Capítulo 3

Mais uma semana. Mais algum desespero. Mais nada em sua vida.

Já não comia e nem bebia o que os carcereiros lhe traziam. Ia morrer mesmo de um jeito ou de outro. Que diferença fazia?

Tentando refazer seus passos até o momento que foi capturada, Amélia só se lembrava de estar na estrada, correndo feito uma louca, já que onde estava escondido havia sido descoberto. Não parou para ver se tinha alguém vivo; alias, não tinha. Escutou os gritos dos pobres inocentes sendo massacrados, enquanto corria em direção ao nada tentando escapar de algo que ela não sabia.

Sentia-se uma covarde por não ter tentado ajudá-los, mas não tinha como! Quando chegou ao pequeno acampamento, viu todos capturados. Não viu chance. Viu chance de salvar-se, mas não a eles... pobres crianças! Pobre inocentes que morreram por nada!

Aquela noite foi fácil se esconder na floresta, mas na manha seguinte, ouviu os homens bem próximos dela. Esperou até que passassem, mas aquele guarda – ela tinha ouvido o nome dele em algum lugar, era parecido com o de Badr... Ba-alguma coisa – deve tê-la visto tentando escapar pela parte de cima da floresta. Achando que estava segura, olhou para baixo por uma vala onde dava para ver a estrada... uma mão a puxou para baixo! Tentando se libertar, outro guarda a pegou e a imobilizou.

Sorriu com a idéia de parecer a própria Perséfone que fora levada para o inferno por Hades, obrigando-a a casar-se com ele. A única diferença era que o "Hades" iria matar "Perséfone" se essa não revelasse onde seu pai está e o que ele está tramando.

Ela não sabia; seu pai era sábio, mudava de esconderijo a toda hora com seus homens exatamente para evitar tais "eventualidades". Na certa, a notícia que os refugiados do sul foram massacrados chegara aos seus ouvidos.

Na certa, ele já imaginava que ela estava morta...


_Procuraram por toda parte?

_Sim, senhor.

_Rastros?

_Só um, senhor. Mas...

_"Mas..."?

O soldado não sabia o que fazer. Odiava quando o comandante Senya ficava nervoso, ainda mais depois do que achou na floresta.

_Senhor – estendeu a mão em direção ao comandante, depois de respirar fundo – eu achei isso.

Todos conheciam Amélia. Todos sabiam que ela usava um colar dourado com uma pedra de rubi, presente da falecida mãe.

Se o colar estava no chão, havia duas possibilidades; ela fugiu, o colar caiu e ela foi capturada; ela fugiu, o colar caiu e ela foi morta e o corpo jogado no rio ou em algum lugar.

Melhor que seja a primeira.

Senya não era velho, era um homem em seus 50 anos bem conservado por causa das várias lutas e batalhas que já participara. Alto, grande e com um olhar duro mesmo quando relaxado, era difícil ficar perto dele; era uma daquelas pessoas que ou você já cria um certo respeito ou fica com medo na primeira vez que o vê. Mas era uma boa pessoa, assim que se deixava conhecer.

Por uma fração de segundos, o soldado viu a dureza de seu olhar ir embora quando percebeu que o objeto em sua mão era o colar de sua filha. Mas sabia que ele também pensara nas duas possibilidades, logo, a velha rudeza voltava.

_Vasculharam? – perguntou, ainda olhando o colar.

_Sim, vasculhamos em todos os lugares possíveis que poderiam haver sobreviventes... vasculhamos no rio na busca de mais corpos. Os mortos estavam na clareira perto do acampamento. Não conseguimos encontrar a senhorita Amélia, senhor...

_Certo... – disse Senya, ainda olhando para o colar – Descansem e amanha partiremos com os sobreviventes para o Norte.

_Sim, senhor.

O soldado se afastou, mas ainda parou para dar mais uma olhada no Comandante, que ainda estava olhando para o colar. Um momento de pena ao pobre comandante, afinal, se ele tivesse filhos e alguém os matasse também se sentiria sem chão.

Senya caminhou para sua barraca, não parou e nem olhou para aqueles que o chamavam.

Amélia poderia estar viva. Só Deus sabia o que ela estaria passando. Badr não a mataria se soubesse quem ela era, mas Amélia também não sabia onde ele estava... uma vantagem!

Mas como a tiraria da fortaleza daquela Besta?