Logan também não fora bem sucedido em suas tentativas de dormir naquela noite. Quando conseguia fechar os olhos, e mantê-los assim por mais de trinta minutos, seus sonhos eram assombrados por imagens de seu passado como geralmente acontecia com freqüência, porém desta vez o rosto de Vampira se mesclava aos pesadelos antigos, e Wolverine sentiu um aperto imenso no peito ao pensar nela.
Aonde ela poderia estar, com quem, se estava bem, protegida da tempestade que ainda não havia cessado... inúmeras perguntas assaltavam sua mente deixando-o inquieto. Eram pouco mais de duas horas da manhã quando ele, frustrado, desistiu de tentar dormir.
Levantou-se irritado caminhando até a cozinha, acendeu um cigarro, pegou uma cerveja na geladeira.
Sentou-se na mesa sem sequer acender a luz, afinal não era algo necessário, sua visão aguçada o permitia enxergar na penumbra da madrugada.
Os olhos azuis estavam escuros, opacos e sérios de uma forma ameaçadora que demonstrava que Wolverine estava na superfície enquanto Logan permanecia inerte em sua cabeça, suas decisões recentes assombrando-o.
Ele só a deixara ir, porra, era o que ela queria.
Wolverine repetia isso para si mesmo tentando convencer-se de que fizera o certo. Se não o fizesse acabaria enlouquecendo.
Ela disse para ele deixá-la seguir a vida dela e foi o que ele fez, Vampira tinha vinte anos, já era uma adulta forte o suficiente para cuidar de si mesma, sobreviver no mundo lá fora. Ele apenas havia respeitado sua decisão. Afinal o que havia lhe dito era verdade, ele não era seu pai. Não tinha qualquer obrigação sobre ela, e a garota era livre para tomar suas decisões por si mesma, não lhe devia qualquer satisfação.
Então por que a sensação de fracasso, de dívida, permanecia intacta, corroendo-o? Ele sentia que estava errado, falhando com ela, mesmo que sua mente lhe dissesse que o sentimento de culpa era completamente infundado.
Wolverine urrava furioso dentro de si. Ele queria buscar Rogue. Pegá-la de volta e acabar com a maldita aflição que o acometia com a distância, detestava sentir-se desta maneira, era algo intenso e novo demais para ser suportável.
Quando ela fora embora da outra vez, ele sentiu raiva, fúria e decepção, claro também havia saudade no fundo, ofuscada pelas coisas negativas que o comportamento dela desencadeara.
Mas nada comparado ao que acontecia agora, uma espécie de ânsia de guardá-la para si, escondê-la, protegê-la de todos os outros que a queriam ferir. Seu único empecilho era a teimosia de Logan, que não permitia que ele caçasse a garota e a trouxesse para o lado dele, que era onde ele deveria estar sempre, o lugar ao qual ela pertencia.
Era como se Logan estivesse completamente ignorante de algo crucial, que aparentemente não era qualquer novidade para Wolverine.
A garota era dele e isso era um fato. O outro fato é que ele estava parado na cozinha em plena madrugada com o céu desabando em chuva, bebendo cerveja com os pensamentos em Vampira enquanto ela estava lá fora sozinha, e ele não sabia que porra havia lhe acontecido.
Logan chutou a cadeira que estava a sua frente em frustração, caminhou com passos pesados até a sala vestindo sua jaqueta de couro e luvas, passou pela garagem para apanhar seu capacete e sua moto.
Ele não estava indo atrás dela. Apenas havia decidido dar uma volta por aí tentando espairecer, aquela mansão o estava sufocando cada vez mais, e ele precisava de tempo.
Então ele estava acelerando a moto cada vez mais e farejando no ar, mas, dizia insistentemente a si mesmo, não era por estar à procura do cheiro doce de Vampira, o que ele conhecia tão bem, que sentia tanta falta...
Inferno!
Amaldiçoou-se em pensamento acelerando ainda mais. Ele não podia estar atrás dela. Até porque o cheiro de Vampira estava completamente ofuscado pela chuva, era impossível seguir seu rastro naquelas condições.
O que deveria ser indiferente a Logan, já que ele insistia que não estava à sua procura.
Wolverine rodou por mais algumas horas e, quando deu por si, o sol já estava quase nascendo. A chuva havia amainado, porém continuava intensa o suficiente para obrigar Vampira a continuar escondida, abrigada no local em que deveria ter encontrado para ficar, provavelmente pelo resto do dia, considerando a intensidade da chuva.
Novamente, não que ele estivesse preocupado a ponto de decidir percorrer meio mundo atrás dela, sem olfato e ensopado. Como estava fazendo naquele exato momento.
Maldição!
Ele chegou ao instituto encharcado e ainda mais irritado do que quando havia saído. Entrou pelos fundos depois de guardar sua moto, pouco se importando com a sujeira que espalhava pela mansão com suas botas cheias de barro e seu corpo que pingava água lamacenta.
"Não a encontrou?"
A voz soou, calma como sempre, assim que ele entrou na cozinha. Wolverine bufou. Ele, é claro, havia sentido seu cheiro no local antes de entrar, por mais distraído que estivesse era impossível deixar passar o cheiro de Ororo, um aroma suave e marcante como o cheiro natural da chuva. E estava decidido a passar reto ignorando sua presença, mas sua companheira indesejada obviamente tinha outros planos.
"Eu não estava procurando ninguém."
Não se conteve e retrucou irritado sem direcionar-lhe o olhar. Storm não se deixou intimidar pelo seu mau humor, não que isso o surpreendesse, Ororo não fazia o tipo fácil de intimidar. Ela se aproximou com os braços cruzados, usava um casaco longo cor pérola por cima da camisola clara, os cabelos brancos presos improvisadamente. Estava óbvio que ela tivera insônia e procurara conforto nos chás e em suas plantas como de costume.
"Então o que estava fazendo? Apreciando a chuva?"
Ele rosnou direcionando os olhos azuis à Ororo. Ela tinha tempo de amizade e convivência com Logan o suficiente para perceber quando Wolverine estava no controle, e viu que no momento a situação era exatamente essa. Isso não a impediria de ter a conversa que sabia ser necessária com ele, embora tenha decidido prosseguir com cautela.
" Sei que você estava atrás da Rogue."
Seu tom de certeza o irritou profundamente.
"Eu não estava atrás de ninguém Storm, nunca fiz isso antes."
Retrucou rispidamente tentando acabar com aquele assunto, mas Storm estava decidida a continuar com a conversa desconfortável.
"Ouça-me Logan. Vocês se entendem bem, se gostam. É natural que você sinta falta dela."
Ela explicou pacientemente, sua voz ainda mais doce. Logan não conseguiu mais atacá-la diretamente depois disso.
"Eu já disse que não vou procurá-la Ro."
Ele reiterou, rosnando quando Wolverine o queria contradizer.
"Já pensou que ela pode estar ainda mais chateada com essa situação do que você?"
Tornou Ororo, sem se alterar.
"Ela que quis essa situação e não eu. Foi escolha dela Storm, Rogue foi embora porque quis, eu não a mandei sair."
"Acredito nisso Logan. Mas talvez você deve-se pensar a respeito do que motivou Vampira a seguir assim."
Logan voltou a olhá-la, o rosto curioso e apreensivo.
"Como assim?"
"Penso que você deve encontrá-la, questioná-la a respeito."
"Você sabe de algo que eu não sei."
Acusou encarando os olhos claros de Tempestade. Ela retribuiu o olhar, inabalável.
"Fale com ela e descubra você mesmo."
"Só se ela vier até mim."
Ele disse convicto, a paciência de Storm estava finalmente se esgotando.
"Talvez então você espere para sempre."
"O que quer dizer com isso?"
Ele questionou levemente surpreso, ela deu de ombros.
"Você sabe os riscos que Vampira está correndo. "
Logan já estava começando a ficar farto daquela frase.
"Ela sabe se cuidar."
Retrucou rispidamente. Ororo se aproximou dele deitando a mão em seu braço, tentando devolver-lhe um pouco de razão.
"Contra um ou dois oponentes fortes sem dúvidas. Mas não contra toda a irmandade, ou a divisão... você sabe como as coisas estão Wolverine, não é prudente deixá-la só."
" Eu estou apenas respeitando a decisão dela."
Logan teimou ainda de braços cruzados.
"Talvez ela já tenha se arrependido e tentado voltar atrás, mas não tenha tido oportunidade de chegar até nós."
Ororo viu como a expressão de Logan tornou-se sombria, mas não se arrependeu de ter dito, precisava abrir-lhe os olhos para a verdade que sua teimosia o impedia de ver. Sabia que desta vez, era ele quem deveria ceder pelo bem de Vampira.
"Você acha mesmo que isso é possível Ro?"
O cenho de Logan se franziu em evidente preocupação, Ororo tentou permanecer inabalável.
"Eu não sei, me diz você. Você os enfrentou mais vezes do que todos nós, sabe melhor do que eu até onde eles podem chegar."
"Inferno."
Logan esbravejou após alguns segundos de reflexão conclusiva. Storm tocou seu ombro em um gesto de conforto que fê-lo esquivar-se imediatamente, ainda irritado demais para qualquer tipo de contato físico. Ele tornou a sair por onde entrou, ignorando Ororo que começou a segui-lo.
"O que vai fazer Logan?"
Ele não sabia o que dizer, então permaneceu em silêncio.
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Os olhos verdes se arregalaram rapidamente e a garota se sentou na cama ainda um pouco desnorteada. Vampira levou alguns segundos para se situar e se sentiu pior quando lembrou-se do que o houve no dia anterior, desejou que não fosse real, mas suas esperanças foram vãs, como sempre. Não fora um sonho. Ela estava sozinha novamente.
Estudou o quarto pequeno e simples ponderando o que fazer a seguir. A chuva ainda não havia cessado, embora estivesse bem mais calma do que na madrugada, não era leve o suficiente para que a garota se aventurasse a sair vagando por aí sem qualquer proteção.
"Ao menos a janela continua fechada."
Ela murmurou para si, fixando o olhar na mesma, mas foi de pouco conforto.
Espreguiçou-se fazendo uma careta quando seu corpo todo doeu, sentindo a tensão nos membros causada pelas péssimas condições da cama em que dormira, mas isso não era muito relevante.
Ela jogou as pernas para fora da cama caminhando lentamente até o banheiro simples, fitando seu reflexo no minúsculo espelho por um tempo.
Puxando as madeixas brancas para trás, retirando-as do rosto, Rogue estudou os detalhes de sua aparência.
Seus olhos pareciam ainda maiores e mais verdes, destacando como faróis na palidez ainda mais intensa que a habitual de seu rosto e nas olheiras escuras que havia abaixo deles; também estavam avermelhados, como se ela houvesse chorado por tempo demais, ou tido uma noite insone. A segunda opção era a correta.
Ela estava mais abatida do que se lembrava já haver estado, desde que parara de pular de lar em lar adotivo quando ainda era garota.
Seu cabelo tinha a aparência de um ninho de pássaros. Como era muito fino, estava todo embaraçado repousando em seus ombros. Bufando, Vampira voltou para o quarto em busca de algo para prendê-los, mas não encontrou.
Na noite anterior havia soltado os cabelos sem se atentar ao local que havia deixado a presilha, e agora ela havia se perdido em meio à bagunça do quarto minúsculo. Revirou sua mochila também, mas não havia nada que lhe servisse para amarrar as madeixas rebeldes.
"Merda!"
Ela se amaldiçoou internamente por não haver se lembrado de pegar uma presilha extra antes de sair da mansão. Decidida a ignorar a situação irritante, afinal tinha problemas maiores para se preocupar, retornou para o banheiro e tomou um longo banho no chuveiro que, apesar de frio e com pouquíssima água, trouxe um pouco de alívio ao seu corpo tenso.
Ela também lavou os cabelos demoradamente, deixando soltos por falta de opção. Vestiu o uniforme verde amarelo, dizendo para si mesma que o estava fazendo pela praticidade da vestimenta e não por qualquer ligação com sua antiga equipe.
Jogou um de seus casacos grandes escuros por cima de seu corpo trêmulo e tentou secar os cabelos o máximo que pôde com a toalha já molhada. Fez uma careta ao finalmente conseguir desembaraçá-los com a escova que encontrara na mochila, eles caíram lisos em seus ombros, a franja úmida ocultando parcialmente seus olhos como já era de costume.
Vampira sentou-se na beirada da cama desconfortável, apoiando os braços nos joelhos flexionados, os olhos verdes ficaram opacos quando ela se perdeu dentro de si.
Olhou, sem realmente ver nada específico, pela janela por algum tempo, tentando afastar seus pensamentos das coisas que a assombravam. Ela não conseguira dormir nada durante a noite. Claro que ficara apreensiva com o episódio da coruja, mas não era apenas isso que a abalava.
Quando fechava os olhos, via por trás deles imagens de seu passado, coisas que imaginara já haver superado há anos, mas que tornaram a persegui-la assim que ela ficou só.
Os fantasmas eram sempre os mais difíceis de enfrentar, impossíveis de serem derrotados. Não se podia absorvê-los, surrá-los ou atirar neles esperando que morressem. Às vezes eles desapareciam por um tempo, criando falsas esperanças na pessoa em que por eles era atormentada, apenas para retornar depois, sussurrando em seus ouvidos e levando-lhe o pouco de paz que conquistara.
Tudo o que Vampira queria era esquecer. Esquecer as coisas que já passara, que fizera; seu passado, todas as vezes que fora abandonada pelas pessoas que confiava.
Sentiu um nó na garganta, seguido de lágrimas queimando por trás de seus olhos, mas as segurou.
Ela tentou desviar o pensamento de seu passado, mas deixar de pensar nos anos anteriores e focar-se no abandono mais recente não era uma troca agradável também.
Na verdade Rogue não tinha absolutamente nada de positivo em que pudesse focar seus pensamentos para esquecer as memórias amargas que os tomavam. Ela era uma infeliz.
Bufou fechando os olhos por um momento, sem conseguir impedir que uma lágrima lhe escapasse. Ela a secou antes que terminasse de escorrer por sua bochecha.
Fraqueza não lhe levaria a nada, lágrimas não curavam feridas, ou resolviam problemas, ela sabia disso melhor do que ninguém.
Esfregou o rosto com força e levantou-se decidida a reagir, encontraria algo para comer antes que acabasse adoecendo pela falta de alimentação, depois encontraria uma maneira de seguir em frente. Ela sempre encontrava.
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Vampira subiu o capuz do casaco olhando furtivamente para os lados, ainda na porta do quarto em que estava.
Sentiu-se paranóica com esta atitude, mas havia algo a incomodando desde que deixara a mansão, um sexto sentido que a alertava para um perigo desconhecido, como se ela estivesse sendo perseguida, vigiada.
Assim que se certificou de que estava só, Vampira guardou a maioria de seus pertences o máximo que pôde por precaução, antes de sair de seu quarto trancando a porta atrás de si.
Decidiu passar pela recepção, que nada mais era do que um balcão com vários molhos de chaves pendurados atrás e uma televisão velha em mau funcionamento, para pedir alguma dica sobre o lugar mais próximo em que pudesse fazer uma refeição decente.
O mesmo homem com cara de pervertido que a atendera no dia anterior estava afundado na poltrona, os olhos castanhos, que encaravam o televisor tediosamente, desviaram-se e adquiriram um brilho de malícia assim que Vampira se aproximou. Ela fingiu não perceber.
Ele informou-lhe sorridente sobre um restaurante com bom preço e localidade confortável, há apenas alguns poucos quarteirões do hotel, onde os seus clientes costumavam fazer suas refeições.
Seguindo suas instruções, Vampira levou poucos minutos para avistar o tal restaurante, ainda que estivesse caminhando cautelosamente, a sensação incomoda de perseguição continuava.
Na verdade era uma lanchonete e não propriamente dito um restaurante, extremamente modesto e antigo, mas Vampira não se importava com o ambiente, principalmente por já haver passado por vários lugares assim, alguns ainda piores, no decorrer dos anos.
Ela entrou no RoyalDinner de maneira hesitante. O sino pendurado na porta com o intuito de alertar para chegada de novos clientes soou alto o suficiente para ser ouvido mesmo em meio às conversas altas dos clientes que esperavam seus lanches e gritos das garçonetes.
Ainda era muito cedo, não passavam das sete horas, mas o local já estava lotado.
Vampira imaginou que isso se devia mais ao fato de ele ser o único local que servia comida em um raio de seis quilômetros, do que pela qualidade dos alimentos, ou do ambiente.
Ainda parada na entrada, ela relanceou o olhar pelo local, estudando os detalhes, e ficou surpresa por sentir uma emoção inesperada que a deixou sem reação por algum tempo.
O local lhe pareceu absurdamente familiar, a simplicidade das mesas, as paredes que já haviam perdido pedaços do papel de parede listrado desbotado em algumas partes, revelando a pintura já encardida que havia ao fundo, o cheiro de tempero apimentado no ar, até mesmo os clientes e as garçonetes entediadas usando roupas curtas.
Tudo era tão semelhante a alguns locais que freqüentara enquanto estava em Caldecott County quando ainda era garota, que Vampira ficou parada ainda em choque por vários minutos.
Ela já havia tocado tantas pessoas, que o seu próprio passado parecia distante, confuso, como se não lhe pertencesse também, perdido em meio aos momentos que roubara de outros seres.
Agora que estava por conta própria, alguns fatos e lugares de sua infância e adolescência retornaram devagar trazendo com eles alguns sentimentos que Vampira acreditava ter deixado para trás há algum tempo.
Já era um começo, embora não fosse muito animador contando que todas as lembranças que surgiram eram péssimas, Vampira desconfiava que era porque não havia tido bons momentos para recordar-se.
Lembrou-se de um dia em particular, fugira da casa de um dos vários foster parents que teve no decorrer de sua infância,depois de levar uma surra do "pai" por um motivo banal.
Ela roubou dinheiro da carteira dele durante a noite, mas como não tinha experiência em crimes, não pegou o suficiente para conseguir se virar sozinha por muito tempo.
Acabara perdida e faminta, indo parar em um local como o que estava agora, com ambiente lamentável e comida apenas digerível.
Encontrara pessoas boas apesar de tudo, uma delas foi a garçonete mais velha do lugar, cujo nome ela não se lembrava, embora o rosto estivesse guardado com ternura em sua mente.
Contara a Rogue, apenas Anna na época, que havia abandonado uma filha há muito tempo, e fora por este motivo que não conseguiu deixar de ajudá-la quando a viu.
Ela foi carinhosa e cuidou da garota, tão jovem na época, como nunca ninguém havia feito antes, até que uma assistente social descobriu sua localização e o inferno recomeçou.
Notando que já estava começando a atrair olhares por sua estranha apatia, Vampira caminhou até o balcão, pedindo a primeira coisa que vira no cardápio, sem dar-lhe muita atenção.
Dirigiu-se a uma mesa afastada no canto, e seu olhar perdeu-se pela janela enquanto esperava pelo seu pedido, observando distraída sem que nada realmente lhe chamasse a atenção.
Aquele era um lugar pacato, Vampira refletiu; um fim de mundo em que as pessoas iam com o intuito de se esconder de alguma coisa, ou de alguém, mas nunca para simplesmente morar.
As provas vivas disso eram as péssimas condições dos poucos comércios que lá havia e, conseqüentemente, a falta de moradias fixas no local. Tudo era cercado por mato, inclusive os hotéis beira de estrada, a única civilização existente.
Vampira sentiu que estava se enterrando, mas sabia que aquele era o lugar certo.
Desviou a atenção da janela e fixou-se na garçonete que chegara com seu pedido.
Vampira engoliu o máximo que conseguiu, tinha experiência o suficiente em locais como aquele para saber que não devia ter grandes expectativas sobre a comida, empurrou o alimento pouco agradável com um copo de suco de laranja que também não era dos melhores.
Assim que sentiu já haver comido o suficiente para sustentar-se, ela entregou o dinheiro para a garçonete sem ao menos direcionar-lhe o olhar e saiu do lugar da mesma maneira hesitante que entrou.
Vampira começou a caminhar mais rapidamente quando a chuva tornou a aumentar, ela se perguntava quanto tempo mais duraria aquele maldito temporal que a impedia de seguir viagem, sabia ser arriscado parar por muito tempo no mesmo lugar.
A sensação de perseguição que vinha incomodando-a cresceu, e ela pressentiu cada vez mais forte a presença de alguém atrás de si, aproximando-se rapidamente. Acelerou o passo, mas sentiu que seu perseguidor continuava a sua espreita, apenas esperando o momento certo para atacar.
Vampira ouviu passos além dos seus, um som de botas pesadas contra lama, que se tornavam cada vez mais audíveis com o aumento da chuva que acumulava água na estrada.
De repente ela parou determinada, cansada de correr, fugir não era de seu feitio.
"Quem está aí?"
Gritou com a voz firme, mas ofegante por conseqüência da corrida desenfreada de alguns minutos atrás, olhando ao seu redor.
Não viu ninguém, embora continuasse sentindo a presença de uma ou mais pessoas ocultas ao seu redor.
Repentinamente ela sentiu uma dor intensa no pescoço, semelhante à picada de um inseto, levou uma de suas mãos ao local e encontrou uma agulha pequena fincada em sua pele quando tateou a região dolorida em busca do que a ferira.
Sua visão foi se deteriorando aos poucos, ela oscilou quando seu corpo foi tomado por uma dormência angustiante, se tornou mais difícil respirar, como se o ar houvesse ficado mais denso.
Seus joelhos fraquejaram e, como não havia qualquer lugar para que se apoiasse, Vampira caiu no chão, o capuz escorregou libertando seus cabelos mistos que se espalharam, sujando-se com a terra, a chuva acertava o seu rosto com força, causando uma ardência irritante em sua pele naturalmente sensível, mas ela não conseguiu mover seus braços dormentes para proteger-se.
Em um último esforço, Vampira ergueu o rosto o máximo que pôde, olhando ao redor em busca de algum indício de quem a atacara tão discreta e covardemente.
Com os olhos embaçados pela chuva, e a tontura intensa que levava seus sentidos, a garota assistiu seus perseguidores finalmente saírem das sombras, eram vários homens armados que estavam uniformizados.
Organização anti mutantes.
Ela soltou um riso trêmulo de deboche e frustração ao pensar em sua estupidez, baixara a guarda justamente quando meio mundo estava atrás dela, querendo sua cabeça em uma bandeja de prata.
Ter subestimado seus incontáveis inimigos, ou se superestimado, era um equivoco risível, digno de alguém estupidamente teimoso, que provavelmente custaria sua vida, ou algo ainda pior.
Vampira sentia que fora tola ao imaginar que poderia seguir completamente sozinha, contra adversários que eram maiores em números e recursos, do que ela se quer sonharia em ser.
Não conseguindo mais lutar contra a inconsciência, Vampira fechou os olhos, escorregando para a escuridão entorpecente.
