Estava sentado na escadaria de sua casa, dali podia ouvir os gritos de algumas aprendizes ecoando pelo santuário; ainda não conseguia identificar de quem eram, e eram tantas garotas, Shion logo o mandaria pegar uma discípula ali mesmo em Rodório; mas não queria isso, sentia saudades de sua terra natal, queria uma conterrânea para treinar.

Ele se levantou e foi arrumar a mala para uma rápida viagem ao Brasil.

Brasil 9:20 Am.

-Como é bom esse país! – Afirmou se espreguiçando.

Havia enfrentado dias de viagem, mas se sentiu imensamente revigorado apenas em por os pés em sua terra natal; tudo ali era diferente, o vento, o cheiro, tudo lhe dava uma intensa sensação de nostalgia.

Saiu do porto e foi andando calmamente até uma das muitas praias; se sentou na areia e ficou olhando o mar.

As pessoas já estavam se retirando da praia quando ele se sentiu observado; continuou admirando o mar, mas agora prestava atenção a pessoa que o rondava; estava se aproximando devagar, e andava pela praia como se fosse um turista.

Sorriu quando percebeu a pequena mão adentrar sua sacola rapidamente, e depois a presença ia se distanciando com o mesmo andar de antes.

Ele se levantou e foi caminhando, seguia a presença sem que o notassem; estava curioso, se não fosse um cavaleiro treinado não teria percebido nada.

Parou as portas do cemitério; onde o vigia o cumprimentou.

-Já vamos fechar moço – Informou.

-Não vou demorar – Falou estranhando a pronuncia de sua própria língua.

Ele caminhou entre os corredores e ocultou sua presença quando sentiu que havia encontrado o que procurava.

Havia uma criança sentada na frente de um dos túmulos velhos, ela se balançava para frente e para trás enquanto sussurrava.

-Desculpe mãezinha; eu juro que não queria roubar, me desculpe, mas eu estou com tanta fome, e frio, desculpe mamãe – Pedia chorando.

Aldebaran sentiu seu coração apertar ao ouvir os sussurros; sabia o que era ser órfão e ter que recorrer aos roubos para não morrer; queria ajudar.

-Criança – Chamou com a voz potente.

A criança se assustou, e tentou passar correndo por ele; mas foi pega pelo pulso.

-Moço, me desculpa, eu não fiz nada, por favor – Implorava.

Ele olhou nos olhos daquele inocente; nunca havia visto olhos naquela cor, eram num tom de castanho tão diferente que reluzia em vermelho junto as lágrimas.

-Criança; onde está sua família?

-Mamãe morreu há alguns anos; por favor, o senhor não vai me jogar na cadeia não é, as pessoas são ruins lá, eles batem – Pediu.

-Eu moro em um lugar, onde treinam para proteger as pessoas na terra; você gostaria de proteger as pessoas? – Perguntou sorrindo.

-Proteger? Eu posso proteger alguém?

-Sim; se se dedicar ao treinamento poderá proteger muitas pessoas!

-Até minha irmãzinha?

-Onde está sua irmã? – Perguntou curioso.

-Ela mora com o moço lá no casarão; ele disse que deixa a gente morar lá se eu roubar pra ele – Confessou.

-Então está decidido; vou levar vocês pra morarem comigo!

-Mas o que vamos ter que fazer moço? – Perguntou com medo.

-Terão que treinar para ficarem fortes; e farão vários amigos por lá!

-Sério mesmo moço? Você não vai me bater nem me obrigar a nada?

-Não; é claro que não, mas saiba que a rotina de treinos é muito puxada, e muitos morrem antes de acabar o treinamento; mas vocês terão um teto, roupas e comida.

A criança olhava para ele encantada, ela se atirou em seus braços chorando.

-Obrigado moço, eu chorei e rezei tanto pra alguém ajudar a gente! – Afirmava grudada a ele.

-Então vamos buscar sua irmã!

Ele ergueu a criança e a colocou sentada em seu ombro, era tão pequena e leve que não sabia precisar sua idade.

-O moço do casarão não vai gostar disso – Ia sussurrando.

-Não se preocupe, ele vai sim; está com fome?

A criança riu, e tirou de uma bolsinha que levava uma maça avermelhada.

-Desculpa moço; mas eu roubei sua comida – Admitiu envergonhada.

-Pode comer, eu tenho mais algumas aqui.

Ele retirou mais duas maças da sacola e lhe ofereceu; a criança ia lhe guiando pelas ruelas da cidade, ele ria e a incentivava a falar; mas sua mente estava longe, lembrando de sua própria infância e treinamento; não sabia o que Shion faria com ele por levar duas crianças; treinaria aquela, não sabia precisar se era menino ou menino, e sentia que iria causar uma vergonha imensa com a pergunta; quanto a irmãzinha, ela poderia ficar com as amazonas, estavam sempre precisando de mais gente.

-Moço, é aquele casarão ali – Afirmou apontando

Ele parou estarrecido, aquele lugar era um bordel, e já existia antes mesmo de seu nascimento; o que faria uma menininha naquele lugar?

-Vamos entrar? –Perguntou para criança que tremia.

-O moço vai me bater, eu não trouxe nada hoje.

-Não se preocupe, ninguém lhe fará mal enquanto estiver comigo!

Decidido, entrou pelo largo salão, admirando os quadros pendurados nas paredes vermelhas.

-Em que posso ajudá-lo senhor? – Perguntou uma moça com um vestido preto bastante comportado.

-Vim aqui buscar a irmã desta criança; poderia busca-la – Pediu gentilmente.

A moça ficou pálida, e balbuciou alguma coisa antes de correr para dentro.

Aldebaran se permitiu analisar melhor o lugar, eles pareciam estar prontos para uma grande festa, algumas moças circulavam em roupas provocantes, e havia uma bela cadeira de veludo negro em meio ao salão.

-Moço, ele não vai deixar você levar a gente não – Sussurrou com medo.

-Bom; eu vou dizer que sou o pai de vocês – Afirmou decidido.

Logo uma verdadeira procissão de mulheres desceu as escadas, no meio delas vinha uma garota muito bonita, usava um vestido azul e tinha os cabelos castanho claro presos por uma fita vermelha.

A criança em seus ombros começou a chorar baixinho; o que o preocupou.

-O que houve criança?

-O moço disse que a minha irmã ia só limpar e ajudar as moças; agora ele vai por ela pra trabalhar – Chorava

-Sua irmãzinha, é a garota no meio dessas mulheres? – Perguntou assustado com tamanha covardia.

-Sim, aquela é a minha irmãzinha Juliana.

-E qual é o seu nome? – Perguntou bondosamente.

-Eu me chamo Anitta.

A voz dele trovejou pelas paredes daquela casa de prazeres, fazendo todos congelarem em seus lugares.

-Como ousam pôr as mãos na minha filha Juliana?

A garota chamada Juliana o olhou desconfiada, mas pareceu tranqüila ao ver a irmã nos ombros dele.

-Papai! – Gritou correndo para o lado dele.

Ele passou a mão pelos cabelos da garota e deu um beijo em sua testa sussurrando.

-Vou salvar vocês; meu nome é Aldebaran.

O dono do lugar; o tal "moço" veio correndo tentar pegar a menina junto com os seguranças do local.

-Se encostar em qualquer uma delas, vai se arrepender – Ameaçou.

-O senhor tem que se retirar daqui agora, essas garotas são minhas sobrinhas! – Esbravejava.

-Eu sou advogado senhor, eu tenho a guarda das minhas filhas assegurada na justiça; e o que a polícia iria fazer a um tio que coloca a sobrinha como peça de ouro em um bordel e manda a outra praticar furtos? – Acusou

Os seguranças recuaram, as moças começaram a subir as escadas de volta e o "moço" estava quase explodindo.

-Com a sua licença; vamos meninas.

Ele deu a mão para a mais velha e saiu calmamente do local.

-Você vai se arrepender seu caboclo! – Gritou o moço

Ele só parou de andar quando chegou na beira da praia, se sentou no chão de frente para elas.

-Vocês estão bem?

-Quem é você, e o que quer de nós? – Perguntou abraçando a mais nova.

-Eu me chamo Aldebaran; e moro em um lugar que as pessoas treinam para proteger a paz na terra; sua irmã concordou em passar por esse treinamento, terão um teto, roupas e comida, gostaria de treinar também?

-E não temos que dar nada em troca? – Desconfiou.

-Apenas sua dedicação ao treinamento.

-Então; acho que podemos ir, não é Nitta? – Perguntou a menor.

-Sim!

Ela se levantou e se jogou no colo do cavaleiro, o abraçando.

Ele passou a mãos pelos cabelos dela e a colocou novamente no ombro, se levantou e deu a mão para a mais velha.

-Agora, vocês precisam de um banho e um bom jantar!

Foram para uma pensão a beira mar, um lugar modesto, mas que exalava hospitalidade.

-Gostaria de um quarto com três camas por favor – Pediu.

-Senhor, desculpe minha indiscrição, mas não permitimos menores; o senhor entende não é?

-Elas são minhas filhas.

-Ahh, me desculpe, é que temos tantos casos de abuso de menores por aqui...

-Fico feliz que se preocupem, podem subir meninas – Pediu.

As garotas subiram para o quarto, e ele ficou conversando com a atendente.

-Senhora, poderia me ajudar a arranjar roupas; eu não sou bom com roupas de mulher – Afirmou constrangido.

-Minha filha adora fazer compras, ela pode comprar algo se o senhor quiser.

-Ótimo; vamos viajar amanhã cedo, e não temos muito tempo para compras, seria de grande ajuda.

Ele ficou algumas horas conversando com a senhora, e quando deu por si as garotas desciam as escadas vestidas adequadamente; Juliana usava um jeans e regata pretos e Anitta um vestidinho verde escuro; ambas pareciam felizes.

-O que querem comer meninas? – Perguntou sorrindo.

-Hum... Qualquer coisa – Afirmou Juliana.

-Ahh então vamos comer feijoada; há anos que estou com vontade! – Riu.

Elas sorriram para ele e foram a um restaurante ali perto mesmo; o cheiro da feijoada impregnava o ambiente, e o samba contagiava as pessoas, que dançavam entre as mesas.

-Que saudades da minha terra! – Afirmou enquanto tomava uma caipirinha.

-O senhor... Não mora aqui – Juliana perguntou sondando.

-Eu nasci no Brasil; mas moro na Grécia desde menino, vocês vão adorar, o mar é lindo, as pessoas são incríveis!

-Mas nós não falamos grego – Nitta comentou triste.

-Vamos viajar de navio; não confio em aviões, ensinarei os princípios básicos a vocês antes de chegarmos!

Eles comeram bem, e depois ele ficou olhando as duas dançando juntas; seu coração parecia mais leve ao olhar para elas.

-Vamos para a pensão meninas? Vocês têm que dormir bem, amanhã vou dar aulas pra vocês o dia todo! – Afirmou rindo

Chamavam atenção ao andar pela rua; Nitta ia balançando os pés sentada no ombro dele, e Juliana andava ao seu lado conversando.

-Afinal; quantos anos vocês têm? – Perguntou curioso

Shion não havia imposto uma idade especifica para as aprendizes, mas sabia das diferenças entre as idades das outras discípulas de seus amigos.

-Eu tenho 20; Nitta vai fazer 9 – Contou sorrindo.

As garotas eram lindas; agora que haviam tomado banho e vestiam roupas decentes ele via a semelhança entre elas, as duas tinham os mesmos olhos castanho avermelhados, os cabelos de Nitta eram apenas um pouco mais claros do que os de sua irmã.

Alguns dias depois...

-Finalmente chegamos – Afirmou ele abrindo os braços.

-Que sol forte – Nitta reclamou.

-É tão bonito.

Ele havia passado todas as horas possíveis ensinando a elas; as duas não sabiam escrever, então teve que ensinar tudo; a essa altura já conseguiam escrever algumas poucas frases e entendiam o básico de uma conversa; mas aprendiam rápido

-Bom; bem vindas a sua nova casa!

Elas olharam boquiabertas para a casa de touro, parecia tão grande e intimidadora.

-Finalmente você voltou Aldebaran; Shion estava preocupado com a sua viagem – Saga comentou saindo do templo.

-Olá Saga; você sabe que viagens de navio demoram.

-E quem são essas?

-Nitta e Jú – Apresentou – Este é o cavaleiro que defende a próxima casa; Saga de Gêmeos.

-É um prazer conhece-las!

Ele beijou a mão das meninas e riu da vergonha delas.

-Shion vai quere falar com você; porque não deixa as meninas comigo e vai ver o que ele quer antes que o grande e poderosíssimo mestre desça as escadas – Pediu ironizando.

-Eu já desci Saga – Afirmou o mestre descendo as escadas.

-Merda – Saga resmungou.

-Aldebaran; fico feliz que tenha feito uma boa viagem, mas você trouxe duas garotas; e sinto que já teremos problemas o suficiente com cavaleiros escolhendo duas discípulas por aqui.

-Nós vamos ter que ir embora? – Nitta perguntou se abraçando as pernas de Aldebaran.

-Podemos contornar isso grande mestre? – Pediu ele

-Não; já chega dessa bagunça; terá que escolher uma delas.

Ele deu as costas e voltou a subir as escadas; deixando as garotas desoladas.

-Nitta; eu vou arrumar um trabalho e venho te visitar; não é senhor Aldebaran? – Perguntou ajoelhada ao lado da irmã.

-Isso não será necessário – Saga afirmou – Eu ainda não tenho uma discípula, gostaria de ser minha aprendiz?

Jú arregalou os olhos e afirmou feliz enquanto abraçava a irmã que chorava de felicidade.

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Capítulo por Srt. Maga