Capitulo 03

Bruce estava certo. O dia seguinte foi marcado por extensas reuniões, precisavam acertar todos os detalhes do trabalho em campo. Ficou combinado que os oito cientistas do projeto iriam para lugares diferentes, a fim de terem mais dados para colher e seriam acompanhados por seguranças.

O anúncio feito no baile tomou as manchetes dos jornais e televisões, sendo comentado também mundo afora. Por enquanto, o clima era de apenas curiosidade sobre o que essa tecnologia seria capaz de realizar.

-Uma vez lançados no local escolhido, os nanorobôs vão enviar dados importantes, precisamos garantir que não teremos problemas nos servidores e que tudo será devidamente arquivado. –Clark comentou durante sua parte na reunião. –Essa é a fase mais delicada e que dura cerca de três dias. Após a varredura e análise, os nanorobôs entrarão no processo de decomposição dos resíduos ambientais.

-O que pode afetar o funcionamento deles? –Lucius perguntou.

-Grandes fontes de radiação, pulsos eletromagnéticos, além de temperaturas extremas. Fora isso são totalmente funcionais. –ele ajeitou os óculos.

-Os locais escolhidos para o lançamento foram: as baias de Gotham e Metropolis e Red River. –Bruce entregou a todos uma lista. –É necessário preencher essa ficha antes de lançar os dispositivos e ir anotando todas as diferenças a cada dia. Mais alguma pergunta?

O empresário observou calmamente cada um que estava na sala.

-Confio na capacidade de todos e esse é apenas o começo. Os seguranças irão garantir a integridade física de vocês e da pesquisa. –sua liderança era exercida de maneira natural. –Boa sorte.

Houve certa confusão, com tanta gente levantando e conversando entre si. Bruce deixou a sala rapidamente e se dirigiu ao elevador, quando as portas já estavam quase se fechando, Clark entrou rapidamente.

Ofegante, ele tentava tirar o jaleco, mas acabou se atrapalhando.

-Então, Wayne... –ele pigarreou. –Sei que você é muito ocupado, mas queria saber se gostaria de tomar um café comigo...

-Claro. E você tem mais dois andares antes do elevador abrir e todos verem que está enrolado no jaleco.

Clark conseguiu abrir os últimos botões e guardou a peça na sua pasta.

-Conheço uma cafeteria muito boa a duas quadras daqui, podemos ir a pé. –ele comentou, enquanto deixavam o prédio.

Um dos lados positivos de se viver em uma cidade cosmopolita como Metropolis ou Gotham, é que dependendo do horário e do local, dava para andar com relativa tranqüilidade. Eram tantas pessoas na multidão de calçadas e faixas de pedestre, que quase ninguém reconhecia o empresário.

Sentaram-se nos bancos no fundo da cafeteria.

-Por favor, um latte e uma fatia de torta de maçã. –Clark pediu a garçonete.

-Café preto e croissant de presunto, obrigado. –Bruce também fez seu pedido.

A garçonete anotou tudo e deixou a mesa com um sorriso bobo. Não era sempre que atendia clientes tão bonitos quanto aqueles dois. Mas eles pareciam compenetrados demais um no outro e não prestavam atenção em mais nada ao redor.

Ela não demorou mais que cinco minutos para deixar o pedido na mesa.

-Quer me dizer alguma coisa? –o milionário perguntou, enquanto adoçava o café.

-Como sabe? –o cientista levantou as sobrancelhas, surpreso.

-Está tamborilando os dedos na mesa desde que chegamos.

-Oh... –ele deu uma risada nervosa. –Bem... –pigarreou novamente. –Eu gostaria de te fazer uma pergunta, espero que não esteja sendo invasivo demais.

Bruce recostou-se na cadeira, cruzou as pernas e bebericou seu café, observando o outro, sustentando seu olhar, sem piscar.

-Mas como lida com a mídia? Eles vivem atrás de você, procurando novidades, rastreando seus passos, tirando fotos inconvenientes, dando palpites de quem pode ser sua próxima namorada... –Clark disse, enquanto cortava seu pedaço de torta.

-Praticamente desde que comecei a falar e andar, meus pais me ensinaram sobre como lidar com o público. Isso faz parte de ser um Wayne. A pior fase foi quando eles faleceram... Hoje em dia é bem mais tranqüilo do que naquela época.

-Eu... eu lembro disso. Os jornais só falaram nisso por meses.

Bruce ficou quieto, ocupado com sua comida.

-Me desculpe, fui indelicado. –Clark baixou seu tom de voz. –Eu sei como é essa dor. Por mais que os anos passem, a ferida parece nunca cicatrizar. Por mais que esteja alegre, fica um ranço de melancolia lá no fundo...

Ele levantou os olhos do prato e encarou o outro.

-Meu pai infartou logo depois que entrei na faculdade. –o cientista respirou fundo devagar. –Sempre quando estou com saudade de casa, venho aqui e peço essa torta de maçã. A receita é muito parecida com a da minha mãe.

Terminaram de comer e deixaram a cafeteria.

-Preciso verificar como está indo o trabalho de campo. –Clark sorriu levemente. –Obrigado pela companhia e por me ouvir.

-Você não é obrigado a falar com a imprensa, a não ser que seja um comunicado oficial. Não tem que dar satisfação de nada a ninguém, você é que estabelece até onde eles podem ir. Caso se sinta ofendido de alguma maneira, posso lhe indicar alguns advogados.

-Obrigado pela ajuda.

-Sempre que precisar.

(...)

-Você não tem mais o que fazer na sua cidade? –Batman encarou-o. –Estou ficando cansado de ser seguido.

-Eu não estou brincando com você. –Superman aproximou-se. –Apenas quero conversar.

Estavam em um dos prédios mais altos de Gotham, o vento gelado fustigava suas capas.

-Poderíamos trabalhar juntos.

-Acho que já deixei minha posição bem clara em relação a isso. –o morcego parecia irritado. –Eu trabalho sozinho.

-Por favor, me escute. Não seria preciso que ficássemos juntos o tempo todo, mas se houvesse uma parceria, seria mais fácil de resolver os problemas.

-Somos diferentes demais pra isso, pensamos e agimos de modos antagônicos.

-Mas é justamente isso! Eu com a força, agilidade e invulnerabilidade. Você com a inteligência, tecnologia e planejamento.

Eles ficaram se encarando.

-Não. –Batman estava decidido.

Superman então respirou fundo e passou a mão pelos cabelos, parecendo desconcertado.

-Você faz idéia do quão eu me sinto sozinho?! –ele andava de um lado a outro. –Do peso que carrego nos meus ombros?

-Quando se escolhe esse caminho, é o único retorno que temos. –o humano cruzou os braços. –Sei muito bem como é.

-Não, não sabe... Como eu tenho que me segurar para não machucá-los, de como são frágeis perto de mim, feitos de papel. –ele deixava as palavras fluírem porque não tinha mais como segurar. –Durante anos eu achei que estivesse sozinho, que meu caminho seria angustiante... Até ouvir falar em você. Então achei que não precisaria ser assim, que poderia contar com o apoio de outra pessoa que também havia escolhido servir a humanidade.

-Você não vai me usar como uma bengala. –Batman subiu na grade de proteção e se preparou para ir embora. –Aprenda a lidar com a solidão assim como eu fiz, cada um de nós tem uma luta própria e não há ninguém que pode aliviá-la.

Superman sentiu suas pernas fraquejarem enquanto o morcego ia embora e caiu de joelho no chão. As lágrimas foram inevitáveis.

Depois de tantos anos, e afundou o rosto nas mãos e deixou o pranto correr solto. Seus ombros chacoalhavam com o choro e o peito doía. Ali, no alto daquele prédio, nunca se sentiu tão solitário.

(...)

Uma semana depois

Bruce contraiu as nádegas e finalmente gozou. Os espasmos percorreram seu corpo e ele saboreou o momento. Depois deitou na cama, retirando o preservativo e jogando-o no lixo.

-Achei que nunca fosse me chamar pra sair. –Catherine comentou, deitando ao seu lado.

-Gosto de fazer suspense. –ele puxou a coberta e os cobriu.

Do jeito que estavam cansados, acabaram dormindo logo em seguida. Ele sabia que aquilo não passava de um caso, que talvez duraria duas semanas. Daí iria enjoar das mesmas conversas fúteis de sempre e partiria atrás de outra no mês seguinte.

E assim Bruce pulava de caso em caso. Não era nenhuma novidade que as mulheres estavam interessadas no luxo que poderia oferecer, então era uma espécie de troca de favores.

Naquela noite ele acordou assustado, molhado de suor. Apesar da janela estar um pouco aberta, não foi isso que perturbou seu sono. Foram os pesadelos. Logo se aproximaria o aniversário de morte de seus pais e com isso, a temporada de pesadelos.

Bruce respirou fundo e virou-se de frente para a mesa de cabeceira. Pegou o celular e desceu lentamente pela lista de contatos.

Clark Kent.

Talvez seria uma boa idéia chamá-lo para almoçar, gostava de conversar com ele. Mandou o convite por mensagem, mesmo sendo de madrugada. Acabou recendo uma resposta positiva e voltou a dormir.

(...)

Devido ao grande volume de dados coletados, a equipe inteira resolveu tirar pelo menos um dia de folga para então começar a analisar os resultados obtidos na pesquisa de campo.

Clark vestia sua antiga camisa de flanela xadrez, calças jeans e botas. Fazia muito tempo que não se vestia tão confortável. No laboratório era sempre preciso estar bem arrumado, devido ao alto padrão da instituição.

Ele olhou no relógio e viu que estava dez minutos adiantado. Pensou em dar uma volta, mas percebeu que Bruce aproximava-se. Era a primeira vez que o via sem terno. Usava blusa social, suéter, calça escura e mocassins.

-Já tem alguma idéia de onde podemos comer?-o empresário esfregou as mãos espantando o frio.

-Na verdade, pensei do almoço ser lá em casa. –Clark parecia animado. –O que acha?

-Por mim tudo bem... Você não está com frio?

-Eu sou calorento.

Eles foram até o prédio do cientista em alguns minutos na Lamborghini preta de Bruce, que usou a vaga de Clark no estacionamento, já que ele só tinha bicicleta. Assim que a porta do apartamento abriu, o cheiro de comida inundou o sentido de ambos.

-Por favor, fique a vontade. –ele foi até a cozinha e desligou o forno. –Pode ir sentando, já vou servir.

O lugar era muito aconchegante, com fotos da família espalhadas pelos móvies, que eram todos de cor clara e rústicos. Algumas plantas enfeitavam o ambiente e a televisão ligada no canal de esportes.

Bruce sentou a mesa e esperou enquanto Clark voltava com um refratário quente, com uma grande peça de carne, batatas e cenoura. Numa outra vasilha tinha purê e alguns vegetais.

-Receita tradicional dos Kent: rosbife com creme de milho e vegetais. Espero que goste. –parecia orgulhoso do almoço.

Eles se serviram e começaram a comer, enquanto discutiam sobre o jogo de futebol americano que passava na televisão.

-Isso realmente está muito gostoso, Kent.

-Acho que não precisamos mais de tanta formalidade não é? Me chame de Clark. –seu sorriso era largo.

-Já que é assim, então me chame de Bruce.

O empresário acabou saindo apenas quando anoiteceu, porém não perceberam o tempo passar. Ficaram zapeando pelos canais, enquanto comentavam os programas e comiam brownie de sobremesa.

Bruce levou um pote para casa com bastante comida do almoço e outro com o brownie. Clark havia insistido que gostaria que Alfred provasse de sua comida também. Ele ficou acompanhando outro pela janela até entrar no carro e dar a partida.

A noite recebeu uma ligação totalmente inesperada de Loius Lane, querendo marcar uma entrevista. Não fazia a mínima idéia de como havia conseguido seu número de celular, mas resolveu encontrar com ela.

(...)

-Fico feliz por ter vindo, Clark. –ela abriu um grande sorriso e lhe estendeu a mão.

-Por favor, me chame de Kent. –ele sentou sem cumprimentá-la.

Desde pequeno havia aprendido a confiar nos seus instintos. E assim que colocou os pés naquela sala, sentiu que algo estava errado, mas não conseguia precisar o que. A sede do Planeta Diário era enorme e opulenta, com o globo dourado girando no alto do prédio.

Lá dentro havia fluxo constante de pessoas andando de um lado a outro e telefones tocando.

-Então, como anda a pesquisa? –posicionou o gravador mais perto.

-Estamos muito animados com os resultados até agora. –Clark ajeitou-se na cadeira. –A decomposição dos nanorobôs tem se mostrado mais eficiente do que esperávamos e estão reagindo bem, mesmo em locais tão diferentes.

-O que isso significa?

-É realmente impressionante a transformação dos ambientes onde estão trabalhando. Red River está sendo despoluído após décadas de esgoto e lixo.

-Isso é realmente uma boa notícia! Pretende expandir o negócio?

-Na verdade não é um negócio, nosso foco é a recuperação do planeta. – ele ajeitou os óculos.

-Mas é uma empresa privada que está financiando tudo.

-Sim, porém todo o lucro obtido através da venda dos nanorobôs será direcionada na melhoria dessa tecnologia. Wayne Enterprises não ficará com nada.

-Tudo pelo bem do planeta, certo? –Louis levantou uma das sobrancelhas.

-Sim, exatamente.

-Isso é muito altruísta, senhor Kent. É de se admirar um homem tão nobre assim.

-É meu dever como cidadão, quer dizer, nosso dever.

-E de onde vieram esses valores? Aposto que aprendeu em casa.

-Realmente, meus pais sempre me ensinaram a pensar além do meu ego. –ele respirou fundo.

-Me conte mais sobre eles.

-Na verdade, eu prefiro não falar sobre minha vida pessoal.

-Vamos lá Kent. Meus leitores querem conhecer o homem por trás dessa revolução ecológica. –Loius sorriu novamente. –Vai ser bom ganhar o apelo emocional do público.

-Olha, eu posso lhe explicar o qualquer coisa sobre a pesquisa, tirar todas as suas dúvidas, mas não quero falar sobre mim.

-Por que não?

-O que realmente deve interessar é o que os nanorobôs trazem de perspectiva de futuro. Eu sou totalmente descartável e desinteressante. –Clark começou a ficar nervoso, limpando as mãos no paletó.

-Você acredita que seus valores morais são baseados em algum preceito religioso?

-Desculpa, mas prefiro encerrar a entrevista por aqui. Obrigado.

Ele saiu rapidamente da sala, ignorando os pedidos de Louis para que voltasse. Não se sentia tão pressionado desde a época de colégio, quando seus colegas de turma resolviam ser mesquinhos com ele.

Suas palavras foram completamente ignoradas pela repórter, que uma semana depois publicou um artigo falando sobre as raízes rurais de Clark Kent, nascido e criado em Smallville, Kansas. Como o pequeno menino havia crescido e se tornado um verdadeiro visionário, trazendo uma nova era à humanidade.

(...)

-Ótimo, me avise assim que ela estiver estável. –Bruce desligou o celular, enquanto caminhava rapidamente pelos corredores do laboratório. –Você viu Clark por ai?

-Ele está terminando o relatório na sala de reuniões. –Samantha respondeu.

-Obrigado.

Ele bateu duas vezes na porta, porém não esperou a reposta e entrou logo em seguida.

-Precisamos conversar, Clark.

-O que houve? –ele largou o computador.

-Parece que houve uma tentativa de assalto na fazenda e sua mãe ficou gravemente ferida.

O cientista soltou a respiração devagar, o olhar completamente perdido.

-A polícia comunicou a empresa e já tomei as devidas providências. –Bruce baixou seu tom de voz e pousou a mão no ombro do outro. –Ela foi transferida para o melhor hospital e terá todo seu tratamento garantido.

-Eu quero vê-la. –Clark levantou-se bruscamente.

-Seu estado ainda é grave e precisam de pelo menos 48h antes de liberarem visita de familiares.

-Não posso... não posso perder ela também, Bruce. –ele começou a respirar ofegante.

Clark sentiu o desespero consumindo cada pensamento racional e começou a chorar. Memórias vinham em ondas, deixando-o mais aflito.

-Clark, eu... –Bruce aproximou-se.

O milionário foi surpreendido ao ser abraçado de maneira tão intensa. Como o cientista era alguns centímetros mais alto, afundou seu rosto no ombro dele e chorou como uma criança.

No começo, Bruce ficou sem saber o que fazer, porém depois afagou-o nas costas. Ficaram ali, se abraçando. Palavras eram desnecessárias.