Capitulo 05
Clark limpou o suor da testa e endireitou a postura. Havia terminado de colher o trigo e armazenou os grãos no silo, em duas semanas a cooperativa da região iria levar a produção até a fábrica.
Ao voltar para casa, encontrou sua mãe na cozinha, terminando de preparar o jantar. O cheiro do ensopado era maravilhoso. Como era muito alto, ele abaixou-se e beijou Martha na cabeça, onde os fios brancos já começavam a nascer.
-Querido, pode desligar o fogo para mim? –ela arrumava a mesa.
-Claro. –o cientista desligou e depois lavou as mãos. –Encontrei com Joey mais cedo, ele parecia muito interessado em saber sobre você...
-Ele não passa de um cinqüentão tarado! –Martha riu enquanto colocava a panela na mesa. –Mas é um bom homem.
-Não vejo nenhum mal em querer conhecer outros homens mãe. –Clark sentou e começou a servi-los.
-Sabe que o único homem na minha vida sempre vai ser seu pai, meu filho. –ela tirou o avental e sentou também. –Realmente não tenho tempo para pensar nisso, tenho muitas atividades.
-Só... só não deixe de lado a oportunidade de tentar ser feliz de novo. Papai concordaria comigo.
Depois de agradecerem em oração pela comida e por mais um dia, eles jantaram conversando sobre amenidades. Clark lavou a louça, enquanto sua mãe foi deitar. Essa tinha sido sua rotina nos últimos quatro meses... Martha conseguiu recuperar-se do atentado que sofreu, mas ainda não estava completamente curada. Contudo os médicos acharam que seria melhor receber alta, uma vez que não precisava de nenhum cuidado mais intensivo.
Na manhã seguinte, Clark estava limpando o estábulo quando escutou um carro aproximando-se. Colocou feno novo nas baias dos cavalos e então saiu para ver quem era.
Surpreendeu-se com Bruce Wayne saindo de um carro popular coberto de poeira.
-O que aconteceu com a Lamborghini? –o alien perguntou.
-Voei até Withica e aluguei esse carro para chegar em Smallville. –o milionário olhou ao redor. –Você realmente mora longe hein...
-Você tem sua caverna... eu tenho a fazenda.
-Desculpa aparecer em avisar antes... Mas sabia que você não teria como me ignorar ao vivo como tem feito pelo telefone.
Ficaram em silêncio encarando-se. Clark estava com o cabelo maior, na altura das orelhas, a barba cheia e grossa moldava o rosto. A cor azul dos olhos parecia ainda mais intensa sem os óculos para escondê-los.
-Pode usar o quarto de hóspedes. –ele disse, tirando a mala do amigo do carro.
Percebeu que Bruce andava com certa dificuldade, porém continuava bem vestido e alinhado como sempre.
-Mãe, teremos visita por uns dias! –disse ao entrar na casa.
-Oh meu Deus! Clark, a casa está uma bagunça! –ela levantou-se com certa dificuldade do sofá, onde trabalhava numa lona. –Me desculpe por isso...
Ao ver quem era a visita, Martha cobriu a boca com as mãos e lágrimas começaram a cair.
-Senhor Wayne! Por que não me avisou que era ele?! –ela deu um tapinha no braço musculoso do filho. –Nem sei como lhe agradecer por tudo...
-Fico feliz em ver que a senhora está bem, finalmente pudemos nos conhecer. –o milionário sorriu e estendeu a mão. –Por favor, me chame de Bruce.
-Oh, Bruce... obrigada, que o Senhor lhe abençoe. –ela apertou sua mão. –Clark, por favor, arrume o quarto de hóspedes enquanto eu preparo um café.
Os dois subiram as escadas e foram até o final do corredor, onde Bruce deixou suas coisas. Apesar da preocupação de Martha, a casa inteira estava muito bem organizada e limpa.
O lugar todo era muito aconchegante e acolhedor, os únicos barulhos eram dos animais lá fora e o vento balançando as árvores, que perdiam suas folhas a cada dia.
Desceram em seguida e se depararam com a mesa farta para o café da tarde, com bolos, frutas, pães e geléias.
-Fique à vontade e coma o quanto quiser. –Martha sorriu e serviu café.
-Agora entendo porque Clark cozinha tão bem... está tudo delicioso! –Bruce comeu um pedaço de bolo.
-Ele sabe sobre meu segredo. –Clark disparou. –Mas não precisa temer, ele é de confiança.
-Oh... Fico feliz que tenha divido com mais alguém, o peso era grande demais para tentar carregar sozinho. Bom, eu tenho que terminar de remendar aquela lona para o Joey. Qualquer coisa que precisarem, estarei na sala. –ela levou seu pratinho com o lanche junto com a xícara.
-Obrigado por ajudar minha mãe. –Clark comentou depois de bebericar seu café com leite. –Ainda está se recuperando, mas já tivemos um grande avanço.
-Na verdade, eu fiz isso porque precisava garantir sua humanidade. –ele pousou a xícara na mesa e encarou o outro. –Caso ela falecesse também, tenho certeza de que perderia seu controle e colocaria tudo em risco, tornando-se imprevisível.
-É isso que acha que eu sou? Um monstro na coleira, pronto a dar o bote?
-Ninguém sabe o que a sua parte kryptoniana é capaz, nem mesmo você. –Bruce respirou fundo. –Não posso deixar que se arrisque desse jeito.
-Mas em algum momento ela vai morrer, faz parte dos humanos.
-Sim, concordo. Porém existe uma diferença entre morrer de velhice e ter sua presença arrancada brutalmente. Eu sei o quão isso pode ser devastador. –o humano comeu mais um pedaço de bolo, realmente estava delicioso.
-Você é uma das poucas pessoas pra quem não preciso mentir ou fingir o tempo todo. –Clark sorriu de leve.
-E quem diria que você se tornaria meu amigo. Meu único amigo. –ele acabou sorrindo também. –Alfred ficaria orgulhoso ao me ver falando isso.
Eles acabaram rindo da situação.
-Então, acredito que não veio até para falar sobre o poder da amizade... –o cientista lavou a pequena louça.
-Trouxe novidades interessantes sobre a explosão. –ele levantou-se. –Tem algum lugar mais privado onde podemos conversar?
-Claro, me siga. –Clark abriu a porta da cozinha. –Mãe, vamos sair para caminhar! Voltamos para o jantar.
-Ok, não pegue muito pesado com o Bruce, hein! Esse povo da cidade não está acostumado com exercício físico. Boa caminhada, meninos! –ela respondeu da sala.
Riram novamente, enquanto desciam as escadas da varanda.
-Está mancando. –o alien comentou, enquanto caminhavam lentamente. –Ah, aqui é o estábulo, está vendo aquele cavalo preto? É o Phantom que me derrubou no chiqueiro.
-Melhor cavalo de todos, com certeza. –ele olhava ao redor, absorvendo os detalhes da fazenda. –Eu estou bem, não foi nada. Pelo menos consegui a informação que queria.
-E o que descobriu?
-Uma empreiteira ganhou a licitação sobre a demolição do antigo arco viário de Metropolis. Acontece que parte da carga de C4 utilizada por eles para a implosão foi extraviada. Substituíram sem que fosse percebido, ma a demolição precisou ser feita em dois dias.
-Alguma idéia dos responsáveis?
-A parte mais estranha é que a empresa não notificou o extravio da carga, mesmo sendo obrigatório devido à alta periculosidade. Isso aconteceu uma semana antes da explosão do laboratório e a destruição dos arcos estava prevista para quatro dias depois. –Bruce estava admirado com a beleza do lugar.
-Planejaram de modo a não relacionarem os fatos. Mas como soube desse extravio? –Clark seguiu pelas árvores do pomar atrás da casa.
-O único contrabandista de C4 na região está preso na Califórnia e esse é um produto difícil de conseguir, devido a política anti-terrorista que nosso país vem adotando. –o milionário teve sua atenção focada num pequeno arbusto. –Isso são blueberries?!
-Sim, são blueberries, pode comer. –o cientista riu com a reação do outro. –Então o único jeito que conseguir seria por uma empreiteira. Faz sentido. Quem é o dono?
-Segui os registros da DM and Building, mas acaba num beco sem saída. –ele comeu algumas, estavam maravilhosas.
Não sabia precisar exatamente porque fazia aquilo, mas Clark estava prestando toda atenção em Bruce no momento. O empresário passou a língua distraidamente pelos lábios, limpando-os do suco das blueberries... e acabou causando uma curiosidade e um arrepio no alien.
Apesar de ter sido criado dentro de preceitos cristãos, quando descobriu sua origem intergaláctica, resolveu repensar tudo o que acreditava ser verdade até então. Manteve sua mente aberta para novos conceitos humanos e outras possibilidades.
E não podia negar que Bruce Wayne era um homem muito atraente, com seus olhos azuis-claros, o cabelo negro agora desajeitado pelo vento e o porte elegante. Havia algo em seu jeito confiante e questionador que o atraía.
-Então... –Clark limpou a garganta e tentou clarear os pensamentos. –Precisamos saber quem é o dono dessa empresa e então buscar mais informações dele. Acho que posso conseguir.
-Preciso de você comigo para fechar esse caso. –Bruce estava sério. –Iniciamos o projeto dos nanorobôs juntos e o final não deve ser diferente.
-Eu não agüentava mais tudo aquilo, as notícias na televisão o tempo todo, os repórteres fazendo me seguindo, as mortes pairando na minha mente... –ele passou a mão pelos cabelos rebeldes. –Quando soube que minha mãe não corria mais risco de vida, resolvi focar nela.
-Seu mundo estava desmoronando e você se agarrou naquilo que mais importava. Não tem nada de errado nisso. Foi muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, entendo que precisa de um tempo. Mas se demorarmos demais, podemos perder nossa pista.
Bruce não queria dizer, porém era meio complicado se concentrar quando o outro vestia apenas macacão jeans e botas, sem camisa. Seus músculos eram maiores e mais definidos que o uniforme azul mostrava. E ainda havia o pêlo corporal, na medida certa.
Foi então que percebeu o real tamanho e largura do corpo Clark, era realmente impressionante que conseguia disfarçar todo aquele poder tão bem.
-A humanidade pode não estar pronta para suas novas tecnologias, mas pode continuar inspirá-los através do Superman. –o humano aproximou-se, encarando-o.
E mesmo com toda sua grandiosidade, lá estava ele com aquele olhar perdido e a vulnerabilidade estampada no rosto.
-E se algum dia eles resolverem que não sou bom o suficiente? –havia dor em sua voz.
-Da mesma maneira como decidiu ajudar, também pode decidir não o fazer mais. –Bruce colocou a mão no ombro do outro. –Ninguém além de você mesmo pode saber se fez tudo o que podia. Como eu disse antes, não dá para querer mudar o mundo inteiro, ser o "salvador", mas pode ser uma chama, um ideal.
Estavam tão próximos que se abraçaram. O sol da tarde pintava o céu com tons de laranja, enquanto se aproximava do horizonte. Eles possuíam apenas alguns centímetros de diferença, sendo Clark mais alto e mesmo assim o abraço se encaixava muito bem.
Voltaram para ajudar Martha com o jantar, cujo prato principal foi frango recheado. A comida quente e gostosa, as conversas animadas e as companhias deram a Bruce um gostinho saudoso de quando seus pais eram vivos. Era a mesma atmosfera carinhosa e cheia de energia e sentia-se muito bem ali.
-Como eu sou a mais velha da casa e, de acordo com meu médico, preciso descansar, vou deixar a louça com vocês. –ela brincou espreguiçando-se.
-Sem problemas. –com fluidez nos movimentos, o milionário levantou e recolheu a louça, deixando-a na pia. –Clark você lava e eu guardo.
-Bruce, você não sabe onde as coisas ficam guardadas. É mais fácil você lavar. –o cientista apoiou o quadril de lado na pia.
Ele tirou o trench coat que vestia e arregaçou as mangas do pullover. Acabou se molhando ao abrir demais a torneira e parecia desajeitado, mas não quebrou nenhuma louça.
-Quem diria, Wayne não sabe serviços domésticos! –Clark brincou, cutucando-o.
-Nunca precisei, sempre tive Alfred e os outros por perto. –Bruce franziu as sobrancelhas, concentrado na tarefa. –Mas eu sei fazer investimentos na bolsa de valores e se precisar, até mesmo planilhas de gastos domésticos.
-Seu pai mesmo era melhor nas compras de supermercado que eu. –Martha deu de ombros. –Já os animais sempre me adoram. Sua esposa é uma mulher de sorte, Bruce.
-Na verdade, eu sou solteiro, senhora Kent. –ele não pareceu se importar.
-Quanto desperdício... –a mãe riu e levantou. –Eu vou indo dormir, caso precisarem de algo, podem me chamar. Boa noite meu filho. –ela beijou Clark na testa. –Boa noite querido, durma bem. –beijou o empresário na testa também.
Ela foi andando e subiu as escadas devagar, ainda sentia algumas dores. Esperaram até que Martha estivesse no quarto para subirem no telhado da casa através de um alçapão no corredor. Bruce ficou surpreso com o céu cheio de estrelas, sem a poluição da cidade.
Clark foi apontando algumas constelações, explicando suas histórias, até perceber que o humano ao seu lado tremia.
-Está com frio?
-Normalmente sinto muita diferença de temperatura durante o outono, no inverno já estou acostumado e o frio não incomoda tanto. –ele trincou os dentes e cruzou os braços.
-Pode se apoiar em mim, minha temperatura corporal é mais elevada do que a de vocês.
O empresário então apoiou a cabeça no braço do cientista e aproximou-se mais, as laterais de seus corpos totalmente encostadas.
-Eu vou voltar contigo para Metropolis e solucionar o caso. –Clark comentou. –Depois posso tentar ativar novamente os nanorobôs.
-Wayne Enterprises tem vários projetos que precisam de mentes brilhantes como a sua. –Bruce sentiu os olhos pesados de sono. –Fique tranqüilo que você sempre vai ter um lugar, seja em Metropolis ou Gotham.
O alien até abriu a boca para responder, mas viu que o humano estava dormindo pesadamente. A viagem deve ter deixá-lo cansado, fora que a caminhada a tarde foi longa.
(...)
Bruce rolou na cama e gemeu, a preguiça pareceu infiltrar-se em cada pedaço do seu corpo. Percebeu que estava com a mesma roupa de ontem, apenas sem os sapatos. Foi então que se lembrou do fato de acabar dormindo ao lado de Clark enquanto olhavam as estrelas.
Ele levantou e pegou uma roupa nova na mala, indo para o banheiro que tinha no quarto de hóspedes. Enquanto a água quente o acordava, percebeu a dimensão da confiança que tinha no outro. Jamais havia baixado sua defesa na frente de outra pessoa assim.
Depois de se arrumar, Bruce desceu as escadas. Encontrou Clark fazendo panquecas de café da manhã.
-Bom dia, dormiu bem? –ele cumprimentou, enquanto desligada o fogão.
-Como uma pedra... na verdade, dormi até demais. –esfregou o rosto e bocejou. –Que horas são?
-Dez e meia.
-Se quisermos chegar a tempo em Metropolis, precisamos sair daqui a pouco. –Bruce sentou e serviu-se de café.
-Estava pensando, podemos ir de carro até Withica para devolver o carro que você alugou e depois eu te levo voando. - Clark dividiu as panquecas.- Vai ser mais rápido e menos cansativo.
-Eu estou com uma mala, esqueceu? Como pretende me levar? Nos braços?
-Ninguém nunca reclamou antes... –ele deu de ombros.
-Porque você nunca levou um homem, querido. –Martha entrou na cozinha segurando uma cesta cheia de verduras. –Bom dia, Bruce. Dormiu bem?
-Ah sim, estou descansado. Desculpe aparecer sem avisar...
-Essas são as melhores visitas. –ela riu e também serviu-se de café. –Vão voltar para Metropolis hoje?
-Bruce não quer que eu o leve nos braços, apesar vai ser mais rápido. –Clark tinha um sorriso brincalhão nos lábios.
-Minha boca é um túmulo, ninguém vai saber de nada. –Martha abriu o forno. –Fiz essa torta de maçã para vocês levarem e comerem no caminho, caso sintam fome.
Ela colocou a torta num vasilhame de vidro e o enrolou no pano de cozinha, junto com talheres.
Bruce terminou de tomar o café da manhã, enquanto Clark foi tomar banho. Algum tempo depois ele voltou com a barba feita e o cabelo cortado, vestido uma camisa de futebol americano, jeans e tênis.
-Então, vamos indo?
-Obrigado por tudo, senhora Kent. –Bruce despediu-se.
-Eu é que agradeço pela visita, venha mais vezes. –ela beijou-o na testa. –Se cuidem vocês dois hein! Boa viagem.
Eles acenaram e entraram no carro.
