantas que exalavam o cheiro doce da morte, e em baixo da janela, no vão prateado de luar, elas brilhavam escuras como ouro queimado, ganhando tonalidades de verde estragado nas pontas.
Quando Gina entrou, a menina ergueu a cabeça.
"Esse cheiro está em você", ela disse, e Core puxou Gina para fora do quarto com tanta violência que ela foi bater na parede oposta do corredor, tropeçando os próprios sapatos e quase caindo, enquanto Core fechava a porta e procurava, com dedos trêmulos, a chave do quarto em seu molho de chaves.
"Não", ela dizia, mexendo nas chaves, que tilintavam como sininhos em suas mãos, "Não, não, não vai acontecer, não vai acontecer."
Gina não conseguia pensar. "Era Lady Slytherin."
"Não. Era o demônio", disse Core, trancando a porta com três voltas.
"Ela...estava chorando..."
"Ela é mau agouro nesta casa. Ela prevê a morte."
Gina olhou para Core. Ela estava chorando, seus cabelos louros estavam despenteados ao redor de seus ombros e seus olhos vermelhos pareciam injetados de aflição e medo.
"O que?"
Core parou e ficou tremendo diante da porta, sem se virar. "Ela apareceu semanas antes de Albert ser assassinado, e mamãe disse que a viu coçando os pulsos perto do fogão quando Nani sumiu, a alguns dias atrás, e foi como soubemos que ela já devia estar..."
Gina se aproximou dela. "O que aconteceu com Albert, Core?"
Ela balançou a cabeça. Tinha parado de chorar mas ainda tremia, e evitava olhar para Gina.
"Ele foi assassinado?", Gina insistiu.
"Acho que sim. Eu não sei."
"Você sabe, Core, você trabalha aqui há anos, você sabe."
"Nenhuma de nós viu nada", Core se virou, e na luminosidade pálida das velas Gina viu suas olheiras se tingirem de negro. "Ninguém vê nada quando você some. Ninguém aqui escuta quando você grita e ninguém estará por perto para consolar você dos pesadelos. Não porque não queremos. Mas é como nos sonhos, não há rastros, nem cheiros, nem nada que possa levar você a pensar que existiu, mas existe e é mais real do que é possível ser. Eu avisei para que fosse embora o mais cedo possível."
"Mas escute, no Profeta Diário dizia que o corpo dele não foi encontrado, e Conley..."
Mas Core a empurrou para o lado com uma exclamação abafada, uma veia saltada no pescoço, e se afastou. Gina ficou parada, encostada à parede, olhando para o túnel escuro que era o corredor, onde até mesmo o cabelo louro de Core parecia um véu cinza descendo-lhe pelas costas. Aos poucos os sons voltaram; a música lá em baixo, as risadas, os ping-pings da tubulação interna da casa, o vento açoitando os galhos lá fora, as taças se tocando no salão, as panelas caindo na cozinha por um desleixo momentâneo, os passos de alguém subindo pelas escadas e entrando pelo corredor. Gina fechou os olhos por um momento e tentou sentir o cheiro.
Em pouco tempo naquela casa já se acostumava com os cheiros. Eram cheiros estranhos, cheiros leves e cítricos, cheiros abafados, cheiros imateriais como sonhos, mas nenhum cheiro era mais absurdo que o dos Malfoy. Da primeira vez que Gina sentira o cheiro de Narcisa, imaginara flores em decomposição. O cheiro de Draco, que parecia só existir na Mansão Malfoy, como se todos os poros de sua pele só se abrissem ali, como se ele só estivesse vivo ali, era amargo como alumínio e até então era o único cheiro que Gina conhecia com o poder de provocar salivação quando aspirado pela boca. O cheiro de Lúcio lembrava amônia destilada em óleo de âmbar, um cheiro que era mais uma emanação que um aroma em si. E era este cheiro que ela estava sentindo agora.
Ele se aproximou em marcha lenta, como se estivesse testando as tábuas do soalho antes de prosseguir, e Gina sentiu sua presença antes mesmo que todo o seu rosto estivesse iluminado pela vela mais próxima.
Os olhos de Lúcio Malfoy estavam seguindo um alvo em linha reta, e ele pareceu surpreso ao baixar a vista e ver a garota ali. "Parkinson", disse, depois a estudou por alguns segundos e sorriu.
Gina deu um pequeno sorriso e se curvou ligeiramente para o lado, como se fosse coçar a coxa. Sentiu a pílula ali, atrás da fita de cetim.
"Algum problema, Parkinson?" disse ele.
"Não", disse Gina, afastando-se da parede.
Ele sorriu. "Então porque não está lá em baixo, com os outros?"
"Meu vestido", disse Gina, somente porque foi a primeira coisa que veio em sua mente quando ela virou ocasionalmente os olhos na direção de um espelho sobre uma bancada. "Meu vestido estava...eu vim ajeitar o meu vestido."
"Suponho que ainda não tenha feito isso."
Gina olhou no espelho com mais atenção. Uma das mangas de seu vestido estava repuxada para baixo, o que aconteceu provavelmente quando Core a puxara para longe da porta do quarto. No momento em que ela ergueu a mão para colocar a manga no lugar, seus dedos esbarraram nos de Lúcio, e ela se deu conta de que ele estava ao seu lado. Ele arrumou a manga em seu ombro.
"Está frio aqui", disse ele prosseguindo pelo corredor. "Você abriu alguma janela?"
Gina fez que sim com a cabeça. Ela estava acompanhando os passos dele, não conseguindo evitar de pensar no que faria mais tarde. E então descobriu que não estava preparada. Precisava falar com Draco e dizer isso a ele. Ela faria a coisa toda direitinho, só precisava de um pouco mais de tempo. Não podia acontecer agora.
Lúcio aproximou-se dela pela esquerda e colocou os dedos em seu queixo.
"Você não está passando bem, Parkinson", disse ele. "Está meio verde."
"Acho que sim", murmurou ela.
"Talvez seja o frio?"
"Vou até a cozinha pegar algo quente para beber" , disse ela.
Ele sorriu novamente. Seus dentes brancos a faziam se lembrar de pétalas de rosas brancas desfolhadas em cemitérios, entre um soluço de dor e outro, deixadas no chão para apodrecerem depois da chuva e da fome dos mortos.
"Não é todo mundo que consegue suportar o frio dessa região", ele disse, e prosseguiu pelo corredor, sabendo que a garota viria atrás, porque continuou: "A Escócia não é um país frio. A Finlândia é fria. Groelândia é fria. Mas a Escócia não é. No entanto esta região é uma exceção." Ele a olhou por sobre o ombro, seu olho cintilou, estreitado, e ele abriu a porta do aposento que Gina, durante toda aquela semana, jamais tinha conseguido entrar, porque estivera sempre trancada. "Se vivêssemos no século quatro antes de Cristo, eu diria que Apolo está sentado sobre a Europa, de costas para Wick."
Ele entrou. Gina ficou parada na porta observando. Era uma espécie de escritório com mobília de madeira vermelha escura, talvez mogno, com exceção da mesa no centro, em forma octogonal, que era feita de madre pérola com pequenos desenhos em ônix, desenhos tão pequenos que Gina se perguntou quem havia conseguido ferir a superfície de uma madre pérola para cravar nela aquelas minúsculas pedrinhas negras.
"É um feitiço", Lúcio murmurou.
Gina o olhou. "O quê?"
"Esta mesa. Foi trazida da Índia, e ninguém nunca viu do que ela é feita de verdade."
"Não é disso que está aí?", Gina apontou a mesa.
Lúcio sorriu, desviou os olhos para um canto atrás de Gina, e ela se virou. Havia ali, debaixo de um foco suave de luz dourada, um móvel de formato retangular, como uma pequena cristaleira, decorado com desenhos em vermelho cintilante. Os desenhos cortavam a superfície do móvel como veias humanas, e de longe, naquela luminosidade âmbar, parecia uma coisa viva os espreitando. No entanto o móvel tinha uma finalidade muito menos obscura, era apenas um porta bebidas.
"Você já tomou brandy?" perguntou ele, esticando a mão por trás das costas de Gina e apanhando uma garrafa em cima da prateleira superior do móvel.
Gina começou a girar o corpo para ver o que ele estava pegando, mas ele pôs a mão debaixo de seu queixo novamente e segurou sua cabeça firme, de modo que ela o olhasse de frente.
"Não posso beber", disse ela. "Sou menor de idade."
Diante dessa resposta, ele ergueu uma sobrancelha e sorriu cortesmente.
"Ah, é claro", disse ele. "Olhando pra você, a gente esquece desse detalhe. Você não pode beber." A mão dele saiu de detrás das costas de Gina segurando uma pequena taça com um creme claro e cheiroso. "Como é que você sabe, querida, que brandy é uma bebida alcoólica?"
Gina tentou sorrir um de seus mais inocentes sorrisos. "Ser menor de idade não significa ser desinformado."
"Draco já me deu uma resposta dessas.", comentou ele, bebericando o brandy. "Bem feito para mim."
"O senhor o viu por aí?"
"Sim", disse Lúcio, depois ficou um tempo sentindo o brandy na boca enquanto balançava o copo. "Com a encantadora senhorita Rebeka, na biblioteca."
Ele riu, e Gina não entendeu porque.
"Você já teve a oportunidade de conhecê-la?"
Gina se perguntou como o assunto fora cair de repente em Rebeka. "Não", disse.
"É uma ótima garota, mas", ele inclinou-se um pouco para frente e Gina sentiu novamente o suave cheiro do brandy em seu hálito: vinho destilado e açúcar, "não esquente, ele não vai simpatizar com ela."
Gina começou a andar ao redor da mesa no centro. As matizes coloridas da madre pérola ondulavam enquanto ela olhava, mas todas elas se perdiam dentro de um branco perolado e fresco. E ela lembrou que não tinha nada para falar com Draco. Nada para perguntar, nada para impor. Ela já não tinha vontade de desistir ou continuar, ela apenas estava. Sentiu uma emanação sutil por detrás das paredes, como se elas estivessem tentando se aproximar e tocá-la, e escutou uma respiração lenta e limpa na escuridão à sua direita, entre uma coluna e outra. A mesma respiração que ela escutara na quarto de Draco, e no coche, quando estava indo para a Mansão, mas não havia como saber se era de fato Draco, porque aquela casa já havia lhe pregado muitas peças. No entanto, ele havia dito que estaria perto, e que depois que ela tivesse cumprido o acordo, ele a livraria das conseqüências, e ela poderia ir embora. Se Draco estava ali, é porque devia ser feito naquele momento. Gina não compreendeu porque ou quando começou, mas estava se sentindo normal.
Você vai matar um homem, ela pensou. Sim, você vai. Ela olhou para o espaço negro entre as duas colunas e roçou o pulso na lateral da coxa direita, enquanto sentia o soalho estalar com os passos de Lúcio, cada vez mais próximo. De repente, ela viu um pequeno cálice estendido por sobre seu ombro, e a mão de Lúcio o segurando, os dedos em torno do vidro delicado como os membros articulados de uma enorme aranha branca.
"Eu não posso beber", ela disse, ligeiramente áspera.
"Nem mesmo absinto?", ele disse.
Gina se virou. Ele estava com uma sobrancelha erguida, e passava a língua devagar pelo lábio inferior, aproveitando até mesmo o rastro doce que o licor havia deixado ao tocar sua boca.
"Você sabe porque a Mansão Malfoy é tão sedutora?" ele perguntou, e em seguida respondeu: "Porque não há um mundo aqui. Não há paredes para limitar você. Porque não há senso aqui. As camas são feitas para o êxtase, os jardins são a extensão dos seus sonhos, o calor das lareiras acentua o álcool no seu sangue, os seus medos viram desejo. Não há bom ou o ruim, há apenas o brilho, e a maciez da realidade. A sua realidade. Aqui você pode morrer, ou pode deixar de existir, duas coisas completamente opostas. Mas não há como, de forma alguma, você deixar de ser humano."
Gina sorriu. "Isso não é possível em lugar nenhum, senhor."
"Ah", fez ele, roçando a borda da taça na linha do maxilar de Gina, "Ninfa."
Gina parou de sorrir.
"Sobre o desejo", ele disse, "O que você acha dele?"
Ela sentiu a extremidade dura e fria da mesa em suas costas, e os ombros de Lúcio, vistos de perto, pareciam as asas negras de um falcão abrindo-se sobre ela. Ela escutou novamente a respiração suave, vindo pela direita, a respiração de quem espera. Não teria Lúcio escutado me nenhum momento aquele ruído? Era baixo, mas quando ambos se calavam, apenas se olhando, ou quando Lúcio fazia pausas para molhar a boca com o licor, ao invés do silêncio era ela que prevalecia, a respiração! Como a estática no fundo vazio de uma onda de rádio, como os chuviscos de uma televisão fora do ar, o silêncio de um apartamento quando o de baixo está cheio de gente. Gina pensou na hipótese de estar sendo tapeada. Draco estava a enganando. Ambos estavam, tudo estava, desde o princípio. Era uma hipótese plausível, tão plausível que ela odiou-se no momento por ter sido inteligente, inteligente ao ponto de tecer a própria armadilha.
Gina fechou os olhos, sentiu os lábios de Lúcio encostarem no ângulo entre seu ombro e pescoço e virou a cabeça devagar para a escuridão entre as colunas. Por alguns segundos, dentro do negro profundo no meio das duas listras brancas, ela viu o brilho de dois olhos brilhantes como água. Porque estou aqui?
"O desejo", disse Gina, "é o que nos move."
Lúcio estremeceu e puxou para baixo uma das mangas do vestido dela, depois a empurrou para cima da mesa. Gina não estava vendo ou compreendendo nada. Tudo que ela sabia era que havia alguém entre aquelas duas colunas, e ela o desejava. Pôs a mão debaixo da coxa e puxou a pílula, enquanto Lúcio molhava-lhe os lábios com algo mais doce que néctar. Gina não o olhou. Em nenhum momento. Ela tomou o que ele lhe oferecia, piscando para o escuro. O gosto doce foi substituído pelo áspero do veneno quando ela guardou a pílula debaixo da língua, e no momento seguinte Lúcio a beijou, um beijo imediato, como se já tivesse previsto tudo, até o momento em que ela estaria pronta para o intoxicar.
Gina foi rápida. Sem fechar os olhos para não se desprender daquele brilho delicado nas sombras, empurrou a pílula para a garganta do homem. Ele engasgou e a soltou. Foi então que Gina se voltou novamente para os acontecimentos ao seu redor. Viu as sobrancelhas de Lúcio se contraírem, assustou-se com sua asfixia e teve nojo da vulnerabilidade patética com que ele se ajoelhou no chão, segurando a garganta.
De acordo com a proporção do veneno ingerido, as entranhas de Lúcio estariam agora sendo corroídas, assim como o estômago e a garganta. De fato, ele se inclinou no chão e, sob acesos de tosse cada vez mais violentos, borrifou o tapete com uma secreção escura e grossa como azeite. Gina estava chorando, embora não sentisse dor nenhuma, apenas uma pequena ardência na língua nas regiões que a pílula entrara em contato. Também não era por pena, ou por culpa ou arrependimento. Eram lágrimas de outras pessoas, as lágrimas de Narcisa, ou dos empregados, ou talvez de Draco e até mesmo de alguém que ela não conhecesse, mas não eram lágrimas suas.
Aos poucos ele parou de tossir. Agora estava apenas tremendo, e quando ergueu a cabeça para olhar Gina, tinha fios de sangue e saliva descendo pelo queixo. Seus olhos eram negros, preenchidos pelas pupilas dilatada de dor. Se ele pretendia falar alguma coisa, não conseguiu.
Gina recuou para o centro da mesa, o olhando. Durante toda a sua vida, Lúcio Malfoy havia sido para ela um homem distante, que ela desejava um dia conhecer mais por causa do modo imperativo com que sua voz ressoa, mesmo em palavras gentis, do que pela elegância de suas roupas. Da primeira vez que ele lhe falara, ele não a olhara. Mais tarde Gina percebeu que Lúcio nunca olhava para as pessoas quando falava com elas, o que era uma tática extremamente perversa. As pessoas só vivem para e pelo próprio ego, Gina pensara, se você não as olha enquanto fala, elas acham que não significam nada.
Lúcio parecia que significava muito perto das outras pessoas. Não parecia ridículo. Há certos casos em que a vaidade e o orgulho caem muito bem. Mas o que era isso agora? Ele estava vomitando sangue, sua bílis estava escorrendo pela sua boca em fios vermelhos, e ele não tinha o controle nem dos próprios pensamentos, porque estava sorrindo. Sorrindo para ela. No que estaria penando? Ele sabia que seu filho o odiava tanto? Sabia que Pansy Parkinson não era aquela garota sentada sobre sua mesa de madre pérolas?
Gina olhou para trás. Draco. Ele disse que estaria ali depois de tudo aquilo. Mas não era ele.
Nas sombras, uma mão branca como papel estendeu-se na direção dela, a palma da mão voltada para cima, irradiando uma luminosidade divina. Gina a olhou.
"Eu o matei", ela disse.
Uma risada calma veio das sombras em resposta, e a mão se ofereceu um pouco mais. Gina entrou em estado de choque.
O homem podia ter entre cinqüenta e sessenta anos, era branco como cal e na mão, que agarrava a curva boleada do braço da cadeira, havia uma estranha confusão de sardas e pêlos ralos vindo das sombras do punho aberto da camisa. Respirava aos arrancos como um carburador velho, e seus olhos, embora limpos e cristalinos como chuva, eram vazios e sem propósito. Ele lia um livro de capa vermelho escura intitulado "Em busca do Tempo Perdido", sentado numa poltrona de veludo escovado num canto da seleta, e Gina não soube dizer se sua presença ali passava despercebida pelo entusiasmo da leitura ou por sua própria imaterialidade.
Por estar sentada no tapete ao centro da sala, de frente para o homem, acreditou que a segunda hipótese fazia mais sentido, por mais interessante que fosse o livro. E porque ela sabia que estava acontecendo de novo. Era da mesma forma quando pulava para o tempo de Tom, ninguém nunca a percebia. Depois de mais de quatro anos, tinha acontecido de novo.
Devagar, ela se levantou e ficou olhando para o homem. Ele permaneceu imóvel da mesma forma que estivera até então, apenas as retinas flutuando sobre a leitura, como uma rolha de garrafa que fora jogada em alto mar e ficara perdida no infinito da solidão. Gina olhou para baixo e viu que ainda estava usando as roupas daquela noite, embora a luz acetinada da manhã entrasse pelas cortinas de seda da pequena sala. Imediatamente ela teve nojo daquela roupa. Uma roupa que representava a insatisfação de uma mãe com o sexo do filho, e representava também a crueldade da vaidade e do orgulho, uma vida inteira de uma criança que podia achar estar vivendo no lugar errado, ou sendo da forma errada, imaginando que a rejeição faz parte do instinto e é tão comum como dormir. E o que isso podia importar? Ela se perguntava, ainda tendo nojo. Não, o negro do veludo não lembrava os vômitos de Lúcio, ou as sombras profundas de sua alma, lembrava muito mais. Lembrava que ela estava usando aquele vestido para atraí-lo, um vestido lindo, sem dúvidas, mas que não trazia em si – e principalmente naquela ocasião – a naturalidade da beleza, mas sim a sensualidade da maldade. E ela havia aceitado usá-lo por este motivo, não porque fosse de veludo, não por ser um pedido de Narcisa, mas porque tinha desejado o próprio desejo, e havia matado um homem que a desejara. Sentia nojo do vestido porque ainda que o tirasse, já tinha conhecido a si mesma.
Ligeiramente tonta, saiu pela porta aberta. Depois daquela saleta havia uma sala maior, a qual Gina atravessou e saiu pela outra porta sem reparar em nada, e se encontrou apoiada no corrimão de uma escada escura, que brilhava aqui e ali. Os degraus eram de mármore negro e o corrimão de ferro escurecido, e quanto mais Gina a subia e conseguia ver o que tinha no segundo patamar, mais sentia nojo. Lhe parecia que o cetim que forrava o vestido estava amaldiçoado com alucinações. Ela via todo tipo de coisa, e não cessava de entrever aqueles olhos quase luminosos no escritório de Lúcio Malfoy,e imaginava estar sentindo cheiro de carne em decomposição, e pisava sobre cadáveres duros e negros que exalavam o fogo-fátuo da morte, e não sobre degraus de mármore.
Avançou pelo segundo patamar numa ânsia tão afogueada que não se deu conta de onde de repente havia entrado. Encostou-se na parede com o rosto virado para esta e chorou. Quando abriu os olhos vislumbrou um desenho pequeno em sua frente, tão de perto que se tornava confuso visto daquela forma. Ela afastou um pouco o rosto e reconheceu o brasão de Salazar Slytherin no papel-de-parede. O mesmo brasão que vira tantas vezes quando criança, e o desenhara pelas bordas dos livros nas aulas que lhe pareciam desgastantes e insuficientes para encobrir todo o fascínio de ter estado – e poder estar outra vez – no quarto de Tom Riddle.
Ela olhou para o lado e viu uma escrivaninha. Tudo igual, apenas um pouco estranho. Os livros estavam nos mesmos lugares, mas alguns haviam sumido. Os desgastes nas bordas dos móveis, os arranhões no piso, a eterna poeira nas laterais do baú e a marca de um quadro que fora retirado da parede – tudo o mesmo. O quadro ela lembrava ser alguma coisa escura e homogênea que, na época, lhe lembrava o cosmos. Talvez para Tom significasse muito mais, por isso o havia retirado. Os objetos bizarros que representaram para ela, em tantas noites reais, histórias mágicas e sutis, e projetaram em sua imaginação florestas cortadas por névoa e cabanas de alquimistas solitários estavam todos ali.
E não foi como das outras vezes, em que a presença dele a sufocara pelo êxtase. As vertigens que se dissolviam em suspiros tampouco aconteceram, o frio e o vazio, nenhum deles entorpeceu seu corpo. Diferente do que Gina tinha pensado a principio, esta vez não era como as outras. Era real. Não um sonho, uma transgressão de épocas, uma sublimação do desejo. Diante desse choque, ela tornou a se escorar na parede. Pensava: Meu Deus, eu não quero.
Tom a estava olhando com uma concentração estática. Estava inclinado sobre a escrivaninha, segurando um pequeno recipiente numa mão enluvada e folheando um livro com a outra, igualmente protegida. Gina olhou para o livro e gritou, reconhecendo o diário que achara anos antes. Esticou a mão para abrir a porta, mas num movimento brusco se viu atirada na cama, os olhos de Tom mudaram de imediato e ele passou de um estado de avaliação para um de perturbada admiração.
"Eles podem me ouvir", disse Gina, se arrastando pela cama até o outro lado.
Tom a puxou de volta pelos quadris e a pressionou com seu peso. Aquele contato fez Gina perder a cabeça. Ela sempre sonhara com a realidade daquele momento, sonhara em sentir o cheiro dele e experimentar seu peso e saber exatamente suas proporções, o ver como via qualquer outra pessoa, mas isso era um pesadelo. Aquela realidade era um pesadelo, e tinha mais dimensões do que ela poderia ter imaginado.
Gina esticou o braço e bateu no abajur. A porcelana espatifou-se no chão com o barulho penetrante que é característico a esse tipo de material, mas Tom não deu importância. Novamente ela sentiu nojo, agarrou a borda da cama, ofegando, e encostou a cabeça nas grades do espelho. Por muito tempo ela apenas chorou, e ele apenas a segurou, e ninguém veio verificar o barulho, e foi quando Gina compreendeu que aquele homem que lia era o único que estava na casa – ou ao menos o único que poderia fazer alguma coisa a seu favor– e ele era cego, talvez surdo.
"Qual é a minha realidade?", ela murmurou.
"Enganaram você, minha querida", ele disse. Ah, aquela voz! Ao menos isso ainda era como ela imaginava. "Permitiram a você fazer essa pergunta, e isso significa que eles duvidavam, e também a fizeram duvidar."
Gina fechou os olhos. Não queria mais pensar. Novamente as imagens vieram, a Mansão Malfoy, o rosto de Core brilhando de lágrimas.
"Mas eu não posso lhe enganar", Tom falou. Gina abriu os olhos. "Não sei como se faz isso."
"Você matou pessoas."
"Sim. Por isso não posso enganar. É o meu limite."
Ela sentiu o último abalo de seu choro, e em seguida o cansaço. Lembrou-se de algo que havia muito tinha esquecido: lembrou-se da marca de sangue que ele lhe fizera. Começou a puxar a manga do vestido para baixo, e em seguida a outra, querendo se livrar do vestido, e enquanto Tom o eliminava devagar, puxando o tecido pelas costas dela, em seguida pela cintura e enfim pelos quadris, ela olhou para a janela e viu as cortinas fechadas ondulando ao vento que vinha pela vidraça aberta, enchendo o quarto e roçando sua pele nua. O cheiro dos lençóis se desprendiam como se estivessem querendo se libertar do material e se fundir com o vento, e Gina jamais teria conseguido imaginar um cheiro com tanta perfeição. Não um cheiro humano, o cheiro usual que as camas costumam ter, cheiro de pele e algodão, quando não cheiro de alguma substância artificial – era o cheiro que se sente em qualquer lugar, quando menos se espera, e que é tão familiar e complexo que dura apenas o tempo necessário para nos fazer sofrer por não poder tê-lo outra vez. E havia ali também o acetonado do formol e o almíscar doce que as cobras, com suas peles oleosas, exalam.
Tom jogou o vestido no chão e Gina ficou o olhando. Em algumas partes o avesso roxo aparecia e tornava o negro do veludo menos solitário. No entanto, as dobras eram tão fundas, e tão indistintas naquela escuridão que o bolo todo parecia um buraco no piso. Gina achou ter visto as ondulações do veludo brilharem de repente, mas Tom a vez se virar na cama, e ao se deparar com ele, ela escutou o sibilar das cobras em algum lugar. Começou a sufocar, e o êxtase a engolfou numa onda de vertigem.
