Camus adorava ter discípulos. Hyoga e Isaak eram seu maior orgulho. Por isso, quando Athena lhe disse que deveriam treinar amazonas para o Santuário ele ficou entusiasmado, tanto quanto era possível para ele. Porém, ele não achou que teria tantos problemas e nem que se arrependeria por ter aceitado sua nova aluna.
Aira era dois anos mais velha que ele, era baixa, de quadris largos, usava calças que batiam no meio da canela largas e camisetas simples, seus longos cabelos castanhos ficavam presos em um rabo baixo e corria por todos os lados descalça. Dava-se melhor com as crianças de lá do que com os demais de sua idade, era mal educada e pouco respeitava a hierarquia do Santuário. Resumindo, era um moleque qualquer.
Juntando a essas características ela ainda era uma péssima discípula. Apoiava o queixo na mão com cara de tédio ou dormia durante as aulas teóricas, enrolava para acordar, fazia corpo mole para os exercícios físicos, não tinha qualquer treinamento formal em luta, tinha cosmo desprezível e era incapaz de acertar qualquer ataque além de apanhar para golpes que uma simples defesa poderia lidar.
Para finalizar, a garota era uma rebelde sem causa e se recusava a usar a máscara em qualquer momento (pela vontade de Athena, a lei das máscaras fora modificada fazendo que seu uso não fosse sempre obrigatório, sendo que mestres e discípulos poderiam ver seus rostos sem grandes problemas, mas durante treinos comuns com os demais e aparições públicas oficiais ou não, a máscara deveria ser usada) e ainda vivia com um cachorro enorme em seu quarto que a seguia para tudo quanto é canto e que mais de uma vez urinara na porta do quarto do cavaleiro.
Aquele dia não podia ser diferente, ela acordou tarde e de mau humor, seu cachorro fedia, o quarto estava bagunçado e mesmo sendo um domingo, Camus esperava o mínimo de respeito ao chegar à mesa do café da manhã e não simplesmente sentar sobre a pia e comer uma maçã sem nem ao menos dar um bom dia.
- Mestre, hoje eu tenho que fazer algo? – ela perguntou
- Não, está dispensada para fazer qualquer bobagem que queira – ele respondeu respirando fundo – Tem algo em mente?
- Estava pensando em pular do Cabo Sounion, nadar no mar e aproveitar o dia.
- Nada além do que já faz sempre.
- Faria mais se o senhor não me enchesse de coisa para fazer.
- Olha como fala comigo, garota, sou seu mestre e exijo ser...
- Tá, tá, que seja, agora você vem ou não? – ela perguntou cortando a fala dele.
- Como é?
- É domingo para o senhor também, não deve ter nada para fazer, está calor e água faz bem, quer vir?
- Perdão, mas eu...-ele estava pronto para apenas recusar quando percebeu que a ideia não era exatamente ruim, aliás, já queria fazer algo assim a um bom tempo, mas evitava por conta de seu nível e não poder demonstrar ser relaxado – Muito bem, eu irei sim, vou me arrumar.
Ele se levantou e saiu da cozinha, a garota sorriu, podiam não se dar bem e ela, melhor do que ninguém, sabia o quanto poderia irritar alguém como ele, mas não queria brigar mais, queria fazê-lo seu amigo para que pudessem conviver e conversar como pessoas normais. Ela deu ração para Sting, seu pastor alemão e foi se arrumar também, faria de tudo para arrancar um sorriso que fosse do cavaleiro.
Os dois saíram do Santuário sem trocar nenhuma palavra, Sting ficara no quarto da garota o que basicamente os deixava pela primeira vez em um momento de prazer e relaxamento completamente sozinhos. O Cabo Sounion ficava ali ao lado relativamente falando, já que era uma boa andada de uma hora com o sobe e desce de morros, as ruínas de mármore branco do antigo templo de Poseidon brilhavam sob o sol forte do meio dia e Camus já não aguentava mais aquele calor, quando chegaram ao topo, ele já estava quase mudando de ideia.
- Pode sentir, mestre? – ela perguntou enquanto fechava os olhos em direção ao mar com um leve sorriso nos lábios, tão delicado e sincero emoldurado por fios soltos de seu cabelo que voavam no vento e ele simplesmente não sabia por que estava prestando tanta atenção nisso.
- Sentir o que? O vento?
- Não – ela deu uma risadinha, fofa, na opinião dele ..ah...quer dizer...irritante – O cheiro. É como uma impressão digital de qualquer lugar, a primeira coisa que presto atenção e aqui é o cheiro do mar, a mistura de brisa, água e sal tão característica e especial em cada lugar, aqui, Itália, Brasil, Inglaterra, França...todos são parecidos, mas únicos.
- Você já foi a todos esses lugares? – Putz Camus, sua inteligência acordou com defeito esse dia, com tantas perguntas interessantes ou até românticas que poderia fazer, tá bom, romântica não, mas poderia ser algo melhor, não acha?
- Já e para muitos mais.
Seu olhar se perdeu na vastidão de água azul e verde a sua frente, era melancólico e carregado de uma tristeza que ele nunca viu tomar conta da garota antes, ela respirou fundo uma última vez e abriu um sorriso, a sombra tristonha sumindo de seu rosto e saiu correndo, tirando as peças de roupas que não precisaria, chinelos e soltando o cabelo, pulando por fim na água. Camus ficou atordoado e saiu catando os pertences da menina e deixando-os junto com os seus com o senhorzinho que tomava conta do local e resolveu pular atrás de Aira.
A água fresca era uma benção para o francês e por longos segundos ficou apenas ali, afundando de olhos fechados aproveitando a sensação. Quando sentiu o toque de areia nos pés finalmente abriu os olhos e tentou ver algo a sua volta, para onde a garota tinha ido? Podia enxergar bem até uma boa distância e nada de Aira! Por Zeus só lhe faltava à menina ter morrido na queda! Um palavrão muito impróprio lhe veio à mente e ele se repreendeu. Nadou um pouco mais para frente e sentiu algo passar rápido pelo seu pé, virou-se, mas já havia sumido. Novamente algo passou por suas costas, e por sua cabeça, rápido demais para ele acompanhar e cada vez mais perto até que começou a circulá-lo. Ele se irritou e segurou por instinto o ser, mais precisamente seu tornozelo. Aira sorria travessa para ele e antes que o cavaleiro pudesse tomar alguma providência, ela apenas se agitou com tamanha força que conseguiu fugir do pulso firme dele e mais uma vez sumiu.
Ela não podia negar que estava se divertindo, mas seria muito mais fácil se ele agisse como uma pessoa normal e tentasse persegui-la ao invés de apenas manter aquela pose de machão certinho. Ela queria brincar! Não como uma mulher brinca com um homem, apenas como uma criança brinca com outra, apenas rir, apenas se divertir. Tentaria mais uma vez.
Ele estava parado olhando a sua volta, ele como cavaleiro, treinado por anos a fio no mar, estava acostumado e podia prender a respiração por tanto tempo quanto um ser marinho, mas não esperava tamanha resistência dela. Finalmente algo positivo para tê-la como discípula. Parou para pensar sobre e se distraiu, quando deu por si ela já havia surgido.
Ela estava próxima dele, muito próxima, mas sem tocá-lo, frente a frente, sendo que ele encarava sua barriga, olhou para cima e encontrou aquele rosto que tanto lhe causava irritação. Estava calmo, levemente divertido, os olhos agitados pediam por uma resposta, os cabelos soltos espalhavam-se por todos os lados e ela permanecia imóvel, sem que a água perturbasse sua posição. Debaixo d'água parecia em casa.
Ele a olhou de baixo a cima. Os pés pequenos e delicados, as pernas nuas, as coxas largas a mostra, o biquíni vermelho, a barriga seca, os seios com o tamanho certo, a pele alva... Ela desceu, nariz a nariz ficaram, mas os olhos dele fugiam para a boca pequena, os lábios eram volumosos, vermelhos e tentadores, ela sorriu e se afastou querendo apenas ser feliz. Ele hipnotizado apenas a seguiu, como um marinheiro que cai nas redes de uma sereia.
Ficaram nisso por horas, ela riu como se estivesse na superfície, mas ele permanecia sereno, ou assim demonstrava pelo menos. Subiram em busca de ar poucas vezes, foram atém bem fundo e distante da praia para depois voltarem. Quando saíram na areia o sol já estava a se pôr. Estavam ofegantes e exaustos, ela jogou-se ali mesmo rindo e olhando a paisagem enquanto ele sentou-se ao seu lado, aproveitando ela como paisagem, se é que me entendem.
- E então, acabou se divertindo mesmo estando perto de mim? – ela perguntou com um ar zombeteiro.
- Não foi tão ruim, apesar de você simplesmente não me deixar nadar em paz.
- Qual seria a graça? E além disso, a maior parte do tempo foi você quem me seguiu.
- Bom, eu – boa Camus, caiu feito um Hyog...opa...feito um patinho, agora sai dessa – Não posso tirar o olho de alguém irresponsável como você – afe, você já fez melhor do que isso – De uma hora para outra pode se perder e acabar morrendo.
- Tenho bem mais chances de morrer em terra do que no mar – ela riu – de qualquer maneira, mesmo você não tendo gostado tanto assim, eu adorei e vou repetir a dose algum domingo por aí. Agora fique quieto que o pôr do sol vai começar, não se esqueça de ouvir o mar e o vento para compor o todo da cena.
É, ele não podia negar que era agradável, o sol descia, algumas rochas que despontavam do mar deixavam a cena mais única, sem falar do morro com as ruínas do templo de Poseidon ali ao lado, a água de tons tão belos chegava morna aos seus pés, a areia quente já começava a esfriar a sua volta, mas sua textura era gostosa, fina e clara, a brisa e as poucas ondas fechavam o quadro com seus sons naturais que atraiam uma leve sonolência. Ele sorriu extasiado e ela viu e achou um dos sorrisos mais belos que já vira em sua vida.
XXXXXXXX
Capítulo por Hell =D
