O cavaleiro observava o céu noturno agora sem estrelas. Há quantas noites não conseguia dormir? Um aperto familiar no peito que o acompanhava desde que fora trazido de volta à vida fazia-se sempre mais forte de madrugada.

Por mais que se esforçasse para entender, não conseguia ver o sentido naquilo tudo. Por que Athena o havia ressuscitado? Ele sabia que o amor de sua Deusa tinha trazido de volta todos os Cavaleiros de Ouro, mas não conseguia ver mais sentido na sua existência.

O destino parecia lhe pregar peças. Logo ele, que sempre se orgulhara de ser o cavaleiro mais fiel de Athena era, na realidade, um grande pecador.
Era assim que Shura se via. Mesmo após todos aqueles anos, ainda não conseguia se perdoar pela morte de Aiolos. Não conseguia ponderar que naquela época era pouco mais que uma criança e que estava sob a influência de Saga.
Desde que descobrira a verdade a respeito do sagitariano e de Saori não conseguira ter nem mais um minuto de paz.

Assim que percebeu seu erro, sacrificou-se para que Shyriu vivesse e achou que poderia se redimir.
Mas nem mesmo na morte pôde ter paz, tendo que participar daquela missão horrenda como espectro de Hades.

Agora estava vivo novamente. Por mais que passasse a maior parte do tempo recluso, era impossível às vezes não cruzar com duas figuras tão marcantes em seu passado. Uma era Saga, mas com ele as coisas eram mais simples. Foram obrigados a conviver muito tempo juntos no Meikai e com isso Shura pode compreender melhor o geminiano. Sabia que ele também carregava grandes dores e havia conseguido perdoá-lo, embora não conseguisse perdoar a si próprio.
Porém não conseguia ao menos encarar Aiolos. Cada vez que via o sagitariano e a alegria que ele naturalmente emanava sentia-se terrivelmente culpado por ter sido aquele que tinha ceifado aquela vida tão pura.
Sentiu uma lágrima solitária banhar-lhe o rosto. Odiava ficar tão emotivo e aquela insônia, onde tantas lembranças eram trazidas à tona o estava enlouquecendo.
Sacudiu a cabeça numa tentativa de afastar as más recordações e entrou em sua casa. Deitou-se na cama, tentando novamente dormir. A Deusa havia passado aos cavaleiros de ouro uma nova missão e ia fazer o melhor parar cumpri-la.

Na manhã seguinte, Shura subia as escadarias em direção ao Salão do Grande Mestre pensativo. Era muito estranha aquela missão de treinar futuras amazonas. Ele não fazia a mínima idéia de como lidar com crianças. Mesmo quando era uma, não se enturmava muito, seu único amigo - e grande modelo - era Aiolos.
Por isso achava muito mais lógico que as garotas fossem treinadas por cavaleiros que já tivessem tido pequenos discípulos como Shion, Mu, Camus e... Aiolos.

Bufou ao perceber que estava novamente pensando no nele. Onde estava sua preciosa racionalidade? Deveria estar mesmo perdendo o juízo...
Adentrou o salão do patriarca e fez uma reverência respeitosa a Shion, ajoelhando-se.

- Shura, que bom vê-lo. Vai gostar de conhecer a sua aprendiz. Venha querida.

De trás das cortinas do salão uma garotinha entrou timidamente. Era pequena e parecia assustada. Vestia uma capa e um capuz ocultava sua face.

- Tire o capuz, pequena, assim pode ver melhor o seu mestre.

A menina obedeceu. Ao olhá-la Shura arregalou os olhos verdes e ficou boquiaberto. Ela tinha cabelos curtos, castanhos claros quase loiros que se encaracolavam levemente nas pontas, olhos azuis que poderiam se tornar esverdeados dependendo da luz e traços que lembravam muito um certo cavaleiro.
Shion percebeu seu espanto e riu.

- Ao olhar para ela parece que volto no tempo. Ela realmente é muito parecida com...

- Aiolia!

- Sim, na época que ele começou a treinar e vocês se conheceram. Parece mesmo que foi ontem que todos vocês tinham este tamanho... Bem, mas agora que já se conhecem vocês podem iniciar seu treinamento. Tenho certeza que irão se dar muito bem!

Ainda um pouco abismado, Shura perguntou:

- Qual seu nome, quantos anos você tem e de que país vem?

- Helena, tenho 7 anos e sou da Grécia mesmo.

Helena. O nome também era grego. Shura imaginou que estava passando por seu inferno astral ou algo do gênero. Teria que ficar o tempo todo com uma aprendiz que era uma sósia feminina em miniatura do caçula do seu ex melhor amigo que ele assassinou com as próprias mãos? Como poderia manter sua sanidade mental?

Pegou a garota pela mão e sem dizer uma palavra foi descendo as escadas até sua casa. No caminho encontrou Camus de Aquário.

- Bonjour Shura.

- Olá Camus.

- Essa garota é sua aprendiz? Olá Petit!
O francês deu um de seus discretos sorrisos para a menina que timidamente retribuiu o gesto.

- Crianças dessa idade me lembram Hyoga e Isaak. - Disse um tanto saudoso.
Shura reparou que Camus parecia genuinamente gostar de crianças.
O francês voltou rapidamente à sua postura impassível.

- Preciso retomar meus afazeres, mas se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar.

- Gracias.

Shura entrou em Capricórnio acompanhado de Helena, trocando poucas palavras com a menina. Ofereceu-lhe o café da manhã que já tinha deixado arrumado e pediu para ela vestir o uniforme de treino. A garotinha obedeceu sem pestanejar.
"Graças a Deusa, tudo indica que ao menos sua personalidade não é parecida com Aiolia. Ela parece ser obediente..."

- Agora, vamos iniciar seu treinamento...

Ao chegar na arena Shura passou uma série de aquecimentos, uma pequena corrida e alguns exercícioa físicos simples.
Obviamente a garota mostrava sinais de cansaço, mas o treino só foi interrompido após duas horas. Depois, Shura pediu que a menina se sentasse e iniciou sua palestra sobre o Cosmo e suas técnicas de domínio, parando de falar após 40 minutos.

- Alguma dúvida?

O espanhol estava tão absorto em sua aula que somente agora notava a expressão confusa da menina.

- Bem, isso é meio complicado e... Com todo respeito, um pouco chato...

- Chato ?! - Gritou. Quem aquela pirralha achava que era para chamar sua palestra cuidadosamente planejada rica em detalhes de chata? Observou novamente a face agora um tanto assustada pelo seu grito da menina e concluiu que talvez sua aula fosse fascinante para um cavaleiro como ele, mas certamente um tanto enfadonha para uma menina de 7 anos. Respirou fundo e voltou à sua voz normal.

- Escute, Helena. Já fizemos bastante coisa pela manhã. Vou te dar um intervalo. Naquela direção há um jardim. Você pode ir para lá descansar ou brincar um pouco.

- Obrigada, senhor! - Respondeu feliz pela chance de brincar.

Shura passou a mão nos cabelos curtos preocupado. Como iria se comunicar de forma clara com uma criança tão nova? Aquilo prometia ser mais difícil do que pensara.

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Capítulo por Daniz Gemini