"Aqueles que buscam a Iluminação devem sempre se lembrar da necessidade de manter constantemente puros o corpo, a fala e a mente. A mente impura segue atos impuros e estes trarão sofrimentos. Assim, é de suma importância que se conservem puros a mente e o corpo." (livro: A doutrina de Buda)

Era justamente por isto que o cavaleiro de Virgem tinha que manter-se intocável e incorruptível dos pensamentos carnais aos ambiciosos, onde a plebe fraca e vulgar natural de sua condição humana era condenada a ser fragilizada, para que assim possa ter a mente livre de pecados e entregar-se de corpo e alma à essência de seu cosmo e conseguir atingir o nível mais alto da iluminação que precisava para se tornar aquilo que desde pequeno foi treinado para ser. Se tornar o homem mais próximo de um deus.

Tinha que ser assim perante todos, foi por isto que conseguiu falar com Buda desde seus três anos de idade, sua iluminação era invejável a qualquer um. Sabia de tudo um pouco e ao mesmo tempo sabia de nada, terceiros o julgam como um home sábio e inteligente, alguém com muita experiência de vida, porém o loiro dedicou sua vida a sua missão e nada além.

Quanto tempo é necessário para se adquirir a sabedoria?

Qual o propósito de uma guerra?

Perguntas assim passavam em sua mente e quando não conseguia chegar a uma resposta concreta uma luz em sua mente lhe respondeu com eu jeito humilde natural.

"Nada lhe é imposto sem que sua armadura não possa aguentar". Foi esta a resposta do próprio Buda em sua mente.

De modo geral, nenhum obstáculo lhe é imposto sem que você não tenha ao menos um por cento de chances de vencê-lo, Ikki de Fênix lhe ensinou isto quando lutou consigo na batalha das doze casas. Não importava o quanto seu cosmo era superior ao do cavaleiro de bronze e nem quantas vezes o derrubava, ele sempre se levantava e o atacava, aquela luta não mostrou quem possuía maior cosmo e sim o que cada um é capaz de fazer por aquilo que acreditava.

Ikki entregou-se de corpo e alma, assim como os outros quatro cavaleiros de bronze e por isto foram capazes de subir os degraus do santuário e derrotar Saga, foi por isto que os cavaleiros de ouro não conseguiram pará-los.

Shaka queria aprender mais sobre isto... Sobre o amor e a justiça que os cavaleiros de bronze tanto enchiam a boca para dizer. E assim como mestre, também queria ensinar isto aos seus discípulos. Neste momento lembrou-se de um acontecimento recente em sua vida que o fez refletir um pouco sobre este sentimento tão complicado quanto o amor.

Shiva de Pavão e Ágora de Lótus haviam conversado com o virginiano sobre a escolha deles, viveram intensamente como seus aprendizes mais dedicados e muitas vezes foram postos à prova de suas mentes e corpo em um treinamento rigoroso. Ambos resistiram até o fim, cumpriam todas as ordens de Shaka sem pensar duas vezes, depois de um tempo se tornaram muito mais do que simples aprendizes. A dupla mais o seu mestre encontravam-se no jardim das árvores sala gêmeas, não usavam suas armaduras, apenas suas tradicionais Shamtab brancas que cobriam o corpo deixando apenas um dos ombros e parte do peitoral visíveis a olhos nus.

- Há algo de errado? – Perguntou o loiro depois de horas que passou ao lado de seus discípulos. – Não sinto em vocês aquelas mesma vontade que há meses atrás... Sinto um medo em vossos corações que antes não existia, talvez seja isto que esteja impedindo que vocês consigam a paz suficiente para meditarem... O que é este medo?

Aquilo pegou os dois discípulos de surpresa, tentavam esconder ao máximo seus sentimentos de seu cosmo, mas era impossível quando se tratava de seu senhor, Shaka poderia muito bem entrar em suas mentes e descobrir o que se passava, mas seu mestre não fazia isto com seus companheiros por capricho e respeito.

- Shaka-sama... – Começou Ágora um pouco hesitante em tocar naquele assunto delicado. – Shiva e eu gostaríamos de dizer algo ao senhor...

- Ágora e eu, decidimos deixar o santuário... – Continuou Shiva baixando sua cabeça ao mesmo tempo que seu amigo.

Shaka manteve-se paciente e impassível esperando a resposta de seus amigos para assim poder lhes dar um conselho ou até mesmo tentar ajuda-los a compreender suas dúvidas, mas não esperava por aquilo.

- Vocês pretendiam fugir do santuário? – Perguntou o loiro com sua calmaria e serenidade natural. – Mesmo sabendo que seriam tomados como traidores e correrem o risco de sofrerem a penalidade que é a morte?

- Sim... – Responderam os dois em uníssono ainda de cabeça baixa.

- Por quê? –Perguntou o loiro curioso com aquela decisão. – Vocês dois foram os melhores dentre os outros, aguentaram o treinamento rigoroso para chegarem até aqui para jogarem tudo isto fora...

- Shaka-sama o senhor se tornou nosso exemplo de vida, seguiremos sempre suas palavras até o último dia de nossas vidas... Não teríamos chegado aonde chegamos sem o senhor... Mas descobrimos algo que vale pena correr o risco... – Respondeu Shiva deixando um sorriso fechado aparecer.

- O amor... – Completou Ágora e na mesma hora ergueu seu olhar para Shaka.

Amor.

Um sentimento destrutivo e ao mesmo tempo tão belo que Buda mesmo sempre o alertou para manter-se longe se desejava mesmo alcançar a luz necessária.

Por que tinha que se lembrar daquele episódio justo naquele momento?

Tanto Athena quanto Buda haviam lhe pedido para treinar duas crianças na qual seriam seus discípulos e mais tarde iriam disputar pela armadura de ouro de Virgem quando o loiro não estivesse mais em condições, Shaka aceitou prontamente aquela ordem, na verdade agradou-se da ideia de ter novos discípulos, já que Shiva e Ágora haviam deixado o santuário por motivos pessoais.

Demorou cerca de duas horas para sentir os cosmos diferentes e até então estranhos para si, entrarem na casa de virgem, o que fez Shaka ficar preocupado e elevar seu cosmo levemente para sentir se tinha alguma alteração e algum dos cosmos dos cavaleiros de ouro que talvez estivesse dando trabalho aos seus convidados. Mas aliviou-se no momento que sentiu dois cosmos aparecerem na casa de virgem, ambos encapuzados caminhavam pela casa puxando uma vaca por uma pequena corda em seu pescoço enquanto olhavam envolta completamente presos naquela decoração diferente.

Nunca haviam saído da Índia antes, então tudo era novidade. Os pilares gregos feitos de mármore branco, aquele silêncio um pouco assustador e aquela escuridão natural da casa de virgem os faziam ficar ainda mais temerosos sobre o que lhes aguardava ali.

Tinham ideia de que seriam treinados por um ser iluminado e escolhido pelo próprio Buda, mas pelo que viram nas casas anteriores como a de Câncer e Gêmeos, estavam com medo do que poderia vir a aparecer para eles. Uma luz branca apareceu bem no fundo daquele lugar transformando as paredes dali no céu escuro da noite e o chão transformou-se em água, onde eles pisavam se formavam aquelas pequenas ondas circulares que marcavam seus passos, algumas flores do lótus de diferentes tamanhos começavam a desabrochar por aquele lugar trazendo consigo uma luz natural que deixava ainda mais charmosa aquela atmosfera.

(Imagem ilustrativa de como ficou o cenário. )

Ambos olhavam surpresos deixando aparecer um sorriso de orelha a orelha em ver algo tão belo e tão familiar em um lugar como aquele, a mais jovem simplesmente agachou-se para pegar uma lótus e leva-la em seu nariz apreciando aquele aroma.

- Vajra, olhe... É de verdade! – Balbuciou a garota rindo como uma criança.

- Nalini, minha querida Didi... – Começou o mais velho com um sorriso carinhoso levando sua mão para a cabeça do animal que traziam consigo fazendo um pequeno carinho. – Vamos, depois voltamos para apreciar mais a beleza deste lugar, sim?

- Tudo bem... – Balbucia a garota voltando a caminhar, mas é parada pelo irmão. – Didi?

Nalini olhava para seu irmão sem entender o motivo do outro ter parado, até levar seus olhos para a figura de um homem que surgia de dentro de uma lótus no centro, a garota engoliu em seco em ver tamanha beleza diante de si, já seu irmão se mantinha concentrado naquele homem e em seu cosmo, porém não podia deixar de apreciar sua beleza, na verdade sentiu seu coração aquecer em vê-lo, aquele cosmo beirando ao de um deus de tão puro e intenso foi o que lhe chamou a atenção. Ambos retiraram o capuz mostrando suas faces para o loiro deixando mostrar a surpresa em suas íris.

(Vajra e Nalini)

- Sejam bem-vindos à casa de Virgem, meus conterrâneos... – Balbuciou o loiro com um sorriso fechado nos lábios saindo da posição de lótus enquanto se aproximava dos dois, que eram um pouco menores que ele – Sou Shaka de Virgem.

- O homem mais próximo de um deus...- Balbuciou Nalini com os olhos grudados no loiro.

Vajra no mesmo instante baixou sua cabeça ajoelhando diante do loiro mantendo sua cabeça para baixo. Já Nalini ficou petrificada em ver seu mestre pela primeira vez, mas logo tratou de fazer a mesma coisa que seu irmão.

- É um prazer conhece-lo Śrī, Me chamo Vajra e esta é minha irmã Nalini... – Apresentou-se o mais velho.

- Vajra é uma palavra sânscrita que significa tanto "diamante" quanto "relâmpago". Como diamante, remete à indestrutibilidade da essência espiritual. Enquanto relâmpago, como aquilo que ilumina velozmente. Já Nalini literalmente traduz a "flor de lótus" do sânscrito, simboliza a pureza e beleza... Nomes dignos para dois pupilos... – Comentou o loiro com um sorriso fechado para os dois ajoelhados na sua frente enquanto desviava sua atenção para o animal ali. – Vejo que não vieram sozinhos... Quem é esta?

- Gaya... – Respondeu Vajra.

- É um bom nome para nossa amiga aqui, no entanto, vocês estão na Grécia, peço para terem cuidado com este nome... – Balbucia o loiro acariciando o animal. – Não creio que o santuário seja o melhor lugar para cuidarem dela, mas nenhum cavaleiro de ouro seria ousado de mais em toca-la na minha presença.

- N-Não sabíamos, sentimos muito... – Sussurrou Nalini.

- Śrī Shaka... Obrigado por permitir que nós fiquemos com Gaya, farei que não tenha tanto trabalho com ela... – Sussurra Vajra com um sorriso de orelha a orelha.

- Irei encontrar um lugar para Gaya, até lá podem tomar um banho e descasar, o treinamento de vocês irá começar antes do sol nascer... – Avisou o loiro pegando a corda tirando-a da vaca e guiando-a para a escuridão daquele lugar.

Depois disto os dias se passaram e Shaka testava os dois discípulos com toda a severidade que sempre teve, às vezes ficavam dias sem comer ou mudar de posição até que chegassem ao estado de plenitude onde seus cosmos mostravam toda a simplicidade e humildade de que se precisava para alcançar o estado de iluminação. Vajra era um pupilo exemplar, não demonstrava possuir medo como qualquer outro humano teria e também conseguia meditar com apenas pouco tempo de treino, já Nalini mostrou ter certa dificuldade em controlar seu pequeno e frágil cosmo.

Mas, Shaka não iria desistir dos dois, a cada dia que passava preparava um treinamento rígido para eles, cada vez mais testando os limites dos corpos humanos e frágeis dos jovens, queria ver até onde iriam e o quanto eram motivados a serem dignos de receber as sagradas armaduras de Athena. A cada dia que passava mais o loiro se envolvia com aqueles dois, aquele jeito bem humorado dos dois, as canções de sua terra que podia ouvir quando os dois faziam os deveres da casa de virgem em conjunto, aquele jeito descontraído de rirem quase o tempo todo, Shaka nunca viu a casa de virgem ser tão cheia de vida como ficou depois da chegada dos dois.

Embora, no último treino pôde ouvir sem querer uma conversa que lhe fez ficar pensativo, Vajra tinha de tudo para ser seu sucessor, mas Nalini queria voltar para Índia e abandonar a ideia de ser uma Amazona. Relatava o desempenho de seus aprendizes a Athena uma vez por semana, sabia o quanto a deusa ficou preocupada com a situação de Nalini, a deusa até mesmo pediu para o loiro ser mais benevolente em questão a garota. Mas a resposta de Shaka surpreendeu a deusa.

- "Athena, com todo respeito. Entendo que meu treino seja muito rígido, tanto físico como mentalmente, exigindo de mais o que um humano normal poderia aguentar...No entanto... Não posso me dar ao luxo de entregar as armaduras de Lotus e Pavão para eles se assim não merecerem. Sua segurança é prioridade e não minha benevolência perante minha aprendiz. Nalini não precisa de vossa pena para se tonar uma Amazona, porque ela é capaz, assim como seu irmão mais velho Vajra, de despertar seu cosmo e estendê-lo ao infinito como qualquer outra Amazona."

O sorriso conformado da deusa perante aquela resposta fez o loiro refletir se valia ou não depositar tanta fé assim naqueles dois. Era quase uma da manhã e o anfitrião daquela casa preparava-se para terminar sua meditação e ir descansar, tinha apenas algumas horas até o sol aparecer e tudo começar de novo, precisava encontrar uma forma de acender a vontade de seus aprendizes em quererem se tornar Cavaleiros de Athena e assim faria.

- "Shaka... Shaka... Por que está tão distante? " – Perguntou Buda para o seu aprendiz.

- "Estou?" – Respondeu o loiro baixando sua cabeça para refletir um pouco mais sobre a pergunta de seu mestre. – "Apenas estive pensando em como me aproximar mais de meus discípulos... Não quero que eles desistam do treinamento."

- "Shaka, a tarefa do homem é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se a ele." – Respondeu Buda e antes de desaparecer lembrou seu discípulo de uma verdade que o mesmo havia se esquecido. – "O Mestre na arte da vida faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu lazer, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Ele dificilmente sabe distinguir um corpo do outro. Ele simplesmente persegue sua visão de excelência em tudo que faz, deixando para os outros a decisão de saber se está trabalhando ou se divertindo. Ele acha que está sempre fazendo as duas coisas simultaneamente."

O Virginiano refletiu sobre o que seu mestre lhe disse nas poucas horas que tinha para seu sono, sentiu o cosmo de Nalini se estender no jardim das árvores sala gêmeas, lentamente o loiro de levantou de onde estava e caminhou até o local para ver do que se tratava. A visão de sua discípula tão concentrada treinando sua última lição o fez pensar que realmente valia apena dedicar-se a transformá-los em verdadeiros cavaleiros de Athena.

- Sinta mais e use menos força... – Balbuciou o loiro aproximando-se da menina – A força de um cavaleiro nada serve se o cosmo do mesmo for inferior a ela... Você ganha limitações se só treinar sua força, já seu cosmo dependerá de você para torna-lo infinito...

A jovem parou o que fazia e deu as costas para seu mestre abraçando-se enquanto olhava para o chão sentindo seus olhos marejarem.

- O que houve? – Perguntou Shaka dando alguns passos em direção da garota, mas parou quando sentiu o cosmo da mesma se tornar triste e confuso.

- Eu tenho pena de ti, Śrī Shaka. – Balbuciou a garota sem coragem de olhar para o loiro, sua voz ecoou alta por aquele jardim, embora fosse apenas um murmúrio sôfrego.

- Pena? Mas, por que tens pena de mim? - O loiro perguntou sinceramente confuso.

Foi a primeira vez que alguém lhe fez refletir sobre o que viveu até aquele momento. Não foi Buda e muito menos Athena. Foi uma criança, uma criança que lhe intrigou desde o momento que colocou os pés na casa de virgem, como alguém poderia sentir pena do cavaleiro mais próximo de um deus?

- Porque és o cavaleiro mais triste e melancólico que conheço. - A moça respondeu.

- Estás enganada, criança. Não sou melancólico, muito menos triste. - O cavaleiro de virgem respondeu calmamente.

- Então por que nunca o vi sorrir? Estás sempre com esta mesma expressão, não sorri, nem demonstra qualquer outro sentimento bom... - A garota rebateu penalizada.

- Não sei... apenas não vejo motivos... Mas assim como não vê alegria, também não vê tristeza, certo? Então como pode afirmar que sou um cavaleiro triste? - Shaka levantou a questão.

- E há algo mais triste do que não ter sentimentos? - A menina questionou virando-se para seu mestre.

- Não é por que não demonstro, que não os tenho... – Respondeu o loiro agradando-se com a inocência da parte de sua aprendiz onde levou sua mão na cabeça da garota acariciando-a de leve. – Agrado-me em ver coisas boas ... Da mesma forma que entristeço quando vejo algo ruim... Apenas não demonstro meus sentimentos como todos.

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Capítulo por Vaca