Logan repousou-a em uma cama improvisada no fundo do jato, seu olhar não deixou o rosto pálido e ferido de Vampira, nem por um segundo se quer.
Storm tomou seu lugar para pilotar o jato, sabendo que mais ninguém ali estava em condições de fazê-lo. Sua mente viajava nas possibilidades e circunstâncias e, tinha de admitir que as coisas não eram nada animadoras, de fato. Fera hesitava claramente ao falar do estado de Vampira, o que só podia significar que as coisas estavam realmente ruins.
Hank tirou as luvas que havia colocado para examinar Vampira, sentou-se em uma das poltronas próximas, o olhar ansioso variava entre o Rosto dela e a janela mais próxima.
Amy, que estava sentada ao lado de Vampira o tempo todo, reuniu coragem para manifestar-se apesar do receio. Ela virou-se para o doutor McCoy, o rosto delicado transparecia preocupação.
"Doutor... ela vai... vai ficar bem?"
Gaguejou com a voz baixa, suave. Storm sorriu ao notar o sotaque. Ela parecia ter se ligado realmente a Vampira, estando claramente ansiosa por seu bem estar, e observando-a Storm podia perceber por que.
Fera virou-se para a pequena com o olhar brando, suave e estranhamente bom, contrastando com sua aparência. Por algum motivo, Amy percebeu que ele não a assustava. Apesar de ser uma fera, no sentido físico, o doutor tinha o rosto uma expressão de extrema bondade e paciência, que fazia algo aquecer-se dentro dela.
A garota sabia, melhor do que qualquer outra pessoa, que as aparências na maioria das vezes contrastavam com a realidade das coisas, das pessoas. Quem a olhasse, por exemplo, jamais diria o quão perigosa era, ou a quantidade de pessoas que já havia ferido. Engoliu em seco.
"Querida está tudo bem?"
Hank questionou franzindo o cenho, aproximou-se de Amy, sentando-se ao seu lado. Ela ergueu os olhos marejados a ele, nem percebera que estava prestes a chorar até sentir que deveria segurar as lágrimas, com um pesar evidente.
"Ela não vai morrer vai? Da última vez que eles levaram alguém para o laboratório..."
Ela não terminou a frase. Não era necessário. Sentiu todos os olhares sobre si, mas não poderia ter se importado menos. Quando estremeceu, foi pela perspectiva de ver acontecer com Vampira, o mesmo que acontecera inúmeras vezes com os outros mutantes que serviram de cobaia. Lembrava-se claramente do Rapaz que estava na cela frente a sua retornando após sua ida forçada ao laboratório, a mão amarelada tal qual uma estátua de cera escapando da maca, parecia pertencer a um boneco. Não era mais parte de um ser vivo. Ela engoliu em seco.
"Você sabe o que houve? Diga-me criança..."
"Amy."
Ela informou, interrompendo-o. Fera sorriu um pouco levando uma das mãos grandes, surpreendentemente leves, ao rosto da menina, acariciando-a ternamente. Ela sentiu-se confortada.
"Amy. Diga-me o que aconteceu, querida... o que você souber."
"Bem... nós ficávamos presos em celas, de acordo com nossos poderes mutantes. Passaram a unir os que tinham dons semelhantes quando haviam prendido muitos de nós, e o espaço estava se esgotando..."
"Você e Vampira ficaram juntas?"
A pequena assentiu.
"Porque? O que você faz?"
Logan interou-se na conversa, ainda um pouco exasperado. Amy empalideceu com a pergunta repentina, o pequeno corpo ficou tenso.
"Isso não importa."
Hank se apressou a dizer ao notar o óbvio desconforto da menina. Wolverine assentiu, carrancudo.
"Como eu estava dizendo, eles às vezes nos tiravam das celas. Eu não saí desde que cheguei, eles tinham muito medo de mim. Mas quando Vampira chegou..." O olhar de Wolverine caiu, atento, sobre o dela. Amy vacilou antes de continuar. "Eles exultaram. Disseram que finalmente a haviam encontrado. Que ela era a cobaia perfeita. Então um dia eles a tiraram de lá, e ouvi algo sobre o laboratório antes que eles me apagassem..."
"Levaram-na também?"
Hank questionou suavemente, Logan continuava em um silêncio tenso sem se mover, mal respirava. Amy moveu a cabeça negando silenciosamente.
"Na verdade eu tentei impedir que eles a levassem. Mas eu falhei." Ela baixou o olhar, continuou falando ainda com a cabeça baixa, o tom de voz também caiu drasticamente. "Quando eu acordei... eu acordei, mas ela não. E por mais que eu tentasse não conseguia fazê-la abrir os olhos..."
"Shii, está tudo bem querida, acalme-se."
"Eles deram drogas pra ela azul. O suficiente para derrubar um batalhão. Fizeram experiências nela, a usaram. Eu sinto o cheiro. Sinto o maldito cheiro dos experimentos daqueles desgraçados."
Ele se levantou com as mãos cerradas em punho, a mandíbula trancada. Os olhos azuis flamejavam em cólera, ele socou uma das poltronas com força, repetidas vezes, tentando descarregar em algo sua raiva, frustração e desprezo.
Storm arregalou os olhos, mas quem se pronunciou foi Fera, que se levantou tocando o ombro de Logan, embora soubesse o risco que corria tomando tal atitude quando o amigo estava tão descontrolado.
"Acalme-se Wolverine. Está assustando a menina."
Logan empurrou sua mão violentamente, direcionando toda a força de seu olhar cheio de ódio para Fera.
O mesmo não se deixou intimidar. Sustentou o olhar de Logan com seus olhos calmos, que serviram para instigar ainda mais a revolta do homem menor.
"Acalme-se? Como eu vou me acalmar Hank? Porra, como eu posso? Sabe o que aqueles desgraçados fizeram?" Sua voz se elevou até o ponto de ele começar a gritar. Amy se encolheu na poltrona em que estava. "Trataram-na como um objeto, sabe-se lá o que fizeram com ela Hank, você sabe o que é isso? Ser usado como um rato de laboratório? Você não poderia..."
"Eu compreendo sua situação meu amigo." Ele interrompeu Wolverine, tentando acalmá-lo. "Mas infelizmente suas atitudes não estão contribuindo para a melhora de Vampira. Está agindo impulsivamente, e assim afeta a todos..."
"Vai se foder bola de pelos! Vai se foder mesmo, com toda essa baboseira inútil. Você também não está ajudando ou está? Não estou vendo você tomar qualquer atitude para socorrê-la."
Fera permaneceu calmo, apesar da acusação de Wolverine. Abismada, Ororo se manifestou.
"Logan, não diga uma coisa assim..."
"Está tudo bem querida, não se preocupe."
Hank sorriu para tranqüilizar Storm, delicadamente dispensando sua defesa. Ela assentiu, compreendendo a deixa e voltando a atenção para frente. Ele virou-se para Wolverine.
"Está sendo injusto. Entendo que esteja preocupado, todos nós estamos, mas eu fiz o máximo que pude por ela, com os recursos que tenho. E, por mais que isso me aborreça, tenho de esperar que cheguemos ao instituto para atendê-la da maneira necessária."
Os olhos de Logan se abrandaram.
"Eu sei Hank, me desculpe, eu não..."
"Eu sei." Fera lhe ofereceu um sorriso leve. " Apenas peço que tente se controlar, pelo bem de Vampira."
Logan suspirou concordando, embora não dissesse isso em voz alta.
"Falta quanto tempo Ro?"
Questionou ansioso, virando-se para Ororo por um momento. Teria de desviar daquela conversa, do contrário enlouqueceria.
Storm virou-se para trás, olhando pelo encosto do assento do piloto por um momento, antes de voltar a atenção para frente.
"Vinte minutos."
Respondeu tranquilamente, ignorando a carranca de Wolverine.
"Tudo isso?"
Ele rosnou furioso, tornando a cerrar os punhos. Storm encarou-o seriamente.
"Estou indo o mais rápido que posso, prezando a segurança de todos nós. Vai me atacar por isso também?"
Acrescentou ao ver a impaciência nos olhos azuis. Logan hesitou antes de negar, agachou-se ao lado de Vampira.
"Não. Só... se apresse, por favor. Ela está piorando."
Murmurou ansiosamente, os olhos fitos no rosto lívido de Vampira. Ele agarrou a mão pequena da garota com a sua enluvada, alisando-a calmamente com o polegar. Sentiu-a reagir, apertando suavemente a mão dele com delicadeza, como se algo a puxasse de encontro a ele.
Sorriu um pouco, ainda sem desgrudar os olhos de seu rosto. Viu os lábios avermelhados partirem-se, e ela sussurrou um nome, audível para ele, apenas para ele, com seus ouvidos super sensíveis.
Logan ficou rígido, o corpo tenso quando se abaixou, aproximando-se de Vampira como se não escutasse direito o que ela havia murmurado, delirado.
Ela tornou a sussurrar ao sentir seu cheiro, sua proximidade. Seus pensamentos eram uma desordem, um borrão de cores e luzes desconexas, apenas o cheiro de Logan fazia sentido. Ela o sentia vívido, invadindo suas narinas, trazendo a sensação familiar de lar que apenas ele costumava impor. Ele tinha um cheiro só dele, mas inebriante do que qualquer perfume, destacava-se acima de qualquer outro. Algo doce e selvagem, combinando perfeitamente com sua personalidade contrastante.
"Logan."
Ele não poderia descrever as emoções que o tomaram, mas elas eram conflitantes. Alívio, temperado com dor, felicidade por saber que ela pensava nele, ao mesmo tempo em que o ódio de si mesmo aumentava ao ver que não havia pensado nela da maneira que deveria, que não havia evitado a dor e o perigo que ela agora enfrentava.
"Está tudo bem guria... você vai ficar bem."
Logan murmurou perto do ouvido dela, a voz baixa estava aflita, como que tentando convencer a si mesmo daquelas palavras. Retirou alguns fios de cabelos brancos do rosto de Vampira com a mão livre.
Assim que fez um movimento leve, intencionando soltar a mão dela, Rogue o impediu, apertando sua mão enluvada com força e determinação surpreendentes em alguém tão debilitada. Ela parecia dizer com seus gestos que não o deixaria ir novamente, que não permitiria que ele a deixasse. Logan sentiu seu coração apertar-se, tornou a se abaixar, retribuindo cuidadosamente o aperto na mão da garota.
Fera pôde ouvir a interação de ambos, desde o chamado quase inaudível de Rogue até o barulho de o suave roçar de pele com luvas, que indicava o contato que as mãos de Wolverine e da garota haviam feito.
Seus sentidos eram tão aguçados quanto os de Logan, mas ele fingiu não ter ouvido. Com um tato típico de seu temperamento, levantou-se do assento em que se encontrava, indo até a cadeira do piloto, supostamente para fazer companhia a Storm.
Sua mente vagava e, por mais brilhante que fosse, por mais que descobrisse fórmulas, curas para as doenças mais complicadas e observasse tudo com extremo interesse e curiosidade, a relação que Vampira e Wolverine partilhavam estava além de sua compreensão.
Eles pareciam se encaixar perfeitamente. As experiências divididas, a personalidade similar, que indicava vivência semelhante apesar da diferença extrema de idade, a tenacidade. A cumplicidade.
Era óbvio para qualquer um que os observasse, atentamente ou não, que o casal tinha o mesmo mau gênio, cabeça dura e persistência. A semelhança de ambos era a chave, Hank sabia, para duas possibilidades extremas e completamente opostas.
Ou eles usariam a compreensão mútua para estreitar o laço que já existia, tornando-se mais flexíveis, encontrando um no outro a força necessária para aprender a esquecer, descobrir junto o que tinham de melhor.
Ou, aconteceria justamente o oposto, afastar-se-iam completamente, sem conseguir conviver passivamente, não cedendo jamais depois de cada briga, que seria freqüente pelo mau gênio que partilhavam, fazendo com que a distância entre eles crescesse até se tornar um obstáculo intransponível.
Por mais que todas as circunstâncias e sentimentos explícitos de ambos apontassem para a primeira opção, as atitudes atuais de Wolverine e Rogue caminhavam para a segunda.
Era uma incógnita, um mistério. Eles pareciam, ao mesmo tempo, almas gêmeas e um casal impossível, risível. E o mais absurdo de tudo aquilo, era que nenhum dos dois havia percebido que poderiam, deveriam, levar aquilo para outro nível.
Fera sabia que, por mais genial que fosse, não conseguiria adivinhar o resultado de suas especulações, apenas poderia gastar seu tempo, imaginando probabilidades que, no final, provavelmente o surpreenderiam.
Essa era uma das características mais marcantes de ambos, eles sempre eram surpreendentes. Wolverine, Rogue.
Storm estava observando-o com o canto dos olhos com freqüência a cada dois minutos, sem deixar de se questionar o que ele estava pensando.
Seu maior temor era que o estado de Rogue estivesse pior, mas Hank não parecia severamente preocupado com o que ocupava seus pensamentos, seu rosto apenas expressava que ele estava imerso na própria cabeça, talvez até um pouco confuso. O que era bastante raro e deveras surpreendente vindo dele, considerando que praticamente nada fugia do alcance de sua mente super desenvolvida.
"O que houve?"
"Sim, querida?"
Ele baixou os olhos distraídos para Ororo, que continha uma leve expressão de curiosidade no rosto meigo. Ela sorriu levemente.
"Seus pensamentos estão longe. Algo com Rogue?"
Completou com o olhar preocupado. Ele ergueu uma das mãos em um gesto tranqüilizante.
"Sim, confesso que a pequena dos cabelos mistos ocupava meus pensamentos de fato, mas não da maneira que você imagina."
Ela franziu o cenho, intrigada.
"Então, se seus devaneios não são preocupações com seu estado de saúde, o que são?"
"Estava pensando no amor. O coração tem razões que a própria razão desconhece."
Ororo ergueu as sobrancelhas, o olhar confuso enquanto tentava compreender o sentido das palavras do amigo. Hank sorriu para sua frase, clichê até mesmo para seus padrões habituais.
Storm continuou encarando por um minuto ou dois, até ser obrigada a voltar à atenção para frente, preparando-se para pousar o jato.
"Preparem-se, nós já chegamos."
Logan não pôde conter uma exclamação de alívio, ao ouvir a frase de Ororo.
Sentou-se de maneira correta apertando o cinto quando o jato começou a perder altitude. Eles estavam em casa novamente, Rogue poderia ser devidamente tratada.
Ser uma observadora detalhista fazia parte da personalidade de Amy, era necessário um grau extremo de percepção para escapar de diversas situações nas ruas, fora algo imposto por seu estilo de vida, uma característica que ela apreciava.
Como estava bem próxima de Vampira e Logan, Amy não perdeu um só momento da interação de ambos. O olhar que Logan lançava vez ou outra ao rosto de Rogue, a forma com que Vampira costumava chamar por ele em seu sono conturbado, desde quando elas se conheceram. Ele se apresentou como amigo, mas ela estava começando a acreditar que as coisas iam mais além. Decidiu guardar a pergunta para um momento mais oportuno.
Assim que o jato aterrissou, Wolverine ficou de pé em um pulo, segurando Rogue nos braços cuidadosamente. Quando as portas se abriram, ele foi o primeiro a descer, requisitando que os outros se apresassem, principalmente Fera.
Hank não fez qualquer comentário sábio típico de seu temperamento, o que mostrava o quão sério e preocupado estava, desceu do jato apressadamente, seguindo ao lado de Wolverine e Rogue para a enfermaria.
Storm ficou para trás, conduzindo Amy que encarava tudo com o olhar apreensivo e maravilhado. Os olhos brilhantes estudavam cada detalhe do jardim amplo com plantas bem cuidadas e variadas, a mansão destacando-se imponente entre a beleza natural do lugar. Storm colocou as mãos em seus ombros, intencionando chamar a atenção da pequena para si. Amy fitou os olhos de Storm, curiosa, fascinada. A morena sorriu ao notar o deslumbramento da criança.
"Este é o instituto Xavier querida. Se você quiser, e seus pais permitirem obviamente, poderá estudar aqui conosco. Aprenderá a controlar seus poderes, e a usá-los em benefício de quem necessita, como nós fazemos."
Amy abaixou a cabeça, pais, de novo aquele assunto incômodo. Preferiu guardar silêncio por um tempo, não se sentia a vontade para discutir sobre sua família, ou a ausência da mesma. Seguiu caminhando ao lado de Storm.
Ororo observou a garota de soslaio, mas deixou-a quieta para digerir todas as novidades, o rosto da menina parecia indeciso, tenso. Storm tornou a sorrir.
"Não precisa decidir nada agora. Vou levá-la para conhecer o resto do instituto."
"A senhora pode... me levar para onde eles foram? Eu quero ver Rogue."
Pediu completamente sem jeito, tímida. Ororo sorriu embora a preocupação com Rogue também povoasse sua mente.
"Claro querida, mas não poderemos entrar enquanto Hank a estiver examinando."
O olhar que a menina lhe lançou transbordava preocupação. Storm abaixou-se um pouco, para ficar ao nível de altura da menina, e encarou-a nos olhos.
"Não se preocupe. Hank é um gênio, e nós temos todos os equipamentos necessários para atendê-la, Vampira vai ficar bem."
Amy assentiu em silêncio, olhando calmamente nos olhos brandos de Storm. Ela não era tola, sabia que Ororo estava falando aquilo em uma tentativa de acalmá-la, podia ler a preocupação claramente nos olhos da morena. Mas o que não esperava era que, mesmo sabendo das intenções da outra, o falso consolo funcionasse. Ela se sentia mais calma, as palavras de Ororo deram-lhe conforto. Aquelas pessoas eram estranhamente bondosas, Amy se sentia em um universo paralelo.
Ela se contentou em assentir sem mais se pronunciar, seguindo Ororo até a enfermaria.
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"E então peludo?"
Logan questionou ansiosamente, pelo que parecia ser a milésima vez, seus olhares alternavam entre preocupados, para Vampira, e ansiosos até um pouco exasperados, para Hank. O mesmo continuou examinando-a por mais alguns minutos ignorando Wolverine completamente concentrado, conectando-a a algumas maquinas de monitoramento, franzindo o cenho de vez em quando.
Quando Logan já estava a ponto de explodir, Hank finalmente voltou o olhar para ele, sério, preocupado.
"Diga logo Hank, como ela está?"
"Eles a drogaram..."
"Disso eu já sabia..."
Logan retrucou rispidamente, sem deixar Fera terminar sua frase. O mesmo colocou uma das mãos em seu ombro, forçando Logan a olhar-lhe nos olhos. Os orbes de Fera claramente pediam silêncio, paciência. Wolverine bufou, mas em seu rosto desenhou-se uma carranca de feroz rendição. Ao ver que o amigo ficaria calado, Hank prosseguiu com cautela, a voz baixa e firme, como que tentando tornar menos doloroso o que teria de falar para Wolverine, embora não houvesse meio de fazê-lo.
"Isso não é o pior Logan. Não reconheço quase a metade das substâncias que lhe foram injetadas, muito menos sua utilidade."
E isso quer dizer..."
"Quer dizer que, como eu não sei o que elas são nem para que servem, não posso prever como será seu efeito a longo prazo."
Ele fez uma pausa, esperando Wolverine assimilar o significado de suas palavras. Logan ficou em silêncio. A angústia tomou seu rosto, geralmente indiferente, quando ele voltou-se pesaroso para Fera.
"Então o que vai acontecer com ela Hank? Como a guria vai reagir de agora em diante?"
"Honestamente, eu não sei meu caro amigo. Rogue é uma garota forte. Sua persistência e teimosia não permitirão que ela se entregue."
"E isso será o suficiente?"
Ele murmurou quase para si mesmo, no exato momento em que Ororo e Amy entraram no local, a preocupação tomando seus rostos ao ver os olhares dos amigos, a expressão atipicamente aflita de Wolverine.
"Vou investigar cada uma delas, Logan, tentar descobrir o que pretendiam com Vampira."
Fera prometeu sério, sustentando o olhar de Wolverine.
"E o que acontecerá com a garota enquanto isso?"
Ele fez uma longa pausa, pesando suas palavras. Não apenas tentando poupar seus amigos que se preocupavam, mas também a criança que parecia angustiada.
Depois, quando não mais podia protelar, respondeu Wolverine.
"Infelizmente teremos de esperar para ver, Logan. Agora está fora do meu alcance."
"Esperar?"
Ele retrucou furioso, os sons do monitor cardíaco conectado à Rogue retumbando em seus ouvidos como um lembrete desnecessário do estado da garota, os sinais vitais fracos.
A situação de Vampira parecia roubar-lhe o ar dos pulmões como se houvesse levado um golpe doloroso nas costas, tirando sua capacidade de respirar. A névoa de dor que a incerteza causava o cegava. E sem os seus sentidos aguçados, sem a maldita razão que sempre o guiara até mesmo nos momentos mais selvagens, que exigiam-lhe o máximo de controle para não perder a cabeça, ele não era nada.
E tudo o que sempre fora o estava deixando por uma simples garota de vinte anos e pouco mais de cinqüenta quilos. Nada mais fazia sentido, o que o tornava ainda mais revoltado, por não compreender o que lhe acontecia.
"A única coisa que faremos por ela é esperar e torcer para que não morra?"
Ele fechou as mãos em punho, tentando reprimir o impulso de retirar as garras. Amy observava receosa, mas calculista, o surgimento do segundo Logan. Ele parecia passar de alguém carinhoso, especificamente por Rogue, para alguém violento, incrivelmente pelo mesmo motivo, em um piscar de olhos.
Era algo surpreendente, assustador. Mas que confirmava sua teoria anterior, eles realmente tinham alguma coisa. Era a única explicação plausível.
"Wolverine, acalme-se. Ela é uma lutadora, vai conseguir. Sempre consegue."
Ororo disse com a voz suave, deitando a mão no antebraço de Wolverine. Ele se afastou com violência, caminhando de um lado a outro da sala, como um animal encurralado.
"Eu sei o que ela é Ororo, melhor do que ninguém. E sei que ela não merecia passar por isso, depois tudo que já teve de passar."
"Você está falando dos poderes dela?"
Questionou Storm, sem se magoar pela atitude agressiva de Logan. Já estava acostumada com sua maneira peculiar de lhe dar com sentimentos, e Rogue sempre fora um assunto delicado para o amigo.
"Não, estou falando de tudo. De toda a merda que foi a vida da guria. Rogue não gosta de tocar nesse assunto, mas está nos olhos dela. Qualquer um que já viveu no mundo lá fora pode perceber naqueles olhos cortantes que ela passou por muita coisa. Eu não poderia ter deixado isso acontecer Ro, a garota só tem a mim."
"Não seja tão duro consigo mesmo, Logan. Você não poderia prever..."
"É o que eu deveria ter feito." Ele a cortou impaciente, sem conseguir se conter. "Prever, evitar, qualquer merda do tipo. Porra, Storm, isso não deveria estar acontecendo."
"Eu entendo Logan..."
"Não, você não entende Ro."
Nem eu mesmo entendo, Logan completou em pensamento. Não sabia o que era, mas a perspectiva de perdê-la o fazia se sentir de uma maneira nova e dolorosa e intensa.
Wolverine não conseguiria jamais descrever a sensação, mas era algo semelhante a uma força invisível que tentava parti-lo ao meio. Lento e angustiante, porque ele era feito de material duro. Não apenas fisicamente, mas emocionalmente também, o que tornava o processo mais penoso, e conseqüentemente mais tortuoso.
Ele deveria evitar isso também. O envolvimento emocional era algo completamente errado para alguém como ele. A questão era, ele conseguiria fazer isso? Olhando para o rosto translúcido de Rogue, o cenho franzido, os olhos fechados apertados enquanto era molestada por seus delírios febris, lamuriando em seu sono conturbado, lutando para continuar vivendo a cada respiração, lenta demais, difícil demais, ele soube que seria impossível. Era tarde para se afastar, Logan percebeu. Ele não conseguiria deixá-la ir.
