O jantar estava servido, a taça na frente do prato cheia d'água. Os movimentos da loira eram mecânicos, a carne era cortada e levada a os lábios, os dentes a trituravam e a língua ajudava a engolir, uma pequena pausa para tomar um gole da taça.

Suas noites eram assim, pelo menos as que não tinha alguma acompanhante… digamos… alguma dama que prestasse determinados serviços.

Acostumou-se a solidão, era mais fácil assim, não tinha que arrumar qualquer assunto para preencher o silencio. Não tinha que criar laços para depois a pessoa simplesmente ir.

Relacionamentos são complicados, envolve entrega e a vulnerabilidade em um nível que na hora que não da certo o chão é o seu companheiro, um relacionamento com Quinn então?

Levantou-se com o prato vazio o levando a lava louças, a porcelana ficoi limpa e foi rapidamente transportada para o armário. Pegou o porta lãminas no bolso e logo sentiu a lâmina fina se dissolver contra o céu de sua boca.

Seu melhor e mais bem sucedido relacionamento era aquele. Os analgésicos e a solidão.

Rachel suspirou sentindo os olhos arderem enquanto examinava um relatório sobre uma incursão ao território ao redor da A1. Livre de ameaças.

Era algo a menos para se preocupar, descartou o relatório e seus olhos repourasam quase ao mesmo tempo sobre um "retrato" em sua mesa. Era um holograma animado em que Quinn estava lhe abraçando pelas costas enquanto piscava e sorria para a Rachel real, a Rachel virtual possuia um sorriso satisfeito nos lábios e apoiava a testa na lateral do rosto de Quinn.

– A assistente dela é gostosa. – Santana pousou o prato de comida em frente a Rachel. – Muito gostosa.

Rachel tencionou os ombros sentindo o peso daquelas palavras.

– No mínimo a Fabray está comendo. – Santana completou já com a boca cheia de comida. Ou o Pettyfer está comendo, mas como os dois são espertinhos devem estar comendo juntos.

Rachel empurrou o prato se levantando, Santana a encarou antes de tomar um gole da garrafa de cerveja.

– Vai dizer que você realmente acredita que depois de você ela não teve mais nenhuma mulher? – A latinha ironizou. – Você teve outras pessoas.

– Não se meta nisso e guarde seus comentários para você. – Rachel resmungou. – Ou então eu te mando para fazer ronda lá fora.

Santana revirou os olhos tomando outro gole de cerveja.

– Essa é melhor do que aquela água suja que vendem no D5. Muito melhor.

Rachel tomou a garrada que estava encima da mesa e rapidamente tomou longos goles. O sabor amargo e o gosto de alcool rasgaram sua garganta.

Era oficial ela teria que forçar uma conversa com a loira e isso não lhe agradava.

Quinn estava em uma sala sem janelas, o branco predominava no lugar. A loira usava luvas transparentes nas mãos enquanto revisava os arquivos que deslizavam na sua frente.

– A Agente Berry está a sua procura. – Lacerta informou.

– Não quero ser incomodada. – Quinn respondeu mecânicamente, passou uma tela com um movimento de braço. – Avise ao Alex que o novo sistema operacional está aprovado pela minha parte, então ele pode testar no protótipo e se ele concordar então podemos mandar fabricar.

É claro. – Lacerta afirmou prontamente. – O senhor Alex pediu para que a senhorita vistoria-se as armas que serão enviadas para a A2.

– Traga-as pelo poço. – Fechou o arquivo, abriu outro.

Quinn rodou o pescoço tentando relaxar a musculatura, rodou os braços os abrindo e fechando os braços. Deu alguns saltos trocando as pernas, seu corpo estava pesado e cansado como se ela tivesse se exercitado a noite inteira.

Soltou um gemido esfregando o pescoço, sentiu a fisgada na musculatura. Uma mesa surgiu no centro da sala, tinha cerca de 3m de comprimenro por 2m de largura. Seus passos ecoaram, a mão se fechou sobre uma das armas. Engatilhou, um modelo humano em escala realista surgiu há alguns metros na sua frente.

Descarregou a arma sem hesitar.

– Analise. – Soltou a arma sobre a mesa.

Perfeito. – Lacerta respondeu. –99,99% de chance de falha.

– Ótimo ainda faltam 49. – Olhou para a parede lateral. – Abre pra mim as especificações de cada uma.

Alex estava com uma chave de fenda na mão, as mangas da blusa social arregaçadas enquanto desparafusava o painel central que se encontrava no peito do robô.

– Parafusos? – Santana arqueou as sobrancelhas. – Ele não deveria estar pronto? Sabe? Pele, cabelos e os painéis normais?

– É um modelo de teste. – Alex retrucou erguendo a tampa. – Carcaça antiga, mas o sistema é a nossa jóia.

Santana revirou os olhos.

– Onde estão os funcionários? – A latina olhou em volta. O laboratório estava vazio.

– Esse projeto é apenas entre a Fabray e eu. – Pegou uma pequena e fina placa transparente que se você olhasse com atenção e tivesse uma boa visão veria pequenas gravações pela sua extenção.

– Onde ela está? – Rachel rugiu entrando pelo laboratório.

Alex resmungou encaixando a placa no retângulo central antes de pegar alguns cabos de força e os ligar no robô.

– Alex. – Rachel rosnou mansamente. – Onde ela está?

– Na sala branca. – Alex resmungou descendo a tela com um gesto de mão. – Ela está bem. Está finalizando alguns projetos.

O homem deu comandos antes de pegar um pequeno transmissor na mesa e o acoplar atrás da orelha. O robô abriu os olhos e sentou na mesa.

– Alex ela não pode ficar sozinha. – Rachel ignorou o robô.

O loiro cruzou os braços e observou o robô mexer os dedos.

– Rachel. – O robô se virou para ela, sua fala metálica e robotizada. – Nós sabemos que você tem um trabalho a fazer e que quer aproveitar isso para se resolver com ela, mas você sabe que ela vai se esconder. Espere. Seja paciente.

Alex ergueu a mão e retirou o comunicador, o robô instaneamente desligou. Virou-se para a tela e deu mais alguns comandos ignorando a expressão vazia de Rachel.

Senhores. – Lacerta chamou. – Temos um problema.

– Qual? – Alex reitou a placa de dentro do robô.

Uma sirene ecoou pela cidade enquanto luzes vermelhas piscavam nos prédios. Alex olhou para fora enquanto Santana e Rachel se entreolhavam.

– Como? – Rachel se aproximou da parede de vidro apoiando a mão a forçando de leve.

No vidro apareceu imediatamente uma tela, a imagem de Rachel no canto superior. Com a mão livre deu comandos rápidos abrindo câmeras.

– Merda. – Praguejou.

– Quanto tempo? – Santana se aproximou. – 10 ou 15 mins?

– 10. – Rachel puxou outra câmera. – Da onde esses filhos da puta vieram?

– Avise Quinn. – Alex puxou a tela que ntes estava o sistema operacional que testava. – Ela tem que sair da sala branca antes de desligarmos o sistema. Abra as portas para a população e as feche faltando 30 segundos para a contaminação.

Sim senhor.

– Transpuseram o 3º distrito. – Rachel retrucou em voz baixa, falando com si mesma. – Eles não estavam no perímetro, como furaram as nossas defesas tão rápido?

– Estou descendo. – Santana informou.

– O Diretor enviou tropas. – Rachel gritou por cima do ombro,. – Permaneça com os civis e os proteja.

O alarme soava enlouquecedoramente assim como aquela luz vermelho sangue enjoativo. Era uma situação atípica, "eles" nunca entraram tão fundo em uma Área segura, o mais comum era que vagassem em torno do 5º Distrito.

"Eles" bem… isso é mais complicado explicar.

A guerra havia se tornado biológica. A criação de um vírus mutante fora devastador para a humanidade, a guerra de palavras e ameaças não fora o suficiente. As bombas biológicas inutilizaram mais da metade do solo e da água do planeta, o ar tóximo matava plantas, bichos e a maior parte dos humanos e quando não os matava os transformava em algo pior. Os transformava "neles".

"Eles" são divididos em duas categorias por assim dizer.

Os Calabans eram altos e resistentes, a pele cinzenta tinha a aparencia frágil, mas era só a aparencia. Inteligentes e velozes costumam andar em grupos de até 5 para caçar carne humana, principalmente falando. A força anormal era uma poderosa arma se cobinada a velocidade a resistencia da pele, a única coisa que os matava era um tiro certeiro no coração ou na cabeça de uma arma de feiches de luz de prata.

Os outros eram os Príons, lerdos, burros, canibais e podres. Os Príons foram aqueles menos resistentes ao vírus ou que ficarem sem tempo corrente e o corpo começou a se deteriorar aos poucos.

Quinn empurrou a porta do laboratório andando pesadamente.

– Então? – Perguntou revezando o olhar entre os dois.

– Estou remanejando o oxigênio que temos armazenado. – Alex respondeu. – 7 minutos até que eles atinjam o D1.

– Calabans. – Rachel falou sem acreditar. – Preciso ir.

– Não. – Quinn reagiu vendo a mulher tirar a mão do vidro e andar na direção da saída. – Você não vai sair daqui.

– São Calabans. – Rachel retrucou no automático.

– Exatamente por isso. – Se enfiou na frente da Berry.

Rachel ergueu ps pçhps encarando os olhos verdes de Quinn. Por um segundo se lembrou de como era bom se perder por aqueles olhos e de todo carinho e dedicação com o qual eles já haviam lhe olhado.

– Eu vou resolver essa questão e quando eu voltar nós vamos conversar ok? – A voz de Rachel saiu baixa.

Quinn sentiu o coração acelerar, segurou o pulso de Rachel, sua mão suava.

– Se acalme. – Rachel murmurou dando um passo para frente. – Nós vamos conversar.

Quinn apertou os dentes com força acenando brucamente com a cabeça. Rachel deu um pequeno passo para mais perto da loira.

– Tenho que ir. – Sussurrou. – Não sai daqui ok?

Quinn abaixou a cabeça fechando os olhos, sentiu os lábios macios na sua bochecha.

– Cuidado. – A voz rouca e baixa rasgou a sua garganta.

As ruas vazias e silenciosas eram quebradas pelo som da moto da Fundação que Rachel guiava pela Via Expressa. Rachel acelerava sentindo o sangue retumbar em seus ouvidos. O pequeno mapa lhe guiava para onde estavam os invasores e também mostrava onde estavam as tropas enviadas pela Fundação.

Russel deveria estar espumando de raiva. Desceu a moto parando próxima a contenção do 1º Distrito. Clareou o visor do capacete, mas o manteve para garantir o suprimento de ar limpo. Levou a mão a lateral da moto puxando a arma, leve e escura.

Checou as placas de prata, apoiou a arma contra a coxa e esperou a névoa tóxica começar a se dissipar aos poucos.

Ouviu os motores dos carros e motos as suas costas era o seu reforço chegando.

– Capitã. – Ouviu a voz forte e familiar.

– Tenente. – Rachel nem se deu ao trabalho de virar o rosto.

– Estão chegando! – Alguém gritou.

Rachel ergueu a arma e se aprumou vendo as duas figuras se aproximarem. O homem era alto, os olhos azuis opacos enquanto os cabelos loiros imundos e gordurentos caiam pelo seu rosto. As roupas estavam razoavelmente limpas. A mulher era mais baixa com a pele escura e sem brilho, os olhos castanhos quase negros também eram opacos como se tivesse uma pelicula após a córnea. As tranças de dread caiam pelas costas parando após a cintura.

– Rachel Berry? – A voz do homem saiu rosnada e grutural.

– O que você quer o coisa? – Rachel cuspiu apertando mais forte a arma.

– Temos um recado de nosso… - O homem parou tentando achar as palavras, como se pensasse na mais adequada. - …mestre.

A mulher fez um movimento brusco com a cabeça arreganhando os dentes ensanguentados, era óbvio que eles haviam acabado de se alimentar. Rachel pousou o dedo com mais precissão no gatilho.

– Um aviso. – O homem rosnou. – Os dias estão contados, guarde-a bem, pois irá perde-la.

Rachel franziu o nariz enquanto posicionava melhor o dedo e apertava bem os dentes, sentiu o fio gelado se espalhar pela sua coluna.

– O aviso está entregue. – O homem ergueu o queixo magro. – Mataremos Quinn Fabray.

Os miolos do homem se espalharam pelo chão assim que Rachel puxou o gatilho e estourou sua cabeça.

A mulher gritou, mas não avançou, pois, a retarguada de Rachel a aniquilaram imediatamente. Rachel encaixou a arma na moto e acelerou imediatamente para voltar a cidade. Em sua cabeça um único nome. Quinn.

Quinn estava sentada na cadeira olhando para o chão, Alex estava verificando os níveis de oxigênio onde existiam pessoas dentro da empresa. A porta se abriu.

A Área 1 está livre de perigo. - Lacerta anunciou.

– Reestabeleça os níveis de oxigênio e abra as portas se não existir possibilidade de contaminação. – Alex esfregou o rosto com as duas mãos sentindo a barba áspera. – Você quer conversar?

– Não. – Quinn se levantou puxando uma tela para perto. – Lacerta eu quero as cameras da cidade.

Alex se recostou na cadeira, esticou as pernas e entrelaçou as mãos atrás da cabeça apenas para observar o que Quinn iria fazer.

Quinn manipulava as imagens atrás de qualquer imagem de Rachel, sua respiração saiu pesada quando a viu dirigindo pela Via Expressa Superior.

– Tranquila agora? – Alex perguntou despreocupadamente.

Quinn soltou um grunhido dando de ombros.

– Você ficou bem nervosa. – Ele continuou.

A loira franziu as sobrancelhas vendo outra moto seguir Rachel, claramente era um homem, a Berry puxou a moto para descer a pista e o homem rapidamente a seguiu. Quinn cruzou os braços sentindo uma pontada de ciúmes.

Estreitou os olhos claros quando Rachel desceuda moto e o homem também desceu da dele. Os capacetes se retrairam e assim o rosto do homem misterioso fora revelado. Os cabelos eram loiros bem escuros enquantos os olhos eram azuis profundos e o rosto fino lhe dava um ar levemente andrógeno.

Ele falava algo para Rachel enquanto tocava o rosto da mulher e lhe dava uma sorriso carinhoso.

Quinn tencionou o corpo.

–O relatório que Lacerta…

– Pelo visto estava errado. – Quinn cortou Alex com a voz fria e o rosto inexpressivo. – Vou para casa, não quero ser incomodada.

– Quinn…

– Alex. –Ela se virou para ele erguendo o queixo. – Não.

O homem ergueu os braços se rendendo.

Rachel subiu correndo, encontrou Alex mexendo de novo no robô.

– Cade a Quinn? – Perguntou olhando em volta.

– Foi pra casa. – Alex pousou o ferro de solda de lado. – É melhor você não ir atrás.

– O que?

– Ela quer ficar sozinha. – Alex tentou amenizar. – Rachel a deixe quieta.

– Mas… - Rachel parou sem saber o que fazer.

Tinha que ficar perto da loira a qualquer custo, as palavras do Calaban ainda estavam em sua cabeça. Tinha que proteger Quinn.

– Ela não pode ficar sozinha. – Rachel falou enérgica. – Me diga o que aconteceu.

– Ela te viu com o cara. – Alex suspirou limpando as mãos com um pano.

– Brody? – Rachel arqueou as sobrancelhas antes de dar um leve sorriso. – Ciúmes?

– Morrendo. – O homem se levantou. – Não é bom você ir lá agora. E além do mais você deveria estar de quarentena.

– Ela não pode ficar sozinha. – Rachel olhou pela janela.

– Eu vou para lá. – Pettyfer acenou com a cabeça. – Apenas me diga que eu não estou errado em te defender.

– Não está. – A Agente confirmou.

Quinn estava sentada em uma poltrona na sala de estar, seu corpo estava enrolado em uma bola. As duas mãos se agarravam aos fios claros quase em angustia. Alex suspirou se adiantando com o copo d'água fresca e um frasco de analgésicos.

– Aqui. – Murmurou.

Quinn ergueu o rosto tomando o remédio quase em desespero. Alex se jogou contra o sofá, se esticando imediatamente.

– Relaxe já vai aliviar. – Ele tentou acalma-la.

Quinn se enrolou no assento apertando bem os dentes, a respiração saindo em fortes arquejos.

– Eu a odeio. – Quinn murmurou soltando um gemido.

– Bem, os antigos diziam que o amor e o ódio andam de mãos dadas. – Alex fechou os olhos enquanto comentava casualmente.

– Alex… - Apertou os dentes. – Gosto da sua versão idiota.

– Eu sei, mas agora você terá a versão sábia que pouco aparece. – Alex sorriu com um leve toque de deboche. – Você a ama.

Ouviu o fungar da loira.

– Você a ama e é de verdade. – Alex se sentou olhando para a bola que era sua melhor amiga. –Aceite isso, converse com ela e se resolvam.

– Alex eu não a amo. – Quinn retrucou.

– Ama. Ama sim. – Alex ergueu a voz vendo a sombra da mulher se encolher. – Para de mentir, que droga Fabray.

A mulher estendeu a mão para o frasco, mas Alex o pegou antes.

– Você já tomou. – Alex a repreendeu. – Você sabe o porque está doendo.

– Eu sei…

– Então fala.

– Falar não vai tirar a dor. – Fungou mais uma vez. Eu sei que é emocional, mas falar não vai tirar.

– Fala. – Alex assumiu um tom mais duro.

– Eu a amo. – Quinn gritou. – Eu a amo.