Capítulo 3
A Arrogância de Thranduil
Na sala do trono Thranduil olhou para o líder dos humanos, o rei élfico estava ciente das crianças humanas, mas não era um problema seu. E os elfos de Mirkwood não costumavam se envolver em assuntos que não lhe interessavam. Principalmente os assuntos dos humanos.
–Lamento mais essa morte, mas não podemos ajudar. – disse o rei em sua postura altiva.
–Vossa majestade... – o líder começou. –O filho desse homem morreu. O senhor não imagina a dor que ele sentiu ao receber o corpo da criança naquele estado lamentável. – ele completou com emoção apertando o ombro do homem mais velho, que se antecipou à presença de Thranduil.
–Meu filho era minha vida. Minha luz... – o velho humano chorou.
Thranduil sabia o que era perder entes queridos, dois dos elfos que mais amou na vida morreram em seus braços. Seu pai, na batalha de Dagorlad e depois sua bela esposa, morta logo após dar a luz a Legolas. –Como já disse, lamento, mas nada os elfos podem fazer. – o rei disse por fim sem nunca abandonar seu escudo de arrogância.
–Essa criatura arrasta nossas crianças para o núcleo da floresta na calada da noite, as torturam e as matam sob seus olhos e nada os elfos podem fazer? – empertigou-se de vez Arthur, o líder do vilarejo.
–Pondere seu tom, humano! – Thranduil falou com frieza. –Acusam minha raça, os primeiros nascidos, de ser conivente com tamanha mortandade? Por quem nos toma? Acaso acredita que somos seus iguais? Até onde me consta os homens são os que têm sentimentos abomináveis habitando seus corações mortais, não os elfos. – sua voz se elevou perigosamente. Thranduil não confiava nem um pouco naquela raça e muito dos males de sua longa vida chegaram a si pelas mãos calejadas dos humanos.
–O rei está cheio de seu orgulho e superioridade para olhar o nosso sofrimento. – Lumir lamentou.
–O fato, majestade, é que essa criatura abominável devora e violenta nossas crianças debaixo da copa das árvores dessa maldita floresta, e vocês elfos conhecem Mirkwood de olhos fechados, é evidente que sabem o que está causando essas violentas mortes, precisam nos ajudar. Precisam capturar essa coisa horrenda. Por Deus! É claro que vocês já devem ter seguido seu rastro, porque em nome de Deus não a impedem de continuar sua vida miserável? – o terceiro homem apelou.
–Não sabemos o que é. O mal habita nessa floresta. Muitos seres das trevas caminham por entre as árvores pela noite, elas vêm e vão como querem, mas evitam nosso reino. –Kethemar falou em assombro. –No entanto, escutamos os ventos dizendo sobre uma criatura ágil que caminha pelas trevas e cheira a sangue humano. – o elfo arregalou os olhos enquanto falava para dar ainda mais ênfase ao clima de medo e pavor que se estabelecia entre os homens. –Tivemos notícias que uma de nossas patrulhas perseguiu tal criatura, mas ela fugia ligeira e com destreza pelas árvores, no entanto, escapou rumo ao o sul aonde nossas habilidades não podem alcançar... – terminou seu relato dramático.
–Para o Sul? – os três homens trocaram olhares medonhos.
–A criatura passeia por DolGuldur, e nós, do reino élfico de Mirkwood não nos meteremos com ela. E aconselho a vocês seguirem o mesmo. Ela é perigosa. – disse o assessor.
–E quanto as nossas crianças? – Lumir chorou.
–Mantenham-nas sob seus olhos. Sejam vigilantes e não durmam nas noites sem lua, pois as criaturas das trevas não dormem. Os seres que caminham pela Colina da Magia não descansam nunca. Vocês humanos precisam aprender serem vigilantes como nós elfos. – Kethemar falou sombriamente.
–Nem todos os seres são como os elfos, que dormem de olhos abertos à espera do inimigo. – rosnou o terceiro homem.
–Vamos nos unir? Armamos uma espreita para ela, somente imploramos sua ajuda. – o líder mudou seu tom antes arrogante para uma súplica. Sabia que os elfos eram os seres mais antigos e por isso mais sábios. E esses que há muito habitavam essa floresta desde que ela ainda era conhecida como Greenwood eram conhecedores profundos daqueles caminhos, pois a viram desde que sua beleza era densa e intocada pelo mal, eles sim poderiam ajudar.
–Um mal maior pode se levantar naquelas colinas novamente. E o que fazem os elfos? Protegem-se em seu luxuoso palácio? – Lumir gemeu em desespero.
–No passado combatemos o mal daquelas colinas, hoje porem, não temos meios para isso. Já lutamos nossa batalha e fomos vitoriosos, contudo, houve perdas irreparáveis. E no mais o mundo élfico anda muito apartado para uma nova aliança contra o mal. – Kethemar desabafou.
–Por Deus. Não entendo suas maneiras. O perigo ronda à noite enquanto vocês se escondem! – o líder falou cansado. Dali nada conseguiria.
–Já chega! – a voz do rei élfico soou como um trovão. –Não vamos interferir em coisas que acontecem fora de nossas fronteiras. Eu lamento humano, mas, não vamos nos arriscar para salvar a pele de sua raça que muito já nos mostrou não ser de confiança. Agora saíam de meus domínios. Nenhum de vocês é bem vindo aqui. – Thranduil se ergueu de seu trono. Sua imagem era bela, mas ameaçadora. Sua voz era gelada, seus olhos azuis afiados e sem qualquer emoção. –Lhes digo e essa é a minha última palavra. Se qualquer dos seus forem vistos em minhas terras, seja por qual motivo for, serão considerados invasores.
–O senhor não pode! – Lumir se ajoelhou aos pés do imponente rei. –Ajudai-nos! Eu clamo! Sei que o senhor tem um filho! Imagine que tudo o que queremos é proteger nossas crianças assim como o senhor quer proteger seu filho. – ele gemeu miseravelmente, mas Thranduil jamais cederia. Esse rei élfico era conhecido por sua intransigência. Liderava seu reino com punhos de ferro, pois ele sabia que o mal era um vizinho próximo e constante. Bem como as perdas que sofrera lhe fizeram endurecer como uma casca de proteção.
A audiência estava encerrada e os homens foram expulsos do palácio sob ameaça de prisão se ali tornassem a pisar. Saíam escoltados por guardas e por Kethemar e levavam consigo o peso de nada terem conseguido senão irritar o rei élfico.
Lá fora instigando por sua curiosidade Legolas permitiu ser tocado pelos dedos grossos do homem, ele próprio não teve coragem de tocar outro, embora quisesse saber como seria tocar o rosto humano com todo aquele cabelo arisco.
Kethemar chegava naquele momento na sacada com o grupo de humanos e ordenou que os guardas os levassem até as bordas da floresta em segurança, no entanto, ele congelou quando seus olhos afiados viram a cena à frente, também os guardas a viram e ficaram chocados.
–Não seria Legolas flertando com um dos humanos? – debochou o assessor cheio de veneno. Pelo Valar, que magia cercava aquele maldito elfo albino ele não sabia. Mas era impressionante como qualquer organismo vivo respirava pelo príncipe assim que lhe punha olhos na beleza. E como Kethemar se ressentia disso. Ele próprio à revelia da forma justa dos elfos, não era atraente. Sua pele clara não tinha o mesmo brilho da do jovem Greenleaf, os cabelos castanhos eram opacos e sem vida não davam graça ao vento e seus olhos eram esbugalhados e desproporcionalmente feios.
–Pois sim que é de fato o príncipe. Mas porque se deixa tocar dessa forma? – um dos guardas questionou em tom alterado.
–Qual será a reposta? Por falta de recato e excesso de vaidade. – rosnou Kethemar incomodado com a reação ciumenta do soldado.
O Cipreste avisou Legolas da comoção dos elfos na sacada e o príncipe se afastou do contato humano como se tivesse sido queimado. Ele olhou para Mitel horrorizado. –Eu tenho que ir. – disse por fim.
–Espere! Ao menos diga seu nome! – o humano perguntou sonhador vendo a bela criatura se afastar saltando por sobre aos galhos graciosamente.
–É Legolas! – a voz suave gritou enquanto ele se afastava.
–Seu pai será inteirado de seu... Intercambio com o macho humano. – Kethemar rosnou mostrando os dentes tortos quando Legolas se aproximou. –Levem esses humanos para fora da floresta e que fique decretada a sentença de morte se eles retornarem às nossas terras. – disse com importância exagerada o elfo. –Enquanto, a você, alteza, – ele cuspiu com nojo. – iremos ter com o rei. – falou sorrindo ironicamente para o príncipe.
–Pelo Valar. – Thranduil resmungou cansado. O dia tinha sido exaustivo e o que fazia Kethemar em sua sala novamente, agora com dois guardas e um Legolas nada animado? Estariam eles testando sua curta paciência?
–Perdoe-nos majestade. – Kethemar se inclinou levemente.
–Que foi agora? – o rei rosnou. Seus olhos azuis fitaram longamente seu filho.
–Estou consternado. – iniciou o conselheiro cuidadosamente. –Estou revoltado e não é sem causa. Ia escoltando os humanos bem como suas ordens, quando me deparo com Legolas aqui em uma cena lamentável. – ele parou apontando enfadonhamente para o príncipe ao seu lado. –Nem acredito que era o príncipe de Mirkwood em tamanha lástima. – teatralmente ele falou. –Um dos humanos que aguardava por seus líderes o estava tocando intimamente, e ele permitindo e gostando. – terminou acusador.
A notícia caiu como uma pedra no estômago de Thranduil. Era no mínimo chocante, e da forma como foi posto por seu assessor ficava pior ainda. Ele perdeu sua postura fria por um momento. Uma carranca de preocupação surgiu em seu rosto quando ele avaliou seu filho.
–Deixe-nos! – disse Thranduil. –E que nenhuma palavra sobre essa vergonha venha à tona. – disse em tom de ameaça.
Kethemar vibrou de felicidade internamente quando o rei pediu que os guardas deixassem os três sozinhos ordenando que nenhuma palavra fosse comentada ou repetida sobre a tal cena.
–Nada aconteceu, ada. – o jovem príncipe falou suavemente.
–Então eu minto? Invento e vejo coisas, sua Alteza? – prontamente saltou o assessor indignado.
O príncipe olhou para seu ada vendo sua postura tensa, como uma fera prestes a liberar seu temperamento. Thranduil estava aguardando por uma explicação que lhe apaziguasse o coração, mas o que diria? Seu ada sempre lhe pedira que se mantivesse neutro, educado com todos, mas distante como um ser endeusado e conseqüentemente intocável. Mas Legolas sempre fizera diferente, sendo amigável e se pondo como igual de todo e qualquer ser, para total desgosto e desaprovação do rei.
–Vamos, Legolas. Estou esperando uma explicação para tal vil comportamento de tua parte, um príncipe de Mirkwood. – disse o rei perigosamente.
–Não ocorreu dessa forma. – o príncipe falou sentindo-se pressionado demais para um único dia. –O humano me tocou sim, mas ele estava apenas curioso, nunca tinha visto um elfo antes. – esclareceu ele humildemente. Já bastava de brigas com seu pai por hoje.
–Curioso!? – meteu novamente o invejoso Kethemar. –Nem tão pouco ele tocou a mim, ou aos guardas! Pelo Valar. Aonde seus limites largos vão levar nosso reino? E se esses humanos espalham pela Terra Média a facilidade que é passar a mão no príncipe de Mirkwood? E se isso chega aos ouvidos de Lórien e Valfenda? Sabem que são amigáveis aos de humanos por aquelas bandas! Como fica?
–Não aconteceu nada demais. Pare de exagerar! – o príncipe falou se alterando. O Maldito assessor estava conseguindo envenenar seu ada contra si.
–Doce Elbereth! Vossa Alteza perdoe meu desrespeito, mas é vergonhosa a sua postura... – ele parou de falar vendo a reação do rei, que por essas alturas estava furioso.
Thranduil se aproximou dos elfos que discutiam e puxando o corpo o filho pelo ombro lhe prostrou a mão o mais forte que pode contra o rosto. Legolas arfou com dor e surpresa quando a bofetada violenta atingiu sua face direita o fazendo pender para o lado vacilando alguns passos desequilibrado. A sala ficou em silencio após o som da pancada reverberar pelas paredes.
Depois de controlar a surpresa do golpe Legolas virou para o pai com olhos nublados de dor. Seu rosto estava aceso de rosa e ardia miseravelmente, um hematoma feio se formou na bochecha, bem como dois filetes de sangue escorriam de sua narina e lábios cortados.
–Isso é pra que se lembre como tratar seu rei. Suas palavras chulas estão em meus ouvidos desde quando você me deixou falando sozinho. – disse o altivo elfo e sem esperar qualquer resposta desferiu outro tapa, de intensidade igual ou maior que o anterior na outra face do príncipe. Legolas dessa vez tropeçou nas pernas caindo no chão como um montão. Sua vista escureceu ligeiramente enquanto sua cabeça tonteou. O gosto de sangue lhe encheu a boca e ele tossiu o líquido de gosto forte. A dor dominou seu rosto e ele não conseguiu conter o rompante de choro, causado não só que pela dor física, mas também pela moral e sentimental. Seu ada o havia agredido duas vezes e de forma tão violenta e na frente daquele odioso elfo.
–Você vai pagar por essa humilhação... – Legolas resmungou baixinho e trêmulo.
–Ouse me desafiar somente mais uma vez, e eu juro que vai passar o resto dos seus dias em Mirkwood sob o solo frio de meus calabouços, escondido da luz do Sol que tanto preza. – disse o rei com desgosto. –Eu lhe dei uma ordem clara e simples. – ditou friamente. –Agora, você vai para seus aposentos e de lá não sairá até que eu lhe diga o contrário. – disse ainda. –Dessa vez você vai por suas próprias pernas e ficará por sua própria conta sem fazer contato com qualquer que seja. Se eu souber que me desobedeceu novamente, eu prometo, Legolas, que seu confinamento será uma sela que mandarei preparar especialmente para você.
Thranduil olhou para o filho largado no chão. Não era para ser assim, Legolas era um príncipe, o que havia de errado com ele? Porque ele tinha que ser sempre o causador de tantos problemas?
Por essas alturas Kethemar podia ter tido um orgasmo de tanta felicidade. Sua aposta saiu melhor que previu, o rei batera em seu filho por duas vezes e bem na sua frente.
–Quanto a você. – o rei se dirigiu ao assessor. –Se comentar uma palavra do que viu aqui...
–Claro, meu rei. Seguramente serei discreto. – disse prontamente o elfo sorrindo.
–Vou aos meus aposentos e não torne a me incomodar. – ele o rei virando graciosamente. –E Kethemar! Eu realmente não gostei do seu tom com Legolas. Ele é seu príncipe e é bom que não se esqueça disso. – lembrou Thranduil se retirando.
Legolas se levantou lentamente depois que sei pai havia se retirado. Dentro do príncipe havia um turbilhão de sentimentos confusos. Queria gritar tamanha sua raiva e humilhação, mas Thranduil era seu rei e lhe devia respeito, porém também era seu pai, e Legolas era completamente encantado pelo pai. O amava com todo coração, por isso as bofetadas de hoje lhe doeram tanta, porque era seu ada amado a bater. Havia decepcionado tento seu ada hoje que decidiu fazer o que lhe era ordenado sem questionar.
–Precisa de ajuda, Alteza? – quis saber debochadamente Kethemar.
Legolas não respondeu, nem sequer lhe encarou, afinal não ia lhe dar o prazer de ver seu rosto machucado. –Você me paga! – ele falou quando cruzou com o assessor de forma tão fria que fez o elfo moreno engolir em seco.
Em seus aposentos Thranduil mergulhou na banheira de águas florais relaxando a cabeça sobre borda. Os nós de tensão do corpo musculoso iam se desfazendo lentamente.
O rei fechou os belos olhos azuis refletindo sobre os acontecimentos do dia. A imagem do velho humano lamentando sua perda ainda estava presa a sua memória, como ele temia um dia viver para estar no lugar daquele pobre homem. Nunca poderia revelar seu medo, mas este lhe habitava intimamente: Perder Legolas.
–Nunca! – falou em voz alta. Doía-lhe ter agido com o filho dessa maneira, mas fora preciso. Era importante fazer o príncipe entender seus pontos de vista como rei e soberano de Mirkwood. E Legolas andava o desafiando abertamente, isso não seria mais tolerado, logo o filho se casaria e era preciso demonstrar respeito a seu marido e novo povo. Logo tinha que ensinar desde já como ele devia se portar respeitosamente. Thranduil suspirou pedindo ao Valar forças para lidar com Legolas e com as novas ameaças que pareciam vir do Sul. Ele tinha grandes preocupações em sua cabeça, tanto como rei como quanto um pai.
Já em seus aposentos Kethemar não conseguiu dormir naquela noite não tirava da cabeça os acontecimentos do dia. Sim, estava feliz, mas não satisfeito. O rei havia investido contra o filho, mas era nítido que o amava de todo o coração ainda. Como podia Thranduil ser tão apaixonado por Legolas mesmo sendo esse uma piada como príncipe?
Porque todos eram apaixonados pelo maldito Greenleaf? O que ele tinha demais?
Porque ele era o príncipe? Porque ele era o que podia gestar uma criança? Porque ele tinha que ser tão bonito a ponto de todas as criaturas se encantarem dele? Porque ele era noivo do valente guerreiro de Lórien? Porque sempre Legolas? Todas as melhores coisas de Arda sempre eram de Legolas!
Legolas, Legolas, Legolas! Mil vezes era Legolas em seus pensamentos. Nessa noite Kethemar planejou, re-planejou, nessa noite ele pensara uma forma monstruosa de destruir tudo que o príncipe era. De um esbulho só lhe tomaria tudo, a beleza, a inocência, o respeito de seu povo, o amor do pai e principalmente sai vida miserável.
–Maldito seja, Legolas Greenleaf, a morte é pouca coisa para você. Eu preciso te destruir, te macular antes que seja dado seu último suspiro. – gemeu Kethemar pensando em Legolas.
Os elfos eram tidos como criaturas de luz e paz, mas esse certo assessor era como um visgo crescendo entre as flores. Seu ódio e inveja o corromperam há muito tempo e seu interior era habitado de trevas e maldade. Odiava Legolas com toda a força de seu ser, porque a luz que emanava do príncipe feria seus olhos e seu coração sujo.
Essa noite ele traçara o destino de Legolas. Tentaria algo tenebroso contra o príncipe.
Grandes Beijos!
