Wolverine caminhou em passos apressados até o jardim, parou embaixo de uma das árvores. Bufou. Enfurecido, socou seu tronco com força quebrando parte dele que entrou através de sua luva rasgando o tecido e, conseqüentemente, cortando sua pele que se regenerou segundos depois, deixando nada além de um rastro leve de sangue, pedaços de couro e lascas de madeira, para trás. Ele não se irritou por ter rasgado sua luva. Tinha outras coisas em sua mente, perturbando-o, roubando-lhe a paz.
Nem mesmo a violência foi o suficiente para extravasar seus sentimentos. Havia uma pressão em seu peito, que aumentava a cada momento deixando-o inquieto, ansioso. Seus pensamentos não abandonavam a garota de mechas mistas, a situação estava se tornando insuportável.
Talvez Ororo estivesse certa. Talvez fosse melhor dar uma olhada por aí, apenas para se certificar de que ela estava bem, ele ponderou. Não iria chegar a falar com ela, Vampira nem ao menos precisava saber que ele a procurara. Assim que Wolverine a visse sã e salva, retornaria para a mansão e assumiria seu lugar como se nada houvesse acontecido. Era melhor assim.
Logan tornou a pegar sua moto, colocou novas luvas, satisfeito com sua decisão, e foi atrás da garota teimosa que tanto estava perturbando-o.
xXxXx
Após algumas horas de busca, ele parou em uma estrada deserta, o cheiro de Vampira já havia quase desaparecido na trilha há alguns quilômetros. O que o levara a seguir em frente, chegando àquele lugar, fora o mais puro instinto e conhecimento pleno da personalidade de Vampira. Sabia que ela era esperta o suficiente para encontrar um local isolado que a permitisse ficar invisível, tentaria ao máximo desviar a atenção de si.
Sua dedução se provou correta quando o vento tornou a soprar, trazendo o que Logan identificou como o cheiro dela ainda que leve, quase inexistente. Foi o suficiente para fazê-lo seguir por aquele caminho.
Sentiu-se satisfeito ao avistar um hotelzinho barato naquele fim de mundo, já estivera inúmeras vezes em locais como aquele, sabia que Vampira o acharia ideal.
Estava correto.
Wolverine entrou no local, sentindo o cheiro de Rogue predominando, ainda que fraco. Soube que estava no caminho certo, ela passara mesmo por ali. O homem pequeno, que estava afundado na poltrona atrás do balcão antigo e vidrado na pequena televisão, levantou o olhar para ele por apenas alguns segundos sem dignar-se a mais.
Com a voz fatigada, avisou Wolverine que estava sem quartos vagos não lhe dando a mínima atenção, aparentemente esperando que ele se virasse para ir embora.
Não foi o que aconteceu.
Impaciente, mas esforçando-se para se controlar no intuito de receber informações sobre a garota, Logan se aproximou do balcão, o homem olhou-o descrente, mas não disse nada. Apenas esperou que Logan falasse algo.
"Acontece que eu não quero um quarto. Na verdade estou procurando alguém, e acredito que ela esteja hospedada aqui. Jack, certo?"
Ele acrescentou olhando para a folha que estava à sua frente, nela continha as assinaturas dos hospedes, havia o nome do responsável pelo local no rodapé, que Logan deduzira ser o homem à sua frente. Pela atitude que ele tomou, Wolverine percebeu que estava certo.
Jack se sentou de forma ereta, desafiadora. Lançou para Wolverine um olhar curioso e cauteloso na mesma medida, retirando o papel de sua vista. Logan não gostou de sua atitude, mas continuou tentando manter-se paciente. Ele precisava da colaboração do cara.
"Vai me ajudar, não é amigo? Ela é pequena, mas ou menos deste tamanho," gesticulou com uma das mãos, indicando metade de seu peito. Os olhos do homem se fixaram ali, nos músculos avantajados e nada ocultos pela jaqueta de couro que tornava sua aparência ainda mais ameaçadora. Jack engoliu em seco. Se este homem quisesse, poderia quebrá-lo ao meio, percebeu. Logan continuou, fingindo que não podia sentir o cheiro de seu receio.
"Tem a pele bem clara, cabelos castanhos com mechas brancas na frente e o olhos verdes. Acredito que ela tenha passado por aqui."
Mesmo em meio ao medo que Wolverine lhe despertava, com sua presença naturalmente ameaçadora apesar da falsa simpatia que esboçava, o homem sorriu maliciosamente. Logan percebeu, e a reação do tal cara quando as características físicas de Vampira foram mencionadas acendera algo desconhecido dentro de si.
Claro que Jack sabia quem era. A garota misteriosa e sexy, com olhos verdes lindos, pele aparentemente macia e atitude de sobra.
Então ela estava envolvida com homens barra pesada, fora por este motivo que fora tão segura ao ser rude com ele, esquivando-se de suas investidas.
Ele conhecera muitas garotas do tipo, algumas que iam até lá se escondendo dos parceiros violentos ex-presidiários, outras eram prostitutas, também foragidas, mas todas geralmente dispostas a aceitar a proteção que ele lhes oferecia em troca de bons momentos na cama.
Pelo jeito esta era uma daquelas garotas más de bandidos, que descobrira que as coisas eram mais difíceis do que imaginava e fugiu, ainda que o cara não estivesse disposto a deixá-la ir tão facilmente. Não o admirava contando que era tão bonita.
A moça era difícil, mas ele sabia que acabaria cedendo quando ele lhe informasse que seu namorado violento a estivera procurando, como todas as outras sempre o faziam. Geralmente ele exagerava na descrição para torná-las ainda mais assustadas, deixando-as assim mais vulneráveis a seus propósitos, mas neste caso isso não seria necessário, considerando que o homem a sua frente realmente era ameaçador e nervoso. Quase sorriu com a expectativa, sabia que o medo a faria correr para seus braços.
Ele não diria para o cara, decidiu, não queria que ele a encontrasse. Não sem prová-la antes. Depois disso ele poderia fazer o que quisesse com ela.
"Não sei de quem está falando amigo, não apareceu qualquer garota com essa descrição por aqui."
Os olhos azuis de Logan faiscaram em fúria, e ele perdeu o controle de seu temperamento. Algo errado estava acontecendo, não era certo o cara recusar-se a lhe dar informações sobre ela, ele sabia que Vampira estivera lá. E não deixara passar o início de um sorriso malicioso naquela cara imbecil que o babaca tentava, a todo custo, ocultar.
"A é? Pois eu acho que está mentindo pra mim xará."
Wolverine espalmou as mãos no balcão velho com um estrondo, que soou alto demais no lugar antes silencioso, baixou a cabeça até que ficasse a centímetros do rosto do outro homem.
Jack estremeceu engolindo em seco. O cheiro de seu medo pairou no ar, trazendo a personalidade mais bestial de Logan ainda mais a superfície. Ele não gostava de ver ninguém escondendo Vampira dele. Muito menos sorrindo daquela maneira ao pensar nela.
"Nã... não... por que diz isso? Ela não esteve aqui..."
Ele balbuciou com a voz trêmula. Os olhos de Wolverine baixaram por um momento enquanto ele ponderava uma maneira de arrancar a verdade do filho da puta, mas um pedaço de papel, o mesmo que estivera olhando antes, chamou sua atenção. Ele conhecia aquela letra.
"Se ela não esteve aqui, como você explica a porra da assinatura dela na folha do seu hotelzinho de merda?"
Wolverine terminou a frase retirando as garras, sem que pudesse dominar a fúria que o tomava. O homem congelou em pavor. Não conseguiu proferir uma palavra sequer. Trêmulo e muito pálido, não pôde desviar o olhar das garras de metal de seu nada equilibrado atacante.
"Porque não disse a verdade? O que fez com ela, desgraçado?"
Ele terminou a frase apontando as garras para o pescoço do homem, um rosnado bestial saiu de seus lábios.
Jack estremeceu suspendendo a respiração por vários segundos, o medo exalava por cada um de seus poros. As lâminas frias e afiadas pressionadas em seu pescoço ameaçando-o, o deixavam completamente sem reação, seus lábios tornaram-se secos, e as palavras desapareceram deles, como se ele houvesse engolido a própria língua. Nunca havia experimentado pavor tão semelhante, nunca estivera frente a alguém tão perigoso, ameaçador.
"Se não me disser onde ela está..."
Wolverine achou desnecessário concluir a frase. Afundou ainda mais suas garras no pescoço do miserável, chegando ao ponto de sufocar o homem, a pele do mesmo se partiu minimamente, uma gota de sangue brotou do pequeno corte. A dor pareceu devolver-lhe a capacidade de falar.
"Não... nada... ela esteve aqui, mas foi até o restaurante almoçar e ainda não voltou."
Ele conseguiu dizer sem fôlego, Logan não pareceu satisfeito.
"E como vou saber se você está sendo sincero desta vez?"
"Eu estou... juro..."
Wolverine decidiu acreditar nele, se não fosse verdade, voltaria para cumprir sua ameaça. Fazia muito tempo que ele não ficava tão nervoso, tão... agressivo.
"Onde fica este maldito lugar?"
"Há alguns quarteirões... o nome é Dinner, Royal Dinner."
Após uma última pressão, seguida de um forte sacolejo, Logan o soltou, jogando-o no balcão.
O homem tossiu, segurando o próprio pescoço, o rosto dele estava vermelho, parecia sufocado e assustado na mesma medida. Tentou normalizar sua respiração sem muito sucesso. Aliviado, acompanhou, com os olhos, Wolverine retrair as garras caminhando para a saída.
"Só mais uma coisa."
Wolverine murmurou áspero, parando já à porta. O homem estremeceu em silêncio.
"Porque você mentiu?"
Os olhos do outro arregalaram-se nas órbitas e ele tornou a ficar momentaneamente sem palavras. A voz gelada e vazia de qualquer emoção, além do ódio, de Wolverine o paralisara em seu pavor.
"O... quê?"
Balbuciou de forma quase inaudível, Logan fechou as mãos em punho, um sinal óbvio de irritação que fê-lo estremecer.
" Eu perguntei, porque você disse que a guria não estava aqui."
Repetiu irritado, o outro respirou fundo.
"É que... é... contra a política do hotel divulgar nomes dos hóspedes..."
Engasgou nas palavras insinceras. Logan se enfureceu ainda mais.
"Não venha com essa baboseira pra cima de mim, esta espelunca não tem política. Quero a verdade xará."
"Ma...mas... essa é a verdade..."
Ele gaguejou trêmulo. As garras tornaram a sair das costas das mãos de Logan, mas ele nem ao menos se virou para olhar o homem que empalidecera com seu gesto.
"Você ficou vidrado nela não foi? Seu filho da puta."
Jack ofegou como se houvesse levado um soco, mas manteve silêncio.
"Não me faça ir até aí."
Wolverine ameaçou, furioso com a perspectiva de aquele porco imundo botar os olhos em Rogue, o outro tentou se defender verbalmente da acusação nem um pouco infundada, antes que Wolverine acabasse arrancando-lhe a cabeça.
"Nã... não foi assim, senhor... é claro que ela é muito interessante, mas..."
Em um gesto tão rápido que foi quase imperceptível, Logan estava novamente frente ao homem segurando-o pelo colarinho. A fúria que queimava por trás de seus olhos foi exposta por um rosnado alto que saiu raspando de seus lábios, entre seus dentes serrados.
"O que pretendia fazer com ela desgraçado? Eu juro que se tocou, ou estiver decidido a tocar, em um fio de cabelo daquela guria, vou fazer picadinho de você."
Wolverine sibilou apertando novamente as garras contra seu pescoço. Jack engoliu em seco, estremeceu.
"Eu não fiz ou farei nada, eu juro. Ela é sua... só sua, não vou ao menos tornar a olhá-la se ela voltar aqui..."
Ele tartamudeou apavorado. Logan assentiu sem se deixar impressionar com suas palavras.
"Que bom que estamos entendidos. Fique longe dela, seu velho pervertido."
Tornou a ameaçar antes de sair para procurá-la novamente. Estava com pressa, precisava encontrá-la, agora mais do que nunca. Teria uma conversa com Vampira sobre os lugares que ela escolhia para ficar.
xXxXxXx
Wolverine imediatamente se irritou ao chegar no local indicado, entrou na lanchonete de quinta, mas nem sinal de Vampira. O cheiro dela estava fraco, lavado quase que completamente pela chuva, mas ele ainda assim podia senti-lo pela familiaridade dele. Ela esteve ali e, pelo que podia sentir, já havia saído há algum tempo.
Uma garçonete que dera em cima dele de maneira descarada e desesperada, e ficara furiosa quando soube que ele procurava uma mulher específica, disse-lhe desgostosa que a garota havia sim passado por lá, mas que já havia ido embora há algumas horas.
Ele se sentiu inquieto com a informação. Ela não voltara para o hotel em que estava hospedada, e estava chovendo demais para se supor que Vampira houvesse decidido seguir viagem. Alguma coisa muito errada estava acontecendo ali.
Caminhou por alguns minutos, parando ao sentir o cheiro de Vampira um pouco mais forte. Também havia mais cheiros, pessoas que ele não podia identificar por completo, mas que conhecia dois ou mais deles.
Um nome veio imediatamente à sua mente, associado a eles. A organização anti mutante.
Merda!
Ele não devia ter perdido tanto tempo com aquele bastardo do hotel, deveria ter se contido e focado em seu objetivo de procurá-la, mas se descontrolou ao perceber a maneira com que o maldito a havia olhado, o que ele provavelmente pretendia faze com elar.
Wolverine correu até sua moto, decidido a seguir o rastro, a encontraria nem que para isso precisasse percorrer todo o maldito país atrás daqueles desgraçados que a levaram. E quando ele os encontrasse... Sua boca salivava ao imaginar o que pretendia fazer.
xXxXxXx
Vampira estava oscilando entre consciente e inconsciente. Ela ouviu alguns ruídos ao seu redor, barulhos irritantes e altos demais para serem bem vindos em sua cabeça leve, extremamente dolorida.
Ela sentiu uma ardência irritante em seu rosto e algo gelado sob sua pele.
Foi atirada descuidadamente em uma cela e trancada lá embora não tivesse condições de se mover um milímetro sequer. Seu corpo rolou até parar no fundo do lugar, com um baque surdo, seu rosto foi de encontro à parede.
Um som doloroso estrangulado saiu de seus lábios entreabertos, mas ela não conseguiu abrir os olhos para verificar a extensão de seus ferimentos e seu estado, por mais que se esforçasse para isso.
Parecia cada vez mais impossível pensar direito, seu raciocínio estava lento, Vampira se sentia confusa, desorientada. Eram os efeitos da droga que lhe aplicaram, percebeu.
Sem que percebesse quando, seu corpo começou a gelar. Vampira continuou inerte, sem conseguir tomar qualquer outra atitude além de tremer, o frio foi se intensificando, até se tornar insuportável, todo seu corpo começou a convulsionar quando os tremores se tornaram mais fortes, constantes. Até que um entorpecimento incômodo a tomou aos poucos, começando pela ponta dos dedos, e pouco tempo depois ela não sentiu mais nada.
Deixando para trás a mágoa e o orgulho, seu último pensamento antes de tornar a cair na inconsciência foi em Logan, por mais patético que fosse, queria que ele aparecesse como sempre, e a ajudasse. Mas sabia que não ia acontecer. Embora o sentimento não fosse recíproco, Logan era tudo o que ela tinha, a pessoa mais especial em sua vida. E tudo o que Vampira queria naquele momento, sabendo que estava ferrada, era que fosse tão importante para ele quanto ele o era para ela.
Queria poder vê-lo, que ele a pegasse no colo e dissesse que tudo ficaria bem, mesmo que não ficasse. Ainda que tudo não passasse de uma ilusão.
xXxXxxXx
Wolverine parou a moto derrapando, no meio de uma estrada deserta, em completo estado de frustração.
Socou o tanque da motocicleta com força, amassando parte dele, ainda que soubesse que depois se arrependeria do ato, no momento nada ocupava sua mente.
Ao menos nada além da maldita garota de olhos verdes e cabelos mistos que estava correndo perigo por sua culpa. Ela ia acabar enlouquecendo-o, Wolverine sabia que não tardaria a acontecer.
A chuva caía com força, levando o que restava do rastro de Vampira. Logan desceu da moto, caminhou alguns passos sem rumo, parou. Esbravejou, soltou palavrões, amaldiçoou o tempo, a sorte de Vampira, sua maldita teimosia.
Passou as mãos pelos cabelos bagunçados colados em seu rosto encharcado, afastando-os quando eles insistentemente caíram em seus olhos, a raiva e impotência crescendo dentro de si.
Ele estava se lixando para a porra da chuva que continuava se intensificando, caindo com força sobre seu corpo e ensopando suas roupas. O único problema que via no temporal, o mais importante de todos os outros no momento, era que ele estava dificultando seus sentidos aguçados, impedindo-o de seguir em frente. De repente ele viu que poderia não encontrar Vampira a tempo.
Rangeu os dentes com a perspectiva tornando a subir na moto, decidido a não desistir de buscá-la. Ele faria do jeito tradicional, caçando sem seus sentidos, sem rastros específicos, apenas com seus instintos, por todo o maldito canto que os desgraçados da organização pudessem estar. Ele a encontraria. E precisava acreditar que ela estava bem.
xXxXxXx
Vampira sentiu a dormência abandonar-lhe aos poucos, devolvendo a dor que antes era ignorada pelo torpor bem vindo, ainda que desagradável. Mordeu os lábios com força ao recuperar plenamente a consciência.
Forçou-se a abrir os olhos, sendo desta vez bem sucedida.
Os orbes verdes esquadrinharam cada detalhe do local em que estava cativa, tentando descobrir para onde havia sido levada.
Era uma cela simples, sombria, mas surpreendentemente comum, considerando o quão evoluída era a organização para a qual pertencia. Os anti mutantes sempre estavam um passo à frente no quesito tecnologia, já que tecnicamente deveriam sempre estar preparados para se equiparar, e conseqüentemente derrotar, qualquer poder mutante existente.
O lugar, porém pareceu-lhe simplório, pelo pouco que Vampira pôde ver de onde estava. As portas eram meramente revestidas de metal, embora provavelmente fosse excessivamente resistente, Vampira duvidava que fosse um obstáculo válido ao adamantium, pensou.
Havia duas camas e ainda assim os bastardos preferiram jogá-la no chão como um saco de roupas sujas. Ele fez uma careta de desgosto.
Por um momento Rogue se perguntou quem seria seu colega de cela, se é que havia alguém ali além dela. Mas seus pensamentos não se fixaram nesta questão em particular por muito tempo.
Quando moveu o braço esquerdo para afastar os fios de cabelo molhados de seu rosto, uma pontada forte no pulso lhe alertou para um ferimento recente.
Ela desceu o olhar embaçado, mas não conseguiu ver muito mais do que um borrão escuro. Levou as mãos trêmulas aos olhos e, após esfregar por alguns instantes, tornou-os para o local dolorido.
Havia algo escrito em seu pulso com uma tinta escura, tal qual carvão, uma letra. Vampira olhou por alguns segundos para o pequeno M gravado em sua pele translúcida, ainda avermelhado e com indícios de sangue indicando que fora feito recentemente.
Ela estremeceu. Não precisava ser um gênio para saber o que aquilo significava.
Fora marcada como um animal, a letra inicial da palavra mutante agora estava permanentemente fixa em sua pele, assim como seus poderes.
Como se ela precisasse de mais algo em sua pele que a destacasse mesmo entre as aberrações.
Vampira tentou se mover de uma vez, mas seu corpo doeu como nunca e ela tonou a tombar para o lado, escorregando para a posição inicial.
Após tomar alguns minutos para recuperar-se, ela tentou se sentar novamente, desta vez devagar, escorando-se na parede aos poucos até ser bem sucedida.
Tombou a cabeça para trás, recostando-a na parede fria. Sua respiração estava difícil, descompassada, seu estômago pesava, havia um gosto amargo em sua boca.
Ela tornou a fechar os olhos, tudo ao seu redor parecia dar voltas e voltas, até que uma voz fina e infantil soou, chamando-lhe a atenção para algo que não fosse seu mal estar crescente.
"Hey... você tá legal?"
Vampira tornou a abrir os olhos, dando de cara com um par de olhos cor de mel que brilhavam como estrelas. Eles enfeitavam um rosto claro com sardas, emoldurado por cachos ruivos brilhantes e desalinhados. Uma criança.
A mesma encarava Rogue timidamente, uma ruga de preocupação entre as sobrancelhas avermelhadas. Suas mãos estavam fortemente agarradas às grades da cabeceira de uma das camas, ela parecia constrangida e assustada. O coração de Vampira se apertou, aquele olhar, ela conhecia como ninguém. Já o tivera há muitos anos atrás, por muito tempo.
"Oi."
Disse suavemente inclinando-se para frente, tentando não assustá-la, mas apesar de seus cuidados a menina se encolheu, escondendo-se hesitante.
"Não precisa ter medo, não vou machucar você."
Vampira terminou a frase estendendo a mão enluvada para a garota. Ela estreitou os olhos claros por um momento, obviamente ponderando se deveria acreditar na garota ou não.
Seus olhos eram muito expressivos, tanto que Vampira pôde ler neles quando a menina tomou sua decisão, mesmo antes de qualquer atitude. Ela saiu com passo lentos, mas seguros, de seu esconderijo, aproximando-se de Rogue.
Seu coração se apertou ao vê-la, a menina era pequena, não deveria ter mais do que dez ou onze anos.
"Como se chama?"
Questionou sustentando o olhar da pequena.
"Amy."
Ela sussurrou desviando o olhar. Vampira continuou com a voz leve.
"Oi Amy. Eu sou a Vampira."
A menina tornou os olhos para Vampira, a curiosidade brilhou em seu rosto infantil antes assustado.
"Vampira? Não é seu nome de verdade é?"
Vampira notou a maneira como ela alongou as palavras, a fala arrastada, com um sotaque forte destacado que reconheceria em qualquer lugar. Sorriu.
"Não." Ela hesitou por um momento, querendo desviar do assunto delicado. "De onde você vem Amy?"
A garotinha tornou-se melancólica.
" Jackson, Mississipi"
Vampira sorriu.
" Também é sulista."
Concluiu, confirmando o que o sotaque da garota já havia entregado. Ela sorriu assentindo.
"Sim. E você vem de onde?"
" Caldecott County."
Vampira respondeu sorrindo ao ver os olhos da garota brilharam. A pequena se deixou cair sentada ao lado de Rogue, a excitação em seu rosto delicado era evidente, e surpreendente considerando que quase ninguém conhecia sua pacata cidade natal.
"Já ouviu falar?"
Questionou curiosa com a reação da menina. Ela acenou afirmativamente com a cabeça. Vampira teve de rir de sua empolgação explícita.
"Sim! Eu ia pra lá todos os anos com minha família."
Vampira sorriu ternamente para a menina.
"É um lugar muito quieto."
"É um lugar ótimo, um dia eu vou morar lá."
Afirmou com uma determinação surpreendente para alguém tão jovem.
"Então gosta de lugares calmos."
Vampira murmurou tornando a fechar os olhos. Sentiu um calor de uma mão tocar a sua mesmo através das luvas. Abriu os olhos encontrando as avelãs da menina sobre os seus.
"Você tá legal?"
Ela perguntou franzindo o cenho. Vampira sorriu para tranqüilizá-la.
"Estou sim, não se preocupe com isso. Preciso tirar a gente daqui."
Concluiu forçando-se a levantar, apoiando-se nas paredes com as pernas bambas. A menina também se levantou, aparentemente disposta a ampará-la se ela caísse. Vampira sentiu o coração aquecer com sua preocupação inocente.
"Não tem jeito."
Ela respondeu pesarosa, mas convicta, quando Vampira começou a esmurrar as grades, mais em um gesto de revolta e frustração do que uma verdadeira tentativa de escapar. Odiava sentir-se presa, enjaulada como um animal perigoso.
"Porque você diz isso?"
"Porque eu já tentei. Todo mundo tentou no começo."
"Mas eu vou conseguir. Assim que eu estiver melhor."
Vampira murmurou escorregando novamente para o chão. O esforço enorme que demandara fazer algo tão simples, a esgotara completamente. A menina tornou a sentar-se ao seu lado, tocando seu braço com uma das mãos.
"Você é bem forte. Eu demorei quase duas semanas para acordar, e nem conseguia me mexer."
Rogue olhou-a com o canto dos olhos.
"Porque você está aqui Amy?"
Ela ergueu o braço esquerdo como resposta, mostrando o pulso marcado para Vampira. A mesma cerrou os dentes. Era revoltante pensar que fizeram tantas barbaridades com uma criancinha, tiraram dela a possibilidade de viver entre as outras, sem ser temida ou odiada logo no princípio sem qualquer motivo válido.
"O que você faz?"
Questionou com a voz estranhamente doce apesar de seu estado de espírito. A menina se encolheu, abraçando os próprios joelhos. Desviou os olhos. Vampira conhecia aquela reação.
"Eu destruo coisas e pessoas."
Murmurou baixo, os lábios tremeram um pouco. Ela lançou um olhar receoso para Vampira, temendo sua reação. Rogue sorriu, segurou a mão da garota tentando passar-lhe confiança.
"Sinto muito." Disse sinceramente antes de completar: "Porque você não destruiu o portão para sair daqui?"
Ela mordiscou os lábios rosados, tornando a desviar o olhar.
"Não funciona assim. Eu não tenho controle sobre isso. Quando fico nervosa, ou com medo, tudo começa a ruir. Eu machuco as pessoas, mas não posso evitar." Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela voltou a encarar Rogue, de forma angustiada, desesperada. Os olhos de Vampira também marejaram.
"Eu entendo. Está tudo bem Amy, não é culpa sua."
A menina franziu as sobrancelhas.
"Não está com medo?"
"Claro que não. Eu sei o que você passa, sei o quão difícil é."
"Ninguém nunca agiu assim comigo depois de descobrir o que eu posso fazer."
Amy explicou, surpresa pela reação de Rogue.
"Entendo. Nem mesmo sua família?"
Ela tornou a desviar o olhar.
"Eu não tenho família."
A pequena sussurrou com a voz quebrada. Era surpreendente como a cada momento, Vampira descobria mais coisas em comum com aquela menina.
"E você? O que faz?"
Ela tornou o olhar para Vampira, obviamente decidida a desviar do assunto delicado. A dor que Rogue leu nos olhos infantis deixou-a penalizada, não era justo. Amy não deveria ter de enfrentar a hostilidade do mundo tão cedo, principalmente sozinha.
Parou por um tempo, tentando encontrar uma maneira de explicar seu dom sem que a assustasse. Bufou quando, por mais que refletisse, não conseguiu ter qualquer idéia válida.
Não havia maneira de explicar seus poderes sem que a menina acabasse correndo de pavor, pensou desanimada.
" Quando as pessoas tocam na minha pele... diretamente, sem proteção... elas se machucam. "
Fitou o rosto da menina enquanto falava, estudando sua reação. A mesma ruga de chateação, que Vampira vira algumas vezes mais cedo, apareceu entre as sobrancelhas ruivas. Amy pareceu pesarosa, curiosa até, mas não havia medo em sua expressão.
"E a sua família? Eles rejeitaram você? Sempre quis saber como as famílias, as de verdade, reagem ao descobrir que tem filhos mutantes." Ela fez uma pausa antes de completar, pesarosa: "os adotivos costumam não levar isso muito bem."
Vampira assentiu em completa compreensão. Sabia como os foster parents costumavam reagir.
"Receio não poder te dizer. Tenho a mesma experiência que você."
A menina sorriu, um pouco contente por ter encontrado alguém que a compreendia, um pouco penalizada por sua situação.
"Então você também já esteve no esquema?"
Vampira assentiu.
"Não sei pessoalmente como os pais reagem, mas, de acordo com as experiências de alguns de meus amigos, eles ficam bem na maioria das vezes depois do choque inicial.
Claro que há exceções, sempre existe casos de familiares que não aceitam a mutação e repudiam o filho, principalmente quando seus poderes são um pouco difíceis de se entender. O meu caso por exemplo; se eu tivesse família, eles provavelmente teriam muito medo de mim, e eu não levaria para o lado pessoal. Seria muito difícil para qualquer pessoa aceitar uma filha que poderia colocá-la em coma com um simples beijo de bom dia."
Ela terminou de falar amargamente, embora não houvesse intencionado isso a princípio. Às vezes, o rancor parecia inevitável.
Amy assentiu em completa compreensão. Pensava que as coisas seriam da mesma forma em seu caso, com sua situação delicada.
Nunca se esqueceria do olhar no rosto de seus foster parents quando seus poderes se manifestaram pela primeira vez. Acreditava que nunca se esqueceria, ainda que os anos passassem.
"Então você não pode tocar ninguém sem ferir jamais? Nunquinha mesmo?"
Vampira assentiu em silêncio, vendo-a desviar o olhar com um ar contemplativo. Deu alguns minutos para que a menina pudesse digerir a informação. Assim que aconteceu, Amy tornou o olhar para os olhos verdes de Vampira.
"Tudo isso é uma droga né? Essas coisas de poderes, de mutação." Ela explicou quando, em um sinal óbvio de confusão, Vampira franziu o cenho. "Porque nós somos assim? Não pode ser um dom, não posso acreditar que seja! Alguns dizem que são um presente de deus, mas que tipo de Deus daria um presente como os nossos?"
Amy terminou a frase com a voz embargada, lançando um olhar suplicante à Rogue.
Vampira mordiscou os lábios, sua mente fervilhava em busca de uma resposta que sabia não ter.
Segurou uma das mãos da menina com a sua, falando com a voz macia em uma tentativa de confortá-la.
"Eu queria, muito mesmo, poder te dizer o sentido disso tudo baixinha, mas infelizmente eu não sei a resposta."
Amy baixou a cabeça, aparentemente inconformada. Vampira sentiu uma angústia enorme tomá-la ao notar a tristeza da menina, mas não havia nada que pudesse fazer, ou dizer, a respeito. Fora sincera, não tinha uma resposta para a indagação da menina, ao menos não uma que pudesse, ou quisesse, realmente dar a Amy.
Rogue havia pensado nisso a vida toda, desde antes de seus poderes se manifestarem. Quando perdera seus pais, e ficara sozinha no mundo, por conta própria, ainda tão pequena, não conseguia compreender o que havia feito de errado, o motivo pelo qual Deus a castigara levando seus pais.
Embora não se lembrasse de muita coisa concreta de sua infância, recordava-se das palavras de sua tia, a única familiar viva que lhe restara e ainda assim não a quisera, que costumava dizer-lhe que Deus punia as crianças más.
Então era desta maneira que encarava a morte de sua família, como uma punição por um erro grave, ainda que desconhecido. Passara anos se torturando com este pensamento especifico, até que pudesse compreender que as coisas não aconteciam desta forma.
Após ter sido recusada na casa de sua tia, fora para um abrigo de crianças, passara por inúmeros lares temporários depois disso.
Quando recebia apenas hostilidade e, por vezes sem conta, agressões das pessoas que eram incumbidas de cuidar dela, Rogue se perguntava o que havia de errado com o mundo, com as pessoas, desde muito jovem, com ainda menos idade do que Amy, e nunca conseguiu encontrar as respostas.
Não existia nada, ela concluiu com o passar dos anos, depois de tudo o que vivenciara do mundo. Nada além da sorte e das escolhas que, na maioria das vezes, a vida tomava de nossas mãos. Mas não diria algo tão cruel para uma criança. Não acabaria com as ilusões que ela deveria ter, sua inocência, tão cedo. Já não bastava o quanto a pequena sofria, e iria sofrer por sua situação, ainda em idade tão tenra.
Ambas guardaram silêncio depois disso, cada uma imersa em suas próprias teorias, seus pensamentos. Os de Vampira sempre acabavam, inevitavelmente, em Wolverine. Parecia-lhe absurdo que ainda esperasse que ele aparecesse. Detestava agir como uma donzela em apuros, ela não era assim.
Decidiu tomar uma atitude ao invés de esperar resgate, afinal esperar não era de seu feitio, mas não teve a oportunidade de fazer qualquer coisa.
Meia dúzia de homens uniformizados apareceu abrindo a cela, cercando-as e, antes que Vampira pudesse fazer qualquer tentativa de escapar, Amy se escondeu atrás dela, explicitamente assustada, os olhos cheios com lágrimas.
Vampira virou-se para olhá-la quando foi agarrada por trás, tentou lutar contra o aperto, mas foi novamente dopada. Tornou a perder os sentidos, lançando um olhar preocupado à Amy antes de deixar-se cair na escuridão.
