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Celine e Ricard tem uma aula de fotografia, enquanto Relena e Cléo se encontram para um dia de compras.
Heero faz negócios arriscados para conseguir o dinheiro que deve, no nome de sua mãe, tentando proteger sua irmã.
Quando Celine reencontra um amigo de muitos anos, Charlie, as coisas acabam mal e ele é morto. Ricard a encontra e liga para as meninas, que seguem para o hospital.
Heero, ao saber da notícia, vai encontrar a irmã no hospital, deixando sua entrega para trás. A entrega é descoberta por rivais do homem para quem estava trabalhando. Eles estão atrás das informações que Heero carrega consigo.

Parte 1 - Os maus Tempos

III

Ele tem apenas um instante para se decidir. Como sempre, vence sua praticidade inflexível. Não havia espaço para hesitação em seus passos, não no momento, nunca em sua vida.

-Moça, preciso de sua ajuda. – Não eram palavras que ele jamais imaginou saindo de sua boca. Ela parece assustada – Agora! – Ele se aproxima, rapidamente, repentino, sem que ela mal percebesse que se aproximava, entregando-lhe algo. Ela permanece sem reação, mas ele se vira, afastando-se.

Ela permanece longos instantes sem saber o que fazer, vendo-o se afastar, para só então olhar para o pequeno aparelho em suas mãos. Por que lhe entregara aquilo? O que era aquilo? Estuda o pequeno objeto nas mãos por alguns instantes, antes de voltar a focar-se nele.

Já quase não o via no final da rua, com seu passo apressado, a cabeça agora encoberta por um capuz. Seu coração aperta e, de algum modo soube, algo estava muito errado.

A loira se vira, para o outro lado e entra no hospital, com uma velocidade absurda. Uma enfermeira despontava no final do corredor e a moça a alcança em instantes.

-Com licença, será que você poderia me fazer um favor, porque estou com um pouco de pressa? – A moça assente, um pouco confusa. – Você poderia entregar isso para meu amigo Ricard, no quarto 42? – Um novo aceno é feito e Relena sorri, um pouco esbaforida, antes de voltar-se e correr porta a fora.

Não sabia exatamente o que estava fazendo, mas sabia que se parasse para pensar, provavelmente se arrependeria. Por uma vez em sua vida, não o faz. Apenas corre rua abaixo, seguindo o rapaz, que até há alguns instantes atrás estava logo a sua frente. Foi instintivo.

-O que você pensa que está fazendo? – Ela grita e ele para, bruscamente, virando-se para encará-la. Sem preparo, ela tromba com ele, quase levando ambos ao chão. Ele a agarra pelo pulso e a puxa para perto de si.

Parecia lívido. Furioso. Ele arregala os olhos, com o coração aos pulos. A adrenalina pulsava forte. Ele olha em volta.

-Merda! Não tenho tempo para isso – Escapa entredentes e as narinas dele inflam. Ele morde o lábio inferior – Você precisa sair daqui agora! – E a chacoalha pelos ombros. – Está entendendo? Agora, corra! – E a empurra para longe, fazendo com que suas costas trombassem com a parede de um prédio atrás de si, com intensidade, roubando seu ar e fazendo um choque percorrer sua coluna. Ela geme baixinho, demorando alguns segundos para se recuperar.

Confusa, tentava se localizar nos eventos a sua volta. O que estava acontecendo? Por que ele estava correndo? Devia fazer o que ele falava? É a primeira vez na noite, sua cabeça parece girar. O que tanto havia mudado de segundos atrás?

-Aii – Levando a mão ao machucado, percebe que onde Heero a tocara no braço agora sangrava de leve, um arranhão. Era um mau presságio, um toque de dor, de definhamento. Frenética, olha em volta, respirando pesado, descompassada. O frio estava esquecido, o coração batendo três vezes a velocidade normal, capaz de aquecê-la.

Ele continuara correndo rua abaixo, rápido, intrépido. Ela o observa, com olhos arregalados, seguindo seus passos. É quando um carro estaciona a seu lado e dois homens descem. Ela não acompanha o movimento, não dando devida importância, mas subitamente eles a estavam agarrando, puxando-a. Surpresa, se esperneia e tenta se livrar, mas lhe seguravam firme pela cintura, puxando cabelos, machucando-a.

Ela grita e chora e depois grita novamente. Por que aqueles homens a estavam agarrando? ! O que estava acontecendo ali? Quem eram aquelas pessoas? O que queriam com ela? Era um sequestro relâmpago? Iriam machucá-la? Matá-la? Havia se descuidado tanto assim?

Sente seu corpo gelar, o instinto de sobrevivência começando a bater. Não conseguia entender, não conseguia-nãoconseguianãoconseguia-

-Heero! Se não quiser que a menina morra é melhor voltar aqui agora mesmo! – Ouve o que não a segurava gritar, mas seus cabelos serviam como uma cortina sobre seus próprios olhos.

Não conseguia enxergar.

Grita alto, sentindo a garganta arranhar. O homem a puxa mais para perto e ela sente ondas de nojo espalharem-se por se corpo, enjoando-a.

O pânico cresce.

Não conseguia correr.

Grita alto de novo e ele puxa seu cabelo e a aperta, chacoalhando-a de um lado para o outro.

O pânico cresce.

Não conseguia respirar direito, seus pulmões inchavam sem serem suficientes. Era Heero que eles queriam então? Era por isso que estava correndo, fugindo, querendo que fizesse o mesmo?

Iria morrer? Era agora? Sem nem saber o motivo, sem entender, perdida?

Soluça e tenta se impulsionar para frente, ganindo como uma presa, com suas últimas forças, arranhando, chutando, mordendo. Grita e geme e grita e geme, voltando a fazer tudo de novo, mais uma vez. Era muita coisa para poucos segundos.

Seu cérebro não conseguia processar como parara naquela situação tão de repente.

O que acontecera ali? Como chegara até ali? Onde tudo dera errado? De onde vieram os homens?

-Me solta! – Choraminga, tentando se soltar. – Me solta!

Bumbumbumbumbum. Só conseguia ouvir seu coração. Em seus ouvidos, em sua boca, em seus ossos. Estava quente por toda a parte. Não conseguia ver nada. Chora mais alto e vira-se de um lado para o outro.

-Me solta!

-Fique quieta! – E ele aperta um ponto de seu pescoço, com força, por entre a massa de cabelos. Ela grunhe e engasga. Não conseguia se mexer, não conseguia respirar, não conseguia se mexer, não conseguia respirar. Não conseguia enxergar.

Tenta se soltar e se espernear.

Era inútil.

Pânico.

Só sabia que precisava sair dali, sair dali e se soltar. Estava sucumbindo, afundando rapidamente, sem nenhuma mão para puxá-la de volta a superfície. Iria sufocar e não havia mais o que fazer. Grita alto e sua cabeça começa a ressoar tambores. Sua visão começava a turvar, turvar, turvar e a cabeça a ficar pesada.

-Podem soltá-la, estou aqui. – A voz era firme, ainda que fria, cortante. Sente quando a jogam longe e o contato com o cimento frio corta a pele de seus joelhos, esfola suas mãos e torce seu punho. Com lágrimas nos olhos, levanta o rosto, os cabelos bagunçados e agora inteiramente soltos e embaraçados, cheios de nós. Sangrava em vários lugares, dolorida.

A sua frente, dois homens apontavam a arma para um terceiro. Heero. Ele voltara para buscá-la. Não a deixara morrer e, naquele ínfimo momento de um alívio dos que ganham alguns minutos na terra, não consegue pensar em nada maior que já tivessem feito por si.

Ele tinha as mãos erguidas no ar, o cabelo rebelde cobrindo parte dos olhos, mortais, impetuosos.

-Deixe-a a ir, ela não tem nada a ver com isso! – Exclama, as palavras saindo entre os dentes, rangidas, palavras arranhadas. Ele não a olhava, enquanto ela arfava, desfazendo-se pelo chão, liquefeita. Queria chorar, mas as lágrimas haviam morrido em sua garganta, agora travada.

Decomposta, levanta-se, devagar, travando um grunhido baixo, tentando segurar o punho, que doía e inchava, rapidamente. Em que havia ido se meter? Como acabara naquela situação? Sua visão gira uma, outra vez.

-Não adianta negar Heero, nós a vimos com você! – E o homem volta a agarrá-la, mas, dessa vez, exausta, não se move, nem chora, parecendo uma boneca de pano, flexível, pendendo para todas as direções, balançada, vencida. A adrenalina escorria de seus membros, sobrando apenas o cansaço, inflexível. Heero parece mais tenso e trava a mandíbula, mas não se move.

-Não a conheço, não sei nem qual o nome dela! – mais palavras machucadas que escapavam dos lábios ferrenhos e dos dentes ferozes. Os olhos estavam tão escuros e afiados, prometiam a dor.

-Se é assim, então por que voltou para buscá-la? – O outro diz sabido e confiante, acariciando o rosto da moça, que ainda não reagia. É só quando ele segura seu punho, para puxá-la, que ela chora, encolhendo-se, voltando para a realidade de que, por alguns instantes fugira. Isso faz o moreno avançar um passo, vacilante, antes de respirar fundo e estalar o pescoço, nitidamente nervoso.

-Eu já estou aqui, você já tem a mim, deixe-a ir! – Tenta mais uma vez, inutilmente, quando os homens pegam as armas e o terceiro, que aguardava no carro, sorrindo, se junta aos outros dois. Ele trazia algemas. Eles o algemam primeiro, ainda a segurando firme. Ele permanece imóvel e não resiste, nem mesmo com a arma apontada em sua direção, a postura firme e rígida, altivo.

Isso parece irritar o rapaz que chegara, que estala os lábios e lhe dá uma coronhada na nuca. Heero cambaleia, desmoronando sobre os joelhos. Ele lança um olhar sujo ao rapaz, mas, além disso, não se move.

Na vez da moça, que parecia ter entrado em choque, ela choraminga, quando algemam o pulso machucado. Em seguida, os obrigam a entrar no porta-malas do carro. Apesar das exigências, Heero protege a menina com o corpo, servindo como escudo humano, permitindo que ela entrasse primeiro, ele logo em seguida.

A porta é fechada.

Sobrara apenas escuridão, derramada, longa e estendida sobre eles. As respirações estavam pesadas. Estavam de frente um para o outro, no meio da solidão abaçanada. Ele inclina-se, tentando ver seu rosto.

Sabendo ser uma pergunta estúpida, ele não pergunta se ela estava bem, apenas observa, absorvendo detalhes, inspirando e expirando profundamente.

-Como você se chama? – Pergunta, no fim de um minuto. O rosto dela sobe com um estalo, rápido demais, dando a impressão de desconforto. Era como se ela tivesse esquecido que ele estava ali. O movimento quase o acerta no queixo e ele se desvia um pouco para evitar o movimento abrupto.

Ela começa a tremer e, ele consegue ver, embora tentasse falar, a boca pendia, morta de palavras, apenas pequenos sons desconexos escapando, enquanto ela começava a chorar. Estava em choque. Ele volta a respirar fundo.

-Moça! – Fala, com impaciência, embora tentasse falar calmamente, para fazê-la voltar a si, tranquilizá-la. Ele não sabia ser suave, parecendo sempre intenso e severo. Ao notar que não funcionava, começa a se remexer, afastando-se dela, deixando-lhe espaço para respirar. Não sabia se o contato humano era o que precisava agora. Em um movimento fluido, ele encolhe as pernas e passa as mãos por baixo do corpo, deixando-as agora em frente e não mais as suas costas.

Nesse meio tempo, a menina a sua frente agora tremia compulsivamente, chorando baixinho, pronunciando palavras ininteligíveis, perdida em meio a sua mente, seus demônios que tomavam forma.

Ele volta a se aproximar, tocando seu rosto com cuidado. O contato a faz sobressaltar-se, olhando-o assustada.

-Shh, está tudo bem – Ele murmura, várias vezes, ainda tentando fazê-la voltar a seus sensos. A mão no rosto parece ajudar e ela se aninha mais a ele, aproximando-se, até encostar o rosto em sua clavícula.

-Nós vamos morrer? – As palavras vinham trêmulas e abafadas e ele quase não a entende por isso. Ele tenta processar as ideias, mas desiste, sendo honesto.

-Eu não sei, talvez – A voz era lisa, sempre sincera, quase crua demais, mas isso parece surtir mais efeito do que qualquer outra coisa. Talvez fosse seu calor, mas ela para de tremer, aconchegando-se mais a ele, em busca talvez, do contato humano que ele antes lhe negara. – Como é seu nome? – Repete. Vários segundos se estendem entre eles, silenciosos, desfalecidos. Um dois três três dois um de novo outra vez. As respirações contadas.

-Relena, Relena Darlian – Responde ela, finalmente raciocinando novamente, levantando o rosto. O nariz dela encostava, raspando de leve no queixo dele e ela observa os olhos profundos, que antes tanto admirara – Sou amiga do Duo e da Cléo. Conheço sua irmã. Ahn, meu amigo Ricard estava com ela no hospital quando você chegou…

As palavras voltam a desfiar-se no vento, caindo como folhas de uma árvore entre eles. No estado em que estava, não sabia diferenciar informações relevantes e irrelevantes.

-Relena – O nome tinha uma tangência estranha na boca dele, uma pronúncia diferenciada. – Se quiser uma chance de sobreviver, vou precisar que você siga tudo o que eu falar, tudo bem? – Ela acena e ele sabe, incontestavelmente, ela faria tudo o que ele mandasse. Sua vida dependia dele. Deixa a responsabilidade assentar – Em primeiro lugar, você tem o pen drive?

-Pen drive? – ela parece demorar um pouco para se lembrar do que ele falava, o que o deixa inquieto, mas ela logo se lembra, um brilho passando pelo seu rosto – Sim, eu o entreguei para uma enfermeira. Ele deve estar com meu amigo.

-Ótimo, não está conosco, já é algo a menos para nos preocuparmos – E ele exala todo o ar que continha, parecendo liberar a tensão de seu corpo de uma só vez. – Você consegue colocar suas mãos para frente, como eu? – Ela parece em dúvida, mas anui, com insegurança.

-Acho que sim. – E imediatamente começa o projeto. Ele se afasta, lhe dando espaço. Ela geme e algumas lágrimas escapam dos olhos bonitos, enquanto ela agia. Ela morde o lábio inferior com força, enquanto esse tremia, mas por fim consegue por as mãos para frente. Ela chorava silenciosamente, o punho esquerdo estava inchado e se deformava dentro e em torno do metal.

Ele volta a expirar.

-Agora consegue alcançar meu bolso? – Relena o encara, interrogativa, mas confirma, lentamente, mais um aceno dos olhos do que da cabeça. Ele se vira e ela coloca a mão em seu bolso do jeans, com dificuldade – Deve achar um pedacinho de metal, cuidado para não deixar cair.

O punho latejava e ela quase o derruba, enquanto puxava para perto do próprio corpo, chegando a cortar o lábio inferior no processo. Começava a suar frio de tanta concentração, as mãos ficando escorregadias.

-Está comigo – A voz era calma pela primeira vez. Ele nota que o tom cantado voltava para sua voz e fica feliz pelo desespero ter momentaneamente passado. Precisava mantê-la concentrada em pequenas tarefas, para que se distraísse, senão sabia, ela quebraria novamente.

-Muito bem – E ele se vira, levantando os punhos – Consegue me soltar? – Ele podia fazer isso por si mesmo, mas continua a passar-lhe tarefas. Concentrada, ela até deixava de tremer, totalmente. Ainda mordendo o lábio, que agora começava a transbordar um denso líquido carmim, o faz.

É a primeira vez que ele respirava aliviado.

Massageia os pulsos doloridos.

O carro continuava acelerado e passa por uma lombada, elevando-se subitamente. Pela primeira vez, Heero dá graças por nunca se esquecer da sua chave universal, principalmente em missões perigosas como aquela. Nunca imaginara que seria de tamanha ajuda.

Um suspiro baixo.

Era a vez dela.


Ela tentava conter a risada do outro lado, abafada. Ricard suspira, incerto sobre perguntar o motivo. Por fim, acaba cedendo.

-O que foi Cléo?

-Nada, só que acabei de encontrar um cara com quem cruzei no trânsito e xinguei de filho da puta para baixo. – Ele parece chocado.

-Cléo! E onde isso?

-No saguão do hotel! Com sorte ele não fala a nossa língua e tudo bem.

-Eu espero que sim menina! Um dia sua impulsividade vai te derrubar legal! – e ri, totalmente descrente. Despreocupada, ela não parecia impressionada.

-Não vai não , não vai não. – responde, com a voz traquinas e infantil. Ele negaceia com a cabeça, apesar de conhecer a amiga, ainda inconformado. Depois da quebra, tenta voltar ao assunto, embora ainda não convencido da sanidade dela.

-E o aeroporto?

-Nós já fomos para o hotel, Aileen não parava de chorar, fora que Duo ligou. Não havia voos para agora, então ele só vem pela manhã. Parece que eu vim correndo até aqui por nada. É o que dá quando nos precipitamos. Estou em um hotel aqui do lado. E você?

Ela soava irritada e cansada. Ricard até podia imaginá-la com a mão na cintura, andando de um lado para o outro, hábito de quando estava inquieta. Suas mudanças no temperamento eram rápidas e abruptas.

-Estou chegando a sua casa. Vou deixar a Celine aqui, é melhor não?

-Sim, você tem razão. – E um suspiro alto – Ai, não devia ter trazido Aileen, ela não parou de chorar, até dormir, de tão exausta que estava! Duo cabeçudo! Em que ele achou que podia ajudar vindo correndo para cá? – E apesar do tom que usava, ele conseguia sentir a preocupação e tensão por detrás das palavras.

-Eu sinto muito.

-Você sente muito pelo que Rick? – E Cléo dá uma risadinha do outro lado, achando-o divertido.

-Sei lá, por não poder ajudar, fazer mais – Isso arranca um suspiro da ruiva, que parece inconformada.

-Você devia parar de se culpar e preocupar por coisas fora do seu alcance e que não tem nada a ver com você. Isso só vai te matar mais cedo, você sabe disso não? A culpa é toda do Duo. Não só se afobou todo, como me trouxe até aqui a toa, porque não tinham voos para esse horário. – É a vez dele soltar um risinho. Era estranho rirem naquela situação. A noite estava tão estranha, havia uma tensão permeando o ar. – E ela não fugiu até agora? A Celine é conhecida por isso.

-Não, ela está comigo. – Ricard exclamava, com o telefone preso entre a orelha e o ombro, enquanto destrancava a porta – A Lena pelo contrário, me deixou preocupado, não sei dela, ela passou no hospital, me deixou um pen drive e, deduzo, voltou para o hotel. Ela não está me atendendo.

-A mim também não! E essa menina, sumindo bem quando precisamos dela! – Cléo parecia exaltada do outro lado. – Tudo bem, cuidamos dela depois! Como ousa nos deixar preocupados? Acabamos com a raça dela! – Rick não consegue evitar a risada que escapa, do jeito espevitado da moça. Mas ela emenda e volta assuntos, rápida e fluída – E voltando a Cel... Como ela está? Ela ainda não falou nada?

-Ainda não – Responde baixo e relanceia a garota a seu lado, que mal parecia se mover, tentando não ocupar espaço, estática.

-Deve ser o choque, o estresse ou algo assim. Você realmente vai ficar com ela essa noite aí? Eu acho uma boa ideia.

-Vou sim, até já mandei uma mensagem para a Lena, embora ela não tenha visualizado. Será que eu devia tentar ligar de novo para ela?

-E você acha que que dessa vez ela vai atender? – Ferina. Irônica, depois mais calma – Talvez ela tenha ido dormir.

-Isso não é do feitio dela. Combinamos de nos encontrar no hospital. Será que não aconteceu alguma coisa? Ela nem passou no quarto.

-Acho que não. Talvez ela tenha chegado lá, dado uma olhadinha pela janela e decidido que não era uma boa interferir.

-Parece plausível – Suspira. – Bem, saberemos amanhã de qualquer forma. – Mais algumas trocas são feitas, antes de desligarem.

No final de tanta comunicação, trocas de telefonemas e desespero de lá para cá, só havia desencontro. Uma daquelas pequenas ironias da vida. No caminho para a escola, Cléo ligara para Duo, que, desesperado, decidira voltar para ajudar. No frenesi de buscá-lo no aeroporto, não fora ao hospital. Relena, que ainda permanecia determinada em seus planos originais, por outro lado, mesmo com todas as informações em mãos, também não aparecera.

Ele caminha tranquilo pela casa familiar e a moça o segue, como um espírito fantasmagórico. Ele pausa na cozinha e enche dois copos de água, entregando um a ela. Ao contrário do esperado, ela apenas encara o copo e sua translucidez, imóvel.

-Não vai beber?

Ela o encara, plácida e intensamente. Era como se o encarasse através de um vidro baço e tivesse dificuldades de enxergar o outro lado. Seu olhar estava distante e embaçado. Ele se pergunta, não pela primeira vez se seria efeito das drogas do hospital.

-Você devia… beber – tenta de novo e dessa vez, de forma estranha e pouco natural, ela sorve um débil gole e depois mais outro. Suspirando, incerto sobre o que fazer, ele coça a nuca – venha, você precisa descansar. – e segura seu pulso de forma delicada. No instante que sua pele toca a dela, ela se acende, como uma máquina sendo ligada e, com uma fúria provinda de origens desconhecidas, afasta sua mão com violência. Assim que o ato acaba, impressionado, Ricard esperava um olhar fulminante, mas esse não vem. No lugar dele, ela apenas volta a ficar imóvel, um autômato que largaram as cordas.

Seus instintos de preservação eram admiráveis, até em situações como essa.

Resignado, com um suspiro preso na garganta, um pouco incomodado, não só pelo cansaço, como pelo comportamento excessivamente rude de Celine, encaminha-se para a escada. E, como um filhote perdido, ela o segue, subindo um e outro degrau, pendendo para um e depois para o outro lado.

Ele para a porta do quarto de hóspedes e, sem trocarem palavras, ela entra. Ele permanece alguns segundos em análise, enquanto ela olhava em volta, parecendo incerta do que fazer a seguir. Parecia tão perdida.

-Precisa de ajuda? – oferece por fim, embora não esperasse uma resposta real. Tem mais do que o esperado, quando ela se vira e o encara, dando de ombros. Por algum motivo, aquilo o enerva. Ninguém deveria viver a vida como se nada fosse de fato importante.

Devia ser o cansaço.

-Se não precisa de mim, vou indo dormir também – Pontua simplesmente, querendo que aquela conversa acabasse logo, virando as costas e descendo as escadas. No término de alguns segundos, tem certeza de que ela ficaria no quarto. Por algum motivo, estava angustiado.

Em sua concepção de família, sempre tão amorosa e próxima, preocupada, parecia muito errado que o irmão de Celine não tivesse aparecido para visitá-la no hospital. Na verdade, que sequer tivesse dado notícias ou explicações. Cléo dissera que o deixara avisado, embora ele não soubesse como. O que acontecera com a moça não fora pouco. Ela estava em um estado extremamente frágil e precisava de apoio. Era exatamente agora o momento em que ela precisaria da única família que tinha.

Ninguém viera. Ele se ressentia, embora tentasse controlar-se, sabendo racionalmente não existir motivo para tanto. Assim como Cléo e provavelmente Relena, ele devia ter seus motivos. Só era difícil imaginá-los, fossem eles quais fossem.

Ele estala os lábios, incomodado. Sabia que julgava tudo com os olhos de sua própria experiência, mas não sabia fazer diferente. Para ele era difícil acreditar em alguém que se negava a ajudar, principalmente a ajudar uma pessoa que importasse tanto em sua vida.

A responsabilidade de ser a única pessoa presente com quem Celine pudesse contar não lhe escapava e ainda parecia um tanto o quanto estranha e irreal.

Queria tanto conseguir conversar com Relena. Se ela ao menos atendesse o celular. Suspira fundo e assopra a franja, massageando o pescoço. Talvez, o melhor agora realmente fosse ir dormir. Seus pensamentos definitivamente não estavam ajudando ou levando-o para canto algum.

Senta-se no sofá e retira os sapatos, ficando descalço e confortável. O chão era de madeira, mas na sala havia um carpete confortável e macio. Ele se joga no acolchoado e entra em suas redes sociais, procurando novidades e distrações.

Sua irmã, Galina, estava morando temporariamente na França, para cursos de seu interesse e aparecia, toda sorrisos ao lado de um rapaz bonito que conhecera por lá. Sua família inteira era de origem europeia, por isso, ao visualizar a irmã naquele cenário, de alguma forma, tudo parecia muito certo. O clima, as roupas, o charme dela. Isso o faz sorrir. Sempre haviam sido muito próximos.

Não que não fosse próximo de seu irmão mais velho, Toni, mas, de alguma forma, por ele ser o herdeiro do império construído por sua família, ele sempre parecia distante e ocupado. Hoje em dia se viam em raras ocasiões do ano. As especiais, aniversários de família, festas. Era triste, embora estivesse amortecido, acostumado com a situação.

Não se conseguia imaginar na situação do irmão. Era impossível contemplar a responsabilidade que lhe caía sobre os ombros, todo aquele peso parecia improvável, de tão densamente pesado.

Bem, ao menos agora sua cunhada Elene estava grávida, o que o animava um pouco. A última notícia que tinha tido é que seu sobrinho seria um menino. Ainda estavam discutindo os nomes.

E falando neles, algumas fotos de Elene em um almoço com amigas despontavam aqui e ali, com vários comentários de Galina embaixo. Isso o faz rir. Não tinha notado a tensão em seus ombros até então.

Não sabe dizer quanto tempo perde ou quantas mensagens manda para Relena. Ela devia estar dormindo. Troca algumas palavras com Galina pelo WhatsApp, se atualizando de sua vida e depois se levanta.

O silêncio incólume o cercava por todos os lados, imóvel e opressor. Se espreguiça, depois segue para a cozinha, disposto a beber alguma coisa antes de dormir. A geladeira nova não fazia barulho, o que era um pensamento estranho de se ter, pois não se lembrava da última geladeira em sua vida que o fizesse, mas tudo bem.

Pega o copo gelado em suas mãos, causando desconforto e bebe rapidamente, em goles grandes. Pensativo, encara a janela por alguns segundos. Um barulho vindo da entrada da cozinha chama sua atenção e ele se vira, apenas para encontrar Celine, parada, totalmente imóvel, a mirá-lo.

Ela parecia um espírito fantasmagórico, um elemento da casa, desbotada, podendo ser levada embora por qualquer batida do relógio, frágil, tremeluzindo com o vento.

Ele não se impressiona com sua presença. De certo modo, duvidava que ela fosse capaz de dormir, depois do que passara. A imobilidade contagiosa os alcança, com estalos.

Ficam parados, trocando olhares.

Os olhos dela pareciam duas chamas ofuscantes, duas gemas incrustadas em pedra, vorazes no rosto abatido, os cabelos levemente bagunçados. Ela vestia apenas uma camiseta larga.

-Não consigo dormir. – ele via a afirmação por trás daquelas palavras. Os pesadelos por trás de suas ações e seus olhos cansados. Ela se aproxima em passos rápidos e determinados, apenas sua respiração podendo ser ouvida.

Tira o copo de sua mão, depositando-o na bancada. Não poderia ter ficado mais surpreso, do que quando ela se inclina para cima e o puxa para baixo, beijando-o devagar. A surpresa é tanta que não assimila a informação por alguns segundos. Os olhos dele se arregala tempo que ela precisa para abraçar seu pescoço, com os pequenos dedos finos e frios.

-Por favor – Ela murmura – Me faça esquecer.

E quando ele olha em seus olhos vê apenas desespero, denso, profundo, agitado. No fundo cadavérico do que enxergava havia apenas desespero sem fim. E não apenas desespero puro e vazio, mas o tipo de desespero que leva as pessoas a loucura.

Ele engole em seco.

Era o trauma falando, ele sabia disso. Não podia fazer isso. Isso era errado.

-Celine, você não está bem – Murmura, colocando as mãos na cintura delgada, tentando afastá-la. Ela resiste e o encara com determinação. Os olhos eram implorativos e doía enfrentá-los em sua plena intensidade. Ela precisava de uma distração e isso gritava por todo o seu corpo, doía em sua aparência, sua presença tornando-se aguda e desconfortável.

-Eu sei o que estou fazendo, preciso pensar em outra coisa, senão acho que vou enlouquecer – Confessional, o surpreendendo. Aquilo era o máximo que ela se abrira. Ela volta a beijá-lo e dessa vez ele não a afasta, ao contrário a segurando com mais firmeza contra si. Era uma loucura e os estava consumindo.

Se beijam por longos minutos, permitindo conhecer-se. Ele ainda estava hesitante, mas ela sabia muito bem o que precisava e o guiava, sem medo, permitindo ser tocada e explorada. Se separam ofegantes e ela senta-se na bancada, quase levando ao chão o copo, despedaçando.

O tempo havia parado.

Dessa vez ele avança. Volta a beijá-la, com cuidado, acariciando sua nuca. Ela por sua vez o segurava com firmeza contra si, enlaçando-o pelas pernas. As mãos entravam por debaixo da blusa e exploravam o corpo firme e quente que encontravam por debaixo.

Ricard sabia muito onde ela queria chegar com aquilo.

Ele ofega baixinho, quando ela cola totalmente os corpos e se fricciona contra ele. Ainda em posição de liderança, conduz as mãos dele pelo seu corpo, depositando-as em lugares que ele não parecia seguro de ir sozinho.

-Celine… – Ele murmura baixinho, encostando as testas, abrindo os olhos cerrados – Você tem certeza? – Ela apenas acena, firme. – Então vamos lá para cima. Parece errado fazer isso aqui embaixo. – Ela não resiste ou é obstinada dessa vez, quando ele a conduz pela mão, exatamente para o quarto em que a deixara pela primeira vez, mas dessa vez, entrando junto com ela, fechando a porta.

Ficam parados frente a porta, se beijando por um tempo, os beijos se tornando progressivamente mais ousados, calorosos, conforme o momento de intimidade crescia.

As mãos dele agora subiam e desciam, fazendo o contorno de sua figura. Ela soltava suspiros, com dificuldades para respirar. Soltando risinhos e o deixando surpreendido, o puxa pela blusa, separando-os momentaneamente. Ela o puxava em direção da cama.

Antes de se deitar, puxa-o por cima de si e retira a blusa pela cabeça, jogando-a no chão. Ela só usava calcinhas. Ele mal tem tempo de relanceá-la, quando, afoita, é a vez dele e ela puxa a blusa masculina por cima de sua cabeça. Ele a ajuda, permissivo.

Aquilo era sobre ela, para ela. Temendo irritá-la, não volta a perguntar sobre a sensatez do que faziam, embora ainda não estivesse convencido da sanidade do ato.

Não que não se sentisse atraído por ela, pois, desde que a vira, algo em sua singularidade o atraíra. Depois, alguma coisa em sua franqueza o mantivera interessado. Certamente era dotada de uma aparência com certo hipnotismo. Os olhos densos, vítreos contrastando com o cabelo escuro, as muitas sardas, que agora via banharem todo o seu corpo, a pele clara. Mas a verdade é que jamais teria se imaginado em tal peculiar situação, e muito menos, atendê-la, segui-la conforme a corrente de fatos permitia.

Tudo saía de controle.

Entretendo-a, começa a depositar beijos pelo seu colo, se demorando no pescoço, logo atrás de sua orelha, em seu maxilar, quando a sente estremecer. Ela volta a suspirar e as mãos perdem a intensidade de aperto por milésimos. Ela se contorce embaixo de si. O ato era rápido, quase frenético, embora ele tentasse fazê-lo com o máximo de cuidado. Ela volta a se remexer.

Ele deveria saber melhor.

Não há cautela em meio a loucura.

-Eu não sou uma boneca, não vou quebrar – Ela reclama – se você me segurar com mais força. – Isso o faz sorrir e as mãos dele apertam com mais força seus quadris.

O ato era íntimo, embora não houvesse carinho, apenas calor, intensidade, uma explosão.

Os beijos molhados continuam a descer, pontuando áreas sensíveis do corpo. As mãos dele descem, se enroscando no elástico da última peça de roupa que ela usava, puxando-a devagar e delicadamente, enquanto continuava a beijar e brincar com seu baixo estômago. Ela chiava baixo. A mão direita escorrega pelas pernas dela, as abrindo devagar, agora que ela se encontrava nua. Ela agarra com mais força seus cabelos, enquanto os beijos continuavam descendo. A respiração dela trava e ela geme, secamente, prolongada, mexendo o corpo acalorado.


-Quando sairmos daqui – Ela ainda massageava os punhos recém libertos, atenta, seu corpo inteiro em alerta, cada um de seus sentidos totalmente aguçados – Vou precisar que você note o momento certo e me siga. Você consegue? Preciso de uma resposta honesta – E é ríspido, a voz inflexível.

-Sim – Respira fundo.

Ele, experiente, sabia que não podia deixar o silêncio recair. Precisava dela lúcida, com suas faculdades mentais plenas.

Depois de fazê-la rememorar seus números de registros sociais e vários números telefônicos, apela para a única outra forma possível de mantê-la atenta, o diálogo.

-O que você está fazendo aqui?

-Aqui? – Parece confusa – Não sei, vim visitar o Duo, não nos víamos desde o fim da facu–

-Não! Quero dizer, por que você me seguiu? – Ela engole em seco e aperta as pálpebras, de forma nervosa.

-Não sei, acho que foi instintivo – Havia sido uma decisão no mínimo questionável e, agora, presa dentro do carro, literalmente prensada contra o rapaz que mal conhecia, conseguia ver isso claramente, embora, no momento da ação, não tivesse visto o perigo.

Ele não sabia o que esperar da resposta e demora alguns segundos para se recuperar, voltar a seu jogo.

-Você conhece minha irmã? – Era um território estranho entre eles, visto a última conversa que haviam tido a respeito, mas era difícil trabalhar com um solo tão instável, com tão pouco conhecimento um do outro. Nunca antes houveram estranhos tão próximos.

-Sim. Da casa do Duo. Foi o Rick, meu amigo do hospital que a achou depois do acidente.

-O acidente? O que aconteceu exatamente? A Cléo estava tão agitada que não conseguiu me explicar nada.

-Você não sabe? – Ele negaceia com a cabeça. Ela suspira fundo, tentando conectar sentenças e fatos, tricotar os pensamentos em palavras. – Bem, a verdade é que eu também não sei muito bem o que aconteceu. Aparentemente teve algo a ver com o amigo com quem ela ia encontrar. Acho que ele foi morto.

-Charlie? - Ele parecia genuinamente surpreso.

-Isso, acho que era isso.

As palavras pesaram entre eles, como um manto embebido em água gelada.

Ele prova sentimentos amargos e confusos, predominando a culpa por não ter estado presente; engole em seco, não permitindo que ela visse sua vulnerabilidade. É inútil.

Embora já tivesse perdido muitas pessoas em sua vida, Heero sempre se impressionava com o novo vazio que nascia dentro de si, a cada novo deslize, a cada nova perda. Pouco a pouco, não haveria mais nada para se retirar.

-Sinto muito. – E ela tenta tocar seu braço.

-Não quero falar sobre isso – E a afasta, com um safanão. Ela prende o ar.

O clima entre eles fica ainda mais ressequido.

-São só vocês dois? Você e a sua irmã? – Ele não entende porque ela ainda tentava, porque continuava a ser gentil, sem perder a paciência consigo. Limpa a garganta.

-Sim. Antes também tinha minha mãe… Mas já faz um tempo, somos só nós dois. – As palavras saem travadas e não naturais de sua boca, como se ditas de mau grado. Era um esforço.

-Deve ser difícil. Na minha casa somos em quatro, meu pai, eu, minha mãe e meu irmão. – Ela parece que ia dizer algo mais, mas desiste, pensando melhor. – No que você trabalha?

Ele dá de ombros, sentindo-se desconfortável na volta pessoal que faziam, embora ainda se sentisse mal por rechaçá-la, depois de ela tentar ajudar a confortá-lo. De algum lugar da sua mente, fraco, vem a imagem dela parada, gritando para chamá-lo a razão, convencê-lo necessário.

A dor era muito recente. Era incrível o quanto conseguia carregar, sem que explodisse, sem que desmontasse. Há quanto tempo estava tão quebrado desse jeito?

-Eu me viro – É só o que se permite dizer. Ela assente.

-Eu costumava ser uma editora - Ela parecia perdida ao dizê-lo. Como se isso tivesse acontecido há muito tempo. – Heero – Seu nome parecia estar sendo provado por ela, rouco, levemente desgastado – Quantos anos você tem?

-Vinte e seis. – Se estranha a pergunta, não demonstra.

De alguma forma, parecia tão mais.

-Eu tenho vinte e cinco – Diz complementalmente. Nada é dito, mas era uma idade terrivelmente nova para morrerem e ambos pensavam nisso, em silêncio. – Hey, Heero… Você tem algum arrependimento?

Aquela pergunta encontra mais portas fechadas, mais respostas silenciosas. Ao contrário do esperado, minutos se esticaram, converteram-se em horas e a respiração de Relena fica pesada, a cabeça dela tombando para frente, no peito dele. Ele não se importa com o calor, na verdade o acolhia, mantendo-o lúcido.

A pergunta ainda rodava sua cabeça, como se subcutânea, fazendo parte de sua corrente sanguínea. Era uma daquelas perguntas que nunca colocara em palavras, mas sempre estiveram ali, tão perto de si, o rodeando o tempo todo, todo o tempo.

Respira fundo, afastando os pensamentos de si com um choque.

Não podia pensar nisso, não tinha tempo para isso.

Tenta se concentrar. Precisava visualizar todos os cenários possíveis em sua mente, se quisessem ter a mínima chance de escapar. Pegos totalmente de surpresa duvidava que houvesse alguma chance. Precisavam de um plano, mesmo que pequeno.

Em primeiro lugar, para onde estariam sendo levados?

Era impossível saber. Percorria mentalmente a lista de opções de para onde estariam sendo levados. A verdade é que poderia ser para qualquer lugar, qualquer beco desconhecido e silencioso. Ele sabia bem, havia lugares em que as pessoas simplesmente não se importavam com os gritos.

Ainda assim, se fosse ele, para um interrogatório, em um lugar pessoal, ele apostava na parte antiga da cidade, na parte onde antes havia fábricas e agora não havia nada além de sucata, viciados e prédios abandonados. Era uma possibilidade forte, conhecendo aquelas pessoas como conhecia e suas opções.

Era isso ou algum bairro de renda baixa, com algum prédio abandonado ou em construção. Eram as melhores opções, sabia disso. Menos policiamento e mais liberdade de ação.

Respira fundo, tentando acalmar sua mente.

O carro para e a moça acorda com a inércia súbita, os olhos arregalados, a respiração imediatamente curta. Ele faz um sinal de silêncio.

Heero ponderava rápido suas opções. Poderiam se fingir de presos e esperar a hora certa para fugirem, mas a verdade era: Quem disse que haveria hora certa? Aquela poderia ser sua única opção e ele certamente preferia contar com o elemento da surpresa.

Se estivessem em um descampado, estavam perdidos, não havia o que fazer. Mas, caso contrário, talvez, apenas talvez, havia uma possibilidade pequena de conseguirem sair dali com vida.

As vozes são o que é ouvido a seguir. Estavam abafadas pelo capô fechado do carro, mas podiam distinguir três delas, em um diálogo. Depois, um tilintar. Seriam as chaves?

Heero segura sua respiração e olha fixo para Relena, por apenas alguns segundos, fixamente. Ela o olhava de volta, absurdamente lívida, a espera de qualquer sinal. Suavam frio apesar do abafamento do local pequeno. Mal sentiam o formigamento dos membros.

Conseguem sentir em suas peles escorregadias quando a chave é colocada na abertura e girada para abrir o porta malas. Os corações batiam tão fortes, Heero tem a certeza, eram a única coisa ouvida. Então, em uma decisão rápida e limpa, ele chuta o metal para cima, atingindo o queixo do homem que o abria, pulando para fora, puxando Relena com toda a força que tinha. Ela estava tonta, mas estava em pé.

A luz do ambiente externo era baixa, então não os cegava, mas ela estava tão nervosa, que mal conseguia ver alguma coisa. A seu lado, Heero já socara o homem e o chutava no chão. Ele se contorcia, mas não fazia questão de levantar. O outro, mais atrás, acordado do estupor, agora avançava em direção a eles.

Relena grita, tampando os ouvidos e Heero o chuta, com tanta força que o homem tomba para trás. Os homens falavam alto e saíam do carro. O moreno a seu lado a agarra pela mão e a puxa para frente, começando uma corrida desenfreada. A cena não durara mais do que trinta segundos, mas parecera uma eternidade.

Os homens agora gritavam, mas ela não olha para trás para checar o que acontecia. A luz do farol do carro fazia uma trilha irregular no chão do cimento durante vários metros. A única iluminação além da lua. Estavam em uma cidade fantasma.

Relena ouve tiros e isso apenas a faz correr mais rápido.

Heero vira uma esquina e depois outra, pulando pequenos obstáculos pelo chão, lixo e pedaços de sucata e metal, que estavam por toda a parte, pela mata crescida e irregular entre os balcões.

Só conseguia ouvir suas respirações pesadas. Arquejavam, os sapatos raspando no cascalho téc-téc-tchéc-tchéc, o vento era gelado no rosto e parecia cortar as bochechas, secar os olhos. O cheiro no ar era de mofo e grama forte, terra.

Estavam em um canto esquecido do mundo e tudo parecia igual.

Metal e cimento, metal e cimento, cimento e metal.

Minutos se esticam, nada mais é ouvido. Passos, metal, vento e terra. Terra, vento, metal e passos.

Heero pula o que parecia ser uma lixeira e se volta, puxando-a sem cuidado por cima da mesma. Ela tem a certeza de rasgar um pedaço de seu vestido. Talvez tivesse sido o seu joelho, quem poderia saber?

O cheiro acre de metal vinha forte em seu nariz, agora que estavam em um lugar tão estreito, tão cercados por todos os lados por construções antigas. Ele para. Estavam em um beco.

Relena tenta se manter em pé, para isso apoiando as mãos sobre os joelhos, arfando, ofegando, engolindo o máximo que conseguia de ar. Mais um pouco e teria caído no chão. Tremia por inteiro, embora estivesse escondida do vento entre os prédios. Sente a mão ficar úmida e a olha, sem conseguir enxergar direito, observando a mão suja de sangue espesso.

Havia sido o joelho contra o metal.

Estupefata, permanece onde estava, observando a mão suja, as costas contra a parede, tentando respirar, recuperar o fôlego, as pernas bambas. Estava tão fora da sua realidade, que tem uma súbita vontade de chorar. O que estava fazendo ali? Por que ela? Por que agora?

-Hey, você está bem? – E então Heero a acorda de seu estado de choque, segurando seu rosto entre as mãos, olhando dentro de seus olhos, firme, intenso. Seus olhos continuavam muito azuis, mesmo em meio a escuridão em que se encontravam. Até a lua os abandonara, escondida atrás das nuvens, covarde como era. – Se machucou? – Ele vira seu rosto de um lado para o outro, inspecionando-a.

Ela morde o lábio inferior com força, contendo a vontade de chorar. Ela relanceia seu rosto muito rápido, antes de olhar sua mão e procurar a origem do ferimento.

-Pode ficar calma, estamos bem agora – A voz dele era completamente inflexionada, mas no momento isso era exatamente o que ela precisava, algo próximo a uma análise clínica, dizendo-a que ficaria bem, que estava segura.

Sem cerimônia, Heero arranca um pedaço da blusa dele, usando-a para limpar as mãos dela, dentro do possível, raspando fora o líquido pegajoso. Depois ele pressiona o tecido com força contra a perna dela, estabilizando-a no lugar, enquanto ela ainda tremia.

Como ele não parecia nem estar sem ar?

Ela se abraça e os tremores pioram, enquanto uma e outra lágrima começam a cair.

-Heero… – Chama baixinho – Eu não quero morrer... Eu não quero… – E não consegue dizer mais nada.

Ele não a olha, continuando o que fazia, pressionando com força a área, para que esta parasse de sangrar. Ele faz isso por alguns minutos, enquanto ela chorava, pesado. O calor da corrida começava a passar e o suor frio voltava. Ela conseguia enxergar sua respiração condensando no ar e começava a sentir frio, muito frio.

Imagina o estado de seu cabelo e maquiagem e sente vontade de rir ao lembrar-se o trabalho que tivera para escolher sua roupa naquela manhã. Isso parecia tão estranho agora, se posto em comparação com o que passava.

O rosto estava inteiro molhado àquela altura e ela passa as mãos, sentindo-as sujas, pelos cabelos, tentando colocá-los no lugar, sem saber o quanto isso ajudava ou piorava a situação. Puxa o ar pela boca e sente o gemido baixo que escapa por seus lábios secos.

É quando Heero finalmente parece satisfeito com o que fazia e se levanta. Estavam parados frente a frente. Ele a estuda novamente, com seus olhos gelados, que causam uma sensação estranha, a cada ponto que encostavam de sua pele.

Ela tampa a boca com a mão, contendo o som do choro, tornando-a uma lamúria baixa, quase inaudível. Heero suspira de forma cansada e passa a mão pelos cabelos, de forma irritada.

Ele então passa as mãos pelos braços dela, para cima e para baixo, aquecendo-a com o atrito. Ela engole sua imagem, focando-se total e absolutamente nele. Era tudo o que tinha, sua base para não desmoronar completamente. Abaixa o rosto, tentando chorar silenciosamente, mas ele apenas o levanta novamente, segurando seu queixo, obrigando-a a olhá-lo diretamente nos olhos.

Eram tão firmes, tão fortes. Pareciam tão inteiros, recompostos. Como ele era capaz?

-Fique calma, eles não sabem onde estamos ainda. Vamos ficar bem, respire fundo. – Ele falava isso com tanta certeza, naturalidade, que ela sente parte da tensão deixar seu corpo, em ondas. Ela então segura a camisa dele com força, sentindo seus dedos gelados como porcelana, se fechando em torno do tecido. O rosto dela tomba para frente, o torso inclina-se e ela volta a chorar, agarrada a ele. Ele segura seus braços e continua a aquecê-la. Os segundos formavam minutos, devagar.

-Nós precisamos fazer o máximo possível de silêncio, certo? Senão eles podem nos achar. – Avisa no ouvido dela, baixo e rouco. O aviso arrepia o corpo dela inteiro, fazendo-a agarrar-se ainda mais a ele. Ela acena com a cabeça, mas permanece calada.

Aquela seria uma longa, longa noite.


O quarto tinha apenas um abajur aceso, tendo uma meia luz amarela, deixando tudo com aparência mais cálida e calorosa.

-E agora, o que faremos? – Ricard respirava fundo, recuperando o fôlego, deitado de costas na cama.

Celine rouba um olhar de canto de olho, no mesmo estado dele, sentando-se na cama, inspirando. Ela remexe os lençóis com as mãos, parecendo incrivelmente mais lúcida, o rosto levemente corado.

-Não sei. – E mexe nos cabelos, fechando os olhos – Mas obrigada por isso. – Não confessa, mas o agradecimento o surpreende.

-A gente poderia conversar sobre a situação, o que acha? – Oferece, inocente. Ela lhe lança um olhar enigmático, olhando-o de cima a baixo, antes de dignar-se a responder.

-Não – A negativa o deixa genuinamente intrigado, seguindo para um inconformismo rápido.

-Como assim não? Você me usa para te fazer se sentir melhor e é só isso? Não vai nem ao menos tentar aliviar o que se passa aí? – E indica a cabeça dela. Ela enruga o rosto, entortando de leve o nariz e as sardas nele.

-Não confio em você. E além do mais, você já aliviou.

Ele processa a informação. Mal.

-Como não? O que eu preciso fazer para me provar para você? – Não falava de um jeito irritado, estava mais para cansado. Ela dá de ombros e respira fundo. Ele tenta se acalmar, inutilmente, inconformado. Era muito cedo para uma discussão como aquela. – Estou preocupado, me importo com você – Diz simplesmente.

-Você nem me conhece! – Ela eclode, de forma veemente, furiosa. Ele fecha os olhos e os aperta.

-Não quer dizer que não posso me importar de verdade. Porque me importo. – Cede, de maneira cansada. Só podia mostrar-se e esperar que ela, aos poucos, fosse cedendo também.

Segundos alongam-se entre eles, mudando a posição das sombras.

-Eu não gosto de pessoas – Diz de repente, como se mudasse de assunto. Ele volta a prestar atenção, confuso, abrindo os olhos, encarando-a de forma estranha. Ela parecia tentar formular uma sentença a mais, em vão.

-Mais por que? – Ele a incentiva, genuinamente interessado em onde iriam chegar com aquela conversa. Ela apruma-se, endireitando as costas.

-Porque… – Pausa significativa – Durante toda a minha vida, é isso que as pessoas fazem. Quando fica difícil elas dão no pé. Elas mudam de ideia, elas desistem… Depois de um tempo, tudo o que sobra de todas aquelas certezas são as suas memórias… E depois de mais um tempo, até as memórias que antes pareciam tão certas e reais, se tornam mais algo como um sonho, um delírio. Odeio essa sensação.

Ele fica totalmente parado, não ousando respirar.

Teria sido aquilo uma explicação? O mais próximo que chegaria a um pedido de desculpas?

-Mas você deve saber, digo, nem todas as pessoas são iguais. – Ela o olha de forma desconfiada, arqueando uma sobrancelha.

-Não.

O ar trava em sua caixa torácica de tão bonita que ela se encontrava naquele momento, como uma estátua perfeita, esculpida, imóvel.

-Não? E seu irmão? – Diz, baixinho, baixando os olhos. Ouve o ar travar na garganta dela. Ele podia sentir como a ausência dele havia sido sentida no hospital, mas ela não diz nada. O silêncio, muitas vezes é mais valioso do que qualquer palavra. – Eu sei que às vezes pode ser difícil, mas temos de deixar as pessoas entrarem na nossa vida, senão, o que temos no final? Sozinhos, sem ajuda… – E ele levanta o rosto. Ela não o encarava de volta, ao contrário, agarrava o lençol contra o corpo, com força. – É difícil para a gente, com as nossas experiências, mudar, eu sei. Afinal, antes o demônio que você conhece não?

Ao dizer essa frase, ela vira o rosto para ele e ele lhe lança um de seus mais irresistivelmente sorrisos inocentes, revelando a covinha na lateral de seu rosto. Isso faz um sorriso escapar dos lábios dela, discreto.


O silêncio já se prolongava por grande parte das horas que passavam ali, imóveis, esperando a vida acontecer, temendo até o mover das sombras a seu redor.

Relena ainda se abraçava, agora sentada no chão de terra, tentando inutilmente se aquecer, soprando nas mãos, em forma de concha. Heero, ao contrário, estava em pé, perto da entrada do beco, atrás da alta caçamba que haviam pulado e espiava o outro lado, tal qual um soldado em uma guerra.

Aquilo se prolonga, até Relena achar que iria endoidar, precisando quebrar aquele silêncio.

-Até quando precisamos ficar aqui? – Massageia com mais força os braços, sentindo as pernas geladas.

-Só até termos certeza de que é seguro. – Ela suspira.

-Está frio – Murmura – Não podemos ao menos entrar em uma fábrica? – Ele não se dignou a responder e ela respira fundo, desistindo desse diálogo. Ele não oferecera a blusa e ela não a pedira.

-Você acha que eles estão bem? Celine e os outros? Quanto tempo você acha, até eles nos procurarem?

-Não sei. Nunca me procuraram antes – A informação é algo cortante em seu coração e a faz ter vontade de chorar novamente. Em que tipo de realidade ele vivia? O nariz dela estava tão gelado, que começava a não senti-lo. Tremera tanto, que agora não mais sentia frio. Começava a ficar dormente.

-Eles vão nos procurar – Diz, a voz fraca, mais um desejo do que uma afirmação. Afinal, não podiam simplesmente aceitar o sumiço dela, podiam? Nunca o tinha feito antes.

Ele a encara, um olhar sibilino. Permanece vários minutos nessa posição. Era inquietante ser vítima de seu fito. Remexe-se. Não notara que o que havia dito poderia comovê-la. Era apenas uma informação banal.

-Não gosto de pena. – Ela funga. Ele descruza os braços e se aproxima, sentando-se em frente a ela. Ela se encolhe um pouco mais, as pernas encostadas ao torso. Nunca antes se arrependera tanto de não ter escolhido usar uma calça.

Ele a observava, em silêncio. Era estranho seu costume. Como um animal se preparando para dar um bote, observando sua presa sempre, sem desviar o olhar, atencioso, cheio de perigo.

-Você não me respondeu antes. Sobre seus arrependimentos.

-É difícil tê-los quando a gente não tem oportunidade. – Se esquiva novamente. Ela emburra, mas não diz nada.

-Eu tenho. – Nessa hora, ouvem um som de lata, alto, ecoando por todos os lados. Se calam em absoluto, ficando subitamente imóveis, como estátuas. A adrenalina volta a bombear nas veias, cada vez mais alto, como ondas elétricas. Os olhos de Relena se arregalam.

Heero se levanta rapidamente, em silêncio, voltando para a entrada do beco, como um gato, que se mexe imperceptivelmente, perigoso. A respiração de Relena estava curta e rápida, embora ela tentasse esconder, acalmar-se.

No estado que se encontrava, não sabia se conseguiria correr. O ar que respirava pela boca era tão frígido, que doía contra a garganta, como algo cortante. Heero sinaliza silêncio com o dedo indicador contra os lábios. Ela confirma o entendimento, colocando-se em pé, devagar, se aproximando.

Para atrás de Heero, temendo se mover, se espantando ao sentir o calor do corpo dele contra o seu. Estivera com tanto frio, que esquecera a sensação do calor. Inconscientemente encosta-se mais a ele, sentindo o contraste de temperaturas, como um cubo que era posto na lareira. Como ele conseguira manter tão bem o calor de seu corpo?

Vários minutos se passam antes de ouvirem algo mais. Vozes que se aproximavam.

-Você tem certeza que eles foram por aqui? – E chutam um homem mal vestido, que usava uma touquinha e se agarrava a um cobertor. A garganta de Relena trava ao ver o morador de rua. Ele usava luvas e parecia tentar se manter aquecido, enquanto balbuciava. Não era possível entendê-lo, pois ele falava baixo demais e a distância entre eles era razoável. Sem saber o que fazia, segura o braço de Heero com força, procurando estabilidade. Ele a espia pelo canto dos olhos, mas nada diz. Era impressionantemente bom em se manter imóvel.

Eles trocam mais alguma palavra e chutam o homem mais uma vez, que tropeça, chocando-se contra o chão. Relena tampa a boca, para conter um lamurio. Heero lança um olhar de aviso e continua a observar, enquanto a mão dela se fechava com mais força em seu braço.

-Eu não estou vendo ninguém aqui! – De repente um deles grita, fazendo o homem encolher-se no chão, abraçando a si mesmo. – Onde ele estão? – E levanta a arma, apontando-a para o senhor, que começa a chorar.

-Eles vieram para cá, eu vi, eles vieram para cá! – Ele começa a gritar, enquanto chorava – Eles vieram para cá! – Relena só ouve um chiado baixo, com um xingamento vir de Heero, antes que ele a puxasse contra si, escondendo o rosto dela em seu peito, sem que ela entendesse o que acontecia. Mais gritos, Heero a aperta com força e então a explosão, que corta o silêncio. O homem atirara.

Ela grita, mas o som sai abafado contra a blusa e o peito de Heero. Tremia tanto que não estaria de pé, se não fosse a força do rapaz, que a mantinha em pé. Chorava em silêncio, enquanto tentava respirar.

-Shh – Ele murmura em seu ouvido e ela para, travando no lugar, tentando fazer silêncio. Não queria morrer, não podia morrer, não agora, não assim, podia? Enterra com mais força o rosto contra o peito do desconhecido e segura sua blusa com todas as forças, agarrando-se a sua sanidade, a todas as suas forças. Iria aguentar. Sente a mão de Heero subir e descer por suas costas, em uma carícia leve, servindo para acalmá-la. Se pergunta se o ato era consciente ou apenas algo automático.

Tudo acontecia tão rápido. Não tivera tempo para processar os fatos.

-Não podemos deixar eles fugirem assim. – E o cara cospe no homem que agora era um amontoado de tecido no chão, juntando-se a sucata e ao cemitério de esquecimento. – Acabariam com a gente.

-Calma, eles devem estar em algum lugar por aqui – O homem ao lado daquele parecia mais conformado, até calmo, dando de ombros. – Vamos continuar procurando. Esse lugar é enorme, mas eles não podem ter ido longe a pé.

-Você ligou para os outros? – Ela não ouve ou vê o desenrolar da conversa, mas assume uma resposta positiva, pelo modo como o peito de Heero trava, por debaixo de seu corpo. Podia sentir a tensão no corpo dele e isso a deixa mais ansiosa do que qualquer outra coisa. Era uma resposta animal e em série.

As vozes começam a ficar mais baixas, indistintas, até sumirem na noite. Heero a solta e ela dá um passo para trás, percebendo tarde demais o quanto equilíbrio lhe faltava. Tomba para trás sem dó. Ele a pega antes que encontrasse o chão, pelo braço, puxando-a de volta, segurando-a pela cintura, com firmeza. Sentia-se inteira mole, como uma boneca de trapos.

O olha, os olhos desalentados.

-Hora de encontrarmos alguma das fábricas – Ele sussurra e ela apenas assente.


A busca fora longe de árdua, fábricas e galpões abandonados sendo o prato principal a se escolher. Podia se escolher o modelo e especificar antigas produções. Havia para todos os gostos. Tudo o que a loira queria era poder ir embora para casa. Heero a conduziu pela mão pelo que pareceram horas, por labirintos e mais labirintos de prédios, que giravam, altos e inflexíveis.

Ela olhava para cima, vendo apenas formatos quadrados contra o céu negro. A nesga que via através deles era calada, absolutamente absorta em si mesmo. Não havia estrelas, não havia lua. Só havia escuridão e o vento.

Ela estremece.

Por fim, o rapaz entrara em um prédio pela janela quebrada, ajudando-a a fazer o mesmo em seguida. O interior parecia ainda mais gelado do que o lado de fora e definitivamente mais sinistro. As semi formas na escuridão estalavam com o encolher da temperatura.

Ele tira o agasalho, colocando-o sobre os ombros dela. Se admira e o encara, embora ele apenas olhasse em volta. Talvez ele não estivesse acostumado a ser gentil?

-Obrigada – Murmura, notando o quão seca estava sua garganta, o quão fraca e arranhada estava sua voz. Não se lembrava da última vez que soara tão patética a seus próprios ouvidos. Ele não faz menção de qualquer tipo de resposta, apenas pega novamente seus finos dedos gelados e a conduz pela sujeira e abandono do prédio adentro.

Ali podia sentir ainda mais forte o cheiro do mofo, ouvir uma goteira ao longe, pingando, pingando, ping-g-g-g-gando. Um som alto de lata, metal que voava, ecoando por todas as paredes, o prédio inteiro. Ambos congelam no lugar.

-D-desculpe – Murmura, débil. Um gato geme ao longe e voltam a andar. Seus olhos já estavam acostumados a escuridão e não mais reclamavam a existência de luz.

Entram em uma sala vazia, com bancadas sujas, as janelas tinham tapumes pretos e o chão era um misto negro indecifrável. Relena ouve um suspiro alto.

-Podemos muito bem nos fazer confortáveis – Falava de forma cansada, embora, sempre, por algum motivo, muito pouco sentimento parecesse vazar por suas palavras – Essa será uma longa noite.

Relena concorda e, sem cerimônia encontra um lugar para se sentar, que lhe parecera menos tocado pela imundície do tempo. Algum tempo se passa, até que ela notasse ele ainda parado junto a entrada.

-Não vai se sentar? – Pergunta, sonolenta. O cansaço e a escuridão começavam a alcançá-la, vindo por todos os lados, tomando devagarzinho, embalando-a pelos eventos do dia. Ele a encara durante um longo tempo, com seu olhar vítreo e fixo, antes de finalmente ceder e juntar-se a ela, sentando-se a seu lado. Ela sorri fraquinho com a vitória e, antes que percebesse, havia adormecido.

Escorregava.

Acorda no que parece serem segundos depois, com Heero cobrindo sua boca, enquanto ela se agitava desordenadamente. Os olhos dela se arregalam e nota a respiração irregular que escapava de sua boca. Se acalma, colocando as mãos sobre as dele, mostrando que estava recuperada.

-Você começou a gritar – Ele explicou, tirando as mãos do rosto dela, embora não houvesse desculpas em suas palavras.

O coração dela ainda batia forte e ela tentava recuperar o ar.

-Eu sonhei com o mendigo – Diz simplesmente, se encolhendo. Não esperava sonhar com ele. Não esperara sonhar com nada. Era difícil, não havia escapismo. Coça o nariz e tenta evitar fungar. A companhia de Heero não era exatamente reconfortante. – Você sabe, eu estava falando antes – E limpa a garganta, sentindo-a seca. Simplesmente não aguentava mais todo aquele sufoco, todo aquele silêncio. – Sobre não querer morrer.

-Não vamos morrer.

-Não, não! Não é sobre isso. – E ela suspira, estalando os lábios e tirando a franja do rosto, tentando reconciliar as palavras. – Heero… Você já-han-matou alguém?

A pergunta saiu estranha e tropeçada. Ela não esperava resposta, não de verdade ao menos. Volta a assoprar as mãos para tentar aquecê-las. O quarto tinha um suspeito cheiro acre, como se algo apodrecesse nas imediações. Relena tinha dificuldades em se manter acordada. Estava sem forças depois de tantas descargas de adrenalina e nada como combustível de seu corpo.

-Já – O som corta o ar, estalando o silêncio, sobressaltando-a. Já havia se esquecido de que fizera uma pergunta.

-Mais de uma vez?

-Sim.

-Entendo. – E volta a remexer as mãos, respirando fundo. De uma forma estranha, sentia que precisava reconfortá-lo pelo fato, recompensá-lo por sua resposta honesta. Não é exatamente como se tivesse muito a perder – Eu tinha um amigo na faculdade… O nome dele era Kaidan, mas a gente chamava ele de Kai. Ele odiava, achava muito oriental – Solta uma risada seca. Ele prestava atenção, atento, tentando relacionar os assuntos – Não sei como, começamos a chamá-lo de Kim... – Em algum lugar, a goteira continuava cantando, ping-ping-ping-ping, insistente. Ele ponderou se a história terminara, mas a voz dela vem novamente, rompendo as teias do silêncio – Acho que ele gostava de mim, quer dizer, realmente gostava de mim – A voz dela embargava. – Eu sei disso. Ele– – Para de falar, antes de retornar, controlada, segurando o choro – A gente nunca levou ele a sério. Ele era brincalhão, assim como o Duo, sabe? – Ela ri novamente e a essa altura, seus olhos já estavam úmidos, algumas lágrimas escorrendo aqui e ali – Ele tinha depressão, mas a gente nunca notou. Ele namorou uma das nossas amigas por um tempo, mas ele continuava vindo e se declarando para mim. Ele dizia que eu era gentil, que eu era a única pessoa com quem ele conseguia conversar de verdade, que realmente o ouvia.

Ela pausa, puxando ar com todas as forças, pela boca, como se recolhesse os vários pedaços de si mesma, que se espalhavam pelo chão, por todo o redor.

-A gente estava em período de provas, eu acho. Ele veio falar comigo, parecia realmente preocupado e abatido. Eu não lembro porquê eu não pude conversar, só lembro que eu o dispensei de uma forma qualquer. Ele insistiu e eu o rechacei. Ele sorriu e disse que estava tudo bem, que ele entendia. Depois de dias sem vê-lo, Ricard foi checar no quarto do dormitório. Ele já estava lá há três dias, sem que ninguém tivesse notado ou sentido sua falta, não de verdade. Eu nunca soube o que ele queria me dizer – A essa altura ela chorava tanto, que era difícil compreendê-la.

-E esse é meu arrependimento. Porque não importa o que as pessoas falem, eu sei, lá no fundo que eu tive uma parcela de culpa na morte dele – Ela se abraça, apoiando o rosto nos braços cruzados, que abraçavam as pernas, próximas ao corpo – E pode ser egoísta, mas eu não quero ser essa pessoa, eu não quero que só se notem que eu fui embora depois de três dias, eu não quero, eu não quero.

Ele se abaixa em frente a ela e, quando ela o olha, havia algo esquisito em seu olhar, uma ligação sem palavras, como se ele a enxergasse pela primeira vez. Era um olhar que transbordava sentimentos conflitantes. Heero não se move e permanece calado. Ela estava hipnotizada.

-Obrigada, obrigada por estar aqui e me ouvir. – De algum modo, não estar sozinha era o que mais lhe importava naquele momento e, ter alguém com quem compartilhar tudo aquilo sempre fora tudo o que mais precisara. Sente seu corpo aquecer um pouco, como em segurança.

-Relena… – O nome escapa estranho de sua boca. A voz dele era tão delicada, como se, quando a tocasse, a qualquer minuto ela fosse desaparecer, virar poeira no vento. Ele acaricia seu joelho e levanta a mão até seu ombro, o que chama sua atenção – Eu– – A voz dele trava por alguns instantes, como se o que ele estivesse prestes a dizer fosse muito difícil – A Celine e eu– – Um som alto e estridente ecoa pelas paredes, como um rangido de metal esganiçado, um arranhão.

Ambos se sobressaltam, estando em pé em uma questão de segundos. E então, horrivelmente, um cachorro late, alto, forte e o sangue gela nas veias.

Em menos de um minuto, Heero já a guiava novamente pelo labirinto da construção. Relena sentia a cabeça zunir e o ar faltar no pulmão, ouvindo sua respiração forte, nos ouvidos. Aperta com mais força a mão que segurava.

-Heero – O murmúrio é tão baixo, que ela tem certeza, ele não a ouvira. E então ele para e os joelhos dela fraquejam. Ele a segura novamente, antes que caísse, apoiando-a contra parede – Eu não consigo mais – E arqueja – Não consigo mais correr, não consigo! – Faz uma careta, tentando sustentar as pernas. O pânico banhava seu corpo, imobilizando-a no lugar, o cansaço agora totalmente esquecido.

Ele a olha com atenção e depois pragueja.

-Relena, agora não é a hora, você vai conseguir – E então ele segura seu rosto entre as mãos, focando no rosto dela – Você consegue, foco! – Era uma ordem, como um general a um soldado. Ela engoliu em seco, acenando.

-C-c-como vamos sair? – Tentava se manter sã, agarrando-se a detalhes, respirando fundo uma e outra vez. Atrás de si, as vozes e latidos aumentavam. Haviam trazido um cão farejador.

Heero pensa sobre isso por um instante, depois de assessorar Relena de cima a baixo. Ela não conseguiria ir muito longe no estado que se encontrava, ele precisava sair dali e estar em um lugar seguro, o mais rápido possível.

Torcendo para que seu conhecimento do lugar estivesse correto, se apressa, tomando um corredor lateral, levando a menina, as mãos delas geladas junto a si, o mais rápido possível. Daria a volta pelo perímetro, na esperança de ganhar algum tempo e não encontrá-los no caminho. Sairia pelo lugar mais óbvio possível, a entrada. Só esperava que seu plano arriscado desse certo. Não estava em posição de correr riscos.

Apressa o passo em uma progressão. Estavam correndo antes mesmo que percebessem, embora um som abafado sempre fosse ouvido atrás deles. Seus perseguidores pareciam tão determinados quanto eles estavam em escapar.

Finalmente Heero chega a escada principal e voa por ela, não mais se preocupando com o barulho que faziam, as respirações altas, enquanto Relena seguia aos tropeços, em seu calcanhar. A porta estava aberta e Heero corre em sua direção, até notar uma sombra, diretamente a sua lateral esquerda. Ele tenta desviar, para voltar pelo caminho que viera, mas a moça esbarra atrás de si, quase derrubando-o na parada brusca.

Arfavam por ar, bruscos.

-Heero… O qu-? – Não conseguia ver através de seu corpo, de seu ombro, mas não consegue terminar, pois Heero voa de seu lugar, aparentemente sem nenhum motivo. Ela grita alto, pelo susto e os passos atrás de si aceleram, parecendo correr, os latidos ficando mais alto, ecoando pelos corredores. Heero estava no chão e se contorcia em uma briga, tentando ganhar solo, um homem que ela nunca vira tentando acertá-lo.

-Relena! – Ele ainda consegue gritar, antes de se desviar de um soco, que roubaria todo o seu ar. Ela entende sem precisar de palavras e se vira, pronta para correr. Os homens já estavam no topo da escada, soltando a coleira do cachorro, que avançava sobre ela. Ela tenta alcançar a porta, mas, naquele momento, ela sabia, suas esperanças voavam pela janela.

Haviam sido pegos.


-O que você prefere comer? – A madrugada ia alta, enquanto Ricard e Celine estavam na cozinha. Ela apoiada no balcão, ainda vestida só com uma blusa larga e calcinhas e ele de calças, caçando a geladeira e armários, energético. Os olhos dela o seguiam, lânguidos. Ricard certamente era uma visão para se admirar.

-Não sei, não há mais pizzarias abertas a essa hora, não?

-Podemos procurar, mas eu duvido um pouco – Isso faz a menina suspirar e torcer o nariz, daquela forma que ele vinha a conhecer como sua expressão de desagrado. O nariz ficava bonito, marcando as sardas que se espalhavam pela pele delicada.

-Pode ser um sanduíche então – E dá de ombros. De alguma forma, aquele parecia ser um gesto excessivamente comum na figura dela, ele decidia. Como se tudo acabasse em um dar de ombros.

Ele abre a geladeira e separa os ingredientes na bancada. Ela se ajeita, o rosto apoiado na mão fechada, atenta ao que ele fazia. Ele perguntava as coisas com o olhar e ela respondia com um aceno positivo ou negativo de cabeça, em um ritmo sincronizado e funcional.

Ele entrega a comida e se senta para comer, ela fazendo o mesmo.

-Você não está nem um pouco cansada?

-Acho que não conseguiria dormir, mesmo se estivesse. – Ele acena, compreensivo.

-Eu sei que não quer falar sobre o assunto, não quer… Sei lá… Me falar um pouco sobre ele? Sobre o Charlie, quero dizer, era esse o nome dele, não? – Ela se cala, encarando-o com intensidade, fria. O olhar era pesado e ela o analisava, crítica. Empina um pouco o queixo, prestando atenção fixa.

-Por que você se importa? – a voz era inflexiva. Era incrível a semelhança entre irmãos. Ainda assim, havia algo de oculto em Celine, uma insegurança sempre presente.

-Não é o mais importante saber que me importo, do que os motivos?

-Não. – E cruza os braços. Ele solta o ar, irritado, passando as mãos pelo cabelo, achando-a intratável. Ele estava cansado. Ela então estala o maxilar, voltando a apoiar o cotovelo sobre a bancada. – Não consigo me abrir facilmente – Diz, com um suspiro.

Isso volta a trazer sua atenção para ela e ele abre os olhos, encarando-a, com esperanças renovadas. Era preciso tão pouco para que Rick tivesse esperanças.

-Eu consegui perceber. – E ele sorri, balançando a cabeça – Não quero saber nada demais, apenas como ele era, o que vocês faziam juntos, esse tipo de coisa. – Ela franze as sobrancelhas e depois o nariz, enrugando a face inteira, obrigando-o a segurar o riso. Era incrível a capacidade de expressões faciais de desgosto de Celine.

-Tudo bem – Cede, suspirando – Éramos irmãos. Quero dizer, como irmãos. Heero cuidou de mim desde que eu era muito pequena, não podia estar sempre lá por mim, o tempo inteiro. E era nesses momentos em que existia o Charlie. – E ela sorri – Ele me deu o meu primeiro copo de cerveja e também o meu primeiro baseado – É obrigada a rir, diante da cara de horror de Rick – Ele era uma pessoa maravilhosa. Quando eu era menor, me ajudava na lição de casa, enquanto ele e Heero estavam encrencados em alguma coisa. Ele já fez muitas das minhas lições de álgebra – O risinho morre de seus lábios, quando os mesmos começam a tremer. – Ele me buscava na escola e tomava conta, para que eu ficasse longe da mamãe, muito embora o Heero nunca tenha pedido nada disso – As palavras vão ficando mais baixas e tem de esconder o rosto nas mãos, embora seus ombros começassem a tremer – Ele nunca se deu ao valor, ele nunca viu o quão maravilhoso ele era, o quão mais ele podia ser – Essas não passavam de sussurros, que morrem, enquanto ela se encolhia. Era difícil manter-se unida, quando todas as suas partes queriam estilhaçar-se.

Dessa vez, ela não empurra Ricard, quando ele a abraça, puxando-a contra si, oferecendo calor e abrigo, força, um lugar seguro, um contato firme onde pudesse desmoronar.


-Até íamos pegar leve com vocês antes, mas agora vocês nos irritaram! Estávamos girando há horas atrás de vocês! – O homem chuta as costas de Heero, fazendo-o tombar sobre os joelhos, para frente, sem forças.

Os levavam para um depósito aleatório, as mãos algemadas atrás das costas. E, embora os tivessem apalpado por cima, não haviam procurado nos bolsos, o que trazia o mínimo de conforto aos arrastados. Havia mais deles também. Três na frente de Heero e dois atrás de Relena, deixando-os isolados no meio.

Relena nunca antes sentira tanto medo. Ela tropeça e esbarra em Heero, apoiando-se em suas costas para se endireitar. Desejava poder permanecer ali para sempre. Logo a puxam pelo braço, ajeitando-a em pé. Ela geme baixinho, quando a apertam em demasia. Isso faz o homem rir baixo, como um rosnado.

O sangue batia tão alto em seus ouvidos, que só ouvia a si mesma, sua própria respiração. Sentia o cheiro do medo em sua pele, as mãos estavam geladas e todo o suor em seu corpo era frio. Estava tremendo, embora estivesse amortecida.

Não queria morrer. Não queria morrer, de todas as coisas, não queria morrer.

Eles entram no galpão e amarram Heero em uma cadeira, cuidadosamente, os pés e mãos, com uma corda firme, embora Relena permanecesse solta, sendo segurada por um dos rapazes.

Um dos rapazes ri, enquanto testava as amarras.

-Está bem preso – Afirma, sorrindo para o outro. Três dos rapazes se afastam, indo para o lado de fora, ela podendo ver um cigarro ser aceso, fazendo mais fumaça que o normal no tempo gelado, enquanto a porta era fechada.

O rangido da porta rasgava o silêncio, como uma rocha em meio as ondas.

-Prestem atenção agora, pois só irei explicar uma vez – Isso os faz alertas e o rosto de Heero o encarava com atenção, os cabelos bagunçados caindo sobre o rosto selvagem. O rapaz restante se afasta, contentando-se de observar de longe. – É assim que vai funcionar. Se vocês querem ser difíceis, quero dizer. A cada pergunta que você se negar responder, quem vai apanhar será ela, que tal? – E o homem sorri, mostrando dentes brancos, olhos distantes da ação presente.

-Não! – Heero ruge, a franja cobrindo olhos de pantera. Ele inclina-se para frente com tudo, forçando as cordas ao máximo, fazendo os homens soltarem risadinhas. É quando acertam o primeiro tapa. Relena não geme, não solta ao menos um som, enquanto vai ao chão, tombando como um balão sem hélio.

Os dentes do rapaz rangem ainda mais, os olhos aflitos seguindo a ação.

-Não! – Ele ruge de novo, enquanto o homem a punha de pé, puxando-a pelos cabelos. Os olhos dela estavam distantes. Heero era uma besta enjaulada, forçando as amarras o quanto podia, tentando se soltar.

-Onde está o pendrive? – O homem é claro e o encara com firmeza dessa vez. Muitos pensamentos passavam pela cabeça de Heero. Ele tinha duas opções. Sabia o fim que uma delas levava. Aqueles homens não teriam escrúpulos ou limites para obterem o que queriam. Sua outra opção era render-se, o que poria a si e Celine em perigo. Muito embora, verdade fosse dita…

A imagem de Celine no hospital roda em sua cabeça.

O que estava pensando? Nunca fora capaz de protegê-la. Ela não precisava dele. A imagem gira e gira. Nunca, ninguém precisara. Ele sempre era o culpado por colocá-la em perigo. Era sua a culpa de ela precisar se defender. Era sua a culpa de ela se considerar um monstro.

Olhando para Heero ele negaceia com a cabeça.

-Resposta errada meu amigo – O homem puxa um canivete do bolso, com uma expressão de custo, como se fosse difícil castigar uma criança pequena, depois de uma travessura. Heero respira fundo e deixa a cabeça afundar.

-Eu vou te mostrar – A voz de Heero nunca era nada além de clara. O rapaz para e o observa bem. O rosto do moreno volta a levantar e eles trocam olhares. O de Heero era firme, absolutamente inflexível, ilegível. Havia resolução. Relena vira para observá-lo, franzindo o cenho, começando a chorar.

Ambos parecem tão incrédulos, que demoram vários segundos para reagir.

-Eu o larguei pouco antes de vocês me pegarem, em um ponto da rua. Posso mostrar a vocês – A voz continha tanta certeza, que eles não hesitam. Relena faz um não quase imperceptível com o rosto. Ela só sabe que ele a vira, pois as sobrancelhas dele franzem de leve. A única dica, antes de voltarem ao normal. Ela morde o lábio com força.

-Segure a moça aqui! – E indica Relena. O outro rapaz, de aparência mais jovem e em forma, que usava uma toca e luvas pretas, sem dedos, se aproxima, tomando as rédeas da loira, enquanto o mais velho, que parecia estar no comando, parte para o lado de Heero – E não ouse tentar nenhuma gracinha hein? Senão quem sofre é a moça – E ele solta as pernas do moreno, enquanto o rapaz que a continha puxa a arma que estava em sua cintura, apontando-a para Heero.

Ele então prossegue a afrouxar as amarras nas mãos.

Três sons.

Um surdo.

Dois tiros.

Disparos.

Heero puxa o homem e o usa de escudo, empurrando-o com tudo para cima, com o joelho, desequilibrando-o. Dois disparos seguidos da arma. O menino que segurava Relena se assustara, acertando um na barriga do homem que caíra, outro passando de raspão ao lado de Heero. Ele se levanta em um pulo e em menos de dez segundos, o homem estava no chão. Heero acerta um chute em seu rosto.

Gritos são ouvidos do lado de fora. Heero pega a arma do homem, mas Relena era mais rápida, alcançando algo em seu bolso. Ele a puxa para longe. Toda a ação durando vinte segundos.

Os homens entravam e gritavam, checando os caídos, estando em seu encalço em segundos. Heero segue mais para o fundo do armazém, onde várias prateleiras se estendiam para todos os lados, lotadas de peças antigas, caixas de papelão.

Era uma desmontadora de veículos.

Heero esconde Relena em um canto escuro, cobrindo-a com seu corpo. Ambos tremiam muito. Ele a examina com os olhos, não pela primeira vez na noite.

-Você está bem? – A voz era um sussurro em seu ouvido, que a faz suspirar e abraçá-lo. Ele se surpreende e enrijece com a reação inesperada.

-Obrigada – Ela murmura – Sim, eu estou sim – O contato humano era tudo o que a mantinha na terra, mas ela se afasta, apoiando as pequenas mãos geladas nos braços descobertos dele. Ele era quente, enquanto ela congelava.

Tudo estaria bem.

Ela puxa o celular da palma fechada, indicando-o. Heero se surpreende e ela sorri, fraquinho. É a primeira vez que ela o vê sorrir e se surpreende. Ele sorria com o rosto inteiro, abertamente, totalmente contrário a todas as suas ações, seu jeito de ser.

-Muito bem – Ele aprova.

-Onde estão? Eu sei que estão aí! – Um dos rapazes se aproxima e Heero a puxa mais para longe, escondendo-a mais nas sombras do local. Era um galpão enorme, embora, mesmo com os olhos espertos, Heero só houvesse visto uma saída. Precisariam passar por ela. Vivos.

-Você está sangrando! – Relena exclama baixo, estupefata, enquanto a mão dela, que repousava sobre o braço esquerdo dele empapava de sangue. Ele mal olha na direção do ferimento.

-Não é nada. O tiro deve ter me atingido de raspão. – Isso faz a visão dela nublar e ela é obrigada a segurá-lo com mais força. O telefone chama e uma moça atende, perguntando sua emergência. Ela murmura tão baixo, que desconfia, a moça não a ouviria. Ela troca sussurros, ativando o serviço GPS do aparelho.

Heero a solta, embora ela relutasse a fazê-lo, jogando uma borracha longe, atingindo uma estante do outro lado. O rapaz que os perseguia grita e corre na direção do barulho. Heero o segue, embora Relena permanecesse no mesmo lugar, absolutamente imóvel. Não questiona quando nenhum barulho é ouvido por um tempo. Heero volta, arfando. Ela o encara, com absoluto desinteresse.

Vira-se e deposita o aparelho na estante.

-Vamos sair daqui – Murmura. Ele concorda. O cachorro então é ouvido, se aproximando. Só haviam mais dois, se suas contagens de memória estivessem certas. E possuíam uma arma. Heero checa as balas. Duas. Dois homens, duas chances. Ainda havia o cachorro.

Eles correm por um e outro largo corredor, sempre tentando se afastar dos latidos. Era um labirinto. Precisavam ganhar tempo. Não sabiam se estariam vivos até a chegada da polícia. Não esperavam quando algo se choca contra eles, levando-os ao chão.

Relena grita, alto, antes que pudesse se conter.

Um homem estava em cima de Heero e batia, com força. De onde viera aquele, Relena não fazia ideia. Ela avança, tentando agarrá-lo pelos ombros. Ele a repele, fazendo-a voar contra a parede. Sua cabeça quica uma, duas vezes. As bordas de sua visão escurecem. O escândalo atraíra outro rapaz, que agora chegava correndo. Relena volta a gritar e ele a agarra, enquanto ela se jogava para longe. Ambos vão para o chão. Ela grita e chuta, agarrando com as mãos, puxando cabelos, acertando o olho do rapaz. Ele grita e a acerta no rosto. Ela mal conseguia vê-lo acima de si, de tanto que se mexia.

Ela tateia o chão ao redor de si e acha uma ferramenta de metal, acertando-a na lateral do rosto do homem, que a larga, gemendo de dor. Ela engatinha para frente, mas não chega longe, antes que ele voltasse a puxá-la para trás, ralando seus joelhos contra o concreto. Ela soluçava, sem saber de nada, nem ninguém.

E então o homem é tirado de cima de si, um trovão ensurdecendo-a quase totalmente. Em seguida um zumbido alto no ouvido, enquanto o homem tombava em cima dela. Heero empurra o corpo e ajuda a se levantar. Ela estava confusa e zonza e demora um bom tempo até perceber, havia sido um tiro.

Ela encara Heero com olhos arregalados, totalmente descomposta. Ele tinha um ferimento no supercílio que sangrava sem parar, atrapalhando sua visão, além de um corte na boca, um ferimento roxo e com sangue pisado na lateral do rosto e arfava, o braço parecendo em pior estado do que estava há apenas instantes atrás. Ele não permite uma inspeção maior, pois voltaram a voar. Ele lhe dissera algo, mas não entendera.

O pânico cresce dentro dela. Quantos seriam? Agora só tinham uma bala! Para piorar, Heero estava ferido. E os haviam ouvido. E eles tinham um cachorro. E mais armas de onde aquela viera. Tenta bloquear a torrente de pensamentos, mas o seu foco era a sobrevivência, não pensava em mais nada.

Precisava viver, precisava viver, precisava sobreviver.

Não conseguia raciocinar direito. Tudo o que queria era correr o mais rápido possível e não parar mais. Estava surda, ferida e exausta. Queria estar longe, queria voar, queria correr. Queria estar longe, queria sobreviver.

Voltam a parar, mas dessa vez o pânico cria bile na garganta de Relena. Chegaram a um beco sem saída. Para onde dali? Não havia mais escapatória.

Ela cobre o rosto com as mãos, tentando esconder-se, mentir para si mesma. Não podia acabar ali, ali não podia ser o fim, poderia? Tinham segundos para se virar e-

-O que temos aqui? – O sangue dela gela pelo que parecia a infinitésima vez naquela noite. Ela se vira, encolhendo-se. Dois rapazes se aproximavam, um deles trazendo o cachorro na coleira. Heero se põe na frente dela, protegendo-a com o corpo, recuando até que ela estivesse encostada a parede, o corpo dele colado ao dela. Ela espia por sobre o ombro dele, enquanto eles se aproximavam.

Heero puxa a arma e a aponta, os dois rapazes param.

-Você tem certeza disso? O tempo de você atirar em um de nós é o suficiente para o outro sacar a arma. Isso não vai acabar bem. E ainda tem a garota – Heero parecia feito de pedra, sem abaixar a arma. – Se é assim que deseja… – O homem faz menção de alcançar as calças. Heero atira e em seguida se joga para frente, em cima do outro rapaz. O cachorro estava solto e avança em Heero, enquanto ele derrubava o atacante no chão.

Relena assistia sem conseguir entender as ações. Heero parte para o pescoço do rapaz e tenta sufocá-lo, acertar sua cabeça contra o chão. O homem gargareja, tenta pegar a arma, mas essa voa longe de alcance.

Ele estava quase vencido, perdendo as forças.

É quando outro, vindo da escuridão do armazém se aproxima correndo. Relena é rápida e alcança a arma. O homem mal a havia visto a avança em Heero, apontando a arma, enquanto o cachorro fazia um estrago no braço e na perna do rapaz.

Relena atira, sem pensar. O barulho assusta o cachorro, que foge, ganindo. O homem cai.

Sem conseguir se levantar, Heero encara Relena, tão surpreso quanto ela pelo ato. As mãos dela tremiam no gatilho. Era a primeira vez que atirava. Se seu alvo não estivesse próximo, provavelmente teria errado.

É quando ouvem as sirenes da polícia.


O interrogatório foi curto, se considerada a história complexa a ser contada. Devido ao estado das vítimas e o tanto de sangue e feridos que havia no local, os detalhes ficariam para depois, enquanto a ambulância parecia ser prioridade.

Dois policiais pareciam conhecidos de Heero e o ajudaram sem questionar, colocando-o no carro vermelho. Relena tremia pelo choque e lhe entregaram um cobertor e uma bebida quente. Havia esquecido o que era comida quente e o quanto estava com fome.

Vomita a bebida assim que a termina, não conseguindo aguentar nada no estômago.

O policial loiro, Quatre, parece que se chamava, a olha compadecido, ajudando-a a entrar no mesmo veículo que transportaria Heero.

-Não se preocupe, logo, logo vocês estarão no hospital. E isso aqui parecerá um terrível pesadelo. – A porta se fecha.

Relena só podia rezar. Ela apoia o rosto nas mãos e olha para Heero. Ele havia sido medicado, mas ainda a olhava, com um olhar vago. Ela segura sua mão e apoia o rosto sobre a maca, sentindo o metal gelado. A ambulância liga sua sirene e começa a andar. A seu redor, vários médicos trabalhavam.

Ela desata a chorar.


Data de término do capítulo: 03.06.2016

Publicada: 24.06.2016

Música recomendada para o capítulo: Run Boy Run (Woodkid) - Adoro fazer recomendações de música em capítulos.

Hello folks! Long time no see! o/

Como estão todos? Batendo muito cabelo? E então. E essa viradas da história, todos previram desde o começo? Acho que, de alguma forma, essa história é muito imprevisível, cheia de twists a cada esquina.

Nesse capítulo há muito sofrimento, desespero e também algumas ações duvidosas, espero que entendam cada uma delas, em um momento tão delicado. É muita confusão. De ações, sentimentos, de todos os tipos.

Interessados nas consequências de todo esse caos?

Esse capítulo é extremamente pesado e muito rápido também. Aliás, acho que é uma característica da história, ele ocorre meio depressa, parece estar sempre correndo. Peço desculpas se isso não os agrada.

Aliás, acho importante também dar um toque àqueles que conhecem a Celine de outros carnavais (Nicks só, acho haha), que comentou sobre ela confiar tão rápido no Rick. Não acho que seja o caso. O caso não é confiança. Nessa história há muita solidão, andaram notando? E a Celine é uma pessoa bastante frágil, embora tente parecer forte o tempo inteiro. Acho que as coisas estão simplesmente pesadas demais para ela suportar e ela está se desfazendo pelos cantos. Sorte (ou não, sei lá) o Rick estar lá para ajudá-la nesse momento, em que ela não tem ninguém e não está aguentando sozinha. Na história original de Idiossincrasia, ele conhece a Celine muitos anos depois de ela ter passado por seus traumas.

E sobre o Heero e a Relena, a mesma coisa. Espero que tenham comprado a sequência de fatos. O próximo capítulo é mais lento e tem bem mais desenvolvimento de personagens, espero que gostem.

Gostaria de dizer, em meio a tudo isso, em um assunto totalmente não relacionado, ando completamente viciada na música All the King's Horses da Karmina. Escrevendo Fairy Tale e ouvindo ininterruptamente. Aliás, aos leitores de FT, terminei todo o planejamento da história e estou com três capítulos encaminhados. Espero que gostem.

Até lá, não espero torturá-los com a espera! Aproveitem o projeto.

XoXo
Suss.