Capítulo 2
Tudo o que se lembrava era de ter ouvido trotes e mais trotes de cavalos, homens conversando e rindo alto, seu corpo sendo chacoalhado aqui e ali e frio... frio intenso como se congelaria e não conseguisse acordar.
Sentia-se fraca.
Sentia-se cansada.
Sentia uma dor vinda da boca de seu estomago, como querendo vomitar... vomitar o que? Desde que a estúpida guerra começara, havia mais de três semanas que mal comia e bebia!
Acordara em uma espécie de cela, num calabouço – assim pensava ela –, com uma pequena janela, a única luz que tinha. Ouvia passos aqui e ali, gritos, risos forçados e desespero. Por dois dias, ficou ali, no centro do recinto, sentada a espera do guarda que vinha para sua refeição e o balde para seus dejetos.
Até que, no terceiro dia, ouviu um segundo guarda conversar com seu carcereiro, ouviu a chave sendo tirada de algum lugar e a porta sendo aberta. A luz que entrava a cegava, mas ouviu seu nome sendo chamado e o guarda lhe falando algo. Estava tão fraca que mal conseguia ouvi-lo, apenas fez um aceno de cabeça, como que concordava com o que ele dizia e o viu chegar mais perto, sua mão a puxou para cima e a fez andar para fora de sua cela.
Arrastada para fora, não conseguia olhar para frente, apenas ouvia um "anda!" e "para frente, vai!", até que o chão começou a mudar; não tinha mais pedras, agora um chão de mármore e às vezes via um carpete aqui e alí. Conseguiu levantar a cabeça e viu colunas de mármore, grandes janelas indianas que deixavam a luz do sol entrar, e plantas suspensas para todos os lados. Não conseguia ver o que tinha além das janelas, mas parou em uma enorme porta de madeira, pintada de branco, onde dois guardas abriram.
Além das portas, uma enorme sala, com estantes repletas de livros, mapas aqui e acolá, mulheres preparando uma enorme mesa para o jantar (o cheiro era tão bom que ela se atentou mais a mesa com as comidas) e, no centro da sala, uma parte elevada, com uma enorme mesa onde homens vestidos de armaduras ou roupas ornamentais de suas respectivas patentes, discutiam algo. Entre eles, viu os dois homens que a capturaram e o terceiro, com quem falou antes de desmaiar.
Badr viu o guarda com a garota na porta, viu-a examinar tudo na sala, se demorar na mesa do jantar e percebê-lo na mesa junto com os outros homens.
_Espero que tenha esclarecido a dúvida de todos – começou –, mas tenho assuntos a tratar com a jovem. Até lá – levantou-se da cadeira –, descansem.
Todos os presentes saíram da sala, fazendo uma pequena reverencia a Badr e saindo, olhando para a garota imunda segurada pelo guarda.
O guarda largou a garota que quase caiu no chão, a porta se fechou e tudo ficou em silencio.
_Amélia, estou certo?
A garota o olhou um tanto desconfiada.
_Sim...
Badr levantou-se da cadeira e foi em direção da mesa de comidas. Amélia o seguiu com os olhos. Ele não parecia tão assustador agora sem a armadura, usava uma túnica preta com detalhes em prata, os cabelos longos em uma trança e um cinto que tinha um suporte para sua espada. Tão diferente dela que estava toda suja, o vestido que um dia foi azul e os cabelos presos por uma fita, bastante amassados e embaraçados.
_Seu nome... Badr... me lembrei.
O homem olhou para ela e esperou que terminasse.
_Meu pai falou de você...
_Espero que ele tenha falado mais sobre outras coisas.
Viu o olhar confuso dela enquanto pegava uma uva para comer.
_Onde ele está?
_O que?
_Senya, seu pai, onde ele se esconde?
_C-c-como poderia saber?
_Você é a filha... na certa, ele falou algo.
_Por que acha que eu sei? E, mesmo que soubesse, por que falaria?
Ele sorriu e se aproximou dela.
_Se ainda quer continuar viva, sugiro que diga.
Os olhos ainda eram frios, quase sem vida. Isso a assustava, pois sabia que ele não teria piedade em nada. Mesmo assim, manteve seu olhar fixo nos dele.
_Eu não sei... sou a filha, mas ele sabia que um dia algo parecido aconteceria comigo.
_E, por que, ainda assim, não acredito?
_Estaria gritando e ficaria desesperada, mas, neste exato momento, sei que vou morrer e ele não pode fazer nada.
Ele sorriu e foi para perto da mesa outra vez.
_Se me contar, a libertarei. Você poderá ir a qualquer lugar e não a seguirei... – pegou uma uva – mas, se não o fizer – esmagou a uva com a mão e abriu para que ela visse – creio que já sabe.
Ela engoliu a seco, começou a tremer e a suar frio.
_Tem até amanhã... GUARDAS!
Dois guardas entraram e cada um pegou seu braço, arrastando a garota para fora da sala. Ela fez uma ultima tentativa:
_Falo a verdade, acredite! A única coisa que ouvirá serão meus gritos! Deixe-me ir! SOLTE-ME! AAAAAARRRGGGHHHH!
A porta se fechou e Badr olhou para a palma de sua mão, onde uma enorme cicatriz em formato de meia-lua ocupava a maior parte de sua palma.
_Veremos...
