Máscara da Morte não era um cara legal. Nem feliz. Ou educado. Ou doce. Ou meigo. Ou fofo. Ou paternal. Ou delicado. Ou simpático. Ou sentimental. Ou qualquer outra característica positiva que uma pessoa poderia ter, salvo ser lindo, gostoso, charmoso e italiano (sim, ser italiano é considerado elogio). Por tudo isso, ninguém no Santuário, muito menos o próprio cavaleiro, entendia como que a menina mais fofa desse universo seria sua discípula. Mas o maior choque era saber que fora a própria garotinha que batera o pé até consegui-lo como mestre
Todos temiam pela vida da pequena, até Camus de Aquário se oferecera para treiná-la junto de sua discípula encrenqueira, porém, a pequena se recusava a ir com qualquer outro. Surpresa foi quando, após duas semanas trancada em Câncer a menininha saíra para passear com sua cabeça ainda sobre os ombros e toda sorridente. Aira, a pupila de Camus, ficou como responsável por levá-la para fazer compras em Athenas já que era a única em quem a pequena confiava, mas, para a decepção geral, a mais velha não conseguiu obter qualquer explicação, apenas carregou milhares de sacolas para o quarto da mais nova e juntas começaram uma intensa personalização do quarto, que para a tristeza da pequena era demasiado masculino, sob o olhar vigilante de Máscara que ficava encostado na porta divagando.
Melody tinha nove anos e parecia uma boneca. Sua pele era bronzeada e os cabelos escuros repletos de cachos ficavam presos por duas marias-chiquinhas dos dois lados da cabeça. Seu rosto arredondado e de olhos grandes estava sempre sorridente mostrando um buraco no lugar de um dos dentes frontais. Usava sempre sandálias gregas com algum vestido rodado ou shorts com camiseta. Era espanhola, mas falava grego fluentemente e pouco, ou melhor, nada dizia sobre de onde tinha vindo, até porque ele não perguntava.
De modo geral, os dois se davam bem. Ela fazia de tudo para agradá-lo, não o incomodava em seu tempo livre, nem pedia qualquer bobagem que crianças daquela idade pediam, pelo menos não ainda. Tiveram algumas aulas teóricas sobre a alma, o seikishiki e o Yomotsu as quais parecia ter grande dificuldade de entender, mas não se assustava. Também não se assustou quando foi levada ao próprio Yomotsu, a entrada do mundo dos mortos, e parecia encantada em ver as almas sofridas caindo para o nada. Ela era perfeita para ser sua irmã ou até sua filha, e esse era o problema. Máscara da Morte não constituía família, abandonara a própria para ficar forte.
Ele ficou boquiaberto, nos minutos em que se distraiu pensando, Aira transformara, sob as ordens de Melody, o quarto no lugar mais rosa que ele já vira. Afrodite sentiria orgulho. Ele sentiu nojo. Tudo quanto é coisa estava rosa, somente os móveis permaneciam brancos enquanto uma das paredes havia sido pintada com um rosa mais claro com tinta de secagem rápida que não deixa cheiro.
- Senhor Máscara da Morte, por favor, Melody precisa se trocar para dormir - Aira falou com o sorriso petulante dela - Poderia se retirar?
Ele não respondeu, apenas lançou um olhar assustador e saiu. A mais velha arrumou a mais nova e a colocou para dormir. Desligou a luz e fechou a porta com cuidado atrás de si e já estava quase saindo dos corredores quando foi detida por um corpo forte, mãos inquietas e uma boca insistente. O cavaleiro de Câncer a prensou contra uma parede e a apertava e beijava de forma rude e provavelmente deixando alguns hematomas, até que ela segurou o rosto dele de maneira firme, mas delicada e o afastou para poder olhar em seus olhos, sorrindo docemente e voltando a beijá-lo carinhosamente, ele correspondeu e a abraçou, trocando os apertos por carícias. Perderam a noção do tempo e ficaram ali por mais de duas horas quando se separaram com largos sorrisos, mas sem dizer nada, ela apenas voltou para Aquário e ele foi para o quarto.
A semana seguinte foi estranha. Pouco viu Aira que estava ocupada com o próprio treino e por isso não tiveram chance de se falar ou fazer algo mais. Melody continuava com problemas nas aulas teóricas, mas seu físico era bom o suficiente para acompanhar o treinamento, sendo que, durante a prática de quinta-feira ela conseguiu acertar um bom soco na barriga do cavaleiro enquanto este estava distraído e exigiu uma recompensa: um piquenique a beira do Yomotsu no sábado. Ele não teve como recusar. Foram de corpo e espírito para a entrada do mundo dos mortos e apreciaram a tarde agradável comendo tudo quanto é tipo de sanduíches, guloseimas e bolos tendo como cenário as almas penadas caindo no buraco sem fim.
Quando terminaram, a menina acabou dormindo e ele teve que carrega-la no colo de volta para casa. Apesar de tudo, gostava da confiança que a Melody tinha com ele, ninguém mais era assim, não que soubesse. Ele a carregou para o quarto rosa, tirou os sapatos dela, a cobriu e sem nem perceber o que fazia, deu um beijo de boa noite na testa da pequena, quando se virou para sair, encontrou Aira parada o observando com um sorriso nos lábios.
- Alguém aqui quer ser papai - ela provocou.
- Calada.
Ela riu e acabou sendo levada arrastada para o quarto do cavaleiro que começou a tirar sua roupa sendo parado por ela.
- Não, eu não quero fazer nada assim com você.
- Como assim, garota? Está desafiando a minha vontade? Quer parar na minha parede?
- E você acha mesmo que tenho medo das suas máscaras de purificação? – ela perguntou arqueando uma sobrancelha.
- Purificação? – ele ficou perdido, como ela sabia? – Deu um sorriso sarcástico. – Ficou maluca?
- Meu avô me levou para uma cidadezinha de frente para o mar na Itália onde fizeram uma dessas máscaras para limpar um pouco a alma do meu pai. Você não me assusta, oh, temível Máscara da Morte.
Ele suspirou e sentou-se na cama. Ela estava certa, a máscara era feita com uma argila especial e usando uma mistura de cosmo e magia podia-se retirar os pesos da alma de alguém, memórias traumáticas e sentimentos ruins eram sugados à medida que aquele que a usava ainda mole, quando seca, estava pronta. A pessoa podia reviver o que deixou para trás colocando a máscara, mas a maioria dos que foram favorecidos por ele apenas queria se livrar dela, então o cavaleiro as trazia para sua casa.
- Enzo – ele disse derrotado.
- É um belo nome – ela sorriu e sentou-se ao lado dele – Não tenho intenção nenhuma de fazer sexo com você, mas somos dois carentes românticos com problemas para nos aproximarmos.
- Quem disse que sou um carente romântico?
- O seu olhar semana passada quando eu fui embora. Estou errada?
- Não.
- Ótimo, agora, a minha proposta – ela se animou- Eu só fico livre aos domingos porque meu mestre é um saco, nesses dias eu podia vir aqui, te ajudo com a Mel e fico com você.
- Continue.
- Bom, se somos românticos, nós temos a esperança de achar A pessoa certa, o que não somos um para o outro.
- De acordo.
- Eu quero que viremos melhores amigos.
- Que viadagem.
- Hey! Respeito, homem! Enfim, enquanto não achamos a tal pessoa, além de melhores amigos também podíamos ficar juntos.
- Juntos tipo um casal, mas nada de sexo?
- Isso.
- Eu realmente devo estar carente para aceitar algo assim...
- YAY!
Ela de um pulo de felicidade e comemorou com uma dança idiota. Ele riu e a abraçou. Beijaram-se e foram para a cama, ficaram conversando e trocando carinhos e beijos por horas antes de dormirem juntinhos. É, talvez aquela proposta não fosse tão ruim.
