Marcas Indeléveis / Paradise/Lost Heaven/Dark Paradise
Parte 1 - Os maus Tempos
II
Celine sempre descia as escadas de dois em dois, detestando a paciência despretensiosa que se levava para descer de um em um. Os cabelos recém lavados pareciam leves e úmidos, batendo em suas costas e molhando a mesma blusa do dia anterior.
A menina parecia impaciente enquanto cruzava a sala. Na cozinha, o barulho de louças e o farfalhar de vida, tecidos e talheres podia ser ouvido, um cheiro de café e pão fresco irradiando o ambiente, forrando-o. A voz do bebê era fraca, em alguns murmúrios alegres.
Das grandes janelas da sala que davam para o exterior, a luz forte do sol já banhava, intrusiva, as cortinas abertas não fazendo nada para impedi-lo, formando padrões intrincados no chão, através das grades, uma brisa suave remexia de leve os tecidos. Era uma bela manhã.
Celine adianta-se para a porta, o casaco de couro pendurado nos ombros. Cléo a chama do beiral do arco que levava a sala de jantar, com uma xícara de café nas mãos.
-Onde está indo? - Não havia nenhuma dureza no tom, apenas mera curiosidade, mas o fato não deixou de irritar a menina que estala os lábios ao virar-se.
-Saindo, sei lá… - E bate a porta. A ruiva simplesmente suspira, dando de ombros, tirando uma longa mecha de seus ombros. Ela logo sabia que Celine não era do tipo a se deixar controlar. Ela era demasiado parecida com seu irmão, para seu próprio bem. A convivência exclusiva era algo que decididamente não lhe fazia bem, mas o que ela poderia fazer?
Levemente incomodada com a própria impotência, a ruiva volta a mesa, terminando de arruma-la. Em breve seus outros convidados estariam ali e queria estar preparada.
Pensando melhor, talvez Rick acabasse não vindo no fim das contas. Afinal, ela e Lena haviam combinado de sair um pouco para fazer compras. Que graça ele poderia ver nisso? Duo estaria trabalhando. Mas novamente, o que ele faria sozinho no hotel? Ele estava em uma posição bem difícil. A moça se divertia com a pequena maldade.
Logo se esquece do assunto, quando quase derruba uma das louças e é obrigada a praguejar sobre karma e castigo imediato.
Pondera sobre como sua vida agitada tinha mudado nos últimos anos, depois da chegada de Aileen, hoje em dia tinha sorte se pudesse se entregar a pequenos prazeres de vez em quando, como tocar o violão. Aquilo a leva a rir um pouco. Sua intempestividade se curara um pouco também, encontrara alguma paz e abrigo, embora, ela tivesse de admitir, até eles eram colocados em cheque pelo comportamento de Duo algumas vezes.
Aquilo a leva a novas risadas silenciosas, deleitada.
-E o que é motivo para tanta graça? - Duo pergunta, bocejando, enquanto entrava.
-Nada que te interesse! - É rápida com a resposta e sem conseguir evitar lhe mostrar a língua, não se importando em esconder o risinho. Ele balanceia a cabeça, inconformado. Ela lhe dá um suave beijo nos lábios de bom dia.
-Aileen? - Ele pergunta.
-Ainda no berço - A rotina entre eles era fácil, usual. Ela nunca pensara que teria aquela vida. Na defesa de Duo, ele provavelmente também não.
-Celine? - Cléo revira os olhos, irreverente diante da pergunta. Duo acena, conformado. Não esperava por menos. Deixando o assunto de lado, senta-se, mantendo-se tranquilo.
E assim, na presença do café e o sol do início do dia, iniciam mais um dia na rotina, trocando palavras amenas e sorrisos suaves.
Celine apressa-se, arrependendo-se agora do casaco que tinha de carregar em mãos, quase jogando-o para longe com sua impaciência.
Não se importou com o barulho de construção, ao passar pelos prédios em reforma, o cheiro de cimento ao sol, a britadeira com seu canto estridente. Alguns rapazes parecem dispostos a mexer com ela e seu shorts, sem nem mesmo relancear o rosto danificado, mas ela nem ao menos lhes dirige um olhar, andando intencionalmente determinada.
Virou a rua, chegando a uma área menos nobre da cidade em tempo recorde, passando pela entrada do parque, tranquila e seu cheiro de seiva, sem repara-la, automática. Não era uma pessoa que se acostumara a parar para admirar seus arredores. O pragmatismo de Heero era contagiante.
Já podia ver a lanchonete/cafeteria do outro lado da rua e atravessa sem nem ao menos olhar, tendo de cerrar os olhos pela forte iluminação que batia. O sol lhe incomodava a vista, fazendo-a suar, apesar de quase ter acabado de tomar banho. As costas e nuca já escorriam. Era um dos aspectos do calor que mais detestava.
Alcançou a porta do ambiente comercial de tijolos alaranjados, abrindo-a com o costumeiro sininho. Aquele era um daqueles lugares que tentavam manter um ar de época no meio de toda a modernidade.
As paredes cobertas de um papel de parede antigo, a bancada de madeira, os assentos para duas ou três pessoas, acolchoados, lhe eram tão familiares que podia dizer que os havia decorado. E após alguns segundos em que seus olhos foram obrigados a se adaptar à nova iluminação, decepciona-se.
Franze o nariz pequeno, fazendo as sardas em seu rosto enrugarem.
O café não cheirava tão bem e Charlie ainda não estava ali. O cheiro de cigarro e o azedume suave que nunca ia embora a cercava e ela bateu a porta com força, voltando-se por onde tinha vido. Ele provavelmente não demoraria a chegar e ela só teria de matar o tempo até isso acontecer.
Não havia nenhuma novidade nisso. Ela sabia exatamente o que fazer.
Ricard olhava em volta com um bocejo, brincando com um tecido leve em suas mãos. Era um lenço de um turquesa diferenciado, um pouco transparente. Extremamente bonito. Decidira que o agradava.
Do outro lado do quarto, próxima a janela e a cama, Relena se encontrava escolhendo um vestido, envolta em um roupão, com os cabelos já devidamente retirados da toalha, embora conservassem umidade.
A cena pitoresca não lhes era estranha e ele não parecia se importar de tê-la tão exposta há alguns metros de si. O sentimento de irmandade comum predominava e já fazia alguns minutos que nenhum dos dois dizia nada.
A luz banhava a cena e a brisa que entrava pela janela era o suficiente para mantê-los refrescados. Do lado de fora os carros começavam a buzinar, as pessoas ocupadas com seus respectivos trabalhos. Tinham sorte de poderem tirar férias ao mesmo tempo, nessa época do ano.
As roupas coloridas espalhavam-se pela cama, a mala grande aberta a seu lado, no chão, do lado da cabeceira. Os tons de bege e dourado, padrão dos quartos só faziam as cores destacarem-se mais em seus pastéis.
A moça morde a ponta do dedo, indecisa, relanceando Ricard, que ainda brincava com o lenço.
-O que acha? - Pergunta, indicando as opções a sua frente. Ele finalmente levanta os olhos do tecido, de onde estava sentado à cadeira da penteadeira, lançando-a um olhar desvanecido, demorando a focar-se.
A esquerda do rapaz, a porta do banheiro ainda expelia espirais esfumaçados leves pelo banho há pouco tomado. A sua direita, seguindo por um corredor, a porta de entrada. Ele volta a si e sorri, perdido.
-Sobre os vestidos? - E levanta-se em um pulo, elegante, vindo em sua direção. Sua expressão era de dúvida, analisando as opções a sua frente. O olhar dele era cauteloso e infantil, desprovido de malícia, límpido enquanto procurava entre os tecidos a sua frente.
Relena suspira, exasperada.
-Desse jeito vou me atrasar! - Isso chama a atenção de Rick, que a nota impaciente, remexendo os cabelos. Sorri, distraído.
-Algo que combine com isso, talvez? - E indica o pequeno tecido em sua mão, esverdeado e tão atraente para si. Relena ri, deliciada. Nunca se cansava ao ver como a lógica simples de Rick ainda a surpreendia.
-Certo, certo. - Rápida, puxa um vestidinho branco, que ficava um pouco acima de seus joelhos, com bolsos logo abaixo da cintura, botões que cobriam o colo e uma pequena gola no pescoço. Ideal para os dias quentes como o de hoje.
Depois de vestida, rápida e habilidosa, amarra o lenço no cabelo, de uma maneira que beirava os anos quarenta, um sorriso brindando-lhe a face. Rick ainda parecia fascinado pelo que o tecido fazia, em contraste com os cabelos cor de trigo de Relena.
-São da cor de seus olhos! - Diz, provocativa e risonha. O feitiço é quebrado e ele sorri achando-a levada. Alguns segundos se seguem, enquanto ele senta na cama, empurrando as roupas de leve com um bocejo revelador e ela se volta para o banheiro, passando um brilho labial e um rímel. - Tem certeza que você vai ficar bem? Sozinho? Sabe que se mudar de ideia pode vir conosco ainda.
Ela voltava para seu alcance e parecia pronta, abaixando-se pra calçar as sapatilhas Melissa.
-Eu sei, não se preocupe - Diz ele revirando os olhos, porém de uma maneira irreverente e divertida - Eu sei que posso não parecer às vezes, mas já sou adulto, sei cuidar de mim mesmo. - E dizia com um ar tão entediado que Relena se viu obrigada a bater em seu braço, obrigando-o a defender-se por sua honra, empurrando-a de leve e rindo alto.
-Você é impossível! - Ela brinca, mas com carinho, agora decididamente pronta. Ele se levanta, oferecendo-lhe o braço, cavalheiro, para que pudessem ir até a porta do prédio, vinte andares abaixo.
-Eu sei, é um dos meus charmes - E ele lhe lança uma piscadela, voltando a fazê-la risonha. Os dois já entravam no elevador e voltavam a recompor-se. - É sério, por mais tentadora que possa ser a ideia - Brinca, mas assume um tom suavemente mais sério - Eu quero tirar um tempo para a fotografia. Ouvi dizer que há lugares lindos para se fotografar por aqui.
Relena anui, satisfeita.
Heero ajudava com um carregamento, colocando pesadas caixas em um caminhão. A seu redor, alguns rapazes tatuados com rostos de gangsters repetiam o processo, maquinais. Estavam em uma espécie de depósito e não pareciam pensar no que faziam.
Enquanto se mexia, o rapaz a seu lado deixa o canivete suíço cair do bolso, mas logo se abaixa para pega-lo. Todos pareciam autômatos.
As caixas eram fechadas e bem embaladas. Nenhuma daquelas pessoas veria o conteúdo dentro do papelão, nem aquela noite, nem nunca. Um rapaz moreno, com tatuagens distribuídas por toda a parte exposta de sua pele limpa o suor da testa. Heero o imita, em parte pelas células espelho, parte por necessidade.
Aquilo certamente era cansativo.
-Heero! - Uma voz grossa o chama de lado e ele levanta o rosto, os olhos furtivos indo em direção a voz que chamava. Um homem alto, talvez o dobro de seu tamanho em altura e músculo aproximava-se. O moreno se afasta um pouco da parte de trás do caminhão, indo em direção ao rapaz de cabelos raspados.
-Sim? - Sua própria voz era glássea e gélida. O homem não parece se importar, entregando-lhe uma pistola, uma Beretta 92fs airsoft preta. Heero a pega sem demonstrar hesitação, olhando para a arma com olhos vazios. Em seguida a põe na parte de trás do jeans, cobrindo com a blusa.
-Ordens do chefe, caso você encontre problemas pelo caminho. Há alguns outros punks atrás dessa encomenda, caso não saiba - Heero apenas concorda e o homem cospe no chão, para em seguida lhe dar as costas, sumindo por onde tinha vindo.
Era hora de voltar ao trabalho.
A postura elegante e de confiança nata mostravam um rapaz que sabia ser bem afortunado na vida, de boa aparência e modos refinados. A pele dourada, com um bronze do mediterrâneo e a altura elevada eram apenas mais alguns pontos para destaca-lo da multidão em torno de si.
Ricard era um rapaz naturalmente animado, um pouco inconsequente, porém dócil e de bom coração. Parecia ter uma aura natural que denunciava seu bom espírito, iridescente.
Enquanto andava pelas ruas de cabeça erguida, com seus modos reais, não era incomum cabeças voltarem-se em sua direção ou mocinhas suspirarem roubando-lhe imagens. Ele era o sonho de uma boa moça.
Sem dar-se conta da atenção que chamava, o rapaz seguia, distraído, os cabelos negros e levemente cacheados por vezes caindo em seus olhos, obrigando-o a afasta-los com os dedos longos, de pianista.
Ricard seguia a esmo na direção onde o mapa que comprara indicava o parque. Não era longe, mas também não era perto, lhe proporcionando um bom passeio até alcançar o seu destino. Com o café da manhã devidamente tomado, com férias a curto prazo, a vida lhe sorria e seguia em um ritmo aprazível, revigorando-se. Poderia muito bem viver todos os seus dias assim.
Olhava em volta e seus olhos guardavam lugares, referências para uma possível futura fotografia. Embora trabalhasse com publicidade, a parte criativa e louca, sempre em mudança e instável, Ricard sempre fora apaixonado por fotografia e usufruía de seu hobby sempre que possível, pensando um dia tornar-se profissional.
Alcança o parque sem maiores problemas e seu sorriso brando, de covinhas e dentes perfeitamente alinhados surge, com animação infantil. Trouxera sua câmera, um bloco de papel para possíveis estudos e um livro. Era um dia agradável e nada poderia dar errado.
-Quer dizer então que Duo ficará fora pelos próximos dias? - A sobrancelha erguida de Relena mostrava sua opinião a respeito. Cléo apenas anui, despreocupada.
-Foi algo de última hora. Precisaram manda-lo para outro estado, mas ele deve estar de volta em breve, essas viagens nunca duram mais de uma semana. Ele disse algo sobre dois ou três dias, em todo o caso. - E sorri, toda traquinas - Ainda assim, toda a ajuda com Aileen seria muito mais do que bem vinda! Aquela menina tem toda a minha energia e a do Duo! - E ri - Não sei como ela ainda não explodiu! - E dessa vez Relena é obrigada a acompanha-la.
As duas moças andavam pelas calçadas cimentadas, trocando comentários leves de suas vidas cotidianas. O vento em seus cabelos e as roupas bem escolhidas, com um tema verão as proporcionava uma leveza e graça típicas da mocidade. Quem as visse, as tomaria por universitárias despreocupadas.
As duas tomam a direita, na próxima rua iluminada. O dia bonito tinha um vento suave e agradável. As duas dirigiam-se a rua de roupas e brechós, próxima ao centro da cidade. A pequena descoberta de Cléo era algo que tinha a curiosidade de Relena há tempos e prometera a si mesma que, assim que tivesse uma oportunidade e estivesse na cidade, daria uma conferida.
Dera graças por não ter esquecido. Era para aquele tipo de despreocupação que tirava férias. Há séculos não se divertia tanto com uma amiga mulher. Não que reclamasse de Ricard, muito pelo contrário, mas é sempre agradável reencontrar velhos amigos, tão parecidos com você. E fora isso, uma garota está fadada a precisar de alguma companhia feminina de tempos em tempos. Relena estava abastecendo sua cota, satisfeita.
-Ela está no berçário? - a loira retoma, tirando uma pequena mecha de cabelo do rosto claro.
-Sim, está. Vou busca-la as três da tarde. - E Cléo lhe relanceia, os olhos com leve maquiagem verde destacados pelo delineador em forma de gatinho - Ainda estará por aqui ou tem outros planos?
-Na verdade não, hoje sou toda sua! - Cléo sorri, mostrando os caninos pontudinhos e as duas voltam a rir.
Com um dia daqueles, sem nenhuma preocupação em mente, o dia prometia ser grandioso e relaxante, com apenas preocupações de cores a frente. Definitivamente era para isso que havia se inscrito quando decidira visitar seus antigos amigos.
-Heero! - A mesma voz profunda de antes o intercepta, bem quando terminavam o carregamento. O rapaz de olhos gélidos levanta uma sobrancelha, como reconhecimento a seu nome. - O chefe está te chamando lá atrás. - E com essas palavras, o homem se vira, passando pelas pilhas de caixas do galpão, até a porta escondida no meio delas, batendo-a atrás de si.
Com um suspiro forte, que afasta a franja escura de seu rosto, Heero o segue, os passos determinados. Algo lhe dizia que alguma coisa séria estava por vir agora. Estivera esperando por isso desde que decidira oferecer seus serviços de volta a Ambrosius. Se havia algo que o jovem aprendera nos seus anos trabalhando com o negociante, é que ele sempre tinha várias cartas na manga.
Heero segue o homem pela porta, depois por um corredor escuro, até sair em uma pequeno porão, onde máquinas de roupa operavam, a todo vapor, algumas conversas sendo trocadas em línguas desconhecidas. Dali subia uma escada, indo parar em um segundo escritório, muito menos formal do que o original.
A casa de aparência abandonada servia de fachada para alguma lavagem de dinheiro e transporte de produtos ilegais, como o que provavelmente estava colocando no caminhão.
Passa pelos quartos vazios da casa, as janelas quebradas permitindo que a luz branca de giz adentrasse, com passos mecânicos. Aquela sempre fora sua realidade, nada daquilo o atingia ou assustava.
Perto de onde presumivelmente fora a sala, uma lareira era o único ponto de identificação e destoava no dia de calor, os adornos do qual era feita, de pedra, pareciam desgastados e lascados, algumas pichações para decorarem o local. Sendo honesto, o lugar inteiro tinha um forte cheiro de mijo fermentado, mas nada daquilo importava àquelas pessoas.
O homem que estava parado de costas, trocando palavras com um outro, mais alto e de feições de raposa se vira, um olhar de reconhecimento perpassando seu rosto.
-Heero! - E um sorriso fácil brota de seus lábios, embora seus escuros olhos permanecessem sérios. O rapaz sabia que aquilo significava negócios. Parado a sua frente, com seu um metro e oitenta, Heero ainda era consideráveis centímetros mais baixo que o largo senhor moreno. Sua postura agressiva não o intimidava. - Justo o rapaz que queria encontrar. Tenho algo a conversar contigo! - E com isso sinaliza algo para o homem que estava consigo, fazendo-o desaparecer rapidamente com a dispensa.
Heero apenas ajeita os cabelos e encosta-se a parede, cruzando os braços, em uma clara posição confortável, um pouco desafiadora. Era exatamente essa a postura que agradava Ambrosius, que volta a sorrir, com malícia.
-Tenho um trabalho extra para você.
Embora não dissesse, a afirmação não o surpreende em nada. Quando trabalhava com o traficante, mais de uma vez Heero mostrara sua competência e fria dedicação, o que sempre acabava lhe ganhando alguns serviços extras, exclusivos e ultrassecretos.
-O que precisa e o que vou ganhar com isso? - A arrogância natural de Heero, com o rosto levantado e o olhar de desdém eram uma mensagem clara. Só faria o que queria e se ganhasse bem por isso.
O homem não esperava menos.
-Você será largamente recompensado. E não era isso que queria? - E entrega um pequeno papel para Heero. - Com esse dinheiro você praticamente estará livre de suas dívidas e sua irmã - Enfatiza bem a palavra, um brilho cínico no canto dos olhos - Estará segura novamente. O que me diz?
Heero, que olhava fixamente para o papel, com o cabelo encobrindo a expressão, o relanceia, estreitando os olhos. Por fim, apenas acena rapidamente, ainda perfurando-o com o olhar.
-Ótimo! Os dados são de importância máxima e deverão ser entregues junto com os outros produtos, embora sejam infinitamente mais importantes do que eles. Fora alguns dados de clientes, você não saberá nada sobre o que está no flash drive. De acordo?
Heero dá de ombros.
-E, se isso cair nas mãos erradas, fique claro, você pagará por isso - E com isso, o homem lhe estica o pequeno pen drive preto, que Heero demora-se para pegar, desencostando de onde estava vagarosamente. Tanto trabalho por algo tão pequeno. - O produto deverá ser entregue até o fim da tarde. De noite, com o trabalho cumprido, você receberá seu pagamento.
E com isso, o homem e Heero tomam caminhos diferentes. Heero voltando para o local do carregamento, Ambrosius para o próximo assunto urgente que homens como ele precisavam resolver.
Com um último suspiro irritado, Heero passa as mãos nas jeans rasgadas, em um reflexo nervoso, apenas para puxar o único cigarro que tinha no bolso.
Embora não costumasse fumar, sempre possuía um cigarro de emergência no bolso, para situações como essa. O barulho dos homens trocando informações vindos do galpão chega forte em seus ouvidos e o moreno segue o som, sentindo o sol vir com força contra seus límpidos olhos azuis, obrigando-o a cobri-los com a palma da mão.
O dia prometia ser longo e exaustivo.
Heero acende o cigarro, dando uma longa tragada.
Celine se pegou bastante surpresa quando, na volta que dava pelo lago, em direção a saída, depara-se com o rapaz do dia anterior, Ricard era seu nome, sentado há alguns metros de si, em uma das cadeiras do parque, parecendo compenetrado em um caderno de anotações.
Ela o estudou por alguns instantes, cética e fria. Havia algo de assustadoramente belo em seu perfil concentrado, debruçado como estava sobre o papel, entretido. Ela fecha o semblante, sombria, dando alguns passos para trás, recostando-se em uma árvore. Ao longe, algumas crianças brincavam, e suas vozinhas finas ecoavam como cantos de anjo. Um cachorro latia também, pessoas andavam de bicicleta, embora poucas, uma vez que era manhã. Em breve o lugar seria um inferno.
Largando mão de qualquer recato, a moça sustenta o olhar, enquanto analisava o rapaz a sua frente. De alguma maneira estranha, seu corpo inteiro lhe gritava que ele era perigoso. Ela sabia que não era, boa julgadora de pessoas como era, o que a deixava mais intrigada. Devia ser algo em sua honestidade tão aberta, parecendo tão sincera que a fazia desconfiar. Ninguém podia ser assim, tão transparente. Pessoas eram falsas, sabia por experiência, sempre tinham algo para esconder. Ela sabia ter.
É quando ele vira os olhos, cravando-os em sua imponente figura. Ela engole em seco. Havia sido pega.
Corajosa, fingindo-se inabalada, aproxima-se, a postura altiva, o queixo teimosamente erguido em uma clara pose desafiadora. Ela se prostra de frente para ele, que parece divertido. Ele cobre o rosto com a mão para encara-la, contra a luz.
-Olá - Ele diz simplesmente, soando diplomático e simpático. Ela não compartilhava de sua afabilidade, permanecendo imóvel, a encara-lo. Ele estranha, mas não diz nada, sendo mais sábio do que isso - Se importa de juntar-se a mim?
Ela lhe lança o que parecia ser o mais genuíno olhar de surpresa, que se transforma em descrença, em apenas alguns segundos. Tinha as palavras na ponta da língua, mas o caderno em suas mãos volta a lhe chamar atenção. Ignorando o que seus instintos primais diziam, senta-se, mais próxima do que ele teria imaginado, dado seu comportamento.
-O que é isso? - Apesar de não revelar na voz, a pergunta a corroía de curiosidade. Ele não parece perceber, esticando-a o caderno sem preocupações. Ela estava quase debruçada sobre ele e aceita a mão estendida sem questionamentos, folheando a seguir. - Não. - Repreende ela, chamando sua atenção. Ele se vira em sua direção e ele nota que estavam mais próximos do que originalmente previra, seus braços se roçavam, assim como suas pernas.
Assimila a roupa da menina a seu lado e se pergunta se era a única peça de seu guarda-roupas, mas não tem tempo de continuar suas divagações, pois ela o interrompe, veemente.
-O que você estava fazendo? - E desgostosa, estela os lábios, detestando ter de admitir o que vinha a seguir - Agora há pouco, quando estava debruçado sobre o caderno - E lhe devolve o Moleskine. Ele franze as sobrancelhas.
-Estava fazendo um estudo de composição. - Explica, mostrando-lhe a página que há tão pouco se dedicava. Ela olha a página com avidez mal contida. - Para fotografia - E indica a máquina que carregava no colo.
Ela age como se tivesse notado a máquina pela primeira vez e, em um gesto robótico, estica a mão, passando-a de leve pelo metal. Se distraía e Rick pensa em si mesmo, instantes antes com o lenço em mãos. Volta a entreter-se.
Celine parecia um misto estranho de ousadia, rebeldia e inocência.
-Quer… Han - Limpa a garganta e os densos olhos verdes dela repousam nos seus. Ele nota quão azul era o brilho que tinia nos longos cabelos dela contra a luz, fascinado. - Tirar uma foto? - E ergue a câmera, como uma oferenda de paz.
Ela dá de ombros, a postura tão rígida de instantes atrás desfazendo-se enquanto ela se encostava.
-Não sei fotografar - Diz simplesmente.
-Isso não é verdade - Reitera - Qualquer um sabe fotografar - E levanta-se, oferecendo a mão em um gesto automático de gala. Ela lhe lança um olhar desconfiado e ele percebe seu erro tarde demais. Ela levanta, dispensando sua ajuda, mas ele não parece magoado com o fato. - Vou te dar umas dicas, vamos.
-Aonde vamos? - Ela volta a jogar, desconfiada. Ele suspira de leve, sem irritar-se.
-A algum lugar com uma boa luz. - e guia o trajeto alguns passos, seguindo o caminho de pedras do lago.
Já passava das dez e o sol ia alto, quando os dois jovens encontram seu lugar perfeito, ainda próximos a bela lagoa, em um ângulo de incidência de iluminação perfeita. O sorriso de Ricard não podia ser mais gratificante, enquanto ele fazia um pequeno quadrado com as mãos, um olho fechado para olhar através do mesmo, olhando o brilho dourado na água e os milhares de tons que tingiam a flora, com um arco íris natural.
Celine o achou excêntrico, mas permaneceu calada, a observa-lo, com uma expressão esquisita, que lhe chama atenção, fazendo-o rir. A risada dele era contagiante e límpida, clara e íntegra. Com um leve sinal da cabeça, ele pede sua aproximação, coisa que ela realiza com calculada cautela, divertindo-o.
Com delicadeza e sem toca-la no processo, Ricard a posiciona a sua frente, mostrando-lhe cuidadosamente a incidência da luz e lhe dando um rápido tutorial de efeitos de câmera. Ele estava parado logo a sua frente e, embora não conseguisse simpatizar com ele, Celine não consegue deixar de notar a paixão com que o moreno falava daquilo que gostava, os olhos claros ganhando um novo brilho.
Bem aonde estava, Celine conseguia estudar exatamente a dita incidência da luz nos olhos do rapaz, a íris de um esverdeado piscina ganhando detalhes ricos, um brilho amarelo, riscado.
E quando ele, agora às suas costas, cuidadosamente lhe mostra algumas maneiras de segurar a câmera, assustada pelo toque caloroso de suas mãos, mesmo que inocente, quase derruba a máquina no chão. Ele apenas ri, passado o susto. O leve tremor que Celine sente em suas costas só comprova o quão perto estavam fisicamente. Estranhamente, ainda assim, a única coisa ela que conseguia notar era o quão belas eram as mãos do rapaz, grandes e de delicadas dedos longos.
-Mas e então? Como realmente está? É estranho pensar em você desse jeito sabia? Ficando em casa por algum tempo, tendo uma filha, casada! Você era tão despirocada na faculdade que nunca te imaginei ver desse jeito. Quando você e o Duo começaram a namorar, não dei um mês para o relacionamento de vocês.
Cléo arregala os olhos e ri a bom rir, os fios rebeldes de seu cabelo indo de um lado para o outro. Seu cabelo era incrivelmente laranja contra a luz do sol da tarde. Era um espetáculo de outono sempre em alta.
-Acho que você tem um ponto. Eu me divertia muito naquela época. Foram bons tempos, não foram? - E as duas se entreolham, lembrando de vários pontos do passado. - Talvez não quando você terminou com aquele babaca, como era mesmo o nome dele? - As duas param um pouco de andar, parecendo ponderativas. - Lark! Não era? Talvez não ali, mas o resto foi, bastante.
Relena se lembra disso enquanto as duas voltavam a andar. A calçada começava a ficar agitada. As duas pausam em uma barraquinha na rua, comprando um sorvete. Os saltos altos das moças batiam na calçada, fazendo barulho. Um vento gostoso bate em seu rosto.
O relacionamento com Lark fora complicado. Ele era controlador e bastante ciumento, embora também soubesse ser amoroso e encantador, tudo em medidas iguais e extravagantes. Tiveram um relacionamento de ida e volta, que Cléo e Ricard nunca aprovaram. Pensando sobre isso, Rick e ele sempre se detestaram.
Quando finalmente tudo teve fim, ela ficara arrasada. Desde então prometera não se apaixonar por alguém tão complicado de novo. Sempre se atraía pelos tipos com problemas, por algum motivo inconcebível a sua própria mente. Talvez fosse sua mania de tentar sempre ajudar as pessoas, 'conserta-las' de algum modo. Era uma característica horrível que provavelmente herdara de seu pai. Sua mãe e seu irmão sempre se preocuparam com isso.
Depois do desastroso caso da faculdade, ela também. Um pouco.
-Mas você também não tinha o melhor histórico com namoros, se bem me lembro - E aponta o dedo, estreitando os olhos, acusativa. Cléo leva a mão ao peito e faz um som de indignação.
-Moi?
-Sim, sim, não venha dar de surpresa francesa para mim! Eu te conheço muito bem.
-Eu não namorava Relena! Estava ocupada demais para isso, me divertindo - E dá uma piscadela, fazendo Relena corar.
-Cléo! - A recrimina, fazendo a menina rir, de maneira moleca.
-Relena, por que tão puritana? - A provoca, travessa, a fazendo ainda mais sem graça. A ruiva ri, maldosa.
-E então teve o Kim… - As palavras da loira não tinham esse propósito, mas o clima morreu imediatamente. Kim fora um amigo próximo, que morrera em um acidente de motocicleta. Ele era sempre um tópico delicado entre os amigos.
É incrível parar para pensar no tanto de passado que se pode ter com alguém, sem que necessariamente se tenha um futuro.
-Se serve de consolo, quando conheci a menina tímida que você foi...Também não te imaginei como está hoje em dia - As palavras eram sem graça, baixas, como um pequeno desabafo. - Traçamos um longo caminho não? - As duas param de andar novamente, fazendo outros transeuntes precisarem desviar delas, para que não esbarrassem, bloqueando parcialmente seu caminho.
-Acho que sim. - Relena concorda, suspirando. - Você e o Duo eram tão loucos, nunca imaginei que poderiam acabar assim - Reafirma, mas dessa vez sorrindo, aprazida.
-Acho que é por sermos tão iguais que ficamos tão amigos e tão apaixonados. No começo nos ajudávamos nas conquistas, sabia? Nos encontros, nas dicas sobre o que falar e não falar, esse tipo de coisa… Foi o que nos aproximou, sabia?
Dessa vez, Relena ri e muito, chegando a jogar a cabeça para trás, fazendo sua franja ir para o lado, com o movimento.
-Não, você nunca havia me contado. Isso deve ter sido interessante.
-Foi, de fato - Havia graça e carinho na voz da moça e a loira pondera se alguma vez sentiria isso por alguém. Bem a tempo, Cléo parece ler sua mente. - Mas e então, e agora? Não há ninguém na sua vida? Ou alguém que você gostaria de ter na sua vida? - E dá uma risadinha.
Relena abaixa a cabeça, fazendo o cabelo cobrir parcialmente sua expressão.
-Na verdade não. Faz alguns meses desde que fui a um encontro. As pessoas simplesmente não parecem interessantes.
-Como não parecem interessantes? Há muita gente no mundo, sabia? - De sua exasperação e rosto abalado, Relena ri gostoso, chegando a levar a mão a barriga. A risada sonora e macia obrigando Cléo a rir também, divertida.
A irritação sumira em poucos instantes, como era de se esperar de amigas de longa data.
-É aqui, vamos? - E as moças entram na loja, trocando gracejos. Em um primeiro instante, ficam cegas, pela mudança para a luz artificial, o ar fresquinho do ar condicionado prendendo-as no lugar. E então, sem combinarem nem nada, estavam andando novamente.
A primeira loja e a mais fina, era um brechó razoavelmente caro e muito bonito, com uma aparência vintage e clean. Todas as peças de roupa eram muito bonitas, de bom gosto, presas em cabides junto a parede, em um longo armário aberto.
Um papel de parede listrado enfeitada o local inteiro, dando um ar de Tim Burton a loja.
-Vou ao banheiro - Cléo anuncia e Relena apenas anui, distraída com um vestido de um lilás bonito, de cetim.
Alguns minutinhos se passam, até a ruiva sair, do outro lado da loja, olhando em volta distraidamente. É quando avista Relena, concentrada em alguma roupa, atenciosa e distante.
A observa de longe, sua silhueta bonita e delicada. Era tão feminina que poderia soar frágil, se não a conhecesse melhor. Haviam passado por tanta coisa juntas, tanto drama, tanto apoio, tanto divertimento, tanta pareceria. Ela apostava tudo naquela menina. Relena era a pessoa mais resiliente que conhecia e nela, confiaria sua vida.
Sente uma onda de afeto e nostalgia toma-la e corre em direção a amiga, dando-lhe um súbito abraço de urso, assustando-a.
-Cléo, o que é isso? - A moça ri, com um tilintar aquecido, a outra solar e efusiva.
-Amor, o que parece? - E Relena ri, abraçando a amiga de volta, inconformada. Aparentemente Cléo nunca mudaria tanto assim. E volta a abraça-la compartilhando de seu carinho.
-Então você nunca havia vindo aqui? - Rick pergunta. O banco que estava sentado era de metal, mas tinha uma almofada no assento, confortável. O lugar tinha uma aparência de anos 50, com mesinhas bonitas e brancas, de metal, espalhadas pela calçada. Os funcionários usavam uniformes claros e listrados de verde água e branco, sorridentes. Era o tipo de lugar que gritava dinheiro, por isso Celine se contorce no lugar e nega. Ela torcia o nariz, sempre que desagradada. Sem comentar, Ricard acha o ato bonitinho.
Celine era uma menina estranha, mas um tanto fascinante. Sua aplicação na aula de fotografia fora excelente e ela parecia uma aluna concentrada. Ela tinha sempre uma presença marcante de antíteses, uma quebra intrigante de interesse e frieza, como nunca havia visto antes. Isso sem contar os olhos, sempre parecendo ao mesmo tempo tão ferinos e reservados, profundos e vazios. Eram duas orbes vivazes e inteligentes.
-Gostou da aula de fotografia? - Ela focou seu olhar nele com atenção enervante. Os olhos verdes escuros cravaram em sua figura de forma assustadora, mas ela abaixa o rosto, parecendo sem graça. Ele não conseguia entendê-la, ou os sinais que passava.
-Foi… Diferente - Ela comentou, dando de ombros. As palavras dela eram sóbrias e percebeu que não esperava por uma resposta, não de fato, mas gostou de obtê-la.
Ricard cruza os braços sobre o peito e a observa por um instante, reclinando-se na cadeira. Ela não parece notar, olhando em volta, assimilando o local cheio de pessoas.
-Vai pedir alguma coisa? - Volta a falar, suas palavras quebrando o fluxo natural de existência dela, que franze o cenho, antes de responder.
-Não acho que consiga pagar nada aqui - Ele assente.
-Eu estava oferecendo - E ele sorri, apoiando o rosto sobre a mão espalmada, o cotovelo sobre a mesa.
-E por que você faria isso? - Dessa vez ela cruza os braços, parecendo rígida e empertigada, de repente, desconfiada.
-Não sei, talvez eu só esteja sendo gentil - Ela relaxa um pouquinho diante disso, mas ainda não parecia convencida.
-Desde que saiba que não ganhará nada com isso, por mim tudo bem - E puxa o menu, olhando-o com atenção. Rick faz o mesmo e assim ficam em silêncio. - Quero um frappuccino de avelã e baunilha e um pedaço da torta de noz pecã. - E arqueia uma sobrancelha, convidando Ricard a desafia-la. Ele não o faz.
Ele pede um cappuccino pequeno, com um pedaço da torta de nozes. Os dois passam a se ocupar com a comida, em um silêncio confortável. A câmera ainda repousava no pescoço de Celine, visto Ricard não ser um dono muito possessivo.
Ela termina de comer e brinca com a máquina, chegando até a dar risinhos, enquanto Ricard comia, ou se reclinava, para pegar seu guardanapo que caíra no chão. Pouco depois, ela se levanta, lhe entregando o aparelho, enquanto ele ainda terminava. Ele ergue os olhos em sua direção.
-Preciso ir, senão deixarei meu amigo esperando. - Ele concorda, lentamente. Ele se despedem de uma forma travada e estranha, mas ela se vira para acenar e ele se pega sorrindo.
Ela era definitivamente um ser humano marcante.
-Estou nervoso, sabe como é, nunca fiz isso antes - O menino sentado ao lado de Heero no caminhão tagarelava, embora o moreno mantivesse os olhos fechados, encostado ao encosto, os braços cruzados. - Não sei se devia estar aqui, mas eu precisava do dinheiro, sabe? Minha irmã está doente e minha mãe já trabalha muito, ela não vai conseguir levar tudo sozinha.
-Hn - Heero grunhe em resposta, sem nem olhar em sua direção. O menino não devia alcançar os dezessete anos, os cabelos loiros escuros e olhos cor de mel o faziam todo em tons areia, suave. O soldado perfeito não estava interessado em sua história, mas ele não se importava. Simplesmente precisava de alguém que o ouvisse.
-Conheci Ambrosius através de um amigo, recentemente. Parece que eles já fazem negócios há anos, foi o único motivo de eu confiar nele e resolver fazer negócio. Você já fez isso antes? Aposto que sim né? Você não parece nem um pouco nervoso, qual o seu segredo? Você acha que vai haver perigo? Confesso estar um pouco temeroso. Eu sei que sou só o motorista, mas depois de tantos filmes de ação, acho que vou desmaiar!
Heero respira fundo, começando a se irritar com a tagarelice, mas o menino não parece notar, tão perdido estava em suas próprias divagações.
-Não sei se vou ter coragem de fazer isso de novo, apesar de tudo. Sabe como é né? Preciso pensar. Segurança primeiro. Se eu for preso, ou qualquer coisa do tipo, quem cuida da minha mãe depois? Você parece calmo. Você tem alguém? Digo, alguém que seja importante, família, esposa, filhos, qualquer coisa assim… Desculpe, besteira minha, filhos? Você parece muito novo para eles. - E então o menino subitamente se cala, ao ver o olhar mortal que Heero lhe lançava, os olhos azuis como geleiras glaciais, levemente estreitados em descontentamento.
-Desculpe, é que estou nervoso. Já falei? - E tenta um risinho sem graça, mas volta a cair no silêncio. Heero volta a fechar os olhos e se encosta no encosto da cadeira, respirando fundo. O menino começa a se remexer no lugar, inquieto.
Heero estala a língua. Talvez não devesse ter seu fumado tão cedo. Aparentemente seriam extensas horas até estarem andando.
A menina entra na lanchonete com cheiro de gordura, subitamente sentindo-se em casa. Na cadeira mais afastada da grande janela, Charlie estava sentado, parecendo nervoso. Ele sorri quando a vê, parando de comer suas panquecas com bacon e seu café.
-Meio tarde para um café não? - O provoca e ele ri, quando ela se senta a sua frente, arqueando as sobrancelhas, provocativa. Charlie responde a provocação mostrando tudo o que tinha na boca, ao passo que ela faz uma careta e um sonzinho estridente.
Ela nota que seus ombros estavam tensos e que havia uma linha de tensão sobre seus olhos. Curiosa, resolve deixar as coisas acontecerem naturalmente.
Charlie era pelo menos dez anos mais velho que Celine. Os dois se conheciam de longa data, de algumas das dificuldades em que esbarraram juntos. Ele a considerava uma irmã mais nova, enquanto ela procurava um pouco de diversão e um guia nele.
Em suma, nutriam real afeto um pelo outro.
-Por que demorou tanto? Eu estava aqui te esperando desde as nove horas! Até resolvi dar uma volta - E ri baixinho da provocação.
-Ah querida, você sabe que não levanto antes do meio dia! - Devolve, dando uma nova mordida em sua comida, as unhas com margens pretas lhe chamando atenção.
-Charlie! - Sua voz era um agudo estridente, de reprimenda. Ela baixa a voz - Andou injetando de novo? - Ele sem querer deixa os olhos vagarem pelos braços, onde as marcas arroxeadas repousavam, então a olha, com olhar desesperado.
-Me desculpe menina, juro, não consegui evitar - Ela parece fazer uma cara preocupada, quase chorosa, antes de respirar fundo e recompor-se. Ele parecia igualmente desesperado com sua reação.
-Precisamos te conseguir ajuda! Isso não pode ficar assim! - E tamborila os dedos pela mesa, fechando os olhos levemente, em um gesto tão parecido com o de seu irmão. Ele suspira.
-Eu sei, já estou trabalhando nisso, não se preocupe. Lembra da reunião que eu comentei com você? - Ela anui - Então, está funcionando bem melhor do que eu havia previsto. Essa é a primeira vez que faço isso em meses!
-Menos mal. E o trabalho?
-Tudo está em ordem por lá. Tão em ordem que anda tedioso, você bem sabe, nunca foi assim - Celine não consegue evitar uma risadinha. Charlie era bartender e o lugar onde costumava atender era marcado por brigas frequentemente. O fato de passar uma semana inteira sem que uma ocorresse era um milagre, mais do que isso, um fato misterioso, nunca ocorrido antes.
E com isso caem em uma conversa mais amena e rotineira, pontuada com palhaçadas e muito riso, piadinhas sem graça e atualização dos fatos ocorridos nas últimas semanas. O rapaz fica extremamente sério ao saber sobre como ela apanhara e como o irmão vinha lidando com os fatos, concordando e discordando de várias medidas de Heero.
A vida de ambos não parecia conter mais novidades. Se conheciam há tanto tempo, que tudo o que podiam dizer parecia já ter sido dito, o que poderia ocorrer de novo, ocorrido.
É quando, inesperadamente, a expressão no rosto do rapaz se torna subitamente sombria, taciturna. Os olhos antes leves, tempestuosos. Celine não entende. Ele focava fixamente um ponto além de si, do lado de fora da janela. Ela ouve a sineta e se vira, bem a tempo de ver alguns rapazes se aproximando, prontos para aborda-los.
Eles tinham roupas gastas e expressões nefastas. Algo automaticamente fecha em seu estômago, um arrepio gelado percorrendo a superfície de sua pele, deixando-a nervosa. Ela os conhecia bem demais, pois já os vira por diversas vezes, aquele tipo, aquela pompa, postura. Eram cobradores.
-Charlie - Ela chama com uma respiração fraca e trêmula, aflita. - O que você fez? - Ele não responde, mas quando se vira, tinha o maxilar trancado, os olhos estreitos.
-E aí rapazinho? - E um deles apoia-se na cadeira de Celine, enquanto conversava com seu amigo. Estavam cercados - Se não me engano, seu prazo era para ontem. - Ele tinha um tom perfeitamente civilizado, mas mesmo assim o sangue nas veias da menina corria frio. Ela conhecia aquela gente. Eles estavam dispostos a fazer o necessário para conseguirem o que queriam, sem nem ponderar sobre as consequências. Nota que sua mão estava trêmula sobre a mesa e a recolhe, deixando-a tensa junto ao corpo. Podia ouvir seu coração batendo no peito, o sangue correndo grosso por todo o seu corpo, ordenando-a que corresse. Encara o amigo a sua frente fixamente, como sua vida dependesse disso.
Charlie engole em seco e passa a mão em seus cabelos loiros escuros, sem corte e sujos.
-Preciso de mais tempo - Ele diz, com a respiração irregular. Somente o tom de voz já revelava o quanto aquilo era sério e ela se pergunta o quanto ele devia e mais importante, para quem. - Recebo meu salário na outra semana e posso deixa-lo como sinal… - Mas sua voz falha e some, como se soubesse a resposta de sua proposta antes mesmo de fazê-la. Os homens trocam olhares entre si. Havia um brilho malicioso, quase cruel naquela olhada, que faz a moça querer levantar e sair, fugir para qualquer outro lugar. Ela recusa-se a mover um músculo, respirando fundo, mantendo-se firme. Seu coração explodia adoidado na caixa torácica. Cerra as mãos com força, sentindo as pontas das unhas contra a palma da mão.
-Não foi bem assim que havia negociado e sabe disso Charlezinho - O tom desdenhoso e brincalhão só fazia aumentar o enjoo que Celine sentia, embora ainda se recusasse a levantar os olhos e encara-los. É quando tudo torna-se bizarramente mais real, pichado de todos os tons de pesadelo.
Charlie levanta os olhos em sua direção, lançando-a uma longa olhadela, profunda, apologética. Ela sabia o que se passava em sua cabeça, sabia o que ele pensava, conhecia aquele olhar. Seu corpo imediatamente congela, como se passasse muito frio e sua mandíbula trava, com um gosto amargo.
-Rapazes, podemos discutir isso em algum outro lugar? - O tom 'todo negócios' que ele usava só parecia deixar tudo pior. - Estamos deixando a menina desconfortável - Diz, mas a voz era fria, distante. Era como se já o tivesse perdido.
-Agora você parece ter acordado não? E se preocupa com aqueles a seu redor? - O homem dá uma risada fria, enquanto acaricia a nuca de Celine. Onde ele a tocava se arrepia e ela se torna ainda mais gelada e endurecida. Estava em pânico, todos os seus sensores de perigo ligados. É quando um dos homens finge se espreguiçar, mostrando uma arma.
-Não tente nada engraçadinho, vamos para os fundos! - O outro ordena e os três se levantam. Celine fica onde estava, congelada por vários segundos, vendo-os se afastarem, até saírem pela porta que só o pessoal autorizado costumava utilizar, para levar o lixo.
Ela respira fundo e volta a olhar o colo, onde suas mãos estavam fechadas com tanta força, que algum sangue escapava de sua palma. Não sentia dor, seu corpo todo estava rígido. Ela tremia por inteiro, como se tomada de um suor sem dono, dominante, uma febre efervescente de quarenta graus.
Põe-se em pé com um salto e quase desmaia, sua visão tornando-se turva. Respira fundo e tira os cabelos do rosto, respirando fundo, uma, duas, três vezes. Olha em volta, mas ninguém havia para encara-la de volta. Aonde estava o maldito atendente?
Aperta os olhos com a ponta dos dedos, com força, determinação. Sobre a mesa, um café insosso e frio repousava. Ela o toma por inteiro.
Quantos minutos haviam se passado? Um, dois, dez? Perdera a noção do tempo parada ali, com as mãos apoiadas sobre a mesa, levemente flexionada para frente, ainda encarando o exterior pela grande janela. Como mundo podia parecer tão normal e pacífico, quando tudo parecia estar de cabeça para baixo?
Sufoca um grito e remexe os cabelos, correndo para a porta, como se sua vida dependesse disso. A porta era pesada, de metal enferrujado e parecia emperrada, levando minutos até ser aberta e um tanto considerável de força bruta.
Não havia notado, mas ao por os pés na rua estreita, já chorava, mesmo que em silêncio. De onde estava, no ponto mais raso do beco, podia ver as costas dos homens mais ao fundo. Charlie parecia estar em péssimo estado, machucado, vomitando sangue, enquanto se segurava no ombro de um deles.
Um segundo de hesitação.
Um deles puxa a arma.
Charlie a vê. Há um grito. Um disparo.
Era ela gritando? A arma realmente disparara? Quando o mundo adquirira margens em vermelho? Tudo parece lento, ele tinha uma expressão de desespero, ela não assimilava nada. Seu cérebro parara de processar informações. Havia um mar, um mar vermelho. Então ela sente o ar faltar e tem consciência de levantar do chão, de perto da lata de lixo, para onde tinha sido chutada.
Tenta voltar a correr na direção de onde agora, um corpo estava caído, mas um dos homens volta a empurra-la para longe. Ela se levanta, ele a acerta. Ela se levanta e ele a acerta ela se levanta-elaselevanta-elaselevanta-selevantalevanta-aaa
Não sabe dizer quando o mundo morrera, ou quando apagara, mas acorda de um estado de estupor total, a consciência tomando ciência de si mesma em um ponto qualquer, como que uma máquina sendo ligada depois de muito tempo sem uso.
Estava sentada no banco de uma igreja, as mãos sobre os ouvidos, se balançando para frente e para trás. Como havia chegado ali? Sua cabeça estava uma bagunça. Por que havia tanta cor em sua pele, em sua roupa?
Era ela que fazia aquele barulho horrendo? Leva a mão a garganta e se ordena a parar. Nada acontece e ela aperta a garganta com força, começando a tossir e engasgar. Havia algo muito errado. Alguém puxa sua mão e vira seu rosto.
Seu cérebro tenta processar aquele rosto, mas o mesmo motor que ligara se negava a funcionar, arranhando, gemendo. Faltava combustível.
A boca dele se mexia. Ele segurava seus braços. Por que ele a chacoalhava tanto? Ou era ela que estava tremendo?
O mundo parecia ter saído dos eixos. Um zumbido alto lamuriava a perda em seu ouvido. Estava surda.
O mundo volta a embaçar e a sucumbir, a pouca consciência mental que reunira quebrando-se em milhares de retalhos. Ainda ouvia um pranto, uma lástima, um som de animal acuado. Seus olhos continham espinhos, vazando e vazando e vazando-
Era de lá que vinha todo o vermelho?
Ele então a abraça, segurando-a com firmeza contra si e sem que percebesse, ela se agarra a ele, não notando até então o frio que tomava todo o seu corpo, sua consciência. Era como se não fosse mais humana, como se tivesse perdido a noção de todos os sentidos até agora. E, com aquele único toque, ele a fizesse voltar a sentir, a ser.
Seu peito doía, seu rosto doía. Ela grita mais alto e se agarra mais a ele. O zumbido ainda não sumira. E num jorro tempestuoso, se lembrara.
-Celine, tenha calma! Por favor tenha calma! O que aconteceu? Celine!
E então o mundo volta a ficar negro e incólume. Nada a alcançaria para onde estava indo. Estava protegida.
O telefone tocava frenético e, quando Relena o atende, escondendo um risinho que até então dividia com Cléo, franze a expressão, confundida.
-Alô? - A voz de Rick do outro lado era confusa e acelerada. O que teria acontecido? - Rick, por favor se acalme, o que está dizendo? - A ligação estava ruim e o torrencial de informações demora a fazer sentido. Mas a cada minuto, a expressão de Relena se tornava mais espantada, assombrada.
Cléo, que instantes antes parara de beber seu chá, agora olha a amiga com atenção, tentando em vão, ouvir sobre o que tudo aquilo se tratava. Sabia que havia algo muito errado, pois só vira aquela expressão no rosto de Relena uma única vez. E era disso que sempre tentavam esquecer.
A loira desliga o Iphone apenas alguns instantes depois, chocada.
-Aconteceu um acidente. - A expressão dela era tão assustadoramente lisa, que só uma grande confusão e acidente explicariam. Isso a preocupava - Rick achou Celine andando pela rua a esmo, banhada em sangue. Parece que ela estava tão em choque, que só o notou ali quando já estavam sentados, em uma igreja, não consegui entender bem. Ela parece machucada. Rick soava desesperado. O que fazemos?
-Como? - A ruiva demora alguns segundos para assimilar a informação, os dedos cruzados sobre a mesa. - O que aconteceu com ela?
-Rick não sabe! Ela não estava em condições de falar. Ele ligou do táxi, parece que ele a está levando ao hospital. - A cor havia sumido do rosto tão corado de Cléo.
-Que hospital?
-Algo a ver com Louis.
-St. Louis? O que pode ter…? - Imediatamente Cléo puxa o celular, discando um número - Eu vou ligar para Heero, o irmão dela. - A voz decidida da menina mostrava que uma vez mais, estava dentro de suas faculdades mentais, decidida e pronta para agir. Cléo era boa em situações de aperto, segurando as pontas quando outros não o faziam. Resiliente. - Você vai para o hospital. Eu vou buscar Ailleen na creche, mas depois acho um jeito de te encontrar lá, tudo bem? - Relena anui, ainda chocada demais para agir.
Estariam mesmo na vida real? Eram tantas fatos consecutivos, que mais pareciam em um filme de ação. Mecânica, se levanta, arruma suas coisas, pega a bolsa, ajeita a saia do vestido branco e só vai se dar conta de suas ações novamente quando já estava dentro do táxi.
Heero entra no hospital mantendo um passo rápido, a blusa surrada sendo segurada em suas mão suadas. Largara a missão pouco antes de ela começar, ouvindo o menino de voz estridente gritar, desesperado, atrás de si. Simplesmente dera as costas, sem nem pensar no que fazia, sem avisar a ninguém.
E embora agora seu bolso parecesse pesado, como se o metal do pen drive houvesse aquecido e derretesse, queimando sua pele ante contato, ignorava, sem nem prestar atenção aos detalhes, luzes. Pergunta por ela a uma enfermeira e obtém as direções que precisava.
Se aqueles cobradores bastardos a tivessem machucado de novo! Quase infartara quando Cléo ligara, avisando que a Line estava no hospital e que não tinha mais informações.
Alcança o quarto quase correndo. Apesar de seus olhos estarem controlados, emoções vazavam através de suas ações, o coração não conseguindo disfarçar dentro do peito. Sem ela, tudo estaria aos pedaços.
O vidro do quarto dava para o corredor, aberto, transparente, limpo. Consegue respirar por apenas um momento, antes do ar voltar a travar na garganta. Lá estava ela, semi sentada. Assessora seu estado, com um puxão dentro de si. Era como se sua pele quisesse inverter de dentro para fora. Um sentimento forasteiro.
Ela tinha hematomas por todo o rosto e braços. Vários deles e ele não consegue desgrudar os olhos dos tons escuros, como pinturas em uma tela em branco. Era sua culpa. Respira fundo. Por que sempre parecia tomar todas as decisões erradas? Ele não estava lá. Range os dentes e fecha os olhos. Precisava se acalmar, precisava se acalmar. Bile lhe subia pela garganta.
Encosta a testa no vidro frio, vendo-o embaçar.
É então que nota. Quem era aquele de quem ela segurava a mão? Um homem de boa aparência estava prostrado a seu lado, dando-lhe assistência, segurando seu braço para que lhe colocassem o soro e ajeitando suas almofadas.
Apesar da nítida dificuldade, Celine se segurava a ele, em seu braço, em seus olhos, com uma necessidade transbordante, que Heero nunca antes vira.
Aquela representação tão nítida de confiança o desestabiliza e faz falhar sua respiração.
A enfermeira sorri e o rapaz diz alguma coisa, enquanto a moça se afastava. Heero vê com descrença, enquanto o rapaz senta-se na cama e a menina se aconchega contra ele, como um filhote, procurando proteção.
Seu sangue gelifica nas veias e ele se afasta do vidro por um instante. O rapaz lhe acaricia os cabelos, sorrindo de uma maneira que faz o estômago de Heero retorcer. Ela era tudo que o importava e mesmo assim, não conseguia oferecer qualquer tipo de estabilidade. E aquilo, acima de tudo, o atingia. Com força e duramente.
Era sua culpa. Mais uma vez, era sua culpa.
A enfermeira alcança a porta ainda sorrindo, mas parece um pouco surpresa ao vê-lo olhando do lado de fora e lhe lança um olhar duvidoso. Em troca, ele lhe lança um tão nefasto, que a enfermeira se afasta, com uma expressão de estranhamento, sem perguntar mais nada.
Alguma vez ela já se contara com ele daquela forma? Dependera de si? Ela estava melhor ali, sem ele, com um desconhecido qualquer. Estava mais segura. O pensamento de alguma forma o enfurece com tal intensidade que acerta o vidro com o punho cerrado. Os dentes rangem e o maxilar trava. Era um gosto frígido o acre dentro de sua boca.
A revelação o desnorteara.
Ele trazia mais problemas do que qualquer outra coisa. Ela não precisava dele.
Ninguém precisava. Ele era um tolo. Ninguém precisavaNinguém precisavaNinguém precisavaNinguém precisavaNinguém precisava…
Afasta-se, tirando as mãos do vidro, sentindo-se subitamente etéreo, a parte do mundo.
Relena sentia-se enlouquecida, sem poder parar de correr, indo em direção ao quarto indicado, sua respiração fazendo doer a caixa torácica, muito embora estivesse em boa forma. Poderia parar depois de ter visto o que acontecera.
Uma vez dentro do táxi, se perguntara o que diabos estava fazendo, indo direto para o hospital, uma vez que nem conhecia aquelas pessoas. Rick estava envolvido e isso a deixava preocupada, é claro, mas como poderia ajudar? Devia ter sido ela a buscar Aileen na escola, enquanto Cléo vinha para o hospital.
Ainda assim, não conseguia parar de desembestar corredores a dentro, aquele brilho branco vindo de todos os lugares, assim como o burburinho de conversas, o bipe de máquinas, o cheiro cítrico tão característico de hospitais.
Vira o corredor, parando apenas um segundo, sentindo os fios dos longos cabelos loiros lhe grudarem na nuca e na testa. Estava ofegante e cobre o coração com a mão, inalando ar. Começa a caminhar devagar. Estava perto, há apenas alguns números de distância.
Teria Rick pago pela internação? Conhecendo-o com o conhecia, não era difícil acreditar que sim
Seus pensamentos ficam mais lerdos, quando avista o homem alto parado do lado de fora, com uma mão no vidro. Aquele devia ser o quarto certo, não? E então uma enfermeira sai e ele se vira. Naquele instante, todas as suas dúvidas desaparecem, pois um rapaz capaz de lançar aquele olhar só poderia ser o irmão de Celine.
Enche a boca, tomando o ar para dizer alguma coisa, mas ele se retrai, afastando-se do vidro. O que ele estava fazendo?
E então ele se vira e afasta-se pelo corredor. A loira para apenas um momento, para relancear o interior do quarto, certificando-se que era o correto. E então, sem saber muito bem o que fazia, o segue, sem querer perdê-lo pelo corredor.
Tenta chama-lo, mas estava longe e não tem a coragem necessária para gritar seu nome. Ele andava rápido e soturno, como uma sombra, que desliza pelas paredes, imaterial. Ela aperta o passo, embora estivesse cansada. A essa altura, estava descomposta e bastante suada.
Ele desce para o primeiro andar pela escada e, sem saber por quê, talvez com medo de perdê-lo de vista, ela o segue, sem tomar o elevador, correndo um lance de escadas atrás do outro, até apressar-se pelas portas automáticas da frente.
O céu já estava escuro, a noite quase alcançando oito horas. Ela olha em volta por um instante desesperado, mas ele parara, um pouco mais a frente, longe do entra-e-sai do hospital, da luz, parado um pouco distante na calçada, olhando para cima, com as mãos no bolso do jeans.
Ela o alcança, sentindo o frio afligir-lhe o corpo. Não estava com uma roupa de noite.
-Heero? - Ele se vira e a encara. O olhar azul era tão glacial, que um frio lhe corre a espinha perante ele, embora se recuse a demonstra-lo. Engole em seco, enquanto a sobrancelha dele arqueia, como se perguntando quem era e o que fazia ali.
Os dois se encaram por mais alguns instantes, quando um ou dois trovões cruzam o céu escurecido. Do lugar de onde estava, desprivilegiada, conseguia distinguir a mandíbula angular do rapaz e sua altura, que pairava sobre ela, embora não muito mais do que isso.
Muito mais não excluíam aqueles olhos. Olhos que brilhavam no escuro, como os de um felino na selva, iridescentes.
-Quem é você? - A voz dele era grave e rouca, metalizada pela falta de uso. O desdém em seu olhar poderia ser um indício para que se afastasse. Ignorando isso, a moça esfrega os braços, ciente de suas bochechas vermelhas e seus cabelos indo em todas as direções. Nunca se apresentara a alguém de forma tão descompassada, fora de si.
Talvez por isso, mais do que por qualquer outro motivo, ao invés de responder sua pergunta, a responde com outra, igualmente interessante.
-Por que não entrou no quarto? - Nota que sua voz estava trêmula e irregular, como se ainda não estivesse se recuperado totalmente. As sobrancelhas dele se juntam de maneira enigmática, como se tentasse compreendê-la, seu lugar no mundo, suas intenções por detrás de perguntas mundanas.
Um silêncio pesado recai sobre os dois. Ele não responderia suas perguntas. A moça se encolhe um pouco mais, sentindo o frio aumentar, enquanto o vento a rebatia com mais força. Ele permanece imóvel, inabalável.
Só poderiam mesmo ser irmãos.
Na verdade, a pergunta o incomodava mais do que queria admitir, pois justo naquele momento, havia se dado conta de algo, algo muito importante. Não gostava da ideia de que alguém pudesse estar observando enquanto sua mente funcionava, enquanto demonstrava qualquer coisa próxima a uma vulnerabilidade.
Quem era aquela desconhecida e por que sabia seu nome?
Volta a olha-la com escrutínio. O corpo magro que tremia de leve, assim como os lábios. Os olhos pareciam limpos e verdadeiros. Ela respirava com a dificuldade de quem correra uma maratona e seu vestido estava torto no corpo, assim como o lenço que usava para prender o cabelo.
-Por que não quis. - Responde dando de ombros, chutando uma pedrinha a sua frente, desviando olhar do dela, guiando-o para o chão, por algum motivo resolvendo simplesmente respondê-la. Talvez assim, ela fosse embora mais rápido. As mãos ainda estavam nos bolsos e pondera se ainda daria tempo de voltar ao trabalho.
-Mentiroso - As palavras são ditas com tanta leveza, que ele se vê sorrindo, enquanto voltava a encara-la. Dessa vez a leva mais em conta, ao notar que ela mesma parecia descrente com o que dissera. Trêmula, reitera - É sua irmã - Agora ela tremia com a constância de quem sente frio. Ele ajeita a postura, ficando ereto e lhe lança um olhar enviesado, um aviso, levantando o queixo.
Ela não hesita, aproximando-se. Estava parada logo a seu lado, quase raspando o braço cruzado com o seu e ele admira, nem que passageiramente, sua determinação.
O moreno respira fundo, passando a mão pela franja rebelde, de forma cansada.
-Ela não precisava de mim lá. - E dá de ombros. Embora as palavras fossem em um tom baixo e sem nenhuma inflexão na voz, causam um baque em Relena, que parece genuinamente chocada, ante ao pensamento tão naturalmente por ele expresso.
Ela abaixa o rosto, escondendo uma tormenta interior, demonstrada por apenas um instante em seus olhos. Agora, Heero estava genuinamente interessado e estudava sua reação atenciosamente. Certamente era alguém interessante, capaz de demonstrar vulnerabilidade tão abertamente, tão declaradamente, de maneira tão marcada.
Ela negaceia com a cabeça, de forma agitada, antes de voltar a encara-lo. Podia sentir o calor exalando de seu corpo.
-Mas é claro que sim, que espécie de palavras sem sentido você está falando! Você é o irmão dela! Ela está esperando por você. - As palavras seguintes travam em sua garganta e a moça fica a encara-lo, esperando que entendesse suas palavras, as ideias não expressas. E então, em um ato de desespero, ela segura seu braço.
Os dedos eram finos e gelados. O ar começava a condensar-se nas bocas de quem respirava, exercia expressão.
Ele encara o toque por um longo tempo, mas ela não o solta, segurando o mesmo ponto de seu braço com as duas mãos pequenas.
-E o que você sabe sobre isso? - A voz vinha tão baixa, tão perigosa, que pela primeira vez, Relena sente os pelos de sua nuca se arrepiarem. Ele parecia alguém a se temer, principalmente quando calmo, como estava. O que ela estava fazendo ali? Como se metera nessa situação? - Ao longo de nossas vidas já lhe causei muito mais mal do que bem - E então ele afasta a mão dela, empurrando-a com rudeza para longe. - Agora deixe-me ir, tenho coisas a fazer.
-Não! - A moça grita, mas não se move, parecendo prestes a explodir em lágrimas. Talvez, pela abordagem tão aberta e emocional, ela o tivesse pego de surpresa e arrancado aquelas respostas de si, mas agora ele estava cansado e precisava se afastar. Ele precisava de paz, de sossego, isolamento.
Havia um vazio que se espalhava de dentro de si para fora, para todos, para tudo em que encostava. O toque dela fora apenas temporário, estrangeiro, trazendo-o de volta, fechando uma pequena distância intransponível.
Se afasta com um, dois, três passos trôpegos. Ela lhe roubara o equilíbrio, um pouco de sua paz mental. Que espécie de feitiço era aquele, para sugar tanto em tão pouco tempo? Vira-se a relanceia novamente. Ela ainda estava parada no mesmo lugar, os olhos brilhantes, encolhida pelo frio.
Volta a se virar. Seu celular toca.
-Heero? - Não tem tempo de responder, mas estranha a aflição do outro lado da linha. Seria aquele…? - Aqui é Ambrosius, o carregamento foi abatido no meio do caminho. Eles levaram tudo e mataram os homens, estão atrás do pen drive. Ele está em segurança?
-Sim. - Nenhum instante de hesitação. Não tinha mais energia para responder nada além daquilo.
-Seu malandro, como sabia que eles estavam vindo? Recomendo que você desapareça por alguns dias. Pegamos um deles e eles sabem quem você é. Estão atrás de você. Talvez até saibam aonde está agora. Não preciso informa-lo de que precisa manter minhas informações a salvo não? Você sabe que somos amigos, mas acidentes acontecem e eu não gostaria que nenhum acontecesse entre nossa amizade, especialmente quando você tem tanto a perder.
Sem tempo para retórica, o homem desligou, com um tic mudo do outro lado da linha. Heero olha para o aparelho, ainda em processo de assimilação.
Ele se vira, encarando a menina, que agora tinha cores arroxeadas pelo frio, ainda olhando-o com a expressão assustada, os olhos arregalados. Ele ainda tinha o celular em mãos e uma expressão de introspecção.
É quando ouve pneus cantarem no final da rua.
Heeeeelllooo folks!
How are u doin'? :)
E aí? Alguém imaginou a história fazendo essa curva? Chegando aqui? Se sim, levantem a mão e confessem para a tia!
Tadinha da Lena não? Entrou de gaiato bonito :/
Fora que ela se comove sinceramente. A indiferença do Heero e os problemas com a irmã foram um pequeno baque para ela.
Quero muito saber suas opiniões sobre o capítulo e de para onde acham que estamos indo daqui. Por que sinceramente acho que é algo para se pensar não? O Rick e a Cel se envolvendo muito rápido por aqui, o Heero certamente com problemas. E aonde se encaixa a Relena? Querem saber? Terão de esperar ^^
Mas estou louca para ouvir suas teorias a respeito!
Os vejo novamente ainda esse ano, espero! haha
Obrigada pelo constante apoio Nicks e Lica :)
Kisus.
Suss
12.09.2015
